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sábado, 3 de outubro de 2020

O QUE FOI OCULTADO EM “O DILEMA DAS REDES”

 



O QUE FOI OCULTADO EM “O DILEMA DAS REDES”

 

Nildo Viana

 

O documentário O Dilema das Redes vem ganhando destaque nos meios intelectualizados da sociedade brasileira. Dirigido por Jeff Orlowski (EUA, 2020), é uma “produção original” Netflix. O documentário vem sendo recebido como algo esclarecedor e importante e, mais ainda, sendo indicado para todos compreenderem os dilemas das redes sociais virtuais. O documentário, em si, traz muitas informações interessantes, embora a maioria não fosse novidade para quem é bem informado a esse respeito. Assim, além de algumas informações a mais do que as já conhecidas, o melodrama por detrás da narrativa informativa, que se manifesta via “paradas para pensar” de alguns entrevistados, gestos e principalmente na história ficcional inserida no documentário), revelam a intenção do documentário, que não foi, no entanto, revelada em nenhum momento. A intenção original ficou oculta. É isso que vamos abordar, o lado oculto do documentário, aquilo que ele não quis revelar.



Em síntese, o documentário traz o processo das redes sociais e sua manipulação sobre os indivíduos que as usam, gerando um conjunto de problemas, como os psíquicos (em certo momento se mostra uma menina chorando diante do espelho e um dos entrevistados fala em “padrão de beleza” inalcançável), a questão da agressividade e o “discurso de ódio”, e, principalmente, a nova forma de conservadorismo – e somos brindados com imagens de Jair Bolsonaro – e tudo isto com base em entrevistas de ex-funcionários (executivos) de Facebook, Pinterest, Twitter, Instagram, Google, etc., mostrando o processo de manipulação, a força do algoritmos e outros processos que os bem informados já sabiam. No fundo, o que os entrevistas “revelam” (para os que ainda não sabiam) é que o objetivo dessas redes sociais é lucrar e para tal realiza uma manipulação ampla e que usa as indicações, o perfil do usuário, etc. E esse processo de manipulação gerou um problema. Chega a ser patético quando o entrevistador pergunta para vários entrevistados “qual é o problema?” e há uma pausa... eles não sabem qual é o problema? Ou sabem, mas é difícil formular sem revelar algo que é para ficar oculto?

Depois dessa síntese, podemos focalizar o que foi ocultado. O documentário ocultou a realidade concreta, a sociedade, as determinações que geram e reproduzem as redes sociais. Mas não foi só isso. Ocultou a razão do remorso dos ex-funcionários das megaempresas da internet. E não fica apenas nisso, pois também ocultou quem são os responsáveis pelo documentário e o que eles representam. Por fim, o ocultaram que quem produziu e divulgou o documentário realiza a mesma manipulação denunciada por ele. Então vamos analisar cada um desses ocultamentos.

O primeiro ocultamento é a sociedade, pois ela não aparece. Não é de se estranhar vendo milhares de sociólogos assistindo o documentário e em nenhum momento se perguntar: cadê a sociedade? Assim, parece que os sociólogos – não todos, obviamente, mas nenhum se manifestou sobre isso até agora, pelo que sabemos – acreditaram no discurso inicial do documentário. O discurso inicial é simplesmente mágico, ou, em termos marxistas, fetichista. Um funcionário afirma: “fomos ingênuos” diante do “outro lado da moeda” (na legenda) ou em relação aos “efeitos colaterais” (dublagem, embora a legenda seja mais fiel aos termos usados). Ou seja, tudo parece que ia muito bem, pois essas ferramentas criaram coisas boas, como se coloca em várias oportunidades. Mas o fetichismo ocorre quando o entrevistado diz que “essas coisas ganham vida própria quando são libertas”, ou então quando outro questiona se isso é normal “ou será que estamos sob algum tipo de feitiço? (ex-designer “ético” do Google).

O que fica oculto é a sociedade, as determinações desse processo. Fica ausente o desenvolvimento tecnológico e seu vínculo com a mercantilização das relações sociais, bem como a emergência de uma nova fase do capitalismo e sua mutação cultural, com a instauração de um paradigma subjetivista. Ora, sem dúvida, seria pedir muito para eles colocarem isso. Há até um momento em que o funcionário que fala do “outro lado da moeda” afirmando que ocorreram mudanças no mundo (e atribuindo elas às redes sociais, tais como a Primavera Árabe). Porém, a junção de um amplo desenvolvimento tecnológico mercantilizado (os computadores e os celulares, condições de possibilidade das redes sociais, só são popularizados e se tornam consumo compulsório  por serem mercadorias e servem de impulso para mais uma onda de acumulação capitalista) e o subjetivismo reinante acontece com a expansão do neoliberalismo que, nos Estados Unidos, surgiu em sua forma inflexível como Ronald Reagan, mas logo assumiu ares mais “democráticos” como que Nancy Fraser denominou “neoliberalismo progressista”.

Assim, quem está por detrás das redes sociais, das plataformas, da tecnologia, das empresas que dão vida a isso tudo, são grandes empresas capitalistas. E a força disso tudo emerge, fundamentalmente, no Vale do Silício. Nancy Fraser novamente é útil nesse momento:

Nos EUA, o neoliberalismo progressista é uma aliança entre, de um lado, correntes majoritárias dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBT) e, do outro lado, um setor de negócios baseado em serviços com alto poder “simbólico” (Wall Street, o Vale do Silício e Hollywood). Nesta aliança, as forças progressistas se unem às forças do capitalismo cognitivo, especialmente à “financeirização”. Embora involuntariamente, o primeiro oferece ao segundo o carisma que lhe falta. Ideais como diversidade e empoderamento, que poderiam em princípio servir a diferentes fins, hoje dão brilho a políticas que destruíram a indústria e tudo aquilo que antes fazia parte da vida da classe média[1].

Apesar da terminologia problemática, Fraser coloca claramente o significado do Vale do Silício e suas alianças. Essa vertente do neoliberalismo, progressista burguesa, conseguiu dominar e hegemonizar o bloco progressista (que nos EUA sempre foi fraco e nunca disputou efetivamente o poder, mas no Brasil e outros países é mais forte, mas que também tiveram um processo semelhante, tal como se vê no que já foi denominada “americanização das esquerdas brasileiras”)[2].

Assim, as determinações sociais não aparecem, ficam ocultas. E a sociedade que gera todo esse processo também. E qual o motivo do remorso dos ex-funcionários das empresas capitalistas por detrás das redes sociais? A citação de Fraser acima já mostra algo disso. Ora, em primeiro lugar, o objetivo era o lucro. O depoimento e as cenas finais mostram isso, embora no final aparece como algo não muito bom. Tem até afirmação de entrevistado como se fosse algo ruim. O que, obviamente, é mentira. Seria ingenuidade pensar que os entrevistados seriam todos ingênuos, que não teriam valores burgueses, que não entraram no processo para ganhar dinheiro. Sem dúvida, eles certamente estavam dominados pelas ideologias correspondentes ao subjetivismo e envolvidos na aliança em torno do neoliberalismo progressista, mas a motivação de suas ações não foram “concepções políticas” ou “culturais” e sim o dinheiro, que é o que move o capitalismo e é o que domina nessas instâncias e essas pessoas. Teríamos que ser muito ingênuos para acreditar que a “intenção poderia ser melhorar o mundo”. E não deixa de ser cômico ver que alguns entrevistados eram responsáveis pelo aspecto financeiro do processo.

Então por qual motivo o remorso? É preciso entender que o remorso não é por causa da manipulação. O remorso é pelo motivo de que o processo de manipulação “ganhou vida própria”, ou, “o feitiço virou contra o feiticeiro”. As redes sociais não são autônomas e independentes, como querem nos fazer crer. Elas reproduzem a sociedade capitalista[3]. E como a sociedade capitalista é dividida em classes, existem distintos interesses, subdivisões (frações de classes, partidos, países, grupos sociais, etc.), então seria de se esperar que outros também usassem a manipulação. O remorso, portanto, não é em relação à manipulação, mas por ela não ser controlada totalmente pelos seus idealizadores e praticantes, deixando que outros, como Putin, Trump e Bolsonaro, possam utilizá-la, inclusive contra o neoliberalismo progressista.

Outra coisa que ficou oculta foi quem são os responsáveis e produtores do documentário? O que eles representam? Já dissemos isso ao falar dos entrevistados, mas não custa retomar e apontar o nome, pois poucas pessoas se preocupam em saber que é o diretor do documentário e quem é o financiador. O diretor é Jeff Orlowski. Ele trabalhou com a Apple, National Geographic, Stanford University e o Jane Goodall Institute, entre muitos outros. Seus trabalhos foram transmitidos pela Netflix, National Geographic Channel, CNN e NBC e foi apresentado no The New York Times, The Wall Street Journal, revista Time, NPR e Popular Mechanics. Ele viajou em turnê representando o Instituto Sundance, Comitê do Presidente Obama para as Artes e Humanidades e o National Endowment of the Arts. Essas informações, acessíveis no Wikipédia dos Estados Unidos, mostram seus vínculos com o Vale do Silício e com o neoliberalismo progressista, vinculado, fundamentalmente, ao Partido Democrata. A referência a Obama, Netflix, Wall Street Journal, não é gratuita.

E quem financiou a produção? Ora, todos que são mais atentos perceberam que é uma “produção original Netflix”. E as pessoas bem informadas sabem que a Netflix é parte do neoliberalismo progressista ao lado de Hollywood e do que é hegemônico no capital cinematográfico contemporâneo. A Netflix representa o neoliberalismo progressista, o subjetivismo e suas ideologias correspondentes, etc. Basta ver o outro lançamento da Netflix, Enola Holmes, no qual a irmã de Sherlock Holmes é a protagonista, cuja mãe é feminista e possui obras de autoras feministas. As referências ao feminismo nas produções da Netflix é abundante[4], bem como as outras temáticas que são o foco do neoliberalismo progressista e sua ideia de diversidade, inclusão, que, no fundo, é a ideia de cooptação, divisionismo, entre outros elementos que visam conter as contradições da sociedade capitalista, especialmente as de classe. E conseguiram adestrar o bloco progressista, que ficou – com raríssimas exceções – a reboque do neoliberalismo progressista e suas pautas, mas não conseguiram abafar o “outro lado da moeda”, para recordar a expressão de um dos entrevistados, os conservantistas e outros reacionários. Inclusive, ao enfraquecer o bloco progressista anexando-o e também o bloco revolucionário, deixou que a insatisfação acabasse sendo canalizada pelos reacionários. Aqui, o feitiço foi uma estratégia que virou contra o estrategista.

E o último ocultamento é o que se refere ao fato de quem produziu e financiou o documentário que denuncia a manipulação também efetiva um processo manipulatório tão intenso quanto o denunciado. A carreira de Jeff Orlowski demonstra isso, mas o leitor pode perceber isso mais facilmente na empresa capitalista financiadora do documentário, a Netflix. Ela usa os mesmos procedimentos acusados no filme. Afinal, qualquer assinante sabe dos seus e-mails para atrair ou retomar o público, as suas indicações baseadas nas preferências e assistências anteriores, as notas dos filmes (que agora é só um curtir, mas era antes um nota de zero a cinco), as indicações na própria plataforma, os destaques apresentados, etc. Porém, a manipulação está no próprio documentário e para isso o melodrama e a ficção inserida no seu interior, a música de fundo, a narrativa, etc. tudo é um processo de manipulação. Inclusive a maior manipulação se revela ao mostrar o que é realmente ruim: os reacionários também manipularem as redes sociais.

Os entrevistados parecem bem intencionados e ingênuos. Isso ajuda a se tornar mais convincente. Quem cria fake News são os reacionários, não os neoliberais progressistas. Ora, isso nada tem a ver com a verdade. Quem criou as ferramentas e iniciou o processo foram os neoliberais progressistas. Pode até ser que um ou outro é “ingênuo”. Os técnicos responsáveis pelo Google, Facebook, Youtube, não se diferenciam muito dos intelectuais “ingênuos” a serviço do poder. Servem ao capital e ao poder e não possuem muita consciência disso e quando começam a ter consciência, perguntam pateticamente: “meu Deus, o que que eu fiz?” E aí se “esquecem” que vários já haviam alertado sobre o que eles faziam. Muitos estão lendo esse texto agora e vão negar sua veracidade e depois vão “esquecer” que alguém já tinha avisado. Mas isso é apenas naqueles supostos “ingênuos”, mas a princípio nenhum dos entrevistados parecem estar nessa situação. Inclusive as suas performances melodramáticas – um misto de preocupação real com os reacionários e o governo Trump e de uma dramatização para ter maior eficácia simbólica, apontam para mais uma manipulação. Eles são especialistas nisso. Assim, um afirma que redes sociais não são uma ferramenta, está “te seduzindo, manipulando, pedindo que você faça algo”, abstraindo que, desde o início, elas sempre foram ferramentas, mas dominadas pelo capital, visando despertar consumo e gerar lucro, e, secundariamente, influenciar politica e culturalmente. Todo o problema do documentário expressa que a manipulação em seu aspecto secundário, expressão do subjetivismo e neoliberalismo progressista, acabou sendo desviado pelo reacionarismo.

Essa é a maior manipulação e ocultamento do documentário. É também o que é mais comum no capitalismo. Um dos lados em disputas faz todo um discurso mostrando os perigos, os problemas, a manipulação, como se fosse um lado “neutro”, como se não expressasse interesses, valores, concepções, etc. É como um sociólogo fazendo um discurso moralista a partir de uma determinada perspectiva para outro sociólogo, que seria parcial por ter posições revolucionárias, ou então os pândegos do “Escola sem Partido” denunciando a doutrinação dos “esquerdistas” como se não quisessem apenas ser os “novos” doutrinadores (e esquecendo quem eram os doutrinadores da época do regime militar com sua “Educação Moral e Cívica”). O ocultamento dos interesses e posição de classe de quem faz o discurso e seus interesses mais delimitados no âmbito da luta política institucional e cultural é o principal elemento do documentário. O documentário é, no fundo, apenas mais um capítulo da manipulação, que, curiosamente, tematiza a manipulação, mas sempre a atribui ao erro, quando é realizada por eles mesmos, ou ao “mal”, quando é realizada pelos outros.

Como já dizia Sartre, “nem uma pedra é neutra”[5], e a Netflix não tem nada de neutra, ela tem uma orientação cultural e efetiva a política cultural burguesa hegemônica, que sofreu algumas derrotas para os reacionários e agora está numa situação difícil e que poderá sofrer uma reorientação (e isso vai depender do desdobramento da desestabilização do regime de acumulação integral, da força do reacionarismo, das consequências da pandemia do coronavírus, das lutas sociais, etc.). Um assistente atento das séries da Netflix pode ver a manipulação apenas assistindo e observando algo que é constante geralmente no terceiro capítulo da primeira temporada. Ao assistir algumas séries e observar o que emerge nesse momento, saberá que é muita coincidência para não ser manipulação. Deixarei aos curiosos essa descoberta, mas o processo manipulatório é simples: se apresenta os personagens, cria-se familiaridade do assistente com eles e uma certa simpatia em relação a alguns deles, e depois se apresenta uma nova faceta dos mesmos, e com isso uma maior aceitação de suas características reveladas, bem como gerando uma dificuldade para que alguns assistentes deixem de assistir a série, pois já se vincularam a ela.

Da mesma forma, os assistentes atentos saberão que a série Casa de Papel teve uma mudança cultural na sua terceira temporada, ao passar a ser uma produção Netflix. Um especial sobre essa série, disponibilizada nesse mesmo serviço de streaming, coloca que as duas primeiras temporadas foram produções espanholas independentes e depois passa a ser produzida pela empresa capitalista norte-americana. É nesse momento que ocorre a mutação discursiva, ou seja, a partir da terceira temporada, e o novo discurso – sem muita relação com a trama e com as temporadas anteriores - se torna tão perceptível que basta ver os discursos repetitivos e enfadonhos sobre machismo, misoginia e outros pulando como grilos desesperados das telas para as cabeças dos assistentes em seus sofás).

A manipuladora Netflix faz um documentário sobre (e aparentemente contra) a manipulação. E aí voltamos ao mesmo discurso de sempre: quem manipula são apenas os outros. A ideia do enunciador do discurso, sobre sua suposta neutralidade ou inocência, é acompanhada pela acusação ao outro de fazer o que é condenado. A Netflix, uma grande manipuladora, que tem mais de 160 milhões de assinantes, tem um forte impacto na sociedade. As pesquisas no Google sobre “excluir o facebook” aumentou em 260%, bem como houve “uma queda de 50 milhões de horas por dia na plataforma”, o que gerou a resposta do Facebook[6]. Mas o Facebook não faz parte do mesmo campo político e cultural? Sim, faz, mas o lucro é o fundamental e a Netflix está atrapalhando os lucros da famosa rede social. Conflitos no paraíso do dinheiro e do neoliberalismo progressista. Mas a Netflix está lucrando com o documentário. Nem todos podem ganhar ao mesmo tempo.

O problema é que a maioria da população nunca ganha e só quando avançar na consciência e autoformação poderão enxergar os processos manipulatórios, tanto dos acusados quanto dos acusadores, e criar mecanismos distintos. Ao invés de sair do facebook, criar uma rede no interior da rede que fuja da polarização entre reacionários e neoliberais progressistas (apoiados pelos progressistas de esquerda) seria uma ação possível. Os reacionários conseguiram romper com o domínio absoluto dos neoliberais progressistas, mas eles possuem muito dinheiro, tal como seus concorrentes. A população só tem o seu número ao seu favor, mas a desunião retira sua eficácia e, por conseguinte, é preciso superar o divisionismo partidário, cultural, entre outros, para poder enfrentar os donos do capital e do poder. A formação e autoformação e a união são as únicas formas de escapar e combater a manipulação.

 



[2] LINDGEN ALVES, J. A. Excessos do Culturalismo: Pós-Modernidade ou Americanização da Esquerda? Disponível em: https://revolucio2080.blogspot.com/2019/06/excessos-do-culturalismo-pos.html acesso em: 28/06/2019.

[3] Cf. VIANA, Nildo. Os Movimentos Sociais e a Internet. In: https://informecritica.blogspot.com/2019/04/movimentos-sociais-e-internet.html

[4] Curioso é que muitas feministas que se colocam do lado do bloco progressista não se perguntarem por qual motivo as poderosas empresas capitalistas viraram partidárias do feminismo.

[5] SARTRE, Jean-Paul. Em Defesa dos Intelectuais. São Paulo: Ática, 1994.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

A ELEIÇÃO DE DONALD TRUMP E O FIM DO NEOLIBERALISMO PROGRESSISTA - Nancy Fraser


A ELEIÇÃO DE DONALD TRUMP E O FIM DO NEOLIBERALISMO PROGRESSISTA

Nancy Fraser*


A eleição de Donald Trump faz parte de uma série de grandes revoltas políticas que, juntas, sinalizam o colapso da hegemonia neoliberal. Elas incluem a votação pelo Brexit, no Reino Unido, a rejeição das reformas do então primeiro-ministro Matteo Renzi, na Itália, a campanha de Bernie Sanders pela nomeação como candidato do Partido Democrático, nos Estados Unidos, e o crescente apoio à direitista Frente Nacional francesa, dentre outras. Embora sejam diferentes em ideologia e objetivos, estas insurreições eleitorais compartilham a mesma meta: todas elas rejeitam a globalização corporativa, o neoliberalismo e o establishment político que os promove. Em todos estes casos, os eleitores disseram “Não!” à combinação letal de austeridade, livre comércio, débito predatório e empregos precários e mal pagos, elementos que caracterizam o capitalismo financeiro dos dias atuais. Seus votos são uma resposta à crise estrutural desta forma de capitalismo, que se tornou patente a partir do colapso quase total da ordem financeira mundial em 2008.

Até recentemente, no entanto, a principal resposta à crise foi o protesto popular – dramático e intenso, certamente, mas em grande medida efêmero. Os sistemas políticos, em contraste, pareceram relativamente imunes, sendo ainda controlados por funcionários partidários e pelas elites do establishment, ao menos em Estados capitalistas poderosos, como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha. Hoje, contudo, o impacto eleitoral reverbera em todo o mundo, incluindo as grandes capitais financeiras do mundo. Os que votaram em Trump, assim como os que votaram pelo Brexit e contra as reformas na Itália, revoltaram-se na verdade contra os grandes donos da política. Torcendo o nariz para o establishment partidário, repudiaram o sistema que erodiu sua qualidade de vida ao longo dos últimos 30 anos. A surpresa não é que tenham feito isso, mas que tenham demorado tanto tempo.

Ainda assim, a vitória de Trump não é unicamente uma revolta contra as finanças globais. O que seus eleitores rejeitaram não foi simplesmente o neoliberalismo, mas o neoliberalismo progressista. A expressão pode soar como um oxímoro, mas é um alinhamento político real e perverso que explica os resultados da eleição norte-americana e, talvez, alguns dos desenvolvimentos políticos em outras partes do mundo. Nos EUA, o neoliberalismo progressista é uma aliança entre, de um lado, correntes majoritárias dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBT) e, do outro lado, um setor de negócios baseado em serviços com alto poder “simbólico” (Wall Street, o Vale do Silício e Hollywood). Nesta aliança, as forças progressistas se unem às forças do capitalismo cognitivo, especialmente à “financeirização”. Embora involuntariamente, o primeiro oferece ao segundo o carisma que lhe falta. Ideais como diversidade e empoderamento, que poderiam em princípio servir a diferentes fins, hoje dão brilho a políticas que destruíram a indústria e tudo aquilo que antes fazia parte da vida da classe média.

O neoliberalismo progressista foi desenvolvido nos Estados Unidos ao longo das três últimas décadas, tendo sido ratificado pela eleição de Bill Clinton em 1992. Clinton foi o principal arquiteto e defensor dos ideais dos “Novos Democratas”, o equivalente americano do “Novo Trabalhismo” de Tony Blair. No lugar da coalização à la New Deal entre trabalhadores sindicalizados do setor industrial, afro-americanos e classes médias urbanas, Clinton forjou uma nova aliança entre empresários, a classe média dos subúrbios, novos movimentos sociais e juventude, levando-os a proclamar juntos sua boa fé moderna e progressista, sua aceitação da diversidade, do multiculturalismo e dos direitos das mulheres. Ao mesmo tempo em que apoiava estas ideais progressistas, o governo Clinton cortejava Wall Street. Entregando a economia à Goldman Sachs, ele desregulou o sistema bancário e negociou acordos de livre comércio que aceleraram o processo de desindustrialização. Isso significou o fim do cinturão da ferrugem (o “Rust Belt”), outrora a maior fortaleza da democracia social do New Deal, que corresponde à região que na última eleição entregou a vitória a Donald Trump. O cinturão, assim como os novos centros industriais do sul, sofreu um grande baque à medida que a financeirização se desenvolveu ao longo das últimas duas décadas. Continuadas por seus sucessores, incluindo Barack Obama, as políticas de Clinton degradaram as condições de vida de toda a classe trabalhadora, mas especialmente a dos funcionários do setor industrial. Em suma, o clintonismo carrega uma grande parcela de culpa pelo enfraquecimento dos sindicatos, pela queda dos salários reais, pela crescente precariedade das condições de trabalho e pelo surgimento da família com dois provedores.

Aliás, conforme sugerido pelo último item, o ataque à segurança social foi reinterpretado por meio de um discurso emancipatório carismático, emprestado dos novos movimentos sociais. Ao longo dos anos, à medida que o setor industrial ruía, o país ouviu falar muito de “diversidade”, “empoderamento” e “não discriminação”. Ao identificar “progresso” com meritocracia, em vez de igualdade, o discurso igualou o termo “emancipação” à ascensão de uma pequena elite de mulheres “talentosas”, minorias e gays na hierarquia corporativista exclusivista. Esta compreensão individualista e liberal de “progresso” gradualmente substituiu o entendimento de emancipação mais abrangente, anti-hierárquico, igualitário, sensível às questões de classe e anticapitalista, que prosperou nos anos 1960 e 70. À medida que a Nova Esquerda sucumbia, sua crítica estrutural da sociedade capitalista desapareceu, e o pensamento individualista e liberal característico de nosso país se reafirmou, abalando imperceptivelmente as aspirações dos “progressistas” e autodeclarados esquerdistas. O que selou o acordo, no entanto, foi o fato de tais acontecimentos terem sido simultâneos à ascensão do neoliberalismo. Um partido que apoie a liberalização da economia capitalista é o parceiro perfeito para o feminismo corporativo e meritocrático focado em “assumir riscos” e “superar as barreiras da discriminação de gênero no trabalho”.

O resultado foi um “neoliberalismo progressista” que misturou ideais truncados de emancipação com formas letais de financeirização. Foi esta a mistura que os eleitores de Trump rejeitaram. Dentre os que foram deixados para trás neste admirável mundo novo e cosmopolita estão os operários, mas também gerentes, pequenos empresários, e todos aqueles que dependem da indústria do cinturão da ferrugem e do sul, bem como as populações rurais devastadas pelo desemprego e pelas drogas. Para estas populações, os danos causados pela desindustrialização foram acrescentados aos insultos do moralismo progressista, que os acusa frequentemente de serem culturalmente atrasados. Rejeitando a globalização, os eleitores de Trump também repudiaram o cosmopolitismo liberal que a ela associavam. Para alguns (embora de maneira alguma isto se aplique a todos), não foi difícil culpar, pela deterioração de suas condições de vida, a cultura do politicamente correto, as pessoas negras e as latinas, os imigrantes e os muçulmanos. Aos olhos deles, as feministas e os poderosos de Wall Street são figuras semelhantes, perfeitamente reunidas na pessoa de Hillary Clinton.

O que tornou possível esta percepção foi a ausência de uma esquerda genuína. Apesar de comoções periódicas, como o Occupy Wall Street, que acabou não durando muito tempo, há décadas a esquerda não se apresenta como uma força estável na política dos Estados Unidos. Também não havia qualquer narrativa de esquerda compreensível, que poderia relacionar as queixas legítimas dos apoiadores de Trump a uma crítica abrangente da financeirização, por um lado, e a uma visão antirracista, antimachista e anti-hierárquica da emancipação, por outro. Igualmente devastador foi o fato de que as possíveis relações entre novos movimentos trabalhistas e sociais foram simplesmente ignoradas. Apartados um do outro, estes dois polos indispensáveis para uma militância viável de esquerda chegaram a ser vistos como antíteses.

Foi assim pelo menos até o início da notável campanha pelas primárias de Bernie Sanders, que lutou para reuni-los, embora tenha enfrentado certa resistência inicial da parte do movimento Black Lives Matter. Dinamitando o senso comum neoliberal em vigência, a revolta de Sanders foi o equivalente democrata ao que ocorria com Trump entre os republicanos. Enquanto Trump ainda estava lutando pela aprovação do establishment republicano, Bernie chegou muito perto de derrotar a sucessora ungida de Obama, cujos lacaios controlavam todas as alavancas do poder no Partido Democrata. Entre si, Sanders e Trump obtiveram a aprovação da grande maioria dos eleitores americanos, mas apenas o populismo reacionário de Trump sobreviveu. Trump venceu com facilidade seus rivais republicanos, incluindo os que eram favorecidos por grandes doadores e chefes do partido, mas a insurreição pró-Sanders foi efetivamente minada por um Partido Democrata muito menos democrático. No momento das eleições gerais, uma alternativa de esquerda havia sido efetivamente solapada. O que sobrou foi o “pegar ou largar” da escolha entre o populismo reacionário e o neoliberalismo progressista. Quando a chamada esquerda se resolveu em prol de Hillary Clinton, o rumo dos acontecimentos já estava traçado.

Esta é uma alternativa que a esquerda teria de recusar. Em vez de aceitar os termos apresentados a nós pelas classes políticas, que opõem emancipação a proteção social, deveríamos trabalhar no sentido de redefini-los, tendo como apoio a crescente repulsa da sociedade contra a ordem atual. Em vez de nos aliarmos ao ideal da financeirização-com-emancipação contra a proteção social, deveríamos construir uma nova aliança entre emancipação e proteção social, contra a financeirização. Neste projeto, que se alinha ao de Sanders, emancipação não significaria diversificar a hierarquia corporativa, mas antes aboli-la. Da mesma forma, prosperidade não significaria aumento de valor acionário ou lucro corporativo, mas a disponibilização a todos os cidadãos dos requisitos materiais necessários para uma vida confortável. Esta combinação continua sendo a única resposta digna e vitoriosa na conjuntura atual.

Eu não derramo lágrimas pela derrota do neoliberalismo progressista. Certamente, há muito o que temer de uma administração Trump racista, anti-imigrantes e antiecológica. No entanto, não deveríamos entrar em luto nem pela implosão da hegemonia neoliberal, nem pelo desmantelamento do poder do clintonismo sobre o Partido Democrata. A vitória de Trump foi uma derrota para a aliança entre emancipação e financeirização. Mas sua presidência não oferecerá nenhuma resposta à crise atual, nenhuma promessa de um novo regime, nenhuma hegemonia segura. O que veremos, em vez disso, é um interregnum, uma situação instável de abertura em que novas mentes e corações poderão ser conquistados. Nesta situação, não há apenas perigo, mas também oportunidade: é a chance de construir uma nova nova esquerda.

Se isso ocorrerá ou não depende, em parte, de uma reflexão profunda da parte dos progressistas que apoiaram a campanha de Hillary Clinton. Eles terão de deixar de lado a cômoda, mas falsa narrativa de que perderam para um “grupo de deploráveis” (racistas, misóginos, islamofóbicos e homofóbicos) ajudados por Vladimir Putin e pelo FBI. Eles terão de reconhecer que têm sua parcela de culpa, ao sacrificar a causa da proteção social, do bem estar material e a dignidade da classe trabalhadora em prol de uma falsa compreensão de emancipação, definida em termos de meritocracia, diversidade e empoderamento. Eles terão de refletir profundamente sobre como podemos transformar a economia política do capitalismo financeiro, revivendo o chamado de Sanders por um “socialismo democrático” e descobrindo o que isto pode significar no século 21. Terão, acima de tudo, de se dirigir às massas que elegeram Trump – ao menos àquela parcela que não é composta por racistas ou extremistas de direita, mas é igualmente vítima de um sistema efetivamente “fraudado”. Estes cidadãos podem e devem ser recrutados para um projeto antineoliberal de uma esquerda renovada.

Isto não significa que teremos de nos calar sobre as urgentes questões colocadas pelo racismo e pelo machismo. O que teremos de fazer é mostrar como estas antiquíssimas formas de opressão encontram nova expressão e terreno nos dias de hoje por meio do capitalismo financeiro. Rebatendo a falsa noção de uma cisão irreconciliável, devemos relacionar os preconceitos sofridos pelas mulheres e por minorias étnicas às dificuldades enfrentadas pelos eleitores de Trump. Desta forma, uma esquerda revitalizada poderia lançar as bases de uma nova e poderosa coalizão, comprometida com a luta em prol de todos os oprimidos.






* *Nancy Fraser é professora de filosofia e política na New School for Social Research (Nova York) e autora, mais recentemente, de "Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis" ("Fortunas do Feminismo: do Capitalismo de Estado à Crise Neoliberal", em tradução livre) pela editora Verso em 2013. Artigo publicado originalmente na revista Dissent Magazine.
Tradução: Henrique Mendes

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