As Contradições da Tecnologia Capitalista
Nildo Viana
O desenvolvimento tecnológico e o avanço
da internet aumentam ainda mais o processo de insatisfação. As redes sociais
virtuais são “paraísos artificiais” que acabam se tornando novo palco de
competição social, bem como incentivadores de superficialidade e criação de
tribos e bolhas, reforçando “identitarismo”, “dogmatismo”, “narcisismo”, etc. A
internet, como um todo, aumenta a competição, conflitos, entre outros processos
que reforçam a tendência atual. O excesso de informação, por sua vez, convive
com a carência de formação (Viana, 2019) e com a dubiedade informativa.
A desinformação por excesso ou falsidade das informações ou a falta de formação
para analisá-las são apenas um dos problemas desse processo. As ideias de
pós-verdade, o cinismo, a manipulação, são elementos que mostram que a
civilização burguesa chegou ao seu limite e que, doravante, “vale tudo”, mesmo
que através do disfarce da inclusão. A “lei de Gérson” (levar vantagem em
tudo”) não só continua funcionando como se ampliando, mas convivendo com o
discurso oposto e agora com milhares de pessoas percebendo e lamentando isso,
mesmo sem perceber que isso é a norma e não a exceção.
A supervaloração dos sentimentos, do
indivíduo, do “sujeito”, da “vivência” é reforçada pelo acesso acrítico e
superficial de um mundo de informações, no qual a falta de formação intelectual
(a falta de ferramentas intelectuais como método, bem como de teoria e senso
crítico), e a redução do tempo de reflexão (a velocidade na substituição das
“informações” e “novidades” é cada vez maior, bem como o condicionamento dos
indivíduos para consumir informações e distrações sempre mais rápidas e
superficiais) servem para gerar novos problemas e intensificar os existentes.
Esse mundo de informações, por sua vez,
é interpretado a partir de ideologias subjetivistas ou de ideologemas derivados
delas, promovendo ainda mais confusão, especialmente quando se usa e abusa da
dubiedade informativa. E ideias como “pós-verdade”, entre outras, cuja origem é
o subjetivismo, acabam justificando e legitimando versões deformadoras da
realidade. Isso convive com as explicações biologicistas do próprio caráter
viciante das redes sociais virtuais (“dopamina”), ao invés de ser adequadamente
explicada em sua relação com o universo psíquico dos indivíduos e o já citado
problema da evasão[1].
Um outro problema social e cultural
emerge nesse contexto. O subjetivismo e a ilusão de liberdade (seja
“desconstruindo” o que está “construído” culturalmente, seja simplesmente
“sendo o que é”) entra em contradição com o desenvolvimento tecnológico, especialmente
a internet e tecnointeligência (“inteligência artificial”). Sem dúvida, vivemos
numa sociedade cada vez mais tecnológica e isso gera cada vez mais dependência
tecnológica. A tecnologia, no entanto, não é neutra (Willians, 2014). Existem
dois problemas vinculados ao processo de tecnologização da sociedade: a
manipulação e a ideologia da autonomia da tecnologia.
A manipulação se manifesta em quem tem o
controle da tecnologia. Quem controla a tecnologia, controla a relação entre
esta e as demais pessoas. A internet, por exemplo, é controlada pelos aparatos
estatais que impõe limites, censuras, etc. Porém, esse controle é menos
importante. Existe um controle oculto que é muito mais importante. É o controle
do capital. As grandes empresas capitalistas reproduzem no mundo virtual o
domínio que possuem no mundo real. Os sites mais acessados são das maiores
empresas capitalistas, de celebridades vinculadas a elas (nesse caso, ao
capital comunicacional), aos grandes partidos políticos (igualmente vinculados,
direta ou indiretamente, à classe dominante), etc. Uma terceira forma de
controle são das empresas produtoras de tecnologia, tais como os proprietários
das grandes redes sociais, da tecnointeligência, etc. E essa está vinculada e
reproduz os interesses dos demais setores do capital, embora existam
contradições.
Por exemplo, as redes sociais se
tornaram palco de controle do aparato estatal (tal como se vê no controle do
acesso por idade, mas também na criminalização de certas ações e discursos).
Nesse sentido, é possível se pensar que o controle estatal é benéfico, mas esse
é aspecto que responde ao processo de pressão social e correntes predominantes
de opinião, mas existe toda uma regularização que não aparece nas notícias
jornalísticas e que não se opõem ao capital. As redes sociais não são
manipuladas apenas politicamente, mas sob forma mercantil. Cada vez mais são
meios para se vender mercadorias e mercancias[2].
Isso se observa na relação entre “influenciadores” (ou, para os adeptos da
hegemonia linguística inglesa, “influencers”) e a propaganda de mercadorias e
mercancias, no uso direto das redes sociais para vendagem (o TikTok se tornou
bastante eficiente com os produtos baratos e tecnológicos num setor exclusivo
para venda, assim como já existia no facebook, mas que era aberto aos
usuários), no serviço de impulsionar as postagens (no caso, geralmente de
produtos), incluindo o de “serviços sexuais” (tanto o “real” quanto o
“virtual”). Isso também é visto na mercantilização crescente do que já
mercantilizado, tal como os chamados “serviços de streaming”, como Netflix,
Prime Vídeo, Disney, etc. Esses serviços são pagos e usam o mesmo processo que
as redes sociais virtuais de uso dos algoritmos (manipulados)[3]
e, além disso, após criaram o hábito de seu uso e preços mais baixos,
aumentaram os preços e começaram a hierarquizar o acesso, gerando propagandas
antes inexistentes para cobrar mais para o cliente que queira evitá-las. Se o
cliente (“usuário”) paga, o lucro é maior; se não paga, outra empresa paga pela
propaganda.
Nesse sentido, a autonomia individual é
bem limitada. E isso vale para o “produtor de conteúdos”. Esse precisa se
adequar ao nicho consumidor ao qual se dirige. Para pessoas que postam no
TikTok, Instagram, Facebook, Youtube, entre outras redes sociais, visando
retorno financeiro (que é a quase totalidade dos influenciadores e a totalidade
dos vendedores de mercadorias) é preciso “impulsionar” suas postagens, o que
significa pagar para tais redes um valor determinado para aparecer para um
público maior. E isso gera a submissão aos famosos “algoritmos”, que, no fundo,
expressam as forças mercantis mais poderosas e as correntes predominantes de
opinião. Com a polarização política e moral, isso também serve para manipular
posições contrárias criando polêmicas e ampliando o acesso para além do nicho
consumidor exclusivo de conservadores e progressistas. O influenciador é
influenciado e quem cria o influencia é o capital. Um dos meios de obter mais
acesso e, por conseguinte, dinheiro, é a criação de polêmicas e escândalos.
Essa estratégia é antiga e já foi estudada através do termo “sensacionalismo”,
que focalizada os jornais (chamados justamente de “sensacionalistas”) que
usavam manchetes e notícias escandalosas e exageradas. E isso faz proliferar as
chamadas “fake News”, que também já existiam há muito tempo sob o nome de
“factoides”. Desta forma, o influenciador é influenciado pelo capital, através
dos rendimentos que deseja e o faz agir de determinada forma, tal como seguir
as correntes de opinião (que se materializam em algoritmos), as ofertas das
empresas capitalistas, etc.
Se o influenciador não tem grande margem
de liberdade, então o “consumidor” tem muito menos. Sem dúvida, ele pode
protestar, criticar, etc., as postagens, mas que são pouco lidas e sempre tem
os adeptos e posições contrárias, não levando a lugar algum. Além disso,
convivem com os adeptos fanáticos ou com os odiadores fanáticos gerados pela
polarização (e se geram termos, geralmente em idioma inglês, para denominar
esses casos, como “haters” e “lovers”). A irracionalidade toma conta e a
comunicação é obliterada. O potencial crítico da internet é anulado e esse é o
caso mais extremo de anulação, pois ao invés de espaço de comunicação e debate
racional, se estabelece uma verdadeira “guerra de todos contra todos”.
A tecnointeligência é outro problema no
interior desse contexto. A suposta “inteligência artificial” é apenas uma
imitação limitada da “inteligência humana”. Não poderemos, aqui, discutir o
conceito de inteligência, mas apenas colocar que é um fenômeno mental complexo
que envolve consciência e pensamento, mas também outros elementos presentes na
mente humana (como a imaginação). Uma máquina é incapaz de reproduzir ou chegar
ao nível da inteligência humana. A tecnointeligência é mecânica, não possui
imaginação e criatividade, sentimentos, etc. A criatividade da
tecnointeligência é limitada, pois mesmo que ela seja programada para criar
coisas, ela o fará a partir da programação e esta é limitada.
Porém, o que interessa aqui não são os
limites da tecnointeligência (termo que substitui “inteligência artificial” por
colocar que não se trata, efetivamente, de “inteligência” e sim de uma imitação
tecnológica e que fica presa nos seus limites) e sim os seus usos e efeitos
sociais. Para parafrasear Marx, quando mais o indivíduo se fia na
tecnointeligência, menos tem de si mesmo. O uso exagerado e acrítico da
tecnointeligência reduz a reflexão e autonomia dos indivíduos. O efeito social
mais negativo é a ideia de a tecnointeligência é “objetiva”, “exata”, “neutra”
e por isso “confiável”, pois é uma máquina, uma tecnologia, etc. Assim, muitos
acreditam piamente na tecnointeligência e essa credulidade pode custar caro
(custa até a vida de algumas pessoas). A tecnointeligência não é neutra, pois
ela é programada a partir de um programador e de concepções das quais ele é
portador. Se a tecnointeligência fosse produzidas por nazistas, reproduziria
concepções do nazismo, pois os programadores e suas concepções seria dessa
concepção. A tecnointeligência é predominantemente dominada pelo paradigma
subjetivista e a moral que lhe é correspondente, embora existam algumas
exceções e em alguns casos isso venha sendo contrabalançado (por ter ficado
facilmente perceptível para pessoas mais críticas) com certo tom de
“neutralidade” e “objetividade”.
Aqui emerge um conjunto de contradições.
Já expusemos algumas. A contradição entre a ilusão de liberdade e a defesa da
“subjetividade” que emerge a partir da hegemonia do paradigma subjetivista,
entra em contradição com a tecnologia mercantilizada, burocratizada (controlada
por seus “criadores” e detentores), que acabam reproduzindo a dominação
cultural burguesa. E isso é reforçado pela contradição entre tais ilusões de
autonomia e liberdade com a crescente dependência tecnológica. O ser humano
fica cada vez mais dependente da tecnologia. Hoje, sem internet, muitos
indivíduos ficam sem nada. Não se comunicam, não compram, etc. A netnologia
(chamada de “internet das coisas”, processo no qual a comunicação entre seres
tecnológicos diferentes se autonomiza como uma rede tecnológica) pode criar
“casas inteligentes”, mas que podem ser habitadas por pessoas cada vez mais
dependentes e menos inteligentes. Esse é o caso do indivíduo que construiu uma
casa inteligente usando netnologia e não colocou interruptores e se viu na
difícil situação de não ter como ligar as luzes quando a rede não funciona, já
que não havia a possibilidade de fazer isso manualmente. Os indivíduos cada vez
mais dependentes da tecnointeligência é outro caso e já ganhou postagens
humorísticas nas próprias redes sociais, tal como um vídeo que satiriza a
comunicação de um cliente e um atendente de loja via uso de tecnointeligência
no celular. As pessoas, quando mais solicitam coisas para a tecnointeligência,
menos autônomas e experientes se tornam, bem como mais mecânica e padronizada
fica a interação humana.
A tecnointeligência é “trabalho morto” e quanto mais
ela é usada e ganha espaço, menos humano e capaz se tornam os seres humanos.
Isso gera um ciclo de reprodução cada vez maior e um processo de produção cada
vez menor. Daí surgem as teses da “internet morta”, dominada pelas
tecnointeligências, sem criatividade. Nesse contexto, isso é apenas um
antecessor da “cultura morta”, pois acaba se generalizando para toda a
sociedade. Isso significa que quanto mais a tecnointeligência é usada e amplia
seu espaço na sociedade, menor se torna o desenvolvimento da consciência e
pensamento humanos, o que tem como consequência um processo de imaturalização
crescente da população convivendo com o predomínio crescente da
tecnointeligência, mas através daqueles que a detém.
No plano cultural, isso gera um
empobrecimento crescente; no plano social, produz dependência tecnológica cada
vez mais ampliada e empobrecimento intelectual individual e suas consequências
sociais; no plano econômico e político, gera a supremacia dos donos da
tecnointeligência. Um quadro evolutivo hipotético pode demonstrar isso:
Esse gráfico hipotético, caso se concretize,
significaria que cada vez mais os seres humanos ficariam menos produtivos
intelectualmente, pensariam menos e seriam menos criativos e inteligentes e
esse espaço seria ocupado pela tecnointeligência, que, no entanto, apenas
reproduz o saber humano existente e gera, a partir dele, determinados
resultados e supostos “novos saberes”, que só é efetivo em algumas áreas (e com
certos limites). O elemento criativo, por conseguinte, se tornará cada vez
menor e, assim, a reprodução e a falta de inovação tende a gerar uma estagnação
(isso pode ser evitado, nesse contexto, por uma “elite”, que seria a dos
proprietários e/ou programadores de tecnointeligência, mas, mesmo nesse caso,
com o empobrecimento cultural geral, também serão atingidos por esse processo
de decréscimo de criatividade e capacidade cognitiva[4]). O
resultado desse processo hipotético (embora tendencial, considerando que o
resto da realidade – incluindo guerras, luta de classes, revoluções, destruição
de tecnologia, etc., – não interfiram) pode ser visto no segundo gráfico
hipotético abaixo:
O gráfico hipotético acima aponta para
os resultados desse processo e a tendência para a estagnação e tudo que deriva
disso. Sem dúvida, esse é um quadro hipotético sombrio, embora possível, apesar
de pouco provável, pois a realidade humana e social não se desenvolve num
evolucionismo unilinear e a subtração hipotética de outras determinações e
processos sociais retira as demais possibilidades e tendências. Contudo, se não
houver processos contraditórios, isso pode vir a ocorrer e significar uma
situação caótica, um retrocesso histórico, uma autodestruição, ou uma nova
forma de exploração social via tecnologia.
Deixando o futuro de lado e voltando para a realidade presente, o predomínio tecnológico já é uma realidade, bem como os processos acima apontados. Isso tem efeitos sociais, políticos e econômicos, que trataremos adiante. O que importa aqui é mostrar os efeitos psíquicos disso nos indivíduos e coletividades. Esse processo afeta intelectualmente a população em geral, embora alguns setores sejam mais atingidos (crianças e jovens, pois já nascem e se desenvolvem nesse deserto intelectual). A dependência tecnológica das gerações mais novas é muito mais ampla, pois não tiveram experiências anteriores como as gerações mais velhas. Porém, quem herdará o mundo serão as gerações mais novas e as posteriores. Além dos efeitos puramente intelectuais, mas intimamente ligado a eles, ocorre o efeito psíquico de seres humanos cada vez mais “mecânicos”, “dependentes da tecnologia”, inábeis no plano sentimental e emocional. Isso significa cada vez menos autônomos e criativos. Isso gera a contradição já aludida entre o subjetivismo e o desenvolvimento tecnológico. A solução de compromisso abre uma nova contradição e, mais cedo ou mais tarde, vai explodir. O subjetivismo é irrealista e cumpriu com uma função política e cultural interessante para o capitalismo, mas já não se adequa às necessidades do desenvolvimento capitalista e tecnológico. E cada vez mais isso fica perceptível, pois a ilusão de liberdade quando o indivíduo não percebe que suas ideias (ou “subjetividade”) são produtos sociais e históricos, se perde quando se tornam cada vez mais “produtos tecnológicos”. A “cultura”, assim como paradigmas da episteme burguesa, são relativamente “imperceptíveis”, mas a tecnointeligência dá corpo a isso, é um “outro” perceptível.
Os resultados desse processo, além do
empobrecimento intelectual e afetivo, é o reforço de fenômenos já apontados:
solidão, isolamento, inabilidade sentimental e emocional. Esses processos estão
generalizados na sociedade, mas tendem a aumentar. No plano das relações
interpessoais se manifesta cada vez mais a inabilidade sentimental e emocional,
com excesso de exigências e incapacidade de compreensão mais profunda das
demais pessoas e seus limites (e, mais ainda, dos processos históricos e
sociais mais amplos e o envolvimento individual nesse contexto). No plano das
relações amorosas, por exemplo, isso é nítido e seus efeitos geram desde o
ridículo “autocasamento” e as “soluções tecnológicas”: as namoradas virtuais de
tecnointeligência[5]
e até os robôs sexuais[6].
A sociedade capitalista tecnologizada (e o termo “capitalista” explica que não
é apenas tecnologia, mas submetida a um caráter capitalista e num contexto
capitalista) amplia a miséria psíquica e sexual dos seres humanos e apresenta
pseudossoluções que amplificam ainda mais esses processos, gerando processos de
aumento dos desequilíbrios psíquicos, sofrimento, imaturalização, etc.
No plano da coletividade, isso afeta
mais negativamente, como já foi dito, as gerações mais novas, bem como certos
setores da sociedade (homens e mulheres com dificuldades – por diversas
determinações que giram em torno das características da sociedade capitalista)
e gera novas contradições e a busca da evasão é uma de suas consequências. E a
própria tecnologia vem se tornando o principalmente meio de evasão existente,
pois através das redes sociais virtuais, da internet em geral, de jogos
virtuais, milhões de indivíduos fogem da realidade. A fuga da realidade via
evasão (usando tecnologia ou não), por sua vez, é um problema que gera outros,
como o remorso, a vergonha, a apatia, as dificuldades em estabelecer
relacionamentos, etc.
[1]
Sobre isso, cf. “A Sociedade da Evasão” (Viana, 2022).
[2]
Sobre o conceito de mercancia, que são valores de troca produzidos fora do
âmbito das relações de produção capitalistas, cf. Viana, 2017.
[3]
Não deixa de ser curioso que a Netflix produza um documentário colocando
elementos desse processo no caso das redes sociais e não se inclua no “pacote”,
pois ela usa os mesmos procedimentos. Cf. https://informecritica.blogspot.com/2020/10/o-que-foi-ocultado-em-os-dilemas-das.html
[4]
Os programadores também são “programados”, seja por um ou outro paradigma da
episteme burguesa, com os seus limites intransponíveis.






