Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

Mostrando postagens com marcador Inconsciente Coletivo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Inconsciente Coletivo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A Concepção Junguiana de Inconsciente Coletivo



A Concepção Junguiana de Inconsciente Coletivo*

Nildo Viana




Carl Gustav Jung foi o primeiro psicanalista a desenvolver uma concepção sistemática de inconsciente coletivo. Sem dúvida, Freud em alguns momentos fornece elementos que podem servir para uma concepção do inconsciente coletivo, tal como veremos adiante, mas coube a Jung o reconhecimento de sua existência e a elaboração de uma concepção sistemática a seu respeito. Por isso começaremos nossa análise com a contribuição de Jung.
A obra de Jung surge a partir da fundação da psicanálise por Freud. Freud foi, paulatinamente, construindo a psicanálise a partir de seu afastamento da medicina e das descobertas que proporcionaram a sua elaboração teórica. A concepção de Freud é complexa e inclui inúmeros elementos que vão se desenvolvendo e dando corpo à psicanálise. As suas teses sobre os instintos (ou “pulsões”), da repressão e do inconsciente formam a base da concepção freudiana. No entanto, Freud buscará compreender o “aparelho psíquico” a partir de dois componentes (consciência e inconsciente) e, posteriormente, três (id, ego e superego), entre outras alterações que ele provocou em sua concepção original (a ideia de existência de um “instinto de morte” é outro exemplo, pois ela só foi sustentada por ele na última fase de seu pensamento).
O grande mérito de Freud foi a descoberta do inconsciente. Freud considerava que a mente humana, ou “aparelho psíquico”, não era composto apenas pela consciência, pois possuía uma camada profunda que ele denominou inconsciente (em sua concepção tripartite do aparelho psíquico – id, ego e superego – os dois últimos elementos são conscientes e, portanto, a mudança na concepção não desmente nossa exposição).
A origem do inconsciente se encontra na repressão dos instintos. Para Freud, o ser humano possui dois conjuntos de instintos: os sexuais e os de sobrevivência (mais tarde acrescentaria o instinto de morte), embora focalizasse sua concepção principalmente nos instintos sexuais. Para ele, a civilização, para garantir sua sobrevivência, deve coagir os seres humanos ao trabalho e isto pressupõe a repressão dos instintos (sexuais). Esta repressão dos desejos sexuais, que se inicia durante a infância, é externa, realizada principalmente pelos pais. Com o passar do tempo, esta repressão é introjetada, ou seja, o próprio indivíduo, através de sua consciência moral (“superego”) se “reprime”, realizando o recalcamento, ou seja, apaga de sua consciência tais desejos.
Os desejos reprimidos, no entanto, não deixam de existir, mas tão-somente de serem conscientes. Eles ficam “escondidos” na mente humana, no inconsciente. O inconsciente, por sua vez, sempre busca se manifestar. Ele se manifesta quando a consciência fica enfraquecida, tal como durante os sonhos ou nas fantasias, mas também em outros momentos, como nos atos falhos, chistes, etc. (FREUD, 1978).
Freud vai desenvolver sua concepção de problemas psíquicos a partir desta elaboração. A neurose, por exemplo, seria produto da frustração produzida pelo recalcamento. Desta forma, a civilização e suas necessidades produzem a repressão, o recalcamento e o inconsciente (FREUD, 1978b).
Nasce, assim, a psicanálise e em torno de Freud se agruparam diversos pesquisadores, dando origem à primeira Sociedade Psicanalítica. No entanto, pouco depois da constituição da psicanálise apareceram as divergências. A concepção freudiana começou a ser questionada e substituída por concepções rivais, embora o freudismo ortodoxo continue forte até os dias atuais. A primeira grande concepção alternativa foi a de Alfred Adler. Adler discordava da centralidade fornecida por Freud aos instintos sexuais e em seu lugar iria colocar a “vontade de poder” e daí derivar um conjunto de teses, sendo que algumas se tornaram populares, tal como a do “complexo de inferioridade”, embora sua concepção tenha se tornado marginal na história posterior da psicanálise. O questionamento do “pansexualismo” de Freud realizado por Adler seria apenas o primeiro de uma série, gerando algumas dissidências, incluindo a de Jung.
A obra de Jung também é bastante complexa e nasce a partir das contribuições de Freud e Adler, que ele julga importantes, mas “unilaterais”. Jung era extremamente conservador, ao contrário de Adler, que se autodeclarava socialista. O conservadorismo de Jung era maior do que o de Freud e está relacionado com o fato de que o último tinha como preocupação fundamental a resolução de problemas individuais enquanto que o primeiro dedicava especial atenção aos problemas sociais. Daí sua consideração pela obra de Adler, que se dedicou a explicar o indivíduo pelo social.
Jung discorda de várias teses de Freud, tal como a universalidade do incesto e a primazia do “erótico-sexual”. Segundo ele, os instintos sexuais não formam a totalidade da natureza humana, embora seja um de seus aspectos principais. O erro de Freud, para ele, se encontra na sua visão “unilateral” e “exclusivista” oriunda de sua teoria sexual. Adler substituiu os instintos sexuais pelo princípio de poder, apresentando, segundo Jung, uma concepção tão unilateral e exclusivista quanto a de Freud. Jung diz que esta tese também possui um momento de verdade, tal como a de Freud, mas que elas são inconciliáveis. É preciso, segundo Jung, partir de um ponto de vista superior a elas para poder unificá-las. Para Jung, “ambas contêm verdades fundamentais” e “uma não exclui a outra”, sendo “certas, porém unilaterais” (1989, p. 33).
Jung explicará a diferença entre Freud e Adler por uma “diferença de temperamento”. Trata-se de uma diferença entre “dois tipos de espírito humano”, o tipo introvertido (Adler) e o extrovertido (Freud), tal como se encontra em sua tipologia psicológica[1]. Assim, segundo Jung, o problema é que estas duas teorias são verdadeiras, mas se aplicam apenas a casos especiais e transformá-las em “teoria global da essência” é que é o grande erro. É a partir desta “ruptura” com Freud e Adler, e ao mesmo tempo da conservação de algumas de suas teses, consideradas de “uso tópico”, que Jung elaborará sua própria concepção.
A concepção de Jung tem como momento inicial a libido. Para Freud a libido é energia sexual, concepção considerada por Jung como sendo restrita. Segundo Nise da Silveira,
enquanto Freud atribui à libido significação exclusivamente sexual, Jung denomina libido à energia psíquica tomada num sentido amplo. Energia psíquica e libido são sinônimos. Libido é apetite, é instinto permanente de vida que se manifesta pela fome, sede, sexualidade, agressividade, necessidades e interesses os mais diversos. Tudo isso está compreendido no conceito de libido (SILVEIRA, 1981, p. 41).
A energia psíquica, portanto, possui diversas manifestações. Para Jung, a mente humana é um
sistema energético relativamente fechado, possuidor de um potencial que permanece o mesmo em quantidade através de suas múltiplas manifestações, durando toda a vida de cada indivíduo. Isto vale dizer que, se a energia psíquica abandona um de seus investimentos virá reaparecer sob outra forma. No sistema psíquico a quantidade de energia é constante, varia apenas sua distribuição (SILVEIRA, 1981, p. 44).
A libido, diz Jung, “já possui seu objeto no inconsciente”, e o seu rumo não pode ser decidido pela nossa vontade, seguindo seu fluxo. Assim, a libido, seguindo seu curso natural, encontra “o caminho para o objeto que lhe é destinado”, o que só não ocorre por interferência da vontade ou por elementos externos.
Jung vai relacionar sua concepção de libido com a questão do inconsciente. Para ele, o inconsciente possui duas camadas, uma pessoal (individual) e outra coletiva.
A camada pessoal termina com as recordações infantis mais remotas; o inconsciente coletivo, porém, contém o tempo pré-infantil, isto é, os restos da vida dos antepassados. As imagens das recordações do inconsciente coletivo são imagens não preenchidas, por serem formas não vividas pessoalmente pelo indivíduo. Quando, porém, a regressão da energia psíquica ultrapassa o próprio tempo da primeira infância, penetrando nas pegadas ou na herança da vida ancestral, aí despertam os quadros mitológicos: os arquétipos (JUNG, 1989, p. 69).
Para Jung, tal como colocamos anteriormente, a libido já possui seu objeto no inconsciente (pessoal). Mas além desse inconsciente pessoal, existem “as imagens primordiais”, isto é,
a aptidão hereditária da ação humana de ser como era nos primórdios. Essa hereditariedade explica o fenômeno, no fundo surpreendente, de alguns temas e motivos de lendas se repetirem no mundo inteiro e em formas idênticas, além de explicar porque os nossos doentes mentais podem reproduzir exatamente as mesmas imagens e associações dos textos antigos (JUNG, 1989, p. 57).
Jung esclarece que tais imagens não são hereditárias. O que é realmente hereditário é a capacidade de tê-las. Jung denomina estas imagens universais e originárias como “arquétipos”. Esta camada mais profunda do inconsciente, o inconsciente coletivo, não chega à tona facilmente. Somente através de um processo de “regressão” é que ele surge na mente individual. O que provoca tal “regressão”? Ela é produto da repressão[2]. Para ele, a cultura ocidental racional nega o irracional. No entanto, “o homem não é apenas racional, não pode e nunca vai sê-lo” (JUNG, 1989, p. 64). “O irracional não deve e não pode ser extirpado. Os deuses não podem e não devem morrer” (JUNG, 1989, p. 64).
Assim, Jung encontra no racionalismo da cultura ocidental a chave para explicar a regressão. Se lembrarmos que para ele a libido é um conjunto múltiplo de necessidades, então o desenvolvimento unilateral do ser humano provoca a regressão. Segundo Jung, existe um impulso ou complexo que concentra em si a maior parte da energia psíquica e obriga o eu a ficar sob seu comando.
Habitualmente, é tão intensa a força de atração exercida por este foco de energia sobre o eu que este se identifica com ele, passando a acreditar que fora e além dele não existe outro desejo ou necessidade. É assim que se forma uma mania, monomania, possessão ou uma tremenda unilateralidade que compromete gravemente o equilíbrio psicológico. O poder de concentrar toda a capacidade num ponto só é sem dúvida algumas o segredo de certos êxitos, razão porque a civilização se esforça ao máximo em cultivar especializações (JUNG, 1989, p. 64).
Para Jung, o ser humano tem o direito de considerar sua razão “bela e perfeita”, mas ela é apenas uma das “funções espirituais possíveis”, sendo uma ilha rodeada por todos os lados pelo irracional. A religião é uma expressão irracional que faz parte da totalidade psíquica humana. “O conceito de Deus é simplesmente uma função psicológica necessária, de natureza irracional, que absolutamente nada tem a ver com a questão da existência de Deus” (JUNG, 1989, p. 63). Assim, ele diz: “estou plenamente convencido da extraordinária importância do dogma e dos ritos, pelo menos enquanto métodos de higiene” (JUNG, 1987, p. 49).
Assim, a “receita de Jung” é aceitar as funções psíquicas irracionais da mente e, visando evitar a regressão, devemos nos entregar à “experiência religiosa”. Mas por qual motivo Jung quer evitar a regressão ao inconsciente coletivo? O que ele busca evitar é que a libido retire seu objeto dos conteúdos do inconsciente coletivo. As imagens primordiais contidas no inconsciente coletivo
contém não só o que há de mais belo e grandioso no pensamento e sentimento humanos, mas também as piores infâmias e os atos mais diabólicos que a humanidade foi capaz de cometer. Graças a sua energia específica (pois comportam-se como centros autônomos carregados de energia) exercem um efeito fascinante e comovente sobre o consciente e, consequentemente, podem provocar grandes alterações no sujeito. Isso é constatado nas conversões religiosas, em influências por sugestão, e, muito especialmente, na eclosão de certas formas de esquizofrenia (JUNG, 1989, p. 62).
Consideramos que estes elementos são suficientes para compreender a concepção junguiana de inconsciente coletivo e por isso deixaremos de lado outros termos e teses relacionados. Realizaremos, a partir de agora, uma avaliação crítica de sua concepção para, posteriormente, retomar os elementos que contribuem para a elaboração de uma teoria do inconsciente coletivo na perspectiva do materialismo histórico.
A preocupação fundamental expressa nos textos de Jung é com a irrupção do lado obscuro da mente humana. Sua grande preocupação é com as “piores infâmias e os atos mais diabólicos que a humanidade pôde cometer”. De onde surgiu tal preocupação? Como está explícito em suas obras, sua origem se revela na ocorrência da Primeira Guerra Mundial (reforçada pela Segunda Guerra Mundial) e no temor do fascismo e do bolchevismo.
A base da preocupação junguiana com a guerra e os fanatismos políticos, no entanto, reside em outro lugar. Sem dúvida, a questão das guerras mundiais e da ascensão do nazifascismo produziram uma preocupação em diversos pesquisadores sobre como tal barbarismo pode ocorrer. Contudo, a resposta específica fornecida por cada pesquisador e o grau de importância fornecido a estes fenômenos decorrem da mentalidade de cada um deles. Erich Fromm e Theodor Adorno, para citar apenas dois exemplos, desenvolveram outras teses e assumiram outras posições sobre tal fenômeno.
Sem dúvida, a posição de Jung foi o resultado de um complexo entrelaçamento de determinações. A primeira e fundamental reside no conservadorismo de Jung, já aludido anteriormente. Embora ele consiga identificar alguns problemas da “civilização ocidental” (sociedade capitalista), o seu conservadorismo não lhe permite descobrir o processo de constituição das relações sociais fundadas no antagonismo de classes. Isto se vê, por exemplo, na sua afirmação ingênua de que a especialização é incentivada pela civilização porque é “o segredo de certos êxitos”. O processo de desenvolvimento social fundado no processo de produção da vida material produz a divisão social do trabalho e, no capitalismo, isto se amplia numa escala extremamente elevada. A especialização de Jung na psicanálise e seu desconhecimento e desconsideração do marxismo, da sociologia, etc., possibilitam sua explicação unilateral da força da especialização na sociedade capitalista. A unilateralidade intelectual é um problema que Jung não percebeu, bem como o fato dela ser um produto de uma subespecialização.
Mas além desta determinação, podemos dizer que a sua experiência psíquica e seu envolvimento na primeira guerra mundial contribuiu com isto. Ele “serviu durante a primeira guerra mundial como comandante do campo de prisioneiros de Chateau D’Oex” (SILVEIRA, 1981, p. 18). Se a guerra impressiona pessoas distantes dela, o seu efeito é muito maior naqueles que a presenciam, provocando, em muitos casos, processos traumáticos. Foi neste período que ele teve “intensas experiências interiores”, “sonhos impressionantes”, “visões”. Assim,
pareceu-lhe que a melhor solução seria esforçar-se por decifrar-lhes o sentido, mantendo a consciência sempre vigilante e não perdendo o contato com a realidade exterior (SILVEIRA, 1981, p. 17).
Percebemos que Jung se encontrou numa encruzilhada, no qual corria o risco de “perder o contato com a realidade exterior”, o que significa que ele passou por uma forte experiência de conflitos psíquicos que poderiam ter desembocado em uma neurose. No entanto, ele arranjou forças para superar tais conflitos e o risco que correu lhe proporcionou um medo intenso de “cair nas trevas”. A solução que ele deu foi considerar este “lado sombrio” como um não-eu, tal como ele concebe o inconsciente coletivo.
Assim, este medo intenso que Jung tinha de si mesmo foi projetado para fora, para o inconsciente coletivo. É por isso que ele fornece esta receita para as demais pessoas e também concebe à religião um papel tão importante, pois ela pode canalizar a energia psíquica e impedir que “o mal” venha à tona. O medo de si mesmo é transferido para a humanidade e é por isso que as guerras mundiais, o fascismo e o bolchevismo se tornam suas grandes preocupações. O seu conservadorismo pessoal e o conservadorismo social se reforçam reciprocamente.
Até aqui explicamos a gênese da concepção junguiana do inconsciente coletivo. Mas ainda resta a tarefa de realizar a sua crítica. Jung critica Freud e Adler por produzirem “teorias redutivas” com pretensão de globalidade e não percebe que ele produz uma concepção reducionista com igual pretensão globalizante. O reducionismo se encontra em sua explicação unilateral dos fenômenos se fundamentando apenas nas forças psíquicas, deixando de lado toda a complexa totalidade e as múltiplas determinações dos fenômenos. É o que se vê, por exemplo, na sua interpretação do nazismo, considerado por ele um “fenômeno patológico”, uma “irrupção do inconsciente coletivo”. Segundo Silveira, para Jung,
Wotan havia tomado posse da alma do povo alemão. E que é Wotan? É o Deus pagão dos germânicos, um Deus das tempestades e da efervescência, desencadeia paixões e apetites combativos’. Num ensaio publicado em 1936, Jung traça o paralelo entre Wotan redivivo e o fenômeno nazista. Wotan é uma personificação de forças psíquicas – corresponde a ‘uma qualidade, um caráter fundamental da alma alemã, um ‘fator psíquico de natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura’. Os fatores econômicos e políticos pareceram a Jung insuficientes para explicar todos os espantosos fenômenos que estavam ocorrendo na Alemanha. Wotan reativado no fundo do inconsciente. Waton invasor, seria a explicação mais pertinente (SILVEIRA, 1981, p. 23).
O reducionismo de Jung não é nem um pouco melhor do que o de Freud e Adler. Isto se torna mais perceptível quando notamos que o seu fundamento é metafísico. Por qual motivo “Wotan foi reativado”? Isto só pode ser explicado pelo complexo processo social ocorrido na sociedade alemã (a derrota na primeira guerra mundial, as tentativas de revolução socialista, as dificuldades de reprodução da acumulação capitalista, a fome etc.). No entanto, Jung desconsidera o processo social e se refugia em “arquétipos” imutáveis e universais.
As “provas” que ele apresenta para a existência de tais arquétipos não provam nada, pois os mitos, contos de fada, lendas, etc. por mais que possuam semelhanças, não significa que expressam “imagens primordiais”, além do fato de que grande parte das semelhanças são produtos da interpretação de Jung. Da mesma forma que um matemático pode encontrar “elementos matemáticos” na base de toda construção humana (ciência, arte etc.), um maniqueísta pode ver a “luta do bem contra o mal” em tudo que existe, um darwinista pode ver a “luta pela existência” e a “sobrevivência dos mais aptos” em todas as esferas da vida, um pseudomarxista pode ver “causa econômica” em tudo que existe, Jung pode encontrar o inconsciente coletivo em todas as manifestações culturais. Contudo, todas estas concepções são reducionistas e produtos de mentes engenhosas, mas que não passam de modelos mentais, nos quais a realidade é encaixada à força, e servem muito mais para ocultá-la do que para revelá-la.
Desta forma, Jung apresenta uma concepção igualmente reducionista, tal como acusava em Freud e Adler. No entanto, existem alguns “momentos de verdade” na concepção junguiana (da mesma forma que ele afirmou existir nas concepções de Freud e Adler). Essa breve análise da concepção junguiana do inconsciente coletivo é importante para adiante podermos resgatarmos os seus momentos de verdade.



[1] Jung dedica uma de suas principais obras ao problema dos tipos psicológicos (JUNG, 1976).
[2] “Como é sabido, o processo cultural consiste na repressão progressiva do que há de animal no homem; é um processo de domesticação que não pode ser levado a efeito sem que se insurja a natureza animal, sedenta de liberdade” (JUNG, 1989, p. 11). Ele acrescenta que hoje sabe-se que não é só a natureza instintiva que é atingida pela coerção cultural mas também “novas ideias”, as paixões políticas e a religião.

* VIANA, Nildo. A Concepção Junguiana de Inconsciente Coletivo. In: VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. 2ª edição, Revista e Ampliada. Florianópolis, Bookess, 2015.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Inconsciente Coletivo Feminino e Valores Contraditórios na Mulher-Maravilha


Inconsciente Coletivo Feminino e Valores Contraditórios na Mulher-Maravilha

Nildo Viana

Resumo:
A personagem Mulher-Maravilha expressa um conjunto valores e concepções perpassadas por contradições, bem como o inconsciente coletivo feminino. Desde sua criação, em 1941, a Mulher-Maravilha revelava o desejo de emancipação feminina, manifestando o inconsciente coletivo feminino, o desejo da mulher de superar seu papel na divisão social do trabalho e ethos feminino marcado pela opressão. Ela é uma mulher forte e inteligente que possuí superpoderes, sendo manifestação ideal do desejo reprimido coletivo das mulheres. No entanto, ao mesmo tempo em que manifesta o inconsciente coletivo feminino, essa personagem aparece como um misto de axiologia e axionomia, ideologema e teorema. A evolução dessa personagem foi marcada por alterações, mas, apesar de suas contradições, mantém-se o predomínio da axiologia e a manifestação do inconsciente coletivo feminino.

Palavras-Chave: Inconsciente Coletivo, Mulher-Maravilha, axiologia, axionomia, valores.


A personagem Mulher-Maravilha expressa um conjunto de contradições e por isso revela concepções e valores opostos e ainda o inconsciente coletivo feminino. Desde sua criação, em 1941, a Mulher-Maravilha revelava um forte desejo de emancipação feminina, manifestando o inconsciente coletivo, o desejo da mulher de superar seu papel na divisão social do trabalho e ethos feminino marcado pela opressão. O nosso objetivo é justamente identificar quais valores e concepções se manifestam em suas histórias, bem como analisar a manifestação do inconsciente coletivo feminino no seu universo ficcional.
Antes de iniciar, no entanto, é necessário esclarecer alguns conceitos que utilizaremos para explicar o universo ficcional da Mulher-Maravilha. Tais conceitos são os seguintes: valores, axiologia, axionomia, ideologema, teorema, inconsciente coletivo. Existem diversas definições e abordagens do conceito de valores na psicologia, sociologia, filosofia (Viana, 2007). Não será possível realizar tal discussão aqui e por isso nos limitaremos a apresentar a concepção da qual partimos. Os valores são aqueles objetos, seres, etc., são importantes, significativos, para os indivíduos. Eles não são atributos naturais das coisas, mas atribuições que fornecemos ao que existe. Essa atribuição de importância a algo é realizada, geralmente, através de termos valorativos como bom, belo, importante, especial, melhor, etc.
Porém, todo indivíduo possui uma escala de valores. Existem valores fundamentais para os indivíduos e valores derivados. Os valores fundamentais são os que movem o indivíduo, o fazem agir e escolher, inclusive escolher outros valores, os não-fundamentais. O primeiro é um processo de valoração primária e o segundo de valoração secundária. Os valores são constituídos socialmente, são produtos sociais e históricos, que variam com época, sociedade, cultura, classe social, entre outras diferenças sociais, e são mobilizadores, ou seja, são produtos da sociedade e atuam sobre a sociedade. Isto, no entanto, não quer dizer que todos os valores sejam equivalentes, não se trata de defender um “relativismo valorativo”. Existem valores que correspondem às necessidades-potencialidades humanas, expressam a natureza humana, enquanto que outros são expressões de interesses histórico-particulares, voltados para reproduzir relações sociais que impedem a manifestação da essência humana. Os primeiros são valores autênticos, como liberdade, criatividade, sociabilidade, solidariedade, e os demais são valores inautênticos, tal como, no caso do capitalismo, a riqueza, o poder, a competição, etc. Assim, em determinados indivíduos, grupos, contextos, surgem determinadas configurações de valores dominantes, que denominamos axiologia, bem como configurações de valores autênticos, que denominamos axionomia (Viana, 2007).
Assim, os valores são materializados em ideias, objetos, ações e por isso podemos dizer que determinado brinquedo, história em quadrinhos, filme, produção intelectual, são axiológicos (manifestam os valores dominantes) ou axionômicos (manifestam os valores autênticos). O Tio Patinhas, por exemplo, é um personagem axiológico, pois manifesta os valores dominantes, enquanto que Robin Hood pode ser (pois depende de como ele é retratado) um personagem axionômico.
Outros dois conceitos que utilizaremos no presente trabalho é o de ideologema e teorema. A ideologia e a teoria são formas de pensamento complexo que se opõe, sendo que a primeira é uma forma de falsa consciência e a segunda uma forma de consciência correta (Viana, 2008a). A ideologia é uma inversão da realidade, falsa consciência, que se organiza de forma sistemática (Marx e Engels, 2002; Viana, 2010; Viana, 2008a), ou seja, sob a forma de pensamento complexo (ciência, filosofia, teologia). A teoria é uma expressão correta da realidade, que se organiza sobre a forma complexa, tal como o marxismo. Porém, essas formas de pensamento complexo não podem ser expressas em determinadas manifestações culturais e nem sempre são compreendidas em sua complexidade. As representações cotidianas (“senso comum”) são formas de pensamento não complexo, simples, e que, por isso, ao se deparar com a ideologia ou a teoria, tende a simplificá-lo, a retirar aspectos e destruir sua organicidade (Viana, 2008b). Da mesma forma, quando se busca manifestar uma determinada concepção teórica ou ideológica numa história em quadrinhos, filme, música, etc., não é possível reproduzir a sua complexidade e por isso reproduz apenas aspectos, elementos isolados, fragmentos, do pensamento complexo. Quando estes fragmentos são derivados ou coincidentes com aspectos de produções ideológicas, são ideologemas, concepções falsas da realidade, e quanto são derivados ou coincidentes com aspectos de produções teóricas, são teoremas, concepções corretas da realidade.
Assim, nas HQ se manifestam axionomia, axiologia, teoremas, ideologemas, ou seja, valores e concepções distintas. Além disso, há a esfera do inconsciente, tanto individual quanto coletivo[1]. Não poderemos fazer aqui uma discussão aprofundada sobre estes conceitos, e nem as distintas abordagens deles, mas tão somente uma breve definição para facilitar a compreensão do uso dos mesmos. Por inconsciente se entenda os desejos autênticos reprimidos dos indivíduos e por inconsciente coletivo o conjunto de desejos autênticos reprimidos em determinado grupo social ou mesmo a sociedade em sua totalidade (Viana, 2002). A identificação do inconsciente individual nas HQ é difícil de realizar, pois além da necessidade de informações sobre os indivíduos que a produzem, ainda há o problema adicional de que geralmente é uma produção coletiva, e, com o desenvolvimento do capitalismo, se tornou cada vez mais coletiva, a equipe de produção assume o lugar do produtor individual, a não ser nos casos das produções independentes e outros casos. A identificação do inconsciente coletivo já é um pouco menos problemática e pode ser derivada da análise do universo ficcional e sua relação com grupos sociais ou com a sociedade como um todo (Viana, 2005).
Após esclarecer brevemente os conceitos fundamentais para nossa análise, então podemos avançar no sentido de analisar a personagem Mulher-Maravilha. Para realizar este propósito, analisaremos o processo de criação da Mulher-Maravilha e a primeira história dessa personagem.

A Criação da Mulher-Maravilha
Wonder-Woman, ou Mulher-Maravilha, em português, foi uma criação masculina. O psicólogo William Moulton Marston criou essa personagem que ganhou sua primeira publicação em 1941, na Revista Al Stars Comics, número 08 (Baron-Carvais, 1989) e a partir daí teria uma carreira de sucesso. William Moulton Marston utilizava o pseudônimo de Charles Moulton. O pseudônimo poderia ser Charles Marston, que seria a união de um nome fictício extraído do nome do meio de Olive Charles Byrne e o sobrenome derivado do nome do pai, mas ele preferiu aliar ao nome fictício o prenome oriundo da mãe. Aqui, um dado que pode ter relevância para entender o vínculo de Charles Moulton com as mulheres.
Moulton era um psicólogo renomado, autor de alguns livros que eram referências em psicologia, tal como As Emoções em Pessoas Normais, bem como inventor do polígrafo, o detector de mentiras. Ele nasceu em 09 de maio de 1893 e morreu em 1947 e estudou na Universidade de Harward, terminando o curso de psicologia em 1915. Além de renomado psicólogo, era considerado um “teórico feminista”, inventor e criador de HQ. A sua relação com as mulheres é bastante curiosa, além da possível relação de intensidade afetiva com a mãe, que certamente lhe desenvolveu certa sensibilidade em relação ao sexo feminino, ele era conhecido por viver uma relação amorosa pouco convencional, que envolvia sua esposa Elizabeth Holloway Marston e outra mulher, Olive Charles Byrne, uma aluna dele. Essas duas mulheres são consideradas as musas inspiradoras da Mulher-Maravilha.
A criação da Mulher-Maravilha foi possível graças a um artigo publicado por Charles Moulton na Revista The Family Cicle intitulado Don´t Laugh at the Comics (Não Ria dos Quadrinhos), em 1940. Neste artigo ele defendia o caráter educativo das histórias em quadrinhos (ou seja, era o antípoda de Frederic Wertham, autor de A Sedução dos Inocentes, que afirmava que os quadrinhos eram prejudiciais e corruptores de crianças e jovens). Graças a isso foi contratado como consultor pela National Comics, futura DC Comics. Ele decidiu criar o seu próprio super-herói que teria como diferencial o fato de vencer através do amor e não da força. A sua esposa sugeriu que fosse uma mulher. A Mulher-Maravilha seria, assim, criada, tendo duas mulheres como inspiração (Elizabeth e Olive) e que também contribuíram com sua produção.
Em uma entrevista para Olive Byrne, que usava o pseudônimo de Olive Richard, sob o sugestivo título “Nossas Mulheres São o Nosso Futuro”, é possível perceber algumas intenções e objetivos de Charles Moulton com a criação da Mulher-Maravilha. Um primeiro elemento é a época de produção da Mulher-Maravilha, que é o primeiro ponto da matéria de Olive Richard, a II Guerra Mundial. Nesse contexto marcado pela necessidade de homens e mulheres fortes e que se sacrificam pela nação, temos a criação dos super-heróis (Viana, 2005), bem como o recrutamento dos já existentes heróis[2].
Olive Richard pergunta como que o psicólogo Marston se dedicava a quadrinhos num contexto de guerra mundial, “quando Roma pega fogo”. Essa seria a motivação da entrevista (Richard, 2011). Moulton ao responder uma pergunta sobre se a guerra não acabará nunca e que os homens nunca irão parar de lutar, afirma que sim, mas enquanto os homens controlarem as mulheres. Ele afirma que a aceitação masculina do “poder feminino do amor” é fundamental, bem como os homens de todas as idades desejam uma mulher que seja bonita, empolgante e mais forte que eles. Ele cita a popularidade da Mulher-Maravilha para comprovar isso, pois o público de suas histórias é masculino. Olive Richard diz que isso é apenas produto de uma saudade infantil da mãe protetora e seria superado na adolescência, mas Moulton retruca dizendo que é algo permanente e na adolescência um novo desejo é acrescentado, o adolescente passa a querer uma menina para fasciná-lo. Esse é um anseio típico do sexo masculino que se realiza na Mulher-Maravilha. Moulton cita novamente a pesquisa de popularidade da Mulher-Maravilha e afirma que isso é produto do desejo subconsciente, pois ambos os sexos começam a reconhecer o desejo de supremacia da mulher forte e amorosa e este seria o sinal mais esperançoso da nossa época. As mulheres possuem maior poder emocional, maior resistência às doenças, maior capacidade de suportar a dor e ocupam cada vez mais espaço em atividades antes masculinas.
Olive Richard, na continuação da entrevista, afirma que isso é fácil para a Mulher-Maravilha, que tem poderes mágicos, mas não para as mulheres reais, de carne e osso. Moulton responde dizendo que a Mulher-Maravilha é um símbolo do sexo feminino e o seu laço mágico é um símbolo do charme feminino, com o qual consegue, jogando olhares, gestos, etc., ao invés de uma corda, atrair o homem. Olive Richard retruca colocando o exemplo do nazismo e a impotência das mulheres diante da guerra e Moulton diz que Hitler, Mussolini, Roosevelt não venceram pelas forças das armas e sim da persuasão. Richard novamente contesta: então o homem também tem um “charme”. Moulton afirma que as mulheres não devem ficar presas no charme masculino e devem, como a Mulher-Maravilha, romper todas as cordas e ficar ligada ao homem apenas enquanto servir aos seus propósitos de libertação dos grilhões que prendem o homem.
Essa longa descrição da entrevista de Moulton a Olive Richard é para mostrar as bases conscientes e intenções do criador da Mulher-Maravilha. Ele criou essa personagem a partir de uma intencionalidade precisa e seu objetivo parece ser bem claro: quer colocar a mulher no centro das decisões e assim regenerar a humanidade. As bases desse pensamento se encontram em sua concepção de psicologia e sua psicologia do sexo feminino, bem como sua concepção do sexo masculino.
A sua concepção de psicologia é de caráter positivista e até mesmo fisiologista, tal como se percebe em sua invenção do polígrafo que busca detectar mentiras a partir da medição da pressão sanguínea, pulso, entre outros aspectos fisiológicos. Assim, partindo de sua psicologia simplista, ele buscou criar uma concepção da mulher e do sexo masculino, e a partir daí criou a Mulher-Maravilha. O seu detector de mentiras foi a fonte inspiradora do laço mágico da Mulher-Maravilha, que constrange quem estiver laçado a dizer a verdade. Dessa forma, o laço mágico expressa o que ele denominou “charme feminino”, sua capacidade de convencer o homem a dizer o que os indivíduos do sexo feminino querem. Através do uso do polígrafo chegou à conclusão de que as mulheres mentem menos do que os homens. A sua tese de que as mulheres comandando o mundo com o poder do amor padece de uma grande ingenuidade e desconhecimento que tanto o homem quanto a mulher são constituídos socialmente e que sinceridade, amor, afetividade, etc., não são atributos naturais e sim socialmente desenvolvidos dependendo do contexto social e histórico e da posição de mulheres e homens nas relações sociais[3].
Obviamente que Elizabeth Marston e Olive Byrne tiveram influência na composição da personagem – e não apenas foram inspirações para sua produção – e por isso certas características presentes nela são derivadas da mentalidade e concepções destas duas mulheres. A composição da personagem, portanto, é de Charles Moulton, mas com a colaboração – direta, através da influência, e indireta, através da inspiração – de Elizabeth Marston e Olive Byrne. A personagem busca simbolizar a mulher tal como concebida por estes produtores, que eles julgam ser a representação verdadeira da mulher e que tem um certo elemento de aproximação com a misandria (aversão aos homens). Além disso, o contexto social e a posição dos produtores diante de tal contexto também tem importância explicativa, pois era a época da Segunda Guerra Mundial, considerada uma produção masculina (na entrevista concedida por Charles Moulton a Olive Byrne, é possível observar que a responsabilização dos indivíduos do sexo masculino pela guerra) e que precisava ser solucionada e a mulher aparece como o sujeito que poderia concretizar isso através do “poder do amor” e do “charme feminino”. Os homens, no fundo, teriam o desejo de serem dominados e as mulheres, sendo superiores, deveriam dominá-los através de seus atributos femininos e sua força.
Claro que uma coisa é a composição da personagem e outra coisa é o seu universo ficcional, que traz diversos outros elementos, mas deixaremos isto para os itens seguintes. Assim, a Mulher-Maravilha é uma mulher forte, que possui um “laço mágico” com o qual pode laçar os homens (e não só estes) e constrangê-los a dizer a verdade, e que pode substituir os homens (uma super-heroína no lugar de um super-herói). Outra arma que ela possui é o bracelete, com o qual ela pode se proteger “contra as balas do mundo perverso dos homens” (Moulton afirma isso na entrevista para Olive “Richard”).
Essa composição da Mulher-Maravilha segue as concepções psicológicas de Charles Moulton e Elizabeth Marston e suas demais concepções sobre homens e mulheres, etc. Porém, para interpretar as motivações não explícitas da composição da Mulher-Maravilha, é fundamental sair da psicologia positivista que lhes inspira e utilizar os recursos da psicanálise. A posição de Moulton a respeito das mulheres e dos homens não é uma verdade e sim uma representação ilusória derivada de suas relações sociais limitadas, tal como Marx já colocava[4]. Essas relações foram constituídas desde sua infância e é compartilhada por suas duas colaboradoras (Elizabeth Marston e Olive Byrne). Porém, suas afirmações na referida entrevista fornecem um material para análise psicanalítica, embora com resultados preliminares mais no nível hipotético. Quando ele afirma que o desejo de todo homem é encontrar uma mulher fascinante e protetora/dominadora, realiza uma generalização que só tem sentido se isso for o pensamento dele, o que revela o seu desejo, que ele naturaliza e generaliza. Caso ele não pensasse e desejasse isso, não poderia generalizar e naturalizar, já que seria a prova viva do contrário dessa concepção. A Mulher-Maravilha, nesse sentido, é produto de um engano, no qual uma singularidade psíquica (e concordância e com semelhanças com outras duas singularidades psíquicas) se projeta no mundo e assim confunde sua idiossincrasia com a realidade.
Outra coisa que se percebe na composição da Mulher-Maravilha é o conservadorismo político e científico de Moulton, afinal de contas, a roupa da Mulher-Maravilha, ao estilo do Capitão América, é inspirada na bandeira dos Estados Unidos e sua psicologia positivista-fisiologista mostra seus limites intelectuais. Nesse contexto, a Mulher-Maravilha deve ser vista como uma produção fictícia que reproduz os valores dominantes, sendo axiológica. No entanto, a sensibilidade para a questão feminina aponta para elementos axionômicos, ou seja, expressão de valores autênticos, e a ambivalência dessa personagem é produto da ambivalência de seus produtores. Além disso, devido o vínculo e sensibilidade com a questão feminina do seu criador e a colaboração de duas mulheres, a Mulher-Maravilha também manifesta desejos inconscientes, não dos homens, mas das mulheres, e por isso, pode ser a manifestação do inconsciente coletivo feminino. Trataremos destes aspectos a seguir, analisando o universo ficcional da Mulher-Maravilha.
A Origem da Mulher-Maravilha
Podemos encontrar na história da origem da Mulher-Maravilha a manifestação da axiologia, da axionomia e do inconsciente coletivo feminino e por isso analisaremos tal história como sendo exemplar e que se reproduz nas demais histórias que analisaremos no próximo item. A história começa com o narrador apresentando a Mulher-Maravilha:
“Como o clamor de um trovão surge no céu a Mulher-Maravilha, para salvar o planeta das animosidades e guerras do homem, num mundo feito pelos homens! E que mulher! Ela tem a beleza eterna de Afrodite e a sabedoria de Atena... Mas suas formas adoráveis ocultam a agilidade de Mercúrio e os músculos de aço de um Hércules! Quem é a Mulher-Maravilha? Por que ela luta pelos Estados Unidos? Para saber a resposta, vamos voltar... Voltar à misteriosa ilha amazona chamada Ilha Paraíso! Àquela terra iluminada de mulheres, onde foi parar a forma inconsciente de um homem... O Capitão Steve Trevor, oficial da Inteligência do exército dos EUA que tentou impedir que um misterioso bombardeio lançasse a morte sobre um acampamento do exército americano. Na Ilha Paraíso, onde nunca antes um homem pusera os pés, a donzela amazona Diana se apaixonou pelo Capitão Trevor e decidiu levá-lo de volta aos EUA, onde o ajudaria a lutar pela liberdade, democracia e pelas mulheres de todo o mundo”.
Aqui temos alguns elementos que reforçam o que foi dito anteriormente. A apresentação do narrador coloca que os homens são os responsáveis pela guerra e que a Mulher-Maravilha irá salvar o mundo usando sua beleza, inteligência e força. A questão é por qual motivo ela luta pelos Estados Unidos? A resposta é a paixão pelo Capitão Trevor e assim se dedica a lutar ao lado dele pela “liberdade”, “democracia” e por “todas as mulheres do mundo”. Aqui temos os EUA como representante da liberdade e democracia, uma mensagem axiológica, reveladora dos valores dominantes nos Estados Unidos, mesmo porque se trata de liberdade e democracia formais e revela sua missão “civilizadora”, que, no fundo, quer dizer “colonizadora”. A razão da Mulher-Maravilha aderir à luta norte-americana também reproduz a ideia do amor romântico como valor fundamental, sendo também axiológico.
A história segue com a Mulher-Maravilha deixando o Capitão Trevor no hospital e combatendo assaltantes, para depois se empregar fazendo show que reproduz a habilidade de desviar as balas dos atiradores. Quando Trevor se recupera, ela abandona o show e o seu “empresário” tenta fugir com o dinheiro dela, mas ela o surpreende e o recupera. Ela troca de identidade com a enfermeira Diana Prince ao ceder seu dinheiro e a enfermeira poder viajar e encontrar seu amado. O Capitão Trevor escapa do hospital antes de receber alta e assume a missão de impedir um ataque aéreo e só consegue isso jogando seu avião contra o inimigo e a Mulher-Maravilha o salva e combate nazistas numa ilha junto com ele, e nesse combate ele quebra uma perna e é novamente hospitalizado. No final, Diana Prince tenta persuadi-lo de que tem a ela e ele diz que ela é doida por pensar que pode competir com a Mulher-Maravilha e ela encerra pensando que é rival de si mesma.
A história é bem simples e mostra a origem da Mulher-Maravilha (origem que será recontada de forma diferente e ainda terá a complicação das diversas “Terras” – dimensões – inventadas pela DC Comics para explicar as incoerências e contradições no universo ficcional de seus super-heróis). Porém, é uma história axiológica. Notamos que a introdução do narrador já mostra elementos axiológicos, mas outros podem ser encontrados. Outra forte manifestação de axiologia é na razão de ser da ação da Mulher-Maravilha, ela vai lutar pelos EUA devido seu amor pelo Capitão Trevor, ela abandona o show e o dinheiro pelo mesmo motivo, assim como sua batalha contra o avião e gangue nazistas tem a mesma motivação. A motivação das ações de uma mulher forte com Hércules, inteligente como Atena e ágil como Mercúrio é salvar o homem amado e fazer de sua bandeira, a bandeira dele (no caso, a dos Estados Unidos...). Assim, ela é uma mulher livre e poderosa, mas vive em função de um homem. Aqui temos, certamente, a manifestação da concepção de Charles Moulton, a da mulher forte e poderosa que protege e vive em função dos homens, tal como uma mãe. O raciocínio poderia ser o seguinte: mulheres fortes e poderosas, mas para servir aos homens! Isso é um misto de ideologema e axiologia, concepções falsas e valores dominantes.
Outros elementos axiológicos podem ser vistos e complementam a observação acima. Num certo momento, quando estava levando Trevor para os EUA em seu avião invisível, ele acorda e chama a Mulher-Maravilha de “lindo anjo” e ela diz que é a primeira vez que um homem a chama assim. Ao deixar Trevor no hospital, ela busca algo para “matar o tempo” e diz que Hipólita, sua mãe, havia lhe falado muito das “roupas das mulheres americanas” e ao olhar em vitrines, diz: “os vestidos delas tem tanto tecido... mas nossa! Que vestido lindo!”. Antes, no entanto, o narrador havia dito: “como toda mulher, Diana vai ver as vitrines das lojas”. A sua presença nas ruas, por sua vez, é observada por mulheres mais velhas que a chamam de sem-vergonha e alguns homens a chamam de “boneca” (linguajar da época para se referir a mulheres belas). O Capitão Trevor, ao ser salvo quando seu avião cai, diz novamente “você... o lindo anjo” e quando, hospitalizado pela segunda vez, diz ao médico e chefe que o mérito é do “lindo anjo” ou “linda garota”.
Aqui temos novos elementos axiológicos e ideologêmicos. O aspecto ideologêmico está na naturalização da supervaloração da beleza por parte da mulher, quando uma amazona, vivendo em realidade social e cultural radicalmente diferente (sem homens, sem competição, sem modas, sem a cultura moderna-capitalista, etc.) e deveria ser também diferente nesse aspecto. Assim, a valoração da beleza por parte da mulher, algo que é produto histórico e social, é naturalizada, o que já rendeu o aforismo de Karl Kraus, segundo a qual cosmética é “a teoria que a mulher tem do cosmos” (Kraus, 1988, p. 17) ou que em qualquer situação “a mulher precisa do espelho” (Kraus, 1988, p. 9).
Ao lado de sua naturalização, que revela um ideologema, temos a supervaloração que é manifestação dos valores de quem produz o universo fictício em questão. A mulher tem que ser bela, para poder agradar ao homem, ao Capitão Trevor. Aqui, ela vive numa competição com outras mulheres, outro ideologema. A competição se dá na rua, quando as mulheres a criticam (“sem-vergonha”, “depravada”) por suas roupas sumárias, uma saia acima dos joelhos (veja capa número 01 de Sensaction Comics) – o que tem a ver com a época, antes da invenção da minissaia – e um personagem diz que “bem que vocês queriam ter um corpo assim, não?” e se dá no final da história, quando Trevor afirma que Diana não é páreo para a Mulher-Maravilha, sem saber que são a mesma pessoa.

De forma marginal, há elementos axionômicos e teorêmicos na história. Porém, estes aspectos são não apenas marginalizados como são subordinados aos aspectos axiológicos e ideologêmicos. Nesta história, um dos aspectos que revelam valores autênticos, ou seja, axionomia, é a recusa do dinheiro como valor fundamental, o seu desvalor, sendo substituído pelo amor. Quando a Mulher-Maravilha aceita trabalhar em show mostrando sua habilidade em desviar balas, é por necessidade (e não por ser um valor, muito menos fundamental, sendo apenas um meio para atingir outro objetivo) e quando tem a chance de trocar de identidade com a verdadeira enfermeira Diana Prince, oferece dinheiro para que ela possa viajar e encontrar seu amado e poder substituí-la e ficar próxima de seu amado também. A relação com o dinheiro é axionômica, embora subordinado ao amor romântico, ao amor pelo homem, que se torna o valor fundamental. O aspecto teorêmico é o reconhecimento das potencialidades femininas, sua capacidade de lutar pela justiça (embora uma concepção falsa de justiça).

Além disso tudo, há o inconsciente coletivo. A história da Mulher-Maravilha revela o inconsciente coletivo que expressa o desejo de liberdade, de realização e desenvolvimento das potencialidades, de concretização da justiça, como todos os super-heróis revelam (Viana, 2005). Porém, no caso da Mulher-Maravilha, há uma manifestação do inconsciente coletivo feminino, ou seja, expressa determinados desejos reprimidos das mulheres na sociedade capitalista, que revelam a especificidade de sua opressão. A opressão feminina é marcada por uma forma específica de repressão e coerção[5]. A opressão da mulher, entre outras coisas, produz um ethos feminino:
“A socialização feminina tende a inibir a iniciativa, o que é uma forma de repressão, acompanhada com determinadas formas de coagir a determinados sentimentos, valores, gostos, habilidades. O mesmo ocorre com a socialização masculina. O que diferencia é que, além dos pontos comuns, a formação do ethos feminino desencadeia um conjunto de disposições, investimentos e catexia que difere do masculino e é marcado por um quantum de repressão maior. É possível colocar em forma de par a diferenciação do ethos feminino e masculino: feminilidade/masculinidade; beleza/inteligência (ou força); manifestação de sentimentos/repressão de sentimentos; inibição/iniciativa; emoção/razão, etc., embora sejam generalizações muitas vezes abusivas, subsistem alguns elementos de verdade em algumas destas distinções estabelecidas devido ao processo de socialização e não devido ao caso de ser algo natural” (Viana, 2011, p. 45).
Assim, a iniciativa, força e inteligência são atributos femininos pouco valorados em nossa sociedade, mas fazem parte das potencialidades femininas e se as relações sociais reprime (dificulta, impede ou desvalora) isso, a Mulher-Maravilha realiza imaginariamente essas potencialidades de forma completa e superior aos homens.  A Mulher-Maravilha não fica submissa a nenhum homem. Pelo contrário, combate ladrões e nazistas, e, quando é trapaceada, tal como no caso do empresário que tentou fugir com seu dinheiro, ela mesma reagiu e conseguiu reaver o seu dinheiro. Até mesmo o Capitão Trevor, seu amado, precisava de seu auxílio. Assim, iniciativa, independência, habilidades, que geralmente são atribuídas aos homens, mas fazem parte das potencialidades femininas, se manifestam de forma heroica e sobre-humana com a Mulher-Maravilha, expressando o inconsciente coletivo feminino. Apesar das primeiras histórias serem produzidas por Charles Moulton, um homem, devido sua sensibilidade em relação à questão feminina, por um lado, e a influência de Elizabeth Marston e Olive Byrne, tornou-se possível a manifestação do inconsciente coletivo na criação e nas histórias dessa personagem. Isso, no entanto, vai se alterar relativamente com a passagem da criação das histórias da personagem para outros responsáveis, mas, mesmo nesse caso, ainda se mantém resquícios que podem ser considerados manifestação de inconsciente coletivo.
Considerações Finais
O que se vê na Mulher-Maravilha, desde sua primeira história, é uma mulher forte e inteligente que possuía superpoderes, sendo manifestação ideal do desejo reprimido coletivo das mulheres. No entanto, ao mesmo tempo em que manifestava o inconsciente coletivo feminino, essa personagem aparecia como um misto de axiologia e axionomia, valores dominantes e valores autênticos, tal como no caso do seu uniforme e objetivo inicial, lutar pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial e recusar o dinheiro como valor fundamental, expressando os dois tipos de valores simultaneamente.

Apesar de manifestar valores contraditórios, há o predomínio da axiologia e por isso a axionomia é subordinada, juntamente com o inconsciente coletivo nas histórias da Mulher-Maravilha. A evolução da personagem promoveu alterações em vários sentidos, mas a manifestação do inconsciente coletivo feminino e predomínio da axiologia, permaneceram, sendo que o primeiro elemento sempre foi o atrativo do público feminino desta super-heroína.
As mudanças na personagem estavam relacionadas com o processo histórico, as mudanças sociais, os responsáveis por sua produção, entre outras determinações. Após a morte de Charles Moulton, em 1947, as suas histórias passaram a ter outra dinâmica e perdeu o caráter mais militante a favor das causas femininas. As versões seguintes promoveram mudanças na roupa, nas formas desenhadas, na origem da personagem – o que fica mais complicado com a confusão da DC Comics com suas diversas “Terras” – entre outros aspectos.
Estas mutações poderão serão analisadas em outra oportunidade, quando o objetivo será a evolução histórica da Mulher-Maravilha. Por agora, basta exemplificar que, nos anos 2000, o desenho segue a dinâmica da época, e a adequação ao padrão dominante de beleza com traços mais realistas e bem delineados (seguindo a forma inaugurada pela Image Comics e suas super-heróinas), o politicamente correto e engajamento político moderado de acordo com o público adulto das suas histórias em quadrinhos, entre outros aspectos, são algumas das mutações visíveis em sua última versão.
Porém, o caráter axiológico e ideologêmico continuam hegemônicos em suas histórias, da mesma forma que subterraneamente o inconsciente coletivo feminino continua se manifestando, com poucos elementos axionômicos e teorêmicos, cada vez mais raros e mais confundidos com os seus pares opostos. Assim, a Mulher-Maravilha é um poço de contradições e manifestação do inconsciente coletivo feminino, até que surja uma super-heroína que rompa com os aspectos axiológicos e ideologêmicos, abrindo a possibilidade de uma autêntica e completa libertação imaginária da mulher, um reforço na luta por sua libertação real.
   
Referências
Baron-Carvais, Annie. La Historieta. México, FCE, 1989.
Kraus, Karl. Ditos e Desditos. São Paulo, Brasiliense, 1988.
Marx, Karl e Engels, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo, Hucitec, 2002.
Mead, Margareth. Sexo e Temperamento. 3a edição, São Paulo, Perspectiva, 1988.
Richard, Olive. Our Women Are Our Future. Family Circle, 14 de agosto de 1942. Disponível em: http://www.wonderwoman-online.com/articles/fc-marston.html acessado em: 25/06/2011.
Viana, Nildo. Cérebro e Ideologia. Uma Crítica das Ideologias do Cérebro. Jundiaí, Paco, 2010.
VIANA, Nildo. Emancipação Feminina e Emancipação Humana. Revista Espaço Acadêmico (UEM), v. IX, p. 1-10, Abril de 2010. Disponível em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/viewFile/9767/5466 acessado em: 26/06/2011.
Viana, Nildo. Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos. Rio de Janeiro, Achiamé, 2005.
Viana, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. Goiânia, Edições Germinal, 2002.
Viana, Nildo. Método Dialético e Questão da Mulher. In: VIANA, Nildo (org.). A Questão da Mulher.  Opressão, Trabalho e Violência. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2006.
Viana, Nildo. O Que é o Marxismo? Rio de Janeiro, Elo, 2008a.
Viana, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília, Thesaurus, 2007
Viana, Nildo. Senso Comum, Representações Sociais e Representações Cotidianas. Bauru, Edusc, 2008b.
Viana, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo, Escuta, 2008c.
Publicado originalmente em:

VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo Feminino e Valores Contraditórios na Mulher-Maravilha. Anais do I Encontro Nacional de Estudos Sobre Quadrinhos e Cultura Pop. Recife, UFPE, 2011.

Republicado em:

VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo Feminino e Valores Contraditórios na Mulher-Maravilha. BRAGA JR, Amaro. X.; SILVA, Valéria F. (Orgs.). Representações do Feminino nas Histórias em Quadrinhos. Maceió: EDUFAL, 2015. ISBN 978-85-7177-836-8



[1] Estes são conceitos de origem psicanalítica. Obviamente que existem várias tendências dentro da psicanálise, a que trabalhamos é a que une psicanálise e materialismo histórico, e pode ser vista em: Viana, 2008c; Viana, 2002. Alguns autores são importantes nessa abordagem, tanto no que se refere ao materialismo histórico, tais como Marx, Labriola, Korsch, entre outros – e que se distancia do pseudomarxismo de Lênin, Trotsky, Stálin e semelhantes; quanto da psicanálise, tais como Freud, Fromm, Reich, entre outros.

[2] Sobre a distinção entre heróis e super-heróis, e dos gêneros de aventura e super-aventura, cf. Viana, 2005.

[3] Um estudo interessante sobre isso, apesar dos objetivos da obra, é o da antropóloga Margareth Mead (1988).

[4] “As representações que estes indivíduos elaboram são representações a respeito de sua relação com a natureza, ou sobre suas mútuas relações, ou a respeito de sua própria natureza. É evidente que, em todos estes casos, estas representações são a expressão consciente – real ou ilusória – de suas verdadeiras relações e atividades, de sua produção, de seu intercâmbio, de sua organização política e social. A suposição oposta é apenas possível quando se pressupõe fora do espírito de indivíduos reais, materialmente condicionados, um outro espírito à parte. Se a expressão consciente das relações reais deste indivíduo é ilusória, se em suas representações põem a realidade de cabeça para baixo, isto é consequência de seu modo de atividade material limitado e das suas relações sociais limitadas que daí resultaram” (Marx & Engels, 2002, p. 36). Cf. também: Viana, 2008b.

[5] A opressão é uma relação social entre opressores e oprimidos, onde o opressor realiza a repressão e coerção em relação ao oprimido. A repressão busca impedir e a coerção incentivar determinados comportamentos, valores, ideias, etc. (Viana, 2006; Viana, 2011).

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico, nova edição, revista e ampliada


VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. 2a edição, rev. e ampl. Florianópolis: Bookess, 2015.

Texto de apresentação:

O presente livro coloca em discussão o conceito de inconsciente coletivo, elaborado pelo psicanalista Carl Gustav Jung. Após analisar a concepção junguiana e de Erich Fromm, outro psicanalista, que trabalhou com o conceito de inconsciente social (equivalente ao de inconsciente coletivo), o autor realiza uma crítica à posição destes dois autores e apresenta uma ressignificação do conceito de inconsciente coletivo a partir da concepção materialista da história. Para fazer isso, rediscute, numa perspectiva marxista, alguns conceitos básicos da psicanálise (inconsciente, sublimação, deslocamento, etc.) e a partir de uma ressignificação de determinados conceitos, aponta para uma nova concepção de inconsciente coletivo e de outros fenômenos psíquicos, realizando a crítica de teses como a da existência de um instinto de morte, expressando a tese de que a agressividade, o ódio, os desequilíbrios psíquicos, não são instintuais e sim produtos da repressão. Ainda avança numa concepção de universo psíquico no qual o excesso de repressão (mais-repressão) gera energia destrutiva (sombra) e construtiva (persona), que se distinguem do inconsciente. Assim, a obra apresenta uma abordagem marxista do inconsciente e do inconsciente coletivo.

Texto da Contracapa:


A psicanálise, através de Freud, realizou a descoberta fundamental do inconsciente. Outras contribuições, de Freud e seus continuadores, foram oferecidas pela psicanálise. Contudo, as limitações teórico-metodológicas e valorativas acompanharam o desenvolvimento da psicanálise e lhe gerou várias limitações. A partir do materialismo histórico é possível superar estes limites e a presente obra objetiva justamente contribuir com esse processo de suplantação da psicanálise. E, nesse contexto, uma ressignificação do inconsciente e do inconsciente coletivo, ao lado de uma nova percepção do universo psíquico do indivíduo, tornam-se necessárias. Assim, partindo da reflexão sobre o inconsciente coletivo e das contribuições psicanalíticas, o presente livro apresenta o projeto de psicanálise social, ou seja, materialista, histórica, proletária, revolucionária, a única psicanálise possível, superando os limites da consciência burguesa.

Para adquirir, clique aqui.


Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Acompanham este blog: