Hipermercantilização e Burocratização na Contemporaneidade
Nildo Viana
Ao lado disso, o processo de crescente mercantilização
e burocratização das relações sociais, que é o gerador da racionalização, traz
mais motivos para ampliação das insatisfações. A mercantilização traz a
necessidade do cálculo mercantil e do dinheiro, o que torna a venda da força de
trabalho necessária e no contexto das relações de trabalho já aludidas e que
não se limita ao trabalho produtivo e se reproduz no trabalho improdutivo[1].
O lazer é mercantilizado (Orio, 2019; Viana, 2018), assim como a vida
cotidiana. A mercantilização gera a burocratização. A burocratização das
relações sociais, por sua vez, significa criação ou ampliação de organizações
burocráticas e aumento de controle social.
A “sociedade da vigilância”, termo muito usado (mas
sob forma equivocada a partir de bases ideológicas), exerce um controle cada
vez mais amplo sobre os indivíduos, inclusive em sua vida privada. A
videovigilância e as câmaras em todos os lugares tornam real o Big Brother de
Georg Orwel e os reality shows são uma versão em miniatura do que ocorre
na sociedade capitalista contemporânea. A vigilância através do mundo virtual
da internet, incluindo as redes sociais virtuais, ampliam esse processo. Quanto
mais o capitalismo se desenvolve, mais se intensifica a mercantilização e a
burocratização das relações sociais. E quanto mais se desenvolve o controle
social e menos há espaço de privacidade e tranquilidade, mesmo que momentânea,
e mais a insatisfação, consciente ou insciente, se amplia. O exibicionismo avança
nesse contexto, ligado a processos como corpolatria, narcisismo, etc., mas que
é planejado e ocorre apenas nos “bons momentos”, pois quando a exposição é
involuntária e/ou dos “maus momentos”, a sensação deixa de ser agradável e ter
um significado social de aprovação para ser desagradável e ter um significado
social de reprovação.
O moralismo subjetivista reforça esse processo de
controle sobre a vida cotidiana com sua tese da “politização da vida privada”.
O controle chega até a casa dos indivíduos e alguns querem controlar até os
pensamentos dos outros, ditando o que eles devem ou não fazer e ainda fazendo
discurso contra “regras”. É o predomínio da razão cínica. A suposta
“politização da vida privada” é uma politização despolitizada, pois se
fundamenta num reducionismo de relações grupais e interindividuais, sendo que,
no fundo, é apenas a vida privada é que é “politizada”. Um jogo de interesses,
oportunismo, versões da realidade (ao invés da verdade sobre ela),
razoabilização[2],
etc. é o que ocorre ao invés de politização.
“‘O pessoal é político’ emerge como discurso oportunista e que o apelo
para abordar a ‘vida cotidiana’ é num sentido parcial, no que beneficia
oportunistas de todos os tipos” (Leroy, 2021, p. 50). No entanto, é preciso
acrescentar que muitos que pregam e que respeitam esse chavão são hipócritas,
sendo que alguns depois são acusados de práticas que são condenáveis por
qualquer um sem precisar apelar para tal discurso, como o assédio sexual, por
exemplo. Claro que isso vale para os casos em que esse processo tenha
efetivamente e realmente ocorrido. É preciso entender que, no capitalismo e sua
sociabilidade fundada na competição, existem exageros, tal como o caso do
indivíduo que foi preso por “olhar para uma mulher” no meio da rua ou falsas
acusações que oportunistas usam para desmoralizar certos indivíduos, embora em
alguns casos seja difícil saber o que é realmente falsa acusação e o que
ocorreu efetivamente. Esses elementos duvidosos fazem parte do processo
contemporâneo de dubiedade informativa, antes aludido[3].
Ao invés de busca de reais soluções o que ocorre é um
processo de busca de vantagens competitivas, uso vantajoso em conflitos
interindividuais, etc. Não existe nenhuma politização através do maniqueísmo e
reducionismo de questões muito mais amplas (que envolve processos psíquicos e
sociais muito mais complexos do que o que vem sendo defendido pelos moralistas
subjetivistas) e complexas. E, no fundo, numa sociedade comandada pela
sociabilidade capitalista (competitiva, burocrática e mercantil), tudo pode ser
degradado e transformado em seu contrário.
[1]
O trabalho produtivo é aquele realizado pelos proletários no processo de
produção capitalista de mercadorias, que é produção de mais-valor. O trabalho
improdutivo é aquele efetivado fora das relações de produção capitalistas, seja
nas relações de distribuição, seja nas formas sociais (“superestrutura”)
(Viana, 2018).
[2]
O que Ernst Jones denominou “racionalização” e Sigmund Freud e sua filha, Ana
Freud, trabalharam posteriormente, significando tornar “razoável”, ou
“aceitável”, desejos, sentimentos, etc., dos indivíduos, e foi alterado para o
novo termo por Ruck (2016).
[3]
Sobre o problema do assédio moral e sexual, numa perspectiva crítica, cf. https://redelp.net/index.php/renf/article/view/1653




