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terça-feira, 3 de novembro de 2026

O INDIVÍDUO DIANTE DO SUBJETIVISMO - NILDO VIANA

 




O Indivíduo diante do Subjetivismo


Nildo Viana


Isso tudo gera mais isolamento, solidão, sensação de fracasso, entre outros processos, que possuem efeitos psíquicos já identificados na sociedade e podem ser vistos em seus sintomas de “depressão”, ansiedade, suicídio, entre diversos outros. A competição, a mercantilização e a burocratização dominam também o mundo virtual da internet e gera os mesmos problemas, inclusive para os movimentos sociais. A burocratização e mercantilização dos movimentos sociais não só geram um processo de cooptação e moderação, como também gera processos internos burocráticos e mercantis (Viana, 2016). Os demais aspectos, incluindo os culturais e psíquicos, também se reproduzem internamente e em suas ações externas, sendo mais um obstáculo para o seu desenvolvimento e passagem da hegemonia burguesa para a hegemonia proletária. Por outro lado, em política institucional (partidos, políticos profissionais, etc.) e nos movimentos sociais (nos seus setores hegemônicos) passa a dominar o populismo e o oportunismo, bem como, em certos setores, o medo e a covardia em desafiar os novos lugares-comuns das correntes predominantes de opinião e das ideologias hegemônicas.

Alguns pesquisadores refletiram sobre alguns desses elementos há muito tempo, embora, obviamente, eles vêm se aprofundando cada vez mais. Desde Christopher Lasch – autor de A Cultura do Narcisismo (1983) e O Mínimo Eu (1986) – até chegar a Enrique Rojas – autor de O Homem Moderno – A Luta Contra o Vazio (1986) –, trabalhando sobre as questões psíquicas, há uma percepção da força do narcisismo, do vazio, do neoindividualismo, entre outros problemas. Da mesma forma, as análises dos problemas sobre identidade, desde Jock Young (2002) – Autor de A Sociedade Excludente – até os atuais críticos (com os seus limites) do “identitarismo”, bem como os alertas de Nancy Fraser (2018) e diversos outros, chegando a Elisabeth Badinter (2020), há uma percepção, mesmo que limitada e sem uma reflexão mais profunda sobre suas raízes, da situação gerada no capitalismo contemporâneo e algumas de suas consequências.

Essas obras, apesar de questionadoras e avançarem mais do que os meros reprodutores do que é hegemônico e modismos, são limitadas e não conseguem apresentar uma concepção mais ampla e profunda, pois alguns não se livram totalmente do paradigma hegemônico ou não se fundamentam em bases teórico-metódicas mais desenvolvidas, entre outros possíveis razões de seus limites. Apesar disso trazem elementos que, desde que lidos e refletidos criticamente, ajudam a compor um quadro totalizante do capitalismo contemporâneo, que precisa ser complementado com diversos outros aspectos não tratados em tais discussões[1].

O avanço do moralismo conservador não pode ser compreendido sem a percepção da imposição do moralismo subjetivista, bem como o que alguns chamam de “fundamentalismo religioso”, fortalecido e aliado com o conservantismo, não pode ser compreendido sem essas e outras mudanças culturais. E o moralismo conservador, que ganha adeptos até em lugares inesperados (no caso brasileiro, o mais curioso é pessoas que gostam de rock e MPB, que raramente assumem uma posição conservantista[2], com suas mensagens críticas, que agora adotam tal posição moralista conservadora, caindo em flagrante contradição), se reforça e gera insatisfação nos setores progressistas, gerando um processo de polarização (muito bem explorado pelos partidos e políticos profissionais para fins político-eleitorais e disputa de poder) moral que gera extremismos e sentimentos antipáticos mútuos. O moralismo conservador reforça e é reforçado pelo moralismo subjetivista, que também se encontra nesse mesmo estado de ser fortalecido e de fortalecer o seu oposto. A polarização moral (e a política) promove um processo de conflitos e animosidades crescentes, gerando mais motivos para afastamentos e isolamentos. E isso atinge até quem está fora da polarização, pois a irracionalidade acaba se tornando predominante e quem não está de um lado é automaticamente acusado de estar do lado contrário. Essa simplificação contribui para a reprodução da deterioração das relações sociais no capitalismo contemporâneo.

O indivíduo nesse mundo hostil, cercado por todos os lados, seja pelas relações sociais reais e concretas do capitalismo (competição, burocratização, mercantilização), seja pelos seus subprodutos culturais, gerando uma insatisfação generalizada convivendo com processos de conflitos até nas relações que anteriormente significavam o espaço de consolo, como a família, os grupos de amizades, e pequenas coletividades, que agora estão perpassadas não só pela competição (que era parcialmente reintegrada sob a forma humorística), mas pelo conflito moral e “político”. No caso dos indivíduos das classes sociais inferiores, o problema é ainda mais grave. Apesar de em certos setores parte dessas questões possuírem efeito menor, as dificuldades da vida cotidiana com a precarização do trabalho, as condições de vida desfavoráveis, a superexploração de diversos trabalhadores, entre outros elementos, mostram um outro motivo para insatisfação. A desumanização de proletários, serviçais, entre outros trabalhadores, gera um desgaste físico e mental que promove uma insatisfação que pode vir a se manifestar concretamente a qualquer momento (além das formas marginais e mais individuais pelas quais isso ocorre).



[1] Uma reflexão sobre os “ventos de falsidade” de Julian Marías (2003) e diversas outras obras poderiam ser citadas. Não deixa de ser interessante destacar que Erich Fromm, em suas últimas obras, já havia percebido os males do subjetivismo emergente, tal como “a doutrina do mínimo esforço”, “hedonismo radical”, “egoísmo do culto do eu”, “fobia do autoritarismo” (cf. Fromm, 1992; Viana, 2024).

[2] O que é diferente em certos gêneros e subgêneros, como o sertanejo e o chamado “brega”, além da apologia da “ostentação” no “funk” brasileiro e “sertanejo universitário”, por exemplo.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:






segunda-feira, 2 de novembro de 2026

AS CONTRADIÇÕES DA TECNOLOGIA CAPITALISTA - NILDO VIANA

 


As Contradições da Tecnologia Capitalista


Nildo Viana


O desenvolvimento tecnológico e o avanço da internet aumentam ainda mais o processo de insatisfação. As redes sociais virtuais são “paraísos artificiais” que acabam se tornando novo palco de competição social, bem como incentivadores de superficialidade e criação de tribos e bolhas, reforçando “identitarismo”, “dogmatismo”, “narcisismo”, etc. A internet, como um todo, aumenta a competição, conflitos, entre outros processos que reforçam a tendência atual. O excesso de informação, por sua vez, convive com a carência de formação (Viana, 2019) e com a dubiedade informativa. A desinformação por excesso ou falsidade das informações ou a falta de formação para analisá-las são apenas um dos problemas desse processo. As ideias de pós-verdade, o cinismo, a manipulação, são elementos que mostram que a civilização burguesa chegou ao seu limite e que, doravante, “vale tudo”, mesmo que através do disfarce da inclusão. A “lei de Gérson” (levar vantagem em tudo”) não só continua funcionando como se ampliando, mas convivendo com o discurso oposto e agora com milhares de pessoas percebendo e lamentando isso, mesmo sem perceber que isso é a norma e não a exceção.

A supervaloração dos sentimentos, do indivíduo, do “sujeito”, da “vivência” é reforçada pelo acesso acrítico e superficial de um mundo de informações, no qual a falta de formação intelectual (a falta de ferramentas intelectuais como método, bem como de teoria e senso crítico), e a redução do tempo de reflexão (a velocidade na substituição das “informações” e “novidades” é cada vez maior, bem como o condicionamento dos indivíduos para consumir informações e distrações sempre mais rápidas e superficiais) servem para gerar novos problemas e intensificar os existentes.

Esse mundo de informações, por sua vez, é interpretado a partir de ideologias subjetivistas ou de ideologemas derivados delas, promovendo ainda mais confusão, especialmente quando se usa e abusa da dubiedade informativa. E ideias como “pós-verdade”, entre outras, cuja origem é o subjetivismo, acabam justificando e legitimando versões deformadoras da realidade. Isso convive com as explicações biologicistas do próprio caráter viciante das redes sociais virtuais (“dopamina”), ao invés de ser adequadamente explicada em sua relação com o universo psíquico dos indivíduos e o já citado problema da evasão[1].

Um outro problema social e cultural emerge nesse contexto. O subjetivismo e a ilusão de liberdade (seja “desconstruindo” o que está “construído” culturalmente, seja simplesmente “sendo o que é”) entra em contradição com o desenvolvimento tecnológico, especialmente a internet e tecnointeligência (“inteligência artificial”). Sem dúvida, vivemos numa sociedade cada vez mais tecnológica e isso gera cada vez mais dependência tecnológica. A tecnologia, no entanto, não é neutra (Willians, 2014). Existem dois problemas vinculados ao processo de tecnologização da sociedade: a manipulação e a ideologia da autonomia da tecnologia.

A manipulação se manifesta em quem tem o controle da tecnologia. Quem controla a tecnologia, controla a relação entre esta e as demais pessoas. A internet, por exemplo, é controlada pelos aparatos estatais que impõe limites, censuras, etc. Porém, esse controle é menos importante. Existe um controle oculto que é muito mais importante. É o controle do capital. As grandes empresas capitalistas reproduzem no mundo virtual o domínio que possuem no mundo real. Os sites mais acessados são das maiores empresas capitalistas, de celebridades vinculadas a elas (nesse caso, ao capital comunicacional), aos grandes partidos políticos (igualmente vinculados, direta ou indiretamente, à classe dominante), etc. Uma terceira forma de controle são das empresas produtoras de tecnologia, tais como os proprietários das grandes redes sociais, da tecnointeligência, etc. E essa está vinculada e reproduz os interesses dos demais setores do capital, embora existam contradições.

Por exemplo, as redes sociais se tornaram palco de controle do aparato estatal (tal como se vê no controle do acesso por idade, mas também na criminalização de certas ações e discursos). Nesse sentido, é possível se pensar que o controle estatal é benéfico, mas esse é aspecto que responde ao processo de pressão social e correntes predominantes de opinião, mas existe toda uma regularização que não aparece nas notícias jornalísticas e que não se opõem ao capital. As redes sociais não são manipuladas apenas politicamente, mas sob forma mercantil. Cada vez mais são meios para se vender mercadorias e mercancias[2]. Isso se observa na relação entre “influenciadores” (ou, para os adeptos da hegemonia linguística inglesa, “influencers”) e a propaganda de mercadorias e mercancias, no uso direto das redes sociais para vendagem (o TikTok se tornou bastante eficiente com os produtos baratos e tecnológicos num setor exclusivo para venda, assim como já existia no facebook, mas que era aberto aos usuários), no serviço de impulsionar as postagens (no caso, geralmente de produtos), incluindo o de “serviços sexuais” (tanto o “real” quanto o “virtual”). Isso também é visto na mercantilização crescente do que já mercantilizado, tal como os chamados “serviços de streaming”, como Netflix, Prime Vídeo, Disney, etc. Esses serviços são pagos e usam o mesmo processo que as redes sociais virtuais de uso dos algoritmos (manipulados)[3] e, além disso, após criaram o hábito de seu uso e preços mais baixos, aumentaram os preços e começaram a hierarquizar o acesso, gerando propagandas antes inexistentes para cobrar mais para o cliente que queira evitá-las. Se o cliente (“usuário”) paga, o lucro é maior; se não paga, outra empresa paga pela propaganda.

Nesse sentido, a autonomia individual é bem limitada. E isso vale para o “produtor de conteúdos”. Esse precisa se adequar ao nicho consumidor ao qual se dirige. Para pessoas que postam no TikTok, Instagram, Facebook, Youtube, entre outras redes sociais, visando retorno financeiro (que é a quase totalidade dos influenciadores e a totalidade dos vendedores de mercadorias) é preciso “impulsionar” suas postagens, o que significa pagar para tais redes um valor determinado para aparecer para um público maior. E isso gera a submissão aos famosos “algoritmos”, que, no fundo, expressam as forças mercantis mais poderosas e as correntes predominantes de opinião. Com a polarização política e moral, isso também serve para manipular posições contrárias criando polêmicas e ampliando o acesso para além do nicho consumidor exclusivo de conservadores e progressistas. O influenciador é influenciado e quem cria o influencia é o capital. Um dos meios de obter mais acesso e, por conseguinte, dinheiro, é a criação de polêmicas e escândalos. Essa estratégia é antiga e já foi estudada através do termo “sensacionalismo”, que focalizada os jornais (chamados justamente de “sensacionalistas”) que usavam manchetes e notícias escandalosas e exageradas. E isso faz proliferar as chamadas “fake News”, que também já existiam há muito tempo sob o nome de “factoides”. Desta forma, o influenciador é influenciado pelo capital, através dos rendimentos que deseja e o faz agir de determinada forma, tal como seguir as correntes de opinião (que se materializam em algoritmos), as ofertas das empresas capitalistas, etc.

Se o influenciador não tem grande margem de liberdade, então o “consumidor” tem muito menos. Sem dúvida, ele pode protestar, criticar, etc., as postagens, mas que são pouco lidas e sempre tem os adeptos e posições contrárias, não levando a lugar algum. Além disso, convivem com os adeptos fanáticos ou com os odiadores fanáticos gerados pela polarização (e se geram termos, geralmente em idioma inglês, para denominar esses casos, como “haters” e “lovers”). A irracionalidade toma conta e a comunicação é obliterada. O potencial crítico da internet é anulado e esse é o caso mais extremo de anulação, pois ao invés de espaço de comunicação e debate racional, se estabelece uma verdadeira “guerra de todos contra todos”.

A tecnointeligência é outro problema no interior desse contexto. A suposta “inteligência artificial” é apenas uma imitação limitada da “inteligência humana”. Não poderemos, aqui, discutir o conceito de inteligência, mas apenas colocar que é um fenômeno mental complexo que envolve consciência e pensamento, mas também outros elementos presentes na mente humana (como a imaginação). Uma máquina é incapaz de reproduzir ou chegar ao nível da inteligência humana. A tecnointeligência é mecânica, não possui imaginação e criatividade, sentimentos, etc. A criatividade da tecnointeligência é limitada, pois mesmo que ela seja programada para criar coisas, ela o fará a partir da programação e esta é limitada.

Porém, o que interessa aqui não são os limites da tecnointeligência (termo que substitui “inteligência artificial” por colocar que não se trata, efetivamente, de “inteligência” e sim de uma imitação tecnológica e que fica presa nos seus limites) e sim os seus usos e efeitos sociais. Para parafrasear Marx, quando mais o indivíduo se fia na tecnointeligência, menos tem de si mesmo. O uso exagerado e acrítico da tecnointeligência reduz a reflexão e autonomia dos indivíduos. O efeito social mais negativo é a ideia de a tecnointeligência é “objetiva”, “exata”, “neutra” e por isso “confiável”, pois é uma máquina, uma tecnologia, etc. Assim, muitos acreditam piamente na tecnointeligência e essa credulidade pode custar caro (custa até a vida de algumas pessoas). A tecnointeligência não é neutra, pois ela é programada a partir de um programador e de concepções das quais ele é portador. Se a tecnointeligência fosse produzidas por nazistas, reproduziria concepções do nazismo, pois os programadores e suas concepções seria dessa concepção. A tecnointeligência é predominantemente dominada pelo paradigma subjetivista e a moral que lhe é correspondente, embora existam algumas exceções e em alguns casos isso venha sendo contrabalançado (por ter ficado facilmente perceptível para pessoas mais críticas) com certo tom de “neutralidade” e “objetividade”.

Aqui emerge um conjunto de contradições. Já expusemos algumas. A contradição entre a ilusão de liberdade e a defesa da “subjetividade” que emerge a partir da hegemonia do paradigma subjetivista, entra em contradição com a tecnologia mercantilizada, burocratizada (controlada por seus “criadores” e detentores), que acabam reproduzindo a dominação cultural burguesa. E isso é reforçado pela contradição entre tais ilusões de autonomia e liberdade com a crescente dependência tecnológica. O ser humano fica cada vez mais dependente da tecnologia. Hoje, sem internet, muitos indivíduos ficam sem nada. Não se comunicam, não compram, etc. A netnologia (chamada de “internet das coisas”, processo no qual a comunicação entre seres tecnológicos diferentes se autonomiza como uma rede tecnológica) pode criar “casas inteligentes”, mas que podem ser habitadas por pessoas cada vez mais dependentes e menos inteligentes. Esse é o caso do indivíduo que construiu uma casa inteligente usando netnologia e não colocou interruptores e se viu na difícil situação de não ter como ligar as luzes quando a rede não funciona, já que não havia a possibilidade de fazer isso manualmente. Os indivíduos cada vez mais dependentes da tecnointeligência é outro caso e já ganhou postagens humorísticas nas próprias redes sociais, tal como um vídeo que satiriza a comunicação de um cliente e um atendente de loja via uso de tecnointeligência no celular. As pessoas, quando mais solicitam coisas para a tecnointeligência, menos autônomas e experientes se tornam, bem como mais mecânica e padronizada fica a interação humana.

A tecnointeligência é “trabalho morto” e quanto mais ela é usada e ganha espaço, menos humano e capaz se tornam os seres humanos. Isso gera um ciclo de reprodução cada vez maior e um processo de produção cada vez menor. Daí surgem as teses da “internet morta”, dominada pelas tecnointeligências, sem criatividade. Nesse contexto, isso é apenas um antecessor da “cultura morta”, pois acaba se generalizando para toda a sociedade. Isso significa que quanto mais a tecnointeligência é usada e amplia seu espaço na sociedade, menor se torna o desenvolvimento da consciência e pensamento humanos, o que tem como consequência um processo de imaturalização crescente da população convivendo com o predomínio crescente da tecnointeligência, mas através daqueles que a detém.

No plano cultural, isso gera um empobrecimento crescente; no plano social, produz dependência tecnológica cada vez mais ampliada e empobrecimento intelectual individual e suas consequências sociais; no plano econômico e político, gera a supremacia dos donos da tecnointeligência. Um quadro evolutivo hipotético pode demonstrar isso:



Esse gráfico hipotético, caso se concretize, significaria que cada vez mais os seres humanos ficariam menos produtivos intelectualmente, pensariam menos e seriam menos criativos e inteligentes e esse espaço seria ocupado pela tecnointeligência, que, no entanto, apenas reproduz o saber humano existente e gera, a partir dele, determinados resultados e supostos “novos saberes”, que só é efetivo em algumas áreas (e com certos limites). O elemento criativo, por conseguinte, se tornará cada vez menor e, assim, a reprodução e a falta de inovação tende a gerar uma estagnação (isso pode ser evitado, nesse contexto, por uma “elite”, que seria a dos proprietários e/ou programadores de tecnointeligência, mas, mesmo nesse caso, com o empobrecimento cultural geral, também serão atingidos por esse processo de decréscimo de criatividade e capacidade cognitiva[4]). O resultado desse processo hipotético (embora tendencial, considerando que o resto da realidade – incluindo guerras, luta de classes, revoluções, destruição de tecnologia, etc., – não interfiram) pode ser visto no segundo gráfico hipotético abaixo:

 


O gráfico hipotético acima aponta para os resultados desse processo e a tendência para a estagnação e tudo que deriva disso. Sem dúvida, esse é um quadro hipotético sombrio, embora possível, apesar de pouco provável, pois a realidade humana e social não se desenvolve num evolucionismo unilinear e a subtração hipotética de outras determinações e processos sociais retira as demais possibilidades e tendências. Contudo, se não houver processos contraditórios, isso pode vir a ocorrer e significar uma situação caótica, um retrocesso histórico, uma autodestruição, ou uma nova forma de exploração social via tecnologia.

Deixando o futuro de lado e voltando para a realidade presente, o predomínio tecnológico já é uma realidade, bem como os processos acima apontados. Isso tem efeitos sociais, políticos e econômicos, que trataremos adiante. O que importa aqui é mostrar os efeitos psíquicos disso nos indivíduos e coletividades. Esse processo afeta intelectualmente a população em geral, embora alguns setores sejam mais atingidos (crianças e jovens, pois já nascem e se desenvolvem nesse deserto intelectual). A dependência tecnológica das gerações mais novas é muito mais ampla, pois não tiveram experiências anteriores como as gerações mais velhas. Porém, quem herdará o mundo serão as gerações mais novas e as posteriores. Além dos efeitos puramente intelectuais, mas intimamente ligado a eles, ocorre o efeito psíquico de seres humanos cada vez mais “mecânicos”, “dependentes da tecnologia”, inábeis no plano sentimental e emocional. Isso significa cada vez menos autônomos e criativos. Isso gera a contradição já aludida entre o subjetivismo e o desenvolvimento tecnológico. A solução de compromisso abre uma nova contradição e, mais cedo ou mais tarde, vai explodir. O subjetivismo é irrealista e cumpriu com uma função política e cultural interessante para o capitalismo, mas já não se adequa às necessidades do desenvolvimento capitalista e tecnológico. E cada vez mais isso fica perceptível, pois a ilusão de liberdade quando o indivíduo não percebe que suas ideias (ou “subjetividade”) são produtos sociais e históricos, se perde quando se tornam cada vez mais “produtos tecnológicos”. A “cultura”, assim como paradigmas da episteme burguesa, são relativamente “imperceptíveis”, mas a tecnointeligência dá corpo a isso, é um “outro” perceptível.

Os resultados desse processo, além do empobrecimento intelectual e afetivo, é o reforço de fenômenos já apontados: solidão, isolamento, inabilidade sentimental e emocional. Esses processos estão generalizados na sociedade, mas tendem a aumentar. No plano das relações interpessoais se manifesta cada vez mais a inabilidade sentimental e emocional, com excesso de exigências e incapacidade de compreensão mais profunda das demais pessoas e seus limites (e, mais ainda, dos processos históricos e sociais mais amplos e o envolvimento individual nesse contexto). No plano das relações amorosas, por exemplo, isso é nítido e seus efeitos geram desde o ridículo “autocasamento” e as “soluções tecnológicas”: as namoradas virtuais de tecnointeligência[5] e até os robôs sexuais[6]. A sociedade capitalista tecnologizada (e o termo “capitalista” explica que não é apenas tecnologia, mas submetida a um caráter capitalista e num contexto capitalista) amplia a miséria psíquica e sexual dos seres humanos e apresenta pseudossoluções que amplificam ainda mais esses processos, gerando processos de aumento dos desequilíbrios psíquicos, sofrimento, imaturalização, etc.

No plano da coletividade, isso afeta mais negativamente, como já foi dito, as gerações mais novas, bem como certos setores da sociedade (homens e mulheres com dificuldades – por diversas determinações que giram em torno das características da sociedade capitalista) e gera novas contradições e a busca da evasão é uma de suas consequências. E a própria tecnologia vem se tornando o principalmente meio de evasão existente, pois através das redes sociais virtuais, da internet em geral, de jogos virtuais, milhões de indivíduos fogem da realidade. A fuga da realidade via evasão (usando tecnologia ou não), por sua vez, é um problema que gera outros, como o remorso, a vergonha, a apatia, as dificuldades em estabelecer relacionamentos, etc.



[1] Sobre isso, cf. “A Sociedade da Evasão” (Viana, 2022).

[2] Sobre o conceito de mercancia, que são valores de troca produzidos fora do âmbito das relações de produção capitalistas, cf. Viana, 2017.

[3] Não deixa de ser curioso que a Netflix produza um documentário colocando elementos desse processo no caso das redes sociais e não se inclua no “pacote”, pois ela usa os mesmos procedimentos. Cf. https://informecritica.blogspot.com/2020/10/o-que-foi-ocultado-em-os-dilemas-das.html

[4] Os programadores também são “programados”, seja por um ou outro paradigma da episteme burguesa, com os seus limites intransponíveis.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

domingo, 1 de novembro de 2026

REGIME DE ACUMULAÇÃO INTEGRAL E SUBJETIVISMO - NILDO VIANA

 


Regime de acumulação integral e Subjetivismo


Nildo Viana



Sem dúvida, muitos podem pensar que é um problema apenas “cultural”, que o subjetivismo caiu do céu e que basta mudar as ideias e a realidade se alterará. Uma doce ilusão pode gerar uma amarga realidade. O subjetivismo tem uma longa história desde o seu nascimento, mas sua manifestação contemporânea, que começa a ser gestada após a derrota da rebelião estudantil de maio de 1968, possui características específicas. O subjetivismo contemporâneo faz parte de toda uma política cultural internacional, envolvendo Estados nacionais (no início o norte-americano, mas que agora “mudou de lado” com o governo Trump), organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, UNESCO, etc.)[1], fundações internacionais (Ford, Rockfeller, entre diversas outras), capital comunicacional (com destaque, por seu impacto na vida cotidiana, especialmente das classes superiores, para Hollywood e Netflix, mas incluindo redes de televisão, agências de notícias e milhares de outras empresas capitalistas de comunicação). Os governos neoliberais progressistas[2] lançam seus tentáculos e americanizam as esquerdas brasileiras (Lindgreen Alves, 2019). E isso tudo vai ser reproduzido pelos partidos políticos populistas, ideólogos (produtores e reprodutores), ativistas, professores, etc.

Poderíamos continuar descrevendo diversos outros elementos ou aprofundar alguns destes aspectos (tal como a expansão do neoliberalismo e seus meios de difusão ou então a expansão do conservantismo, com sua força fundada no moralismo conservador). Porém, o que interessa é que isso tudo é gerado a partir da realidade concreta, pois o subjetivismo e a política cultural efetivada há algumas décadas (com seus desdobramentos de acordo com as mudanças sociais) emergem a partir da instauração do regime de acumulação integral, gerando mutação nas relações de trabalho (toyotismo), na forma estatal (neoliberalismo), na exploração internacional (hiperimperialismo) (Viana, 2009; Almeida, 2020; Viana, 2019; Braga, 2018).

O regime de acumulação integral gera mudanças sociais e culturais, tal como a emergência do paradigma subjetivista. Há uma ampliação da mercantilização e burocratização das relações sociais, bem como intensificação da competição social, elementos basilares da sociabilidade capitalista (Viana, 2008), gerando mais-repressão, maior controle social, mais insatisfação e menos possibilidade de extravasá-la para vastos setores da população (especialmente os indivíduos das classes inferiores e os mais conservadores das classes superiores).

Por outro, o neoliberalismo promove, com sua ideia de redução de gastos estatais e redirecionamento da renda estatal para os interesses do capital, um processo de responsabilização da sociedade civil, o que promove as propostas de voluntariado, Organizações Não-Governamentais, entre outros processos, que são complementados pelas ideologias subjetivistas (pós-estruturalismo, por exemplo), representações cotidianas (“faça você mesmo”) e ideologemas dos movimentos sociais (“lugar de fala”, “vivência”, “autonomia”). Tudo isso remete para as ideias voluntaristas, de autonomia do “sujeito” e importância da “subjetividade”. Essa relação complementar também está presente no toyotismo e na chamada “reestruturação produtiva” e o novo participacionismo para aumentar a produtividade e a extração de mais-valor (Viana, 2009). Quanto mais os prisioneiros se julgam “livres”, menor é a possibilidade de rebeliões. Porém, a prisão continua sendo um cárcere e mesmo que na consciência muitos não reconheçam sua ausência de liberdade autêntica, no seu universo psíquico reina a insatisfação. Disso deriva a evasão dos jogos, das drogas, do futebol, do fanatismo religioso e político (tanto faz, nesse caso, qual é a religião, partido ou político profissional que se passa a seguir fanaticamente), o suicídio e várias formas de mal-estar psíquico (burnout, depressão, etc.).



[1] Lyotard (1993) ganhou notoriedade a partir da palestra proferida para a Unesco, assim como no passado ocorreu com Lévi-Strauss e o estruturalismo (Viana, 2019).

[2] Nancy Fraser (2018) usou o termo “neoliberalismo progressista”, que é adequado, desde que compreendamos que é uma metamorfose do liberalismo democrático. Claro que a compreensão disso requer a compreensão, pouco desenvolvida, de que o liberalismo assumiu e possui várias formas: liberal-nacionalismo, liberal-conservantismo, liberalismo democrático, etc. E isso é mais complexo ainda pelo fato de que o liberalismo é uma das tendências do pensamento conservador, que conta ainda com o nazismo, fascismo, conservantismo (mais conhecido como “pensamento conservador”), republicanismo, etc. A ciência política, os pensadores progressistas, entre outros, não avançaram muito nesse sentido e por isso muitos caem no erro de qualificar como “liberal” quase todas as formas do pensamento burguês, o que é um equívoco.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

sábado, 31 de outubro de 2026

SUBJETIVISMO E IRRACIONALISMO - NILDO VIANA

 


Subjetivismo e Irracionalismo


Nildo Viana


Esse processo todo vem acompanhado, por mais incrível que pareça, por uma força crescente do irracionalismo. Nas relações sociais concretas ocorre racionalização e mesmo os irracionalistas efetivam um processo racionalizador em sua vida cotidiana. No mundo nebuloso das ideologias (sistemas de pensamento ilusório) e do imaginário (representações cotidianas ilusórias), o irracionalismo avança. No fundo, o irracionalismo de alguns é apenas forma de manifestação do paradigma hegemônico no regime de acumulação integral, o subjetivismo. O fenômeno vem sendo descrito sob diversas formas pelos opositores e manifesto igualmente sob diversas formas pelos seus defensores: culturalismo, hedonismo, narcisismo, autoctonismo, identidade, lugar de fala, vivência, etc. Isso gera em muitos uma predisposição mental marcada por querer o prazer a qualquer custo, deixando a totalidade da vida de lado, gerando mais um reducionismo.

É nesse contexto que emerge uma hipersexualidade convivendo, contraditoriamente, com uma forte repressão sexual. Por um lado, os meios oligopolistas de comunicação (indo desde a pornografia até as redes de TV) apresentam e incentivam a sexualidade e as universidades, sob hegemonia subjetivista, a colocaram como tema fundamental, mas ao mesmo tempo se mantém um alto grau de repressão, desde a permanência, para inúmeros setores da sociedade, em sua forma antiga, até as mais desenvolvidas, como o desejo de ascensão social e consumo, enquanto inibidores de relações sociais não submetidas aos interesses característicos da sociedade capitalista e coloca a sexualidade como meio para atingir esses objetivos, o que tem consequências para os demais seres humanos.

O subjetivismo[1] reinante aponta para uma crescente irracionalidade nas relações sociais. A ideologia da identidade, por exemplo, gera uma proliferação de “identidades” que não deixam de mostrar o grau de irracionalidade e desequilíbrio psíquico em nossa sociedade. Deixando de lado os casos mais exagerados, como os cães humanos e outras bizarrices[2], hoje se espalha a ideia da normalidade de tudo desde que corresponda à “subjetividade” dos indivíduos. E isso permite o surgimento de organizações que defendem pedofilia[3], que “ainda” é considerada crime, e outras coisas que fogem completamente de uma racionalidade humanista, emancipadora. A proliferação de “gêneros” é apenas mais um exemplo de irracionalidade a partir de uma racionalidade fragmentária[4].

Os indivíduos agora podem escolher sua “identidade” e vivem em função disso, esquecendo-se que tais “identidades” são produzidas socialmente (e não “culturalmente”, pois é muito mais complexa e envolve um conjunto de determinações que o culturalismo é incapaz de perceber com seu reducionismo). É uma identidade produzida no capitalismo e para o capitalismo, submetida à divisão social do trabalho e à mentalidade dominante (burguesa), aos indivíduos formados nessa sociedade, entre diversos outros elementos que, para quem diz ter uma percepção crítica e histórica da sociedade, é mais um problema a ser superado ao invés de uma postura a ser adotada.

O indivíduo que “escolhe” uma identidade e se reduz a ela apenas se desumaniza e passa a ser um ser unilateral – uma imposição do capitalismo devido ao processo de especialização gerada por sua divisão e subdivisão do trabalho – voluntariamente, se reduzindo a um suposto “gênero”, “sexualidade”, “estilo de vida”, etc. Essa autoilusão é frustrante e aumenta os desequilíbrios psíquicos ao ponto de gerar distúrbios psíquicos. A sexualidade é uma das necessidades/potencialidades humanas e quando o indivíduo se reduz a ela como sua “identidade” e “modo de vida”, se priva de satisfazer suas outras necessidades e o homo sexualis revela uma miséria psíquica e social autodestrutiva. O mesmo vale para as outras “identidades” (e a preocupação excessiva com isso, o que significa preocupar-se com sua autoimagem, já revela como o paradigma subjetivista e seus derivados, como o narcisismo e hedonismo, revela mais um sintoma do capitalismo contemporâneo e sua miséria psíquica), que, no fundo, são prisões socialmente produzidas e individualmente escolhidas.

Esses produtos e subprodutos do paradigma subjetivista promovem efeitos políticos, pois realiza um impacto nos movimentos sociais, na juventude, etc. Isso, além de afastar muitos da luta política, para cuidar do seu prazer e nada mais além disso, incentiva outros para apenas o “ativismo” (muitas vezes “festivo” ou “virtual”, nas redes sociais virtuais) a favor de sua “identidade”, “grupo” ou qualquer outra ideomania (ideia-fixa). No máximo, também apoiam os governos supostamente “progressistas” (no fundo, neopopulistas, prometendo muito e fazendo pouco, segundo os ditames neoliberais que vão além dos governos e suas promessas irrealizáveis) que reproduzem determinados discursos e políticas estatais em troca de votos e apoio.



[1] Sobre o paradigma subjetivista e sua hegemonia, cf. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas (Viana, 2019).

[2] Os casos mais graves servem para mostrar o que é menos perceptível nos casos menos graves. Os desequilíbrios psíquicos são relativizados e “tudo é normalizado”. Nesse sentido, é útil ver duas reportagens sobre estes casos “pós-modernos”:  

 

Sobre os “cães humanos”:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/05/o-curioso-universo-dos-homens-que-vivem-como-caes.html;

 

Sobre a pessoa transexual que quer ser cavalo:

https://www.youtube.com/watch?v=cwHP4CnSTfw

 

Não custa informar que esse artigo começou a ser escrito há alguns anos atrás (a primeira versão incompleta foi escrita em 2016, sendo revisto parcialmente em 2021 e completado agora em 2026 com uma pequena revisão e alguns acréscimos em relação à parte anteriormente escrita) e ficou incompleto e abandonado devido a outros projetos. Hoje, a emergência da popularização dos therians apenas reforçam o que já havia sido percebido e a ampliação da dubiedade informativa, pois muitos casos de supostos “seres humanos que se identificam como animais” são farsas de influenciadores virtuais (geralmente apresentados, a posteriori, como ironia), gerando ainda mais confusão num mundo já excessivamente confuso (e mais uma vez é manifestação da dubiedade informativa).

 

[4] E aqui se revela mais uma vez um misto de racionalização e irracionalidade. O desejo de identificar o “gênero” (que agora seriam “múltiplos”) é uma autodefinição supostamente racional e racionalizada gerando todo um sistema classificatório inútil e que serve apenas para reforçar estereótipos e comportamentos padronizados em nome de uma suposta “liberdade”. Aqui a noção de liberdade é a de escolher sua própria prisão. Isso é uma irracionalidade.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Hipermercantilização e Burocratização na Contemporaneidade - Nildo Viana

 


Hipermercantilização e Burocratização na Contemporaneidade


Nildo Viana


Ao lado disso, o processo de crescente mercantilização e burocratização das relações sociais, que é o gerador da racionalização, traz mais motivos para ampliação das insatisfações. A mercantilização traz a necessidade do cálculo mercantil e do dinheiro, o que torna a venda da força de trabalho necessária e no contexto das relações de trabalho já aludidas e que não se limita ao trabalho produtivo e se reproduz no trabalho improdutivo[1]. O lazer é mercantilizado (Orio, 2019; Viana, 2018), assim como a vida cotidiana. A mercantilização gera a burocratização. A burocratização das relações sociais, por sua vez, significa criação ou ampliação de organizações burocráticas e aumento de controle social.

A “sociedade da vigilância”, termo muito usado (mas sob forma equivocada a partir de bases ideológicas), exerce um controle cada vez mais amplo sobre os indivíduos, inclusive em sua vida privada. A videovigilância e as câmaras em todos os lugares tornam real o Big Brother de Georg Orwel e os reality shows são uma versão em miniatura do que ocorre na sociedade capitalista contemporânea. A vigilância através do mundo virtual da internet, incluindo as redes sociais virtuais, ampliam esse processo. Quanto mais o capitalismo se desenvolve, mais se intensifica a mercantilização e a burocratização das relações sociais. E quanto mais se desenvolve o controle social e menos há espaço de privacidade e tranquilidade, mesmo que momentânea, e mais a insatisfação, consciente ou insciente, se amplia. O exibicionismo avança nesse contexto, ligado a processos como corpolatria, narcisismo, etc., mas que é planejado e ocorre apenas nos “bons momentos”, pois quando a exposição é involuntária e/ou dos “maus momentos”, a sensação deixa de ser agradável e ter um significado social de aprovação para ser desagradável e ter um significado social de reprovação.

O moralismo subjetivista reforça esse processo de controle sobre a vida cotidiana com sua tese da “politização da vida privada”. O controle chega até a casa dos indivíduos e alguns querem controlar até os pensamentos dos outros, ditando o que eles devem ou não fazer e ainda fazendo discurso contra “regras”. É o predomínio da razão cínica. A suposta “politização da vida privada” é uma politização despolitizada, pois se fundamenta num reducionismo de relações grupais e interindividuais, sendo que, no fundo, é apenas a vida privada é que é “politizada”. Um jogo de interesses, oportunismo, versões da realidade (ao invés da verdade sobre ela), razoabilização[2], etc. é o que ocorre ao invés de politização.

“‘O pessoal é político’ emerge como discurso oportunista e que o apelo para abordar a ‘vida cotidiana’ é num sentido parcial, no que beneficia oportunistas de todos os tipos” (Leroy, 2021, p. 50). No entanto, é preciso acrescentar que muitos que pregam e que respeitam esse chavão são hipócritas, sendo que alguns depois são acusados de práticas que são condenáveis por qualquer um sem precisar apelar para tal discurso, como o assédio sexual, por exemplo. Claro que isso vale para os casos em que esse processo tenha efetivamente e realmente ocorrido. É preciso entender que, no capitalismo e sua sociabilidade fundada na competição, existem exageros, tal como o caso do indivíduo que foi preso por “olhar para uma mulher” no meio da rua ou falsas acusações que oportunistas usam para desmoralizar certos indivíduos, embora em alguns casos seja difícil saber o que é realmente falsa acusação e o que ocorreu efetivamente. Esses elementos duvidosos fazem parte do processo contemporâneo de dubiedade informativa, antes aludido[3].

Ao invés de busca de reais soluções o que ocorre é um processo de busca de vantagens competitivas, uso vantajoso em conflitos interindividuais, etc. Não existe nenhuma politização através do maniqueísmo e reducionismo de questões muito mais amplas (que envolve processos psíquicos e sociais muito mais complexos do que o que vem sendo defendido pelos moralistas subjetivistas) e complexas. E, no fundo, numa sociedade comandada pela sociabilidade capitalista (competitiva, burocrática e mercantil), tudo pode ser degradado e transformado em seu contrário.



[1] O trabalho produtivo é aquele realizado pelos proletários no processo de produção capitalista de mercadorias, que é produção de mais-valor. O trabalho improdutivo é aquele efetivado fora das relações de produção capitalistas, seja nas relações de distribuição, seja nas formas sociais (“superestrutura”) (Viana, 2018).

[2] O que Ernst Jones denominou “racionalização” e Sigmund Freud e sua filha, Ana Freud, trabalharam posteriormente, significando tornar “razoável”, ou “aceitável”, desejos, sentimentos, etc., dos indivíduos, e foi alterado para o novo termo por Ruck (2016).

[3] Sobre o problema do assédio moral e sexual, numa perspectiva crítica, cf. https://redelp.net/index.php/renf/article/view/1653

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

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