Mesa redonda: 8° Simpósio Internacional da Faculdade de Ciências Sociais.
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Nildo Viana
Temos uma escolha. Fugir em pânico ante a iminência
do desmoronamento das nossas estruturas; acovardar-nos com a perda dos portos
conhecidos; ficar paralisados, inertes e apáticos. Fazendo isso, estamos
abrindo mão da oportunidade da formação do futuro. Estamos negando a
característica mais distintiva do ser humano – influenciar a evolução do meio
do reconhecimento consciente – , capitulando frente à força destrutiva e cega
da história, desistindo de moldar uma sociedade futura mais justa e mais
humana. Ou será que devemos lançar mão de toda coragem necessária para
preservar nossos sentimentos, nossa consciência e responsabilidade ante a
mudança radical? Participar conscientemente, mesmo em pequena escala, da
formação da nova sociedade? Espero que esta seja a escolha, pois nela baseio
minha dissertação.
Rollo May
A época das eleições revela um conjunto de comportamentos e
discursos considerados “irracionais”, sendo que alguns são razoabilizados (“racionalizados”).
Diversas pessoas que passam a sua vida inteira alheia às questões políticas e
sociais mais amplas, de repente, como num passe de mágica, se tornam ardorosos
defensores de candidatos A ou B. Depois de três anos de completo apolicitismo,
emergem figuras que do nada se julgam entendidos em política e que devem
convencer os demais a qualquer custo. Um comportamento irracional[1].
Isso remete ao problema psíquico das eleições e das ilusões
eleitorais e, por conseguinte, alguns aspectos da psicanálise podem contribuir
com a compreensão desse fenômeno psíquico.
O
Desejo Fetichizado
O primeiro elemento é entender as motivações desse
comportamento, que possuem pouca ou nenhuma racionalidade. Sendo que sua
motivação não é racional, então talvez seja interessante descobrir quais são suas
reais motivações. Obviamente que excluímos da análise aqueles que possuem
interesses (pessoais, grupais, etc.) envolvidos em sua escolha eleitoral, que
abordamos em outra oportunidade[2].
Aqui se trata do caso de pessoas que não possuem nenhum interesse pessoal ou
grupal no processo eleitoral e se tornam, repentinamente, defensores
insistentes de determinados candidatos, o que torna a ausência de racionalidade
ainda mais perceptível. A psicanálise[3]
é extremamente útil para explicar esse comportamento irracional.
E nada melhor do que um psicanalista servir de exemplo para
análise. Um psicanalista profissional geralmente é alheio às questões
políticas, mas não deixa de se envolver no processo eleitoral. Vejamos o que
diz o psicanalista Contardo Calligaris:
Votar talvez seja um rito e uma espécie de
ato de fé. Mas o momento crucial desse rito não é coletivo – ao contrário, ele
é estritamente reservado ao indivíduo. Rito de qual culto, então? E ato de fé
em quê? Pois é, ninguém (salvo ilusões e delírios) acredita que, depositando
nosso voto na urna, a gente possa mudar o mundo. Mas, paradoxalmente, votamos
exatamente por isso, para confirmar nossa fé no poder de os indivíduos
modificarem o mundo[4].
Essa é a questão fundamental que atinge grande parte da
população. A ilusão eleitoral se fundamenta, em grande parte dos casos, numa “fé”,
num desejo, numa crença. O conceito de crença necessita ser revisto e ampliado,
mas é ele que consegue dar conta dessa realidade. Trata-se de uma crença
fundada num desejo. A questão é que não é um desejo como os outros que temos na
nossa vida. É um tipo específico de desejo. É um desejo que entra em
contradição com a realidade, sendo ilusório, mas que se sustenta por ser fetichizado.
É um caso semelhante ao de pessoas que, dominadas pelos valores burgueses da
competição, busca de ascensão e riqueza, querem se tornar milionários, mas nada
fazem para concretizar tal desejo. Esse tipo de pessoa fica esperando “a grande
sorte”, o “destino”, “Deus” ou qualquer outra coisa que produza um resultado
sem o trabalho de lutar pra consegui-lo. Algumas pessoas ficam esperando ficar
rica sem fazer nenhum esforço para tal. Outros jogam na loteria esperando um
dia ser contemplado.
Todos estes exemplos revelam desejos fetichizados. O desejo
ganha vida própria, passa a ser um agente da história ou da vida dos
indivíduos, se autorrealizando, pois aquele que deseja nada faz para sua
realização. Essa forma de desejo é produto da sociedade capitalista e da
alienação generalizada (isso será abordado adiante), mas se reproduz na época
das eleições. É isso que explica como pessoas geralmente alheias às questões
políticas, tanto institucionais (as políticas estatais e processos políticos
partidários e parlamentares, ações governamentais) quando no sentido mais amplo
(local de trabalho, moradia, estudo, manifestações, movimentos sociais, etc.),
repentinamente começam a querer discutir política e colocar como fundamental
algo que nem sequer faz parte de sua vida cotidiana.
O desejo fetichizado tem na democracia representativa a sua
forma mais cristalina de existência, pois basta você escolher seu “representante”
e governante e pronto, pode continuar alheio à vida política. A valoração da
política se dá apenas no momento eleitoral, bem como a ação política se reduz
ao voto. Depois de heroicamente, como nosso psicanalista acima, votar, o
cidadão vai para casa e passa a cuidar de sua vida privada. O desejo fetichizado
de mudança ou qualquer outro é fetichista e por isso tem a ver com a fé, tendo
um mecanismo psíquico semelhante, pois se trata de uma crença. Ele é uma
mistura de vontade intensa e conformismo prático. Em alguns, o conformismo
prático pode até gerar um certo ativismo para que o desejo fetichizado, ainda
sob forma fetichista, seja “realizado” (pedir votos, fazer “promessas” – como
algumas pessoas religiosas fazem, ir na loteria toda semana jogar, etc.).
O desejo fetichizado provoca uma pseudestesia (falsa
sensação) de esperança. No caso eleitoral, o eleitor vota e vai cuidar da vida
privada, só reaparecendo nas próximas eleições, alguns anos depois. Se o
candidato dele perdeu, ele tenta votar no mesmo ou semelhante. Se ganhou e não
cumpriu as promessas, ele aceita as supostas explicações ou esquece tal fato e
vota novamente. Alguns, nesse caso, podem trocar de candidato. Esse mecanismo
psíquico é o mesmo do jogador de loteria que quer ficar milionário: ele joga e
perde, mas na semana seguinte e nas posteriores, está novamente fazendo sua “fezinha”[5],
nome esclarecedor. Ele continua com sua crença ilusória de que da próxima vez
ele poderá ganhar.
A superação do desejo fetichizado em época eleitoral pode
ocorrer sob a forma positiva, que é sua substituição por uma esperança
verdadeira, na qual o indivíduo busca efetivamente realizar seu projeto e
percebe que depende de si mesmo para concretizá-lo, ou sob a forma negativa,
que é a sua substituição pelo niilismo, o desejo de destruição de si e/ou dos
outros. A sociopsicanálise pode apenas mostrar esse processo psíquico e
explicar suas fontes, trazendo a necessidade de superação da situação que gera
o desejo fetichizado. O marxismo é fundamental para a explicação dessa situação
e por apresentar um projeto alternativo de sociedade, a autogestão social. Da
perspectiva da luta política, a luta contra a ilusão eleitoral e o desejo fetichizado
deve se aliar com análise da totalidade da sociedade e projeto autogestionário
como alternativa.
A Manipulação do Medo
O medo é um sentimento humano normal e comum. Em certos
momentos ele pode ser exagerado, quando ocorre processos sociais determinados
que geram uma generalização ou intensificação do medo, ou, em casos
individuais, quando há desequilíbrio psíquico. O processo eleitoral é um jogo
no qual os jogadores (partidos, candidatos, etc.) fazem de tudo para ganhar o
mesmo, inclusive passando por cima das próprias regras. Dentre as diversas
formas utilizadas para tentar conseguir votos e retirar dos adversários está a
manipulação do medo.
A manipulação do medo assume várias formas. Uma das formas é
criar relações para atribuir medo. Se utiliza de um sentimento relativamente
comum, que é o medo do desconhecido, do estrangeiro, do diferente, para criar
uma relação negativa com o(s) adversário(s). Assim é que logo se relaciona o
adversário com o “fascismo”, o “comunismo”, etc. Na história das eleições no
Brasil, esse procedimento foi utilizado de forma sistemática pela candidatura
de José Serra contra a de Luiz Inácio Lula da Silva (2002). A atriz Regina
Duarte aparecia no programa eleitoral e chamadas do PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira) falando
que temia a volta da inflação, o fim da estabilidade conquistada pelo governo
tucano, o candidato oposto, etc.[6]
Em 2014, disputa entre Dilma Roussef (PT) e Aécio Neves
(PSDB), no segundo turno, a mesma manipulação é realizada, só que agora
invertida, pois é o PT que usa esse estratagema contra o PSDB. Ou seja, usa o
discurso do medo, afirmando que a estabilidade, os parcos programas sociais,
entre outras coisas, seriam perdidos caso o candidato adversário ganhasse[7].
Obviamente que o discurso pode parecer convincente, mas é
geralmente falso. O interesse de qualquer partido e candidato é manter-se no
poder e isso pressupõe manter a governabilidade. Instabilidade financeira,
inflação, altas taxas de desemprego, etc., não é interesse de nenhum governo,
pois lhe retira apoio, legitimidade e possibilidade de manutenção no poder. Se
isso ocorre, é geralmente por causa de forças externas e independente da
vontade de cada governo (crise mundial, por exemplo). Tanto é que o medo de
Regina Duarte não foi comprovado. Da mesma forma, os programas sociais não
seriam retirados se dão retorno eleitoral, a não ser que a situação exija.
Assim, de qualquer forma, dificilmente há justificativa para o medo, pois não
tende a ver mudança fundamental nos elementos que se utilizam para balançar tal
bandeira.
Isso pode ocorrer em alguns casos, quando há excesso de
incompetência ou quando o futuro governo tem realmente alguma grande diferença
programática e política com o partido no poder durante a eleição. No caso das
eleições de 2014, isso não existia, pois os dois partidos em disputa são
neoliberais e seguem as diretrizes do grande capital transnacional. Basta
recordar o protótipo do programa “bolsa família”, cuja origem é neoliberal, foi
gestado no Banco Mundial[8],
implantado pelo governo do PSDB e mantido com algumas poucas modificações pelo
governo do PT. Com o retorno eleitoral que ele já promoveu, nenhum governo o
jogaria na lata de lixo. O mesmo ocorre com diversas outras iniciativas
governamentais, o máximo que pode ocorrer é trocar algumas pessoas que estão na
gestão dos programas e é aí que está a verdadeira disputa. Claro está também
que muitos governos dizem ter realizado conquistas que, no fundo, é produto do
desenvolvimento capitalista (o uso de computadores e celulares, por exemplo,
tanto é que se espalhou por todo o mundo, mesmo em países muito mais pobres) e
dizer mentiras faz parte do jogo eleitoral.
É sempre o partido governista que usa esse estratagema, pois
ele é conservador, pois apresenta a tendência da situação piorar com um governo
de outro partido e visa apenas conservar as supostas “conquistas”. Isso pode
ser reforçado por vínculos, práticas, rótulos, etc., atribuídos (reais ou não)
ao adversário.
A manipulação do medo, no entanto, não atinge todo o
eleitorado, mas somente parte, que se reconhecem nas supostas “conquistas”
(alguns são “convencidos”), os que obtiveram privilégios, os que pensam que
realmente pode piorar e atingi-los.
Isso acaba desviando da verdadeira questão: na verdade, quem
perderá pessoalmente é apenas os indivíduos com cargos, vantagens e privilégios
por estarem ligados ao bloco dominante expresso pelo partido no governo. Em
todo o processo eleitoral, o que se troca são as forças provisórias do bloco
dominante (indivíduos, partidos, grupos de interesses, etc.) e para esses, realmente
é necessário ter medo, pois vão perder algo, sem dúvida.
No caso brasileiro, além do jogo de interesses dos
componentes do bloco dominante, perdas reais podem ocorrer, mas isso muito mais
por causa da tendência do capitalismo mundial e da dinâmica do capitalismo
brasileiro do que por qualquer outra coisa. Sem dúvida, quando o ciclo de
crescimento chega ao fim, ele gera problemas e necessidade de reajustes. As
políticas estatais de assistência social tendem a diminuir, bem como outros
investimentos podem recuar, mas tanto faz quem será o governo, nenhum dos dois
partidos em disputa nas eleições tem uma concepção e projeto alternativo ao
neoliberalismo e por conseguinte as diferenças são tão pequenas que até que
poderiam juntar e fariam juntos o mesmo mal que fariam separados.
A grande questão é que o medo gera retraimento e
conservadorismo. Por isso é necessário substituir o medo pela coragem, pelo
desafio. Ao invés de escolher entre ficar do jeito que está com algumas
promessas de poucas melhorias ou de supostas mudanças é preciso escolher a
utopia, a luta pelo que é realmente novo e radicalmente diferente. Escolher
entre ser um escravo com o dono X ou com o Y não é escolha. A única escolha
digna é abolir a escravidão, os escravos e os donos. Sonho irrealizável? Melhor
viver e lutar por um sonho irrealizável do que viver num pesadelo cotidiano e
constantemente renovado, recorrente[9].
Ao invés de medo e apoio à reprodução do mundo existente,
devemos recusar, nas urnas com o voto nulo, e na vida, com diversas ações e
lutas, para superar esse mundo que algumas pessoas ainda insistem em defender,
apesar de 1 em cada 7 seres humanos estar passando fome no mundo, da destruição
ambiental em escala mundial (e que pode se tornar irreversível), da
superexploração da força de trabalho, da miséria psíquica, sexual, cultural, e
milhões de outras coisas que poderiam ser elencadas e que são apoiadas e
reforçadas por todos os governos de todos os partidos (inclusive os da
esquerda).
O único caminho alternativo é sair do discurso dominante e
de suas supostas divergências, pois divergem dentro da convergência da
reprodução do capital e tudo que é derivado dele e foi citado anteriormente.
Medo? Do que deveriam ter medo não têm, pois só conseguem ver o cotidiano, as
coisas palpáveis, a vida medíocre e suas necessidades imediatas. Coragem? Essa
é necessária para mudar o mundo.
A Alienação Generalizada
O desejo fetichizado, tal como abordamos anteriormente, não
emerge do nada, ele tem uma fonte social. Nesse sentido, é fundamental entender
as fontes do desejo fetichizado, não só para compreendê-lo, mas também para
poder pensar sua superação, o que pressupõe romper com a alienação, o
burocratismo, o imobilismo e o conformismo, condições para uma verdadeira
esperança e utopia concreta.
O desejo fetichizado ocorre sob várias formas e uma delas é
o fetichismo eleitoral. Assim como o fetichismo da mercadoria é explicado pela
existência do trabalho alienado, o desejo fetichizado (ou fetichismo eleitoral)
é explicado pela generalização da alienação na sociedade capitalista. O
trabalho alienado é aquele no qual o trabalhador não possui controle de sua
atividade e com isso perde o controle do produto do seu trabalho, gerando a alienação
do produto (propriedade privada). A alienação é, assim, uma relação social na
qual alguns controlam a atividade de outros e assim usurpam o produto da mesma[10].
Esse processo é mais amplo do que parece à primeira vista, pois a sociedade
capitalista realiza um processo de ampliação da divisão social do trabalho,
mercantilização e burocratização das relações sociais. A burocratização das
relações sociais acaba gerando um processo de controle da vida cotidiana dos
indivíduos, através do Estado e seus aparatos (democracia burguesa, aparato
repressivo, aparato educacional, aparato comunicacional, etc.) e as empresas e
instituições privadas, promovendo também a burocratização da sociedade civil em
geral (igrejas, partidos, sindicatos, etc.). Esse processo atinge o conjunto da
sociedade, desde 1945. Os indivíduos passam a estar submetidos a diversas
instâncias sociais que dirigem sua vida em geral. Os indivíduos são controlados
no trabalho, nos estudos, no lazer, estando submetidos a especialistas e
burocratas em todos os lugares.
A alienação generalizada da sociedade capitalista promove a
mentalidade burocrática, tanto a de caráter dirigista daqueles das classes superiores,
especialmente os burocratas (do estado e governos, empresas, instituições em
geral) quanto a sua versão submissa dos dirigidos em sua maioria. O que ambos
concordam é que há a necessidade de dirigentes e dirigidos. Tantos os
indivíduos das classes superiores quanto os das classes inferiores, em sua
maioria, aceitam a alienação. Nas classes inferiores, uma grande parte aceita resignadamente,
enquanto que outra parte aceita por ambicionar passar de dirigido para
dirigente, esperando ascender ao poder.
A mentalidade burocrática é a do controle total e dirigista,
produzida e reproduzida por burocratas, capitalistas e pretendentes. Para
aqueles que são das classes exploradas, isso se revela, em grande parte dos
casos, como submissão e se manifesta mais como mentalidade submissa que
justifica e legitima a dominação e direção. A nível da sociedade, isso reforça
a estratégia burguesa de canalizar todas as lutas sociais para o Estado, via
democracia representativa, na qual as pessoas trocam sua luta direta por
escolha de representantes, adesão a partidos e candidaturas, etc., o que
significa, em alguns casos, abrir mão da luta para que outro supostamente a
faça em seu lugar e em seu nome.
Assim, temos relações sociais concretas marcadas pela
alienação e burocratização e mentalidade burocrática e submissa gerada por tais
relações e confirmadas cotidianamente por elas e pela própria mentalidade que
lhe reforça. Nesse contexto, existe uma recusa da alienação, do burocratismo,
do controle e falta de liberdade, mas em grande parte dos casos é insciente ou
relegada a mero desejo fetichizado. Aqui temos um processo de alienação
generalizada e produção de desejo fetichizado.
O processo de superação do desejo fetichizado de liberdade e
de eliminação da burocracia e da alienação, elementos inseparáveis, ocorre
através da luta e, especialmente, da práxis.
A luta é necessária e é a primeira forma de liberdade e superação da alienação
e burocratismo, pois nós mesmos agimos em busca da liberdade, já sendo sua
manifestação inicial. Contudo, isso deve ser teleológico (com uma finalidade, a
liberdade real, autoemancipação e autogestão das lutas visando a autogestão
social), consciente e ativo, por isso práxis.
A negação prática é mais rica, profunda e eficaz quando é também negação
consciente e teórica.
Ora, se há uma alienação generalizada na sociedade
capitalista, então devemos lutar também sob forma generalizada contra ela.
Trata-se de uma luta generalizada visando instaurar e generalizar a autogestão
(das lutas para conseguir torná-la autogestão do conjunto das relações sociais,
ou seja, da sociedade como um todo). Esse processo de luta não pode ser, no
entanto, separado das relações sociais existentes e por isso não é num esforço
de imaginação que isso se realiza ou de um dia para o outro. Se alguns
indivíduos buscam e tentam efetivar isso, eles encontrarão a oposição da classe
dominante, do Estado, do capital, bem como de suas classes auxiliares e até
mesmo de amplas parcelas das classes exploradas que ainda não terão superado
alienação generalizada e a hegemonia burguesa. Inclusive haverá oposição das
próprias pessoas que querem a transformação radical, em sua mentalidade, pois
ninguém rompe com a mentalidade dominante e milhares de outros elementos
culturais e sociais de uma hora para outra e em sua totalidade. Esse é um
processo de luta onde milhares estão lutando e por isso é preciso lutar contra
nós mesmos em muitos aspectos, principalmente tendo em vista que nem tudo que é
apresentado como “revolucionário” o é realmente. É preciso entender que muito
do que se coloca como contestador é, no fundo, mera luta por vantagens
competitivas dentro do capitalismo e isso acaba criando divisões e promovendo
influências para os que acreditam em tais discursos. Por isso a reflexão deve
ser mais profunda.
Assim, a luta cultural tem um papel fundamental, bem como a luta
em todos os lugares e sob variadas formas. O voto nulo autogestionário (ou
seja, vinculado à luta pela autogestão) e a luta antiparlamentar é uma dessas
formas – que não é a única e nem a mais importante, pois existem milhares de
outras, inclusive mais profundas e necessárias. A questão é que o voto nulo (ou
abstenção) é uma ação que não é dirigida por ninguém, o que significa que é uma
forma de luta que rompe tanto na prática quanto na consciência, com a alienação
e o burocratismo. Nesse sentido, é um dos lugares de luta, que não pode, no
entanto, aparecer como o único ou principal, bem como esse fato não deve servir
de pretexto para omissões oportunistas e convenientes a nível pessoal de
supostos revolucionários, que querem evitar conflitos e problemas e ficar em
sua situação de conforto nas relações sociais com conservadores, oportunistas,
etc.
Obviamente que existem outras consequências do voto nulo
(protesto, deslegitimação da democracia burguesa e estado capitalista, etc.),
principalmente se articulado com outras lutas, tal como a luta cultural mais
geral, a luta pela formação de organizações autárquicas (formas de auto-organização)
e autoeducação da população em seu conjunto, o projeto autogestionário, etc.
Nesse sentido, a luta[11]
pelo voto nulo é um processo de superação do desejo fetichizado e elemento da
luta cultural pela autogestão social e contra a alienação generalizada do
capitalismo. A superação do desejo fetichizado pode ser conquistada, em alguns
casos individuais, com a luta cultural e pelo voto nulo autogestionário, mas é
com a superação da alienação generalizada no conjunto das relações sociais que
isso pode ocorrer de forma também generalizada.
[1]
Não utilizamos o termo “irracional” da mesma forma que outros autores ou no
sentido comum da palavra. Para nós, o irracional (e a irracionalidade) é um
fenômeno mental caracterizado pelo predomínio absoluto de uma sensitividade
prejudicial sobre a racionalidade. A sensitividade são as energias psíquicas
manifestas pela sentimentalidade, temperamento, inconsciente. A sensitividade
não é algo positivo nem negativo, pois depende de quais sentimentos, emoções,
etc. se trata. Porém, uma sensitividade pautada em determinados sentimentos
(antipáticos) e outros processos psíquicos problemáticos, predominando de forma
absoluta na mente humana, torna-se prejudicial para o indivíduo e para a
sociedade.
[3] Trata-se, aqui, de psicanálise social, e não
o freudismo ortodoxo ou as ideologias psicanalíticas de Lacan, Klein e outros.
Além de Freud, é possível citar Fromm, Adler, Jung, Schneider, entre outros,
bem como a “sociologia psicanalítica” de Mannheim e Roger Bastide, que poderiam
ser aqui utilizadas. No entanto, a sociopsicanálise assimila elementos dessas
abordagens, especialmente o freudo-marxismo, a partir do marxismo e na
sequência de nossas obras sobre psicanálise e temas correlatos.
[5] A expressão popular “fezinha” (fezinha é
diminutivo de fé) é usada quando uma pessoa vai apostar numa casa lotérica.
[6]
Cf. http://www.youtube.com/watch?v=DEeNSkXn5mY&list=RDDEe-NSkXn5mY#t=27
[7]
Cf. http://www.youtube.com/watch?v=ZJA_LkP0lBE.
[8]
Veja: http://votonuloautogestionario.blogspot.com.br/2014/10/o-banco-mundial-e-as-origens-do-bolsa.html
[9]
Algumas pessoas de esquerda ainda não entenderam que o projeto autogestionário
não está buscando carro, casa, comida, distribuição de renda, salários elevados
e sim abolição da pobreza em geral, relações sociais radicalmente diferentes,
abolição do salariato, do Estado, do capital. As discussões mesquinhas sobre
desenvolvimento econômico, salário, privilégios, renda, migalhas, entre outras,
são “projetos” do capital e para o capital, visando se reproduzir. Um mundo
novo é o que está contido no projeto autogestionário, o resto é ilusão e
mediocridade, tanto faz qual o governo que reproduzirá isso.
[10]
Sobre alienação, cf.: VIANA, Nildo. Karl
Marx: a Crítica Desapiedada do Existente. Curitiba: Prismas, 2017.
[11]
Luta e não “campanha”, pois quem faz campanha são os políticos profissionais e
partidos políticos. Embora isso não nos faça, como alguns, condenar aqueles que
usam tal terminologia (“campanha pelo voto nulo”) como se isso fosse
fundamental e motivo para divisionismo, pois apenas sugerimos a mudança e
usamos outra linguagem e se houvesse menos “sectarismo” e “dogmatismo”, muitos
poderiam alterar, sendo que poucos fazem isso e outros avançam mas fazem
questão de fazer de conta que não sabem a fonte de tal alerta e criticam os que
chamaram atenção para o fato e inventam críticas infundadas para manter sua
luta por espaço ao invés de buscar a solidariedade revolucionária, compromisso
com a verdade e reconhecimento da luta dos demais.
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Publicado em: PEIXOTO, Maria Angélica (org.). Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano. Goiânia: Edições Enfrentamento, 2020.
O Curso de Extensão "Psicanálise e Sociedade" visa apresentar uma reflexão sobre a contribuição da psicanálise para a compreensão da sociedade e para a teoria da sociedade. Para tanto, o curso inicia com uma análise da contribuição do fundador da psicanálise, Sigmund Freud, através de seus escritos que abordam a sociedade. Num segundo momento, o curso apresenta as contribuições de Erich Fromm e Michael Schneider e, por fim, faz um balanço teórico geral sobres as contribuições psicanalíticas para o estudo da sociedade através das análises psicanalíticas da sociedade e fenômenos sociais e como as concepções sociológicas e marxistas contribuem para se pensar o universo psíquico dos indivíduos.
O curso de extensão “Psicanálise e Sociedade” é parte de um “projeto de extensão” mais amplo, intitulado “Psicanálise e Sociedade – A contribuição psicanalítica para pensar o social”, que inclui o curso já realizado “Introdução à Psicanálise”, o curso em andamento “Introdução à Psicologia Social”, outros cursos planejados que serão ministrados posteriormente, e inclui também pesquisa, estudos e publicações, assim como ciclo de palestras complementar ao curso. Inscrição gratuita para participantes do curso "Introdução à Psicologia Social" (clique para acessar e se inscrever).
Exposições:
Psicanálise e sociedade em Freud - Dr. Jean Isídio dos Santos
Erich Fromm e a Psicanálise da Sociedade Contemporânea - Dr. Nildo Viana
Psicanálise e Sociedade em Michael Schneider - Dr. Rubens Vinicius da Silva
Psicanálise e Teoria da Sociedade: Encontros e Desencontros - Dr. Nildo Viana
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Para onde vai o capitalismo? Tecnologia, Guerra e Destino da Humanidade
O curso tem como objetivo proporcionar um debate sobre o capitalismo contemporâneo focalizando as tendências atuais diante do aceleramento do desenvolvimento tecnológico e do cenário de guerras e possibilidade de sua ampliação a nível mundial. Assim, compreender o capitalismo contemporâneo, caracterizado pelo regime de acumulação integral, com suas contradições, é fundamental para entender as tendências contemporâneas. Outro elemento fundamental é compreender a historicidade dos regimes de acumulação e a dinâmica geral do desenvolvimento capitalista. Por fim, a análise das evoluções mais recentes – especialmente o desenvolvimento tecnológico acelerado e a ameaça de ampliação das guerras – fecha o quadro analítico e permite a compreensão das tendências contemporâneas.
Na época do regime de acumulação integral, a sociedade capitalista enfrenta diversas situações problemáticas. Uma delas é o desenvolvimento tecnológico que se acelerou nos últimos anos e gera efeitos ainda não totalmente compreendido. A dinâmica do desenvolvimento tecnológico, no entanto, ainda continua e isso traz diversas incertezas, tais como o significado e efeitos da tecnointeligência (Inteligência Artificial), automação, etc. Por outro lado, as incertezas aumentam com a ameaça de expansão de conflitos interimperialistas sob a forma de guerra. Esses fenômenos são acompanhados por outros, como o mal-estar psíquico crescente, o declínio intelectual da população, polarizações políticas e morais, entre diversas outras. Nesse contexto, as incertezas e dúvidas se avolumam mesmo nos setores intelectualizados da sociedade e isso justifica a necessidade de ampliação da compreensão desses processos e busca de intervenção no sentido da transformação social radical e total para evitar a catástrofe que se anuncia.
O curso se realizará em encontro único, com quatro horas de duração (09:00-12:00). O encontro será dividido em uma parte mais extensa para exposição e outra, no final, para depoimentos e debates.
CERTIFICADO E INSCRIÇÕES: As inscrições podem ser feitas abaixo. São apenas 35 vagas. A inscrição e presença no dia do curso confere o direito de certificado de participação de 6 horas/aulas.
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Por Nildo Viana
A reflexão realizada até aqui deixou entrever a
existência de determinadas formas de discurso: discurso escrito e discurso
falado, bem como formas de discurso escrito e discurso falado. As formas podem
ser simples (protótipos discursivos) ou complexas (gêneros discursivos). O
leitor atento, no entanto, percebeu o uso de diversos termos para nos
referirmos a manifestações discursivas específicas: discurso redundante,
discurso retórico, discurso prolífico, discurso prolixo, discurso dialogal,
discurso apócrifo, discurso coletivo, etc. Uma infinidade de manifestações
discursivas emergiu na presente obra. Essas diversas manifestações do discurso
não seriam “formas de discurso”?
Aqui entramos numa questão metódica
fundamental. Não será possível, aqui, desenvolver isso, mas é necessário uma
breve explicação e indicação bibliográfica para aprofundamento. As formas do
discurso são processos reais, concretos, que apreendemos em nossa consciência
através das categorias dialéticas de forma e substância (ou “conteúdo”). Essas
categorias foram discutidas na obra A Dialética Revolucionária (Viana,
2024a). Toda forma é a forma de uma substância, como disse Marx e enfatizou
Korsch (2026). Assim, as formas de discurso são manifestações formais de uma
substância específica que é o discurso. Esse é o processo dialético de análise
em geral e que vale, obviamente, para a análise do discurso.
Porém, uma substância, um ser, tal como uma
parte da realidade, é algo complexo (e aqui emerge outra categoria da
dialética), pois além de sua essência, possui um conjunto de outros aspectos.
Para entender um determinado ente (um ser específico), um fenômeno, eu tenho
que entender sua substância, sua essência, e suas formas históricas e concretas
de manifestação. Note-se que aqui estou no âmbito do que é essencial e suas
formas de manifestação. Um ser, no entanto, em seu processo concreto de
existência, possui muitos outros aspectos. A essência do discurso foi
apresentada em seu conceito. Esse conceito, no entanto, não abarca a totalidade
do discurso, apenas o que é essencial. As formas de discurso, por sua vez, apresentam
essa essência em suas formas existenciais.
Dito isto, fica claro que se o discurso é ou
não redundante, se é sério ou cômico, entre diversos outros aspectos que
poderíamos enfatizar (e, em certos contextos, o fizemos), não é uma
manifestação formal dele. É um aspecto dele. E a discussão sobre os aspectos
(Viana, 2024) não poderá ser retomada aqui, mas é possível dizer que eles são
características inessenciais do ente ou fenômeno em questão. A reflexão sobre
as formas de violência ajuda a entender isso. Muitos classificam tais formas
pelas suas vítimas (violência contra a mulher, contra a criança, contra os
imigrantes, etc.) ou pelo lugar no qual ela ocorre (violência urbana, violência
rural, violência doméstica, etc.). Outros usam outros critérios para
classificar as formas de violência. Contudo, não se trata de formas de
violência e sim de aspectos selecionados pelo classificador. O mesmo vale para
“formas de discurso”, no qual se usar o termo “forma” equivocadamente (da
perspectiva dialética). Contudo, o uso da expressão “formas”, quando o objetivo
é classificar a violência em suas formas de manifestação, é equivocado, mas há
o uso irrefletido que não remete exatamente para essa ideia mais específica.
Nesse sentido, quando se afirma que está tratando das formas de violência e
cita a “violência econômica”, “a violência pedagógica”, “a violência juvenil”,
“a violência revolucionária” (Barreiro, 1978)[1],
se comete um equívoco.
A questão que emerge a partir disso é: então
como entender essas outras maneiras de se referir a outras manifestações
discursivas? Quando selecionamos um aspecto do fenômeno e o distinguimos de
outros aspectos ou comparamos ou relacionamos com outros fenômenos a partir
disso, estamos tratando de tipos e não de formas. Essa é a origem das
“tipologias”. Sem dúvida, a maioria das tipologias são sistemas
classificatórios abstratificados e aleatórios. E elas são mais problemáticas
quando se apresentam como “formas”. Os tipos ideias weberianos, por exemplo,
são limitados, pois não captam a essência do fenômeno, assim como a tipologia
durkheimiana (Weber, 2004; Durkheim, 1974).
Assim, discurso individual e discurso coletivo
se referem a tipos de discurso. Não são formas de discurso, mas sim uma
tipificação na qual se destaca o aspecto do caráter individual ou coletivo da
produção discursiva. Podemos fazer inúmeras tipificações a partir de diversos
aspectos dos seres, tal como no caso do discurso. Assim, quando Max Pagès
(1993) distingue, equivocadamente, entre “discurso subjetivo” e “discurso
objetivo”[2],
está realizando uma tipificação que enfatiza um aspecto do discurso. Ao
contrário das tipologias e seu aspecto abstratificante ou arbitrário, a
tipificação é um processo consciente que encontra em determinados entes ou
fenômenos aspectos que podem gerar tipos, o que é útil para a pesquisa e a
compreensão da realidade.
Nesse sentido, as formas de discurso são
aquelas que foram trabalhadas ou citadas enquanto tais no presente capítulos e
todas as demais referências a outros discursos estão se referindo a tipos de
discurso.
[1] Diversos autores que
realizam tal processo poderiam ser citados, contudo, não é nosso objetivo
abordar essa questão, razão pela qual nos restringimos a apenas esse autor. Nós
mesmos não tínhamos consciência desse processo quando abordamos pela primeira vez
o fenômeno da violência (Viana, 1999), pois foi o desenvolvimento de nossas
reflexões sobre a realidade e sobre a dialética que permitiram a percepção
disso.
[2] Realizamos uma crítica
dessa concepção e apresentamos termos distintos: discurso idiossincrático (ao
invés de “subjetivo”) e “discurso consensual” (ao invés de “objetivo”) (Viana,
2016).
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O presente texto é um apêndice que está no livro "Análise Dialética do Discurso":
VIANA, Nildo. Análise Dialética do Discurso. Teoria, Linguagem, e Discurso. Tomo 01, Vol. 01, Goiânia: Ragnatela, 2026.