Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

Mostrando postagens com marcador manifestações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador manifestações. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de maio de 2017

Crise de Legitimidade, Manifestações e Transformação Social


X SEMANA JURÍDICA FACLIONS.


Local: Câmara Municipal de Goiânia
Período; 16 e 17 de Maio
Horário: Das 19h às 22h



PROGRAMAÇÃO DA X SEMANA JURÍDICA FACLIONS:

DIA 16/05- ÀS 19H - Mesa de abertura

ü  Diretor da Fundação – Dr. Zander Campos da Silva
ü  Diretor da Faculdade – Prof. Ronaldo Nielson
ü  Coordenadora do Curso de Direito- Prof. Ana Valéria Ribeiro Miranda

DIA 16/05- ÀS 19:30 – Ciclo de Palestras

19h30 – 20h30 – Prof. Dr. Nildo Viana
Palestra: ”Crise de Legitimidade, Manifestações e Transformação Social”.
20h30 – 21h40h – Prof. Dr. Marcelo Bareato
Palestra: “A imputação objetiva, a sociedade de risco e o agir comunicativo como fatores de participação na criminalidade”.

DIA 17/05- ÀS 19H – Ciclo de Palestras

19h30 – 20h30 – Prof. Dr. Clodoaldo Moreira dos Santos Junior
Palestra: ”Direito Constitucional e Eficácia das Normas Constitucionais”.
20h30 – 21h40 – Prof. Dr. Alexandre Francisco de Azevedo
Palestra: ”Plataforma Política das Manifestações Sociais”.

21h40 -22h – Fechamento com mesa redonda e sorteio de brindes

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Questões teóricas e conceituais sobre os Movimentos Sociais



Dados do Livro:

VIANA, Nildo (org). Movimentos Sociais: Questões Teóricas e Conceituais. Goiânia: Edições Redelp, 2016.



Movimentos Sociais: Questões Teóricas e Conceituais é uma coletânea que desenvolve diversas reflexões e análises sobre os movimentos sociais no sentido de permitir o esclarecimento conceitual e teórico dos mesmos. Assim, seja partindo de uma reflexão teórica ou seu vínculo com casos concretos, os artigos tratam de diversas questões relativas aos movimentos sociais, como a questão de sua distinção em relação a protestos e manifestações, o significado da hegemonia e utopia no seu interior, bem como análises dos movimentos sociais populares e movimentos sociais urbanos, movimento neo-ateísta, MST e Movimento Negro. É uma leitura fundamental para os interessados na temática dos movimentos sociais.


A Coleção Movimentos Sociais, Poder Político e Transformação Social, é uma coedição do NEMOS – Núcleo de Estudos e Pesquisa em Movimentos Sociais, da Faculdade de Ciências Sociais da UFG (Universidade Federal de Goiás) e Edições Redelp. Ela visa publicar reflexões teóricas e análises concretas sobre os temas que são título desta coleção e da linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFG.



Veja o Livro:


segunda-feira, 14 de março de 2016

As Lições das Ruas



As Lições das Ruas

Nildo Viana


A rua é um lugar público e de mobilidade dos indivíduos. É também o lugar onde, geralmente, ocorrem manifestações. Ontem, domingo, elas estavam lotadas. O protesto era contra o governo de Dilma Roussef e a corrupção. Algumas pessoas aprendem com as experiências, outras não. As que aprendem com as experiências possuem uma tendência de não repetir os erros do passado. As que não aprendem, ao contrário, possuem a tendência contrária, ou seja, repetir os erros do passado. É por isso que poderíamos aprender com as manifestações de ontem, que deram algumas lições que deveríamos analisar e aprender com elas. No entanto, vamos analisar as lições das ruas apenas no que se refere ao público intelectualizado, especialmente o setor alinhado à ala governista do bloco dominante (petistas e aliados) e ao bloco progressista (expresso pelos partidos políticos de “esquerda” não aliados do governo, mas envolvidos ou iludidos com ele).

A primeira lição é não subestimar o descontentamento da população. Alguns só conseguem ver o descontentamento nas eleições. A crise financeira atinge toda a população e, sem dúvida, gera um alto grau de descontentamento, que se amplifica ainda mais com as denúncias de corrupção e com a percepção de um governo inoperante que não consegue esboçar nenhuma reação diante da mesma. O descontentamento pode ficar latente e pode não ser facilmente perceptível, mas tende a emergir quando ocorrem determinadas situações que permitem sua manifestação. O pensamento burguês – em sua variante conservadora ou progressista – tende a não perceber esse processo e ver no fato apenas o fato, se iludindo com o “empírico”, tornando-se incapaz de perceber as potencialidades e tendências.
A segunda lição é não reproduzir os esquemas de pensamento simplistas, tal como a oposição entre governistas e oposicionistas conservadores como a única coisa existente. Sem dúvida, a ala governista do bloco dominante (Governo Dilma, PT e aliados) tem interesse nessa polarização e dicotomização tanto quanto a ala oposicionista (partidos da oposição parlamentar, como PSDB, DEM e outros), pois assim podem inibir atos e falas de pessoas que não querem ser confundidos com um ou outro. Em termos populares (e popularizados pelos defensores de ambos os lados), a oposição simplista entre “petralhas” e “coxinhas” beneficia aos dois, gerando não só estereótipos negativos do lado adversário, mas inibindo um terceiro lado. A polarização entre os dois lados existe, mas não é absoluta e só serve para reproduzir a falta de opção, que pode gerar extremismos no interior da dicotomização ou explosões de violência por falta de opção.

A terceira lição, intimamente ligada com a segunda, é que os setores intelectualizados da população alinhados à ala governista (ou ao bloco progressista, que parece imobilizado pela polarização e por isso não se apresenta como oposição e assim deixa a população sem opção institucional, já que a dicotomização é entre duas alas do bloco dominante, pois o bloco revolucionário é anticapitalista e antiparlamentar), deveriam ao invés de menosprezar a população, desde o que chamam de “classe média” aos trabalhadores, que alguns chamaram de “inocentes úteis”.

A classe intelectual, devido sua profissão e ofício, deveria ser mais profunda em suas análises da realidade política nacional. Mais ainda os das ciências humanas, pois isto faria parte do seu “objeto de estudo” (claro que não para certas tendências, submetidas ao “fetichismo do corpo” ou “fetichismo da identidade”, entre outras aberrações intelectuais). Infelizmente, os meios intelectualizados acabam reproduzindo a superficialidade dos partidários da ala governista ou da ala oposicionista do bloco dominante. No primeiro caso, o que é mais comum nos meios acadêmicos na área de humanas, onde a análise deveria ser mais profunda, é desqualificar os indivíduos que participaram das manifestações e, mais ainda, os trabalhadores, que seriam “inocentes úteis”. O mesmo poderia ser dito desses meios intelectualizados (mais ainda os das universidades federais), pois ao reproduzirem o discurso governista, funcionam como “inocentes úteis”. Eles acabam reproduzindo, acriticamente, as correntes de opinião dos partidos mais influentes. Obviamente que valores e interesses são poderosos nesses casos, mas lembrando de que as greves nas universidades (em 2012 e 2015) tiveram como alvo o Governo Federal e sua política de precarização dessas instituições, isto é, no mínimo, incoerente. A única explicação para a reprodução do discurso governista e simplista, no caso dos meios acadêmicos, é a ilusão da polarização que impede a capacidade de reflexão crítica. O mais curioso é que justamente os meios intelectualizados, aqueles que deveriam ser mais ativos e apresentar projetos alternativos, ou se aliam ao discurso governista que está totalmente perdido e inoperante, ou ficam na defensiva com medo de ser rotulado como estando do lado oposto, o que reforça esse mesmo lado ao não se produzir uma alternativa. A maioria das pessoas que estavam nas manifestações não era favorável à ala oposicionista do bloco dominante, mas estavam perdidos por não ter alternativa (não querem nem a ala governista, nem a oposicionista). O bloco progressista (expresso pelo PSOL, PSTU, etc.) acaba se mostrando tão inoperante na ação política e sem iniciativa quanto do governo Dilma e junto com ele uma grande camada da classe intelectual que não é exatamente pró-governista, mas que teme ser confundida com a ala oposicionista do bloco dominante.

A quarta lição é entender que não é apenas a suposta “esquerda” (nome problemático e que pode se incluir coisas distintas e até antagônicas) que consegue mobilizar a população. Ela se mobiliza espontaneamente e pode ser mobilizada por outros setores da sociedade (o capital comunicacional é poderoso nesse aspecto). A grande questão é quando a suposta “esquerda” fica ausente da mobilização, deixando campo livre para as forças conservadoras, pois eles reforçam o que combatem, contraditoriamente. Um grande contingente de pessoas com baixa politização, com alta desilusão, buscando uma alternativa que não se apresenta, vai para as ruas e o bloco progressista fica alheio (“esperando a banda passar”). O elogio de certos setores e indivíduos durante as manifestações mostra justamente isso. A miséria do bloco progressista e a fraqueza do bloco revolucionário tornam possível um juiz federal ser a figura de maior destaque nas manifestações de 13 de março.

A quinta lição é que a insatisfação da população é mais ampla do que se imaginava. A política institucional (democracia representativa, governo, etc.) enfrentou sua primeira grande crise nas manifestações de 2013 e ela foi varrida para debaixo do tapete com o circo armado no ano seguinte da Copa do Mundo de futebol e eleições presidenciais (com o reforço da repressão policial pelo governo federal). Em 2015, ela esboçou um reaparecimento, mas a polarização entre ala governista e ala oposicionista do bloco dominante acabou enfraquecendo a sua tendência de ressurgimento. A luta pelo poder e a crise financeira, criando uma situação institucional insustentável, juntando com a incompetência generalizada dos partidos, escândalos de corrupção e falta de alternativas, já mostra um novo esboço de seu ressurgimento. A crise da política institucional aumentou com a visibilidade da corrupção (e a percepção de que ninguém escapa dela) e vem reforçar o alto grau de descontentamento que já existia. Assim, a direita e a esquerda capitalista estão imobilizadas e sem capacidade de forjar uma alternativa. A solução em curto prazo seria a deposição (via impeachment ou cassação) de Dilma Roussef e novas eleições, nas quais a classe dominante esperaria, desesperada, o surgimento de alguém que pudesse relegitimar a política institucional, um salvador da pátria, que assumisse a imagem de honesto e anticorrupção (trajeto que vem sendo trilhado por Ciro Gomes), tal como aconteceu com Fernando Collor de Melo, o que é suficiente para demonstrar o seu caráter ilusório.

Resta, então, o bloco revolucionário apresentar a única alternativa possível e viável e que realmente resolve o problema: a auto-organização e autoformação da população, especialmente as classes desprivilegiadas, as mais prejudicadas por este estado de coisas, visando constituir uma nova sociedade ao invés de remendar a atual. Para isso, precisa se fortalecer, aglutinar os descontentes sem rumo, se aproximar mais da população, não temer a confusão com a ala oposicionista do bloco dominante e romper definitivamente com qualquer ilusão com a ala governista e petista. É preciso deixar claro que tanto faz se são “petralhas” ou “coxinhas”, são farinha do mesmo saco, só a cor é diferente. A crise financeira e a crise político-institucional estão se arrastando e arrastando também as classes desprivilegiadas para uma situação de precariedade cada vez mais intensa. A insatisfação tende a crescer cada vez mais e as ruas tendem a ganhar novas cores e pessoas, o que vai marcar a retirada de outras. Por isso, mais do que nunca, a formação intelectual e política da população e sua auto-organização se torna a única forma de se ver uma luz no final do túnel.

--------------------------------------------------------------------------
Versão em Áudio:
https://www.youtube.com/watch?v=SVUQ2Fm1Hgw
..................................
Leia mais:

A Insustentabilidade do Governo Dilma:

A Luta de Classes no Brasil:

A Corrupção na Sociedade Brasileira:

Veja mais:

Dilma, um rock bolero:

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A Luta de Classes no Brasil (2013-2015)


A Luta de Classes no Brasil (2013-2015)

Nildo Viana

A sociedade brasileira, a partir de 2013, entrou num processo de crescentes conflitos sociais. Sem dúvida, esse processo se inicia antes, mas é a partir desse ano que os conflitos sociais se tornam mais visíveis e profundos. O nosso objetivo é analisar a luta de classes no Brasil a partir desse momento até a atualidade, no sentido de explicar sua dinâmica e tendências. Nesse sentido, vamos realizar uma breve contextualização da sociedade brasileira, focalizando principalmente o Governo Dilma, tendo em vista sua importância no processo de constituição da situação atual.

A sociedade brasileira vive, desde 1990, sob o governo Collor, época em que emerge no Brasil o regime de acumulação integral subordinado. A reestruturação produtiva começava a avançar e o Estado Neoliberal, representado pelo Governo Collor, realiza as primeiras políticas neoliberais. A crise de governabilidade e o Impeachment geraram o Governo Itamar Franco, que deu continuidade moderada ao neoliberalismo. A consolidação do neoliberalismo ocorre com o Governo Fernando Henrique Cardoso, em seus dois mandatos. No plano político institucional, a disputa principal era entre o bloco dominante, representado pelo governo, partidos aliados e setores da burguesia mais consolidados, e o bloco progressista, hegemonizado pelo Partido dos Trabalhadores e aglutinando burocracias partidárias e sindicais, entre outros setores.

A vitória de Luís Inácio Lula da Silva, nas eleições presidenciais de 2002, altera o quadro político nacional. O que ocorre é que o bloco progressista é desintegrado, sendo que sua maior parte e mais forte se torna parte do bloco dominante. O aparato estatal não muda em nada substancialmente, continuando neoliberal. Isso vale para o Governo Lula, com seus dois mandatos, bem como para o Governo Dilma, também em ambos os mandatos, sendo que o segundo mandato, nesse caso, está no início. O que caracteriza os governos do Partido dos Trabalhadores (Lula e Dilma) é o neoliberalismo neopopulista.

O que caracteriza o neoliberalismo neopopulista? Essa é uma forma específica de neoliberalismo, unindo aspectos que remetem à especificidade da sociedade brasileira com os interesses da burocracia partidária petista. O PT mostrou que não tinha um projeto de reformas macroestruturais, tal como propõe a social-democracia, nem um projeto de transformação social. O PT tinha como grande ambição e objetivo a conquista do poder estatal, não para apresentar um projeto político, seja qual for (governamental, revolucionário, etc.) e sim para obter as vantagens de se aquartelar no aparato estatal. Assim, o único projeto real do PT era o de ascensão ao poder estatal e preservação do mesmo. Ou seja, no fundo o PT tinha e é o que ainda tem, um projeto de poder, de conquista e preservação do poder estatal. No entanto, uma vez no poder e usufruindo dos seus privilégios, cargos, recursos (por via legal ou ilegal), é preciso também governar. Qualquer governo, no capitalismo, deveria ter um projeto de desenvolvimento nacional. Esse projeto é o que aponta como o desenvolvimento capitalista ocorre no âmbito nacional e inserido na dinâmica internacional. Os governos petistas nunca tiveram tal projeto.

E é isso que caracteriza o neoliberalismo neopopulista dos governos petistas. Na falta de um projeto de desenvolvimento nacional e diante da pressão internacional, adota o neoliberalismo e dá prosseguimento às políticas dos governos anteriores. Assim, as políticas neoliberais são adotadas rigidamente, seguindo as diretrizes internacionais (FMI, Banco Mundial, Unesco, etc.). No entanto, o projeto de poder do PT gerou algumas especificidades no seu neoliberalismo[1]. Ele realizou uma versão do neoliberalismo no qual se busca criar uma base de apoio, representado por um conjunto de partidos aliados, setores da burguesia, junto com uma parte do lumpemproletariado e burocracias (partidárias, sindicais, governamentais, etc.) e setores dos movimentos sociais. Para conseguir isso, realizou um conjunto de políticas estatais neoliberais que eram simultaneamente neopopulistas. No interior destas se destaca as políticas segmentares, que visa cooptar segmentos sociais específicos e setores dos movimentos sociais, e as políticas assistencialistas, desde o “Fome Zero”, que foi um fiasco, até as bolsas de auxílio para a parte mais empobrecida da população.

Apresentando uma versão brasileira das políticas de ação afirmativa, as políticas de cooptação apresentam algumas propostas que são mais gerais, como a política de cotas raciais, e geração de empregos, cargos, financiamento de pesquisas na área, entre outros elementos, que realizam uma cooptação mais direta de diversos setores da população negra. Isso também ocorre com as mulheres, homossexuais, etc. O objetivo de tal política neopopulista, é cooptar setores da sociedade sem grandes gastos estatais, máxima neoliberal. Esse processo de cooptação se caracteriza por criar uma forte adesão, através dos beneficiários diretos de tais políticas (os cooptados diretos) e da manipulação dos sentimentos e necessidades dos demais (cooptados indiretos), que devido ao vínculo identitário, mesmo não sendo beneficiado diretamente, apoia integralmente e inclusive com forte teor sentimental.

No entanto, tais políticas são relativamente frágeis. Isso ocorre devido ao fato de que esses setores cooptados não são grandes mobilizadores sociais e seu apoio é mais eleitoral e no interior de determinados instituições (especialmente as estatais). A parte do lumpemproletariado que recebe as bolsas, tal como a bolsa-família, e os setores cooptados de movimentos sociais e determinados grupos sociais, não possuem condições políticas para garantir uma base sólida para o governo. A fragilidade dessa base de apoio se torna ainda mais evidente devido ao seu relativo sucesso apenas em períodos de estabilização. Enquanto há estabilidade financeira e política, ela é suficiente para garantir a governabilidade e sucessos eleitorais. Contudo, a partir do processo de desestabilização, sua fragilidade se torna mais que evidente. O PT ao invés de criar bases de apoio junto aos trabalhadores, o que levaria, fatalmente, ao confronto com setores do capital (já que demandaria reforma agrária, nova política salarial, etc.), mas que teria solidez, preferiu unir as políticas neoliberais com o neopopulismo e assim conseguiu o aparelhamento do aparato estatal e manter a governabilidade e estabilidade durante o período de estabilização do regime de acumulação integral subordinado. Esse, no entanto, começa a mostrar seus primeiros sinais de desestabilização em 2012. É nesse contexto antecedente que podemos avançar na compreensão da luta de classes a partir de 2013 no Brasil.

O ano de 2012 foi marcado por uma ascensão do movimento grevista. O número de greves ultrapassou a dos anos anteriores e a situação financeira do país começava a sair da estabilidade e equilíbrio. A precarização do trabalho continuava se ampliando. A precarização dos serviços públicos, incluindo das universidades federais, que entraram em greve nesse ano, era outro sintoma do fim da estabilidade.

O início de 2013 já apontava para uma possibilidade de ascensão das lutas sociais. Havia uma expectativa de aumento da inflação, o que se verificou nesse ano em escala microscópica aliado com o descontentamento dos movimentos grevistas que não conseguiram grandes resultados no ano anterior, serviços públicos precarizados, problemas no transporte coletivo, mostram a existência de uma insatisfação silenciosa. O movimento estudantil, especialmente o seu setor não burocratizado, apontava para uma retomada das lutas dos anos anteriores[2] e o aumento do preço das passagens acaba desencadeando um fortalecimento das lutas estudantis sobre a questão do transporte coletivo. As manifestações estudantis se ampliam em maio de 2013 e a repressão estatal também. A violência estatal incentivou novas manifestações e os estudantes passaram a receber amplo apoio popular[3]. E, nesse contexto, eclodiram as manifestações populares de junho de 2013. Essas manifestações promoveram mudanças na dinâmica da luta de classes no Brasil e por isso merecem uma análise mais detalhada.

As manifestações de junho de 2013 foram derivadas das manifestações estudantis, sendo manifestações espontâneas (MARQUES, 2013; VIANA, 2013a; VIANA, 2013b). A sua eclosão teve como origem a insatisfação social gerada pela precarização e conjunto de outros processos sociais (incluindo acusações de corrupção e autoritarismo tanto do governo federal quanto de alguns governos estaduais), bem como pela expectativa de aumento da inflação, serviços de transporte coletivo, educação e saúde extremamente precarizados, aliado ao impacto do aumento do preço da passagem e repressão violenta dos estudantes. Nesse contexto, a insatisfação passou a se explicitar e as ruas foram tomadas. Estas manifestações, no entanto, superaram as manifestações estudantis, tanto pela quantidade muito maior de manifestantes, como também pela ampliação das reivindicações e maior pluralidade de posições políticas. A composição social era policlassista, contando com setores das classes privilegiadas e das classes desprivilegiadas, gerando um processo de ação coletiva sem maior direcionamento e unidade. Os representantes do movimento estudantil, em alguns casos, se afastaram das manifestações (tanto por falta de estratégia quanto por interesses político-partidários, entre outras motivações) e assim aqueles que iniciaram o processo e tinha respeitabilidade e tinham maiores possibilidades de conseguir unificar as manifestações em torno de um projeto político, se abstiveram e enfraqueceram as mobilizações. Em algumas cidades, como em Goiânia, mantiveram sua participação, mas agora concorrendo com partidos políticos, inclusive o PT, e com um setor da população descontente mas sem grande politização. Nesse caso, se tentou disputar a hegemonia do movimento, mas sem estratégia e agindo mais no dia e momento das manifestações, ao invés de realizar um trabalho anterior.

Diante desse contexto, a reação governamental foi de repressão e ao notar que isso era impopular e fazia crescer a insatisfação, passou a querer dividir as manifestações em dois grupos: os “legítimos” (que seriam pacíficos e estariam em seu pleno direito de protestar) e os “vândalos” (os mais radicais e os que exerciam atos de violência). O capital comunicacional (meios oligopolistas de comunicação) seguiu a mesma dinâmica, passando da crítica das manifestações para a crítica do setor mais radicalizado. A intenção era aparentar ser democrático e, ao mesmo tempo, reforçar a hegemonia burguesa no interior das manifestações, tentando criar uma corrente de opinião[4] desfavorável aos radicais, buscando, assim, evitar que este influenciasse o restante da população e manifestantes.

O bloco dominante usou a estratégia de isolar o bloco revolucionário[5]. As manifestações de 2013 marcaram um momento de radicalização da população e lutas espontâneas, que se espalharam até pelas pequenas cidades do interior, promovendo um breve processo de politização da sociedade. O bloco revolucionário, muito fraco anteriormente, sendo composto por pequenos grupos políticos, alguns poucos intelectuais, setores da juventude, algumas tendências de movimentos sociais, etc.  estava presente mas sem grande influência no processo geral. Nesse momento, com a politização e ala radical do movimento estudantil, aliado com a insatisfação de amplos setores da população e juventude, se iniciou um processo de fortalecimento do bloco revolucionário. Apesar disso, por falta de estratégia de alguns, pouco tempo de ação devido ao caráter inesperado das manifestações espontâneas, e contradições internas de grupos e indivíduos, o processo de avanço do bloco revolucionário foi limitado. O bloco progressista, por sua vez, se aliou ao bloco dominante e combateu as manifestações[6]. Isso ocorreu tanto devido às ideologias vigentes nos partidos progressistas[7], tal como o bolchevismo e seu vanguardismo antiespontaneísta, quanto à recusa dos mesmos (e dos partidos em geral) pela maioria dos manifestantes. Isso significou que as primeiras manifestações populares espontâneas de grande envergadura explicitaram uma recusa dos partidos políticos, incluindo os progressistas.

As manifestações ocorreram durante o mês de junho, tanto em grandes quanto em pequenas cidades e no seu final começou a ter uma presença de trabalhadores em atos localizados. Contudo, como era de se esperar, as manifestações não se sustentam por tempo indefinido. A falta de objetivos concretos, pois existiam múltiplas reivindicações (sendo as principais voltadas para educação, saúde, condenação de corrupção, transporte coletivo) e de um projeto político ou alternativo que apontasse para sua concretização eram outros elementos enfraquecedores das mobilizações. Assim, a multiplicidade e falta de unidade das manifestações, aliados com seu desgaste natural, acabaram fortalecendo sua tendência ao esgotamento. O grande problema é que isso gerou uma politização momentânea e uma corrente predominante de opinião mais avançada e que apontavam para uma autonomização da população que, no entanto, não conseguiu criar um processo cumulativo para as lutas posteriores. Isso pode ser explicado pela ausência do proletariado, como classe (ou seja, fazendo reivindicações explicitamente relacionadas com sua situação de classe social), e pela fraqueza do bloco revolucionário, tanto teórica quanto estratégica, sendo que a primeira reforça a segunda. As manifestações deveriam ter gerado um fortalecimento do bloco revolucionário e das lutas proletárias, o que ocorreu muito limitadamente.

As promessas da presidente Dilma Roussef durante o período das manifestações (punição dos corruptos, reforma política, etc.) retrocederam tão rapidamente quanto as mesmas. A luta de classes perde a radicalidade que se esboçou em maio e junho de 2013 e as manifestações e outras ações passaram a se limitar ao que já era realizado anteriormente. O bloco revolucionário não conseguiu superar sua debilidade teórica e estratégica, com raras exceções, e continuou preso, na maioria das suas tendências, ao praticismo e obreirismo. A luta cultural de alguns setores passou a refletir mais sobre as tendências das lutas de classes na sociedade brasileira e assim houve uma contribuição real expressa nas análises das manifestações, das tendências posteriores, a crítica do bloco progressista, apontamentos sobre importância da luta cultural e da necessidade de estratégia revolucionária, etc. Esse é o caso exemplar da Revista Enfrentamento e outros setores e intelectuais que apontaram para uma perspectiva revolucionária.

O ano seguinte foi marcado por um processo de amenização das lutas de classes em comparação com 2013. Dois eventos contribuíram para isso: a Copa do Mundo de Futebol e as eleições presidenciais e para governos estaduais, senado e câmara legislativa federal e estadual. As mobilizações mais fortes foram dos atingidos pelas obras da copa, estudantes ativistas que foram protagonistas no ano anterior e mais alguns poucos grupos e ações sem grande repercussão. A ação principal foi efetivada pelo Estado. O Estado, como “capitalista coletivo ideal”, realiza uma política de repressão preventiva visando conter o avanço das lutas sociais e especialmente, nesse contexto, os protestos a respeito da Copa do Mundo de Futebol. Esse evento, cujas obras faraônicas, acompanhadas de denúncias de corrupção, bem como criação de estádios em cidades de pouca tradição futebolística, torcida e usos posteriores para os mesmos, aliados ao desalojamento de inúmeras pessoas de regiões utilizadas para as construções, era uma vitrine mundial que os protestos poderiam manchar a imagem do país e do governo. A truculência policial e a prisão de diversos militantes promoveram um recuo dos ativistas estudantis e em geral. A repressão preventiva e o medo foram as principais armas do aparato estatal nesse contexto.

A derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo, algo inesperado por sua tradição futebolística e estar disputando esse torneio no próprio país, e o vexame da goleada sofrida pela seleção da Alemanha, abalou ainda mais a credibilidade do governo. Esse elemento apenas acrescentava (junto com o processo de manifestações do ano anterior e repressão preventiva) um motivo a mais para a derrota do PT e seus aliados nas eleições presidenciais do segundo semestre. No entanto, isso não ocorreu. O segundo semestre de 2014 é marcado pela busca do governo e dos blocos dominante e em canalizar a luta de classes para a disputa eleitoral. O bloco dominante se dividia entre a ala governista, representada pelo PT e aliados, e a ala oposicionista, representada pelo PSDB e aliados. Outras forças políticas menores atuaram, mas não conseguiram ultrapassar essa polarização, a não ser durante um período curto no qual houve a comoção com a morte do candidato Eduardo Campos, o que ajudou sua substituta, Marina Silva, ganhar um apoio eleitoral inesperado. A alegria durou pouco, pois a fraqueza da candidata, tanto discursiva nos debates quanto em matéria de propostas e estratégia eleitoral e sua força partidária restrita não sustentava uma posição permanente na preferência eleitoral e assim acabou tendo sua candidatura sendo superada pela retomada da polarização no interior do bloco dominante representada pela candidata à reeleição pela ala governista, Dilma Roussef, e o candidato do PSDB, Aécio Neves, pela ala oposicionista.

O bloco progressista tentou se recompor e retomar um certo espaço na sociedade civil e no plano eleitoral. No entanto, passaram a reproduzir a estratégia petista, no qual o foco no moralismo progressista (fundado na ideologia do gênero, politicamente correto e afins)[8] se tornaram prioridade para alguns partidos progressistas, especialmente o PSOL, o maior dentre eles. Com um discurso ideológico e reprodutor da hegemonia petista, esse partido não conseguiu aglutinar e se tornar uma alternativa, ficando em uma posição eleitoral insignificante. Da mesma forma, outros partidos pequenos, de todas as posições políticas, não conseguiram ir além de debates estéreis e pouca presença no interior da população.

O bloco revolucionário recuou drasticamente, especialmente no ativismo. A derrota das manifestações de 2013 e principalmente a repressão preventiva do aparato estatal no primeiro semestre, aliado com a canalização da luta de classes para a instância eleitoral, reduziu seu espaço de atuação. A ação efetiva de maior peso nesse momento foi a luta pelo “voto nulo autogestionário” e as campanhas anarquistas em favor do voto nulo ou abstenção. Além disso, havia a continuidade das formas de luta comuns em períodos de recuo das lutas de classes.

A dinâmica eleitoral gerou um segundo turno na eleição presidencial entre os candidatos Dilma Roussef e Aecio Neves. A candidata petista usou várias estratégias para angariar votos, tal como o discurso do medo (apelando para as poucas melhorias existentes a partir dos governos petistas e abstraindo suas origens nos governos do PSDB). O candidato do PSDB não conseguiu ir além da demonstração de maior competência discursiva e mais desenvoltura nos debates televisivos. O debate foi totalmente despolitizado por todos os candidatos e tudo passou a girar em torno da competência gerencial e de questões isoladas (educação, saúde, segurança, etc.). O segundo turno foi acompanhado do uso dos mesmos procedimentos pouco éticos na disputa eleitoral, principalmente pela candidatura petista. A candidata petista tinha maior apoio na classe burocrática e na classe intelectual, apesar de sua política de precarização das universidades que havia gerado o movimento grevista de 2012, e nos setores mais empobrecidos da população e o setor da sociedade cooptado pelas políticas segmentares (sexo, raça, sexualidade, etc.). No entanto, o setor mais ativista, devido às práticas governamentais de repressão nos dois últimos anos, tendia ao voto nulo e isso lhe retirou um volume considerável de votos. No segundo turno, ela conseguiu ganhar com o discurso do medo, o apoio (“crítico”) da maior parte do bloco progressista e maior quantidade de votos no nordeste do país[9].

Assim, a vitória da ala governista do bloco dominante num segundo turno e de forma muito apertada mostrou que sua hegemonia já estava enfraquecida. Isso fortaleceu tanto a oposição oficial e principal no plano eleitoral, representado pelo PSDB, quanto a ala extremista do bloco dominante que passou a ter maior presença no cenário nacional. As razões da vitória apertada de Dilma Roussef foi o deslocamento do apoio de parte da burguesia para o PSDB e a ala semiproletária do bloco revolucionário ter se afastado e deixado de votar no PT (acompanhando a ala proletária do mesmo), e, principalmente, grande parte da população insatisfeita, especialmente das classes desprivilegiadas, que engrossaram a abstenção e o voto nulo (a soma de votos nulos, brancos e abstenções constituiu um terço do eleitorado total do país). Assim, a ala oposicionista do bloco dominante se tornou mais presente e ousada. O PSDB declara que sua oposição não será apenas nas disputas eleitorais, mas durante os quatro anos de mandato. Uma ala extremista, bem como grupos religiosos mais conservadores, passam a ter maior presença na sociedade civil.

Assim, o resultado eleitoral promoveu uma cisão no bloco dominante. A unidade e unificação relativa para manter a governabilidade e a reprodução do capital foi substituída pela luta permanente pelo poder. Após as eleições, os escândalos de corrupção e as manifestações solicitando impeachment e intervenção militar mostram um pouco da situação de governabilidade instável a partir desse momento. A ala governista do bloco dominante vai perdendo apoio e a crise financeira que emerge a partir do início de 2015 acaba reforçando seu desgaste. O caso da corrupção na Petrobrás e seus desdobramentos facilitam os ataques oriundos do capital comunicacional e demais alas do bloco dominante. Isso cria afastamento dentro do próprio PT, tal como indivíduos e grupos que abandonam o partido, seja por estar mais à esquerda seja por oportunismo ao ver que o barco está afundando.  

Esses acontecimentos apenas mostram a cisão do bloco dominante e sua luta pelo poder estatal junto com as necessidades do capital de aumentar a exploração e diminuir mais ainda os gastos estatais, sendo que o governo petista vem realizando ou permitindo isso paulatinamente, mas sem romper com certos compromissos que podem minar o que restou de sua base de apoio eleitoral. A popularidade da presidente caiu para menos de 10% e o barco parece estar desgovernado. A crise financeira e os cortes de verbas para as universidades, gerou um novo movimento grevista em mais de 50 instituições, bem como em outras instituições federais, o crescimento da inflação, desvalorização da moeda, desenvolvimento do capital (“crescimento econômico”) desacelerado, entre outros processos, complementam o quadro estabelecido.

Nesse contexto, o bloco progressista se divide entre os apoiadores discretos do governo com medo da “intervenção militar” ou “fascismo” e outros mais ousados que apoiam greves e outros processos. O bloco revolucionário que tendia para um fortalecimento diante da conjuntura, não conseguiu grande avanço além do que já realiza normalmente, embora novas manifestações e ações tendam a ocorrer graças às políticas do governo federal e dos governos estaduais e isso pode reforçá-lo. Nesse caso, a juventude aparece como uma das principais forças em luta, tal como se pode observar nas ocupações de escolas em São Paulo depois da investida do governo estadual de Geraldo Alckimim (PSDB) propondo sua “reorganização”.

O bloco dominante, apesar das rachaduras e divisão interna, mantém a hegemonia com a criação imaginária de duas falsas polarizações: entre PT e PSDB (e oposição em geral) e entre moralismo conservador e moralismo progressista. A crise política-institucional que surge em 2015, tendo como elementos propulsores as denúncias de corrupção e a campanha pelo impeachment, ao lado da estratégia do PSDB de fazer oposição cotidiana e no âmbito político-institucional (principalmente no parlamento e meios de comunicação), foi se agravando com as investidas de punição de corruptos e desgaste do governo, tanto por sua incompetência quanto por seu imobilismo. Isso é reforçado pela crise financeira iniciada, não tão grave quanto anunciado pela grande imprensa, mas também não desprezível, como propagandeado pelos pró-governistas, e que foi se aprofundando e aumentando a gravidade, especialmente pela falta de reação concreta por parte do governo.

Essa polarização, alimentada por governistas e antigovernistas na política institucional e reforçada nos meios oligopolistas de comunicação e na internet, especialmente nas redes sociais, acaba ofuscando os reais problemas sociais e as possíveis soluções dos mesmos. A ala governista do bloco dominante se mostra inoperante e acuada, esboçando reações que pouco avançam no sentido de reverter o quadro político-institucional. A ala oposicionista do bloco dominante, realiza avanços e recuos e também não apresenta nenhuma proposta concreta de solução dos problemas existentes, se limita a focalizar o governo como problema e o impeachment como solução[10]. Além de cargos e posições em disputas no âmbito governamental, o ponto central são as eleições presidenciais. Esse processo tem um efeito despolitizador e graças aos meios oligopolistas de comunicação, temos um fortalecimento do conservadorismo na maioria da população. Ou seja, apesar do objetivo principal da disputa no interior do bloco dominante seja por cargos e eleições, ele também tem o objetivo de afastar o fantasma de 2013 que poderia desembocar num outro tipo de polarização, a de classes. Esse processo é facilitado pela estratégia de identificar o PT com a esquerda e assim torna possível combater o primeiro em nome do segundo e vice-versa.

Uma outra polarização, secundária, ocorre no plano comportamental e moral. Nas últimas eleições presidenciais, foi expressa, sob forma cômica[11], no “debate” entre Levy Fidelix (PRTB) e Luciana Genro (PSOL). Nesse caso se institui uma polarização entre o moralismo conservador e o moralismo progressista[12]. O moralismo conservador consegue força e apoio de setores de igrejas mais ortodoxos e de grande parte da população, especialmente das classes desprivilegiadas e setores mais conservadores das classes privilegiadas, enquanto que o moralismo progressista tem suas raízes e força nos meios intelectualizados e em certos setores das classes privilegiadas. Essa polarização secundária cumpre o mesmo papel que a primária, pois a luta de classes é substituída por disputas sobre comportamento, sexualidade, etc., com altas doses de dogmatismo e pouca racionalidade, de ambos os lados, bem como confusão (intencionais ou inintencionais, dependendo do caso) entre interesses pessoais e grupais. O domínio dos dogmas (seja da religião, da ideologia liberal ou da ideologia da moda, entre diversas outras possibilidades) e os extremismos derivados, garantem escandalização e violência, gerando cada vez mais afastamento da grande maioria da população e antipatia de antigos simpatizantes. Esse processo tem um efeito político significativo por ocorrer no interior dos meios intelectualizados e movimentos sociais, que é de onde emergem um número expressivo, proporcionalmente falando, de indivíduos e grupos do bloco revolucionário, que ao se enfraquecer não só permite a reprodução das polarizações anteriores como também o elo entre forças políticas e organizadas de caráter proletário e proletariado. Há um potencial explosivo que pode se manifestar, pois o descontentamento das classes desprivilegiadas é grande e tende a crescer. as duas falsas polarizações estão freando a realização desse potencial, mas ele está latente na sociedade brasileira.  

Assim, as duas falsas polarizações engendradas pelo bloco dominante (com apoio do bloco progressista) acabam promovendo um processo crescente de despolitização e de aumento de sentimentos antipáticos, maniqueísmos, intolerância, ressentimentos e também conflitos que cada vez mais tendem a ser violentos. Esse processo gerou um estado de letargia que não aponta para nenhuma alternativa ou perspectiva. No entanto, a alternativa está presente e, tal como em 2013, pode explodir a qualquer momento e, tal como no ano que antecedeu este, vários sintomas e processos vão se constituindo para perceber sua tendência. A crise financeira e a busca de solução dela através de mais neoliberalismo só tende a agravar as questões sociais e o empobrecimento da população. Ao lado disso, as falsas polarizações tendem a revelar seu verdadeiro sentido quando o caráter de classe do processo em curso vir à tona. Esses sintomas são visíveis com as políticas de austeridade e mais neoliberalismo, por um lado, e novas lutas que começam a emergir. Depois do presente, virá o futuro.

Referências


BRINTON, Maurice. Maio de 1968. Rio de Janeiro: Conrad, 2002.

DAVIS, Mike. Estrada de Metal Pesado. In: MARICATO, Emília (org.). Cidades Rebeldes. Passe Livre e as Manifestações que Tomaram as Ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo, 2013.

MAIA, Lucas. Para Além dos Protestos. Enfrentamento. Ano 8, num. 13, jan./jun. de 2013. Disponível em: http://www.enfrentamento.net/Enf%20esp.pdf Acessado em 25/06/2013.

MARQUES, Edmilson. A Espontaneidade das Manifestações. Enfrentamento. Ano 8, num. 13, jan./jun. de 2013. Disponível em: http://www.enfrentamento.net/Enf%20esp.pdf Acessado em 25/06/2013.

VARELA, Raquel. Greves, Relações Laborais e Direitos Sociais na Revolução dos Cravos em Portugal (1974-1975). Revista Em Pauta. Vol. 11, num. 31, 2013.

VIANA, Nildo. Manifestações Populares e Luta de Classes. Enfrentamento. Ano 8, num. 13, jan./jun. de 2013b. Disponível em: http://www.enfrentamento.net/Enf%20esp.pdf Acessado em 25/06/2013b.

VIANA, Nildo. Representações Cotidianas e Correntes de Opinião. Revista Espaço Livre, Vol. 10, num. 19, 2015. Disponível em: http://redelp.net/revistas/index.php/rel/article/view/293/227  acessado em 18/11/2015.

VIANA, Nildo. Da ocupação das ruas à ocupação da vida: uma análise das manifestações populares no Brasil atual. In: Territorial - Caderno Eletrônico de Textos, Vol.3, n 1, 20 de junho de 2013. Disponível em: http://www.cadernoterritorial.com/news/da-ocupa%C3%A7%C3%A3o-das-ruas-%C3%A0-ocupa%C3%A7%C3%A3o-da-vida%3A-uma-analise-das-manifesta%C3%A7%C3%B5es-populares-no-brasil-atual-nildo-viana/ Acessado em 20/06/2013a.

VINICIUS, Leo. A Guerra da Tarifa. Rio de Janeiro: Faísca, 2004.







[1] Em sua autoimagem ideológica, necessária para se apresentar como não sendo neoliberal, os ideólogos petistas criaram o termo “neodesenvolvimentismo”, menos comprometedor que neoliberalismo.
[2] As lutas estudantis anteriores remontam as ações e manifestações do Movimento Passe Livre e outras iniciativas. Sobre isso é possível consultar: Vinicius (2004).
[3] Esse processo foi analisado por diversos autores e obras, sendo que se destacam as seguintes contribuições: Marques (2013); Maia (2013), Viana (2013a), Viana (2013b), Davis (2013).
[4] Para entender melhor esse processo é importante entender a dinâmica das correntes de opinião e as forças formadoras das mesmas (VIANA, 2015).
[5] Abordamos as lutas de classes no Brasil através da análise das classes sociais e suas lutas, bem como de suas expressões mais conscientes e organizadas, expressas nos blocos sociais. Nesse caso, temos três grandes blocos sociais. O bloco dominante, que expressa os interesses da classe dominante e tem como integrantes o aparato estatal, as instituições da burguesia, a classe capitalista, a maior parte da burocracia e da intelectualidade, os partidos declaradamente de direita e os governistas (que podem se dizer de “esquerda”, tal como PT e PC do B – Partido Comunista do Brasil, entre outros que são a base partidária do governo petista aliado com partidos declaradamente direitistas). O bloco progressista é composto por parte da burocracia e intelectualidade, especialmente as burocracias partidárias dos partidos mais radicais ou de oposição ao governo, que, no caso brasileiro, são o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), PCO (Partido da Causa Operária) e diversos outros pequenos partidos e grupos aspirantes a se tornarem partidos. O bloco revolucionário é composto por grupos políticos, tendências dos movimentos sociais, jovens e operários revolucionários, alguns intelectuais, tal como o Movaut – Movimento Autogestionário, alguns grupos anarquistas, a ala revolucionária do movimento das mulheres e outros movimentos sociais e um grande contingente radicalizado mas desvinculado de organizações políticas.
[6] Esse processo é muito comum e basta ver as experiências da Revolução Portuguesa (VARELA, 2013) ou do Maio de 1968 (BRINTON, 2002) para ver o papel dos partidos comunistas e semelhantes na luta contra as ações espontâneas dos trabalhadores. Isso é derivado do seu caráter burocrático e dirigista, expressão dos interesses da burocracia como classe social, que deve desconfiar e lutar contra as formas de luta não controladas por eles.
[7] O termo “progressista”, aqui, não tem uma conotação positiva. Progressista, em nossa concepção, é uma posição política que visa o progresso no interior da sociedade burguesa, o que revela seus limites intransponíveis. O progresso no interior da sociedade burguesa só pode ser o progresso capitalista, ou seja, um desenvolvimento ou reforma do mesmo, o que significa sua manutenção. Logo, tanto as concepções social-democratas, quanto as bolchevistas e semelhantes, são progressistas. Aqueles que se dizem “revolucionários” e pregam a luta armada também são progressistas, pois sua concepção de “socialismo” não ultrapassa o âmbito de um capitalismo reformado.
[8] O capitalismo contemporâneo, com a hegemonia pós-estruturalista e neoliberal, gerou novas concepções vigentes, incluindo um moralismo progressista (que tem vertentes diferenciadas, como a neoindividualista e acaba derivando dele um imoralismo) e também, em certos contextos, gerou mais força para o moralismo conservador, também em diversas vertentes. A identificação das forças progressistas (especialmente partidos comunistas e social-democratas e, no caso brasileiro, o PT) como sendo “esquerda” acaba gerando a falsa ideia de que o moralismo progressista é uma concepção esquerdista. Ele é, no fundo, uma versão do moralismo burguês, e, portanto, é direitista tanto quanto o moralismo conservador. A confusão terminológica que os progressistas e conservadores realizam hoje é uma estratégia para polarizar entre eles e ofuscar uma concepção realmente revolucionária. Não deixa de ser curioso ver como os liberais contemporâneos estão querendo ressignificar os termos “direita” e “esquerda”. Isso aparece, por exemplo, na concepção que afirma que a direita defende a liberdade e a esquerda a igualdade (ou outras dicotomias no interior da sociedade capitalista, como mercado X estatismo; individualismo X coletivismo, etc.). Na concepção marxista, direita significa a posição política da burguesia e esquerda a posição política proletária, tendo um caráter de classe e concreto, sendo que a liberdade proposta pela classe dominante é a individual e formal e a igualdade sendo coisa secundária e apenas de “oportunidades” enquanto que para o marxismo a liberdade e a igualdade são inseparáveis e objetivos do comunismo. Para fugir da confusão e dessa dicotomia, talvez seja mais estratégico abandonar o uso desses termos e usar nova terminologia para distinguir os dois polos da luta de classes.
[9] As eleições presidenciais no Brasil acompanham a diversidade e diferença regional (e de classe, embora nesse aspecto sem homogeneidade). O PT, quando tinha um discurso mais oposicionista, ganhava menos votos no nordeste e norte e ganhava mais votos no sudeste e no sul. No entanto, o seu principal apoio eleitoral foi se deslocando com o passar do tempo. O nordeste, mais empobrecido, e mais sensível às bolsas-família e outras migalhas oferecidas pelo governo federal, acabou oferecendo uma votação mais expressiva para a candidata do PT, bem como no norte. No centro-oeste houve equilíbrio e no sul e sudeste o PSDB ganhou. Isso gerou um certo preconceito em relação aos nordestinos pelos mais direitistas na região sul e sudeste, incentivado pelo seu peso eleitoral na eleição presidencial.
[10] Não existe consenso na ala oposicionista. O principal representante dessa tendência é o PSDB, mas no seu interior se agrupam também tendências semifascistas, neoliberais de diversos tipos, setores “democráticos” e “reformistas”, etc. Alguns defendem o impeachment e outros não, para citar um exemplo de diferença no seu interior.
[11] Aliás, a comicidade é uma característica perene da política institucional brasileira. Basta ouvir os discursos da presidente Dilma Roussef, dignos de um programa televisivo de humor, para se ter uma noção disso. Há um humor involuntário que é inofensivo em si, como os discursos presidenciais anteriormente citados, como um que é cômico apenas por seu caráter absurdo, como as práticas parlamentares. Isso apenas revela o baixo nível da política institucional brasileira.
[12] A moral pode ser aqui compreendida como um conjunto de normas produzidas socialmente e impostas posteriormente aos indivíduos. O moralismo é caracterizado por uma prática de julgamento e condenação com base em uma determinada moral (VIANA, 2015). O moralismo progressista formalmente é igual ao conservador, a diferença está no conteúdo, pois sua base moral é distinta.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

MANIFESTAÇÕES POPULARES E LUTAS DE CLASSES


MANIFESTAÇÕES POPULARES E LUTAS DE CLASSES

Nildo Viana

As recentes manifestações populares ganharam um grande espaço nos meios oligopolistas de comunicação, nas conversas cotidianas e em diversos outros locais. Suscitaram diferentes interpretações e análises, como todos os movimentos e mobilizações geralmente fazem. A tarefa de analisar tais manifestações é importante para a sua própria continuidade e reformulação e é feita pelos seus integrantes mais ativos, mas também pelos menos ativos e até por seus adversários e que estão alheios e longe dos acontecimentos. O nosso objetivo é analisar o significado de tais manifestações para a sociedade atual e suas possíveis consequências no processo de luta de classes a partir de agora.
Um primeiro ponto é recordar a historicidade de tais manifestações. Elas emergem como resultado do desenvolvimento capitalista, no qual o regime de acumulação integral (caracterizado pelo neoliberalismo, toyotismo e neoimperialismo) vem se desgastando e encontrando dificuldades crescentes de reprodução. Em outro lugar já desenvolvemos uma análise desse processo e não o repetiremos aqui (VIANA, 2013). O novo regime de acumulação traz em si o processo de intensificação geral da exploração, tal como alguns pesquisadores colocaram (VIANA, 2009; BOURDIEU, 1998; VIANA, 2003). Apesar disso, as ideologias dominantes (neoliberal, pós-estruturalista, etc.) conseguiram produzir um recuo do pensamento crítico-revolucionário que somente a partir dos anos 2000 começou a reemergir com mais força, mas muitas vezes mesclado e domesticado por essas mesmas ideologias. De qualquer forma, o ressurgimento do anarquismo, o avanço de um marxismo antes desconhecido e externo aos partidos políticos (Debord e o situacionismo, comunismo de conselhos, etc.) fez emergir uma cultura contestadora, embora marginal. As lutas sociais também avançaram após a era de conservadorismo e estabilidade fundada na repressão e hegemonia burguesa fortemente estruturada.
No caso brasileiro, as políticas neoliberais foram se consolidando e ganhou a face neopopulista do Partido dos Trabalhadores no governo (primeiro Lula e depois Dilma). A insatisfação se manifestava através de alguns poucos intelectuais críticos, alguns indivíduos militantes, grupos anarquistas, autonomistas e autogestionários, e de forma subterrânea por vários setores da sociedade. Na maioria dos casos, a insatisfação existia, mas não se manifestava. A política institucional (democracia burguesa) foi perdendo cada vez mais legitimidade. O aumento do voto nulo (VIANA, 2010), bem como os votos em branco e abstenções, foi crescendo paulatinamente. O silenciamento da oposição com a vitória do PT – Partido dos Trabalhadores, a grande oposição institucional (ou seja, dentro das regras do jogo) e que movia ilusões, reforçou esse processo. Os seus aparatos (CUT – Central Única dos Trabalhadores; MST – Movimento dos Sem-Terra; sem falar nos sindicatos, movimentos sociais, etc. e sem falar noutros aparatos dominados por seus partidos aliados, como o PCdoB – Partido Comunista do Brasil, especialmente a UNE – União Nacional dos Estudantes) foram domesticados e a oposição de direita nada apontava de novo e alternativo e a suposta “esquerda” além de ultrapassada e fora da realidade, não tinha nenhuma grande força mobilizadora e não servia para inspiração popular, além de não se diferenciar tanto do partido governista. O governo Dilma nasceu ilegítimo, pois foi uma minoria da população que lhe apoiou eleitoralmente (VIANA, 2010). As pesquisas de opinião pública lhe davam uma popularidade falsa e que as manifestações serviram para demonstrar e agora as mesmas pesquisas começam a mostrar a realidade ao invés da farsa.
É nesse contexto de perda de legitimidade da democracia representativa-burguesa e num contexto de diminuição do crescimento econômico, um dos elementos mais propagandeados do governo federal, bem como corrosão do poder aquisitivo dos salários com o aumento da inflação, entre outros aspectos, formam uma situação de descontentamento de amplas parcelas da população. Um dos elementos de insatisfação era o transporte coletivo que, em todo o país, é de má qualidade e tarifas relativamente elevadas. Segundo alguns cálculos, o gasto com tarifas de transporte significava em torno de 27% do salário mínimo.
É neste contexto que emerge as manifestações e protestos por todo o país. Num primeiro momento, pela composição social e reivindicações, tratava-se de manifestações estudantis (universitários e secundaristas), que expressam um dos setores mais avançados politicamente da sociedade brasileira. Através de algumas formas de auto-organização, diversos grupos estudantis, especialmente o MPL – Movimento Passe Livre, faziam reivindicações para os estudantes (o passe livre) e para o restante da população (não aumento do preço da passagem). A ação estatal foi recusar atender a reivindicação e usar a violência estatal contra os manifestantes. O caso do dia 28 de maio em Goiânia, na sequência de outras realizadas, tal como em Porto Alegre, foi aquele no qual a truculência e política de terror de Estado apareceu de forma mais cristalina e geraram protestos e apoio popular, o que foi reforçado por outras manifestações e pelas notícias na grande imprensa e até no exterior. O governo mantinha sua posição de “política de endurecimento”, recusando negociar e afirmando que não voltaria atrás, tal como no caso exemplar de São Paulo, quando o prefeito Fernando Haddad disse que não recuaria. A grande imprensa condenava os protestos e manteve essa posição por algum tempo.
Foi nesse contexto que as manifestações estudantis geraram manifestações populares espontâneas. Ao lado das reivindicações estudantis, diversos outros setores da população passaram a se manifestar e apresentar diversas outras reivindicações. A população nas ruas atingiu grandes proporções e num primeiro momento a grande imprensa condenou e o governo silenciou e, num segundo momento, passaram a aceitar os protestos, mas querendo lhe dar um caráter “pacífico” e de “união nacional”, o que influenciou diversos setores da população, mas não a totalidade. As manifestações estudantis continuaram ocorrendo, às vezes junto com as manifestações populares, às vezes de forma isolada. As manifestações populares explodiram por todo o país, inclusive em pequenas cidades do interior.
Mais recentemente, outros setores da sociedade passaram a se inserir trazendo novas reivindicações, como estrutura urbana, preço de passagens e alguns passaram a defender aumentos salariais, redução da jornada de trabalho, greve geral, entre outras reivindicações tipicamente de trabalhadores. Por outro, os velhos e desgastados partidos de “esquerda” tentaram se aproximar da população, apesar de sua evidente recusa. A imprensa manteve o jogo de apoiar, mas agora contestando os setores mais radicais, acusados de “vandalismo”. O governo federal (bem como parte dos demais) muda sua estratégia e passa a reconhecer a legitimidade dos protestos, mas, tal como a grande imprensa, fazendo questão de distinguir “manifestantes pacíficos” e “vândalos” e posteriormente passa a querer acalmar os ânimos através de promessas e atendimento parcial e moderado de parte das reivindicações. O não aumento dos preços das passagens, a não aprovação da PEC 37, as propostas evasivas de plebiscito e referendo, a transformação da corrupção em crime hediondo e a prisão decretada de um deputado escolhido como “bode expiatório” são alguns dos exemplos dessa nova política.
A luta de classes no Brasil atual
Esse processo todo revela um processo de luta de classes que vem se radicalizando na sociedade brasileira. As manifestações estudantis, o primeiro momento dessa luta, era um processo de reivindicação principalmente de estudantes (de diversas classes sociais) que entrava em confronto com o Estado capitalista, pois a reivindicação básica era a questão do passe livre e questão do preço das passagens, e elementos derivados. O alvo foi a burocracia estatal, pois esta é a responsável pela regulamentação do transporte coletivo e, portanto, a classe capitalista foi atingida apenas indiretamente. Porém, seus interesses estavam em jogo, pois o seu objetivo era aumentar seu lucro com o aumento do preço das passagens, e a luta estudantil era contra tal aumento e ainda outros elementos que também atingiam suas margens de lucro. A burocracia estatal, como sempre, saiu em defesa do capital, e reprimiu violentamente através dos seus aparatos repressivos, os estudantes. Isso abriu uma brecha que deu visibilidade maior para essa luta e a inclusão de outros setores nas manifestações.
As manifestações populares possibilitaram uma ampliação da base social, que era predominantemente estudantil, englobando setores das classes auxiliares da burguesia (burocracia, intelectualidade), trabalhadores (proletários, subalternos, etc.). A composição social dos manifestantes não é homogênea como muitos discursos colocam. Embora se possa dizer que as classes privilegiadas, com exceção da burguesia e da grande burocracia, tenha um grande contingente, muitos trabalhadores e outros setores também estavam presentes. O discurso de que se trata de movimento de “classe média”, termo não marxista e abstrato-metafísico, é equivocado por criar uma homogeneidade onde ela não existe. A suposta “classe média”, definida de forma abstrato-metafísica por nível de renda, é composta, na verdade, por diversas classes sociais, com modos de vida, posição na divisão social do trabalho, interesses, distintos[1]. Da mesma forma, o uso de expressões abstratas e problemáticas como “povo” e “massa” exerce a mesma função de homogeneizar o que é heterogêneo.
O termo “população”, também é abstrato, e o próprio Marx usa tal expressão para discutir o método dialético, colocando que para entender esse termo é preciso reconhecer a sociedade como um todo, a divisão de classes, etc. (MARX, 1983). Como não há apenas uma classe e não há homogeneidade, o termo população, desde que entendido seu caráter heterogêneo e policlassista, é uma alternativa para não cair em termos pejorativos e uniformizantes como “povo” e “massa”, ou, ainda, “classe média”.
A compreensão de quem são os manifestantes, no entanto, deve ir além e entender que o que se tem é um conjunto de indivíduos atomizados, diversas classes enquanto classes determinadas (e não autodeterminadas, ou seja, não expressam claramente os seus interesses e não agem como classe na maioria dos casos), correntes de opinião, e há alguns casos de menor força quantitativa de unificação por questões de raça, sexo, posição político-partidária, etc. Esse grande contingente fez proliferar um conjunto de reivindicações, sendo que algumas se destacaram. A questão da corrupção, da saúde, educação, foram as que mais apareceram, embora sem propostas concretas de resolução, a não ser em pequenos casos pontuais (como a recusa da PEC 37).
O capital comunicacional, principalmente a partir da grande imprensa, se aproveitou disso e, junto com o governo, buscou dividir entre “pacíficos” e “vândalos” e reforçar uma tendência de ressaltar a unidade nacional, destacando nos noticiários a posição contra a violência, as bandeiras do Brasil, hino nacional, etc. No bojo das manifestações, setores mais reacionários e pequenos grupos fascistas emergiram. Os partidos ditos de “esquerda” tentaram se integrar na onda de protestos, mas foram rechaçados pela maior parte dos manifestantes.
Nesse contexto, a compreensão do caráter das manifestações deve ser realizada não apenas com base na composição social, mesmo porque é heterogênea, e sim através da percepção de quais são as principais tendências, ou seja, de quem detém a hegemonia. Se lembrarmos de manifestações mais antigas, como a do “fora Collor”, é perceptível uma forte hegemonia da classe dominante e suas classes auxiliares, tanto por quem impulsionou as mesmas, quanto pelas propostas apresentadas. No caso atual, há uma hegemonia da classe dominante e de suas classes auxiliares, mas que não é tão sólida e nem é em todos os aspectos.
Um dos aspectos em que se nota a inexistência de uma hegemonia burguesa é na questão da política institucional, na qual a recusa dos partidos políticos, a contestação da corrupção, que expressam uma perda de legitimidade do Estado capitalista. É por isso que o medo ronda a burguesia e suas classes auxiliares. Por outro lado, há uma hegemonia não só percebida com as cores que as pessoas usam para se manifestar, que é predominantemente “verde e amarelo”, mas também que a contestação da corrupção é variada, sendo utilizada por determinados partidos e indivíduos para suas disputas partidárias, enquanto que um setor menor aponta a questão do caráter inerente da corrupção no Brasil e ainda outros que não sustentam ilusões com a democracia partidária, mas não possuem propostas concretas e acabam aceitando a solução legalista e ilusória no interior da própria institucionalidade burguesa.
No fundo, o Governo Dilma e o capital comunicacional tenta por todos os modos criar uma opinião pública desfavorável aos elementos mais radicais presentes nas manifestações. Esses núcleos mais radicais são justamente um dos principais responsáveis pelo começo dos protestos, quando eram predominantemente estudantis, e que são reforçados por punks, anarquistas, autogestionários, autonomistas, determinados indivíduos e movimentos sociais mais politizados e contestadores, e que acabam aglutinando alguns outros setores menos organizados, como é o caso de jovens e alguns trabalhadores. A divisão entre “pacíficos” e “vândalos” é a divisão entre os controlados e controláveis, por um lado, e os “incontroláveis” e não controlados, por outro.
O grande medo da burguesia é que esses últimos acabem influenciando os demais e passem a ter hegemonia sobre essa grande contingente. Os setores mais contestadores são aparentemente pequenos. Contudo, tal como um jornal pouco confiável colocou, podem chegar a 5% dos manifestantes. Oras, 5% de 60 mil, como no caso de 20 de junho em Goiânia, ou de 300 mil no Rio de Janeiro, significa 3 e 15 mil pessoas, respectivamente, o que é um contingente considerável e que mostra uma força política enorme. Isso é ainda mais importante se recordarmos que estes setores contestadores tem maior formação política e cultural do que a maioria dos integrantes do grande contingente das manifestações e, portanto, podem disputar a hegemonia e caso consigam se orientar e traçar planos de ação, propaganda e outras formas de luta, poderão duplicar ou triplicar com relativa facilidade e assim aumentar seu peso e, se um contingente grande de pessoas das classes exploradas aderirem às manifestações, o “controle brando” das manifestações pode cair por terra e o risco para o capitalismo se torna enorme. Por isso surge a campanha de governo e grande imprensa contra os “vândalos” e o recuo do primeiro com tentativas de conter as manifestações com promessas, paliativos e pequenas concessões. Esse setor da população também é mais ativo e combativo e por isso tem mais presença nas manifestações. Tendo em vista a grande insatisfação popular, há um risco real destes setores conseguirem aglutinar grande parte da população e por isso o medo da classe dominante é justificado. Contudo, é a luta de classes que determinará o encerramento desse processo. A burocracia sindical e partidária está atrelada, no caso brasileiro, com o governo federal e por isso não oferece resistência e nem alternativa. Os setores mais radicais da burocracia partidária e sindical, dos pequenos partidos de esquerda e pequenos sindicatos, compostos por uma burocracia que se encontra abaixo na hierarquia social da classe burocrática, acabam querendo canalizar as lutas para a democracia burguesa para ganhar espaços eleitorais e políticos, reforçando a tendência conservadora e burguesa, e os intelectuais atrelados a essas frações da burocracia reproduzem o seu discurso. No entanto, a recusa dos partidos pela população e sua impopularidade e falta de capacidade mobilizadora e proximidade com trabalhadores e juventude os fazem ser apenas apêndices da burguesia brasileira.
Luta de Classes, Possibilidades e Tendências
No contexto atual das lutas de classes, há um processo ainda nebuloso e que o resultado ainda está por ser decidido. Existem várias possibilidades de desdobramentos, tanto imediatos quanto em longo prazo. Uma das possibilidades é o refluxo das manifestações e volta à estabilidade, por algum tempo, pois a força demonstrada nas ruas e o conjunto das insatisfações, inclusive com a nova ofensiva da classe dominante e governo após a estabilização devido suas necessidades, é algo que não deixará de existir e por isso novas ondas de protestos tendem a ressurgir, bem como novas formas de luta e organização tendem a se desenvolver, o que significa que a luta de classes no Brasil, pois mais que o resultado seja o pior possível, estará num grau mais avançado a partir de agora. A ação dos meios oligopolistas de comunicação, um setor do capital, e mais influente junto à população, e do Governo Dilma (juntamente com os demais governos) é unir repressão localizada aos grupos mais radicais e politizados com promessas e concessões provisórias, o que tende a desmotivar a continuidade das manifestações por alguns setores da população.
Em curto prazo isso pode surtir efeito. E a retomada da estabilidade e a tentativa de canalizar a insatisfação para os meios institucionais (partidos, democracia burguesa, etc.), no entanto, não apagará da memória da população o movimento recente e nem destruirá os setores mais radicais da população. Além disso, o problema dos obstáculos da acumulação capitalista e do desaceleramento do crescimento econômico e retorno da inflação e outros problemas, tendem a fazer com que o Governo Federal e os demais acabem revendo suas concessões, pois necessita conter os gastos estatais e apoiar o capital na busca de aumento da exploração dos trabalhadores. Por conseguinte, essas concessões não durarão muito tempo e muitas promessas não serão cumpridas, além do fato de que a participação popular, canalizada para os meios institucionais ou sob outras formas, também será rechaçada tão logo o governo sinta que a mobilização da população recuou.
Outra possibilidade é a continuidade das manifestações e seus possíveis resultados. Caso as manifestações continuem, mas não consigam avançar no sentido de colocar reivindicações que manifestem diretamente os interesses das classes exploradas, ela possibilitará uma crise institucional que geraria o foco em reforma política e o surgimento de um novo “salvador da pátria”, numa guinada à direita, mesmo que isso seja apoiado pelos partidos da suposta “esquerda”, tal como já se vê em discursos de alguns intelectuais de tais organizações. A possibilidade da burocracia partidária e sindical ter um papel proeminente está descartada, pois os partidos da suposta “esquerda” são apenas restolhos insignificantes que se comprometem e afastam da população cada vez mais, principalmente dos setores mais politizados e da juventude, devido, nesse caso, às suas práticas, concepções e reprodução da sociabilidade capitalista (corrupção, competição por cargos, burocratismo, etc.). Essa é uma possibilidade de uma alternativa institucional, seja de direita ou de “esquerda” é remota, tendo em vista que a recusa dos partidos é generalizada e que a desilusão com a democracia representativa também, além da força dos setores mais radicais e dos problemas que geraram as manifestações e a não solução dos mesmos, seja qual for a força política que tente canalizar esse processo de luta.
Uma terceira possibilidade, ainda dentro do contexto de que haverá continuidade das manifestações, é a revolução social. A revolução proletária é sempre uma possibilidade dentro da sociedade capitalista. Contudo, é preciso distinguir entre possibilidade existente e possibilidade tendencial. Podemos dizer que “Uma possibilidade existente é aquela que existe, isto é, é algo possível, mas sua probabilidade depende da concretização de outras possibilidades” (VIANA, 2005). Antes das manifestações já existia a possibilidade de uma revolução proletária no Brasil. Assim como grande parte das tentativas de revolução proletária na história da sociedade moderna não foi previstas e surpreenderam, pois é um processo subterrâneo e latente, ela sempre pode emergir sem ninguém prever. No atual caso brasileiro, ela deixa de ser uma possibilidade existente para ser uma possibilidade tendencial. Podemos dizer que “uma possibilidade tendencial é aquela que não só existe, mas existem forças e elementos que apontam para sua efetivação, tendo uma probabilidade maior de se efetivar, pois o curso dos acontecimentos aponta para sua realização” (VIANA, 2005). Antes das manifestações não havia forças e elementos que apontavam para sua concretização, agora existem e se manifestam, reforçando sua possibilidade, tornando-a uma tendência.
Se essa tendência irá se concretizar, isso irá depender das lutas de classes e nesse processo as forças políticas anticapitalistas, especialmente anarquistas, autogestionários e grupos e indivíduos com posições semelhantes, tem um papel importante, no sentido de reforçar e buscar atrair o proletariado e outros setores da população para a ação direta e enfrentamento com o capital e o Estado. Obviamente que outras ações de outros setores poderão, involuntariamente, contribuir com esse processo. Da mesma forma, por sua própria dinâmica e percepção dos protestos, o proletariado e outros setores das classes desprivilegiadas podem entrar na luta. Isso não só mudaria a composição social aumentando o número de trabalhadores participantes como aumentaria a possibilidade de reivindicações voltadas para as necessidades deles e o desencadeamento de outras formas de luta e organização, tal como greves e conselhos. Isso, sem dúvida, não significa que ocorrerá imediatamente, mesmo porque, mesmo se as reivindicações forem salariais e outras de interesse dos trabalhadores, ainda haveria um período de confronto e correlação de forças que poderia se prolongar por algum tempo e ao esgotar sua estratégia repressiva os governos poderiam recuar e tentar diminuir o ímpeto questionador com promessas e pequenas melhorias. O processo, no entanto, ganharia um caráter de classe, pois seria um confronto não apenas com o governo, mas também com a classe capitalista, já que mexe com o lucro, expressando interesses antagônicos.
Em síntese, existem três possibilidades de desdobramento das atuais lutas de classes no Brasil. A primeira e a terceira são as mais prováveis e fortes, sendo que a segunda é mais remota, bem como mais distante ainda é uma variante dela anunciada por conservadores visando evitar uma maior radicalização, que seria o retorno de um regime ditatorial, abstraindo todas as mudanças históricas e atual correlação de forças. No fundo, a possibilidade do retorno à estabilidade ou de radicalização são as mais fortes e a luta está girando em torno disso.
Para reforçar a tendência de radicalização, o que fortalece a possibilidade de uma revolução proletária, é preciso um conjunto de ações, propaganda, lutas, no sentido de incentivar a auto-organização dos trabalhadores e da população em geral e também para que as reivindicações deixem de ser generalistas e moralistas, passando a tratar de questões reais da vida dos trabalhadores no Brasil. A correlação de forças entre população e governo alterou e por isso as demandas dos trabalhadores, podem e devem ser colocadas neste momento. Contudo, isso dependerá de vários aspectos e cabe às forças anticapitalistas passarem do imediatismo e ativismo para lutas mais refletidas e partindo de uma estratégia revolucionária que saiba articular questões imediatas e em longo prazo, reivindicações concretas e que podem ser atendidas com outras mais difíceis de serem aceitas e articuladas com um projeto de uma nova sociedade, fundada na autogestão social. Nesse caso, a juventude tem também um papel importante nesse processo e deve articular suas próprias demandas e necessidades com a dos trabalhadores. As reivindicações imediatas e concretas podem girar em torno da questão salarial, da redução do tempo para aposentadoria (que foi aumentada no bojo das reformas neoliberais), contra a precarização do trabalho, contra o desemprego e a favor da redução da jornada de trabalho.
Ao lado disso, uma ofensiva contra as políticas neoliberais é algo necessário. É o caso da educação, onde é possível articular melhor os interesses da juventude e dos trabalhadores, tal como retomando as exigências realizadas nas últimas greves de professores (nos municípios, estados da federação e nível federal, tal como nas universidades), com apoio de estudantes e técnicos, e que não foram atendidas. Inclusive esse é um ponto fundamental, pois algumas universidades estaduais estão em greve. Da mesma forma, a questão da saúde e sua precarização devem ser incluídas. Por fim, a questão da corrupção deve ser abordada, tanto no sentido de demonstrar que se trata de algo inerente ao capitalismo e que não é o caso de trocar de corruptos e sim questionar o sistema partidário e democracia burguesa representativa e apontar para necessidade de auto-organização da população, fiscalização e poder de pressão e ação sobre o Estado e governos.
Ao lado disso, é necessário buscar novas formas de luta e organização, e o apelo para o desencadeamento de um amplo movimento grevista, que naturalmente geram os comitês de greve, forma de auto-organização dos trabalhadores nestes momentos, bem como articulação e criação de organizações nos locais de moradia, estudo e trabalho. Essas formas de luta e auto-organização podem reforçar e ser reforçada pelas manifestações populares e estudantis.
Essas reivindicações e ações, bem como com formas de luta e organização, reforçam a tendência revolucionária. É o caminho a ser seguido. Mas antes de encerrar, é necessário alertar que as manifestações não podem ser o elemento fundamental e principal das lutas de classes. Elas devem ser entendidas como meios, um entre outros, para avançar na auto-organização do proletariado e outros setores da população, mas que em si não promovem nenhuma transformação social se não atingir o processo de produção, ou seja, as unidades de produção, as relações de produção capitalistas e ficam sem rumo se não colocar a questão da transformação social total que pressupõe abolição do capital e do Estado. As manifestações, assim como tais reinvindicações, são apenas meio para se fortalecer as lutas, auto-organização, consciência revolucionária, e tornar a tendência para a concretização de uma revolução social mais próxima. A sua derrota, caso ocorra, será parcial, pois mesmo que fique no atual estágio, já colocou as lutas de classes no Brasil num patamar superior e se qualquer avanço agora apenas contribui para ir mais longe nesse processo e caso surja a possibilidade ou tentativa de revolução proletária na atualidade, é um passo gigantesco para sua concretização, mesmo sendo derrotada. Como já dizia Marx:
“As revoluções proletárias, como as do século XIX, criticam-se constantemente a si próprias, interrompem-se constantemente na sua própria marcha, voltam ao que parecia terminado, para começar de novo, troçam profunda e cruelmente das suas hesitações dos lados fracos e da mesquinhez das suas primeiras tentativas, parece que apenas derrubam o seu adversário para que este tire terra de novas forças e volte a levantar-se mais gigantesco frente a elas, retrocedem constantemente perante a indeterminada enormidade dos seus próprios fins” (MARX, 1986).
Por conseguinte, essas lutas podem gerar um mundo novo, a emancipação humana. Se não se concretizarem, abrem novas possibilidades e anunciam que o futuro virá e cada vez mais a humanidade fica mais próxima de romper com seus grilhões e conquistar a liberdade e emancipação total, construindo uma sociedade radicalmente diferente.
Referências
BOURDIEU, Pierre. Contrafogos. Táticas para Enfrentar a Invasão Neoliberal. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.

MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 2a edição, São Paulo, Martins Fontes, 1983.

MARX, Karl. O Dezoito Brumário e Cartas a Kugelmann. 5a edição, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

VIANA, Nildo. Adorno: Educação e Emancipação. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação, Brasília-DF, v. 02, n.04, 2005.

VIANA, Nildo. A Minoria Elege Dilma Roussef e a Ilegitimidade Continua. Disponível em: http://informecritica.blogspot.com.br/2010/11/minoria-elege-dilma-roussef-e.html Acessado em 01 de novembro de 2010.

VIANA, Nildo. Estado, Democracia e Cidadania. A Dinâmica da Política Institucional no Capitalismo. Rio de Janeiro, Achiamé, 2003.

VIANA, Nildo. Da ocupação das ruas à ocupação da vida: uma análise das manifestações populares no Brasil atual. In: Territorial - Caderno Eletrônico de Textos, Vol.3, n 1, 20 de junho de 2013. Disponível em: http://www.cadernoterritorial.com/news/da-ocupa%C3%A7%C3%A3o-das-ruas-%C3%A0-ocupa%C3%A7%C3%A3o-da-vida%3A-uma-analise-das-manifesta%C3%A7%C3%B5es-populares-no-brasil-atual-nildo-viana/

VIANA, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo, Idéias e Letras, 2009.
Artigo publicado originalmente em:

Disponível em: http://enfrentamento.net/





[1] Esse é o caso da intelectualidade, classe auxiliar da burguesia, que presta admiravelmente bem os seus serviços ao capital e governo brasileiro. Basta ver as entrevistas na grande imprensa para se notar. Não se trata apenas dos “lacaios da pena”, os “sicofantas”, para parafrasear Marx em sua crítica aos economistas vulgares, tal como é o caso de Marilena Chauí, mas inclusive outros que estão em partidos que se dizem mais à esquerda e até “revolucionário” e mostram sua preocupação com a “ordem” e “progresso” e a democracia burguesa, condenando, junto com seus aliados, os setores mais radicais da sociedade.

-------------------------------------------------------------------------------------------------------
Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. Manifestações Populares e Luta de Classes. Revista Enfrentamento. Ano 08, julho de 2013.

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Acompanham este blog: