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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Mesa Redonda - Cultura e Capitalismo na Contemporaneidade

 


Mesa Redonda - Cultura e Capitalismo na Contemporaneidade




Mesa redonda: 8° Simpósio Internacional da Faculdade de Ciências Sociais.
Dia 25/09, 10:15
Local: sala de defesa AS01/FCS.

O tema da mesa redonda é a relação entre “cultura e capitalismo” na contemporaneidade, aqui entendida como a atual fase da sociedade capitalista, comandada pelo regime de acumulação integral (cujo processo de formação inicia a partir do ano de 1980 e se consolida nos anos 1990 e vem até os dias de hoje). Os temas abordados realizarão uma interface com as manifestações culturais e processos sociais contemporâneos. A relevância dessa proposta se revela no fato de que mudanças culturais na contemporaneidade trazem um vasto campo de investigação diante das incertezas, alterações velozes, e seu impacto nos processos sociais e manifestações culturais locais. A mesa abordará, assim, tanto as mudanças sociais quanto as alterações culturais, dentro da dinâmica do capitalismo contemporâneo, que não é estático e se altera e velocidade da alteração se intensificou a partir do desenvolvimento tecnológico manifesto pela internet, inteligência artificial, novas tecnologias como drones, etc. O objetivo principal é contextualizar as mudanças do capitalismo e relacionar esse processo com as mutações culturais e seu impacto na contemporaneidade.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

PSICANÁLISE DA ILUSÃO ELEITORAL - Nildo Viana

 

Erich Fromm analisando um eleitor...

PSICANÁLISE DA ILUSÃO ELEITORAL

 

 

Nildo Viana

 

Temos uma escolha. Fugir em pânico ante a iminência do desmoronamento das nossas estruturas; acovardar-nos com a perda dos portos conhecidos; fi­car paralisados, inertes e apáticos. Fa­zendo isso, estamos abrindo mão da oportunidade da formação do futuro. Estamos negando a característica mais distintiva do ser humano – influenciar a evolução do meio do reconhecimento consciente – , capitulando frente à força destrutiva e cega da história, de­sistindo de moldar uma sociedade fu­tura mais justa e mais humana. Ou será que devemos lançar mão de toda cora­gem necessária para preservar nossos sentimentos, nossa consciência e res­ponsabilidade ante a mudança radical? Participar conscientemente, mesmo em pequena escala, da formação da nova sociedade? Espero que esta seja a esco­lha, pois nela baseio minha dissertação.

Rollo May

 

A época das eleições revela um conjunto de comportamentos e discursos considerados “irracionais”, sendo que alguns são razoabilizados (“racionalizados”). Diversas pessoas que passam a sua vida inteira alheia às questões políticas e sociais mais amplas, de repente, como num passe de mágica, se tornam ardorosos defensores de candidatos A ou B. Depois de três anos de completo apolicitismo, emergem figuras que do nada se julgam entendidos em política e que devem convencer os demais a qualquer custo. Um comportamento irracional[1].

Isso remete ao problema psíquico das eleições e das ilusões eleitorais e, por conseguinte, alguns aspectos da psicanálise podem contribuir com a compreensão desse fenômeno psíquico.

O Desejo Fetichizado

O primeiro elemento é entender as motivações desse comportamento, que possuem pouca ou nenhuma racionalidade. Sendo que sua motivação não é racional, então talvez seja interessante descobrir quais são suas reais motivações. Obviamente que excluímos da análise aqueles que possuem interesses (pessoais, grupais, etc.) envolvidos em sua escolha eleitoral, que abordamos em outra oportunidade[2]. Aqui se trata do caso de pessoas que não possuem nenhum interesse pessoal ou grupal no processo eleitoral e se tornam, repentinamente, defensores insistentes de determinados candidatos, o que torna a ausência de racionalidade ainda mais perceptível. A psicanálise[3] é extremamente útil para explicar esse comportamento irracional.

E nada melhor do que um psicanalista servir de exemplo para análise. Um psicanalista profissional geralmente é alheio às questões políticas, mas não deixa de se envolver no processo eleitoral. Vejamos o que diz o psicanalista Contardo Calligaris:

Votar talvez seja um rito e uma espécie de ato de fé. Mas o momento crucial desse rito não é coletivo – ao contrário, ele é estritamente reservado ao indivíduo. Rito de qual culto, então? E ato de fé em quê? Pois é, ninguém (salvo ilusões e delírios) acredita que, depositando nosso voto na urna, a gente possa mudar o mundo. Mas, paradoxalmente, votamos exatamente por isso, para confirmar nossa fé no poder de os indivíduos modificarem o mundo[4].

Essa é a questão fundamental que atinge grande parte da população. A ilusão eleitoral se fundamenta, em grande parte dos casos, numa “fé”, num desejo, numa crença. O conceito de crença necessita ser revisto e ampliado, mas é ele que consegue dar conta dessa realidade. Trata-se de uma crença fundada num desejo. A questão é que não é um desejo como os outros que temos na nossa vida. É um tipo específico de desejo. É um desejo que entra em contradição com a realidade, sendo ilusório, mas que se sustenta por ser fetichizado. É um caso semelhante ao de pessoas que, dominadas pelos valores burgueses da competição, busca de ascensão e riqueza, querem se tornar milionários, mas nada fazem para concretizar tal desejo. Esse tipo de pessoa fica esperando “a grande sorte”, o “destino”, “Deus” ou qualquer outra coisa que produza um resultado sem o trabalho de lutar pra consegui-lo. Algumas pessoas ficam esperando ficar rica sem fazer nenhum esforço para tal. Outros jogam na loteria esperando um dia ser contemplado.

Todos estes exemplos revelam desejos fetichizados. O desejo ganha vida própria, passa a ser um agente da história ou da vida dos indivíduos, se autorrealizando, pois aquele que deseja nada faz para sua realização. Essa forma de desejo é produto da sociedade capitalista e da alienação generalizada (isso será abordado adiante), mas se reproduz na época das eleições. É isso que explica como pessoas geralmente alheias às questões políticas, tanto institucionais (as políticas estatais e processos políticos partidários e parlamentares, ações governamentais) quando no sentido mais amplo (local de trabalho, moradia, estudo, manifestações, movimentos sociais, etc.), repentinamente começam a querer discutir política e colocar como fundamental algo que nem sequer faz parte de sua vida cotidiana.

O desejo fetichizado tem na democracia representativa a sua forma mais cristalina de existência, pois basta você escolher seu “representante” e governante e pronto, pode continuar alheio à vida política. A valoração da política se dá apenas no momento eleitoral, bem como a ação política se reduz ao voto. Depois de heroicamente, como nosso psicanalista acima, votar, o cidadão vai para casa e passa a cuidar de sua vida privada. O desejo fetichizado de mudança ou qualquer outro é fetichista e por isso tem a ver com a fé, tendo um mecanismo psíquico semelhante, pois se trata de uma crença. Ele é uma mistura de vontade intensa e conformismo prático. Em alguns, o conformismo prático pode até gerar um certo ativismo para que o desejo fetichizado, ainda sob forma fetichista, seja “realizado” (pedir votos, fazer “promessas” – como algumas pessoas religiosas fazem, ir na loteria toda semana jogar, etc.).

O desejo fetichizado provoca uma pseudestesia (falsa sensação) de esperança. No caso eleitoral, o eleitor vota e vai cuidar da vida privada, só reaparecendo nas próximas eleições, alguns anos depois. Se o candidato dele perdeu, ele tenta votar no mesmo ou semelhante. Se ganhou e não cumpriu as promessas, ele aceita as supostas explicações ou esquece tal fato e vota novamente. Alguns, nesse caso, podem trocar de candidato. Esse mecanismo psíquico é o mesmo do jogador de loteria que quer ficar milionário: ele joga e perde, mas na semana seguinte e nas posteriores, está novamente fazendo sua “fezinha”[5], nome esclarecedor. Ele continua com sua crença ilusória de que da próxima vez ele poderá ganhar.

A superação do desejo fetichizado em época eleitoral pode ocorrer sob a forma positiva, que é sua substituição por uma esperança verdadeira, na qual o indivíduo busca efetivamente realizar seu projeto e percebe que depende de si mesmo para concretizá-lo, ou sob a forma negativa, que é a sua substituição pelo niilismo, o desejo de destruição de si e/ou dos outros. A sociopsicanálise pode apenas mostrar esse processo psíquico e explicar suas fontes, trazendo a necessidade de superação da situação que gera o desejo fetichizado. O marxismo é fundamental para a explicação dessa situação e por apresentar um projeto alternativo de sociedade, a autogestão social. Da perspectiva da luta política, a luta contra a ilusão eleitoral e o desejo fetichizado deve se aliar com análise da totalidade da sociedade e projeto autogestionário como alternativa.

A Manipulação do Medo

O medo é um sentimento humano normal e comum. Em certos momentos ele pode ser exagerado, quando ocorre processos sociais determinados que geram uma generalização ou intensificação do medo, ou, em casos individuais, quando há desequilíbrio psíquico. O processo eleitoral é um jogo no qual os jogadores (partidos, candidatos, etc.) fazem de tudo para ganhar o mesmo, inclusive passando por cima das próprias regras. Dentre as diversas formas utilizadas para tentar conseguir votos e retirar dos adversários está a manipulação do medo.

A manipulação do medo assume várias formas. Uma das formas é criar relações para atribuir medo. Se utiliza de um sentimento relativamente comum, que é o medo do desconhecido, do estrangeiro, do diferente, para criar uma relação negativa com o(s) adversário(s). Assim é que logo se relaciona o adversário com o “fascismo”, o “comunismo”, etc. Na história das eleições no Brasil, esse procedimento foi utilizado de forma sistemática pela candidatura de José Serra contra a de Luiz Inácio Lula da Silva (2002). A atriz Regina Duarte aparecia no programa eleitoral e chamadas do PSDB  (Partido da Social-Democracia Brasileira) falando que temia a volta da inflação, o fim da estabilidade conquistada pelo governo tucano, o candidato oposto, etc.[6]

Em 2014, disputa entre Dilma Roussef (PT) e Aécio Neves (PSDB), no segundo turno, a mesma manipulação é realizada, só que agora invertida, pois é o PT que usa esse estratagema contra o PSDB. Ou seja, usa o discurso do medo, afirmando que a estabilidade, os parcos programas sociais, entre outras coisas, seriam perdidos caso o candidato adversário ganhasse[7].

Obviamente que o discurso pode parecer convincente, mas é geralmente falso. O interesse de qualquer partido e candidato é manter-se no poder e isso pressupõe manter a governabilidade. Instabilidade financeira, inflação, altas taxas de desemprego, etc., não é interesse de nenhum governo, pois lhe retira apoio, legitimidade e possibilidade de manutenção no poder. Se isso ocorre, é geralmente por causa de forças externas e independente da vontade de cada governo (crise mundial, por exemplo). Tanto é que o medo de Regina Duarte não foi comprovado. Da mesma forma, os programas sociais não seriam retirados se dão retorno eleitoral, a não ser que a situação exija. Assim, de qualquer forma, dificilmente há justificativa para o medo, pois não tende a ver mudança fundamental nos elementos que se utilizam para balançar tal bandeira.

Isso pode ocorrer em alguns casos, quando há excesso de incompetência ou quando o futuro governo tem realmente alguma grande diferença programática e política com o partido no poder durante a eleição. No caso das eleições de 2014, isso não existia, pois os dois partidos em disputa são neoliberais e seguem as diretrizes do grande capital transnacional. Basta recordar o protótipo do programa “bolsa família”, cuja origem é neoliberal, foi gestado no Banco Mundial[8], implantado pelo governo do PSDB e mantido com algumas poucas modificações pelo governo do PT. Com o retorno eleitoral que ele já promoveu, nenhum governo o jogaria na lata de lixo. O mesmo ocorre com diversas outras iniciativas governamentais, o máximo que pode ocorrer é trocar algumas pessoas que estão na gestão dos programas e é aí que está a verdadeira disputa. Claro está também que muitos governos dizem ter realizado conquistas que, no fundo, é produto do desenvolvimento capitalista (o uso de computadores e celulares, por exemplo, tanto é que se espalhou por todo o mundo, mesmo em países muito mais pobres) e dizer mentiras faz parte do jogo eleitoral.

É sempre o partido governista que usa esse estratagema, pois ele é conservador, pois apresenta a tendência da situação piorar com um governo de outro partido e visa apenas conservar as supostas “conquistas”. Isso pode ser reforçado por vínculos, práticas, rótulos, etc., atribuídos (reais ou não) ao adversário.

A manipulação do medo, no entanto, não atinge todo o eleitorado, mas somente parte, que se reconhecem nas supostas “conquistas” (alguns são “convencidos”), os que obtiveram privilégios, os que pensam que realmente pode piorar e atingi-los.

Isso acaba desviando da verdadeira questão: na verdade, quem perderá pessoalmente é apenas os indivíduos com cargos, vantagens e privilégios por estarem ligados ao bloco dominante expresso pelo partido no governo. Em todo o processo eleitoral, o que se troca são as forças provisórias do bloco dominante (indivíduos, partidos, grupos de interesses, etc.) e para esses, realmente é necessário ter medo, pois vão perder algo, sem dúvida.

No caso brasileiro, além do jogo de interesses dos componentes do bloco dominante, perdas reais podem ocorrer, mas isso muito mais por causa da tendência do capitalismo mundial e da dinâmica do capitalismo brasileiro do que por qualquer outra coisa. Sem dúvida, quando o ciclo de crescimento chega ao fim, ele gera problemas e necessidade de reajustes. As políticas estatais de assistência social tendem a diminuir, bem como outros investimentos podem recuar, mas tanto faz quem será o governo, nenhum dos dois partidos em disputa nas eleições tem uma concepção e projeto alternativo ao neoliberalismo e por conseguinte as diferenças são tão pequenas que até que poderiam juntar e fariam juntos o mesmo mal que fariam separados.

A grande questão é que o medo gera retraimento e conservadorismo. Por isso é necessário substituir o medo pela coragem, pelo desafio. Ao invés de escolher entre ficar do jeito que está com algumas promessas de poucas melhorias ou de supostas mudanças é preciso escolher a utopia, a luta pelo que é realmente novo e radicalmente diferente. Escolher entre ser um escravo com o dono X ou com o Y não é escolha. A única escolha digna é abolir a escravidão, os escravos e os donos. Sonho irrealizável? Melhor viver e lutar por um sonho irrealizável do que viver num pesadelo cotidiano e constantemente renovado, recorrente[9].

Ao invés de medo e apoio à reprodução do mundo existente, devemos recusar, nas urnas com o voto nulo, e na vida, com diversas ações e lutas, para superar esse mundo que algumas pessoas ainda insistem em defender, apesar de 1 em cada 7 seres humanos estar passando fome no mundo, da destruição ambiental em escala mundial (e que pode se tornar irreversível), da superexploração da força de trabalho, da miséria psíquica, sexual, cultural, e milhões de outras coisas que poderiam ser elencadas e que são apoiadas e reforçadas por todos os governos de todos os partidos (inclusive os da esquerda).

O único caminho alternativo é sair do discurso dominante e de suas supostas divergências, pois divergem dentro da convergência da reprodução do capital e tudo que é derivado dele e foi citado anteriormente. Medo? Do que deveriam ter medo não têm, pois só conseguem ver o cotidiano, as coisas palpáveis, a vida medíocre e suas necessidades imediatas. Coragem? Essa é necessária para mudar o mundo.

A Alienação Generalizada

O desejo fetichizado, tal como abordamos anteriormente, não emerge do nada, ele tem uma fonte social. Nesse sentido, é fundamental entender as fontes do desejo fetichizado, não só para compreendê-lo, mas também para poder pensar sua superação, o que pressupõe romper com a alienação, o burocratismo, o imobilismo e o conformismo, condições para uma verdadeira esperança e utopia concreta.

O desejo fetichizado ocorre sob várias formas e uma delas é o fetichismo eleitoral. Assim como o fetichismo da mercadoria é explicado pela existência do trabalho alienado, o desejo fetichizado (ou fetichismo eleitoral) é explicado pela generalização da alienação na sociedade capitalista. O trabalho alienado é aquele no qual o trabalhador não possui controle de sua atividade e com isso perde o controle do produto do seu trabalho, gerando a alienação do produto (propriedade privada). A alienação é, assim, uma relação social na qual alguns controlam a atividade de outros e assim usurpam o produto da mesma[10]. Esse processo é mais amplo do que parece à primeira vista, pois a sociedade capitalista realiza um processo de ampliação da divisão social do trabalho, mercantilização e burocratização das relações sociais. A burocratização das relações sociais acaba gerando um processo de controle da vida cotidiana dos indivíduos, através do Estado e seus aparatos (democracia burguesa, aparato repressivo, aparato educacional, aparato comunicacional, etc.) e as empresas e instituições privadas, promovendo também a burocratização da sociedade civil em geral (igrejas, partidos, sindicatos, etc.). Esse processo atinge o conjunto da sociedade, desde 1945. Os indivíduos passam a estar submetidos a diversas instâncias sociais que dirigem sua vida em geral. Os indivíduos são controlados no trabalho, nos estudos, no lazer, estando submetidos a especialistas e burocratas em todos os lugares.

A alienação generalizada da sociedade capitalista promove a mentalidade burocrática, tanto a de caráter dirigista daqueles das classes superiores, especialmente os burocratas (do estado e governos, empresas, instituições em geral) quanto a sua versão submissa dos dirigidos em sua maioria. O que ambos concordam é que há a necessidade de dirigentes e dirigidos. Tantos os indivíduos das classes superiores quanto os das classes inferiores, em sua maioria, aceitam a alienação. Nas classes inferiores, uma grande parte aceita resignadamente, enquanto que outra parte aceita por ambicionar passar de dirigido para dirigente, esperando ascender ao poder.

A mentalidade burocrática é a do controle total e dirigista, produzida e reproduzida por burocratas, capitalistas e pretendentes. Para aqueles que são das classes exploradas, isso se revela, em grande parte dos casos, como submissão e se manifesta mais como mentalidade submissa que justifica e legitima a dominação e direção. A nível da sociedade, isso reforça a estratégia burguesa de canalizar todas as lutas sociais para o Estado, via democracia representativa, na qual as pessoas trocam sua luta direta por escolha de representantes, adesão a partidos e candidaturas, etc., o que significa, em alguns casos, abrir mão da luta para que outro supostamente a faça em seu lugar e em seu nome.

Assim, temos relações sociais concretas marcadas pela alienação e burocratização e mentalidade burocrática e submissa gerada por tais relações e confirmadas cotidianamente por elas e pela própria mentalidade que lhe reforça. Nesse contexto, existe uma recusa da alienação, do burocratismo, do controle e falta de liberdade, mas em grande parte dos casos é insciente ou relegada a mero desejo fetichizado. Aqui temos um processo de alienação generalizada e produção de desejo fetichizado.

O processo de superação do desejo fetichizado de liberdade e de eliminação da burocracia e da alienação, elementos inseparáveis, ocorre através da luta e, especialmente, da práxis. A luta é necessária e é a primeira forma de liberdade e superação da alienação e burocratismo, pois nós mesmos agimos em busca da liberdade, já sendo sua manifestação inicial. Contudo, isso deve ser teleológico (com uma finalidade, a liberdade real, autoemancipação e autogestão das lutas visando a autogestão social), consciente e ativo, por isso práxis. A negação prática é mais rica, profunda e eficaz quando é também negação consciente e teórica.

Ora, se há uma alienação generalizada na sociedade capitalista, então devemos lutar também sob forma generalizada contra ela. Trata-se de uma luta generalizada visando instaurar e generalizar a autogestão (das lutas para conseguir torná-la autogestão do conjunto das relações sociais, ou seja, da sociedade como um todo). Esse processo de luta não pode ser, no entanto, separado das relações sociais existentes e por isso não é num esforço de imaginação que isso se realiza ou de um dia para o outro. Se alguns indivíduos buscam e tentam efetivar isso, eles encontrarão a oposição da classe dominante, do Estado, do capital, bem como de suas classes auxiliares e até mesmo de amplas parcelas das classes exploradas que ainda não terão superado alienação generalizada e a hegemonia burguesa. Inclusive haverá oposição das próprias pessoas que querem a transformação radical, em sua mentalidade, pois ninguém rompe com a mentalidade dominante e milhares de outros elementos culturais e sociais de uma hora para outra e em sua totalidade. Esse é um processo de luta onde milhares estão lutando e por isso é preciso lutar contra nós mesmos em muitos aspectos, principalmente tendo em vista que nem tudo que é apresentado como “revolucionário” o é realmente. É preciso entender que muito do que se coloca como contestador é, no fundo, mera luta por vantagens competitivas dentro do capitalismo e isso acaba criando divisões e promovendo influências para os que acreditam em tais discursos. Por isso a reflexão deve ser mais profunda.

Assim, a luta cultural tem um papel fundamental, bem como a luta em todos os lugares e sob variadas formas. O voto nulo autogestionário (ou seja, vinculado à luta pela autogestão) e a luta antiparlamentar é uma dessas formas – que não é a única e nem a mais importante, pois existem milhares de outras, inclusive mais profundas e necessárias. A questão é que o voto nulo (ou abstenção) é uma ação que não é dirigida por ninguém, o que significa que é uma forma de luta que rompe tanto na prática quanto na consciência, com a alienação e o burocratismo. Nesse sentido, é um dos lugares de luta, que não pode, no entanto, aparecer como o único ou principal, bem como esse fato não deve servir de pretexto para omissões oportunistas e convenientes a nível pessoal de supostos revolucionários, que querem evitar conflitos e problemas e ficar em sua situação de conforto nas relações sociais com conservadores, oportunistas, etc.

Obviamente que existem outras consequências do voto nulo (protesto, deslegitimação da democracia burguesa e estado capitalista, etc.), principalmente se articulado com outras lutas, tal como a luta cultural mais geral, a luta pela formação de organizações autárquicas (formas de auto-organização) e autoeducação da população em seu conjunto, o projeto autogestionário, etc. Nesse sentido, a luta[11] pelo voto nulo é um processo de superação do desejo fetichizado e elemento da luta cultural pela autogestão social e contra a alienação generalizada do capitalismo. A superação do desejo fetichizado pode ser conquistada, em alguns casos individuais, com a luta cultural e pelo voto nulo autogestionário, mas é com a superação da alienação generalizada no conjunto das relações sociais que isso pode ocorrer de forma também generalizada.



[1] Não utilizamos o termo “irracional” da mesma forma que outros autores ou no sentido comum da palavra. Para nós, o irracional (e a irracionalidade) é um fenômeno mental caracterizado pelo predomínio absoluto de uma sensitividade prejudicial sobre a racionalidade. A sensitividade são as energias psíquicas manifestas pela sentimentalidade, temperamento, inconsciente. A sensitividade não é algo positivo nem negativo, pois depende de quais sentimentos, emoções, etc. se trata. Porém, uma sensitividade pautada em determinados sentimentos (antipáticos) e outros processos psíquicos problemáticos, predominando de forma absoluta na mente humana, torna-se prejudicial para o indivíduo e para a sociedade.

[3]   Trata-se, aqui, de psicanálise social, e não o freudismo ortodoxo ou as ideologias psicanalíticas de Lacan, Klein e outros. Além de Freud, é possível citar Fromm, Adler, Jung, Schneider, entre outros, bem como a “sociologia psicanalítica” de Mannheim e Roger Bastide, que poderiam ser aqui utilizadas. No entanto, a sociopsicanálise assimila elementos dessas abordagens, especialmente o freudo-marxismo, a partir do marxismo e na sequência de nossas obras sobre psicanálise e temas correlatos.

[5]  A expressão popular “fezinha” (fezinha é diminutivo de fé) é usada quando uma pessoa vai apostar numa casa lotérica.

[6] Cf. http://www.youtube.com/watch?v=DEeNSkXn5mY&list=RDDEe-NSkXn5mY#t=27

[7] Cf. http://www.youtube.com/watch?v=ZJA_LkP0lBE.

[9] Algumas pessoas de esquerda ainda não entenderam que o projeto autogestionário não está buscando carro, casa, comida, distribuição de renda, salários elevados e sim abolição da pobreza em geral, relações sociais radicalmente diferentes, abolição do salariato, do Estado, do capital. As discussões mesquinhas sobre desenvolvimento econômico, salário, privilégios, renda, migalhas, entre outras, são “projetos” do capital e para o capital, visando se reproduzir. Um mundo novo é o que está contido no projeto autogestionário, o resto é ilusão e mediocridade, tanto faz qual o governo que reproduzirá isso.

[10] Sobre alienação, cf.: VIANA, Nildo. Karl Marx: a Crítica Desapiedada do Existente. Curitiba: Prismas, 2017.

[11] Luta e não “campanha”, pois quem faz campanha são os políticos profissionais e partidos políticos. Embora isso não nos faça, como alguns, condenar aqueles que usam tal terminologia (“campanha pelo voto nulo”) como se isso fosse fundamental e motivo para divisionismo, pois apenas sugerimos a mudança e usamos outra linguagem e se houvesse menos “sectarismo” e “dogmatismo”, muitos poderiam alterar, sendo que poucos fazem isso e outros avançam mas fazem questão de fazer de conta que não sabem a fonte de tal alerta e criticam os que chamaram atenção para o fato e inventam críticas infundadas para manter sua luta por espaço ao invés de buscar a solidariedade revolucionária, compromisso com a verdade e reconhecimento da luta dos demais.


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Publicado em: PEIXOTO, Maria Angélica (org.). Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano. Goiânia: Edições Enfrentamento, 2020.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Curso de Extensão: "Psicanálise e Sociedade"

 


Curso de Extensão: "Psicanálise e Sociedade"



Sobre o evento

O Curso de Extensão "Psicanálise e Sociedade" visa apresentar uma reflexão sobre a contribuição da psicanálise para a compreensão da sociedade e para a teoria da sociedade. Para tanto, o curso inicia com uma análise da contribuição do fundador da psicanálise, Sigmund Freud, através de seus escritos que abordam a sociedade. Num segundo momento, o curso apresenta as contribuições de Erich Fromm e Michael Schneider e, por fim, faz um balanço teórico geral sobres as contribuições psicanalíticas para o estudo da sociedade através das análises psicanalíticas da sociedade e fenômenos sociais e como as concepções sociológicas e marxistas contribuem para se pensar o universo psíquico dos indivíduos.


O curso de extensão “Psicanálise e Sociedade” é parte de um “projeto de extensão” mais amplo, intitulado “Psicanálise e Sociedade – A contribuição psicanalítica para pensar o social”, que inclui o curso já realizado “Introdução à Psicanálise”, o curso em andamento “Introdução à Psicologia Social”, outros cursos planejados que serão ministrados posteriormente, e inclui também pesquisa, estudos e publicações, assim como ciclo de palestras complementar ao curso. Inscrição gratuita para participantes do curso "Introdução à Psicologia Social" (clique para acessar e se inscrever).


Exposições:

Psicanálise e sociedade em Freud - Dr. Jean Isídio dos Santos

Erich Fromm e a Psicanálise da Sociedade Contemporânea - Dr. Nildo Viana

Psicanálise e Sociedade em Michael Schneider - Dr. Rubens Vinicius da Silva

Psicanálise e Teoria da Sociedade: Encontros e Desencontros - Dr. Nildo Viana


Inscrições e Informações:

https://www.even3.com.br/psicanalise-e-sociedade-773429/

 Ou use o QR Code.



sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Para Onde vai o Capitalismo? Tecnologia, Guerra e o Destino da Humanidade (curso presencial)

 



Para onde vai o capitalismo? Tecnologia, Guerra e Destino da Humanidade

O curso tem como objetivo proporcionar um debate sobre o capitalismo contemporâneo focalizando as tendências atuais diante do aceleramento do desenvolvimento tecnológico e do cenário de guerras e possibilidade de sua ampliação a nível mundial. Assim, compreender o capitalismo contemporâneo, caracterizado pelo regime de acumulação integral, com suas contradições, é fundamental para entender as tendências contemporâneas. Outro elemento fundamental é compreender a historicidade dos regimes de acumulação e a dinâmica geral do desenvolvimento capitalista. Por fim, a análise das evoluções mais recentes – especialmente o desenvolvimento tecnológico acelerado e a ameaça de ampliação das guerras – fecha o quadro analítico e permite a compreensão das tendências contemporâneas.

 

Na época do regime de acumulação integral, a sociedade capitalista enfrenta diversas situações problemáticas. Uma delas é o desenvolvimento tecnológico que se acelerou nos últimos anos e gera efeitos ainda não totalmente compreendido. A dinâmica do desenvolvimento tecnológico, no entanto, ainda continua e isso traz diversas incertezas, tais como o significado e efeitos da tecnointeligência (Inteligência Artificial), automação, etc. Por outro lado, as incertezas aumentam com a ameaça de expansão de conflitos interimperialistas sob a forma de guerra. Esses fenômenos são acompanhados por outros, como o mal-estar psíquico crescente, o declínio intelectual da população, polarizações políticas e morais, entre diversas outras. Nesse contexto, as incertezas e dúvidas se avolumam mesmo nos setores intelectualizados da sociedade e isso justifica a necessidade de ampliação da compreensão desses processos e busca de intervenção no sentido da transformação social radical e total para evitar a catástrofe que se anuncia.

 

O curso se realizará em encontro único, com quatro horas de duração (09:00-12:00). O encontro será dividido em uma parte mais extensa para exposição e outra, no final, para depoimentos e debates.


CERTIFICADO E INSCRIÇÕES: As inscrições podem ser feitas abaixo. São apenas 35 vagas. A inscrição e presença no dia do curso confere o direito de certificado de participação de 6 horas/aulas.






Informações e Inscrições:

https://www.even3.com.br/para-onde-vai-o-capitalismo-772373/

Ou use o QR Code abaixo:




sexta-feira, 31 de julho de 2026

Formas e tipos de discurso - Nildo Viana

 


Formas e tipos de discurso


Por Nildo Viana


A reflexão realizada até aqui deixou entrever a existência de determinadas formas de discurso: discurso escrito e discurso falado, bem como formas de discurso escrito e discurso falado. As formas podem ser simples (protótipos discursivos) ou complexas (gêneros discursivos). O leitor atento, no entanto, percebeu o uso de diversos termos para nos referirmos a manifestações discursivas específicas: discurso redundante, discurso retórico, discurso prolífico, discurso prolixo, discurso dialogal, discurso apócrifo, discurso coletivo, etc. Uma infinidade de manifestações discursivas emergiu na presente obra. Essas diversas manifestações do discurso não seriam “formas de discurso”?

Aqui entramos numa questão metódica fundamental. Não será possível, aqui, desenvolver isso, mas é necessário uma breve explicação e indicação bibliográfica para aprofundamento. As formas do discurso são processos reais, concretos, que apreendemos em nossa consciência através das categorias dialéticas de forma e substância (ou “conteúdo”). Essas categorias foram discutidas na obra A Dialética Revolucionária (Viana, 2024a). Toda forma é a forma de uma substância, como disse Marx e enfatizou Korsch (2026). Assim, as formas de discurso são manifestações formais de uma substância específica que é o discurso. Esse é o processo dialético de análise em geral e que vale, obviamente, para a análise do discurso.

Porém, uma substância, um ser, tal como uma parte da realidade, é algo complexo (e aqui emerge outra categoria da dialética), pois além de sua essência, possui um conjunto de outros aspectos. Para entender um determinado ente (um ser específico), um fenômeno, eu tenho que entender sua substância, sua essência, e suas formas históricas e concretas de manifestação. Note-se que aqui estou no âmbito do que é essencial e suas formas de manifestação. Um ser, no entanto, em seu processo concreto de existência, possui muitos outros aspectos. A essência do discurso foi apresentada em seu conceito. Esse conceito, no entanto, não abarca a totalidade do discurso, apenas o que é essencial. As formas de discurso, por sua vez, apresentam essa essência em suas formas existenciais.

Dito isto, fica claro que se o discurso é ou não redundante, se é sério ou cômico, entre diversos outros aspectos que poderíamos enfatizar (e, em certos contextos, o fizemos), não é uma manifestação formal dele. É um aspecto dele. E a discussão sobre os aspectos (Viana, 2024) não poderá ser retomada aqui, mas é possível dizer que eles são características inessenciais do ente ou fenômeno em questão. A reflexão sobre as formas de violência ajuda a entender isso. Muitos classificam tais formas pelas suas vítimas (violência contra a mulher, contra a criança, contra os imigrantes, etc.) ou pelo lugar no qual ela ocorre (violência urbana, violência rural, violência doméstica, etc.). Outros usam outros critérios para classificar as formas de violência. Contudo, não se trata de formas de violência e sim de aspectos selecionados pelo classificador. O mesmo vale para “formas de discurso”, no qual se usar o termo “forma” equivocadamente (da perspectiva dialética). Contudo, o uso da expressão “formas”, quando o objetivo é classificar a violência em suas formas de manifestação, é equivocado, mas há o uso irrefletido que não remete exatamente para essa ideia mais específica. Nesse sentido, quando se afirma que está tratando das formas de violência e cita a “violência econômica”, “a violência pedagógica”, “a violência juvenil”, “a violência revolucionária” (Barreiro, 1978)[1], se comete um equívoco.

A questão que emerge a partir disso é: então como entender essas outras maneiras de se referir a outras manifestações discursivas? Quando selecionamos um aspecto do fenômeno e o distinguimos de outros aspectos ou comparamos ou relacionamos com outros fenômenos a partir disso, estamos tratando de tipos e não de formas. Essa é a origem das “tipologias”. Sem dúvida, a maioria das tipologias são sistemas classificatórios abstratificados e aleatórios. E elas são mais problemáticas quando se apresentam como “formas”. Os tipos ideias weberianos, por exemplo, são limitados, pois não captam a essência do fenômeno, assim como a tipologia durkheimiana (Weber, 2004; Durkheim, 1974).

Assim, discurso individual e discurso coletivo se referem a tipos de discurso. Não são formas de discurso, mas sim uma tipificação na qual se destaca o aspecto do caráter individual ou coletivo da produção discursiva. Podemos fazer inúmeras tipificações a partir de diversos aspectos dos seres, tal como no caso do discurso. Assim, quando Max Pagès (1993) distingue, equivocadamente, entre “discurso subjetivo” e “discurso objetivo”[2], está realizando uma tipificação que enfatiza um aspecto do discurso. Ao contrário das tipologias e seu aspecto abstratificante ou arbitrário, a tipificação é um processo consciente que encontra em determinados entes ou fenômenos aspectos que podem gerar tipos, o que é útil para a pesquisa e a compreensão da realidade.

Nesse sentido, as formas de discurso são aquelas que foram trabalhadas ou citadas enquanto tais no presente capítulos e todas as demais referências a outros discursos estão se referindo a tipos de discurso.

 



[1] Diversos autores que realizam tal processo poderiam ser citados, contudo, não é nosso objetivo abordar essa questão, razão pela qual nos restringimos a apenas esse autor. Nós mesmos não tínhamos consciência desse processo quando abordamos pela primeira vez o fenômeno da violência (Viana, 1999), pois foi o desenvolvimento de nossas reflexões sobre a realidade e sobre a dialética que permitiram a percepção disso.

[2] Realizamos uma crítica dessa concepção e apresentamos termos distintos: discurso idiossincrático (ao invés de “subjetivo”) e “discurso consensual” (ao invés de “objetivo”) (Viana, 2016).

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O presente texto é um apêndice que está no livro "Análise Dialética do Discurso":

VIANA, Nildo. Análise Dialética do Discurso. Teoria, Linguagem, e Discurso. Tomo 01, Vol. 01, Goiânia: Ragnatela, 2026.

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