A Utopia Autogestionária ou a Morte
Nildo Viana
René Dumont (1975), em 1973, já colocava a oposição
“utopia ou morte”. Sem dúvida, o anúncio da catástrofe ecológica, das guerras e
outros problemas eram visíveis e o relatório do Clube de Roma e outros
processos apontavam para isso. O interessante, no entanto, é que ele conseguiu
perceber o maior dilema da humanidade: ou muda, ou perece. Sem dúvida, ou a
humanidade acaba com o capitalismo, ou o capitalismo acaba com a humanidade.
Quanto mais o capitalismo se desenvolve, mais extensa e intensa se torna a destruição
ambiental e a miséria humana (econômica, psíquica, cultural, sexual, etc.).
Porém, suas contradições se tornam cada vez mais explosivas e o risco de
autodestruição da humanidade se amplia cada vez mais. A saída, nos limites do
capitalismo, para suas contradições, nada resolvem ou apenas troca algumas
contradições por outras, bem como a contradição fundamental (a produção de
mais-valor e suas consequências, incluindo o declínio da taxa de lucro) fica
intacta e é o gerador de todo o resto.
Nesse sentido, podemos retomar a oposição de Dumont e
colocar que hoje estamos entre a utopia autogestionária (não as indicações
desse autor, que são limitadas por não romper com o capitalismo e serem, nesse
contexto, irrealistas, e não resolverem diversos outros problemas graves e não
atacar as determinações de tudo isso) ou a morte (a autodestruição da
humanidade). Sem dúvida, antes da autodestruição poderemos passar da barbárie
existente atualmente para uma selvageria (seja através de um regime de
acumulação bélico ou um capitalismo tecno-oligopolista, que, independentemente
de qual seja, seria o último suspiro do capitalismo), o que seria a realização
das ucronias da ficção científica[1].
Então se torna urgente agir e lutar contra o mundo existente e, ao lado disso,
pensar o futuro, um projeto de sociedade – que já existe e que é necessário
resgatar os seus elementos fundamentais desde Marx, passando por Pannekoek e os
comunistas de conselhos, até chegar ao marxismo autogestionário – e buscar sua
realização, pois esta seria a única forma de salvar a humanidade.
O problema maior, no entanto, é a passagem da
sociedade capitalista para a sociedade autogerida. O capitalismo possui um
conjunto de recursos, mecanismos, interesses, defensores, que o sustenta, bem
como ele destrói, anula e marginaliza os que se levantam contra ele de forma
efetiva e totalizante. Assim, desde a hegemonia cultural (e o paradigma
subjetivista é prova disso, bem como seus concorrentes e opositores), as formas
de cooptação, a força do aparato estatal, as instituições civis, etc., até a
guerra, são mecanismos que garantem sua reprodução. E um elemento de sua
reprodução importante está na mente dos indivíduos. A mentalidade burguesa, com
seu caráter mercantil, burocrático e competitivo é um elemento fundamental para
a reprodução do capitalismo (Viana, 2008). Esses elementos são introjetados na
mente dos indivíduos e geram limites psíquicos para ir além do capitalismo. A
episteme burguesa, o seu derivado intelectual, por sua vez, é outro obstáculo
poderoso para romper com a dominação cultural burguesa. E derivado disso temos
os paradigmas (e aí tanto faz qual é, pois todos apontam para a reprodução do
capitalismo), os desequilíbrios psíquicos, a miséria cultural, a
imaturalização, e diversos outros fenômenos derivados.
Porém, isso não apaga as contradições do capitalismo.
O trabalho alienado continua sendo mortificação e a exploração e dominação de
classe continuam existindo e gerando insatisfação. Ao lado e derivado disso, as
diversas contradições que apresentamos anteriormente. Como pessoas empobrecidas
ou prejudicadas psiquicamente em alto grau, imaturalizadas, poderão constituir
uma nova sociedade? A expropriação do saber com a desvaloração das produções
culturais mais elevadas – afinal, se “um par de botas é igual a Shakespeare” (Finkielkraut, 1988), como defende o relativismo e o subjetivismo,
então podemos nos contentar com “funk” brasileiro e sertanejo universitário, ou
como aplaudi-los como fazem os neopopulistas – e a decadência educacional em
todos os níveis, reforçados pela emergência da internet e tecnointeligência, geram
uma situação de alto grau de insatisfação e poucos recursos intelectuais para a
luta contra a sociedade mórbida que existe.
Essa é apenas outra contradição. Nesse contexto, os
desequilíbrios psíquicos se avolumam e intensificam, os distúrbios psíquicos se
tornam mais generalizados. A insatisfação, num contexto de empobrecimento
cultural, desequilíbrios psíquicos intensificados e falta de alternativas reais
(utopia), aponta para a revolta e as explosões destrutivas. A burguesia e o
aparato estatal, bem com o bloco dominante com suas diversas instituições
(partidos, fundações, meios oligopolistas de comunicação) podem e devem canalizar,
nesse contexto, a insatisfação para um inimigo imaginário ou setor da
sociedade. As bases para isso já estão dadas com os discursos identitários e
nacionalistas. A questão é como lutar contra isso e impedir a manipulação de
sentimentos e canalização da insatisfação para inimigos imaginários visando um
desenvolvimento mais amplo da consciência e autonomização do proletariado e das
classes sociais inferiores.
Sem dúvida, propor uma estratégia revolucionária é
relativamente fácil, mas concretizá-la é que é difícil, pois além de todos os
obstáculos (aparato estatal, poder financeiro, hegemonia cultural burguesa,
etc.) ainda existe o divisionismo e força das ideologias e seus subprodutos
(ideologemas) na mente das classes inferiores e setores mais propensos à
contestação dentro da sociedade. No entanto, apesar disso, não há outra saída a
não ser lutar e esperar uma confluência entre as lutas espontâneas e autônomas
do proletariado e das demais classes inferiores, com a luta cultural
revolucionária, bem como o avanço do bloco revolucionário no sentido de superar
suas ambiguidades e influências da hegemonia burguesa, e dos setores
contestadores da sociedade. Essa luta é fundamental e necessária e reforça a
tendência da utopia autogestionária, enquanto que a desistência, o imobilismo,
a desesperança, reforçam a tendência de autodestruição da humanidade a médio
prazo ou a selvageria, a curto prazo.
Nesse sentido, uma ampla luta cultural contra a
hegemonia burguesa e a polarização no seu interior é parte da luta por
encontrar uma solução para os dilemas contemporâneos. Nesse contexto, a
internet e as redes sociais virtuais precisam ser utilizadas de forma distinta.
Ela reproduz a sociedade e se não houver mudanças sociais e culturais
(especialmente no interior de setores mais avançados da intelectualidade,
juventude, população feminina, população negra e trabalhadores) e reemergência
da luta operária, não haverá mudanças drásticas no mundo virtual e sua passagem
para uma forma emancipadora e formadora. Contudo, esperar esse processo ocorrer
espontaneamente é um equívoco, pois quando tais lutar emergirem, o proletariado
e as classes sociais inferiores estarão menos preparados e por isso é
fundamental que, por mais que seja limitado, se crie alternativas e se faça uma
luta cultural abrindo brechas, espaços, formas de contrapoder. Assim, mesmo com
limites e na dependência de outras lutas, a luta cultural no mundo virtual e
novas formas de uso e mecanismos no seu interior se torna necessário e parte da
recusa e afirmação de uma alternativa. E tal luta, mesmo com seus limites, cria
condições mais favoráveis para lutas mais decisivas que tendem a emergir no
futuro.
Contudo, um outro elemento que faz parte
do mundo tenebroso em que vivemos é o discurso do “fim das utopias”[2].
Esse é um dos elementos que a luta cultural deve focalizar. Vários setores da
juventude abandonaram a perspectiva utópica e, assim, aderiram ao discurso
identitário, narcisismo, hedonismo, neoindividualismo, etc. Até mesmo os
setores mais avançados estão sob influência do subjetivismo e da mentalidade
competitiva. O movimento feminino foi invadido por concepções progressistas e
pelas ideologias feministas que não se vinculam ao projeto humanista e utópico,
indo desde posições meramente de busca de vantagens competitivas no capitalismo
até a defesa de uma fantasiosa “igualdade de sexos” (“gêneros”, diriam alguns)
no interior da sociedade capitalista[3]. Os
setores do movimento feminino que são mais avançados estão envolvidos com
concepções políticas progressistas extremistas e limitadas, inclusive num
movimento defensivo e cedendo às lutas institucionais e eleitorais, o que anula
sua radicalidade e possibilidade de união com o bloco revolucionário. E até no
interior desse bloco, a influência do paradigma subjetivista e das ideologias
correspondentes acabam sendo outro obstáculo e meio de aproximação com o
progressismo. O mesmo processo ocorreu com o movimento negro, que atingiu seu
grau máximo de radicalidade no final dos anos 1960 e se manteve durante um
período dos anos 1970, sendo substituído por políticas moderadas,
reivindicações de inserção no capitalismo, sem questionamento radical das bases
sociais do racismo e da situação da maioria da população negra (que se encontra
nas classes sociais inferiores).
Assim, a crítica do discurso do fim das
utopias e a retomada do projeto autogestionário como alternativa ao capitalismo
é um elemento fundamental. Sem dúvida, vários setores da juventude e do
progressismo poderão desviar – como muitos já o fazem – a discussão sobre
autogestão para propostas dentro do capitalismo (cooperativas, “faça você
mesmo”, etc.), mas isso apenas requer se pensar em aprofundar a reflexão sobre
autogestão e divulgação do projeto autogestionário. E aí surge a necessidade de
crítica ao capitalismo e todos os seus subprodutos, mas também defesa da
autogestão social e esclarecimento sobre seu significado. A esperança é
fundamental e ela precisa de ser entendida como possibilidade real, projeto
concretizável. Ela tem que enfrentar as críticas e se mostrar realizável. Esse
é um elemento da luta cultural pouco explorado e que precisa ser intensificado.
A esperança é mobilizadora, mas precisa não só ser bela e almejável, mas também
possível e provável.
No contexto de luta cultural, os
intelectuais assumem uma importância na correlação de forças no interior da
sociedade. Os intelectuais, porém, são pertencentes a uma classe auxiliar da
burguesia, mas sempre tiveram dissidentes e do seu interior emergiu,
historicamente, contestadores e revolucionário. Porém, hoje eles foram
cooptados quase que em sua totalidade, de forma consciente ou insciente, sendo
que muitos se tornaram defensores de governos “progressistas” indefensáveis ou
adeptos do subjetivismo e ideologias reducionistas e maniqueístas, bem como uma
grande parte perdeu a coragem de dizer a verdade, seja por medo ou pressão
social. Uma minoria adere aos autocratismos vinculados às várias formas de
reacionarismo, o que é comum em época de desestabilização e crise. Esse
“silêncio dos intelectuais” que conseguem perceber os caminhos equivocados de
indivíduos, setores dos movimentos sociais, partidos, meios oligopolistas de
comunicação, mas nada falam (alguns, inclusive, repetem aquilo que eles sabem que
é mentira), é outro obstáculo para um real avanço. E nem precisa ser um
intelectual revolucionário, basta ser honesto e humanista, para sentir a
necessidade de romper com as polarizações políticas e morais e ajudar a
construir uma alternativa.
Assim, pressionar os setores da
intelectualidade que não são totalmente corrompidos e que perseguem apenas seus
objetivos (intelectuais venais)[4],
é fundamental para que ela ajude a esclarecer ao invés de obscurecer e assim
tragam contribuições reais e elementos de cultura que podem ser úteis nas lutas
sociais na sociedade civil. Da mesma forma, resgatar a utopia autogestionária e
a esperança revolucionária no interior da juventude (e do movimento estudantil,
sua expressão mais organizada), do movimento feminino, do movimento negro e
outros movimentos sociais, se torna fundamental. O debate da questão racial,
por exemplo, deve sair dos mesmos limites impostos aos demais movimentos
sociais, que é reivindicações moderadas, comportamentais e legais, indo à raiz
do problema do racismo e das relações raciais na sociedade capitalista,
derivadas do processo histórico que as engendraram, da sociabilidade
capitalista (competição social, burocratização e mercantilização), da divisão
de classes (e suas subdivisões) e de seu vínculo com a luta de classes.
O bloco revolucionário, por sua vez,
encontra-se enfraquecido e dividido. Esse seria um momento para sua ascensão,
no plano das relações sociais concretas, especialmente agora com a
desestabilização do regime de acumulação integral. Porém, a maioria absoluta
está sob hegemonia do subjetivismo, envolvidos com as ambiguidades do
autonomismo e do anarquismo. Assim, tirando a produção intelectual e atuação de
alguns poucos grupos e indivíduos, não estão sendo criados elementos para
sedimentar as lutas atuais para contribuir com as lutas futuras. Desta forma,
também se torna fundamental a luta cultural no interior do bloco
revolucionário, seja para resgatar a teoria revolucionária e o marxismo
autêntico, seja para promover um confronto crítico com a hegemonia burguesa
tanto através da produção teórica como de outras formas de luta cultural
(propaganda revolucionária, produção artística engajada, etc.).
As classes inferiores (especialmente o
proletariado) estão afastadas de uma verdadeira politização, pois não somente a
politização despolitizada dos progressistas ganhou espaço, como é reforçada
pela dos conservantistas e neoliberais[5], e
as alternativas não aparecem com força no cenário político e social. Os
intelectuais e setores dos movimentos sociais cooptados e/ou moderados, bem
como da juventude, acabam reforçando o conformismo nas classes sociais
inferiores e, em certo grau, contribuem para seu deslocamento para o
conservantismo devido seu moralismo subjetivista. Além do capital e do aparato
estatal e instituições burguesas (fundações e instituições internacionais,
meios oligopolistas de comunicação, etc.), esses setores e intelectuais
reforçam a hegemonia burguesa e a polarização no seu interior, dificultando o avanço
na consciência, organização e união da juventude e das classes sociais
inferiores, bem como da retomada das lutas operárias espontâneas e autônomas.
O discurso do “fim da utopia” é
verdadeiro? A utopia autogestionária é uma possibilidade e uma tendência[6].
Mas, como já demonstramos, existem fortes contratendências. A retomada de uma
força social que possa expressar o proletariado e as classes inferiores
dependem hoje quase exclusivamente dessas e de suas lutas espontâneas. Esse
processo começou a se esboçar em algumas oportunidades (junho de 2013 no
Brasil, manifestações na América Latina, como no Chile em 2019, etc.), mas logo
perdem força e são reorientadas para o processo eleitoral ou outras formas de
ação despolitizadas, incluindo os ditos “antifascismos” imaginários. Isso
significa que todas essas formas de luta cultural acima elencadas devem, se
forem efetivadas e, mais ainda, se tiverem alguma eficácia, atingir as classes
inferiores e o proletariado no sentido do desenvolvimento da consciência crítica
e revolucionária, o que significa o retorno da utopia autogestionária.
Assim, a luta cultural pelo
ressurgimento da esperança revolucionária e utopia autogestionária se torna
fundamental nesse contexto no qual se busca contribuir com o processo de
engendramento do novo em oposição ao mundo velho e decadente com seus problemas
insolúveis. Cabe ao bloco revolucionário efetivar tal luta cultural e buscar
despertar outros setores da sociedade para contribuir com esse processo, bem
como incentivar e participar de lutas sociais a favor da criação e expansão de
organizações autárquicas (não-burocráticas), greves, protestos, etc.
A reemergência de lutas espontâneas e
autônomas do proletariado e de outras classes inferiores, cada vez mais
prejudicadas com o desenvolvimento capitalista, é fundamental para fortalecer o
bloco revolucionário, redirecionar parte da juventude para lutas mais efetivas,
insuflar coragem em setores da intelectualidade e do movimento feminino,
movimento negro e movimento ecológico, entre outros. O problema, no entanto, é
que o proletariado e, mais ainda, as demais classes inferiores, podem ter sua
insatisfação canalizada para outros objetivos, especialmente se os setores
aliados dele (parte da juventude, parte da intelectualidade, bloco
revolucionário) não abrirem brechas e alternativas, se não efetivarem uma luta
cultural no sentido de corroer as ilusões existentes, as falsas soluções, entre
outras ações, serão parte do problema ao invés da solução, pois não só não
incentivaram um avanço, como estarão fazendo parte do retrocesso.
Logo, é preciso esperar as lutas
espontâneas e autônomas do proletariado, bem como das demais classes
inferiores, e, ao mesmo tempo, lutar aqui e agora para criar condições de
superação da politização despolitizada, dos moralismos, do subjetivismo e diversas
coisas derivadas e semelhantes, contribuindo com o desencadeamento dessas
lutas. Isso significa não apenas esperar, mas intervir e buscar acelerar, e se
porventura explodirem lutas espontâneas, um trabalho já iniciado tende a ter
mais força na conjuntura e se fortalecer. No caso, uma luta (a revolucionária)
tende a fortalecer outra luta (a operária) e vice-versa, sendo um processo
recíproco. A confluência dessas duas ações pode provocar uma retomada mais
forte da tendência da transformação do conjunto das relações sociais e
aglutinar outras lutas sociais e setores da sociedade. Se essas lutas ocorrerem
de forma isolada, uma delas (a proletária) pode ser desviada e a outra (a
revolucionária) pode ser pouco eficaz, embora ambas, mesmo derrotadas, possam
ser úteis para as lutas futuras.
Assim, a única solução possível para os
dilemas e contradições do capitalismo contemporâneo é a transformação radical e
total das relações sociais. A constituição de uma nova sociedade, fundada na
autogestão social. A consciência e a percepção disso tem que se ampliar e é
parte desse processo. A luta cultural é um elemento fundamental nesse processo,
mas a constituição de espaços de contrapoder e o incentivo para a formação de
organizações autárquicas do proletariado e outras classes sociais inferiores,
juventude, mulheres, negros, etc., é fundamental. E esses elementos tendem a se
reforçar reciprocamente.
Em síntese, ou utopia autogestionária ou
selvageria ou, pior ainda, autodestruição. Esse é o dilema que nos encontramos
novamente e que mantém atual a palavra de ordem de Rosa Luxemburgo: “socialismo
ou barbárie”. Porém, com as válvulas de escape fechadas da panela de pressão
chamada capitalismo, ao invés de barbárie pode ocorrer uma explosão violenta e
destrutiva, canalizada para inimigos imaginários, especialmente certos
grupos sociais, mas certamente um se tornaria o alvo principal e canalizador de
todos os males da sociedade, como já dizia Marx (2020) e como alguns
doutrinadores já começaram a fazer há algum tempo. Outra possibilidade é o uso
da guerra como válvula de escape que permita extravasar a sombra e a destruição
de forças produtivas, que é benéfica para o capital, gerando uma selvageria
completa[7].
Essas duas falsas soluções podem se fundir e é isso que geralmente ocorre e que
o exemplo nazista na Alemanha materializou.
O único grupo social que estaria livre da possibilidade de se tornar
“inimigo imaginário” seria o das mulheres, por razões óbvias (além das relações
afetivas, etc.), pois se aparecesse algum desequilibrado mental que defendesse
o “extermínio das mulheres”, isso não seria possível, pois seria o fim da
humanidade. O oposto, no entanto, já ocorreu, tal como no caso da autora do Scum
Manifesto, Valerie Solanas (2000), que defendeu o extermínio dos homens.
Porém, é possível criar um subgrupo dentro do grupo para a responsabilização,
tal como as feministas. A juventude também ficaria na mesma situação de livre
parcialmente desse perigo (em menor grau do que as mulheres) e também possuindo
setores que podem assumir a posição de inimigo imaginário. Todos os demais
grupos sociais podem se tornar o inimigo imaginário principal ou então
amalgamado junto com ele, indo desde os religiosos aos políticos, passando
pelos raciais e comportamentais.
O amálgama em torno dos nomes “esquerda”, “comunismo”, “marxismo
cultural”, acompanhados por coisas distintas, como “ideologia de gênero”, etc.,
já foi realizado e vem sendo há um bom tempo divulgado e canalizando o
descontentamento em relação a um e transferindo-o para o outro, tornando a
generalização da antipatia em relação a um grupo para vários outros. Um grande
líder, já dizia Hitler, é aquele que consegue reunir vários inimigos num mesmo
rótulo (Viana, 2007). E é por isso que hoje pode-se ver pessoas que nada sabem
de marxismo vociferar contra Marx, pois a racionalidade, atacada por
subjetivistas de diversos tipos e conservantistas, foi substituída pela
“intuição”, pela “vivência”, pela “interpretação”, pela “subjetividade”, etc.
A
selvageria é uma tendência e evitá-la pressupõe luta ao invés de evasão,
apatia, desesperança, pessimismo, resignação. Na imensa construção que é o
futuro, todos contribuem com algo, por mais ínfimo que seja. Se milhões
contribuírem com algo ínfimo, isso será fundamental para a definição de quais
tendências históricas se concretizarão. O ovo da serpente está chocando e
somente a união e engajamento de todos aqueles que não querem a barbárie ou a
selvageria[8]
podem evitar seu nascimento. União, organização e consciência são os antídotos
para evitar a selvageria, e o engajamento é o meio para contribuir com a
libertação humana. Nesse contexto, cabe a cada indivíduo decidir entre
autogestão ou selvageria.
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[1]
Sobre o conceito de ucronia, cf. Bernstein (2023).
[2]
Esse discurso é reproduzido até por autores do espectro progressista (cf.
Habermas, 1987). E o discurso da impossibilidade de uma sociedade autogerida,
ou “comunista”, para usar um nome que se tornou problemático (Marques, 2025,
Marques, 2024), é apenas mais uma forma de se manifestar a mentalidade burguesa
com seu anistorismo (Viana, 2018), pois as condições de possibilidade da
autogestão já existem, o obstáculo é político (Willians, 2014), ou seja,
cultural.
[3]
A respeito do feminismo, cf. Anderson (2021); Veiga (2022).
[4]
Além dos intelectuais venais, os hegemônicos também dificilmente vão romper com
a hegemonia burguesa. No fundo, resta os intelectuais engajados que estão
perpassados por influência do paradigma subjetivista e pelo feitiço de governos
supostamente “progressistas”, bem como, com menor possibilidade de êxito, os
intelectuais dissidentes e ambíguos. Os intelectuais fracassados e frustrados
que se aliam ao reacionarismo e outras posições conservadoras, poderão, em um
ou outro caso individual, superar o seu ressentimento e limites e aderir a algo
mais concreto, mas também é algo extremamente difícil de ocorrer. Sobre essas
posturas dos intelectuais no interior da sociedade atual, cf. Viana (2015).
[5]
Quase todos abandonam a perspectiva de classe e criam inimigos imaginários,
seja o “fascismo” para os progressistas, sejam o “comunismo” (ou “esquerda”,
“marxismo cultural” e outras invenções fantasiosas de doutrinadores e
ideólogos) para os conservantistas e liberais. Ou então emerge os maniqueísmos
pautados em grupos sociais (as tendências extremistas do feminismo e do
recém-formado “masculinismo”) e outros processos sociais e culturais.
[6]
A esse respeito, cf. Maia (2015); Viana (2026).
[7]
É possível pensar que essa selvageria poderia ser estabilizada num novo regime
de acumulação, o tecno-oligopolista, mas seria seletivo e apenas intensificaria
a divisão de classes da sociedade, tal como se vê no filme Elysium (Neill
Blomkamp, EUA, 2013).
[8]
Esse termo aqui tem uma conotação metafórica (baseando na ideia engelsiana de
evolução humana que passou pela selvageria, barbárie e civilização) no sentido
de uma situação na qual prevalece a “lei do mais forte” e a destruição como
elemento comum e banal. Isso, numa selva concreta ou no período da história da
humanidade chamada “selvageria” não é o que ocorre cotidianamente, talvez com
exceção das tribos canibais e de forma relativa.

