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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Hipermercantilização e Burocratização na Contemporaneidade - Nildo Viana

 


Hipermercantilização e Burocratização na Contemporaneidade


Nildo Viana


Ao lado disso, o processo de crescente mercantilização e burocratização das relações sociais, que é o gerador da racionalização, traz mais motivos para ampliação das insatisfações. A mercantilização traz a necessidade do cálculo mercantil e do dinheiro, o que torna a venda da força de trabalho necessária e no contexto das relações de trabalho já aludidas e que não se limita ao trabalho produtivo e se reproduz no trabalho improdutivo[1]. O lazer é mercantilizado (Orio, 2019; Viana, 2018), assim como a vida cotidiana. A mercantilização gera a burocratização. A burocratização das relações sociais, por sua vez, significa criação ou ampliação de organizações burocráticas e aumento de controle social.

A “sociedade da vigilância”, termo muito usado (mas sob forma equivocada a partir de bases ideológicas), exerce um controle cada vez mais amplo sobre os indivíduos, inclusive em sua vida privada. A videovigilância e as câmaras em todos os lugares tornam real o Big Brother de Georg Orwel e os reality shows são uma versão em miniatura do que ocorre na sociedade capitalista contemporânea. A vigilância através do mundo virtual da internet, incluindo as redes sociais virtuais, ampliam esse processo. Quanto mais o capitalismo se desenvolve, mais se intensifica a mercantilização e a burocratização das relações sociais. E quanto mais se desenvolve o controle social e menos há espaço de privacidade e tranquilidade, mesmo que momentânea, e mais a insatisfação, consciente ou insciente, se amplia. O exibicionismo avança nesse contexto, ligado a processos como corpolatria, narcisismo, etc., mas que é planejado e ocorre apenas nos “bons momentos”, pois quando a exposição é involuntária e/ou dos “maus momentos”, a sensação deixa de ser agradável e ter um significado social de aprovação para ser desagradável e ter um significado social de reprovação.

O moralismo subjetivista reforça esse processo de controle sobre a vida cotidiana com sua tese da “politização da vida privada”. O controle chega até a casa dos indivíduos e alguns querem controlar até os pensamentos dos outros, ditando o que eles devem ou não fazer e ainda fazendo discurso contra “regras”. É o predomínio da razão cínica. A suposta “politização da vida privada” é uma politização despolitizada, pois se fundamenta num reducionismo de relações grupais e interindividuais, sendo que, no fundo, é apenas a vida privada é que é “politizada”. Um jogo de interesses, oportunismo, versões da realidade (ao invés da verdade sobre ela), razoabilização[2], etc. é o que ocorre ao invés de politização.

“‘O pessoal é político’ emerge como discurso oportunista e que o apelo para abordar a ‘vida cotidiana’ é num sentido parcial, no que beneficia oportunistas de todos os tipos” (Leroy, 2021, p. 50). No entanto, é preciso acrescentar que muitos que pregam e que respeitam esse chavão são hipócritas, sendo que alguns depois são acusados de práticas que são condenáveis por qualquer um sem precisar apelar para tal discurso, como o assédio sexual, por exemplo. Claro que isso vale para os casos em que esse processo tenha efetivamente e realmente ocorrido. É preciso entender que, no capitalismo e sua sociabilidade fundada na competição, existem exageros, tal como o caso do indivíduo que foi preso por “olhar para uma mulher” no meio da rua ou falsas acusações que oportunistas usam para desmoralizar certos indivíduos, embora em alguns casos seja difícil saber o que é realmente falsa acusação e o que ocorreu efetivamente. Esses elementos duvidosos fazem parte do processo contemporâneo de dubiedade informativa, antes aludido[3].

Ao invés de busca de reais soluções o que ocorre é um processo de busca de vantagens competitivas, uso vantajoso em conflitos interindividuais, etc. Não existe nenhuma politização através do maniqueísmo e reducionismo de questões muito mais amplas (que envolve processos psíquicos e sociais muito mais complexos do que o que vem sendo defendido pelos moralistas subjetivistas) e complexas. E, no fundo, numa sociedade comandada pela sociabilidade capitalista (competitiva, burocrática e mercantil), tudo pode ser degradado e transformado em seu contrário.



[1] O trabalho produtivo é aquele realizado pelos proletários no processo de produção capitalista de mercadorias, que é produção de mais-valor. O trabalho improdutivo é aquele efetivado fora das relações de produção capitalistas, seja nas relações de distribuição, seja nas formas sociais (“superestrutura”) (Viana, 2018).

[2] O que Ernst Jones denominou “racionalização” e Sigmund Freud e sua filha, Ana Freud, trabalharam posteriormente, significando tornar “razoável”, ou “aceitável”, desejos, sentimentos, etc., dos indivíduos, e foi alterado para o novo termo por Ruck (2016).

[3] Sobre o problema do assédio moral e sexual, numa perspectiva crítica, cf. https://redelp.net/index.php/renf/article/view/1653

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O MORALISMO SUBJETIVISTA - NILDO VIANA

 



O MORALISMO SUBJETIVISTA


Nildo Viana


Ainda nesse processo, o moralismo progressista ganha espaço. O progressismo possui duas versões principais, a versão burguesa e a versão burocrática. Trata-se de mundo que coloca como um dos valores fundamentais o “progresso”, sempre relacionado com o “novo”, o “jovem”, o “moderno”, o “atual”, o “contemporâneo”, a “ciência”, etc. “A última moda de Nova Iorque” deve ser boa, “como tudo que vem do Norte”, já cantava o roqueiro Léo Jaime. O moralismo progressista, no entanto, possui duas formas de manifestação. O mais antigo, está vinculado ao autocratismo, holismo, objetivismo[1]. O moralismo progressista contemporâneo está ligado ao democratismo, individualismo, subjetivismo. O pseudomarxismo (especialmente o bolchevismo e a social-democracia) e o paradigma reprodutivista dos anos 1950-1970 estão vinculados à primeira forma e o paradigma subjetivista e pós-estruturalismo (entre outras ideologias) estão ligados à segunda. Podemos, então, dividir entre o moralismo progressista objetivista e o moralismo progressista subjetivista, sendo este último o que é hegemônico hoje em dia e se encontra em disputa com o moralismo conservador, o seu principal concorrente atual.

O moralismo progressista subjetivista nasce, entre outras fontes[2], do chamado “neoliberalismo progressista” norte-americano e do paradigma subjetivista, sendo o “politicamente correto” uma de suas formas de manifestação. O politicamente correto é um moralismo que gera eufemismos e mudanças na linguagem sem mudar as raízes sociais que geram as formas de preconceito e as relações sociais que estão em sua base. Porém, as relações raciais, sexuais, etc. e outros processos da sociedade capitalista, bem como as formas de preconceito geradas a partir disso, continuam marcadas pelo conflito, competição e insatisfação[3].

A ideia básica do moralismo subjetivista é a valoração do sujeito – indivíduo ou grupo social[4] – e da “subjetividade” e a ideia de “revolução ou libertação individual ou grupal”. Sem dúvida, isso é uma contradição fácil de perceber, pois o moralismo é a imposição de uma moral, que constrange os indivíduos a adotá-la e o apelo à liberdade (do indivíduo ou do grupo) é, no fundo, a criação de uma nova conformidade de acordo com novas ideologias e um novo moralismo. O moralismo subjetivista se manifesta sob várias formas. Ele assume a forma populista por parte do capital, do aparato estatal e ideólogos e intelectuais venais, pois assim consegue amenizar ou desviar conflitos, apoio eleitoral, popularidade, etc. Ele também assume a forma oportunista por partidos, políticos profissionais, ativistas que buscam vantagens competitivas, etc. Existe também a forma sincera que se manifesta em setores da população que foram convencidos de seu suposto vínculo com o que é justo ou com reivindicações existentes de determinados setores da sociedade.

A moral é conjunto de normas de comportamento e o moralismo é o seu exacerbamento (Viana, 2000). A moral impõe normas de comportamento e o moralismo a exacerba e gera um controle cultural intensivo. Isso significa mais repressão e menos liberdade, espontaneidade e autenticidade. O indivíduo do sexo masculino agora não pode mais vestir cor-de-rosa e nem azul, pois, no primeiro caso, os moralistas conservadores vão dizer que é cor feminina e, no segundo, os moralistas subjetivistas vão dizer que é “machismo”. O moralismo julga e condena e quanto mais moralista é uma sociedade – e ainda com dois moralismos disputando a hegemonia e assumindo a forma de “juiz universal” – mais reprimidos e menos livres são os indivíduos. A moral dominante é a moral da classe dominante. A classe dominante, por sua vez, muda sua estratégia de classe de acordo com o regime de acumulação e as tarefas políticas, econômicas e culturais derivadas e suas contradições. Uma vez que uma moral é instituída socialmente, ela gera os seus entusiastas e ativistas, embora muito sejam hipócritas (pregam as normas de comportamento correspondentes a ela, mas não a praticam em sua vida cotidiana), que se tornam os moralistas, vigilantes e juízes que buscam impô-la para toda a população. Os dois moralismos hoje disputam a hegemonia pregam normas de comportamento opostas e buscam o aparato estatal para sancionar e normalizar sua concepção de moral. Hoje, a moral dominante é a subjetivista e a moral conservadora é sua concorrente mais forte e ambas são problemáticas e estão vinculadas ao processo de reprodução das relações de produção capitalistas. Nesse sentido, a crítica e superação do moralismo deve ir até a raiz no sentido de criticar e combater a moral em si mesma e em seu lugar buscar o desenvolvimento de uma ética revolucionária e humanista. Essa, por sua vez, por contrariar os interesses capitalistas, tende a ser marginal e só ganhar força em períodos revolucionários. O seu fortalecimento hoje, no entanto, é fundamental para fortalecer as lutas sociais futuras que atuam no sentido da transformação social radical e total.

O politicamente correto fica na superfície e nada soluciona, além de gerar novas formas de insatisfação[5] e mais sombra, energia psíquica destrutiva que se avoluma, pois nem mesmo no humor e em outras formas de manifestação cultural, ela pode se extravasar. E os exageros e inversão que são gerados a partir disso, como o maniqueísmo, vitimismo, oportunismo, entre outras formas que determinados indivíduos e setores dos grupos envolvidos, acabam gerando outros processos de insatisfação[6]. As ações afirmativas e “discriminação positiva” são facas de dois gumes, gerando “divisões perigosas” e aumentando os sentimentos antipáticos, mesmo que não sejam manifestos explicitamente, diante daqueles que seriam “beneficiados” com essas políticas. A “polícia do pensamento”, para utilizar expressão usada por George Orwell, não vem só da direita, pois também vem dos progressistas, aliados aos representantes dos “direitistas democráticos”.

Alguns autores conservadores levantam diversas críticas ao politicamente correto e concepções próximas e, em alguns casos, acertam parcialmente. A ideia de que tudo que o “outro lado” diz é errado é apenas mais um problema da contemporaneidade, o que foi intensificado com a polarização entre progressistas e conservadores. E isso remete para o problema do moralismo e seu caráter normativo, por um lado, e, por outro, seu vínculo com valores e sentimentos, o que diminui o uso da racionalidade e o aumento da emocionalidade e sentimentalidade, dificultando ainda mais a comunicação. A renovação hegemônica gera, através do subjetivismo, tanto os adeptos do “empreendedorismo” quanto os seus opostos, adeptos do “empoderamento” (Santos, 2024). O subjetivismo também traz uma renovação linguística no qual os prefixos “in” e “em” passam a ser predominantes e o discurso passa a girar em torno da “inclusão”, “empatia”, “empoderamento” e diversos outros semelhantes. Esses prefixos trazem a ideia de “movimento para o interior”, interioridade, ou seja, para a subjetividade. Assim, antes se usava preferencial “compaixão” e depois é substituído por “empatia” e assim o prefixo “co” (que remete para companhia, união, participação ou ação em conjunto) se vê substituído por o movimento para dentro, ou seja, remete para o “subjetivo”. Isso faz parte do movimento de renovação linguística com a hegemonia do subjetivismo (Viana, 2019). Por outro lado, essa renovação linguística gera uma reação conservantista, que, por sua vez, traz uma linguagem própria (e pobre, como “marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, etc.), bem como novos sentidos para antigas palavras[7].

Os progressistas, racionalistas ou irracionalistas, com sua recusa da psicanálise ou adoção de suas formas açucaradas, libertinas ou formalistas, não percebem (na verdade, a maioria “não quer perceber”) que o controle racional e afetivo é uma fonte de insatisfação, de sentimentos antipáticos, etc. Não percebem que numa sociedade competitiva (a competição é um elemento estrutural do capitalismo e que ocorre no conjunto das relações sociais, desde as relações de trabalho, passando pelo processo educacional até a vida familiar e é introjetada e reproduzida na mente dos indivíduos) e conflituosa (desde a luta de classes aos demais conflitos sociais chegando até os conflitos nas relações interindividuais) e dividida em classes não há como agradar a todos. No capitalismo, alguém ganha quando alguém perde. Ninguém é livre de “valores” e “interesses”.

O paradigma hegemônico, subjetivista, alicerçado nas ideologias pós-estruturalistas, culturalistas, multiculturalistas, neoliberais, etc., apontam para a solução individual e não social ou então para uma orientação narcisista de grupo, fundada no ressentimento. O neoindividualismo, hedonismo, narcisismo, são apenas uma parte do problema (e o intensificam, pois quanto mais se valora e anseia conscientemente algo, mais se amplia a insatisfação com a realidade concreta). Ao deixar de lado as raízes sociais das formas de preconceito, dos conflitos grupais, da violência, etc. e pensar que apenas os indivíduos, a relação intergrupal (brancos x negros, homens x mulheres, etc.) ou a cultura podem explicar/solucionar o problema apenas o amplia e ainda se cria mais um problema.



[1] Isso é perceptível, por exemplo, no texto de Lukács (1978), na qual defende a submissão quase incondicional e religiosa do indivíduo ao partido.

[2] Dentre essas outras fontes existem, inclusive, algumas que não possuem vínculos diretos com a política institucional ou movimentos políticos.

[3] No plano da sexualidade, Alberoni (1988) foi o autor que destacou a questão da competição, embora sem analisar os processos sociais mais profundos que geram esse fenômeno.

[4] Tanto pode ser um grupo social “eleito” para ser o principal quanto pode ser diversos, tal como as equivocadamente chamadas de “minorias”.

[5] Concorde-se ou não com elas, pois o que interessa, no plano analítico é sua existência e seus efeitos. Entre as insatisfações explícitas, está a de humoristas que passam a ser censurados, sendo que existem várias formas de humor e em alguns casos, a permissividade que antes existia deixa de existir, mas o exagero acaba, em muitos casos, tolhendo o exercício do humorismo.

[6] As relações eróticas, por exemplo, foram afetadas negativamente devido aos exageros e oportunismos, gerando insatisfação em ambos os sexos e afastando e dificultando os relacionamentos amorosos.

[7] Bourdieu (2013) percebeu, parcialmente, essa mutação linguística, bem como outros já se atentaram para seu real significado (Silva; Anjos, 2022; Viana, 2019).

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A RACIONALIZAÇÃO CAPITALISTA - NILDO VIANA

 



A RACIONALIZAÇÃO CAPITALISTA


Nildo Viana


O capitalismo contemporâneo, sob o signo do regime de acumulação integral, promove dois elementos fundamentais, aparentemente contraditórios, para o processo de crescimento da sombra: a racionalização e o irracionalismo. A racionalização, entendida como processo social, é o processo de expansão do domínio do saber racional e do cálculo mercantil sobre o conjunto das atividades humanas, o que foi permanente na história do capitalismo e que hoje invade mais intensamente a vida cotidiana e os atos basilares dos indivíduos, como a alimentação, as relações amorosas, etc. Essa racionalização é visível mais claramente no campo da alimentação, no qual o culto do corpo e da saúde é desenvolvido na sociedade através da busca de “alimentos saudáveis”, processo de racionalização da alimentação (gerando um saber sobre os componentes dos alimentos e “escolha racional”, tornando a nutrição valorada, bem como a figura do nutricionista)[1].

A racionalização da vida amorosa, da alimentação, do lazer, etc., derivada da existente nas relações de produção capitalistas, é um elemento que, a princípio, não seria muito negativo, caso não ocorresse no contexto do capitalismo e se não fosse uma determinada forma de racionalização (capitalista, instrumental). A racionalização na sociedade capitalista é contraditória: a racionalidade é comandada pela “irracionalidade”, no sentido de que a razão está a serviço do capital (e da mercantilização), da burocracia (logo, da burocratização), do poder e da competição, visando justificar, legitimar, reproduzir, relações sociais prejudiciais aos indivíduos. Ou seja, a racionalização ocorre sobre o princípio da razão instrumental, voltada para a dominação e, assim, ela aparece como “irracional”, por sua parcialidade e fragmentação (tanto da divisão social do trabalho e seu aprofundamento quanto da formação de seres humanos cada vez mais unilaterais e distantes da necessidade humana de onilateralidade).

O primeiro elemento problemático da racionalização é que se identifica um problema (a obesidade, o colesterol, etc.), mas nunca se avança na discussão sobre suas raízes e a solução é sempre individual: academia, caminhada, alimentos saudáveis, etc. Isso requer ações individuais, muitas vezes sob a forma de sacrifício. O indivíduo não pode comer o que gosta ou quer, ele é constrangido a frequentar academia, etc. Esse processo, por sua vez, gera nova insatisfação, ansiedade, etc. Se ele fracassa, é acometido pelo sentimento de culpa; se tem sucesso, resolve um desequilíbrio orgânico muitas vezes à custa de um desequilíbrio psíquico.

Uma outra racionalização, complementar, é a da medicalização, que está vinculada aos interesses capitalistas mais diretamente, pois serve para incentivar a reprodução ampliada do mercado consumidor e renovação do consumo. A medicalização é uma manifestação da mercantilização da saúde (Marques, 2023). A reprodução ampliada da produção capitalista que gera a necessidade de reprodução ampliada do mercado consumidor. O capital tabagista precisa vender cigarros; o capital farmacêutico precisa vender remédios; as empresas que produzem bebidas alcoólicas, produtos alimentícios condenados, etc., também precisam vender suas mercadorias. E, para isso, fazem propagandas ou usam outros métodos da mercadotecnia (“marketing”). Nesse contexto, se financiam pesquisas científicas e prolifera um processo de propaganda e contrapropaganda que somente os ingênuos acreditam e aqueles que acreditam em todas, ficarão sem se alimentar, pois todos os alimentos supostamente possuem problemas, o que diminui drasticamente a confiabilidade da ciência envolvida nos interesses do capital e na competição intercapitalista. O capital farmacêutico, por sua vez, “inventa doenças” para lucrar com a venda de remédios (Viana, 2025). A produção capitalista de alimentos “condenados” convive com a produção capitalista de alimentos supostamente “saudáveis”, seja os comuns (como verduras e frutas, que, no entanto, estão contaminadas por agrotóxicos), sejam os “especiais” (e mais caros, como os chamados “alimentos orgânicos”). E cada um atinge um nicho de mercado consumidor específico.

Na sociedade capitalista houve a expansão, contemporaneamente, da dubiedade informativa, o que torna extremamente difícil distinguir entre a verdade e a mentira, a ilusão e a realidade, o exagero e a precisão, o humorístico e o real, e isso se intensificou com o advento da internet, tecnointeligência (a chamada “inteligência artificial”), emergência de discursos subjetivistas, irracionalistas e relativistas, bem como, a nível mais popular, as ideias de “pós-verdade”, “fake News”, “negacionismo”, etc. A racionalização assume, assim, diversas formas e uma multiplicidade interpretativa que gera mais confusão e incertezas do que saber sólido sobre a realidade.

Ao lado do autocontrole racional, o controle afetivo é algo cotidiano no capitalismo contemporâneo. A racionalização da vida amorosa, das emoções, é outro elemento problemático que acompanha a escalada mais-repressiva[2] do capitalismo contemporâneo. O capital desenvolveu esse processo de controle afetivo para atender aos seus interesses, pois, no processo de trabalho, onde se extrai mais-valor e se garante o lucro e acumulação de capital, percebeu que não bastava as formas de controle racional (como os famosos “incentivos materiais” do taylorismo, por exemplo). E isso vale tanto para o trabalho produtivo quanto para o improdutivo, pois ambos geram lucro (Viana, 2018).

Um passo adiante precisava ser dado e esse seria integrar o trabalhador afetivamente (além de racionalmente) no trabalho. Depois disso, a ideologia da “inteligência emocional”, entre outras concepções, emerge e se populariza, passando a ser indicada para o processo de trabalho e para o processo educacional. Sem dúvida, o controle afetivo já era praticado, mas era algo secundarizado e agora se torna cada vez mais priorizado, pois ele gera muito mais engajamento e dedicação do que o incentivo racional. A preocupação com detalhes, a mudança de discurso (o empregado passa a ser chamado de “colaborador”, por exemplo), a ideologia da inteligência emocional, o uso de psicologia e psicanálise, o coaching, etc., são alguns dos mecanismos internos utilizados em empresas, que são reforçados por outros, externos e que são repassados pelos meios oligopolistas de comunicação (capital comunicacional), internet e redes sociais virtuais, psicólogos, coaches, etc.

O conceito de afetividade foi desenvolvido em outra obra (Viana, 2024) e reúne dois fenômenos psíquicos, as emoções e os sentimentos. Não poderemos desenvolver a diferença entre esses dois termos aqui (cf. Viana, 2024; Viana, 2023), mas tão somente explicitar que as emoções são passageiras e os sentimentos são duradouros, e por isso a raiva é uma emoção e o ódio é um sentimento (Viana, 2024). O controle afetivo é tanto das emoções (visando evitar comportamentos geradores de conflitos e problemas, gerados por raiva, por exemplo) quanto dos sentimentos (aqui, no caso, não significa impedir sua existência, mas sim sua manifestação, como, por exemplo, o ódio). É preciso esclarecer que tal concepção nada tem a ver com os ideologemas dos “afetos” que virou modismo em certo setor da sociedade e cuja origem remete ao paradigma subjetivista.

A mercadotecnia (para os adeptos do inglês, o “marketing”) foi mobilizada para garantir uma fatia do mercado consumidor composto por setores intelectualizados[3] (tão manipuláveis e manipulados quanto os demais) e progressistas da sociedade, com as teses do consumidor “consciente”, “cidadão”, “politicamente correto”, “ecológico”, “sustentável” e criaram desde o “selo amigo da criança” até os “alimentos funcionais”[4], entre outras formas de manipular um nicho de mercado consumidor daqueles que se julgam mais “inteligentes” do que os demais.



[1] Esse processo de racionalização foi percebido de forma mais desenvolvida inicialmente por Max Weber (1987). Bourdieu ao tratar dos campos também apresentou elementos sobre esse processo, mesmo sem usar tal termo (1989). O vínculo da racionalização com a mercantilização e burocratização se manifesta sob várias formas, desde o formalismo burocrático até o cálculo mercantil (Viana, 2017).

[2] Em obras anteriores, a partir de um confronto com as ideias de Marcuse (1988), colocamos a questão da mais-repressão, como uma repressão excedente, uma intensificação da repressão – no sentido psicanalítico do termo, embora não exatamente no sentido freudiano – existente na sociedade, o que vai além do suportável pelos indivíduos (Viana, 2008).

[3] Intelectualizado, aqui, não significa “inteligente”, e sim pessoas com formação escolar e bagagem cultural que pressupõe acesso a conjunto de informações e elementos complementares (e variáveis individualmente e profissionalmente) como saber técnico, científico, filosófico, teológico, etc. incluindo tanto a intelectualidade, a burguesia, e os extratos superiores da burocracia, bem como alguns “ascendentes” de outras classes sociais que, por exemplo, acessam universidades (com suas diferenças de qualidade), ensino técnico, etc.

[4] O capitalismo é pródigo em produzir pseudossoluções que são novos problemas, e a versão “zero” de determinados refrigerantes (que são ainda mais prejudicais à saúde), bem como a tecnologia antipoluente que gera poluição, são bons exemplos disso.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:


domingo, 20 de setembro de 2026

Marxismo e Psicanálise do Fascismo

 


RESUMO:

O objetivo do minicurso é trabalhar teoricamente a reflexão sobre o fascismo realizado a partir da perspectiva psicanalítica de orientação marxista. Nesse campo, duas obras se destacam: “A Psicologia de Massas do Fascismo”, de Wilhelm Reich; e “O Medo à Liberdade”, de Erich Fromm. Reich realiza a primeira abordagem psicanalítica direta do fenômeno nazifascista, utilizando elementos do marxismo e da psicanálise. Fromm realiza uma análise bem posterior ao fenômeno nazifascista dos anos 1930 e oferece uma outra explicação psicanalítica e marxista do processo de emergência do fascismo. O objetivo é realizar uma comparação entre essas duas explicações do fascismo e analisar qual delas é mais adequada para explicar este fenômeno, bem como refletir sobre a tendência atual de retorno de extremismos semelhantes a nível mundial. A importância dessa reflexão remete não somente ao processo de compreensão de um fenômeno histórico traumático, mas também por sua contribuição para entender o presente e fenômenos semelhantes. A metodologia será através de exposição dialógica da análise comparativa e reflexão sobre as condições de possibilidade do fascismo e sua reemergência na atualidade. Outro recurso que será utilizado é trechos de filmes e outras obras de arte e acontecimentos históricos para ilustrar a exposição.


Link de inscrição (para certificado):

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSccDJ0Ov9rFZcQIH7wydh1FIjckQ3Nn4k8o2JtcBLOXWNhxzw/viewform?pli=1


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