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domingo, 9 de agosto de 2015

O Governo Lula ou as ilusões perdidas



O Governo Lula ou as ilusões perdidas

Nildo Viana (*)
La Insignia. Brasil, janeiro de 2005.

O Governo Lula foi gestado desde a fundação do PT (Partido dos Trabalhadores). O projeto petista nasceu social-democrata mas foi se tornando cada vez mais conservador. O Governo Lula é a culminação do processo de constituição do Partido dos Trabalhadores. O presente artigo visa, de forma breve, mostrar justamente o desenrolar deste processo.O PT nasce no período das lutas populares contra o regime militar, com forte participação do chamado "novo sindicalismo", de onde sairá, por exemplo, Luiz Inácio Lula da Silva; de setores da Igreja Católica, da intelectualidade, da juventude, de movimentos populares e grupos políticos (trotskistas, principalmente). O PT em seu nascimento já era social-democrata. Basta ver os discursos de Lula quando era líder sindical e um dos fundadores deste partido para se comprovar isto. A hegemonia no partido era das tendências mais moderadas, social-democratas. Haviam grupos e intelectuais com posições mais radicais e à esquerda mas não eram hegemônicos.

A evolução do PT é marcada por um conservadorismo crescente. A social-democracia petista, mesmo tendo alguns setores mais à esquerda no seu interior, que foram saindo ou sendo expulsas, começa como "social-democracia de esquerda" e já no início dos anos 90 passa a ser uma "social-democracia de direita". As vitórias eleitorais a partir do final dos anos 80 comandam esta tendência.


O crescimento partidário e eleitoral é a fonte deste processo de mutação política dos partidos. A social-democracia petista assume posições cada vez mais moderadas e as vitórias eleitorais - que expressam o crescimento partidário - vão reforçar o seu conservadorismo. O PT dos anos 90 já não pode ser mais considerado radical mas tão-somente um agrupamento que faz um novo discurso, não mais priorizando as reformas sociais e muito menos o socialismo e sim a ética, a competência, e outros elementos que se encaixariam em qualquer discurso direitista.


A mutação petista apenas reflete o que o sociólogo Robert Michels já havia colocado em 1914 em seu livro Sociologia dos Partidos Políticos: "a lei férrea da oligarquia". Segundo a tese deste autor, o crescimento partidário/eleitoral promove a tendência de burocratização e criação de novas pequeno-burguesas no partido (1). Estas, uma vez criadas, passam a ter interesses próprios e a dirigir o partido para satisfazer tais interesses e não mais por lutar pelo "socialismo" ou coisas do gênero. Se alguns ainda fazem o discurso sobre o "socialismo" é apenas para conseguir os votos dos eleitores mais radicais ou apoio dos grupos e partidos mais à esquerda.


A evolução petista é marcada por abandonos e expulsão das tendências mais à esquerda, o que ocorre quando elas começam a incomodar ou atrapalhar o partido no processo eleitoral. Geralmente, as tendências são mantidas para conservar a legitimidade do partido (que se pode dizer "democrático", "pluralista") e para conseguir retorno junto aos segmentos mais radicais da população. As tendências organizadas em torno de um projeto político tendem, ao ver o isolamento e o caráter irreformável do partido, a abandoná-lo, enquanto que as que giram em torno de lideranças e interesses e cumprem apenas o papel de força para negociação, vão mantendo um discurso à esquerda mas continuam acatando as diretrizes partidárias.


O PT vai tendo um desenvolvimento progressivo na década de 80 e no início da década de 90 já está numa posição extremamente moderada e com a saída e expulsão de algumas tendências, que irão formar - juntamente com outras forças fora do partido - o PSTU (Partido Socialista Unificado dos Trabalhadores, hegemonicamente trotskista), assume a posição de uma social-democracia pura. As derrotas nas eleições presidenciais, sendo que o seu candidato - Lula - sempre chegando no segundo turno (1989/1994/1998), juntamente com as vitórias eleitorais em outros níveis (elegendo governadores, prefeitos, aumentando sua bancada no parlamento em nível municipal, estadual e federal), mostrou a possibilidade de vitória e chegada ao governo executivo federal. A composição social do partido vai se alterando, tal como é a tendência de todo o partido político da esquerda institucional que consegue vitórias eleitorais (2), bem como seu discurso e posição política.


No início do século 21 temos um PT mais adaptado ao processo eleitoral, isto é, mais preparado para conseguir a vitória nas eleições presidenciais, pois as derrotas em eleições anteriores serviram para chegar à fórmula vitoriosa. Em 2002, tal fórmula foi aplicada com maestria: aliança com os direitistas assumidos para retirar desconfianças e resistências ao partido. A coligação com o PL - Partido Liberal - foi a face mais visível deste processo. Mas o apoio no Congresso ao empréstimo para a Rede Globo foi a jogada mais espetacular, a aliança fundamental para a vitória eleitoral. O PT do século 21 não é mais nem social-democrata, perdeu qualquer projeto político de transformação social ou alternativo ao neoliberalismo, já que seu discurso nem sequer aponta para reformas sociais - a não ser retoricamente, como no caso da reforma agrária - assumindo a posição de "esquerda neoliberal", sendo que seu "esquerdismo" é mais retórico e fundado em pequenos programas paliativos que dificilmente saem do papel.


Após ganhar as eleições, o PT fez o que qualquer analista frio já tinha previsto: um governo neoliberal com discurso "quase" social-democrata. A estratégia governista foi a mesma que a eleitoral, pois "em time que está ganhando não se mexe": fez alianças com os setores dominantes a nível internacional (FMI, Banco Mundial), acalmou o mercado financeiro, seguiu as receitas neoliberais. Ironicamente, fez o que FHC queria fazer mas não teve capacidade de fazê-lo - em parte, devido à própria oposição petista e seu braço sindical, a CUT, que agora estão do outro lado... O governo petista negou o projeto de reformas sociais e assumiu com firmeza o projeto de reformas neoliberais. Isto é expressão do novo regime de acumulação que vem se desenvolvendo a partir dos anos 80, o regime de acumulação integral, e o papel do Estado enquanto um dos pilares deste novo contexto histórico (3). O Governo Lula segue a dinâmica política institucional mundial e executa a política neoliberal sem grandes resistências internas, pois os mais radicais foram expulsos e formaram mais um partido político (o PSOL - Partido do Socialismo e Liberdade) e os ditos "marxistas" e "socialistas" que permanecem são apenas expressões de uma esquerda retórica que ajuda a legitimar o partido junto a setores mais radicais da população.


O PT revela a lógica de evolução da social-democracia: crescimento eleitoral e partidário aliado com um posicionamento cada vez mais conservador. A novidade reside justamente no fato de que, no novo regime de acumulação, a social-democracia foi engolida e se torna apenas sigla ou nome, sem nenhuma consistência política diferente do neoliberalismo hegemônico.


O curioso de todo este processo e que ajudou na vitória eleitoral de Lula foi a ilusão de parte da população que ainda, apesar das evidências, sonhava com uma social-democracia tupiniquim, com reforma agrária, etc. Após alguns meses de governo, muitos se sentem "traídos", mas outros perdem as ilusões. Chegamos agora ao momento das ilusões perdidas serem reconhecidas como tal.

Notas
(*) Professor da UEG - Universidade Estadual de Goiás e Doutor em Sociologia/UnB.
(1) MICHELS, Robert. Sociologia dos Partidos Políticos. Brasília, UnB, 1981.
(2) VIANA, Nildo. O Que São Partidos Políticos. Goiânia, Edições Germinal, 2003.
(3) VIANA, Nildo. Estado, Democracia e Cidadania. Rio de Janeiro, Achiamé, 2003.


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Publicado originalmente em:
http://www.lainsignia.org/2005/enero/ibe_076.htm

segunda-feira, 21 de março de 2011

O MARXISMO DE ROSA LUXEMBURGO


O Marxismo de Rosa Luxemburgo

Nildo Viana

O  marxismo é uma corrente política e teórica que surgiu com a obra de Karl Marx e vem se desenvolvendo até os dias de hoje. Várias contribuições foram fornecidas a esta corrente durante o século 20 e dentre elas se destaca a de Rosa Luxemburgo.

Rosa Luxemburgo nasceu no ano em que ocorreu a primeira experiência autogestionária da história, ou seja, no ano em que foi proclamada a famosa Comuna de Paris pelos operários franceses (1871). Ela era natural da Polônia, e morreu em 1919, na Alemanha, assassinada pelos militares durante o governo social-democrata. A contribuição teórica de Rosa Luxemburgo ao marxismo é extensa e envolve várias questões, tais como a expansão do capitalismo mundial (Luxemburgo, 1983), a questão nacional (Luxemburgo, 1988), etc. Entretanto, foi nas suas polêmicas com a social-democracia (Kautsky, Berstein) e com o bolchevismo (Lênin e Trótski) que Rosa Luxemburgo desenvolveu os aspectos mais importantes do seu pensamento. Contra a social-democracia enfatizou os limites históricos do capitalismo e contra o bolchevismo enfatizou a espontaneidade revolucionária da classe operária. Além disso, criticou em ambos o burocratismo.

Segundo Rosa Luxemburgo, as contradições do capitalismo provocaria sua destruição e é com este argumento que ela derruba a tese social-democrata de “reformar” o capitalismo ao invés de aboli-lo (Luxemburgo, 1983; Luxemburgo, 1986). Entretanto, a forma como ela via a derrocada do modo de produção capitalista apresentava algumas deficiências, embora a sua análise esclareça aspectos parciais da contradição do capitalismo. Na verdade, ao enfatizar a questão da reprodução do capitalismo, ela deixou de lado a questão da produção e das contradições inerentes a esta e é justamente aí que se encontra o “calcanhar de Aquiles” do capitalismo, a chamada “composição orgânica do capital”(Marx, 1988).

O mais importante da contribuição de Rosa Luxemburgo ao marxismo foi produzido na sua polêmica com Lênin. Rosa Luxemburgo criticou duramente a concepção leninista de partido político. Para Lênin, a classe trabalhadora só se libertaria quando tivesse um partido político centralizado que lhe dirigisse. Para Rosa Luxemburgo, retomando as teses de Marx, a “emancipação da classe operária é obra da própria classe operária” e por isto nenhum centralismo ou burocratismo devem ser aceitos. Para ela, o movimento socialista é o próprio movimento da classe operária e portanto deve  haver uma subordinação das organizações políticas à classe trabalhadora. Assim, ela disse que: “o único ‘sujeito‘ ao qual corresponde hoje o papel de dirigente é o eu coletivo da classe operária, que reclama resolutamente o direito de cometer ela mesma os equívocos e de aprender por si só a dialética da história” (Luxemburgo, 1985, p. 39-40).

Ora, se Rosa Luxemburgo defende a tese da derrocada inevitável do capitalismo, então qual é a razão da defesa da “espontaneidade revolucionária do proletariado”? Para os seus críticos, era o seu “catastrofismo” (a queda inevitável de capitalismo) que gerava sua teoria da espontaneidade. Entretanto, esta explicação não se sustenta, pois o “catastrofismo” não leva, necessariamente,  ao “espontaneísmo” e o italiano Amadeo  Bordiga é um bom exemplo oposto, já que ele acreditava na inevitabilidade da “crise final do capitalismo”, mas defendia a tese de que era necessário um partido político centralizado para dirigir a classe operária.

A defesa da espontaneidade por Rosa Luxemburgo tem outra motivação: a derrocada do capitalismo é inevitável mas nada garante que o resultado desta queda seja o socialismo. Daí sua palavra de ordem: ”socialismo ou barbárie”. Portanto, para além da visão do fim do capitalismo é necessário enxergar a gênese do socialismo. A teoria da espontaneidade revolucionária do proletariado surge da compreensão de que o socialismo é produto da luta operária e é compreendendo esta que se pode elaborar uma prática política consciente voltada para a realização dos objetivos propostos.

Rosa Luxemburgo realizou um esforço fundamental para compreender a luta operária e foi graças a isto que ela pode retomar a “tese anarquista” da greve de massas como fundamento da estratégia socialista (Luxemburgo, 1977; Guérin, 1982). Se é no movimento real dos trabalhadores que se descobre a forma de sua emancipação, então é através da experiência histórica do proletariado que se pode reconhecer como isto ocorrerá. A eclosão das greves de massas na Europa e Rússia no início do século possibilitou a Rosa Luxemburgo visualizar a forma de produção da sociedade socialista.

Outro elemento importante do pensamento de R. Luxemburgo é a sua crítica ao burocratismo (Tragtenberg, 1991). Ela critica o parlamentarismo burguês, pois ele é uma das fontes de corrupção do movimento socialista, assim como o centralismo blanquista-jacobino proposto por Lênin, que submete a classe trabalhadora ao domínio da burocracia partidária (que, assumindo o poder estatal, desempenha o mesmo papel que a classe capitalista, tal como aconteceu na Rússia) e os perigos disto Rosa Luxemburgo já havia observado em seu texto de crítica ao golpe de estado dos bolcheviques na Rússia (Luxemburgo, 1991).

Em síntese, a obra de Rosa Luxemburgo encerra um capítulo fundamental da história do marxismo. Tal como colocou Oskar Negt: “Como quer que queiramos definir as formas de organização que se orientam para a autogestão, a autodeterminação e o controle, a democracia do conselhos operários, elas são, em toda a sua multiplicidade, formas de emancipação dos oprimidos, dos explorados e dos deserdados desse mundo, características de todo um período histórico.( ...). Deste ponto de vista, Rosa Luxemburg formulou um programa histórico que permanece atual até os dias de hoje.( ...).Todavia, se é evidente que nem um ordenamento social hoje existente está organizado segundo a idéia originária dos conselhos, esta idéia não perdeu seu poderoso fascínio, não evidentemente porque pequenos grupos de utópicos, que ignoram as leis objetivas da sociedade industrial, continuem a propagandeá-la: a idéia de autogestão por meio dos conselhos ganha terreno quando os sistemas de poder político oficiais trazem em si o germe da ruína, quando as burocracias de partido ou os órgãos representativos do estado burguês, que se tornaram autônomos, não estão mais em condições [podemos perguntar: algum dia estiveram? — NV] de exprimir os interesses elementares da grande maioria do povo” (Negt, 1986, p. 36-37).
         
                                                Referências Bibliográficas

Guérin, Daniel. Rosa Luxemburgo e a Espontaneidade Revolucionária. São Paulo, Perspectiva, 1982.

Luxemburg, Rosa. A Acumulação de Capital. 3a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1983.

Luxemburg, Rosa. A Questão Nacional e a Autonomia. Belo Horizonte, Oficina de Livros, 1988.

Luxemburg, Rosa. Greve de Massas, Partidos e Sindicatos. in: Textos escolhidos. Lisboa, Estampa, 1977.

Luxemburgo, Rosa. A Revolução Russa. Petrópolis, Vozes, 1991.

Luxemburgo, Rosa. Questões de Organização da Social-democracia Russa. in: Luxemburgo, Rosa & Lênin, Wladimir. Partidos de Massas ou Partido de Vanguarda. São Paulo, Nova Stella, 1985.

Luxemburgo, Rosa. Reforma Social ou Revolução? São Paulo, Global, 1986.

Marx, Karl. O Capital. 5 vols. São Paulo, Abril Cultural, 1988.

Negt, Oskar. Rosa Luxemburg e a Renovação do marxismo. 2a edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986.

Tragtenberg, Maurício. Rosa Luxemburgo e a Crítica aos Fenômenos Burocráticos. in: Loureiro, Izabel & Vigevani, Túlio. (orgs.). Rosa Luxemburg: A Recusa da Alienação. S. Paulo, UNESP, 1991.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Marxismo de Sylvia Pankhurst


O Marxismo de Sylvia Pankhurst


Nildo Viana

Estelle Sylvia Pankhurst foi uma militante do início do século 20 e que participou da social-democracia dissidente, no mesmo período que Rosa Luxemburgo, Anton Pannekoek, Herman Gorter e outros. Pankhurst nasceu em Manchester, em 05 de maio (tal como Marx) de 1882, filha de um dos líderes do Partido Trabalhista. Ficou mais conhecida por sua militância a favor dos interesses das mulheres e por ter sido taxada de “esquerdista” por Lênin, em seu malfadado livro. Em seu período após o rompimento com sua mãe e irmã, 1913, Emmeline e Christabel, adeptas de um feminismo liberal, Pankhurst foi se aproximando das tendências esquerdistas, especialmente Gorter e Pannekoek, também atacados por Lênin na referida obra.

Pankhurst foi uma das mais ativistas “sufragettes”, e sua aproximação com o movimento socialista fez articular reivindicações femininas e proletárias, fundando a Federação do Oeste de Londres, o que gerou rompimento com sua mãe e irmã. Pankhurst abandonou a Faculdade de Artes para exercer sua prática política. 

Quadro de Sylvia Pankhurst sobre sua amiga na prisão

Ela se torna uma das principais representantes da esquerda extra-parlamentar na Inglaterra, ao lado de Guy Aldred e outros. A sua produção se inicia no interior da social-democracia, fazendo parte de sua ala dissidente e a partir de 1914 ela passa a trocar correspondências com Lênin e ala esquerda da social-democracia, participando da ruptura que geraria os partidos comunistas. Porém, logo começa a haver uma nova divisão no interior dos partidos comunistas, que geraria sua própria negação, o comunismo de conselhos em oposição ao comunismo de partido. Nesse processo, os embates na III Internacional dominada pelo bolchevismo com as tendências esquerdistas da Inglaterra, Alemanha, Holanda, Itália, vai ser uma das determinações da ruptura, que contou também com a publicação do livro de Lênin atacando o esquerdismo e as ações repressivas na Rússia que começava a chamar a atenção para o seu verdadeiro caráter, o que chegava aos esquerdistas via oposição dentro do próprio bolchevismo (os três grupos dissidentes na Rússia, Centralistas Democráticos, Comunistas de Esquerda e Oposição Operária, além dos grupos fora do partido, como Verdade Operária, de Bogdanov, e Grupo Operário, de Miasnikov).

Lênin condenava Pankhurst por seu antiparlamentarismo e por sua posição de princípios que dificultava a união de quatro grupos/partidos em um Partido Comunista. Nessa época, Pankhurst já havia aderido ao antiparlamentarismo e seu grupo Federação Socialista Operária resistia em fazer a fusão com os três outros grupos por considerar dois deles no caminho do oportunismo. Lênin, por sua vez, queria que fizessem aliança até com as tendências reformistas declaradas e institucionalizadas. Com o passar do tempo e as experiências, Pankhurst rompe com o bolchevismo (e, portanto, com o recém formado Partido Comunista Inglês) e o periódico que coordenava, Workers Dreadnougth, começava a questionar a NEP – Nova Política Econômica e o fortalecimento do capitalismo de Estado na Rússia. O rompimento com a III Internacional foi inevitável, e Pankhurst acusou ela de ser braço direito do governo bolchevique para controlar os partidos comunistas nacionais.


Cada vez mais Pankhurst irá colocar os sovietes (conselhos operários) como o centro de sua concepção política, o que foi provocado tanto pela emergência de conselhos em vários países em variadas tentativas de revoluções proletárias no final da década de 1910 quanto pela produção teórica da esquerda germano-holandesa, representada principalmente por Pannekoek, Gorter e Rühle e por isso em Workers Dreadnought, agora editado pelo Grupo Comunista de Trabalhadores, publicava materiais do KAPD e KAI, Partido Comunista Operário da Alemanha (um partido que, segundo seus próprios documentos, “não é um partido propriamente dito”), IV Internacional dos Trabalhadores (em oposição à III Internacional, que nada tem a ver com a IV Internacional posterior criada pelos trotskistas). Sua concepção dos conselhos era limitada, pois pensava-os como sendo apenas conselhos de fábrica e por isso buscava complementá-los com conselhos educacionais, de saúde, de donas de casa. Posteriormente, ela entenderia que os sovietes possuía uma base territorial que articulava diversos conselhos de fábricas e outros conselhos. Ela passa a criticar o capitalismo estatal russo e criticava a ideia de fingir que o regime russo fosse comunista. A ditadura do proletariado era apenas um nome utilizado pela cúpula burocrática do partido para dominar a classe trabalhadora.

Livro de Shirley Harrison: "Sylvia Pankhurst: Cidadã do Mundo"


Sylvia Pankhurst morava com o socialista italiano Silvio Corio e recusou-se a casar com ele, negando o “contrato de casamento”, mesmo depois do nascimento do seu filho, Richard Pankhurst, o que provocou o rompimento definitivo com sua mãe, Emmeline Pankhurst. Após a Segunda Guerra Mundial direcionou suas preocupações para o colonialismo na Etiópia, para onde acabou mudando e onde morre com 78 anos de idade em 1960, deixando poucas obras escritas, a maioria artigos, sendo que sua última obra foi sobre A História Cultural da Etiópia, mas produziu outras obras ligadas mais diretamente com sua concepção política, tais como A Rússia Como eu a Vi; O Movimento Sufragista, e vários artigos reunidos em Marxismo Não-Leninista: Escritos Sobre os Conselhos Operários, contendo um dos seus principais textos, A Tática Comunista, nenhum possuindo edição portuguesa. Infelizmente suas obras e ações são ainda pouco conhecidas fora da Inglaterra, mas faz parte do processo de luta cultural pela transformação social resgatar suas obras.

Esse texto é um breve resumo do artigo “Sylvia Pankhurst e o Esquerdismo Inglês”:
para acessá-lo, clique abaixo.
Sylvia Pankhurst e o Esquerdismo Inglês

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Reformismo de Gramsci

O Reformismo de Gramsci
(Notas Sobre Gramsci, 06)

Nildo Viana

A obra de Gramsci possui várias interpretações e a cada uma delas temos uma determinada apropriação de sua obra, direcionando-a para as concepções de quem faz a apropriação. Assim, temos Gramsci revolucionário, leninista, social-democrata, idealista, materialista, etc. A posição política de Gramsci é, no fundo, ofuscada por este conjunto de interpretações/apropriações. Somando a isso o caráter fragmentário e contraditório de suas colocações, há uma dificuldade de identificar qual é sua verdadeira posição política. Porém, saindo do pântano das interpretações e uma leitura rigorosa de sua obra, apesar de seu caráter fragmentário, é possível reconstituir a posição política de Gramsci. É o que buscamos fazer aqui.

A questão fundamental que perpassa a obra de Gramsci é a conquista da hegemonia pelo Partido-Príncipe, o partido maquiavélico-gramsciano. A hegemonia é a direção moral e intelectual e ela pertence à classe dominante, a burguesia. A missão do partido maquiavélico-gramsciano é realizar uma reforma intelectual e moral visando conquistar a hegemonia e produzir um novo Estado. Assim, é preciso ultrapassar a fase econômico-corporativa (sindical), chegando à fase da hegemonia na sociedade civil e, finalmente, a fase estatal (Gramsci, 1987). Apesar de algumas alterações nesta abordagem geral, essa é a estratégia gramsciana.

Porém, esta estratégia tem uma variação, que se revela na diferença entre oriente e ocidente. Para o oriente, a estratégia de conquista do poder estatal é diferente, é a guerra de movimento, tal como efetivada por Lênin. No caso do ocidente, se aplica a guerra de posição, na qual o partido maquiavélico-gramsciano vai cercando o Estado (sociedade política) através da sociedade civil e conquistando a hegemonia, para depois se apoderar do aparato estatal (Gramsci, 1988).

Aqui reside a chave para a compreensão da concepção política de Gramsci, o reformismo. Segundo Perry Anderson:

“No caso de Gramsci, as inadequações da fórmula da ‘guerra de posição’ tinham uma clara relação com as ambigüidades de sua análise do poder de classe da burguesia. Gramsci, como vimos, igualava a ‘guerra de posição’ à ‘hegemonia civil’. Assim, exatamente como a sua utilização da hegemonia tendia a implicar sobre a cultura e o consentimento, a ideia de uma guerra de posição tendia a implicar que o trabalho revolucionário de um sentido marxista era essencialmente o da conversão ideológica da classe operária – daí a sua identificação com a frente única, cujo objetivo era ganhar a maioria do proletariado ocidental para a Terceira Internacional. Nos dois casos, o papel da coerção – repressão da parte do Estado burguês e da insurreição da parte da classe operária – tendem a desaparecer. A fraqueza da estratégia de Gramsci é simétrica à de sua sociologia” (Anderson, 1986, p. 72).

Deixando de lado os equívocos costumeiros de Perry Anderson (expresso, neste caso, seu leninismo insurrecionalista), ele acerta ao colocar que, para Gramsci, a revolução não está presente em sua concepção (não se trata de insurreição, a proposta de Lênin, e sim de revolução, a proposta de Marx e Gramsci não propõe nenhuma das duas coisas).

Porém, Gramsci teve um antecessor bastante ilustre: nada mais nada menos que Karl Kautsky, o maior ideólogo da social-democracia da primeira metade do século 20. Segundo Perry Anderson, este havia proposto a “estratégia do esgotamento”, palavra retirada da doutrina militar de Delbrück, em oposição à “estratégia da derrocada”, que seriam termos equivalentes à “guerra de posição” e “guerra de movimento”. Anderson complementa colocando o contexto do debate com Rosa Luxemburgo no qual Kautsky utiliza e justifica tal concepção de guerra de esgotamento:

“Foi Kautsky quem deu o próximo passo no sentido de introduzir os conceitos militares de Delbrück – sem precisar suas fontes – em um debate político sobre as perspectivas estratégicas da luta proletária contra o capitalismo. O momento mesmo de sua intervenção foi muito importante. Pois foi no sentido de refutar a exigência de Rosa Luxemburgo para a adoção de greves militantes de massa, durante a campanha do SPD pela democratização do sistema eleitoral neofeudal prussiano, que Kautsky contrapôs a necessidade de uma ‘guerra de esgotamento’ mais prudente pelo proletariado alemão contra o seu inimigo de classe, sem incorrer nos riscos inerentes às greves de massa. A introdução da teoria das duas estratégias – de esgotamento e de derrocada – foi assim o que cristalizou as razões da cisão decisiva no seio do marxismo ortodoxo na Alemanha antes da Primeira Guerra Mundial” (Anderson, 1986, p. 89).


Anderson acrescenta que isto não é apenas semelhança formal, pois Kautsky também justifica sua posição através de uma diferença regional, equivalente a de Gramsci sobre oriente e ocidente, e pensava que, por estar na Europa ocidental, a sua estratégia seria conquistar a maioria no parlamento através de uma série de campanhas eleitorais, o que não poderia ocorrer na Rússia Czarista por não haver regime democrático. O debate chegou até a Rússia e Lênin, um kautskista, tomou partido da posição de Kautsky.

Em síntese, apesar de algumas imprecisões e contradições aparentes, Gramsci concebe uma concepção política essencialmente reformista, o que é reforçado por suas considerações sobre eleições, governo, direito, ou seja, em nenhum momento se coloca a questão da ruptura revolucionária e em todo o momento o que se vê são considerações sobre organizações, ações, práticas, voltadas para a sociedade capitalista, para a conquista da hegemonia, sem ruptura. Assim, apesar das interpretações que buscam unir o “jovem Gramsci” e o “Gramsci da maturidade” para lhe dar maior radicalidade e um caráter revolucionário (inclusive se esquecendo que o “jovem Gramsci” não era tão revolucionário assim) para sua obra, o que é uma deformação muito mais do que uma interpretação correta, o maquiavélico pensador italiano era um reformista.

Referências:

ANDERSON, Perry. As Antinomias de Gramsci. In: ANDERSON, Perry. A Estratégia Revolucionária na Atualidade. São Paulo, Joruês, 1986.

GRAMSCI, Antonio. A Concepção Dialética da História. 6ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1988.

GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, A Política e o Estado Moderno. 6ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1988.

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