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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

AS CONTRADIÇÕES DA TECNOLOGIA CAPITALISTA - NILDO VIANA

 


As Contradições da Tecnologia Capitalista


Nildo Viana


O desenvolvimento tecnológico e o avanço da internet aumentam ainda mais o processo de insatisfação. As redes sociais virtuais são “paraísos artificiais” que acabam se tornando novo palco de competição social, bem como incentivadores de superficialidade e criação de tribos e bolhas, reforçando “identitarismo”, “dogmatismo”, “narcisismo”, etc. A internet, como um todo, aumenta a competição, conflitos, entre outros processos que reforçam a tendência atual. O excesso de informação, por sua vez, convive com a carência de formação (Viana, 2019) e com a dubiedade informativa. A desinformação por excesso ou falsidade das informações ou a falta de formação para analisá-las são apenas um dos problemas desse processo. As ideias de pós-verdade, o cinismo, a manipulação, são elementos que mostram que a civilização burguesa chegou ao seu limite e que, doravante, “vale tudo”, mesmo que através do disfarce da inclusão. A “lei de Gérson” (levar vantagem em tudo”) não só continua funcionando como se ampliando, mas convivendo com o discurso oposto e agora com milhares de pessoas percebendo e lamentando isso, mesmo sem perceber que isso é a norma e não a exceção.

A supervaloração dos sentimentos, do indivíduo, do “sujeito”, da “vivência” é reforçada pelo acesso acrítico e superficial de um mundo de informações, no qual a falta de formação intelectual (a falta de ferramentas intelectuais como método, bem como de teoria e senso crítico), e a redução do tempo de reflexão (a velocidade na substituição das “informações” e “novidades” é cada vez maior, bem como o condicionamento dos indivíduos para consumir informações e distrações sempre mais rápidas e superficiais) servem para gerar novos problemas e intensificar os existentes.

Esse mundo de informações, por sua vez, é interpretado a partir de ideologias subjetivistas ou de ideologemas derivados delas, promovendo ainda mais confusão, especialmente quando se usa e abusa da dubiedade informativa. E ideias como “pós-verdade”, entre outras, cuja origem é o subjetivismo, acabam justificando e legitimando versões deformadoras da realidade. Isso convive com as explicações biologicistas do próprio caráter viciante das redes sociais virtuais (“dopamina”), ao invés de ser adequadamente explicada em sua relação com o universo psíquico dos indivíduos e o já citado problema da evasão[1].

Um outro problema social e cultural emerge nesse contexto. O subjetivismo e a ilusão de liberdade (seja “desconstruindo” o que está “construído” culturalmente, seja simplesmente “sendo o que é”) entra em contradição com o desenvolvimento tecnológico, especialmente a internet e tecnointeligência (“inteligência artificial”). Sem dúvida, vivemos numa sociedade cada vez mais tecnológica e isso gera cada vez mais dependência tecnológica. A tecnologia, no entanto, não é neutra (Willians, 2014). Existem dois problemas vinculados ao processo de tecnologização da sociedade: a manipulação e a ideologia da autonomia da tecnologia.

A manipulação se manifesta em quem tem o controle da tecnologia. Quem controla a tecnologia, controla a relação entre esta e as demais pessoas. A internet, por exemplo, é controlada pelos aparatos estatais que impõe limites, censuras, etc. Porém, esse controle é menos importante. Existe um controle oculto que é muito mais importante. É o controle do capital. As grandes empresas capitalistas reproduzem no mundo virtual o domínio que possuem no mundo real. Os sites mais acessados são das maiores empresas capitalistas, de celebridades vinculadas a elas (nesse caso, ao capital comunicacional), aos grandes partidos políticos (igualmente vinculados, direta ou indiretamente, à classe dominante), etc. Uma terceira forma de controle são das empresas produtoras de tecnologia, tais como os proprietários das grandes redes sociais, da tecnointeligência, etc. E essa está vinculada e reproduz os interesses dos demais setores do capital, embora existam contradições.

Por exemplo, as redes sociais se tornaram palco de controle do aparato estatal (tal como se vê no controle do acesso por idade, mas também na criminalização de certas ações e discursos). Nesse sentido, é possível se pensar que o controle estatal é benéfico, mas esse é aspecto que responde ao processo de pressão social e correntes predominantes de opinião, mas existe toda uma regularização que não aparece nas notícias jornalísticas e que não se opõem ao capital. As redes sociais não são manipuladas apenas politicamente, mas sob forma mercantil. Cada vez mais são meios para se vender mercadorias e mercancias[2]. Isso se observa na relação entre “influenciadores” (ou, para os adeptos da hegemonia linguística inglesa, “influencers”) e a propaganda de mercadorias e mercancias, no uso direto das redes sociais para vendagem (o TikTok se tornou bastante eficiente com os produtos baratos e tecnológicos num setor exclusivo para venda, assim como já existia no facebook, mas que era aberto aos usuários), no serviço de impulsionar as postagens (no caso, geralmente de produtos), incluindo o de “serviços sexuais” (tanto o “real” quanto o “virtual”). Isso também é visto na mercantilização crescente do que já mercantilizado, tal como os chamados “serviços de streaming”, como Netflix, Prime Vídeo, Disney, etc. Esses serviços são pagos e usam o mesmo processo que as redes sociais virtuais de uso dos algoritmos (manipulados)[3] e, além disso, após criaram o hábito de seu uso e preços mais baixos, aumentaram os preços e começaram a hierarquizar o acesso, gerando propagandas antes inexistentes para cobrar mais para o cliente que queira evitá-las. Se o cliente (“usuário”) paga, o lucro é maior; se não paga, outra empresa paga pela propaganda.

Nesse sentido, a autonomia individual é bem limitada. E isso vale para o “produtor de conteúdos”. Esse precisa se adequar ao nicho consumidor ao qual se dirige. Para pessoas que postam no TikTok, Instagram, Facebook, Youtube, entre outras redes sociais, visando retorno financeiro (que é a quase totalidade dos influenciadores e a totalidade dos vendedores de mercadorias) é preciso “impulsionar” suas postagens, o que significa pagar para tais redes um valor determinado para aparecer para um público maior. E isso gera a submissão aos famosos “algoritmos”, que, no fundo, expressam as forças mercantis mais poderosas e as correntes predominantes de opinião. Com a polarização política e moral, isso também serve para manipular posições contrárias criando polêmicas e ampliando o acesso para além do nicho consumidor exclusivo de conservadores e progressistas. O influenciador é influenciado e quem cria o influencia é o capital. Um dos meios de obter mais acesso e, por conseguinte, dinheiro, é a criação de polêmicas e escândalos. Essa estratégia é antiga e já foi estudada através do termo “sensacionalismo”, que focalizada os jornais (chamados justamente de “sensacionalistas”) que usavam manchetes e notícias escandalosas e exageradas. E isso faz proliferar as chamadas “fake News”, que também já existiam há muito tempo sob o nome de “factoides”. Desta forma, o influenciador é influenciado pelo capital, através dos rendimentos que deseja e o faz agir de determinada forma, tal como seguir as correntes de opinião (que se materializam em algoritmos), as ofertas das empresas capitalistas, etc.

Se o influenciador não tem grande margem de liberdade, então o “consumidor” tem muito menos. Sem dúvida, ele pode protestar, criticar, etc., as postagens, mas que são pouco lidas e sempre tem os adeptos e posições contrárias, não levando a lugar algum. Além disso, convivem com os adeptos fanáticos ou com os odiadores fanáticos gerados pela polarização (e se geram termos, geralmente em idioma inglês, para denominar esses casos, como “haters” e “lovers”). A irracionalidade toma conta e a comunicação é obliterada. O potencial crítico da internet é anulado e esse é o caso mais extremo de anulação, pois ao invés de espaço de comunicação e debate racional, se estabelece uma verdadeira “guerra de todos contra todos”.

A tecnointeligência é outro problema no interior desse contexto. A suposta “inteligência artificial” é apenas uma imitação limitada da “inteligência humana”. Não poderemos, aqui, discutir o conceito de inteligência, mas apenas colocar que é um fenômeno mental complexo que envolve consciência e pensamento, mas também outros elementos presentes na mente humana (como a imaginação). Uma máquina é incapaz de reproduzir ou chegar ao nível da inteligência humana. A tecnointeligência é mecânica, não possui imaginação e criatividade, sentimentos, etc. A criatividade da tecnointeligência é limitada, pois mesmo que ela seja programada para criar coisas, ela o fará a partir da programação e esta é limitada.

Porém, o que interessa aqui não são os limites da tecnointeligência (termo que substitui “inteligência artificial” por colocar que não se trata, efetivamente, de “inteligência” e sim de uma imitação tecnológica e que fica presa nos seus limites) e sim os seus usos e efeitos sociais. Para parafrasear Marx, quando mais o indivíduo se fia na tecnointeligência, menos tem de si mesmo. O uso exagerado e acrítico da tecnointeligência reduz a reflexão e autonomia dos indivíduos. O efeito social mais negativo é a ideia de a tecnointeligência é “objetiva”, “exata”, “neutra” e por isso “confiável”, pois é uma máquina, uma tecnologia, etc. Assim, muitos acreditam piamente na tecnointeligência e essa credulidade pode custar caro (custa até a vida de algumas pessoas). A tecnointeligência não é neutra, pois ela é programada a partir de um programador e de concepções das quais ele é portador. Se a tecnointeligência fosse produzidas por nazistas, reproduziria concepções do nazismo, pois os programadores e suas concepções seria dessa concepção. A tecnointeligência é predominantemente dominada pelo paradigma subjetivista e a moral que lhe é correspondente, embora existam algumas exceções e em alguns casos isso venha sendo contrabalançado (por ter ficado facilmente perceptível para pessoas mais críticas) com certo tom de “neutralidade” e “objetividade”.

Aqui emerge um conjunto de contradições. Já expusemos algumas. A contradição entre a ilusão de liberdade e a defesa da “subjetividade” que emerge a partir da hegemonia do paradigma subjetivista, entra em contradição com a tecnologia mercantilizada, burocratizada (controlada por seus “criadores” e detentores), que acabam reproduzindo a dominação cultural burguesa. E isso é reforçado pela contradição entre tais ilusões de autonomia e liberdade com a crescente dependência tecnológica. O ser humano fica cada vez mais dependente da tecnologia. Hoje, sem internet, muitos indivíduos ficam sem nada. Não se comunicam, não compram, etc. A netnologia (chamada de “internet das coisas”, processo no qual a comunicação entre seres tecnológicos diferentes se autonomiza como uma rede tecnológica) pode criar “casas inteligentes”, mas que podem ser habitadas por pessoas cada vez mais dependentes e menos inteligentes. Esse é o caso do indivíduo que construiu uma casa inteligente usando netnologia e não colocou interruptores e se viu na difícil situação de não ter como ligar as luzes quando a rede não funciona, já que não havia a possibilidade de fazer isso manualmente. Os indivíduos cada vez mais dependentes da tecnointeligência é outro caso e já ganhou postagens humorísticas nas próprias redes sociais, tal como um vídeo que satiriza a comunicação de um cliente e um atendente de loja via uso de tecnointeligência no celular. As pessoas, quando mais solicitam coisas para a tecnointeligência, menos autônomas e experientes se tornam, bem como mais mecânica e padronizada fica a interação humana.

A tecnointeligência é “trabalho morto” e quanto mais ela é usada e ganha espaço, menos humano e capaz se tornam os seres humanos. Isso gera um ciclo de reprodução cada vez maior e um processo de produção cada vez menor. Daí surgem as teses da “internet morta”, dominada pelas tecnointeligências, sem criatividade. Nesse contexto, isso é apenas um antecessor da “cultura morta”, pois acaba se generalizando para toda a sociedade. Isso significa que quanto mais a tecnointeligência é usada e amplia seu espaço na sociedade, menor se torna o desenvolvimento da consciência e pensamento humanos, o que tem como consequência um processo de imaturalização crescente da população convivendo com o predomínio crescente da tecnointeligência, mas através daqueles que a detém.

No plano cultural, isso gera um empobrecimento crescente; no plano social, produz dependência tecnológica cada vez mais ampliada e empobrecimento intelectual individual e suas consequências sociais; no plano econômico e político, gera a supremacia dos donos da tecnointeligência. Um quadro evolutivo hipotético pode demonstrar isso:



Esse gráfico hipotético, caso se concretize, significaria que cada vez mais os seres humanos ficariam menos produtivos intelectualmente, pensariam menos e seriam menos criativos e inteligentes e esse espaço seria ocupado pela tecnointeligência, que, no entanto, apenas reproduz o saber humano existente e gera, a partir dele, determinados resultados e supostos “novos saberes”, que só é efetivo em algumas áreas (e com certos limites). O elemento criativo, por conseguinte, se tornará cada vez menor e, assim, a reprodução e a falta de inovação tende a gerar uma estagnação (isso pode ser evitado, nesse contexto, por uma “elite”, que seria a dos proprietários e/ou programadores de tecnointeligência, mas, mesmo nesse caso, com o empobrecimento cultural geral, também serão atingidos por esse processo de decréscimo de criatividade e capacidade cognitiva[4]). O resultado desse processo hipotético (embora tendencial, considerando que o resto da realidade – incluindo guerras, luta de classes, revoluções, destruição de tecnologia, etc., – não interfiram) pode ser visto no segundo gráfico hipotético abaixo:

 


O gráfico hipotético acima aponta para os resultados desse processo e a tendência para a estagnação e tudo que deriva disso. Sem dúvida, esse é um quadro hipotético sombrio, embora possível, apesar de pouco provável, pois a realidade humana e social não se desenvolve num evolucionismo unilinear e a subtração hipotética de outras determinações e processos sociais retira as demais possibilidades e tendências. Contudo, se não houver processos contraditórios, isso pode vir a ocorrer e significar uma situação caótica, um retrocesso histórico, uma autodestruição, ou uma nova forma de exploração social via tecnologia.

Deixando o futuro de lado e voltando para a realidade presente, o predomínio tecnológico já é uma realidade, bem como os processos acima apontados. Isso tem efeitos sociais, políticos e econômicos, que trataremos adiante. O que importa aqui é mostrar os efeitos psíquicos disso nos indivíduos e coletividades. Esse processo afeta intelectualmente a população em geral, embora alguns setores sejam mais atingidos (crianças e jovens, pois já nascem e se desenvolvem nesse deserto intelectual). A dependência tecnológica das gerações mais novas é muito mais ampla, pois não tiveram experiências anteriores como as gerações mais velhas. Porém, quem herdará o mundo serão as gerações mais novas e as posteriores. Além dos efeitos puramente intelectuais, mas intimamente ligado a eles, ocorre o efeito psíquico de seres humanos cada vez mais “mecânicos”, “dependentes da tecnologia”, inábeis no plano sentimental e emocional. Isso significa cada vez menos autônomos e criativos. Isso gera a contradição já aludida entre o subjetivismo e o desenvolvimento tecnológico. A solução de compromisso abre uma nova contradição e, mais cedo ou mais tarde, vai explodir. O subjetivismo é irrealista e cumpriu com uma função política e cultural interessante para o capitalismo, mas já não se adequa às necessidades do desenvolvimento capitalista e tecnológico. E cada vez mais isso fica perceptível, pois a ilusão de liberdade quando o indivíduo não percebe que suas ideias (ou “subjetividade”) são produtos sociais e históricos, se perde quando se tornam cada vez mais “produtos tecnológicos”. A “cultura”, assim como paradigmas da episteme burguesa, são relativamente “imperceptíveis”, mas a tecnointeligência dá corpo a isso, é um “outro” perceptível.

Os resultados desse processo, além do empobrecimento intelectual e afetivo, é o reforço de fenômenos já apontados: solidão, isolamento, inabilidade sentimental e emocional. Esses processos estão generalizados na sociedade, mas tendem a aumentar. No plano das relações interpessoais se manifesta cada vez mais a inabilidade sentimental e emocional, com excesso de exigências e incapacidade de compreensão mais profunda das demais pessoas e seus limites (e, mais ainda, dos processos históricos e sociais mais amplos e o envolvimento individual nesse contexto). No plano das relações amorosas, por exemplo, isso é nítido e seus efeitos geram desde o ridículo “autocasamento” e as “soluções tecnológicas”: as namoradas virtuais de tecnointeligência[5] e até os robôs sexuais[6]. A sociedade capitalista tecnologizada (e o termo “capitalista” explica que não é apenas tecnologia, mas submetida a um caráter capitalista e num contexto capitalista) amplia a miséria psíquica e sexual dos seres humanos e apresenta pseudossoluções que amplificam ainda mais esses processos, gerando processos de aumento dos desequilíbrios psíquicos, sofrimento, imaturalização, etc.

No plano da coletividade, isso afeta mais negativamente, como já foi dito, as gerações mais novas, bem como certos setores da sociedade (homens e mulheres com dificuldades – por diversas determinações que giram em torno das características da sociedade capitalista) e gera novas contradições e a busca da evasão é uma de suas consequências. E a própria tecnologia vem se tornando o principalmente meio de evasão existente, pois através das redes sociais virtuais, da internet em geral, de jogos virtuais, milhões de indivíduos fogem da realidade. A fuga da realidade via evasão (usando tecnologia ou não), por sua vez, é um problema que gera outros, como o remorso, a vergonha, a apatia, as dificuldades em estabelecer relacionamentos, etc.



[1] Sobre isso, cf. “A Sociedade da Evasão” (Viana, 2022).

[2] Sobre o conceito de mercancia, que são valores de troca produzidos fora do âmbito das relações de produção capitalistas, cf. Viana, 2017.

[3] Não deixa de ser curioso que a Netflix produza um documentário colocando elementos desse processo no caso das redes sociais e não se inclua no “pacote”, pois ela usa os mesmos procedimentos. Cf. https://informecritica.blogspot.com/2020/10/o-que-foi-ocultado-em-os-dilemas-das.html

[4] Os programadores também são “programados”, seja por um ou outro paradigma da episteme burguesa, com os seus limites intransponíveis.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

domingo, 1 de novembro de 2026

REGIME DE ACUMULAÇÃO INTEGRAL E SUBJETIVISMO - NILDO VIANA

 


Regime de acumulação integral e Subjetivismo


Nildo Viana



Sem dúvida, muitos podem pensar que é um problema apenas “cultural”, que o subjetivismo caiu do céu e que basta mudar as ideias e a realidade se alterará. Uma doce ilusão pode gerar uma amarga realidade. O subjetivismo tem uma longa história desde o seu nascimento, mas sua manifestação contemporânea, que começa a ser gestada após a derrota da rebelião estudantil de maio de 1968, possui características específicas. O subjetivismo contemporâneo faz parte de toda uma política cultural internacional, envolvendo Estados nacionais (no início o norte-americano, mas que agora “mudou de lado” com o governo Trump), organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, UNESCO, etc.)[1], fundações internacionais (Ford, Rockfeller, entre diversas outras), capital comunicacional (com destaque, por seu impacto na vida cotidiana, especialmente das classes superiores, para Hollywood e Netflix, mas incluindo redes de televisão, agências de notícias e milhares de outras empresas capitalistas de comunicação). Os governos neoliberais progressistas[2] lançam seus tentáculos e americanizam as esquerdas brasileiras (Lindgreen Alves, 2019). E isso tudo vai ser reproduzido pelos partidos políticos populistas, ideólogos (produtores e reprodutores), ativistas, professores, etc.

Poderíamos continuar descrevendo diversos outros elementos ou aprofundar alguns destes aspectos (tal como a expansão do neoliberalismo e seus meios de difusão ou então a expansão do conservantismo, com sua força fundada no moralismo conservador). Porém, o que interessa é que isso tudo é gerado a partir da realidade concreta, pois o subjetivismo e a política cultural efetivada há algumas décadas (com seus desdobramentos de acordo com as mudanças sociais) emergem a partir da instauração do regime de acumulação integral, gerando mutação nas relações de trabalho (toyotismo), na forma estatal (neoliberalismo), na exploração internacional (hiperimperialismo) (Viana, 2009; Almeida, 2020; Viana, 2019; Braga, 2018).

O regime de acumulação integral gera mudanças sociais e culturais, tal como a emergência do paradigma subjetivista. Há uma ampliação da mercantilização e burocratização das relações sociais, bem como intensificação da competição social, elementos basilares da sociabilidade capitalista (Viana, 2008), gerando mais-repressão, maior controle social, mais insatisfação e menos possibilidade de extravasá-la para vastos setores da população (especialmente os indivíduos das classes inferiores e os mais conservadores das classes superiores).

Por outro, o neoliberalismo promove, com sua ideia de redução de gastos estatais e redirecionamento da renda estatal para os interesses do capital, um processo de responsabilização da sociedade civil, o que promove as propostas de voluntariado, Organizações Não-Governamentais, entre outros processos, que são complementados pelas ideologias subjetivistas (pós-estruturalismo, por exemplo), representações cotidianas (“faça você mesmo”) e ideologemas dos movimentos sociais (“lugar de fala”, “vivência”, “autonomia”). Tudo isso remete para as ideias voluntaristas, de autonomia do “sujeito” e importância da “subjetividade”. Essa relação complementar também está presente no toyotismo e na chamada “reestruturação produtiva” e o novo participacionismo para aumentar a produtividade e a extração de mais-valor (Viana, 2009). Quanto mais os prisioneiros se julgam “livres”, menor é a possibilidade de rebeliões. Porém, a prisão continua sendo um cárcere e mesmo que na consciência muitos não reconheçam sua ausência de liberdade autêntica, no seu universo psíquico reina a insatisfação. Disso deriva a evasão dos jogos, das drogas, do futebol, do fanatismo religioso e político (tanto faz, nesse caso, qual é a religião, partido ou político profissional que se passa a seguir fanaticamente), o suicídio e várias formas de mal-estar psíquico (burnout, depressão, etc.).



[1] Lyotard (1993) ganhou notoriedade a partir da palestra proferida para a Unesco, assim como no passado ocorreu com Lévi-Strauss e o estruturalismo (Viana, 2019).

[2] Nancy Fraser (2018) usou o termo “neoliberalismo progressista”, que é adequado, desde que compreendamos que é uma metamorfose do liberalismo democrático. Claro que a compreensão disso requer a compreensão, pouco desenvolvida, de que o liberalismo assumiu e possui várias formas: liberal-nacionalismo, liberal-conservantismo, liberalismo democrático, etc. E isso é mais complexo ainda pelo fato de que o liberalismo é uma das tendências do pensamento conservador, que conta ainda com o nazismo, fascismo, conservantismo (mais conhecido como “pensamento conservador”), republicanismo, etc. A ciência política, os pensadores progressistas, entre outros, não avançaram muito nesse sentido e por isso muitos caem no erro de qualificar como “liberal” quase todas as formas do pensamento burguês, o que é um equívoco.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

sábado, 31 de outubro de 2026

SUBJETIVISMO E IRRACIONALISMO - NILDO VIANA

 


Subjetivismo e Irracionalismo


Nildo Viana


Esse processo todo vem acompanhado, por mais incrível que pareça, por uma força crescente do irracionalismo. Nas relações sociais concretas ocorre racionalização e mesmo os irracionalistas efetivam um processo racionalizador em sua vida cotidiana. No mundo nebuloso das ideologias (sistemas de pensamento ilusório) e do imaginário (representações cotidianas ilusórias), o irracionalismo avança. No fundo, o irracionalismo de alguns é apenas forma de manifestação do paradigma hegemônico no regime de acumulação integral, o subjetivismo. O fenômeno vem sendo descrito sob diversas formas pelos opositores e manifesto igualmente sob diversas formas pelos seus defensores: culturalismo, hedonismo, narcisismo, autoctonismo, identidade, lugar de fala, vivência, etc. Isso gera em muitos uma predisposição mental marcada por querer o prazer a qualquer custo, deixando a totalidade da vida de lado, gerando mais um reducionismo.

É nesse contexto que emerge uma hipersexualidade convivendo, contraditoriamente, com uma forte repressão sexual. Por um lado, os meios oligopolistas de comunicação (indo desde a pornografia até as redes de TV) apresentam e incentivam a sexualidade e as universidades, sob hegemonia subjetivista, a colocaram como tema fundamental, mas ao mesmo tempo se mantém um alto grau de repressão, desde a permanência, para inúmeros setores da sociedade, em sua forma antiga, até as mais desenvolvidas, como o desejo de ascensão social e consumo, enquanto inibidores de relações sociais não submetidas aos interesses característicos da sociedade capitalista e coloca a sexualidade como meio para atingir esses objetivos, o que tem consequências para os demais seres humanos.

O subjetivismo[1] reinante aponta para uma crescente irracionalidade nas relações sociais. A ideologia da identidade, por exemplo, gera uma proliferação de “identidades” que não deixam de mostrar o grau de irracionalidade e desequilíbrio psíquico em nossa sociedade. Deixando de lado os casos mais exagerados, como os cães humanos e outras bizarrices[2], hoje se espalha a ideia da normalidade de tudo desde que corresponda à “subjetividade” dos indivíduos. E isso permite o surgimento de organizações que defendem pedofilia[3], que “ainda” é considerada crime, e outras coisas que fogem completamente de uma racionalidade humanista, emancipadora. A proliferação de “gêneros” é apenas mais um exemplo de irracionalidade a partir de uma racionalidade fragmentária[4].

Os indivíduos agora podem escolher sua “identidade” e vivem em função disso, esquecendo-se que tais “identidades” são produzidas socialmente (e não “culturalmente”, pois é muito mais complexa e envolve um conjunto de determinações que o culturalismo é incapaz de perceber com seu reducionismo). É uma identidade produzida no capitalismo e para o capitalismo, submetida à divisão social do trabalho e à mentalidade dominante (burguesa), aos indivíduos formados nessa sociedade, entre diversos outros elementos que, para quem diz ter uma percepção crítica e histórica da sociedade, é mais um problema a ser superado ao invés de uma postura a ser adotada.

O indivíduo que “escolhe” uma identidade e se reduz a ela apenas se desumaniza e passa a ser um ser unilateral – uma imposição do capitalismo devido ao processo de especialização gerada por sua divisão e subdivisão do trabalho – voluntariamente, se reduzindo a um suposto “gênero”, “sexualidade”, “estilo de vida”, etc. Essa autoilusão é frustrante e aumenta os desequilíbrios psíquicos ao ponto de gerar distúrbios psíquicos. A sexualidade é uma das necessidades/potencialidades humanas e quando o indivíduo se reduz a ela como sua “identidade” e “modo de vida”, se priva de satisfazer suas outras necessidades e o homo sexualis revela uma miséria psíquica e social autodestrutiva. O mesmo vale para as outras “identidades” (e a preocupação excessiva com isso, o que significa preocupar-se com sua autoimagem, já revela como o paradigma subjetivista e seus derivados, como o narcisismo e hedonismo, revela mais um sintoma do capitalismo contemporâneo e sua miséria psíquica), que, no fundo, são prisões socialmente produzidas e individualmente escolhidas.

Esses produtos e subprodutos do paradigma subjetivista promovem efeitos políticos, pois realiza um impacto nos movimentos sociais, na juventude, etc. Isso, além de afastar muitos da luta política, para cuidar do seu prazer e nada mais além disso, incentiva outros para apenas o “ativismo” (muitas vezes “festivo” ou “virtual”, nas redes sociais virtuais) a favor de sua “identidade”, “grupo” ou qualquer outra ideomania (ideia-fixa). No máximo, também apoiam os governos supostamente “progressistas” (no fundo, neopopulistas, prometendo muito e fazendo pouco, segundo os ditames neoliberais que vão além dos governos e suas promessas irrealizáveis) que reproduzem determinados discursos e políticas estatais em troca de votos e apoio.



[1] Sobre o paradigma subjetivista e sua hegemonia, cf. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas (Viana, 2019).

[2] Os casos mais graves servem para mostrar o que é menos perceptível nos casos menos graves. Os desequilíbrios psíquicos são relativizados e “tudo é normalizado”. Nesse sentido, é útil ver duas reportagens sobre estes casos “pós-modernos”:  

 

Sobre os “cães humanos”:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/05/o-curioso-universo-dos-homens-que-vivem-como-caes.html;

 

Sobre a pessoa transexual que quer ser cavalo:

https://www.youtube.com/watch?v=cwHP4CnSTfw

 

Não custa informar que esse artigo começou a ser escrito há alguns anos atrás (a primeira versão incompleta foi escrita em 2016, sendo revisto parcialmente em 2021 e completado agora em 2026 com uma pequena revisão e alguns acréscimos em relação à parte anteriormente escrita) e ficou incompleto e abandonado devido a outros projetos. Hoje, a emergência da popularização dos therians apenas reforçam o que já havia sido percebido e a ampliação da dubiedade informativa, pois muitos casos de supostos “seres humanos que se identificam como animais” são farsas de influenciadores virtuais (geralmente apresentados, a posteriori, como ironia), gerando ainda mais confusão num mundo já excessivamente confuso (e mais uma vez é manifestação da dubiedade informativa).

 

[4] E aqui se revela mais uma vez um misto de racionalização e irracionalidade. O desejo de identificar o “gênero” (que agora seriam “múltiplos”) é uma autodefinição supostamente racional e racionalizada gerando todo um sistema classificatório inútil e que serve apenas para reforçar estereótipos e comportamentos padronizados em nome de uma suposta “liberdade”. Aqui a noção de liberdade é a de escolher sua própria prisão. Isso é uma irracionalidade.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Hipermercantilização e Burocratização na Contemporaneidade - Nildo Viana

 


Hipermercantilização e Burocratização na Contemporaneidade


Nildo Viana


Ao lado disso, o processo de crescente mercantilização e burocratização das relações sociais, que é o gerador da racionalização, traz mais motivos para ampliação das insatisfações. A mercantilização traz a necessidade do cálculo mercantil e do dinheiro, o que torna a venda da força de trabalho necessária e no contexto das relações de trabalho já aludidas e que não se limita ao trabalho produtivo e se reproduz no trabalho improdutivo[1]. O lazer é mercantilizado (Orio, 2019; Viana, 2018), assim como a vida cotidiana. A mercantilização gera a burocratização. A burocratização das relações sociais, por sua vez, significa criação ou ampliação de organizações burocráticas e aumento de controle social.

A “sociedade da vigilância”, termo muito usado (mas sob forma equivocada a partir de bases ideológicas), exerce um controle cada vez mais amplo sobre os indivíduos, inclusive em sua vida privada. A videovigilância e as câmaras em todos os lugares tornam real o Big Brother de Georg Orwel e os reality shows são uma versão em miniatura do que ocorre na sociedade capitalista contemporânea. A vigilância através do mundo virtual da internet, incluindo as redes sociais virtuais, ampliam esse processo. Quanto mais o capitalismo se desenvolve, mais se intensifica a mercantilização e a burocratização das relações sociais. E quanto mais se desenvolve o controle social e menos há espaço de privacidade e tranquilidade, mesmo que momentânea, e mais a insatisfação, consciente ou insciente, se amplia. O exibicionismo avança nesse contexto, ligado a processos como corpolatria, narcisismo, etc., mas que é planejado e ocorre apenas nos “bons momentos”, pois quando a exposição é involuntária e/ou dos “maus momentos”, a sensação deixa de ser agradável e ter um significado social de aprovação para ser desagradável e ter um significado social de reprovação.

O moralismo subjetivista reforça esse processo de controle sobre a vida cotidiana com sua tese da “politização da vida privada”. O controle chega até a casa dos indivíduos e alguns querem controlar até os pensamentos dos outros, ditando o que eles devem ou não fazer e ainda fazendo discurso contra “regras”. É o predomínio da razão cínica. A suposta “politização da vida privada” é uma politização despolitizada, pois se fundamenta num reducionismo de relações grupais e interindividuais, sendo que, no fundo, é apenas a vida privada é que é “politizada”. Um jogo de interesses, oportunismo, versões da realidade (ao invés da verdade sobre ela), razoabilização[2], etc. é o que ocorre ao invés de politização.

“‘O pessoal é político’ emerge como discurso oportunista e que o apelo para abordar a ‘vida cotidiana’ é num sentido parcial, no que beneficia oportunistas de todos os tipos” (Leroy, 2021, p. 50). No entanto, é preciso acrescentar que muitos que pregam e que respeitam esse chavão são hipócritas, sendo que alguns depois são acusados de práticas que são condenáveis por qualquer um sem precisar apelar para tal discurso, como o assédio sexual, por exemplo. Claro que isso vale para os casos em que esse processo tenha efetivamente e realmente ocorrido. É preciso entender que, no capitalismo e sua sociabilidade fundada na competição, existem exageros, tal como o caso do indivíduo que foi preso por “olhar para uma mulher” no meio da rua ou falsas acusações que oportunistas usam para desmoralizar certos indivíduos, embora em alguns casos seja difícil saber o que é realmente falsa acusação e o que ocorreu efetivamente. Esses elementos duvidosos fazem parte do processo contemporâneo de dubiedade informativa, antes aludido[3].

Ao invés de busca de reais soluções o que ocorre é um processo de busca de vantagens competitivas, uso vantajoso em conflitos interindividuais, etc. Não existe nenhuma politização através do maniqueísmo e reducionismo de questões muito mais amplas (que envolve processos psíquicos e sociais muito mais complexos do que o que vem sendo defendido pelos moralistas subjetivistas) e complexas. E, no fundo, numa sociedade comandada pela sociabilidade capitalista (competitiva, burocrática e mercantil), tudo pode ser degradado e transformado em seu contrário.



[1] O trabalho produtivo é aquele realizado pelos proletários no processo de produção capitalista de mercadorias, que é produção de mais-valor. O trabalho improdutivo é aquele efetivado fora das relações de produção capitalistas, seja nas relações de distribuição, seja nas formas sociais (“superestrutura”) (Viana, 2018).

[2] O que Ernst Jones denominou “racionalização” e Sigmund Freud e sua filha, Ana Freud, trabalharam posteriormente, significando tornar “razoável”, ou “aceitável”, desejos, sentimentos, etc., dos indivíduos, e foi alterado para o novo termo por Ruck (2016).

[3] Sobre o problema do assédio moral e sexual, numa perspectiva crítica, cf. https://redelp.net/index.php/renf/article/view/1653

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O MORALISMO SUBJETIVISTA - NILDO VIANA

 



O MORALISMO SUBJETIVISTA


Nildo Viana


Ainda nesse processo, o moralismo progressista ganha espaço. O progressismo possui duas versões principais, a versão burguesa e a versão burocrática. Trata-se de mundo que coloca como um dos valores fundamentais o “progresso”, sempre relacionado com o “novo”, o “jovem”, o “moderno”, o “atual”, o “contemporâneo”, a “ciência”, etc. “A última moda de Nova Iorque” deve ser boa, “como tudo que vem do Norte”, já cantava o roqueiro Léo Jaime. O moralismo progressista, no entanto, possui duas formas de manifestação. O mais antigo, está vinculado ao autocratismo, holismo, objetivismo[1]. O moralismo progressista contemporâneo está ligado ao democratismo, individualismo, subjetivismo. O pseudomarxismo (especialmente o bolchevismo e a social-democracia) e o paradigma reprodutivista dos anos 1950-1970 estão vinculados à primeira forma e o paradigma subjetivista e pós-estruturalismo (entre outras ideologias) estão ligados à segunda. Podemos, então, dividir entre o moralismo progressista objetivista e o moralismo progressista subjetivista, sendo este último o que é hegemônico hoje em dia e se encontra em disputa com o moralismo conservador, o seu principal concorrente atual.

O moralismo progressista subjetivista nasce, entre outras fontes[2], do chamado “neoliberalismo progressista” norte-americano e do paradigma subjetivista, sendo o “politicamente correto” uma de suas formas de manifestação. O politicamente correto é um moralismo que gera eufemismos e mudanças na linguagem sem mudar as raízes sociais que geram as formas de preconceito e as relações sociais que estão em sua base. Porém, as relações raciais, sexuais, etc. e outros processos da sociedade capitalista, bem como as formas de preconceito geradas a partir disso, continuam marcadas pelo conflito, competição e insatisfação[3].

A ideia básica do moralismo subjetivista é a valoração do sujeito – indivíduo ou grupo social[4] – e da “subjetividade” e a ideia de “revolução ou libertação individual ou grupal”. Sem dúvida, isso é uma contradição fácil de perceber, pois o moralismo é a imposição de uma moral, que constrange os indivíduos a adotá-la e o apelo à liberdade (do indivíduo ou do grupo) é, no fundo, a criação de uma nova conformidade de acordo com novas ideologias e um novo moralismo. O moralismo subjetivista se manifesta sob várias formas. Ele assume a forma populista por parte do capital, do aparato estatal e ideólogos e intelectuais venais, pois assim consegue amenizar ou desviar conflitos, apoio eleitoral, popularidade, etc. Ele também assume a forma oportunista por partidos, políticos profissionais, ativistas que buscam vantagens competitivas, etc. Existe também a forma sincera que se manifesta em setores da população que foram convencidos de seu suposto vínculo com o que é justo ou com reivindicações existentes de determinados setores da sociedade.

A moral é conjunto de normas de comportamento e o moralismo é o seu exacerbamento (Viana, 2000). A moral impõe normas de comportamento e o moralismo a exacerba e gera um controle cultural intensivo. Isso significa mais repressão e menos liberdade, espontaneidade e autenticidade. O indivíduo do sexo masculino agora não pode mais vestir cor-de-rosa e nem azul, pois, no primeiro caso, os moralistas conservadores vão dizer que é cor feminina e, no segundo, os moralistas subjetivistas vão dizer que é “machismo”. O moralismo julga e condena e quanto mais moralista é uma sociedade – e ainda com dois moralismos disputando a hegemonia e assumindo a forma de “juiz universal” – mais reprimidos e menos livres são os indivíduos. A moral dominante é a moral da classe dominante. A classe dominante, por sua vez, muda sua estratégia de classe de acordo com o regime de acumulação e as tarefas políticas, econômicas e culturais derivadas e suas contradições. Uma vez que uma moral é instituída socialmente, ela gera os seus entusiastas e ativistas, embora muito sejam hipócritas (pregam as normas de comportamento correspondentes a ela, mas não a praticam em sua vida cotidiana), que se tornam os moralistas, vigilantes e juízes que buscam impô-la para toda a população. Os dois moralismos hoje disputam a hegemonia pregam normas de comportamento opostas e buscam o aparato estatal para sancionar e normalizar sua concepção de moral. Hoje, a moral dominante é a subjetivista e a moral conservadora é sua concorrente mais forte e ambas são problemáticas e estão vinculadas ao processo de reprodução das relações de produção capitalistas. Nesse sentido, a crítica e superação do moralismo deve ir até a raiz no sentido de criticar e combater a moral em si mesma e em seu lugar buscar o desenvolvimento de uma ética revolucionária e humanista. Essa, por sua vez, por contrariar os interesses capitalistas, tende a ser marginal e só ganhar força em períodos revolucionários. O seu fortalecimento hoje, no entanto, é fundamental para fortalecer as lutas sociais futuras que atuam no sentido da transformação social radical e total.

O politicamente correto fica na superfície e nada soluciona, além de gerar novas formas de insatisfação[5] e mais sombra, energia psíquica destrutiva que se avoluma, pois nem mesmo no humor e em outras formas de manifestação cultural, ela pode se extravasar. E os exageros e inversão que são gerados a partir disso, como o maniqueísmo, vitimismo, oportunismo, entre outras formas que determinados indivíduos e setores dos grupos envolvidos, acabam gerando outros processos de insatisfação[6]. As ações afirmativas e “discriminação positiva” são facas de dois gumes, gerando “divisões perigosas” e aumentando os sentimentos antipáticos, mesmo que não sejam manifestos explicitamente, diante daqueles que seriam “beneficiados” com essas políticas. A “polícia do pensamento”, para utilizar expressão usada por George Orwell, não vem só da direita, pois também vem dos progressistas, aliados aos representantes dos “direitistas democráticos”.

Alguns autores conservadores levantam diversas críticas ao politicamente correto e concepções próximas e, em alguns casos, acertam parcialmente. A ideia de que tudo que o “outro lado” diz é errado é apenas mais um problema da contemporaneidade, o que foi intensificado com a polarização entre progressistas e conservadores. E isso remete para o problema do moralismo e seu caráter normativo, por um lado, e, por outro, seu vínculo com valores e sentimentos, o que diminui o uso da racionalidade e o aumento da emocionalidade e sentimentalidade, dificultando ainda mais a comunicação. A renovação hegemônica gera, através do subjetivismo, tanto os adeptos do “empreendedorismo” quanto os seus opostos, adeptos do “empoderamento” (Santos, 2024). O subjetivismo também traz uma renovação linguística no qual os prefixos “in” e “em” passam a ser predominantes e o discurso passa a girar em torno da “inclusão”, “empatia”, “empoderamento” e diversos outros semelhantes. Esses prefixos trazem a ideia de “movimento para o interior”, interioridade, ou seja, para a subjetividade. Assim, antes se usava preferencial “compaixão” e depois é substituído por “empatia” e assim o prefixo “co” (que remete para companhia, união, participação ou ação em conjunto) se vê substituído por o movimento para dentro, ou seja, remete para o “subjetivo”. Isso faz parte do movimento de renovação linguística com a hegemonia do subjetivismo (Viana, 2019). Por outro lado, essa renovação linguística gera uma reação conservantista, que, por sua vez, traz uma linguagem própria (e pobre, como “marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, etc.), bem como novos sentidos para antigas palavras[7].

Os progressistas, racionalistas ou irracionalistas, com sua recusa da psicanálise ou adoção de suas formas açucaradas, libertinas ou formalistas, não percebem (na verdade, a maioria “não quer perceber”) que o controle racional e afetivo é uma fonte de insatisfação, de sentimentos antipáticos, etc. Não percebem que numa sociedade competitiva (a competição é um elemento estrutural do capitalismo e que ocorre no conjunto das relações sociais, desde as relações de trabalho, passando pelo processo educacional até a vida familiar e é introjetada e reproduzida na mente dos indivíduos) e conflituosa (desde a luta de classes aos demais conflitos sociais chegando até os conflitos nas relações interindividuais) e dividida em classes não há como agradar a todos. No capitalismo, alguém ganha quando alguém perde. Ninguém é livre de “valores” e “interesses”.

O paradigma hegemônico, subjetivista, alicerçado nas ideologias pós-estruturalistas, culturalistas, multiculturalistas, neoliberais, etc., apontam para a solução individual e não social ou então para uma orientação narcisista de grupo, fundada no ressentimento. O neoindividualismo, hedonismo, narcisismo, são apenas uma parte do problema (e o intensificam, pois quanto mais se valora e anseia conscientemente algo, mais se amplia a insatisfação com a realidade concreta). Ao deixar de lado as raízes sociais das formas de preconceito, dos conflitos grupais, da violência, etc. e pensar que apenas os indivíduos, a relação intergrupal (brancos x negros, homens x mulheres, etc.) ou a cultura podem explicar/solucionar o problema apenas o amplia e ainda se cria mais um problema.



[1] Isso é perceptível, por exemplo, no texto de Lukács (1978), na qual defende a submissão quase incondicional e religiosa do indivíduo ao partido.

[2] Dentre essas outras fontes existem, inclusive, algumas que não possuem vínculos diretos com a política institucional ou movimentos políticos.

[3] No plano da sexualidade, Alberoni (1988) foi o autor que destacou a questão da competição, embora sem analisar os processos sociais mais profundos que geram esse fenômeno.

[4] Tanto pode ser um grupo social “eleito” para ser o principal quanto pode ser diversos, tal como as equivocadamente chamadas de “minorias”.

[5] Concorde-se ou não com elas, pois o que interessa, no plano analítico é sua existência e seus efeitos. Entre as insatisfações explícitas, está a de humoristas que passam a ser censurados, sendo que existem várias formas de humor e em alguns casos, a permissividade que antes existia deixa de existir, mas o exagero acaba, em muitos casos, tolhendo o exercício do humorismo.

[6] As relações eróticas, por exemplo, foram afetadas negativamente devido aos exageros e oportunismos, gerando insatisfação em ambos os sexos e afastando e dificultando os relacionamentos amorosos.

[7] Bourdieu (2013) percebeu, parcialmente, essa mutação linguística, bem como outros já se atentaram para seu real significado (Silva; Anjos, 2022; Viana, 2019).

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

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