Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

Mostrando postagens com marcador Alienação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alienação. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de setembro de 2026

PSICANÁLISE DA ILUSÃO ELEITORAL - Nildo Viana

 

Erich Fromm analisando um eleitor...

PSICANÁLISE DA ILUSÃO ELEITORAL

 

 

Nildo Viana

 

Temos uma escolha. Fugir em pânico ante a iminência do desmoronamento das nossas estruturas; acovardar-nos com a perda dos portos conhecidos; fi­car paralisados, inertes e apáticos. Fa­zendo isso, estamos abrindo mão da oportunidade da formação do futuro. Estamos negando a característica mais distintiva do ser humano – influenciar a evolução do meio do reconhecimento consciente – , capitulando frente à força destrutiva e cega da história, de­sistindo de moldar uma sociedade fu­tura mais justa e mais humana. Ou será que devemos lançar mão de toda cora­gem necessária para preservar nossos sentimentos, nossa consciência e res­ponsabilidade ante a mudança radical? Participar conscientemente, mesmo em pequena escala, da formação da nova sociedade? Espero que esta seja a esco­lha, pois nela baseio minha dissertação.

Rollo May

 

A época das eleições revela um conjunto de comportamentos e discursos considerados “irracionais”, sendo que alguns são razoabilizados (“racionalizados”). Diversas pessoas que passam a sua vida inteira alheia às questões políticas e sociais mais amplas, de repente, como num passe de mágica, se tornam ardorosos defensores de candidatos A ou B. Depois de três anos de completo apolicitismo, emergem figuras que do nada se julgam entendidos em política e que devem convencer os demais a qualquer custo. Um comportamento irracional[1].

Isso remete ao problema psíquico das eleições e das ilusões eleitorais e, por conseguinte, alguns aspectos da psicanálise podem contribuir com a compreensão desse fenômeno psíquico.

O Desejo Fetichizado

O primeiro elemento é entender as motivações desse comportamento, que possuem pouca ou nenhuma racionalidade. Sendo que sua motivação não é racional, então talvez seja interessante descobrir quais são suas reais motivações. Obviamente que excluímos da análise aqueles que possuem interesses (pessoais, grupais, etc.) envolvidos em sua escolha eleitoral, que abordamos em outra oportunidade[2]. Aqui se trata do caso de pessoas que não possuem nenhum interesse pessoal ou grupal no processo eleitoral e se tornam, repentinamente, defensores insistentes de determinados candidatos, o que torna a ausência de racionalidade ainda mais perceptível. A psicanálise[3] é extremamente útil para explicar esse comportamento irracional.

E nada melhor do que um psicanalista servir de exemplo para análise. Um psicanalista profissional geralmente é alheio às questões políticas, mas não deixa de se envolver no processo eleitoral. Vejamos o que diz o psicanalista Contardo Calligaris:

Votar talvez seja um rito e uma espécie de ato de fé. Mas o momento crucial desse rito não é coletivo – ao contrário, ele é estritamente reservado ao indivíduo. Rito de qual culto, então? E ato de fé em quê? Pois é, ninguém (salvo ilusões e delírios) acredita que, depositando nosso voto na urna, a gente possa mudar o mundo. Mas, paradoxalmente, votamos exatamente por isso, para confirmar nossa fé no poder de os indivíduos modificarem o mundo[4].

Essa é a questão fundamental que atinge grande parte da população. A ilusão eleitoral se fundamenta, em grande parte dos casos, numa “fé”, num desejo, numa crença. O conceito de crença necessita ser revisto e ampliado, mas é ele que consegue dar conta dessa realidade. Trata-se de uma crença fundada num desejo. A questão é que não é um desejo como os outros que temos na nossa vida. É um tipo específico de desejo. É um desejo que entra em contradição com a realidade, sendo ilusório, mas que se sustenta por ser fetichizado. É um caso semelhante ao de pessoas que, dominadas pelos valores burgueses da competição, busca de ascensão e riqueza, querem se tornar milionários, mas nada fazem para concretizar tal desejo. Esse tipo de pessoa fica esperando “a grande sorte”, o “destino”, “Deus” ou qualquer outra coisa que produza um resultado sem o trabalho de lutar pra consegui-lo. Algumas pessoas ficam esperando ficar rica sem fazer nenhum esforço para tal. Outros jogam na loteria esperando um dia ser contemplado.

Todos estes exemplos revelam desejos fetichizados. O desejo ganha vida própria, passa a ser um agente da história ou da vida dos indivíduos, se autorrealizando, pois aquele que deseja nada faz para sua realização. Essa forma de desejo é produto da sociedade capitalista e da alienação generalizada (isso será abordado adiante), mas se reproduz na época das eleições. É isso que explica como pessoas geralmente alheias às questões políticas, tanto institucionais (as políticas estatais e processos políticos partidários e parlamentares, ações governamentais) quando no sentido mais amplo (local de trabalho, moradia, estudo, manifestações, movimentos sociais, etc.), repentinamente começam a querer discutir política e colocar como fundamental algo que nem sequer faz parte de sua vida cotidiana.

O desejo fetichizado tem na democracia representativa a sua forma mais cristalina de existência, pois basta você escolher seu “representante” e governante e pronto, pode continuar alheio à vida política. A valoração da política se dá apenas no momento eleitoral, bem como a ação política se reduz ao voto. Depois de heroicamente, como nosso psicanalista acima, votar, o cidadão vai para casa e passa a cuidar de sua vida privada. O desejo fetichizado de mudança ou qualquer outro é fetichista e por isso tem a ver com a fé, tendo um mecanismo psíquico semelhante, pois se trata de uma crença. Ele é uma mistura de vontade intensa e conformismo prático. Em alguns, o conformismo prático pode até gerar um certo ativismo para que o desejo fetichizado, ainda sob forma fetichista, seja “realizado” (pedir votos, fazer “promessas” – como algumas pessoas religiosas fazem, ir na loteria toda semana jogar, etc.).

O desejo fetichizado provoca uma pseudestesia (falsa sensação) de esperança. No caso eleitoral, o eleitor vota e vai cuidar da vida privada, só reaparecendo nas próximas eleições, alguns anos depois. Se o candidato dele perdeu, ele tenta votar no mesmo ou semelhante. Se ganhou e não cumpriu as promessas, ele aceita as supostas explicações ou esquece tal fato e vota novamente. Alguns, nesse caso, podem trocar de candidato. Esse mecanismo psíquico é o mesmo do jogador de loteria que quer ficar milionário: ele joga e perde, mas na semana seguinte e nas posteriores, está novamente fazendo sua “fezinha”[5], nome esclarecedor. Ele continua com sua crença ilusória de que da próxima vez ele poderá ganhar.

A superação do desejo fetichizado em época eleitoral pode ocorrer sob a forma positiva, que é sua substituição por uma esperança verdadeira, na qual o indivíduo busca efetivamente realizar seu projeto e percebe que depende de si mesmo para concretizá-lo, ou sob a forma negativa, que é a sua substituição pelo niilismo, o desejo de destruição de si e/ou dos outros. A sociopsicanálise pode apenas mostrar esse processo psíquico e explicar suas fontes, trazendo a necessidade de superação da situação que gera o desejo fetichizado. O marxismo é fundamental para a explicação dessa situação e por apresentar um projeto alternativo de sociedade, a autogestão social. Da perspectiva da luta política, a luta contra a ilusão eleitoral e o desejo fetichizado deve se aliar com análise da totalidade da sociedade e projeto autogestionário como alternativa.

A Manipulação do Medo

O medo é um sentimento humano normal e comum. Em certos momentos ele pode ser exagerado, quando ocorre processos sociais determinados que geram uma generalização ou intensificação do medo, ou, em casos individuais, quando há desequilíbrio psíquico. O processo eleitoral é um jogo no qual os jogadores (partidos, candidatos, etc.) fazem de tudo para ganhar o mesmo, inclusive passando por cima das próprias regras. Dentre as diversas formas utilizadas para tentar conseguir votos e retirar dos adversários está a manipulação do medo.

A manipulação do medo assume várias formas. Uma das formas é criar relações para atribuir medo. Se utiliza de um sentimento relativamente comum, que é o medo do desconhecido, do estrangeiro, do diferente, para criar uma relação negativa com o(s) adversário(s). Assim é que logo se relaciona o adversário com o “fascismo”, o “comunismo”, etc. Na história das eleições no Brasil, esse procedimento foi utilizado de forma sistemática pela candidatura de José Serra contra a de Luiz Inácio Lula da Silva (2002). A atriz Regina Duarte aparecia no programa eleitoral e chamadas do PSDB  (Partido da Social-Democracia Brasileira) falando que temia a volta da inflação, o fim da estabilidade conquistada pelo governo tucano, o candidato oposto, etc.[6]

Em 2014, disputa entre Dilma Roussef (PT) e Aécio Neves (PSDB), no segundo turno, a mesma manipulação é realizada, só que agora invertida, pois é o PT que usa esse estratagema contra o PSDB. Ou seja, usa o discurso do medo, afirmando que a estabilidade, os parcos programas sociais, entre outras coisas, seriam perdidos caso o candidato adversário ganhasse[7].

Obviamente que o discurso pode parecer convincente, mas é geralmente falso. O interesse de qualquer partido e candidato é manter-se no poder e isso pressupõe manter a governabilidade. Instabilidade financeira, inflação, altas taxas de desemprego, etc., não é interesse de nenhum governo, pois lhe retira apoio, legitimidade e possibilidade de manutenção no poder. Se isso ocorre, é geralmente por causa de forças externas e independente da vontade de cada governo (crise mundial, por exemplo). Tanto é que o medo de Regina Duarte não foi comprovado. Da mesma forma, os programas sociais não seriam retirados se dão retorno eleitoral, a não ser que a situação exija. Assim, de qualquer forma, dificilmente há justificativa para o medo, pois não tende a ver mudança fundamental nos elementos que se utilizam para balançar tal bandeira.

Isso pode ocorrer em alguns casos, quando há excesso de incompetência ou quando o futuro governo tem realmente alguma grande diferença programática e política com o partido no poder durante a eleição. No caso das eleições de 2014, isso não existia, pois os dois partidos em disputa são neoliberais e seguem as diretrizes do grande capital transnacional. Basta recordar o protótipo do programa “bolsa família”, cuja origem é neoliberal, foi gestado no Banco Mundial[8], implantado pelo governo do PSDB e mantido com algumas poucas modificações pelo governo do PT. Com o retorno eleitoral que ele já promoveu, nenhum governo o jogaria na lata de lixo. O mesmo ocorre com diversas outras iniciativas governamentais, o máximo que pode ocorrer é trocar algumas pessoas que estão na gestão dos programas e é aí que está a verdadeira disputa. Claro está também que muitos governos dizem ter realizado conquistas que, no fundo, é produto do desenvolvimento capitalista (o uso de computadores e celulares, por exemplo, tanto é que se espalhou por todo o mundo, mesmo em países muito mais pobres) e dizer mentiras faz parte do jogo eleitoral.

É sempre o partido governista que usa esse estratagema, pois ele é conservador, pois apresenta a tendência da situação piorar com um governo de outro partido e visa apenas conservar as supostas “conquistas”. Isso pode ser reforçado por vínculos, práticas, rótulos, etc., atribuídos (reais ou não) ao adversário.

A manipulação do medo, no entanto, não atinge todo o eleitorado, mas somente parte, que se reconhecem nas supostas “conquistas” (alguns são “convencidos”), os que obtiveram privilégios, os que pensam que realmente pode piorar e atingi-los.

Isso acaba desviando da verdadeira questão: na verdade, quem perderá pessoalmente é apenas os indivíduos com cargos, vantagens e privilégios por estarem ligados ao bloco dominante expresso pelo partido no governo. Em todo o processo eleitoral, o que se troca são as forças provisórias do bloco dominante (indivíduos, partidos, grupos de interesses, etc.) e para esses, realmente é necessário ter medo, pois vão perder algo, sem dúvida.

No caso brasileiro, além do jogo de interesses dos componentes do bloco dominante, perdas reais podem ocorrer, mas isso muito mais por causa da tendência do capitalismo mundial e da dinâmica do capitalismo brasileiro do que por qualquer outra coisa. Sem dúvida, quando o ciclo de crescimento chega ao fim, ele gera problemas e necessidade de reajustes. As políticas estatais de assistência social tendem a diminuir, bem como outros investimentos podem recuar, mas tanto faz quem será o governo, nenhum dos dois partidos em disputa nas eleições tem uma concepção e projeto alternativo ao neoliberalismo e por conseguinte as diferenças são tão pequenas que até que poderiam juntar e fariam juntos o mesmo mal que fariam separados.

A grande questão é que o medo gera retraimento e conservadorismo. Por isso é necessário substituir o medo pela coragem, pelo desafio. Ao invés de escolher entre ficar do jeito que está com algumas promessas de poucas melhorias ou de supostas mudanças é preciso escolher a utopia, a luta pelo que é realmente novo e radicalmente diferente. Escolher entre ser um escravo com o dono X ou com o Y não é escolha. A única escolha digna é abolir a escravidão, os escravos e os donos. Sonho irrealizável? Melhor viver e lutar por um sonho irrealizável do que viver num pesadelo cotidiano e constantemente renovado, recorrente[9].

Ao invés de medo e apoio à reprodução do mundo existente, devemos recusar, nas urnas com o voto nulo, e na vida, com diversas ações e lutas, para superar esse mundo que algumas pessoas ainda insistem em defender, apesar de 1 em cada 7 seres humanos estar passando fome no mundo, da destruição ambiental em escala mundial (e que pode se tornar irreversível), da superexploração da força de trabalho, da miséria psíquica, sexual, cultural, e milhões de outras coisas que poderiam ser elencadas e que são apoiadas e reforçadas por todos os governos de todos os partidos (inclusive os da esquerda).

O único caminho alternativo é sair do discurso dominante e de suas supostas divergências, pois divergem dentro da convergência da reprodução do capital e tudo que é derivado dele e foi citado anteriormente. Medo? Do que deveriam ter medo não têm, pois só conseguem ver o cotidiano, as coisas palpáveis, a vida medíocre e suas necessidades imediatas. Coragem? Essa é necessária para mudar o mundo.

A Alienação Generalizada

O desejo fetichizado, tal como abordamos anteriormente, não emerge do nada, ele tem uma fonte social. Nesse sentido, é fundamental entender as fontes do desejo fetichizado, não só para compreendê-lo, mas também para poder pensar sua superação, o que pressupõe romper com a alienação, o burocratismo, o imobilismo e o conformismo, condições para uma verdadeira esperança e utopia concreta.

O desejo fetichizado ocorre sob várias formas e uma delas é o fetichismo eleitoral. Assim como o fetichismo da mercadoria é explicado pela existência do trabalho alienado, o desejo fetichizado (ou fetichismo eleitoral) é explicado pela generalização da alienação na sociedade capitalista. O trabalho alienado é aquele no qual o trabalhador não possui controle de sua atividade e com isso perde o controle do produto do seu trabalho, gerando a alienação do produto (propriedade privada). A alienação é, assim, uma relação social na qual alguns controlam a atividade de outros e assim usurpam o produto da mesma[10]. Esse processo é mais amplo do que parece à primeira vista, pois a sociedade capitalista realiza um processo de ampliação da divisão social do trabalho, mercantilização e burocratização das relações sociais. A burocratização das relações sociais acaba gerando um processo de controle da vida cotidiana dos indivíduos, através do Estado e seus aparatos (democracia burguesa, aparato repressivo, aparato educacional, aparato comunicacional, etc.) e as empresas e instituições privadas, promovendo também a burocratização da sociedade civil em geral (igrejas, partidos, sindicatos, etc.). Esse processo atinge o conjunto da sociedade, desde 1945. Os indivíduos passam a estar submetidos a diversas instâncias sociais que dirigem sua vida em geral. Os indivíduos são controlados no trabalho, nos estudos, no lazer, estando submetidos a especialistas e burocratas em todos os lugares.

A alienação generalizada da sociedade capitalista promove a mentalidade burocrática, tanto a de caráter dirigista daqueles das classes superiores, especialmente os burocratas (do estado e governos, empresas, instituições em geral) quanto a sua versão submissa dos dirigidos em sua maioria. O que ambos concordam é que há a necessidade de dirigentes e dirigidos. Tantos os indivíduos das classes superiores quanto os das classes inferiores, em sua maioria, aceitam a alienação. Nas classes inferiores, uma grande parte aceita resignadamente, enquanto que outra parte aceita por ambicionar passar de dirigido para dirigente, esperando ascender ao poder.

A mentalidade burocrática é a do controle total e dirigista, produzida e reproduzida por burocratas, capitalistas e pretendentes. Para aqueles que são das classes exploradas, isso se revela, em grande parte dos casos, como submissão e se manifesta mais como mentalidade submissa que justifica e legitima a dominação e direção. A nível da sociedade, isso reforça a estratégia burguesa de canalizar todas as lutas sociais para o Estado, via democracia representativa, na qual as pessoas trocam sua luta direta por escolha de representantes, adesão a partidos e candidaturas, etc., o que significa, em alguns casos, abrir mão da luta para que outro supostamente a faça em seu lugar e em seu nome.

Assim, temos relações sociais concretas marcadas pela alienação e burocratização e mentalidade burocrática e submissa gerada por tais relações e confirmadas cotidianamente por elas e pela própria mentalidade que lhe reforça. Nesse contexto, existe uma recusa da alienação, do burocratismo, do controle e falta de liberdade, mas em grande parte dos casos é insciente ou relegada a mero desejo fetichizado. Aqui temos um processo de alienação generalizada e produção de desejo fetichizado.

O processo de superação do desejo fetichizado de liberdade e de eliminação da burocracia e da alienação, elementos inseparáveis, ocorre através da luta e, especialmente, da práxis. A luta é necessária e é a primeira forma de liberdade e superação da alienação e burocratismo, pois nós mesmos agimos em busca da liberdade, já sendo sua manifestação inicial. Contudo, isso deve ser teleológico (com uma finalidade, a liberdade real, autoemancipação e autogestão das lutas visando a autogestão social), consciente e ativo, por isso práxis. A negação prática é mais rica, profunda e eficaz quando é também negação consciente e teórica.

Ora, se há uma alienação generalizada na sociedade capitalista, então devemos lutar também sob forma generalizada contra ela. Trata-se de uma luta generalizada visando instaurar e generalizar a autogestão (das lutas para conseguir torná-la autogestão do conjunto das relações sociais, ou seja, da sociedade como um todo). Esse processo de luta não pode ser, no entanto, separado das relações sociais existentes e por isso não é num esforço de imaginação que isso se realiza ou de um dia para o outro. Se alguns indivíduos buscam e tentam efetivar isso, eles encontrarão a oposição da classe dominante, do Estado, do capital, bem como de suas classes auxiliares e até mesmo de amplas parcelas das classes exploradas que ainda não terão superado alienação generalizada e a hegemonia burguesa. Inclusive haverá oposição das próprias pessoas que querem a transformação radical, em sua mentalidade, pois ninguém rompe com a mentalidade dominante e milhares de outros elementos culturais e sociais de uma hora para outra e em sua totalidade. Esse é um processo de luta onde milhares estão lutando e por isso é preciso lutar contra nós mesmos em muitos aspectos, principalmente tendo em vista que nem tudo que é apresentado como “revolucionário” o é realmente. É preciso entender que muito do que se coloca como contestador é, no fundo, mera luta por vantagens competitivas dentro do capitalismo e isso acaba criando divisões e promovendo influências para os que acreditam em tais discursos. Por isso a reflexão deve ser mais profunda.

Assim, a luta cultural tem um papel fundamental, bem como a luta em todos os lugares e sob variadas formas. O voto nulo autogestionário (ou seja, vinculado à luta pela autogestão) e a luta antiparlamentar é uma dessas formas – que não é a única e nem a mais importante, pois existem milhares de outras, inclusive mais profundas e necessárias. A questão é que o voto nulo (ou abstenção) é uma ação que não é dirigida por ninguém, o que significa que é uma forma de luta que rompe tanto na prática quanto na consciência, com a alienação e o burocratismo. Nesse sentido, é um dos lugares de luta, que não pode, no entanto, aparecer como o único ou principal, bem como esse fato não deve servir de pretexto para omissões oportunistas e convenientes a nível pessoal de supostos revolucionários, que querem evitar conflitos e problemas e ficar em sua situação de conforto nas relações sociais com conservadores, oportunistas, etc.

Obviamente que existem outras consequências do voto nulo (protesto, deslegitimação da democracia burguesa e estado capitalista, etc.), principalmente se articulado com outras lutas, tal como a luta cultural mais geral, a luta pela formação de organizações autárquicas (formas de auto-organização) e autoeducação da população em seu conjunto, o projeto autogestionário, etc. Nesse sentido, a luta[11] pelo voto nulo é um processo de superação do desejo fetichizado e elemento da luta cultural pela autogestão social e contra a alienação generalizada do capitalismo. A superação do desejo fetichizado pode ser conquistada, em alguns casos individuais, com a luta cultural e pelo voto nulo autogestionário, mas é com a superação da alienação generalizada no conjunto das relações sociais que isso pode ocorrer de forma também generalizada.



[1] Não utilizamos o termo “irracional” da mesma forma que outros autores ou no sentido comum da palavra. Para nós, o irracional (e a irracionalidade) é um fenômeno mental caracterizado pelo predomínio absoluto de uma sensitividade prejudicial sobre a racionalidade. A sensitividade são as energias psíquicas manifestas pela sentimentalidade, temperamento, inconsciente. A sensitividade não é algo positivo nem negativo, pois depende de quais sentimentos, emoções, etc. se trata. Porém, uma sensitividade pautada em determinados sentimentos (antipáticos) e outros processos psíquicos problemáticos, predominando de forma absoluta na mente humana, torna-se prejudicial para o indivíduo e para a sociedade.

[3]   Trata-se, aqui, de psicanálise social, e não o freudismo ortodoxo ou as ideologias psicanalíticas de Lacan, Klein e outros. Além de Freud, é possível citar Fromm, Adler, Jung, Schneider, entre outros, bem como a “sociologia psicanalítica” de Mannheim e Roger Bastide, que poderiam ser aqui utilizadas. No entanto, a sociopsicanálise assimila elementos dessas abordagens, especialmente o freudo-marxismo, a partir do marxismo e na sequência de nossas obras sobre psicanálise e temas correlatos.

[5]  A expressão popular “fezinha” (fezinha é diminutivo de fé) é usada quando uma pessoa vai apostar numa casa lotérica.

[6] Cf. http://www.youtube.com/watch?v=DEeNSkXn5mY&list=RDDEe-NSkXn5mY#t=27

[7] Cf. http://www.youtube.com/watch?v=ZJA_LkP0lBE.

[9] Algumas pessoas de esquerda ainda não entenderam que o projeto autogestionário não está buscando carro, casa, comida, distribuição de renda, salários elevados e sim abolição da pobreza em geral, relações sociais radicalmente diferentes, abolição do salariato, do Estado, do capital. As discussões mesquinhas sobre desenvolvimento econômico, salário, privilégios, renda, migalhas, entre outras, são “projetos” do capital e para o capital, visando se reproduzir. Um mundo novo é o que está contido no projeto autogestionário, o resto é ilusão e mediocridade, tanto faz qual o governo que reproduzirá isso.

[10] Sobre alienação, cf.: VIANA, Nildo. Karl Marx: a Crítica Desapiedada do Existente. Curitiba: Prismas, 2017.

[11] Luta e não “campanha”, pois quem faz campanha são os políticos profissionais e partidos políticos. Embora isso não nos faça, como alguns, condenar aqueles que usam tal terminologia (“campanha pelo voto nulo”) como se isso fosse fundamental e motivo para divisionismo, pois apenas sugerimos a mudança e usamos outra linguagem e se houvesse menos “sectarismo” e “dogmatismo”, muitos poderiam alterar, sendo que poucos fazem isso e outros avançam mas fazem questão de fazer de conta que não sabem a fonte de tal alerta e criticam os que chamaram atenção para o fato e inventam críticas infundadas para manter sua luta por espaço ao invés de buscar a solidariedade revolucionária, compromisso com a verdade e reconhecimento da luta dos demais.


-----------------------------------------------------

Publicado em: PEIXOTO, Maria Angélica (org.). Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano. Goiânia: Edições Enfrentamento, 2020.

terça-feira, 18 de abril de 2023

A Sociedade da Evasão

 


A SOCIEDADE DA EVASÃO

 

Nildo Viana

Doutor em Sociologia/UnB; Professor da UFG.


RESUMO

O artigo tematiza a questão da evasão, um dos maiores problemas da sociedade contemporânea. A evasão é um problema individual e simultaneamente social e por isso é analisado, mesmo que usando diversos termos diferenciados para tratar do fenômeno, pela psicologia, psicologia social, filosofia, sociologia, entre outras áreas do saber. O nosso propósito é realizar uma análise introdutória sobre este fenômeno, colocando algumas questões sobre seu significado na sociedade contemporânea. A partir de uma definição do conceito de evasão e de reflexões sobre suas formas de manifestação, apontamos as formas de manifestação, algumas das relações e consequências desse fenômeno.

PALAVRAS-CHAVE: Alienação. Evasão. Tédio.  

 

O fenômeno da evasão é algo que perpassa a vida cotidiana, mas é pouco percebido e pouco analisado. Ele é um fenômeno sociopsíquico, pois é um produto da sociedade capitalista e que se efetiva no universo psíquico dos indivíduos. A evasão foi confundida, em alguns casos, com “alienação”, através de mau uso desse termo[1]. O que é a evasão? Quais são suas formas de manifestação? Como ela se torna, no capitalismo contemporâneo, um dos mais graves problemas sociais? São questões que poderemos responder de forma breve e introdutória, merecendo análises mais profundas e desdobramentos posteriores.

ALIENAÇÃO OU EVASÃO?

A confusão entre “alienação” e evasão tem que ser desfeita antes de iniciarmos a reflexão sobre o último fenômeno. O termo “alienação” é utilizado em vários sentidos. O mais conhecido e divulgado é supostamente a concepção marxista de alienação. Na década de 1960 e, principalmente, na década de 1970, foram publicados diversos livros sobre a questão da alienação, seja comentando ou refletindo sobre a alienação a partir da contribuição de Marx. Muitos pensavam que estavam usando o conceito marxista de alienação, enquanto que, na verdade, o estavam deformando, transformando-o num fenômeno da consciência.

Para Marx, a alienação é um fenômeno social e se materializa, fundamentalmente, no trabalho alienado, que é um trabalho controlado por outros e é justamente nesse processo de dominação sobre a atividade do trabalhador que se estabelece a alienação. A alienação do trabalho, ou seja, o controle da atividade do trabalhador, gera a alienação do produto do trabalho, ou seja, o controle do que é produzido. A concepção materialista da alienação vem para explicar que é o trabalho que cria a propriedade, que há uma relação social de controle e dominação que permite a relação social de exploração. Alguns, sobre o pretexto de “tradução” fiel do alemão para o português, deformam completamente o caráter materialista e transforma a alienação, tal como era em Hegel, num fenômeno da consciência, gerando uma concepção idealista. Não poderemos desenvolver mais tal questão, mas existe uma bibliografia que contribui com a compreensão da concepção marxista de alienação (MARX, 1989; VIANA, 2017; VIANA, 2012).

Sem dúvida, a interpretação do significado do termo alienação em Marx não é a mesma em diversos autores, mas a maioria a reduziu a um fenômeno da consciência, se aproximando muito mais de Hegel do que Marx[2]. O psicanalista Erich Fromm (1983), por exemplo, define alienação, não sem certa contradição, como sendo equivalente a “idolatria”. Assim, alguns marxistas, bem como psicólogos e outros, começaram a identificar alienação e esquizofrenia ou outros desequilíbrios psíquicos (GABEL, 1973). Essa interpretação se aproxima de uma outra forma de abordar a alienação, não-marxista, que é a oriunda da psiquiatria (e basta recordar que os psiquiatras eram chamados também de “alienistas”, ou seja, os especialistas que tratam dos “alienados”). “O termo alienação, originariamente – e ainda hoje – era um termo da Psiquiatria que designava uma forma de perturbação mental, como a esquizofrenia – uma perda de consciência ou de identidade pessoal” (BASBAUM, 1985, p. 17). A definição de alienação, nas representações cotidianas, deriva dessas duas fontes, especialmente a psiquiátrica, pois, nesse caso, o indivíduo alienado é o que está “fora da realidade”. Alguns psicólogos que trataram da alienação, não conseguiram definir o conceito com clareza e caíram em contradições e ambiguidades (MERANI, 1977; CODO, 1985).

Sem dúvida, há também abordagens sociológicas sobre a questão da alienação, promovendo um interesse renovado sobre esse fenômeno e novos sentidos emergiram, foram atribuídos a esse termo (GABEL, 1973; TORRE, 1970), embora muitas vezes se aproximando das concepções anteriores, inclusive em sua tendência mais psicológica. Assim, numa coletânea dedicada a análises sociológicas da alienação, há uma síntese que expressa essa última tendência:

A consciência do ator é o lugar constitutivo das alienações possíveis. A alienação é uma síndrome psicológica que manifesta, retomando a definição de Anthony Davids, uma “disposição” ao egocentrismo, à desconfiança, ao pessimismo, à ansiedade e ressentimento (VIDAL, 1970, p. 19).

Porém, consideramos que o conceito de alienação foi estabelecido por Marx e se apresenta como uma relação social e, por conseguinte, não pode ser confundido com um “fenômeno da consciência”, embora, obviamente, produza efeitos na “consciência” (“estranhamento” ou “fetichismo”), mas não se deve confundir um fenômeno com suas consequências. Assim, o fenômeno da consciência que se aproxima desse significado atribuído ao termo “alienação” é o da evasão. Mas o que é a evasão? Essa é a questão que abordaremos a partir de agora.

A FUGA DA REALIDADE

A evasão, enquanto fenômeno psíquico, é uma forma de fuga da realidade. A evasão ocorre sob várias formas e pode se transformar em problemas psíquicos mais graves. Para entender a evasão é necessário entender o motivo pelo qual muitos indivíduos buscam fugir da realidade, bem como é necessário distinguir este fenômeno de outros que são similares. A pergunta fundamental para entender a evasão é: por qual motivo fugir da realidade?

Os seres humanos são, como todos os demais seres vivos, portadores de necessidades. Um ser vivo só sobrevive se satisfazer determinadas necessidades. Essas necessidades básicas são comer, beber, dormir, reproduzir, etc. O ser humano compartilha essas necessidades com as demais espécies animais (MARX; ENGELS, 1982). A labuta cotidiana se faz necessária para milhões de seres humanos. Historicamente, existiram épocas em que nenhum ser humano escapava – a não ser em breves momentos da vida, como crianças muito novas ou idosos – do trabalho. Com a emergência das sociedades de classes, emergiu a divisão entre aqueles que se dedicam à produção dos meios de sobrevivência, voltados para a satisfação das necessidades básicas, e aqueles que foram liberados da produção de bens materiais e, assim, se dedicavam ao controle populacional (governantes e guerreiros), bem como os voltados para a produção intelectual (filósofos, artistas, etc.), ou reprodução da unidade doméstica, entre outras atividades sociais. O que interessa, nesse processo, é que nesse momento emerge a possibilidade de liberação do trabalho manual e, assim, a possibilidade do desenvolvimento de outras atividades.

Os trabalhadores manuais, exauridos pelo trabalho, buscam o descanso, o prazer, a satisfação de suas necessidades básicas. A evasão pode ocorrer através de sonhos e devaneios, entre outras formas possíveis, mas não tão praticadas. Os indivíduos das classes superiores, livres do trabalho manual, podem praticar a evasão mais extensamente, pois desfrutam de tempo disponível. Alguns se evadiam através da religião ou de orgias, entre outras formas de manifestação. Esse processo se altera com a emergência da sociedade capitalista. E aqui começamos a entender melhor o problema da evasão, pois é na sociedade moderna que ela se manifesta mais intensa e amplamente.

Na sociedade burguesa, as necessidades básicas não são realizadas por milhões de seres humanos. Aproximadamente 10% da humanidade passa fome, não satisfazendo a mais premente necessidade básica. Além desses, há milhões de desempregados, desabrigados, e outros que conseguem se alimentar razoavelmente, mas não conseguem satisfazer outras necessidades básicas. Esses se encontram numa situação em que a realidade é hostil. Esses seres humanos se defrontam com um mundo miserável ao lado da riqueza e do desperdício. Milhares sofrem com a repressão policial, a falta de acesso a bens coletivos, entre diversos outros processos.

Porém, uma parte considerável da humanidade está para além das necessidades básicas. Uma vez satisfeita tais necessidades, o ser humano pode ter tempo disponível e vontade de realizar novas atividades. Historicamente, como demonstrou Marx, os seres humanos realizam o trabalho e a cooperação para satisfazer tais necessidades e esses meios se tornam, eles mesmos, necessidades (MARX; ENGELS, 1982). Aqui encontramos o que é especificamente humano, o trabalho como práxis, objetivação, e a socialidade, a convivência humana, formando um ser práxico e social. E isso se torna vital para tais seres humanos, são necessidades, que, uma vez não satisfeitas, geram o mal-estar, a insatisfação, gerando desequilíbrios psíquicos e outros problemas. O ser humano que não consegue estabelecer vínculos sentimentais e laborativos com outros, torna-se portador de uma grande carga de insatisfação, mesmo que não a perceba. Da mesma forma, se ele não consegue desenvolver uma práxis (atividade teleológica consciente), se não consegue desenvolver suas potencialidades, suas capacidades físicas e mentais, a sua criatividade, se torna um ser profundamente insatisfeito. Sem dúvida, é possível compensar isso, bem como é possível fugir disso.

Eis que nos deparamos diante do fenômeno da evasão. Os seres humanos, na sociedade moderna, em sua maioria, conseguem satisfazer suas necessidades básicas (bem ou mal, dependendo da classe social), mas não conseguem satisfazer suas necessidades especificamente humanas, que não são materiais, mas psíquicas. Elas não são conscientes e, por conseguinte, podem ser desviadas e podem gerar um mal-estar sem que o indivíduo entenda sua razão, inclusive aqueles que são das classes superiores e possuem condições de exercer as mais variadas atividades. As discussões sobre o sentido da vida, por exemplo, apontam para uma situação na qual os indivíduos satisfazem suas necessidades básicas, mas não satisfazem suas necessidades psíquicas e, devido a isto, buscam um sentido para sua existência ou buscam fugir da realidade. A evasão acaba se espalhando pela sociedade.

EVASÃO E MODERNIDADE

E isso pode ocorrer, e efetivamente ocorre, desde a infância. Na sociedade moderna, a infância pode ser marcada pelo isolamento dos outros seres humanos. Milhões de crianças não conseguem se integrar com outras crianças e, em muitos casos, nem com os próprios pais, parentes, vizinhança, etc. Esse processo tem diferentes determinações em casos distintos, variando com a classe social (a frieza dos pais das classes superiores é, por exemplo, uma especificidade das classes superiores; a falta de moradia fixa é um exemplo que pode contribuir com isso nas classes inferiores), sendo que a competição social – elemento fundamental da sociabilidade capitalista – e as divisões sociais uma das determinações desse processo. Um caso muito comum, especialmente nos Estados Unidos e popularizado (bem como incentivado) pelos meios oligopolistas de comunicação, é o das crianças submetidos ao bullying. O isolamento é comum nesses casos, e isso pode promover a evasão como ato cotidiano. O uso de videogames, jogos eletrônicos em geral, é uma das formas de manifestação de evasão nesses casos.

Mas processos semelhantes ocorrem com jovens, adultos e idosos. O isolamento, seja físico ou mental[3], ou ambos, é uma das principais fontes de evasão. O isolamento gera o sentimento de solidão, sendo um fenômeno social (ROLL, 2020), e, ao mesmo tempo, gerador de evasão. Porém, o trabalho alienado ou o conjunto de obrigações sociais (burocracia, compromissos indesejáveis, etc.) também são geradores de evasão. A procrastinação é muitas vezes acompanhada de evasão, no qual se une a fuga de algo com o encontro da ação substituta. Porém, esses processos apenas revelam a insatisfação das necessidades psíquicas dos seres humanos e, por conseguinte, a evasão se relaciona diretamente com a falta de autorrealização social e laboral. Logo, a fuga da realidade ocorre por ela ser insatisfatória em duplo sentido: por gerar atividades alienadas, desinteressantes, repetitivas, desagradáveis, envolvidas em relações marcadas por competição, burocratização, mercantilização, exploração, dominação e conflito, e por não permitir atividades práxicas, enriquecedoras, criativas, marcadas por relações sociais fundadas na cooperação, liberdade, coletivização e no objetivo do atendimento das necessidades humanas.

O vazio e a falta de sentido que emergem a partir dessas atividades e relações capitalistas promovem a evasão. É por isso que a evasão pode emergir como fuga do trabalho alienado e da vida alienada, marcada por muitas atividades, ou do vazio e da falta de atividades, bem como, em ambos os casos, das relações sociais que as constituem. No primeiro caso, ela é menos frequente por causa das atividades necessárias, e menos prejudiciais, já que o indivíduo continua garantindo sua sobrevivência e mantém um equilíbrio psíquico entre realidade e fuga dela. No segundo caso, é mais frequente, pois convive com a inatividade e assim acaba sendo mais constante e duradoura, sendo que é mais prejudicial por permitir um maior afastamento da realidade e por promover uma insatisfação adicional por não ter resultados sociais (e ainda gerar intensas cobranças e pressões sociais, que são ainda mais fortes para os que compartilham os valores e ideias dominantes). Porém, em ambos os casos é preciso entender a situação concreta e os indivíduos concretos, com suas múltiplas determinações (as relações sentimentais com outras pessoas, a classe social e condição social e financeira dos indivíduos, as possibilidades de outras atividades esporádicas relativamente satisfatórias, entre milhares de outras).

Nesse caso, podemos definir evasão como a fuga de uma realidade insatisfatória através da fixação em atividades, ações, que promove o escape dela e seu sobrepujamento. Para não se confundir o fenômeno da evasão com outros fenômenos, é necessário esclarecer aqui o significado dos termos utilizados em sua definição. A fuga, aqui, significa escapismo, mas não o processo consciente de fugir de algo. O operário que falta ao trabalho não realiza evasão, bem como diversas formas conscientes e esporádicas de evitar situações, relações, que promovem mal-estar. Se a realidade é insatisfatória, seja em sua totalidade ou em alguns de seus aspectos, nada mais saudável do que fugir dela, momentaneamente ou usando mecanismos racionais e conscientes. Assim, é útil distinguir recusa de fuga. A fuga é um processo de não enfrentamento, de buscar escapar e se distanciar, que, mesmo sendo relativamente consciente[4], não aponta para sua superação e não é acompanhada da percepção de suas raízes sociais. A recusa é um processo de enfrentamento, que pode gerar uma fuga, mas que é acompanhada de uma percepção de sua motivação, mesmo que parcial, e que tem como objetivo sua superação. Porém, a evasão não é qualquer afastamento da realidade e sim aquela que se converte em atividade fixa. Quando um jovem foge dos estudos para se dedicar exclusivamente aos jogos eletrônicos e gasta, diariamente, várias horas com isso, realiza evasão. Se ele faz isso nos fins de semana e alguns dias da semana, com variações (algumas semanas mais, outras não, mais nas férias ou passa períodos sem o fazê-lo), então não se trata de evasão. Por outro lado, essa fixação deve funcionar como um substituto da realidade, sobrepujando-a. A criação de uma realidade paralela ocorre no mundo da fantasia e da ficção, mas isso é produzido conscientemente e não como uma fuga, mas, mesmo se fosse, ainda não seria evasão, porquanto não substitua a realidade concreta na mente do indivíduo, ou seja, a realidade é esquecida nos momentos evasivos. Assim, para haver evasão, é preciso que haja quatro elementos interligados: realidade insatisfatória, fuga (e não recusa), fixação, substituição da realidade concreta por uma realidade artificial.

A fronteira entre evasão e outros fenômenos semelhantes é tênue, bem como a distinção entre fuga e recusa, pois numa sociedade fundada na exploração, dominação e processos derivados (incluindo os conflitos sociais e a luta de classes), com as especificidades do capitalismo (mercantilização, burocratização e competição) é comum a fuga e a recusa da realidade, mas nem sempre gerando evasão. No entanto, a evasão se torna extremamente comum e ocorre num grau elevado e vem se ampliando com o desenvolvimento do capitalismo e da tecnologia.

A REALIDADE INSATISFATÓRIA

Assim, a evasão é um problema psíquico e social, mas não é o grande problema. A psicologia conservadora pararia sua análise aí e já passaria para o aconselhamento para tratar da evasão. Contudo, o grande problema é a realidade insatisfatória para milhões de seres humanos que gera a evasão. A evasão é uma resposta à uma realidade que nega a autorrealização dos seres humanos, que impede o desenvolvimento de suas potencialidades e criatividade, que gera relações sociais marcadas pela exploração, dominação, conflito, mercantilização, burocratização e competição social.

Não é difícil perceber que a fuga do trabalho alienado, e das organizações burocráticas (universidades, escolas, partidos, sindicatos, entre diversas outras instituições), de ambientes competitivos, é saudável e produto dessas próprias instituições que existem para garantir a sua própria manutenção e a reprodução das relações de produção capitalistas.

A evasão é um problema por gerar sofrimento psíquico e dificultar a passagem da fuga para a recusa radical, ou seja, para a ação consciente de combate às causas do mal-estar gerado pela sociedade capitalista. O único “tratamento” efetivo contra a evasão é a transformação da realidade que gera a evasão. Nos limites do capitalismo, o que se pode fazer é contribuir com que alguns indivíduos superem a evasão e isso pode ser efetivado sob várias formas, a começar pela ampliação da consciência sobre a própria evasão.

A INTENSIDADE DA EVASÃO

A evasão pode ser mais ou menos intensa, com uma fixação maior ou menor, bem como existem casos em que pode ser mais “variada”. É possível distinguir entre evasão consciente e evasão insciente[5]. A evasão consciente é quando o indivíduo sabe que está fugindo de algo. O grau de consciência pode variar, pois pode saber do que foge ou não, embora não saiba o motivo da fuga. Aqui temos a consciência da fuga e do que se foge, mas não da motivação da fuga. Assim, um trabalhador pode fugir do trabalho (alienado) e saber que está fugindo e do que está fugindo. Mas a razão profunda pela qual ele faz isso não é consciente. No fundo, isso gera uma contradição psíquica, pois o indivíduo sabe que foge do trabalho, mas não sabe o motivo e isso se deve, em parte, às ideias e valores dominantes sobre o trabalho, o que gera uma insatisfação adicional, pois além de insatisfação com o trabalho, o que gera a fuga, há a insatisfação com a fuga, que é condenada pela moral, pelas ideias dominantes e pela sociedade como um todo[6].

Assim, quando a evasão é mais consciente, ela é mais moderada e mais controlada, absorvendo menos tempo dos indivíduos, mas pode ser, em certo sentido, mais dolorosa, justamente devido ao fato de ser consciente. A evasão insciente é quando não se sabe que é uma fuga e do que se foge. Ela pode ser mais intensa e menos controlada, bem como pode absorver maior tempo e energia dos indivíduos. Assim, quando um indivíduo se envolve com o futebol e sabe que o faz para fugir da família, do trabalho, etc. então sua evasão é consciente. Um outro indivíduo que usa drogas cotidianamente pode não ter consciência de suas reais motivações e de que se trata de uma fuga. A evasão varia de intensidade, indo da forma mais moderada até a forma de desequilíbrio psíquico, tal como no caso das psicoses[7].

A evasão é mais perceptível no uso de jogos eletrônicos, drogas, mas também está presente na internet e nas redes sociais virtuais, que se tornam substitutas da vida real. Por outro lado, a evasão é menos perceptível em formas consideradas culturalmente mais elevadas ou socialmente mais aceitas, como no caso da religião, literatura, ciência, política, trabalho, etc. Nesses casos, a fronteira entre curiosidade e/ou profissão, por um lado, e evasão, por outro, é mais difícil de delimitar. No caso do fanatismo político ou religioso, ela é mais facilmente perceptível. Existem outras formas de evasão pouco perceptíveis, como, por exemplo, o hábito de viajar, que pode ser enfeitado com o gosto por viagens, que, no fundo, pode ser apenas a fuga da cotidianidade, do trabalho, entre outras possibilidades. Por outro lado, o que é evasão para um indivíduo pode não ser para outro. Um indivíduo que viaja a trabalho, obviamente, não realiza evasão. Da mesma forma, alguém que gosta efetivamente de atuação política e a faz sob forma racional (ou seja, não criando uma realidade paralela, como ocorre em certas crenças conspiracionistas) e sem deixar de lado as outras atividades necessárias para a sobrevivência e convivência social, também não estaria se evadindo.

AS FORMAS DE EVASÃO

As formas de manifestação da evasão são variadas. A religião, o futebol, os videogames e jogos em geral, a arte, a sexualidade, a televisão, são algumas de suas formas mais comuns[8]. O que há em comum nesses casos é que todos eles criam uma “segunda realidade”, uma realidade paralela, que passa a sobrepujar a realidade concreta. A religião cria a realidade religiosa que se manifesta na vida social e concreta, mas que trabalha com seres sobrenaturais e com a “vida após a morte”. O futebol tem uma base real, os jogos, o campeonato, a mercantilização, etc., mas também gera sua “realidade” nas regras do campeonato e na dinâmica dos jogos. Os jogos em geral também criam uma realidade paralela, marcada por suas regras e sua dinâmica (VIANA, 2019)[9]. Porém, não é possível descartar estes e outros fenômenos como sendo evasão ou como algo puramente prejudicial. A religião, o futebol, os videogames, não são formas de evasão em si e sim podem se tornar assim a partir de determinada relação que determinados indivíduos estabelecem com esses fenômenos sociais. Alguns fenômenos sociais, por gerarem uma realidade paralela, acabam sendo mais adequados para os indivíduos que buscam evasão, bem como as relações sociais que se instituem ao seu redor.

Por outro lado, esses fenômenos, quando são meios de evasão para determinados indivíduos, não são equivalentes. Um pode ser menos prejudicial do que o outro, inclusive alguns indivíduos, com muito esforço, passam de uma para outra (é o caso do usuário de drogas que não conseguia sobreviver razoavelmente e que passa para uma religião e assim consegue se reinserir nas atividades sociais). Em outros casos, a evasão pode se tornar profissão ou meio de sobrevivência[10]. Porém, algumas formas, como o fanatismo por futebol, já geram uma maior dificuldade nesse processo de passagem de evasão para trabalho. Um outro aspecto é que a evasão pode intensificar o isolamento ou promover sua diminuição. Os jogos eletrônicos individuais tendem a gerar maior isolamento, enquanto que o jogo em equipe cria uma sociabilidade entre os jogadores, mesmo que mais restrita.

No entanto, é preciso ter em mente que a passagem de uma forma de evasão para outra, ou sua amenização, entre outros processos que atingem apenas a maneira em que ela se manifesta ou sua intensidade, não é uma superação da insatisfação, mas tão somente uma menor ou maior adaptação à sociedade geradora de insatisfações.

EVASÃO, CONSUMO, POLÍTICA E TÉDIO

A evasão é um problema individual e social. É individual por atingir o indivíduo e sua vida e é social não apenas por ser um produto da sociedade, mas também por estar indissoluvelmente ligada com diversas relações sociais e provocar consequências sociais. Sem dúvida, da perspectiva do capital, a evasão é um problema para o rendimento no trabalho, a participação na política institucional (legitimadora da sociedade moderna), entre outros problemas derivados, mas também é um momento de oportunidade de lucro e pode ser gerador de vantagens políticas. Desde os tratamentos clínicos para os casos mais graves (e os remédios que beneficiam o capital farmacêutico) até a mercantilização de atividades de evasão, o capital sempre lucra com a miséria que produz. O futebol profissional funciona como evasão para muitos indivíduos e isso gera audiência, aquisição de mercadorias (ingressos para o jogo, camisas do time, etc.), divulgação, entre outros elementos que os clubes e meios oligopolistas de comunicação usam para lucrar. A busca da evasão promove um amplo mercado consumidor para o lazer mercantilizado e se torna fonte de lucro.

A evasão tem um significado político fundamental para o capital. Numa sociedade na qual se poderia satisfazer todas as necessidades básicas de toda a população por existir condições tecnológicas e laborais para tal, mas na qual é impossível a satisfação das necessidades especificamente humanas, as necessidades psíquicas, a evasão emerge como uma das alternativas e gera uma falsa satisfação substituta para grande parte da população. O capital gera uma ampla fabricação de desejos (FROMM, 1986) e manipulação da insatisfação social (VIANA, 2021) com objetivos mercantis e/ou objetivos políticos. A evasão é um produto do capitalismo e se torna uma mercadoria ou mercancia lucrativa e algo vantajoso politicamente. As novas tecnologias e a internet permitiram uma ampliação e generalização da evasão como nunca antes visto na história da humanidade. Uma sociedade evasiva é, ao mesmo tempo, manipulável e explosiva, pois ao lado da evasão generalizada há a insatisfação generalizada e se a manipulação falha, abre a possibilidade da explosão social que pode gerar uma revolta destrutiva ou uma revolução social.

Assim se produz uma sexualidade evasiva, uma arte evasiva, comunicação (via internet e outros meios) evasiva. A sexualidade evasiva é aquela que proporciona uma fuga da realidade, na qual se cria uma fixação e redução do mundo à atividade sexual, gerando o homo sexualis. Isso se intensifica no capitalismo contemporâneo, pois o novo regime de acumulação instaurado, o integral, traz consiga uma renovação hegemônica e o paradigma subjetivista, e, junto com ele, o hedonismo, novos valores, etc.

E a evasão gera o tédio e o vazio. Rojas, Prokop e outros abordaram tal aspecto. Rojas mostra aspectos dessa relação entre vazio e tédio, sem utilizar tais termos, na fase do capitalismo sob o regime de acumulação integral. Prokop trata dessa questão ao abordar o cinema e o que ele denomina “fascinação” (que aqui denominamos evasão) e o tédio que lhe acompanha (PROKOP, 1986; VIANA, 2020; SOUZA, 2008).

Os produtos da cultura monopolística de massa têm algo de entediante. O incrível design, o rápido noticiário, os balés de televisão escassamente gesticulados, Angélique, Cathérine, Amber e Barry Lindon, que são procurados em virtude do seu sucesso e de seus elementos trágicos – em determinado aspecto, muitos dos produtos adorados e mais frequentemente consumidos são simplesmente cansativos. Esta não é apenas uma impressão subjetiva. O público de fato se entedia (PROKOP, 1986, p. 152).

A evasão gera o tédio e pode gerar outros efeitos psíquicos que podem se tornar cada vez mais graves com sua intensificação. E tanto a evasão quanto o tédio são mercantilizados. Assim, ambos fazem parte do processo de reprodução da sociedade capitalista. E um aspecto curioso desse processo é que com o desenvolvimento capitalista isso se amplia e intensifica, gerando novas formas de evasão e intensificando a sua ocorrência, bem como a do tédio. O mundo virtual da internet acaba gerando uma ampliação do isolamento, um maior grau de insatisfação, já que os indivíduos não podem satisfazer sua necessidade de socialidade, ou seja, de convivência social satisfatória. Curiosamente, a internet se torna refúgio para evasão, o que gera uma possibilidade de comunicação e convivência, mas virtual e geralmente artificial, o que é mais um elemento gerador de tédio.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A superação da evasão pressupõe a superação da sociedade produtora de evasão. Assim, é preciso superar o reino das insatisfações e das satisfações substitutas por um mundo satisfatório. O realismo conservador tornou inusual e condenou uso da expressão “felicidade”. A ideia de felicidade, para além das concepções ideológicas e reducionistas, é justamente o processo no qual o ser humano consegue satisfazer suas necessidades radicais – as básicas e as especificamente humanas. Nessa situação, o ser humano não necessita de evasão. A ausência da felicidade garante a presença da evasão. A presença da felicidade garante a ausência da evasão. A luta contra a evasão é uma luta pela felicidade, que se sintetiza na luta contra o capital e a favor da autogestão.

REFERÊNCIAS

BASBAUM, Leôncio. Alienação e Humanismo. 6ª edição, São Paulo: Global, 1985.

CALDERONI, José. A Psicose no Cotidiano. Revista de Psicanálise Integral. Ano 03, num. 05, 1980.

CODO, Wanderley. O Que é Alienação. 2ª edição, São Paulo: Brasiliense, 1985.

FROMM, Erich. Do Amor à Vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.

GABEL, Joseph. Sociología de la Alienación. Buenos Aires: Amorrortu, 1973.

MARX, Karl. Manuscritos Económicos-Filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1989.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã (Feuerbach). 3ª Edição, São Paulo: Ciências Humanas, 1982.

MERANI, Alberto. Psicologia e Alienação. 2ª edição, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

PROKOP, Dieter. Fascinação e Tédio na Comunicação. Produtos de Monopólio e Consciência. In: Filho, Ciro M. (org.). Prokop. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo, Ática, 1986.

ROJAS, Enrique. O Homem Moderno. A Luta contra o Vazio. São Paulo: Mandarim, 1996.

ROLL, Richard. O Significado da Solidão. Goiânia: Edições Enfrentamento, 2020.

SCHNEIDER, Michael. Neurose e Classes Sociais. Uma Síntese Freudiano-Marxista. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

SOUZA, Erisvaldo. A Renovação da Teoria da Indústria Cultural em Prokop. In: VIANA, Nildo (org.). Indústria Cultural e Cultura Mercantil. Rio de Janeiro: Corifeu, 2008.

TORRE, Juan Carlos (org.). La Alienación como Concepto Sociologico. Buenos Aires: Ediciones Signos, 1970.

VIANA, Nildo. A Alienação Como Relação Social. Revista Sapiência (UEG). Vol. 01, num. 02, 2012.

VIANA, Nildo. A Sociologia do Filme de Dieter Prokop. Sociologia em Rede, v. 9, n. 09, 2020.

VIANA, Nildo. Capitalismo e Neurose. Sociologia em Rede, vol. 04, num. 04, 2014.

VIANA, Nildo. Jogos e Valores. Informe e Crítica. Vol. 08, num. 08, 2019.

VIANA, Nildo. Movimentos Sociais e Insatisfação Social. in: ANDRADE, Gabrielle; TELES, Gabriel; VIANA, Nildo (orgs.). Movimentos Sociais e Sociedade Moderna. Goiânia: Edições Enfrentamento, 2021.

VIDAL, Daniel. Un Caso de Falso Concepto: La Nocion de Alienacion. In: TORRE, Juan Carlos (org.). La Alienación como Concepto Sociologico. Buenos Aires: Ediciones Signos, 1970.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 2ª edição, São Paulo: Pioneira, 1987.



[1] Muitos pensavam que estavam usando o conceito marxista de alienação, enquanto que, na verdade, o estavam deformando, transformando-o num fenômeno da consciência. Para Marx, a alienação é um fenômeno social e se materializa, fundamentalmente, no trabalho alienado, que é um trabalho controlado por outros e é justamente nesse processo de dominação sobre a atividade do trabalhador que se estabelece a alienação. A alienação do trabalho, ou seja, o controle da atividade do trabalhador, gera a alienação do produto do trabalho, ou seja, o controle do que é produzido. A concepção materialista da alienação vem para explicar que é o trabalho que cria a propriedade, que há uma relação social de controle e dominação que permite a relação social de exploração. Alguns, sobre o pretexto de “tradução” fiel do alemão para o português, deformam completamente o caráter materialista e transforma a alienação, tal como era em Hegel, num fenômeno da consciência, gerando uma concepção idealista. Não poderemos desenvolver mais tal questão, mas existe uma bibliografia que contribui com a compreensão da concepção marxista de alienação (MARX, 1989; VIANA, 2017; VIANA, 2012).

[2] “Hegel usou o termo como significando a apropriação do homem pelo espírito absoluto. Para Hegel, segundo Marx, o ser humano, o homem, é igual à consciência de si. ‘Toda alienação do ser humano não é, por conseguinte, senão a alienação da consciência de si’” (BASBAUM, 1985, p. 17).

[3] O isolamento mental é quando o indivíduo está cercado de pessoas, mas não se identifica, não combina, não compartilha coisas ou não possui afinidade com elas. É a velha ideia do indivíduo “sozinho na multidão”, tema de diversas músicas populares no Brasil e no mundo.

[4] A fuga pode ser efetivada a partir de uma situação mental que vai do totalmente insciente até a relativamente consciente. No primeiro caso, é o que é comum nos problemas de desequilíbrio psíquico, que é o caso da psicose, mas existem formas intermediárias até chegar ao relativamente consciente, pois, nesse último caso, o indivíduo pode ter consciência da fuga, mas que dificilmente chegará até a proposta de superação efetiva ou uma compreensão de suas determinações (a não ser as imediatas e/ou aparentes).

[5] O termo “insciente” é pouco usual, pois geralmente se usa “inconsciente” (de acordo com seu uso na linguagem cotidiana, o que pode promover confusão com seu significado psicanalítico) ou “não-consciente”. O insciente é algo não consciente e assim se difere do inconsciente, no sentido psicanalítico, que remete aos desejos ou necessidades reprimidas na mente do indivíduo. O uso do termo insciente evita o equívoco da confusão com o inconsciente no sentido psicanalítico do termo, bem como é preferível a não-consciente, pois tem o mesmo significado e aponta para um fenômeno real que não se caracteriza apenas por ser ausência de outro fenômeno (a consciência).

[6] O trabalho alienado como valor é algo que acompanha a história do capitalismo, tal como se vê no caso da ética protestante (WEBER, 1987).

[7] A psicose é um desequilíbrio psíquico mais comum nas classes inferiores, no qual a intensidade da insatisfação e falta de satisfações substitutas é maior. Assim, a divisão realizada por Schneider (1977), segundo a qual no proletariado a psicose é mais comum e na burguesia a neurose, é explicada pelas relações de classes no capitalismo (VIANA, 2014). A psicose é uma espécie de evasão total, no qual a realidade psiquicamente constituída pelo indivíduo substitui a realidade concreta.

[8] Rojas (1996) aborda alguns casos, tal como a televisão, embora não se possa concordar com o conjunto de sua abordagem, que são contribuições para pensar a evasão na contemporaneidade.

[9] Calderoni descreve as multidões indo ao estádio com seus “olhos cintilantes” e “respiração ofegante” e aponta um indivíduo imaginário desconhecedor desse processo social e dinâmica desse esporte que pensaria, na frente dos estádios, que lá estaria se decidindo “o futuro da humanidade”.

[10] O que pode criar a sua superação ou apenas fusão com uma atividade profissional.


----------------

Publicado em:

VIANA, Nildo. A Sociedade da Evasão. In: FERREIRA, Ezequiel; FREITAS, Patrícia; MELLO, Roger. (Org.). Psicologia e Desenvolvimento. Pesquisa e Atuação. 1ed.Rio de Janeiro: E-Publicar, 2022, v. 1, p. 98-112. Disponível em: https://www.academia.edu/69898927/A_Sociedade_da_Evas%C3%A3o 

https://aterraeredonda.com.br/a-sociedade-da-evasao/ 

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Acompanham este blog: