COMO OS PAIS ESCOLHEM OS NOMES DOS FILHOS?
Nildo Viana
A escolha dos nomes dos filhos revela processos sociais
complexos que, à primeira vista, são imperceptíveis. Por qual motivos os pais
escolhem determinados nomes para seus filhos? Esse é um elemento da vida
cotidiana pouco refletido e, quando se pensa sobre ele, é sob forma mais
opinativa do que com embasamento mais profundo. Não pretendemos apresentar uma
pesquisa mais profunda sobre o tema, mas tão somente algumas considerações
gerais com embasamento teórico e metódico implícito, para incentivar uma reflexão
(e talvez pesquisas) sobre o processo de escolha do nome dos filhos.
A sociedade moderna é marcada por um processo cada vez mais
amplo de abstratificação, o que é verificado mais facilmente com o uso de
siglas, nomes estrangeiros, etc. Se uma pessoa for de ônibus de uma cidade para
outra e observar as existentes entre elas, poderá perceber o nome dos bares,
mercados e lojas comerciais em geral, nas pequenas cidades do interior (e em
cidades médias ou mesmo periferia de cidades grandes), são mais personalizados,
possuindo nomes de pessoas. É assim possível ver nomes como “Boteco do Chico”,
“Bar da Lourdes”, “Mercado do Raimundo”. A relação entre o dono ou família (via
nome do dono ou apelido, ou então via sobrenome familiar) e o comércio é
perceptível.
O processo de modernização altera essa forma de nomeação. A modernização instaura o
predomínio da abstratificação e dos nomes estrangeiros. O primeiro é derivado
da expansão da episteme burguesa (Viana, 2018; Viana, 2019), que é uma
infraestrutura do pensamento que gera um modo de pensar subjacente e hegemônico
na sociedade capitalista, e sua reprodução até ao nível das representações
cotidianas, gerando um processo crescente de abstratificação. Com o processo de
modernização, até os setores mais tradicionais e não-capitalistas acabam sendo
submetidos ao seu processo de abstratificação. As siglas são o caso mais
explícito desse processo. Elas retiram a concreticidade das instituições, permitem
o processo de eufemização, etc.
Os nomes estrangeiros são oriundos do domínio imperialista
(com a exceção de proprietários que trazem nomes de seus países e vínculos com
determinadas mercadorias com suas nações de origem, como nomes de restaurantes
de comidas típicas de outros países) e por isso há o predomínio do idioma
inglês na sociedade brasileira. Doravante, os nomes passam a ser “Nevada Beer”,
“Classe A Grill”, “Texas Restaurante”, “The Liquor Store”, “The Blue Pub”. O
imperialismo gera uma dominação cultural internacional que provoca o predomínio
do idioma inglês, mas, de acordo com a hierarquia do bloco imperialista, também
gera a força de outros idiomas dos países imperialistas, como o francês,
italiano, espanhol, etc., mas em menor grau. O uso de termos de outros idiomas,
além da imposição idiomática, gera um processo de insciência do sentido para
muitos, bem como a reprodução de uma hierarquia social, em certos casos, ou
simplesmente aculturação acrítica, em outros casos.
Assim, a modernização traz um processo de abstratificação
que se amplia cada vez mais. Alguns querem manter elementos de tradição e por
isso misturam a tradição e o moderno, colocando, por exemplo, nomes de pessoas
complementados por nomes em inglês ou adaptando-os a tal idioma, bem como
refinamento do tradicional, com nomes que querem aparecer como uma grife, assim
como outras estratégias mercantis e mercadotécnicas (“marketing”) em busca de
um nicho de mercado específico.
O que tem isso a ver com a escolha dos nomes dos filhos? O
caso dos nomes de estabelecimentos comerciais ajuda a entender o processo de
escolha de nome dos filhos, embora este tenha especificidades. Os nomes dos
filhos também se envolvem na passagem do tradicional para o moderno. Em algumas
famílias, especialmente as mais extensas (que possuem muitos filhos), quando se
passa um tempo considerável entre a data de nascimento dos mais velhos e dos
mais novos, é possível notar que o nome dos que nasceram primeiro são os que
predominavam na época e os nomes dos que nasceram por último já são mais
modernizados. Os primeiros podiam se chamar Antônio, João, José, Francisco; os
últimos Bruno, Thiago, Patrícia.
Os nomes de origem bíblica perdem espaço para nomes de origem de personagens de
cinema e televisão, e, especialmente no caso brasileiro, de novelas. Sem
dúvida, essa realidade vem se alterando com a diminuição da audiência de
telenovelas.
Quando os pais escolhem os nomes dos filhos existem diversas
determinações. Porém, existem diferenciações sociais nesse processo. Os pais
que pertencem às classes sociais superiores tendem a escolher nomes mais
discretos e considerados, por eles mesmos, como “elegantes”. Porém, existem
variações (o foco aqui é o caso brasileiro, mas esse processo se reproduz, com
diferenciações e especificidades, em todos os países, obviamente que com nomes
do idioma nativo), dependendo da região, da classe social (burgueses,
latifundiários, alta burocracia), etc. Em muitos casos o sobrenome da família e
os nomes dos antecessores são valorados e um elemento presente na escolha dos
nomes. Isso ocorre mais nos casos de famílias mais tradicionais e rurais, mas
também em setores mais modernizados quando a família tem muita tradição, poder
e riqueza.
Em um setor das classes superiores, especialmente na classe
intelectual, os nomes podem ser portadores de determinados sentidos e valores
(explícitos ou implícitos). Isso, no entanto, vai além da classe intelectual e
atinge os meios intelectualizados em geral. Assim,
nomes de figuras históricas importantes (Alexandre, Júlio César e outros,
vinculados aos imperadores romanos ou reis de diversas regiões)
são, muitas vezes, escolhidos por causa dos valores dos pais, como poder, status,
etc. Já nos meios progressistas e nos meios revolucionários, que são parte dos
meios intelectualizados, determinados nomes emergem, tais como os de intelectuais,
líderes políticos, ativistas, militantes revolucionários. Existem ativistas e
militantes que colocam nome nos filhos de representantes de sua corrente
política, tal como “Durruti”,
Marx (ou Karl Marx), Lênin (ou “Lenine”), Engels, etc.
Um caso muito curioso, embora nesse caso vinculado ao conservadorismo. é o de
um delegado de Goiânia que tinha como nome “Hitler Mussoline” (com “e” no
final, não se sabe o motivo).
Existem também algumas famílias que definem o nome dos
filhos pela mensagem repassada pelo nome. Nesse caso, muitos fazem uma pesquisa
sobre o sentido dos nomes para realizar a escolha. Esses podem ser denominados
“nomes-mensagens”. Assim, o nome Anita pode ser escolhido pelo suposto
significado atribuído a tal nome que, hoje, pode ser encontrado em pesquisa na
internet: “O nome Anita tem origem hebraica, derivado de Hannah, e
significa “graciosa” ou “cheia de graça”. Funciona principalmente como um
diminutivo carinhoso de Ana, popularizado em países de língua portuguesa e
espanhola, carregando uma conotação de delicadeza, favor divino e,
historicamente, força, como no caso de Anita Garibaldi”. Ou
seja, alguém que possui o nome “Anita” pode ser originado da mensagem que o
nome passa. Porém, essa é apenas uma possibilidade, pois pode ser também por
causa de uma cantora famosa com o mesmo nome (embora fosse “nome artístico”), a
minissérie televisiva da Rede Globo no início dos anos 2000 chamada “Presença
de Anita” (que dizem que influenciou a escolha da cantora) ou sua
protagonista, ou vínculo com figuras históricas, como a citada acima, Anita
Garibaldi, ou, ainda, por sua presença na bíblia, mas o que interessa aqui é o
caso do nome-mensagem.
Porém, não é isso que ocorre nas classes sociais inferiores. Nas
classes inferiores existem algumas formas predominantes de escolher o nome dos
filhos. Uma delas é a escolha aleatória, que é quando os pais não possuem
critérios e nem ideias a respeito de nomes. Há algum tempo atrás alguns
compravam em bancas de revistas livretos com listas de nomes (ou até mesmo
livros) para poder escolher. Hoje muitos apelam para listas disponíveis em
sites e blogs da internet. Alguns desses livros (e sites) estabelecem relação
dos nomes com horóscopo, pessoas famosas, sentido, etc.
Existe também a escolha influenciada pelos meios
oligopolistas de comunicação, especialmente rádio, cinema e TV. Muitas vezes os
nomes são escolhidos a partir de personagens de filmes, mas, no caso
brasileiro, especialmente novelas. Assim, uma novela de sucesso tende a
inspirar várias famílias a escolher os nomes dos protagonistas, mas também de
outros personagens que são coadjuvantes. Por exemplo, a novela Selva de
Pedra (a original, de 1972), tinha como principal personagem Simone,
interpretada pela atriz Regina Duarte, que ficou famosa e conhecida
nacionalmente, através dos meios oligopolistas de comunicação (revistas,
jornais, etc.) como “namoradinha do Brasil”.
Esses nomes aparecem num Ranking dos 20 mais utilizados no Brasil nessa
década, com Regina ficando em 14º lugar e Simone em 20º lugar.
Claro que existiram vários outros motivos para os pais escolherem tais nomes,
mas um elemento que provavelmente contribuiu para alguns o escolherem foi esse.
Existem os casos também de escolha do nome por causa do protagonista e de
valores vinculados a ele. Esse é o caso da novela O Semideus, cujo
protagonista era um capitalista (um industrial milionário) e cuja ostentação
era comum nos anos 1970, chamado Hugo Leonardo, o que pode ter motivado a
escolha desse nome.
Outra forma como o capital comunicacional influencia a
escolha de nomes é através de pessoas famosas de outras áreas que são
divulgadas por eles, como nome de presidentes, papas, artistas diversos. Nos
anos 1990, muitos filhos foram batizados como “Fernando Henrique” (e aumentou
efetivamente o uso desses dois nomes isolados), nome do então presidente da
República (Fernando Henrique Cardoso) por dois mandatos consecutivos. Outra “fonte
de inspiração” comum, no caso de nomes masculinos, são nomes de jogadores de
futebol. Uma determinação menos influente é a derivada de algumas músicas que
usam como título e/ou “tema” determinados nomes. O “tema”, na
verdade, é uma determinada pessoa – real ou fictícia – ou relação com ela, e o
nome, que pode ser inspirado em indivíduos reais ou não, é a forma de dar-lhe
uma denominação, que pode carregar um significado ou não. Esse é o caso de
músicas como “Andrea”, de Abílio Manuel,
ou então Luísa, de Tom Jobim,
e existem músicas que trazem nomes diversos, geralmente femininos, como Alice,
Alexandra, Júlia, Maria, Clareana, etc.,
e, em menor grau, alguns masculinos, como Gabriel ou Patrick,
ou, ainda, nomes religiosos.
A beleza e/ou o sucesso da música, sem dúvida, aumenta a influência.
Um setor das classes inferiores escolhe o nome dos filhos a
partir de seus vínculos religiosos. Assim, muitos católicos e evangélicos
escolhem nomes bíblicos: Jonas, José, Lucas, Maria, Paulo, Isaías, entre
inúmeros outros. Alguns buscam nomes menos famosos retirados da bíblia. Mas não
é só a bíblia que é fonte inspiradora de nomes, pois indivíduos reais como
líderes religiosos e santos podem inspirar a escolha de nomes, como “Agostinho”,
“Lutero”, entre outros. Outro processo comum é a escolha de nomes por vínculos
afetivos, tal como o nome dos pais e parentes, o que faz proliferar os
sobrenomes “Júnior”, “Filho”, “Neto” e, em casos mais raros, “Sobrinho”. Porém,
amizades e pessoas admiradas também podem gerar escolha de nomes. Isso, no
entanto, é diferente do caso de pessoas que escolhem nomes de reis e
presidentes sem vínculo de admiração, mas é difícil diferenciar um caso de
outro.
Contudo, especialmente, mas não unicamente, nas classes
sociais inferiores existe uma tendência de escolher o nome pelas “modas”
sucessivas que ocorrem. Em certo momento, determinados nomes se tornam bastante
utilizados e por um efeito de “difusão social” acabam predominando como
escolhas mais populares. Assim, se torna compreensível o que afirmamos
anteriormente sobre famílias extensas nas quais existe uma diferença nos nomes
devido à época de nascimentos dos filhos. Os mais novos tendem a ter nomes mais
condizentes com os nomes mais populares no momento. Um professor percebe isso
ao olhar sua lista de chamada e notar a existência de diversos alunos com o
mesmo nome, tal como Mateus, Lucas, Thiago, etc. Mais recentemente, outros
nomes entraram na moda (em parte por influência dos meios oligopolistas de
comunicação) como Enzo, Gael, Valentina, etc. Isso é predominante nas classes
inferiores, mas também ocorre em setores das classes superiores.
Isso vale não apenas para os nomes, mas também para alguns costumes
de nomeação. Por exemplo, algumas famílias tinham como costume usar a mesma
letra inicial no nome de todos os filhos (todos os nomes começam com a letra M,
por exemplo). Claro que isso é para famílias mais extensas, pois no caso de
dois filhos, pode ser mera coincidência. Outro hábito nas classes inferiores
mais recentes, é o uso de nomes estrangeiros ou de determinadas letras, como Y
e K ou repetição de consoantes. É assim que surge, por exemplo, “Karol com K”
(tal como uma cantora que apareceu no programa televisivo Big Brother Brasil,
Karol Conká, sendo provável que o nome artístico seja um efeito desse processo,
pois seu nome verdadeiro é “Karoline”). Alguns colocam a existência de “misturas
de nomes” e outras “produções criativas”. Nas redes sociais virtuais aparecem
vídeos humorísticos sobre o uso de tais letras nos nomes, bem como outros – de
humor – colocando o rótulo de “nomes de pobres”.
Criaram até um site gerador de “nome de pobres”.
O humor com tais nomes tem um elemento realmente burguês de busca de
“distinção” – para recordar termo do sociólogo Pierre Bourdieu (2007) –, mas
também ocorre por tentativa de “novos ricos” e “pseudorricos” se diferenciarem
dos seus semelhantes (quando podem fazer isso).
Assim, o que se observa é um processo complexo na escolha
dos nomes dos filhos, que varia de acordo com a época, sociedade,
classe social, entre diversas outras determinações. Vários outros elementos
poderiam ser acrescentados, como a questão do “nome artístico” ou “literário”
(e semelhantes, como “nome político”, “nome futebolístico”, etc.), cognomes
(apelidos, no Brasil), pseudônimos e, mais recentemente, nicknames (cognomes
nas redes sociais virtuais ou “nomes de perfil virtual”) e
similares. Porém, deixaremos a questão dos nomes falsos, ficcionais e outras
manifestações de lado, pois não se trata, nesse caso, de escolha de nomes dos
filhos, que é o nosso tema aqui.
Sem dúvida, um outro elemento importante é o efeito da
escolha dos nomes dos filhos. Até recentemente, e para muitos que não gostam e
não mudaram de nome até hoje, mas havendo a possibilidade legal de fazê-lo
(seja por desinformação, dispêndio de tempo e energia, comodismo, desinteresse,
etc.), o nome atribuído pelos pais acompanha o indivíduo durante toda a sua
vida. Uma das alternativas mais populares é o cognome. O próprio uso de
cognomes mostra, em alguns casos, uma certa insatisfação com o nome. É difícil
entender a escolha de certos nomes, que são considerados “feios” e alguns até
mesmo “ridículos”. Um programa televisivo do final dos anos 1970, Fantástico, apresentou uma reportagem
sobre tais nomes, e aparece o ator Lima Duarte, cujo nome real é Ariclenes, e diversos
nomes diferentes e “estranhos”. Um outro programa mais recente apresentou
diversos nomes estranhos como “Feio”, “Magro”, “Rihanna”, “Bife”, “Pastel”,
“Disney”, entre outros. Mas
outros nomes mais estranhos aparecem: “Chevrolet da Silva”, “Alce Barbuda”, “Amado
Amoroso”, “Amável Pinto”, “Restos Mortais de Catarina”, “Um Dois Três de
Oliveira Quatro”, e uma extensa lista pode ser vista na internet.
No entanto, a veracidade dessas informações disponíveis na
internet é duvidosa. No caso da reportagem do SBT, ele acerta em alguns nomes
(Disney, Rihanna, por exemplo), mas erra nos demais. Magro, Feio, Pastel e Bife
não são nomes e sim sobrenomes. Os sobrenomes são geralmente herdados e alguns são
realmente estranhos, mas tem uma explicação em suas origens. Existem, por exemplo,
vários sobrenomes que são nomes de animais: Coelho, Leão, Lobo, Carneiro, Falcão,
Pinto, etc. No caso, a reportagem falhou ao confundir nome com sobrenome. No
caso do site “Aventuras na História”, que apresenta nomes ainda mais estranhos,
também não sabemos da veracidade. A Reportagem do SBT usou o censo do IBGE, mas
não “percebeu” a diferenciação feita entre “nome” e “sobrenome”. Porém, mesmo
usando os dados do IBGE, a fonte é a autodeclaração dos respondentes.
O site “Aventuras na História”, no entanto, afirma que a sua fonte é um
levantamento da “Associação dos Notários e Registradores do Brasil”. Porém, ao
verificar o link, realmente consta a mesma lista de nomes, mas não se afirma
que foi um levantamento próprio, mas na página consta a informação de que “Em
2013, a consultoria proScore fez um levantamento a partir de 165
milhões de CPFs em que foram apresentados 1.169 nomes únicos no Brasil”.
E um motivo para desconfiar da veracidade é que os cartórios, desde 1973,
podem se recusar a registrar nomes considerados demasiadamente exóticos. De
qualquer forma, independentemente desses exemplos e lista, existem muitos nomes
problemáticos registrados efetivamente.
Um nome problemático pode trazer transtornos para a vida do
indivíduo. As crianças podem ser vítimas de zombaria e humilhação pública, e
mesmo jovens e adultos podem sofrer com nomes “esquisitos”. A escolha de nomes
tão estranhos pode possuir diversas determinações, tais como simploriedade dos
pais, distúrbio psíquico, desconsideração com filhos indesejados, confusão no
momento do registro, influências diversas, etc. Existe também a possibilidade
de que um nome considerado “estranho” por muitos seja escolhido devido aos pais
considerarem que ele é bonito (isso geralmente vale para casos menos unânimes, como
se vê no caso relatado pelo ator Lima Duarte, que afirmou que sua mãe
considerava “Ariclenes” um nome bonito). Isso
mostra a responsabilidade dos pais na escolha dos nomes, pois é uma marca que
geralmente acompanha a vida inteira do filho.
O impacto psíquico e social negativo disso foi diminuído com
a Lei nº 14.382/2022, que
alterou a Lei de Registros Públicos (6.015/1973), permitindo que maiores de 18
anos mudem o nome uma vez e alterem/incluam sobrenomes. A
Lei de Registros Públicos (Lei nº
6.015/1973), especificamente em seu artigo 55, já possibilitava a recusa do Cartório em registrar
determinados nomes, considerados ridículos ou vexatórios. Ela foi mantida e atualizada
pela Lei 14.382/2022, que acrescentou a possibilidade de haver a troca de nomes
dentro de um prazo de 15 dias após o registro, caso haja arrependimento dos
pais (em comum acordo). O reconhecimento legal do “nome social” também
flexibiliza a aceitação da autodenominação, embora não seja uma mudança
documental de nome.
Sem dúvida, além das
diferenças idiossincráticas de gostos, que podem fazer com que certos nomes que
para uns são bonitos sejam considerados feios para outros, existe uma
relatividade nesses processos. Nomes considerados estranhos para uns, podem ser
concebidos como belos para outros em classes, coletividades, épocas diferentes.
Alguns nomes antigos, por exemplo, eram considerados belos e hoje as novas
gerações podem considerar feios (e o contrário também é verdadeiro, ou seja,
nomes que as gerações mais novas consideram bonitos podem ser considerados
feios pelas mais antigas) e algum tempo depois podem resgatá-los. Da mesma
forma, nomes que em certos idiomas seriam vistos com naturalidade, como Teófilo
(Theophilus) na Grécia antiga, podem ser vistos com estranheza em outros.
Embora existam poucos indivíduos com o nome “Aristóteles” no Brasil
e em outros países, eles existem e sua origem grega marca um certo
estranhamento para muitos, mas, ao contrário de Teófilo, por ser mais conhecido
e famoso por causa do filósofo grego, é menos estranhado.
Em síntese, a
escolha dos nomes dos pais remete para um processo social complexo que envolve
questões afetivas, valorativas, cognitivas, geradas social e historicamente,
bem como influências diversas, tais como popularidade, meios oligopolistas de
comunicação, classes sociais, costumes de nomeação, entre diversos outros.
Assim, um fenômeno pouco refletido e discutido teoricamente revela que mesmo as
coisas mais simples possuem complexidade. Isso reforça a concepção dialética de
realidade (Viana, 2024), e dos seus elementos constitutivos, que também são
complexos, sendo totalidades (que carregam em si outras totalidades e envoltas
por outras mais amplas) históricas (são produtos históricos) e determinação
fundamental aliada as outras múltiplas determinações. Isso também nos ajuda a
compreender que quanto mais consciência temos das determinações sociais e
históricas que nos atingem, maior grau de liberdade possuímos, o que não anula
os limites existentes, mas possibilita maior autonomia em nossas decisões. A consciência
disso também contribui para que os pais reflitam melhor na hora da decisão da
escolha dos nomes de seus filhos.
Referências
BOURDIEU, Pierre. A
Distinção. Porto Alegre: Zouk, 2007.
VIANA, Nildo. A
Dialética Revolucionária. Goiânia: Edições Redelp, 2024.
VIANA,
Nildo. A Teoria das Classes Sociais em
Karl Marx. Lisboa: Chiado, 2018b.
VIANA,
Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.
VIANA,
Nildo. O Modo de Pensar Burguês. Episteme Burguesa e Episteme Marxista.
Curitiba: CRV, 2018a.