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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

BAJULAÇÃO E VANTAGENS COMPETITIVAS

 


BAJULAÇÃO E VANTAGENS COMPETITIVAS

Nildo Viana*

 

 

Odeio fantoches/Capachos do chefe/Cupinchas do patrão

Odeio essa raça/De gente, costa-quente/Gente falsa/Serpente/Que se arrasta pelo chão

Cara fraco/Inseguro/Eu já acho feio/Puxa-saco/Já tô cheio/Eu, eu odeio/Dedo-duro

Guilherme Arantes

 

O problema da bajulação não é novo. Ele surge com a divisão social de classes e com a emergência de interesses pessoais de indivíduos ambiciosos. Na sociedade capitalista, a bajulação se torna um fenômeno bem mais amplo e reproduzido em várias instâncias da sociedade com uma frequência superior do que ocorreu em sociedades pré-capitalistas. Isso tudo tem a ver com a competição e com sua relação com a mentalidade competitiva e busca de vantagens pessoais nesse processo. Vamos discutir brevemente discutir suas fontes e algumas de suas manifestações na sociedade moderna.

A figura do bajulador não é nova na história. Desde que surgiram as sociedades de classes, com suas divisões, hierarquias, interesses, existem os bajuladores. Plutarco, em Como Distinguir o Bajulador do Amigo, entre outros, já tratava disso na sociedade escravista antiga. Porém, o que acontece é que há uma intensificação da bajulação e o aumento quantitativo dos bajuladores. Sem dúvida, existem alguns bajuladores exagerados e, portanto, são facilmente identificados, mas existem alguns bem mais sutis e de difícil percepção para quem está desatento, pouco informado, etc.

Qual elemento da nossa sociedade gera esse aumento quantitativo dos bajuladores e a intensificação da bajulação? Antes de responder essa questão, é importante deixar claro o significado dos termos “bajulação” e “bajulador”. A bajulação é uma relação social no qual um indivíduo (ou mais) enaltece sob forma simulada e exagerada determinado indivíduo, conjunto de pessoas ou instituição, visando algum interesse pessoal[1]. Enaltecer significa superestimar qualidades, comportamentos, ideias, etc. de indivíduos, grupos, instituições. A bajulação é o ato de bajular, ou enaltecer, que se distingue do elogio.

O elogio é um reconhecimento de qualidade, obras, ações, que é sincero por parte de quem o faz e que, portanto, tende a ser mais próximo da realidade do elogiado ou pelo menos da percepção que tem o elogiador. Nesse sentido, a bajulação é exagerada e insincera e seu objetivo é algum interesse pessoal e o elogio é um reconhecimento que pode ser ilusório (o que significa engano e não mentira ou insinceridade) ou verdadeiro, mas sincero e sem interesses como sua motivação.

Assim, há a diferença entre a sinceridade do elogio e insinceridade da bajulação. Além disso, o elogio, por ser sincero, não visa, necessariamente, algum retorno pessoal (pode ser produto de admiração, de apoio moral ou sentimental, etc.). Em alguns casos pode buscar retorno pessoal ou ser produto de pressões sociais. Nesse sentido, é possível distinguir o elogio formal, realizado por civilidade, etiqueta, ou pressão, que pode não ser sincero e o retorno pessoal emerge, mas em questões menores. Esse, no entanto, é difícil de identificar se é sincero ou não. Uma pessoa convidada para almoçar na casa de outra pode, por etiqueta e pressão social, elogiar a comida e, nesse caso, não se sabe se o elogiador realmente gostou ou se apenas executou certa regra comportamental aprendida socialmente.

A bajulação, por sua vez, visa vantagens pessoais. Logo, a motivação é diferente nos dois casos[2]. Uma outra diferença é que a bajulação tende a enaltecer, ou seja, superestimar as supostas qualidades do bajulado ou então inventá-las. A insinceridade do bajulador reside não apenas no fato de destacar e aumentar supostas qualidades do bajulado, mas, também, em apresentar isso como sendo algo sincero e verdadeiro. Sem dúvida, em alguns casos, a bajulação pode coincidir com reais qualidades do bajulado, embora isso seja raro, pois o bajulador precisa se destacar e aumentar, inventar, para mostrar sua dedicação maior e assim conseguir a vantagem pessoal que almeja. Se alguém chega num jogador de futebol mediano e diz que ele é “excepcional” e “será o novo Pelé”, está sendo insincero. No futuro, no entanto, isso poderá se concretizar, pois uma coisa é a percepção do bajulador (“ele não passa de um jogador mediano, mas para ele me ajudar eu preciso exagerar”) e outra é a realidade (o jogador pode realmente ter grande potencial e no futuro se tornar um craque do futebol próximo de Pelé).

A figura do bajulador surge dos interesses pessoais numa sociedade dividida em classes ou outras divisões que promovem uma hierarquia social que gera diversas pessoas buscando elevar sua situação na sociedade. Isso se intensifica e amplia no capitalismo. A sociedade moderna gera determinadas relações sociais que são formas de reprodução da sociabilidade capitalista. Essa tem como elementos fundamentais a burocratização, a mercantilização e a competição. E disso derivam determinados relacionamentos pessoais e sociais[3]. O relacionamento pessoal é interpessoal, ou seja, entre dois indivíduos. O relacionamento social é entre vários indivíduos ou entre um indivíduo e vários outros indivíduos.

A sociabilidade capitalista gera um processo de emergência de uma grande quantidade de bajuladores e sob forma intensiva. Isso ocorre pelo fato de que a burocratização cria uma hierarquia funcional nas organizações burocráticas (Estado, instituições, universidades, partidos, sindicatos, etc.) e uma disputa por espaços e cargos superiores no seu interior. O aparato estatal, a mais complexa organização burocrática da sociedade capitalista, é marcada por uma forte competição por cargos superiores, indo desde o vereador ou assessor parlamentar até o presidente da república, passando por deputados estaduais e federais (e seus assessores), senadores, secretários de governo, ministros, etc. Em uma universidade, há o reitor, os pró-reitores, os secretários e encarregados de secretarias especializadas, gráficas, etc., os diretores de faculdades, chefes de departamento, etc. Assim, a burocratização cria uma hierarquia funcional e alguns indivíduos adotam uma mentalidade burguesa e buscam a ascensão funcional e social.

A mercantilização é outro aspecto da sociabilidade capitalista e é o processo no qual tudo é transformado em mercadoria ou mercancia[4] e, assim, a necessidade de dinheiro e a busca, por parte de outros, de “muito dinheiro”, se torna comum e tudo que significa mercadoria, mercancia, propriedade, dinheiro, é valorado. O dinheiro, como “meio de troca universal” (Marx, 1988), se torna um meio para satisfazer as necessidades humanas e todo um conjunto de desejos fabricados pela sociedade. Se a burocratização gera a valoração do poder, a mercantilização gera a valoração do ter e da riqueza. Assim, na sociedade em geral, a busca pelo dinheiro e pela riqueza se torna algo comum e banal.

O terceiro elemento da sociabilidade capitalista que se vincula aos dois anteriores é a competição social (Viana, 2008). Para conseguir os mais altos cargos ou a riqueza é preciso competir. Porém, a competição é algo que está no conjunto das relações sociais. Segundo a psicanalista Karen Horney:

O princípio econômico da competição afeta as relações humanas de diversos modos: é a causa das lutas entre os indivíduos; estimula os indivíduos a superar os outros; e faz com que a vantagem de um, seja a desvantagem de outro. Como sabemos, a competição não apenas domina as nossas relações sociais, as nossas amizades, as nossas relações sexuais e as relações que se dão dentro da família. Contamina, assim, com os germes da rivalidade destrutiva, do menosprezo, da suspeita e da inveja todas as relações humanas. A existência de grandes desigualdades de fortuna, de possibilidade de educação, de recreação, conservação e recuperação da saúde constitui outro grupo de fatores repleto de hostilidades potenciais. Ainda, outro fator é constituído pela possibilidade que um indivíduo, ou grupo, tem para explorar outro (1966, p. 142).

A competição acaba se torna algo reproduzido na vida cotidiana e invadindo, assim como a burocratização e a mercantilização, o conjunto das relações sociais.  Um casal interesseiro que convida outro para jantar em sua casa no intuito de conseguir um aumento salarial, emprego, etc., estão competindo, buscando dinheiro ou cargos. Esse processo não é “natural”, é algo que não existiu nas sociedades tribais e que emergiu na sociedade de classes, mas que somente na sociedade capitalista se generalizou ao ponto de se tornar a forma de sociabilidade dominante.

E é nessa sociedade que ocorre o processo de socialização e ressocialização que é competitivo. A escola é uma organização burocrática, mercantil e competitiva. Aqui nos interessa o seu aspecto competitivo, pois é esse que estará mais presente no processo de ensino-aprendizagem e nas relações escolares em geral. A escola pode intensificar ou amenizar a competição dependendo dos processos, do tipo de escola, da classe social atendida, etc. Contudo, a competição entre os estudantes para se destacar é muitas vezes incentivada pela instituição escolar e pelos professores e raramente a solidariedade recebe incentivo. A competição para entrar em determinadas instituições escolares, especialmente as universidades, é apenas outro exemplo. A família, por sua vez, reproduz a competição no seu próprio interior, com graus variados (dependendo da classe social, mentalidade predominante dos pais, valores, condições de vida, formação cultural, etc.), pois os pais são formados pela e para uma sociedade competitiva e assim, involuntariamente ou não (nesse caso depende do seu grau de competitividade), mais ou menos, vão repassar isso para os filhos. Esses, por sua vez, receberão dos pais, da escola, etc., e assim vão reproduzir e reforçar a competição social.

E isso tudo gera a introjeção da mentalidade burguesa nas mentes individuais. A mentalidade burguesa é aquela que é adequada para reproduzir a sociedade atual e a si mesmo no seu interior. Um indivíduo que se recusa a usar o dinheiro, ter relações com organizações burocráticas ou competir é considerado louco e termina na miséria e marginalização. Então ele é constrangido a se inserir nessas relações, mas devido ao processo de socialização e cultural, acaba reproduzindo isso em sua mente. É uma mentalidade mercantil, burocrática e competitiva. A mentalidade mercantil é aquela que supervalora o dinheiro, o ter, a riqueza, ou equivalentes; a mentalidade burocrática é aquela que supervalora autoridade, cargos, poder, etc.; a mentalidade competitiva é aquela que supervalora a vitória nas competições, os lugares mais elevados nas hierarquias no interior da sociedade, etc. na busca de dinheiro, poder, fama, sucesso, etc.

A sociabilidade capitalista gera a mentalidade burguesa e essa reproduz e reforça aquela (Viana, 2008). Assim, os indivíduos com mentalidade burguesa, são mais adequados e tendem a ser dar melhor na sociabilidade capitalista, pois querem ganhar a qualquer custo e estão preocupados fundamentalmente com a vitória, o poder e a riqueza. A mentalidade burguesa é constituída pelos valores fundamentais (na escala de valores dos indivíduos é o que está acima), sentimentos mais profundos (que correspondem a tais valores e relações sociais, tal como ciúme, inveja, etc.) e concepções mais arraigadas (ideologemas justificativas, etc., como “a luta pela sobrevivência”, a “sobrevivência do mais apto”, “o ser humano é egoísta por natureza”, “empreendedorismo”, “empoderamento”, etc.). Nesse sentido, se forma um “círculo vicioso” que é, simultaneamente, um “ciclo vicioso”. A sociabilidade capitalista gera a mentalidade burguesa e a confirma e esta reproduz e reforça aquela. Além de grande parte da produção cultural, das ideologias, dos ideologemas, que apontam para a reprodução da mentalidade burguesa, os processos sociais reais como a burocratização, mercantilização e competição comprova sua suposta “veracidade”.

Sem dúvida, é preciso destacar que a mentalidade burguesa não atinge a todos com a mesma força e intensidade. Algumas classes sociais, especialmente as inferiores, precisará buscar solidariedade e outras formas de relações sociais, bem como não aterá acesso ao poder e à riqueza, nem mesmo ao consumo incentivado pelos meios oligopolistas de comunicação, gerando contradições nas mentes individuais e em certas coletividades. Porém, mesmo o mais revolucionário e anticapitalista dos indivíduos, não escapará totalmente de elementos da mentalidade burguesa, mas sua posição política tende a vinculá-los a outros valores, sentimentos e concepções[5]. Assim, aqueles que possuem uma mentalidade revolucionária tendem a sobrepujar, na sua mente, os elementos da mentalidade burguesa. Porém, não conseguem fazer isso totalmente e nem podem escapar da sociabilidade capitalista, pois mesmo sendo contra o dinheiro, precisará dele; mesmo combatendo a burocracia, terá que conviver com ela; e mesmo que não queira competir, será constrangido a fazê-lo em diversas oportunidades.

Por outro lado, existem alguns que se dizem “revolucionários”, mas, no fundo, são rebeldes ou revoltados. Os rebeldes, que foram bem descritos pelos psicanalista Erich Fromm (1986) em seu texto sobre “O Caráter Revolucionário[6], no fundo possuem uma mentalidade burguesa e almejam o mesmo que qualquer pessoa adaptada à sociedade capitalista, tais como consumo, poder, dinheiro, etc. A sua situação de perdedor da competição social é o que o faz rebelde e é por isso que tão logo é bem recebido pela burocracia ou autoridade que combatera, quando assume um cargo e adquire algum poder, quando ganha dinheiro ou riqueza, muda de lado e discurso. Alguns ainda poderão manter discursos e resquícios, outros podem abandonar totalmente como “sonhos juvenis”. O revoltado, por sua vez, já é aquele que também possui elementos da mentalidade burguesa e por isso desenvolve o ódio e a destrutividade em relação à classe capitalista e semelhantes. Alguns revoltados podem ser sinceros e não ter uma grande influência da mentalidade burguesa, mas é movido pelo ódio ou rancor e desejo de vingança em relação a algo que sofreu. Porém, o ódio e outros sentimentos antipáticos tendem a aproximá-los da mentalidade burguesa, mesmo que contraditoriamente.

Um outro adendo é necessário. Na mente individual das pessoas adaptadas ao capitalismo, a mentalidade burguesa é poderosa, mas também possui contradições. A razão disso é que ela entra em contradição com a natureza humana, com as necessidades mais profundas dos seres humanos, suas necessidades psíquicas. O ser humano necessita de socialidade, solidariedade, amor, desenvolver suas capacidades e potencialidades, etc., e isso entra em contradição com a mentalidade burguesa. Aquelas pessoas mais coisificadas sufocarão tais necessidades e tentarão se satisfazer com necessidades sociais artificiais e substitutas. Assim, um capitalista de mentalidade burguesa buscará “comprar” amor que não consegue despertar, bem como amizades, admiração, etc. Porém, no fundo ele saberá de que são relações geralmente superficiais, mesmo que justifique isso com os ideologemas do ser humano “egoísta por natureza”. Em outras pessoas, as contradições tendem a ser mais fortes, o que depende de seu processo histórico de vida, pertencimento de classe, etc.

Alguns indivíduos, no interior desse processo, acabam gerando um elemento derivado da competição social que é a bajulação. A bajulação é uma estratégia de competição, no qual, através da superestimação das qualidades de indivíduos, grupos e instituições, se busca vantagens pessoais e competitivas. O bajulador do amigo que pode lhe ceder algum benefício; o empregado que quer aumento salarial ou novo cargo; o aluno que quer boa nota; são apenas alguns dos milhares de exemplos que poderiam ser citados. Na sociedade moderna isso é antigo e foi retratado muitas vezes em obras de arte, tal como no conto O Homem Superior, de Machado de Assis.

O bajulador é alguém dominado pela mentalidade burguesa e que usa, intencionalmente, a bajulação visando algum retorno pessoal. Porém, o bajulador necessita do bajulado. O bajulado pode ser alguém que quer e aceita a bajulação, ou alguém que a suporta, ou, ainda, alguém que não a percebe. Quem está, como o bajulador, dominado pela mentalidade burguesa, quer a bajulação, pois assim ele consegue satisfazer parcialmente seu desejo de sucesso, fama, etc. O bajulador e o “bajulado contente” são produtos da sociedade capitalista, que reproduzem sua sociabilidade e mentalidade.

Nesse sentido, o bajulador é alguém integrado na sociedade capitalista e que conhece o jogo e suas regras. Ele é um jogador que segue as regras para vencer a competição social. O objetivo é vencer a competição a qualquer custo, usando mentira ou qualquer outro procedimento desonesto. Assim como Clemente Soares, personagem de Machado de Assis, o seu objetivo é a ascensão social.

Assim, a sociabilidade capitalista e a mentalidade burguesa explicam o bajulador, bem como o aumento quantitativo de bajuladores e a intensificação da bajulação. O bajulador é um indivíduo dessa sociedade e que a reproduz e reforça com a bajulação. Para conseguir uma melhor posição na sociedade, o bajulador acaba declarando sua concordância com ela e assim o interesse pessoal coincide com os interesses de classe da burguesia.

A burocratização e mercantilização crescente da sociedade moderna promove o aumento quantitativo de instituições (organizações burocráticas) com suas hierarquias e conflitos internos. Uma instituição, para existir e sustentar sua burocracia e demais despesas, precisa de dinheiro. Quanto maior a instituição, mais mercantilizada e burocratizada ela é. A proliferação e ampliação de organizações burocráticas é um produto do desenvolvimento capitalista. Esse processo pode ser explicado pelas “ondas de burocratização” e “ondas de mercantilização”. A burocratização inicial foi do aparato estatal e das empresas capitalistas, na época da revolução industrial e revoluções burguesas. Depois houve a burocratização da sociedade civil, com a emergência de partidos e sindicatos, entre outras instituições. Depois ela chega ao lazer e acaba constrangendo os indivíduos a viver em organizações burocráticas[7].

Esse processo também ocorreu com a mercantilização. A produção capitalista de mercadorias invade cada vez mais espaços de produção não-capitalistas e vai substituindo a produção artesã, camponesa, etc., pela forma capitalista. E com seu desenvolvimento vai gerando novas mercadorias e mercancias, tais como, mais recentemente, a tecnologia e a cultura. Assim, quanto mais se amplia a mercantilização e a burocratização, mais aumenta o número de bajuladores.

Esse processo tem efeitos culturais determinados. A própria produção da cultura passa a ser perpassada pela competição, burocratização e mercantilização. Os indivíduos, na sociedade capitalista, que são especialistas no trabalho intelectual, são reprodutores da competição social ao invés da colaboração e cooperação. A proliferação de concepções diferentes não é apenas “divergência de concepção”, mas geralmente disputa por espaços e busca de retorno pessoal (poder ou dinheiro). Isso, no entanto, não significa que toda polêmica intelectual seja apenas competição, pois existem exceções, desde reais divergências intelectuais (que podem ser, simultaneamente, valorativas, políticas, etc.), passando por questões idiossincráticas e mal-entendidos, até chegar às manifestações culturais da luta de classes, no qual as discordâncias giram em torno de distintas perspectivas de classe.

As relações de poder numa universidade, por exemplo, definem quais produtos culturais serão produzidos e como isso é realizado e reproduzido no seu interior. Sem dúvida, nesse meio o que predomina não é a busca da verdade – que seria o suposto objetivo da ciência e da filosofia – e sim a satisfação de interesses bastante mesquinhos. O intelectual competitivo vai usar de todos os subterfúgios ao seu alcance para vencer a competição nos meios intelectuais e acadêmicos. Para vencer a competição intelectual, eles vão buscar agradar e ampliar o seu público e seus superiores e por isso vão produzir ideias aceitáveis e que estão de acordo com os modismos e concepções hegemônicas. Hoje, esses intelectuais aderem ao subjetivismo e sua linguagem[8]. A palavra “subjetividade”, que a maioria dos intelectuais que a usam nem sabem defini-la, é, por exemplo, um chavão que abre portas e fornece a impressão de “atualidade”. Sem dúvida, isso não vale para todos que usam tal terminologia, pois acaba sendo uma imposição social do paradigma hegemônico, mas uma grande parte, especialmente nos meios progressistas, possui consciência dos seus problemas e continuam utilizado por oportunismo.

E esse processo vale não apenas para os intelectuais hegemônicos, mas também para os dissidentes[9]. Bourdieu denomina os hegemônicos como “dominantes” e os dissidentes como “dominados”, que em sua competição geram “estratégias opostas”, pois os dominantes usam a estratégia de conservação e os dissidentes a estratégia de subversão. E por isso os “dominados” (dissidentes) elaboram um pensamento mais crítico. Essa competição é mais complexa do que pensa Bourdieu e envolve mais agentes do que pensa (os intelectuais venais, ambíguos, engajados, amadores).

Mas Bourdieu não só aborda a competição nos meios científicos como é, ele mesmo, um bom exemplo disso. Bourdieu foi hegemônico e suas críticas eram moderadas e quando o subjetivismo se tornou hegemônico também na sociologia, ele passou a realizar a crítica do multiculturalismo e outras tendências subjetivistas, bem como ao neoliberalismo e se aproximar de outros setores da sociedade (desempregados, por exemplo). Ele conhecia o jogo e suas regras e quando a correlação de forças mudou, ele também mudou e buscou novos aliados e novo público.

A competição intelectual aparentemente é uma disputa por ideias, mas em grande parte dos casos é busca de espaço e sucesso. Claro que nem tudo gira em torno da competição, pois, ao contrário do que pensa Bourdieu, existe também luta de classes e seus reflexos nos meios acadêmicos e intelectuais. Porém, o que predomina é a competição social. É nesse contexto que os bajuladores emergem. Ao bajular os intelectuais hegemônicos, eles avançam em suas pretensões competitivas e disputa por espaço. Em alguns meios, a bajulação se torna tão explícita e patética que acaba sendo exaltada publicamente. Certa vez, numa disciplina de pós-graduação, o professor responsável disse: “quem não puxa-saco, puxa carroça” (ou seja, “quem não bajula é burro”). Dos vinte alunos, apenas três não riram[10]. Um, o maior bajulador da turma, riu histericamente e bateu a mão na mesa várias vezes[11]. Em alguns contextos, como cursos cujo mercado de trabalho é predominantemente o ensino universitário, a bajulação atinge um alto grau, pois as opções de emprego são poucas para além do próprio lugar de estudo. A bajulação acaba se tornando um meio de sobrevivência acadêmica. Porém, nesse caso, a tarefa é ingrata, pois são muitos bajuladores e eles devem competir entre si, pois não há espaço para todos. Nesses lugares, se instaura uma verdadeira disputa de quem bajula mais e melhor.

Por fim, é importante distinguir os vários tipos de bajuladores. Alguns são bajuladores ocasionais ou quando estão dominados por grande necessidade, tal como precisar de um trabalho específico que é necessário por falta de dinheiro. Outros são bajuladores direcionados para indivíduos que poderão lhe proporcionar vantagens pessoais e competitivas. Presidentes, governadores e prefeitos, por exemplo, tendem a ter muitos bajuladores. Existem bajuladores que podem ter mais de um alvo de bajulação e alguns até bajulam competidores opostos, visando ganhar com a vitória de qualquer um deles. Da mesma forma, existem os bajuladores mais ardilosos, que podem enaltecer todo um departamento acadêmico para aumentar sua possibilidade de aprovação em concurso para professor posteriormente. Existem indivíduos, como o já citado Clemente Soares, que usam a “bajulação sistemática”, sendo o seu modo de competir e de ser. O bajulador integral que, no entanto, como Clemente Soares, com sua falsidade, demonstrará muita ingratidão com aqueles que ele bajulou, mas agora não são mais úteis.

Diversos outros elementos sobre a bajulação e os bajuladores poderiam ser desenvolvidos. Sem dúvida, a bajulação é um produto social e histórico. Porém, ela está envolvida com processos sociais e psíquicos. Esses aspectos não poderão ser desenvolvidos aqui, mas situam o problema da bajulação no plano idiossincrático, o que remete para o indivíduo e seu universo psíquico. Por exemplo, um bajulador que é uma pessoa muito insegura e usa esse recurso para aumentar suas chances de sucesso é diferente do que é narcisista e apenas faz o jogo para conseguir os resultados esperados. As variações e possibilidades são muitas e somente uma pesquisa aprofundada poderia permitir uma tipificação dos bajuladores.

Em síntese, a bajulação é um fenômeno das sociedades de classes e que se amplia e intensifica na sociedade capitalista. Ela perpassa a sociedade e possui grande força em algumas instituições e, mais ainda, em alguns setores de algumas delas. A sua força na sociedade moderna vem da sociabilidade capitalista e da mentalidade burguesa que tornam a burocracia, o dinheiro e a competição os eixos fundamentais da vida social e mental. A competição social pelo dinheiro, riqueza, cargos, poder, fama, sucesso, e outras coisas semelhantes são a base para a formação e reprodução de bajuladores e bajulados. A bajulação é uma forma de conseguir vantagens competitivas numa sociedade competitiva. Esse fenômeno social não será alterado na sociedade atual. Ele pode, no máximo, diminuir, mas não ser abolido. Porém, a probabilidade de diminuir é pequena e só poderia ocorrer com mudanças sociais e culturais amplas, o que não desponta hoje no horizonte. A solução definitiva é, como em tudo o mais, uma transformação social radical e total, ou seja, a superação da sociedade capitalista que produz e reproduz esse fenômeno. Por isso, o elemento fundamental é esclarecer e compreender o fenômeno e sua relação com a totalidade da sociedade e, a partir disso, lutar pela transformação social.

Referências

BOURDIEU, Pierre. O Campo Científico. In: ORTIZ, Renato. (org.). Bourdieu. São Paulo: Ática, 1994.

FROMM, Erich. O Caráter Revolucionário. In: O Dogma de Cristo. 5a Edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

HORNEY, Karen. Novos Rumos da Psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

MARX, Karl. O Capital. 3ª edição, Vol. 01, São Paulo: Nova Cultural, 1988.

PLUTARCO. Como Distinguir o Bajulador do Amigo. São Paulo: Edipro, 2015.

VIANA, Nildo. A Mercantilização das Relações Sociais. Modo de Produção Capitalista e Formas Sociais Burguesas. Curitiba: Appris, 2018.

VIANA, Nildo. As Esferas Sociais. A Constituição Capitalista da Divisão do Trabalho Intelectual. Rio de Janeiro: Rizoma, 2015.

VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.

VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta, 2008.

WEBER, Max. Sobre a Universidade. São Paulo: Cortez, 1989.

 

 

 



* Professor da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia; Autor de vários livros, entre os quais “As Esferas Sociais – A Constituição Capitalista da Divisão do Trabalho Intelectual”; “Teses sobre os Sentimentos”; “Análise Dialética do Discurso”; “O Capitalismo na Era da Acumulação Integral”; “A Mercantilização das Relações Sociais”; “Universo Psíquico e Reprodução do Capital”; “Psicologia Social e Afetividade: Emoções, Sentimentos e Sociedade”; “Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico”.

[1] No presente texto, o “interesse pessoal” aparece apenas no seu sentido negativo, ou seja, como busca de vantagem em detrimento de outros, vinculado à competição social. Existem alguns interesses pessoais que escapam disso, mas não serão aqui abordados.

[2] “Os piolhos afastam-se dos que estão mortos e abandonam seu corpo, quando se extingue o sangue do qual eles se alimentam, enquanto não é completamente possível ver os bajuladores aproximarem-se dos assuntos áridos e que lhes são indiferentes, mas se voltam para os gloriosos e poderosos e se engrandecem com eles, porém, rapidamente correm quando se encontram nas mudanças dessas situações” (Plutarco, 2015, p. 26).

[3] O relacionamento é uma forma delimitada e estável de relação social.

[4] Sobre o conceito de mercancia, bem como o processo de mercantilização das relações sociais, cf. Viana (2018).

[5] Isso significa que existe uma certa contradição na mente individual de um revolucionário, na qual predomina a mentalidade revolucionária, mas elementos da mentalidade burguesa persistem em existir e isso gera contradições psíquicas para o indivíduo. O processo histórico de vida do indivíduo, suas condições de vida, etc., pode tornar essas contradições mais fracas ou mais fortes e isso pode variar durante a sua vida. Por exemplo, uma pessoa que sofreu violência dos pais durante a infância tende a ser mais agressiva e isso é transposto para sua mente em geral e ações, pensamento e decisões na luta política. Outra contradição na mente do indivíduo revolucionário é derivada da necessidade de defender valores axionômicos, sentimentos simpáticos, etc., tal como a solidariedade, mas se defrontar com relações sociais e uma sociedade competitiva e saber que uma transformação social radical e total só pode ocorrer através da luta de classes e de uma revolução social, que traz, em si, conflitos, violência, etc., inclusive sendo vítima, muitas vezes, de perseguição e atos de violência. Assim, mesmo defendendo, por exemplo, a solidariedade, não pode exercê-la totalmente ou generalizá-la, pois em certas relações, nas quais é perseguido ou boicotado, não tem como fazer isso, bem como na luta revolucionária não pode ser solidário com aqueles que lhes são antagônicos.

[6] Esse texto está disponível nesse link: https://redelp.net/index.php/rma/article/view/939

[7] A burocratização ocorre através de dois processos sociais: o aumento de cargos ou organizações burocráticas – e como já dizia Max Weber (1979), se referindo às universidades, um departamento sempre quer gerar outro departamento – e a intensificação do controle, pois a função da classe burocrática, que é quem comanda as organizações burocráticas, é exercer a dominação, seja interna ou externa, tendo no Estado a organização burocrática que controla todas as outras e a sociedade em geral.

[8] Alguns aderem mudando suas concepções passadas, tal como muitos que reproduziam o paradigma reprodutivistas e suas teses de sistema, reprodução, função, etc. e depois passam para uma mistura ou adesão ao paradigma subjetivista e suas concepções de sujeito e subjetividade (Viana, 2019).

[9] Os intelectuais podem ser divididos em hegemônicos, dissidentes, ambíguos, engajados, venais e amadores (Viana, 2015). Marx já identificava alguns deles, usando outros termos, como “clássicos, ecléticos e vulgares”, que correspondem aos hegemônicos, dissidentes e venais em nosso léxico. Os ambíguos são os intelectuais que ficam entre duas instituições (igreja e universidade, ou partido e universidade) e os amadores são aqueles que não são da classe social dos intelectuais, mas se aproximam dela mais culturalmente, através da produção cultural. Isso ocorre tanto no âmbito da ciência quanto da arte, por exemplo. Na concepção de Bourdieu, existem apenas os “dominantes e dominados” no “campo”, embora em algumas obras apareçam três posições ao invés de apenas duas.

[10] Isso significa que apenas três discordaram, ou tiveram coragem suficiente para não aderir ao riso geral, enquanto dezessete concordaram ou cederam ao contexto e reproduziram o que se esperava de todos. Sem dúvida, a piada não foi gratuita e tinha um indivíduo como alvo, que foi um dos três que não riram e o objetivo é dizer que tal pessoa era “burra”. Essa é apenas mais uma proeza do capitalismo, no qual o que é ético se torna motivo de zombaria.

[11] Esse acontecimento real mostra o incentivo do próprio professor para a bajulação. Contudo, nem sempre a bajulação gera resultados e nem sempre é suficiente bajular. O principal bajulador citado acabou sendo, posteriormente, humilhado diante de um dos poucos alunos não bajuladores, pois sua subserviência e posição lhe predispunha para tal e o seu destino foi a marginalidade intelectual e não conseguir o acesso ao cargo de professor universitário que ele queria.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Análise Dialética do Discurso - Novo livro de Nildo Viana


 Análise Dialética do Discurso - de Nildo Viana


A análise dialética do discurso é uma obra que apresenta uma nova forma de pensar e trabalhar o discurso. No primeiro tomo e volume de sua obra, Nildo Viana desenvolve uma teoria do discurso. Para tanto, discute linguagem, pensamento, conceito de discurso, elementos constitutivos do discurso, suas formas simples e complexas (protótipos e gêneros discursivos), a questão da circunstância e constituição social do discurso, além de um capítulo breve sobre “discurso falado”. O autor efetiva uma análise crítica, totalizante e complexa do fenômeno discursivo. Além disso, trata-se de uma obra pioneira que apresenta um processo explicativo do discurso que não se encontra em outras concepções, oferecendo esclarecimentos cruciais para aqueles que almejam compreender as diversas manifestações discursivas. É uma obra fundamental para quem quer uma base teórica e analítica dos discursos, para linguistas, sociólogos, filósofos, cientistas políticos, entre diversos outros.

Título: Análise Dialética do Discurso
Autor: Nildo Viana
Editora: Ragnatela
Tomo: 01 (teoria)
Volume: 01 (linguagem e discurso)
Subtítulo: Teoria, Linguagem e Discurso.
Edição: 01
Ano: 2026
Páginas: 562
ISBN: 978-65-84983-52-6
ISBN EBOOK: não.


TEXTO DA ORELHA
O método dialético é uma ferramenta poderosa para analisar a realidade. Nildo Viana, autor de A Dialética Revolucionária, utiliza os recursos heurísticos e o processo analítico dialético para elaborar uma teoria do discurso. A presente obra destrincha o verdadeiro significado do discurso, seus elementos constitutivos, sua constituição social e diversos outros elementos e aspectos que promovem um avanço da consciência sobre o discurso em geral e sobre as mais variadas manifestações discursivas existentes.

SOBRE O AUTOR:

NILDO VIANA é sociólogo, filósofo, Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Professor da Universidade Federal de Goiás (UFG). Também é autor de diversos livros, entre os quais A Dialética Revolucionária; A Consciência da História; Escritos Metodológicos de Marx; A Pesquisa em Representações Cotidianas; A Elaboração do Projeto de Pesquisa; Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas; O Modo de Pensar Burguês; A Questão da Causalidade nas Ciências Sociais; Individualismo e Holismo nas Ciências Humanas; Cinema e Mensagem; Memória e Sociedade; entre diversas outras.

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Individualismo e Holismo nas Ciências Humanas

 Individualismo e Holismo nas Ciências Humanas - Nildo Viana




Como decifrar a complexa teia da dinâmica social, da história, da sociedade e da cultura? Qual seria a abordagem mais apropriada para a compreensão dos fenômenos sociais, que constituem o cerne das ciências humanas? Para alguns pensadores, a resposta reside em analisar “a partir do indivíduo”, enquanto outros defendem que a análise deve partir do “todo”. Desde seu surgimento, as ciências humanas têm se bifurcado entre aqueles que optam pela primeira perspectiva, os adeptos do “individualismo metodológico”, e aqueles que se inclinam para a segunda, defensores do “holismo metodológico”. Desde a década de 1990, um intenso debate tem se estabelecido entre “individualistas” e “holistas”, um diálogo que persiste até os dias atuais. Em determinadas épocas, a concepção holista prevalece, enquanto em outras, a abordagem individualista se destaca. Nildo Viana revisita esse debate desde suas raízes, delineando as características de cada uma dessas concepções e empreendendo uma crítica incisiva de ambas, revelando seus vínculos ideológicos e valorativos, bem como suas limitações metódicas. Todo esse exame é realizado através de uma perspectiva dialética, que propõe uma abordagem metódica alternativa, capaz de transcender tanto o individualismo quanto o holismo.


Título: Individualismo e Holismo nas Ciências Humanas
Autores: Nildo Viana
Editora: Ragnatela
Coleção: Chaves de Metodologia, 05
Edição: 01
Ano: 2025
Páginas: 122
ISBN: 978-65-84983-50-2


Texto da orelha:

O individualismo metodológico se apresenta como a abordagem mais eficaz para elucidar a realidade social? Ou, por outro lado, seria o holismo metodológico a perspectiva mais apropriada? Nildo Viana empreende uma análise crítica e concisa dessas duas correntes de pensamento, propondo uma concepção alternativa que transcende as limitações impostas tanto pelo individualismo quanto pelo holismo. Ambas as abordagens, o holismo e o individualismo metódicos, geram interpretações ideológicas acerca do indivíduo e da sociedade. Como podemos, então, superar essa antinomia entre indivíduo e sociedade, e, consequentemente, entre individualismo e holismo? Viana argumenta que essa superação é possível através da dialética marxista.


Sobre o autor:

NILDO VIANA é sociólogo, filósofo, Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Professor da Universidade Federal de Goiás (UFG). Também é autor de diversos livros, entre os quais A Dialética Revolucionária; A Consciência da História; Escritos Metodológicos de Marx; A Pesquisa em Representações Cotidianas; A Elaboração do Projeto de Pesquisa; Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas; A Questão da Causalidade nas Ciências Sociais.


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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Sobre o Discurso Retórico

 



SOBRE O DISCURSO RETÓRICO

 

 Nildo Viana*

  

O discurso retórico é bastante utilizado na época atual, principalmente nos meios acadêmicos, mas também na Internet, meios de comunicação, conversas cotidianas. Trata-se de uma forma de discurso que não visa a verdade e sim a vitória a qualquer custo. Por isso, geralmente (mas não unicamente), não se fundamenta na honestidade intelectual, mas os ardis desonestos para ganhar um debate. A maioria dos casos de uso de discurso retórico, o que se busca não é libertação humana e sim a reprodução do poder. Muitos, no entanto, usam o discurso retórico por questões de crenças, narcisismo, etc. Essas motivações variadas do discurso retórico se concretizam no seu objetivo: vencer a qualquer custo.

nos defrontamos muitas vezes com discurso retórico em nossa experiência acadêmica, política e cotidiana. A estratégia que utilizamos, muitas vezes, foi a de desmontar a retórica e expor suas fraquezas intrínsecas, formais, às vezes, somar a isso a discussão sobre o tema em questão no sentido de mostrar seus limites. O presente texto visa alertar os leitores, debatedores, estudantes, professores e todos os interessados em questionar esse gênero de discurso por ter o compromisso com a verdade, que é algo bem mais nobre do que “vencer a qualquer custo”, em saber distinguir a retórica da exposição racional e fundamentada. Assim, é fundamental perceber que quem faz tal discurso não tem compromisso com a emancipação humana, mas apenas consigo mesmo, com seus interesses pessoais ou crenças, valores, sentimentos e concepções que tem como consequência a reprodução da sociedade existente. Por isso é importante mostrar os artifícios, motivações e objetivos do discurso retórico, bem como apresentar elementos para desmontar os usos desse gênero discursivo.

Mas antes de começar nossa jornada, precisamos definir o que entendemos por discurso retórico. Um discurso, é “uma manifestação concreta e delimitada da linguagem” (Viana, 2009) que pode ser assim definido: “uma relação social na qual um autor apresenta, sob forma falada ou escrita, um conjunto de enunciados que expressa uma mensagem complexa sobre algo e para algum destinatário” (Viana, 2024). O principal elemento que distingue o discurso retórico dos demais gêneros do discurso é o seu objetivo, vencer o debate. Isso significa que um discurso retórico emerge em situações de debate (conversas cotidianas, embates políticos, posicionamentos sobre livros ou ideias em geral, etc.) e com o objetivo de derrotar o adversário. O discurso retórico se organiza em torno desse objetivo, sendo que para atingi-lo utiliza qualquer meio necessário, especialmente os ilícitos.

 

Características e Artifícios do Discurso Retórico

O discurso retórico se organiza em torno do seu objetivo geral[1]: querer vencer o debate a qualquer custo[2], inclusive, em muitos casos, utilizando meios ilícitos. Também apresenta a característica de possuir uma coerência interna marcada por contradições e incoerências, devido justamente ao seu objetivo[3]. Sendo assim, o discurso retórico mantém sua coerência e estrutura unissêmica mesmo quando mostra certa incoerência discursiva, pois esses elementos podem ser modificados quando é conveniente para vencer o debate. As demais características do discurso retórico podem ser encontradas na forma como busca realizar o seu objetivo de vencer o debate a qualquer custo. Essa forma é composta por um conjunto de artifícios que visam confundir, ludibriar, desqualificar, o adversário/destinatário do discurso.

Um artifício é algo artificial e, simultaneamente, uma artimanha, um truque. É artificial por não ser um desenvolvimento lógico e coerente e sim artifícios produzidos pelo autor do discurso retórico visando atingir seus objetivos. Muitas vezes isso é feito sob forma consciente e intencional, mas nem sempre, pois existem casos nos quais os artifícios brotam automaticamente como um procedimento de defesa, o que ocorre com aqueles que, no fundo, só querem garantir a ideia de veracidade de sua crença ou sua credibilidade. No caso daqueles que usam esses artifícios para garantir sua autoridade, manter relações de poder e outros interesses escusos, o uso da retórica é consciente e intencional.

Os artifícios que emergem no discurso retórico também são uma artimanha, uma armadilha discursiva. Schopenhauer (1997) chamou tais artifícios de “estratagemas”, palavra de origem militar que significa ardil (armadilha, emboscada, artifício, logro) empregado contra os inimigos. Nesse caso, uma intencionalidade é inevitável, pois o autor do discurso usa sob forma intencional e planejada os artifícios, visando colocar o adversário/destinatário numa posição desconfortável, seja através da ridicularização, seja através da incapacidade de reação. Num debate para eleição presidencial no Brasil, um candidato usou uma sigla que ele sabia que seria desconhecida pelo seu adversário para poder, após sua resposta equivocada, mostrar o seu verdadeiro significado e demonstrar a ignorância dele, ridicularizando-o. Esse artifício foi uma armadilha, pois o adversário ou admitia sua ignorância, dizendo que não sabia o significado daquela sigla, ou fazia de conta que sabia sob alguma forma e, assim, tentar se desvencilhar da pecha de ignorante. O candidato optou pela segunda saída e o autor do artifício pôde facilmente mostrar sua ignorância, pois tratou de algo bem diferente do que expressava o significado da sigla.

Apontaremos agora os principais artifícios do discurso retórico. Analisaremos, inicialmente e de forma mais aprofundada, os quatro principais artifícios utilizados pelos retóricos, e, posteriormente, alguns outros menos utilizados, de forma mais sucinta ou apenas citação de passagem, tais como derrisão, pseudoargumento ad hominem, etc. Os artifícios fundamentais são os seguintes: A) Rotulação B) Pseudoargumento de autoridade; C) Substituição; D) Simplificação; E) Depreciação; F) Repetição.


A Rotulação

O artifício mais utilizado e comum é a rotulação. A rotulação pode ser utilizada sob várias formas. Ela poder usada como “etiqueta classificatória”, tal como coloca Bourdieu (1996)[4], ou sob formas mais simples, como a adjetivação (o uso de adjetivos pejorativos). O rótulo substitui o conteúdo. Adjetivos pejorativos abolem argumentos. Assim, o artifício da adjetivação ou rotulação tem uma eficácia prática ao tornar o criticado igual ao adjetivo ou rótulo enunciado pelo suposto crítico. O artifício é praticado sob duas formas. A primeira é a do adjetivo pejorativo. O pseudocrítico, pois quem utiliza do discurso retórico não pode ser considerado um crítico no verdadeiro sentido da palavra, usa um adjetivo pejorativo para destruir os argumentos dos adversários. Se um autor escreve um texto e o pseudocrítico diz que tal texto é “panfletário” ou “positivista”, ou, ainda, “infantil”, usa o artifício da adjetivação. O leitor tende a sentir o impacto da força do adjetivo pejorativo, apesar do pseudocrítico geralmente não utilizar nenhum argumento ou informação que fundamente a afirmativa.

É isso que distingue o artifício da adjetivação e da rotulação do processo de conceituação. O crítico, ou seja, aquele que critica de forma autêntica e por isso não utiliza um discurso retórico, pode usar adjetivos e termos parecidos com rótulos, mas a forma e significado é diferente. Por exemplo, é possível afirmar que o autor do texto X é positivista, ideológico, populista, etc., porém, nesse caso, além da palavra vem a explicitação do seu significado (não se apela para sua pura negatividade) e onde ele se encontra no texto criticado e como e por qual motivo ele é problemático. Assim, se o pseudocrítico simplesmente diz: “este texto é liberal”, para leitores progressistas, então é mera retórica, um uso do artifício da rotulação. Agora, se um crítico afirma que um certo texto é positivista e explicita o que significa tal termo, bem como mostra onde ele se encontra no texto e quais suas fragilidades, então é um processo de conceituação e não adjetivação/rotulação.

Esse artifício é muito utilizado em disputas políticas, tal como se pode ver nos livros de Lênin (1989) e Mao Tsé-tung (1979), entre outros. Lênin, por exemplo, abusava do uso de adjetivos pejorativos, e em seu livro O Esquerdismo, A Doença Infantil do Comunismo, como já se nota pelo seu título, acusa os adversários de serem doentes, infantis, imbecis, entre outros termos usados amplamente. Outros termos, que este também utilizava com muita facilidade, é “oportunismo”, etc. Lênin utiliza a rotulação sobre duas formas principais: o insulto, tal como se vê nas expressões “infantil”, “imbecil”, etc., e a depreciação para determinados destinatários, tal como se vê em expressões como “pequeno-burguês”, “esquerdista” ou “revisionista”, termos malvistos para quem pertencia, na época, ao socialismo radical ou bolchevismo e semelhantes.

Assim, a rotulação pode ir da invectivação (insulto, injúria) e da adjetivação pejorativa, que busca uma sanção reputacional (atingir a reputação alheia, tornando-a negativa através desses procedimentos) até a classificação negativa, que pode ser apenas uma forma mais refinada das anteriores (denominar autor criticado como “positivista”, “anarquista”, “cientificista”, “irracionalista”) que tem aparência de suposto saber, mas que, no fundo, mantém a mesma intenção se não houver definições e fundamentação.


O Pseudoargumento de Autoridade

O pseudoargumento de autoridade – também denoninado “argumento de autoridade” e usaremos sob as duas formas, mas é preciso deixar claro que é um falso argumento – é um dos artifícios retóricos mais utilizados. A autoridade pode ser o próprio retórico ou outros indivíduos ou autores que ele cita como sendo inquestionáveis ou com grande saber sobre o assunto. O argumento de autoridade funciona da seguinte forma: a afirmação X é verdadeira por ter sido feita por indivíduo Y, que é grande conhecedor do assunto, é uma autoridade, ou por outro suposto mérito dele (sacrifício, honestidade, etc.). Assim, se autor X morreu lutando pela liberdade ou pelosocialismo”, então está acima da crítica, mesmo deixando de lado qual era sua concepção de “liberdade” e “socialismo” e quais foram as realizações concretas vinculadas e justificadas por ela. Outros querem defender determinadas ideias e apelam para autor A, B ou C, como sendo algo suficiente. O raciocínio é mais ou menos o seguinte: o autor A é excepcional, ele é muito bom, e ele defende esta ideia que eu estou expondo, logo, esta ideia é verdadeira e profunda. É o ponto final na discussão. Quanto mais famoso, reconhecido e respeitado é o referido autor, mais eficácia retórica terá junto aos leitores.

Esse é um caso no qual, em um debate, um dos debatedores, não tendo argumento algum a oferecer, diz: “Gramsci diz que a hegemonia é fundamental e não a economia”. Isso é parecido com o “efeito da grife”, tal como Bourdieu (1996) anotou no caso da arte, e, nesse caso, poderíamos denominar “efeito de autoridade”. Porém, muitas vezes o próprio pseudocrítico se qualifica como autoridade. Esse é o caso do pseudocrítico que, ao não ter argumento contra o seu adversário, afirma coisas do tipo: “eu pesquiso esse tema a 10 anos”; “eu sou doutor nessa área pela Universidade de Cadafalso do Norte”. Logo, o adversário ou os demais devem acreditar e aceitar sua posição por ele ser uma suposta autoridade no assunto e apesar de não ter argumentos e informações suficientes para convencê-los racionalmente. No fundo, ao fazer isto, mostra sua competência formal (títulos, currículo, etc.) ou suposta (experiência, autoelogio, etc.) e sua incompetência argumentativa.


A Substituição

A substituição pode assumir várias formas. A forma mais comum é o artifício do “mudar de assunto”, mas também pode assumir a forma da substituição de termos, problemáticas, contexto, autores, etc. O artifício da substituição é utilizado pelo retórico em várias situações, sendo que uma das mais comuns é quando ele está derrotado ou sem nenhuma possibilidade de resposta, pois assim pode desviar o assunto para disfarçar sua derrota e ter alguma possibilidade de reação. Isso pode ser exemplificado com um debate entre um professor e um aluno em sala de aula:

 

Professor: “só existem classes sociais no capitalismo”.
Aluno: “em qual concepção? Afinal, para o marxismo existem classes em outras sociedades além da capitalista”.
Professor: “estou dizendo para a concepção marxista, para Marx só existe classes no capitalismo”.
Aluno: “onde ele escreveu isso?”
Professor: “bom, em lugar nenhum, mas é sua concepção de classes”.
Aluno: “oras, o que na sua concepção de classes aponta para isso?”
Professor: “só existe classe havendo exploração”.
Aluno: “E por acaso o escravo no escravismo e o servo no feudalismo não eram explorados?”.
Professor: “quis dizer que só existem classes onde existe mais-valia”.
Aluno: “onde Marx afirmou isso?”
Professor: “bom, o tempo da aula está acabando e por isso eu vou voltar ao assunto original e depois, no final, te respondo”.

 Aqui o artifício da substituição é justificado pelo tempo, mas como não voltou ao assunto (pois esse foi um acontecimento real numa sala de aula em pós-graduação), apenas deixou claro que não tinha resposta e não queria/podia admitir isso. Um outro exemplo mostra novamente a questão da substituição retórica:

 

Aluno A: “professor, quem são os deterministas e os possibilistas?”
Professor: “Os possibilistas são os otimistas e estes são sempre os do governo, que sempre estão otimistas e a oposição é sempre pessimista”.
Aluno B: “Bom, eu li sobre isso, em livro de Geografia, no qual há um debate sobre possibilistas e deterministas, e os primeiros são considerados otimistas por postularem a existência de possibilidades. No livro é citado o economista socialista Paul Singer, que pensa que é possível mudar e superar a fome sem controle de natalidade e os demais, os deterministas, não acreditam nisso, sendo pessimistas”.
Professor: “Não existe socialismo!”
Aluno B: “Também não existe democracia!”
Professor: “Não vamos ficar aqui debatendo questões políticas como democracia e socialismo” ...
 

Aqui o artifício da substituição foi utilizado para não admitir o próprio equívoco e desviar para outro assunto (a inexistência do socialismo), e o aluno acabou caindo nesse artifício (desvio de assunto) e faz nova contestação, a sobre existência da democracia (que era o discurso mais constante do professor em questão), e novamente ele muda de assunto, ou melhor, encerra-o. Porém, essas são as formas mais simples, existem outras bem mais complexas e são relativamente comuns. Este é o caso de um debatedor (A) que usa o artifício da depreciação afirmando que o que o outro debatedor (B) escreveu sobre o assunto em debate (a obra de Darwin) não tem importância e de nada vale. O primeiro debatedor (A), ao ser questionado por um terceiro debatedor (C) que perguntou por várias vezes o que ele tinha lido de Darwin, e não obteve resposta do retórico, que sempre ia para outros assuntos e repetia afirmações já feitas (outro artifício que será tratado adiante), até que este mesmo questionador (C) repete a pergunta várias vezes, conseguindo, finalmente, que o primeiro debatedor (A) admita nunca ter lido Darwin. Aqui se trata de um debatedor honesto acometido por uma crença cientificista que não conseguia superar e por isso, num certo momento, assumiu ser um não leitor do famoso biólogo. O debatedor questionador (C), na ausência do outro (B), desmonta a retórica através da insistência em questionar os seus fundamentos para refutar o outro debatedor que estava ausente na sequência da discussão.

Há também casos em que o retórico passa de uma discussão sobre a greve num determinado país para uma situação bem diferente em outra época e local para tentar convencer que sua posição é adequada, abstraindo a diferença dos contextos. A substituição retórica também pode ser feita sistematicamente ou apenas no início do debate, visando derrotar o adversário saindo do tema dele e indo para outro no qual o argumento original já não é mais sustentável.


A Simplificação

A simplificação é outro artifício muito utilizado e pode assumir várias formas, indo desde o uso de trechos descontextualizados até atribuição de ideias retiradas de outros autores que supostamente teriam concordância com quem foi criticado. O artifício de simplificação consiste em simplificar o discurso alheio para assim derrotá-lo com facilidade. Por exemplo, se alguém quer discordar da teoria do Estado de Marx, basta dizer que ela se fundamenta no determinismo econômico e assim passa a fazer considerações sobre a limitação de tal determinismo (o que é também uma substituição retórica).

É claro que tal determinismo em Marx é uma pressuposição falsa, outro artifício do discurso retórico, mas uma fez servindo como ponto de partida e se o outro debatedor não o desfaz, ele acaba sendo convincente. A redução é uma espécie de simplificação que reduz uma discussão complexa a algum dos seus elementos. Se um debatedor utiliza diversos argumentos para mostrar que a pena de morte é algo questionável, o retórico pode reduzir seu discurso a uma defesa dos criminosos. Um pseudocrítico retórico pode, para questionar uma afirmação de um debatedor marxista, dizer que ele está equivocado por não ser o “desenvolvimento das forças produtivas” que explica o fenômeno, sendo que o autor do discurso jamais fez tal referência e nem concorda com tal explicação, mas a simplificação aí funciona pelo uso da redução do marxismo a uma concepção determinista e a identificação do criticado com essa versão empobrecida e simplificada dele.


A Depreciação

O artifício da depreciação visa vencer o debate desqualificando e desacreditando o autor do discurso ou o próprio discurso. Ele geralmente é um elemento complementar do artifício da rotulação e muitas vezes acompanha a sanção reputacional. Ele pode ser usado para desautorizar o debatedor, tal como dizer que é “apenas um estudante secundarista” ou que não é “especialista em psicologia” (ou qualquer outro saber especializado). As duas formas mais comuns do uso deste artifício são as afirmações não-fundamentadas de que o autor do discurso “não leu” ou “não entendeu” determinado pensador ou obra. Sem dúvida, existem casos de autores que abordam outros sem leitura, mas o crítico pode demonstrar isso, tal como críticos de Lamarck que apenas reproduzem a crítica de Darwin e a bibliografia deles comprova a não-leitura, já que não há obras desse autor nas referências. Porém, os retóricos usam esse artifício com muita facilidade, inclusive a respeito de textos com abundantes citações e transcrições de trechos dos autores criticados, o que significa que não tem nenhum sentido ou fundamentação tal afirmação.

Outra forma é fazer suposições (sem nenhuma fundamentação ou baseado em apenas impressões e informações superficiais que geram generalizações abusivas) sobre a vida, a moral, a integridade ou a capacidade do debatedor. No caso de Marx, por exemplo, muitos dos seus pseudocríticos retóricos buscam desqualificar a obra dele falando de sua vida pessoal, de seu “autoritarismo”, “insensibilidade”, “racismo”, etc. (Ramx, 2023). Outros usam formas de depreciação junto a determinados públicos, por exemplo, no interior de uma disputa política em meios políticos acusar o debatedor de ser “acadêmico” ou “academicista”, ou, no caso inverso, em meios acadêmicos, acusar o debatedor de ser “militante”, “político” ou “panfletário”. Outra forma é acusar no outro debatedor a existência de motivações consideradas pouco “nobres”, como ganhar dinheiro, vaidade, busca de sucesso ou fama, etc. Sem dúvida, as motivações são elementos que podem compor a análise crítica do discurso alheio, mas no artifício da depreciação isto é feito sem nenhum critério ético e fundamentação, sendo mera suposição, na maioria dos casos de forma mau intencionada (e algumas vezes é mera projeção, no sentido psicanalítico do termo), cujo objetivo é vencer o debate. Em casos de generalização devido a posição social ou derivada da prática, é uma afirmação indicial, mas no caso da depreciação retórica o que ocorre é afirmação destituída de fundamentação e mesmo tais indícios estão ausentes.


A Repetição

O artifício da repetição é caracterizado por repetir a mesma coisa sempre. O retórico faz uma afirmação, o debatedor questiona (na forma de pergunta ou de refutação) e ele reafirma o que tinha afirmado, sem responder perguntas ou a refutação e isso pode continuar ad infinitum. Esse artifício busca convencer pela repetição e por evitar o aprofundamento do debate, é uma forma de antidebate (assim como tem o antijogo, no futebol). Ao afirmar, por exemplo, que Marx é estatista e o adversário pergunta de onde tirou isso, ele volta reafirmando sem dizer sua fonte ou explicar seu embasamento e, ao ser questionado novamente, repete o que já havia dito. Caso o outro debatedor resolva aprofundar e além da pergunta resolver mostrar elementos na obra de Marx que contradiz tal afirmação, o retórico continuará repetindo sua afirmação como se não tivesse sido refutado e sem comentar os argumentos alheios.

Isso, muitas vezes, provoca a irritação no adversário (aliás, todos os artifícios retóricos tendem a provocar irritação), e ele pode, assim, também apelar para formas retóricas por reação (ou seja, utilizar adjetivos pejorativos, tal como chamar o retórico de ignorante, enrolador, etc., o que, no fundo, não é, em muitos casos, falso, mas acaba cedendo ao artifício da substituição na discussão, além de ser involuntário, sendo reativo). O discurso retórico tende a abolir a racionalidade de qualquer debate, e, caso o não-retórico se descuide, pode degenerar em troca de ofensas e acusações ao invés de uma discussão sobre o que está em questão. Sem dúvida, muitas vezes o iniciador da discussão que usa a retórica não quer realmente debater, quer apenas atacar a pessoa e/ou suas ideias para retirar o efeito do seu discurso, o que é a posição de muitos retóricos medíocres e por isso já iniciam de tal forma que o debate já está morto antes de começar, pois a intenção é atacar e irritar ao invés de realmente discutir.

Existem vários artifícios complementares[5], porém, vamos nos limitar a estes, que são os principais. Em outra oportunidade desenvolveremos um texto aprofundado estes elementos e apresentaremos os artifícios complementares, mas no presente texto encerramos por aqui.

 

Motivações e Objetivo do Discurso Retórico

Quais são as fontes e interesses por detrás do discurso retórico? Na verdade, é na luta política e nos debates acadêmicos orais ou superficiais (e-mails, sala de aula, mesa redonda, artigos de jornal, redes sociais virtuais, ou seja, geralmente falas ou textos curtos), ou mesmo conversa pessoal ou debate oral, que se manifesta com mais frequência o discurso retórico[6]. O seu objetivo varia, assim como varia quem usa o discurso retórico. O objetivo geral do discurso retórico é ganhar o debate a qualquer custo, mas cada manifestação específica desse gênero discursivo tem um objetivo específico. Alguns querem vencer o debate para provar sua suposta inteligência, outros para conseguir votos para seu candidato, entre milhares de outros casos possíveis.

Muitas pessoas honestas usam o discurso retórico sem perceber, motivados por necessidade de defender suas concepções e posições arraigadas e com forte envolvimento valorativo e sentimental, embora, nesse caso, o que tende a ocorrer é o uso de artifícios retóricos e não um discurso retórico em si. Um discurso retórico é uma totalidade e o uso ocasional de artifícios do discurso retórico significa, de forma isolada, usar um ou outro elemento que está contido nele. Por exemplo, um debatedor que está sendo vítima de sanção reputacional pode, por irritação, usar um insulto contra o adversário. Esse elemento isolado não torna o seu discurso uma manifestação do gênero retórico. E é nesse contexto de debate com alguém que utiliza retórica que, por envolvimento e por irritação, o não-retórico acaba usando também artifícios retóricos. Outra motivação é usar um artifício retórico como um antídoto, ou seja, um recurso antirretórico. Esse caso pode ser exemplificado por um debate entre dois professores, no qual um usava discurso retórico e um dos artifícios que usou foi o da sanção reputacional através da derrisão (que significa usar o humor para conseguir desqualificar o adversário através do efeito cômico) ao denominar o destinatário como “Mister M”. Com esse termo, buscava desqualificar o discurso oposto através do efeito cômico. O debate se prolongou e o debatedor retórico havia sido derrotado racionalmente, mas ainda usava o artifício da autoproclamar-se vitorioso, e, na última intervenção, o debatedor não-retórico denominou o adversário como “Palhaço Tiririca”. Desta forma, o debatedor conseguiu desfazer o efeito cômico e suas consequências posteriores (qualquer referência posterior ao debate ou ao debatedor lembraria a derrisão caricatural e o nome “Mister M”) usando o mesmo recurso, com um efeito cômico ainda mais forte, anulando suas consequências posteriores (pois toda referência ao “Mister M” viria junto com a lembrança do “Palhaço Tiririca” [7]. Nesse caso, a vitória racional, suficiente para alguns, foi acompanhada pela vitória anedótica, cuja inexistência poderia anular a primeira. Esse uso de um artifício retórico foi antirretórico.

É por isso que geralmente se afirma que não se deve discutir política, futebol e religião, devido a esse forte vínculo sentimental e valorativo presente nas posições e concepções nestas questões (Viana, 2011). No entanto, o uso do discurso retórico nestes casos é geralmente mais moderado e mesclado com argumentos/informações e tentativas de estabelecer um diálogo racional e por isso pode levar a superação da retórica quando os argumentos do adversário conseguem ampliar a consciência do debatedor que apela para a retórica. Porém, isto dificilmente ocorre, justamente por causa do envolvimento sentimental e valorativo e quanto mais forte é este envolvimento, menor são as possibilidades de ampliação e aprofundamento do debate.

Porém, o uso mais constante e intensivo (por vezes violento, sendo que algumas pessoas usam da violência para silenciar os adversários, principalmente quando estão presentes pessoalmente, o que se manifesta nos gestos, tom da voz, etc.) pode ter como fonte um forte envolvimento sentimental e valorativo, mas, também, uma fonte menos nobre que são determinados interesses.

Na sociedade capitalista, caracterizada por uma sociabilidade extremamente competitiva, os valores e sentimentos dos indivíduos acabam sendo fortemente comandados pela competição. Os sentimentos de inveja e ciúme são fortalecidos e reforçados de forma que se tornam arraigados no universo psíquico dos indivíduos. A inveja e o ciúme, por sua vez, estão ligados aos valores dos indivíduos, pois se pode invejar a riqueza, a beleza, as posses, a criatividade, o sucesso, a fama, a produção intelectual, determinadas habilidades, as amizades, etc., que os outros possuem e isso pode gerar animosidade insciente ou relativamente consciente. Se alguém escreve um artigo criticando a posição política de um determinado autor famoso e ganha um certo reconhecimento por parte de algumas pessoas, um invejoso pode muito bem sair em defesa do tal autor famoso, dizendo que, sendo um pensador reconhecido, então não pode ser criticado (artifício do argumento de autoridade), que o crítico, não tão famoso, não teria capacidade para tal (artifício de depreciação), e para isso pode citar os livros publicados pelo autor defendido. O caráter retórico da crítica é perceptível, principalmente quando se nota que o conteúdo da crítica não foi discutido (artifício da substituição) e apenas um aspecto periférico e sem importância, tal como uma palavra, se torna o centro do ataque (artifício da simplificação). E, por fim, no decorrer do debate, o retórico coloca sob suspeita as motivações do autor do texto, que era uma crítica por questão de posição política, e insinua que se tratava de interesses acadêmicos, o que significa usar o artifício da depreciação e da substituição.

Porém, outras motivações além de determinados sentimentos e valores podem existir. É o caso de um aluno que quer competir com outros alunos para poder conseguir vantagens na vida acadêmica e quer atacar os concorrentes ou agradar aos professores e assim cair na graça destes. Ao faltar competência real, usa-se o discurso retórico. Também é possível que um autor famoso criticado seja defendido de forma sentimental e valorativa por ser a base ideológica do pensamento e produção intelectual do defensor, o que significa que, sendo correta a crítica, ele é atingido indiretamente. É por isso que muitos autores, temas, etc. são reverenciados por pessoas na academia e é isto que gera a idolatria por determinados pensadores.

Estas motivações, no entanto, são apenas algumas possíveis, pois existem diversas outras. Um elemento em comum perpassa todas elas: o autor do discurso retórico possui dificuldade em realizar um debate consistente sobre o assunto em questão, e isso vale até mesmo para especialistas de um determinado assunto, no qual trabalha a diversos anos e é sua base em suas pesquisas. Os artifícios discursivos são substitutos de argumentos, informações, fundamentação. Logo, o autor do discurso retórico precisa apenas dominar esses artifícios e ter uma certa habilidade no seu uso concreto. E, para os incautos, pode passar a impressão de ser pessoa culta e inteligente.

O discurso retórico pode ser usado a respeito de qualquer assunto. Por isso o discurso retórico é uma pseudocrítica e um antidebate. O discurso retórico não visa aprofundar nenhum saber ou debate, não visa contribuir com a expansão da consciência sobre determinado assunto, não visa reconhecer as posições existentes e se posicionar permitindo os demais posicionamentos para que no seu confronto haja algum ganho intelectual. Por isso, ele é um discurso falso e mistificador, que provoca o emperramento da consciência e serve, no fundo, aos objetivos de reprodução das ideologias, das mistificações, das ilusões, em poucas palavras, do poder e dos interesses dominantes, que coincidem, na maioria das vezes, com os interesses individuais da maioria que usa o discurso retórico.

Assim, podem existir várias motivações para o discurso retórico, mas seu objetivo discursivo é vencer o debate a qualquer custo. Esse é o seu objetivo geral. Existem objetivos específicos que remetem às motivações e objetivos do autor do discurso retórico. Se alguém escreve um livro que usa discurso retórico sobre Marx, o seu objetivo específico é criticar esse pensador e a retórica é utilizada por não ter capacidade de realizar uma crítica efetiva e desejar, a todo custo, derrotar o marxismo. Nesse caso, a pseudocrítica através do discurso retórico é o que o autor consegue fazer.

O autor do discurso retórico (aqui entendendo um discurso em sua totalidade, e não um uso de apenas um de seus artifícios em determinados contextos discursivos) geralmente não possui a competência discursiva e saber necessário para vencer o adversário e por isso necessita usar a retórica para conseguir a vitória. Ao lado das motivações e objetivos do discurso retórico, há um reconhecimento inintencional de incompetência por parte do autor desse gênero discursivo.

O efeito do discurso retórico, quando ele é vitorioso, é a persuasão, o que serve, devido suas motivações e objetivo, o que promove um resultado positivo para o seu autor. O objetivo do retórico em apelar para esse gênero discursivo pode ser adquirir fama intelectual, criticar um desafeto ou uma posição política, defender seus interesses pessoais específicos, entre diversos outros possíveis. Nesse contexto, é possível perceber que o uso do discurso retórico está vinculado a determinados interesses (pessoais e coletivos) que o colocam em confronto com a busca da verdade. Logo, o discurso retórico é um subproduto da sociedade capitalista, fundada na competição e não serve para quem busca a libertação humana.

 

Para Desmontar o Discurso Retórico

Como derrotar o discurso retórico? Isto, no plano meramente racional, é relativamente fácil. Devido sua fragilidade intrínseca, o discurso retórico é facilmente derrotado. É suficiente para derrotá-lo realizar uma explicitação do seu caráter retórico e destrinchar o seu conteúdo (quando houver), mostrando suas incoerências, falta de fundamentação, desconhecimento dos acontecimentos, precariedade argumentativa.

Porém, o discurso retórico é perigoso, pois pode facilmente ser desmontado pelo não-retórico desde que esse tenha habilidade e fundamentação e entenda esse gênero discursivo. Num debate concreto, se o não-retórico consegue efetivar o desmonte de tal discurso e fica claro para ambos a sua derrota (ou pelo menos para o não-retórico, pois o outro, devido sua idiossincrasia ou crenças arraigadas pode não admitir sua derrota e usa a razoabilização, para utilizar termo psicanalítico, ou pode retoricamente autodeclarar sua vitória), mas, ele pode exercer uma eficácia persuasiva sobre os que estão fora do debate (se é numa sala de aula, num auditório, numa reunião ou assembléia, numa lista de discussão na internet, etc.). Assim, dependendo de quem está ouvindo ou lendo o debate, pode ficar claro a fragilidade do discurso retórico, mas também pode não ficar claro para muitos e a eficácia persuasiva de um adjetivo pejorativo, pode, para muitos incautos, ser muito forte e convincente.

O discurso retórico falado é mais difícil de ser combatido do que o escrito. Um debate oral é mais rápido e o desmonte do discurso retórico requer velocidade de pensamento, possibilidade de fala, etc. No caso de um debate escrito é mais fácil desmontar o discurso retórico, pois é possível usar citações do retórico mostrando suas contradições e artifícios discursivos, já que é possível uma reflexão mais profunda e análise mais detalhada e profunda.

Em debates acadêmicos (falados), existem situações em que um debatedor “ganha” o debate com uma piada que desconcerta o adversário e promove a gargalhada do público. Esse é o recurso retórico da derrisão. Alguns destes retóricos acabam ganhando notoriedade e popularidade, embora não acrescentem muito para o desenvolvimento da consciência e nem demonstre um saber aprofundado sobre o que estão debatendo. Desta forma, para desmontar o discurso retórico é necessário racionalidade (pois, como colocamos anterior, esse gênero discursivo tende a gerar irritação, o que tende a promover um fortalecimento da emoção em detrimento da razão), argumentação, informação e fundamentação.

Para que tal desmonte seja perceptível para muitas pessoas não atentas ao que é um discurso retórico (sem falar nos partidários de quem faz o discurso retórico, que por interesses, valores e/ou sentimentos tendem a reforçá-lo), outros elementos são necessários. Nesse caso, a ironia, o trocadilho e outros recursos podem ser utilizados de tal forma que acabe desmontando o discurso retórico também em sua eficácia persuasiva. Em certos casos, é necessário usar um recurso retórico para anular outro recurso retórico. É o caso, por exemplo, quando em um debate um dos debatedores quer usar o artifício da depreciação, atribui ao seu adversário um nome de um personagem que poderia virar rótulo para ele, tornando-o motivo de troça permanente (tal como apontamos anteriormente). Nesse caso, mesmo perdendo racionalmente o debate, acaba saindo-se relativamente bem, pois o elemento fundamental que será recordado pela maioria será a troça, devido sua excepcionalidade e facilidade de recordação, bem como isso tem uma eficácia persuasiva.

Para desmontar este efeito, a única forma é usar o mesmo recurso retórico e de forma ainda mais intensa, o que é possível, por ser uma reação, uma resposta que tem determinada troça como ponto de partida e que ganha legitimidade por ser uma autodefesa cujo objetivo é desmontar um recurso retórico e não fazer um discurso retórico em sua totalidade. Isso é possível, por exemplo, fazendo troça similar e mais forte, tal como no exemplo anterior, ao atribuir ao retórico que apelou para um procedimento de vincular o debatedor com um personagem, um nome de personagem muito mais depreciativo e que, portanto, se for lembrado o primeiro, o segundo também será, e isso se torna desfavorável ao retórico, que, inclusive, tentará esquecer o uso do nome do personagem, já que estará indissoluvelmente ligado ao “seu personagem”.

Nesse sentido, cada artifício pode ser combatido através de sua crítica, que pode assumir formas distintas. Vamos colocar os principais artifícios e exemplos de como combatê-los. Comecemos com a rotulação. A forma inicial é denunciar que se trata de rotulação (em sua forma específica, tal como, por exemplo, o uso de adjetivo pejorativo), embora o rotulador sempre diga o mesmo sobre o crítico – que utiliza racionalmente determinados conceitos que são definidos e demonstrados –, a questão é que o retórico ou não entende ou faz de conta que não entende, o que faz explicar que uma coisa é simplesmente dizer “sua abordagem é positivista” e outra é afirmar isto e explicitar o que significa positivismo e onde ele se encontra em tal discurso. Caso faça isso, a solução é explicitar novamente, o que se torna repetitivo em caso de muitas réplicas, mas acaba sendo necessário, pois torna-se educativo para os demais, apesar de ser entediante para o debatedor que é constrangido a fazer isso.

Uma outra forma, complementar, é usar o adjetivo pejorativo contra o retórico, só que com fundamentação. Por exemplo, se o retórico diz: “você é autoritário”, mas simplesmente não diz o que significa tal termo, onde ele se encontra no seu discurso e não desmonta o discurso independente de ser ou não autoritário, é possível mostrar que o discurso do retórico é que é autoritário, pois, ao não debater o conteúdo em questão e apenas usar um adjetivo sem fundamentação, o que ele faz é através de um rótulo querer silenciar o outro, o que expressa autoritarismo.

No caso do artifício do argumento de autoridade, quando ocorre que o retórico se autoproclama autoridade, a forma de refutação inicial é mostrar que isso é argumento de autoridade e não é válido. Se tal argumento se baseia em “experiência”, o mesmo procedimento deve ser feito e, caso o não-retórico também tenha experiência na área, então pode destruir totalmente o discurso retórico demonstrando isso. Se o retórico diz: “eu estudo psicanálise a 15 anos”, o debatedor que tem mais experiência pode não só dizer que isso não é argumento, ainda pode rebater dizendo sua experiência (“pois eu estudo psicanálise a 22 anos...”).

Outros apelam para currículo, tal como ser consultor em lugares determinados, etc. Além de rebater dizendo que currículo não é argumento e, se fosse, bastaria consultar o “Currículo Lattes”, e não precisaria haver debate, é possível questionar esse em si e os limites da especialização, os lugares de respeitabilidade duvidosos, etc. Além disso, o currículo ou experiência, se fosse prova de competência real, não precisaria ser utilizado, pois se a tivesse poderia provar através de argumentação e informações. Obviamente que nem todas as vezes que um indivíduo coloca sua experiência, currículo, publicações, etc. é argumento de autoridade, pois pode ser apenas informativo ou comparativo.

Um exemplo pode esclarecer isso. Se alguém usa o artifício do argumento de autoridade, dizendo que o seu debatedor não entende nada do pensamento de Ernst Bloch e ele, por ter feito uma tese de doutorado sobre este autor, tem autoridade para falar dele, usa um artifício retórico. O debatedor pode retrucar dizendo que também é leitor de Bloch e que está baseando suas informações em textos deste autor e que está fundamentando suas afirmações e não em suposta “autoridade” sobre o assunto e que é preciso que o retórico mostre, de forma fundamentada, quais são os seus equívocos interpretativos. Outra possibilidade, complementar, é esclarecer que também pesquisa o autor e tem saber sedimentado sobre sua obra, o que lhe coloca como equivalente à suposta “autoridade”. Aqui funciona é um procedimento semelhante ao argumento de autoridade, mas é usado como informação e antirretórica em relação ao argumento de autoridade.

O antirretórica em relação ao artifício da substituição é, num primeiro momento, recordar qual é o assunto em questão e repetir isso quantas vezes o retórico tentar mudar de assunto ou outra forma de substituição (por exemplo, num debate sobre Marx, o retórico usa citação de Engels, então é preciso recordar que o pensador que está sendo debatido não é esse). Isso pode ser feito de várias formas, inclusive, às vezes da forma mais simples, sem acrescentar nenhum argumento ou discussão, apenas cobrar o retorno ao assunto original. A substituição pode ser novamente realizada pelo retórico a partir de algum elemento da fundamentação oferecida pelo seu crítico e o mesmo procedimento de recordação deve ser realizado nesse caso.

No caso do artifício da simplificação, o antirretórico pode começar, tal como nos demais casos, explicitando que se trata de retórica e, após isto, retomar a linha argumentativa em toda a sua complexidade. Isso pode gerar, por parte do retórico, uma nova simplificação (em algum elemento derivado), que, por sua vez, deve ser novamente rebatido com a linha argumentativa em sua complexidade.

O artifício da depreciação é o mais ofensivo e medíocre dentre os artifícios do discurso retórico. A sua mediocridade se revela na falta de argumentos já de início, na qual ao invés de debater ideias ataca pessoas. Por isso, o primeiro passo para derrotá-lo é explicitar esse seu caráter. Depois disso, há a possibilidade de discutir as reais intenções do retórico ao colocar isso no nível pessoal ao invés de ficar no campo dos argumentos. Ou seja, se a depreciação é realizada a partir de suposições (meras suposições, que ficam no nível da superficialidade e não discussão fundamentada) a respeito de intenções e interesses, então é interessante perguntar sobre quais são as intenções e interesses por detrás de alguém que deprecia o outro partindo de suposições. A depreciação pode ser humorística, etc., e, tal como no caso acima citado, pode-se, excepcionalmente, usar um recurso retórico para funcionar como um procedimento antirretórico.

O artifício da repetição é o mais fraco e irritante. O seu desmonte funciona, geralmente, com a sua denúncia e questionamento. Ele é uma forma de antidebate e que um pouco de esclarecimento para os demais, se desmonta, pois é muito fraco e, a não ser que os destinatários acreditem em frases repetitivas e sem fundamentação, ele não convence ninguém, ou seja, ele só funciona com pessoas que não prestam atenção na discussão ou então que possuem uma consciência coisificada, no qual o escrito ou fala é um fetiche e o que vale é quem escreveu/falou por último.

Esses e outros procedimentos podem ser usados para desmontar o discurso retórico. Contudo, mesmo provando racionalmente e demonstrando que se trata de um discurso retórico, é possível que o autor desse discurso ainda saia “vencedor”. Essa vitória, no entanto, não ocorre ao nível discursivo e intelectual, mas sim no nível da persuasão, pois depende dos destinatários ou do público que houve ou lê o debate. Um público de pessoas acríticas, com baixa bagagem cultural, desatentas, etc. pode pensar que o retórico é quem tem razão e venceu o debate. Um público de partidários ou adeptos de determinada religião, partido, concepção política, etc. tende a concordar com o retórico e se é a maioria ou totalidade, sem dúvida considerará este último o vencedor.

Na sociedade atual, infelizmente, os artifícios do discurso retórico são convincentes devido à formação intelectual precária da maioria da população, o que é interesse dos detentores do poder e dos retóricos. E isso, na contemporaneidade, é ainda mais grave, pois a hegemonia do paradigma subjetivista traz consigo o predomínio do irracionalismo, relativismo e outras ideologias que fazem o elogio da ignorância (Viana, 2019)[8]. Em uma sociedade na qual o aparato estatal, os governos, as instituições (inclusive as educacionais), os partidos políticos, os meios oligopolistas de comunicação, etc. promovem o subjetivismo e seus subprodutos derivados, a racionalidade perde espaço e o discurso retórico se torna mais eficaz e comum.

 

Considerações Finais

Este é um breve texto sobre discurso retórico, cuja intenção foi apresentar de forma breve suas características, objetivos e mostrar como pode ser desmontado. Porém, o discurso retórico possui uma eficácia persuasiva e esta será maior quanto maior for o despreparo do público (por falta de informações, de senso crítico, de saberes mais aprofundados sobre determinados assuntos, sobre o próprio discurso retórico, etc.) ou quanto maior for a convergência de perspectivas entre ele e o retórico. Obviamente que, no primeiro caso, é apenas o esclarecimento que pode ajudar e por isso de nada ajuda à luta pela transformação social os obscurantismos, irracionalismos e anti-intelectualismos fortes em certos setores da sociedade. É fundamental aumentar a capacidade crítica, a disponibilidade de ferramentas intelectuais para o maior número possível de pessoas. Um “fascista fascinante” pode deixar gente ignorante “fascinada” ou um progressista populista pode deixar o público deslumbrado.

A luta pela transformação social é uma luta cultural e pela elevação da consciência e da cultura em geral. No caso de concordância do público com o retórico, este pode ser bem-sucedido pelo fato de que os demais que assistem ou participam perifericamente do debate podem ter valores, sentimentos, concepções análogas e por isso concordam não apenas com os fins, mas também com os meios. Meios e fins desonestos se complementam. Obviamente que pode haver, na mente de indivíduos concretos, conflitos de valores, sentimentos, concepções, interesses, etc. e o debate, assim, pode contribuir para eles avançarem. Porém, isto depende mais das pessoas do que dos debatedores em si.

A consciência do discurso retórico e seu significado, bem como seus artifícios, é um momento da luta cultural pela libertação humana e quanto mais pessoas tiverem consciência de sua existência e procedimentos, menor tende a ser sua eficácia persuasiva. E isso é fundamental numa época em que os políticos profissionais, ideólogos e populistas usam e abusam do discurso retórico e que há um empobrecimento cultural geral. O presente artigo cumpriu a função de oferecer uma percepção introdutória desse fenômeno discursivo e abrir espaço para o desenvolvimento da consciência sobre o discurso retórico e, portanto, atingiu seu objetivo.

 

Referências

 

 

BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Linguísticas. São Paulo: Edusp, 1996. BOURDIEU, Pierre. As Regras da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

LÊNIN, W. O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo. São Paulo: Global, 1989.

 

MAO TSE-TUNG. Sobre a Contradição. In: MODERNO, J. R. C. (org.). O Pensamento de Mao Tse-Tung. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1979.

 

RAMX, R. Em Defesa de Marx: Contra a Pseudocrítica e os Ataques Pessoais. Revista Marxismo e Autogestão, [S. l.], v. 10, n. 13, 2023. Disponível em: https://redelp.net/index.php/rma/article/view/1346. Acesso em: 30 dez. 2023.

SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.

 

VIANA, Nildo. Discurso e Poder. In: Linguagem, Discurso e Poder. Ensaios sobre Linguagem e Sociedade. Pará de Minas: Virtualbooks, 2009.

 

VIANA, Nildo. Elementos para uma Teoria do Discurso. in: ALMEIDA, Flávio A.; NETO, Joachin M. A. (orgs.). Língua, Literatura e Cultura sob a Perspectiva do Discurso. São Paulo: ECD, 2024 (no prelo).

 

VIANA, Nildo. Futebol, Religião e Política. Disponível em: http://informecritica.blogspot.com/ acessado em: 02/02/2011.

 

VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.

 

VIANA, Nildo. Mao Tsé-Tung: Dialética ou Estratégia do PCC. In: O Fim do Marxismo e Outros Ensaios. São Paulo: Giz Editorial, 2007.

 

RESUMO

O presente artigo aborda o discurso retórico como um gênero discursivo específico. A reflexão sobre o discurso retórico ocorre através de sua definição, apresentação dos seus artifícios discursivos, motivações, objetivos, bem como aponta alguns elementos para desmontar esse tipo de discurso. O discurso retórico visa ganhar o debate a qualquer custo, inclusive utilizando meios ilícitos. Na contemporaneidade, com a hegemonia do paradigma subjetivista e o fortalecimento de seus subprodutos, como o relativismo e irracionalismo, se torna ainda mais importante entender e criticar o discurso retórico e seus usos nos meios políticos, acadêmicos e virtuais.

 

Palavras-chave: Discurso Retórico; Artifícios Discursivos; Objetivos; Motivação, Retórica.

 

ABSTRACT

This article addresses rhetorical speech as a specific discursive genre. Reflection on rhetorical discourse occurs through its definition, presentation of its discursive devices, motivations, objectives, as well as pointing out some elements to dismantle this type of discourse. Rhetorical discourse aims to win the debate at any cost, including using illicit means. In contemporary times, with the hegemony of the subjectivist paradigm and the strengthening of its by-products, such as relativism and irrationalism, it becomes even more important to understand and criticize rhetorical discourse and its uses in political, academic and virtual environments.

 

Keywords: Rhetorical Discourse; Discursive Artifices; Goals; Motivation, Rhetoric.



[1] O objetivo específico de um discurso retórico remete às suas manifestações concretas, ou seja, a um determinado discurso.

[2] Sem dúvida, todos os indivíduos acreditam em suas ideias e as consideram verdadeiras e, por isso, podem ser insistentes e às vezes apelar para formas problemáticas de defesa delas. Porém, o discurso retórico é uma forma mais desenvolvida e problemática dessa vontade de ter razão, pois ele, devido aos interesses ou características do seu autor, faz isso de forma ampla e consciente (pelo menos em alguns de seus aspectos).

[3] Um discurso é composto por sua estrutura e conjuntura, sendo que a primeira é composta pelos signos, enunciados, proposições e argumentos fundamentais, formando um núcleo posicional geralmente coerente, articulado e estável (Viana, 2024). É preciso destacar que a unissemia e coerência é relativa ao seu núcleo posicional e não à sua totalidade, pois o discurso retórico cai, muitas vezes, em contradição e incoerências, visando conseguir convencer os leitores.

[4] Bourdieu afirma, analisando um discurso de Etienne Balibar, que a imposição de etiquetas classificatórias (“burguês”, “idealista”) é uma estigmatização aberta, que, “sob a aparência de subsumir conceitos e classes lógicas” apenas encaixam uma coletividade (“classe globalmente condenada”) no conjunto dos inimigos políticos ou “teóricos” (1996, p. 168).

[5] Schopenhauer (1997) apresenta 38 artifícios (“estratagemas”) retóricos em sua obra Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão e o leitor pode consultá-lo. Embora discordemos de alguns aspectos, o texto ajuda a entender o significado da retórica, mesmo usando outros termos.

[6] Isso não exclui a possibilidade do discurso retórico se manifestar sob forma mais extensa. Efetivamente, existem livros volumosos que expressam um discurso retórico.

[7] Mister M (Masked Magician) se chamava “Val Valentino”, sendo um ilusionista e ator norte-americano, que ficou famoso mundialmente na TV com filmagens nas quais revelava os segredos dos truques mágicos e ilusionistas. O uso do termo foi uma derrisão por causa de um texto do destinatário sobre um historiador que foi denominado “mágico”. O Palhaço Tiririca foi um personagem criado e interpretado por Francisco Everardo Oliveira, e ficou conhecido nos anos 1980 e 1990 através de programas televisivos e gravações de músicas triviais. Tratava-se de um personagem rídiculo.

[8] Em tempos de subjetivismo, um recurso retórico muito usado é o pseudoargumento da autoridade combinado com o pseudoargumento ad hominem. O uso da argumentação ad hominem é usada quando se ataca a pessoa (o autor) ao invés da afirmação em si. Ela pode ser um complemento do argumento de autoridade. Na contemporaneidade, com o predomínio do paradigma subjetivista e de seus subprodutos (irracionalismo, negacionismo, narcisismo, etc.), se recorre bastante a uma determinada forma de pseudoargumento de autoridade, que é o do “lugar de fala”, segundo o qual apenas pessoas de determinado grupo ou condição poderia tratar de certos assuntos. Isso, por sua vez, gera o argumento ad hominem, pois todos que não são do grupo ou não possuem tal condição, estão “desautorizados” a tratar do assunto.

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Publicado originalmente em:

VIANA, Nildo. Sobre o Discurso Retórico. Revista Sociologia em Rede[S. l.], v. 13, n. 13, 2023. Disponível em: https://redelp.net/index.php/rsr/article/view/1466. Acesso em: 16 fev. 2026.


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