terça-feira, 21 de outubro de 2014

Eleições: Desejos, Ilusões e Transformação


Eleições: Desejos, Ilusões e Transformação


Nildo Viana


O discurso eleitoral é mentiroso por essência. Os candidatos mentirem, infelizmente (e inevitavelmente), é algo normal. O problema maior é outro: os eleitores repetirem as práticas, mentiras, deformações, dos seus candidatos. Argumentos falsos, informações no mínimo suspeitas, ataques à vida pessoal, interpretações forçadas, maniqueísmo, ilusões. A grande questão é que o jogo de interesses, as ilusões, o desejo coisificado, a falta de informação, são muito fortes e o resultado eleitoral é determinado por esses elementos e toda máquina financeira e propagandística. Os eleitores de hoje, inclusive (o que é mais grave) os mais politizados e com formação intelectual supostamente "superior" (com curso superior, alguns até com doutorado, sendo professores e autores de livros) são capazes das conclusões mais estúpidas, das justificativas mais ignóbeis, das análises mais pobres, tudo isso de acordo com seus interesses e ilusões. Na era da mentira, dizer a verdade é uma raridade. E isso, em muitos casos, é o que Marx já colocava ao criticar os economistas vulgares: o que interessa não é a verdade desse ou daquele argumento e sim se é útil ou não ao capital (ou a interesse pessoal). O compromisso com a verdade, que deveria ser meta e objetivo de todos os intelectuais (e todos os seres humanos) é substituído pelo interesses mesquinhos. Aumentar o nível do consumo é mais importante do que dizer a verdade. 

A mercantilização das relações sociais transforma o eleitor em mero consumidor (conservador, seja votando em A ou B). Por isso, quem não reproduz as falácias eleitorais, deve, naturalmente, concluir que a democracia representativa é uma farsa que a cada quatro anos escolhe um novo (ou o mesmo) farsante. Nesse sentido, só resta a luta cotidiana no local de trabalho, estudo e moradia, na busca da auto-organização, autoformação, e na perspectiva de novas relações sociais e nova sociedade. Para isso é preciso não compactuar com o que está aí, o voto nulo é protesto contra isso, é deslegitimação disso, é momento de mostrar que é possível outras formas de ação política, que não passa pelos partidos e Estado, (falsos) representantes e políticos profissionais, pode ser feita por nós mesmos, tanto na luta cotidiana quanto nas ruas, nos movimentos grevistas, manifestações, pressões, bem como através da auto-organização e autoeducação, formando coletivos e ações. É muito mais fácil ficar sentado no sofá e ver o bate boca de corruptos na TV e optar por um deles indo numa cabine e teclando alguns números, mas é muito mais prazeroso, autêntico, vital, se organizar, agir por conta própria, reunir com os que também querem a transformação. 

Por isso, a opção é voto nulo ao lado da luta pela autogestão social. Mesmo não se concretizando imediatamente, a luta pela autogestão e o voto nulo servem como arma de protesto, pressão, deslegitimação e passo para novas ações mais profundas. Fazer isso já exige coragem, decisão própria, autonomia intelectual e ética. Mas a outra opção é possível, deixar que os corruptos decidam nossa vida e a destruam por causa dos seus interesses, transformando o meio ambiente em lixo, aumentando a exploração dos trabalhadores, contando suas mentiras (inclusive nenhum candidato disse que após tomar posse vai ter que fazer ajustes na economia que foram contidos pelo atual governo por causa das eleições e seu caráter impopular, que nenhum conseguirá manter os mesmos níveis de desenvolvimento capitalista, o que significa mais corte de gastos com políticas sociais, entre outras coisas). Ou buscamos uma real alternativa e começamos a trabalhar por isso ou continuamos esperando messias (em pleno século 21), presidentes, políticos, líderes, para defender os interesses deles e nos iludir "pensando" que defendem os nossos.

A emancipação humana é uma necessidade e cada vez mais urgente, pois sem relações sociais igualitárias e libertárias, o planeta será destruído pela dinâmica capitalista do lucro e pela ambição que ela gera nos seres humanos, especialmente nos capitalistas, mas que se generaliza, só que com graus distintos, tal como se vê nos eleitores (preocupados com seu consumo ou consumismo), entre outras coisas. Só nos resta votar nulo, lutar pela auto-organização, autoeducação, organizar novas formas de luta e pressão, colocar na ordem do dia o projeto autogestionário.

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