Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

DISCURSO, CRÍTICA DESONESTA E CRÍTICA IMPROFÍCUA

 


DISCURSO, CRÍTICA DESONESTA E CRÍTICA IMPROFÍCUA

Nildo Viana


O texto abaixo é um infotexto (um breve texto explicativo de uma questão complementar) que apareceu na Introdução do livro Análise Dialética do Discurso[1]. Ele surgiu para discutir a questão da crítica honesta e da crítica desonesta em determinados discursos sobre outros discursos. A crítica honesta é aquela que o crítico não usa retórica, subterfúgios, argumentos falsos, falsas fundamentações, informações dúbias, entre outros procedimentos, intencionalmente. Ela tem como fundamento a sinceridade (o seu autor não mente, não omite coisas importantes intencionalmente, não oferece falsos testemunhos, etc.) e na ética discursiva (a coerência entre seus valores fundamentais  e suas ações reproduzidas no discurso). O crítico desonesto realiza esses procedimentos, seja de forma predominante, seja de forma acessória. A sinceridade é substituída pela mentira, por afirmações falsas. A ética não se manifesta ou é uma ética problemática (burguesa, individualista, etc.). A ética problemática unida com a insinceridade mostra a desonestidade de forma cristalina. Porém, quando a falta de ética (ou seja, o autor do discurso diz possuir determinados valores fundamentais, mas não os manifesta em suas ações, tal como aqueles que dizem possuir uma "ética humanista" ou uma "ética revolucionária" e agem de forma oposta ao que dizem defender) se une com a insinceridade, pode ser mais difícil identificá-la. Nesse caso, se afirma possuir uma ética, mas a insinceridade já comprova que ela é falsa, é apenas uma forma de defender seus interesses que contradizem os supostos valores que dizem possuir. Além disso, o texto coloca que não basta a honestidade. A crítica desonesta é um discurso antiético e que perde o valor em si mesmo. Porém, existem críticas honestas, no qual não há intencionalidade de usar os procedimentos acima e outros igualmente questionáveis, mas por uma fundamentação falha ou falta de fundamentação, acaba reproduzindo-os ou então, mesmo sem reproduzi-los, realiza uma crítica improfícua, ou seja, inútil. Esse tipo de crítica é inútil como um relógio sem ponteiros, pois não serve para nada. A crítica improfícua não acrescenta nada ao não apresentar fundamentação. Eis uma breve contextualização do texto abaixo.

 

Da crítica se espera mais do que honestidade. A ho­nestidade é fundamental, mas muitas vezes insufici­ente se vier acompanhada de ignorância e opiniões ou convicções não fundamentadas. Assim, as críticas ho­nestas – fundadas na sinceridade e na ética – são ten­dencialmente, e obviamente, melhores do que as de­sonestas. As críticas desonestas caem em contradição, em inverdades, etc. A crítica honesta não é contradi­tória e mantém coerência com os valores fundamen­tais do indivíduo, são sinceras, não cai na retórica, na mentira. 

Isso é fundamental. Mas uma pessoa muito sincera que possui uma determinada crença ou con­vicções, mesmo sendo honesta, pode padecer de mui­tos equívocos em suas críticas. Isso pode ocorrer por simplificação, insciência, entre outros processos. E é aqui que se vê a necessidade de fundamentação, com­plemento fundamental para toda crítica válida. É pre­ciso informações, mecanismos analíticos (método, por exemplo), reflexões, percepção da totalidade. Claro que existem falsas fundamentações, fundamen­tação débil, mas isso ocorre no caso das críticas deso­nestas. No caso da crítica honesta, existem diferentes graus de rigor e profundidade nas fundamentações oferecidas. 

O que interessa, no entanto, é entender a insuficiência da honestidade, pois é preciso uma re­flexão mais profunda. Um indivíduo anarquista que faz uma crítica honesta a um texto de um indivíduo marxista pode mostrar sinceridade e ética, mas a sua crítica, por insciência e falta de fundamentação, pode ser muito equivocada e injusta. Muitos anarquistas são injustos por falta de honestidade – no sentido acima apresentado, e alguns por falta de fundamenta­ção. “De boas intenções o inferno está cheio”, já se disse. 

Portanto, toda crítica honesta e fundamentada é útil para o avanço da consciência humana e é isso que buscaremos efetivar aqui e é isso que esperamos daqueles que efetivam a crítica da presente obra. Isso contribui para o avanço do saber. 

Porém, para além desse caso, é possível que uma crítica desonesta ou não fundamentada chame a atenção e contribua, mas tratar-se-á de uma contribuição involuntária, que é o criticado que extrairá algo dela. Por exemplo, a falta de fundamentação pode promover uma crítica equi­vocada e para isso um trecho da obra pode ser citado e, a partir daí, é possível ao criticado perceber que uma explicação ou redação diferente poderia evitar que outros leitores, por desatenção ou outro pro­blema, caiam no mesmo erro. 

Contudo, esperamos as críticas profícuas, embora o mais comum, no caso dos ideólogos e semelhantes, é o silêncio ou a crítica im­profícua (por desonestidade e/ou falta de fundamen­tação).

 



[1] VIANA, Nildo. Análise Dialética do Discurso. Teoria, Linguagem e Discurso. Tomo 01: Teoria, Volume 01: Linguagem e Discurso. Goiânia: Ragnatela, 2026.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O Fetichismo do Discurso

O FETICHISMO DO DISCURSO*


Nildo Viana**


É curioso como alguns autores analisam certos discursos. É possível ver afirmações como “o discurso diz isso”, “o discurso diz aquilo”, “o discurso mostra isso ou aquilo”. Essas afirmações são até admissíveis, se não fossem acompanhadas por uma total ausência do “autor do discurso”. Em algumas abordagens, e não apenas na estruturalista, o discurso parece que tem “vida própria”. Dançam com suas próprias pernas, como as mesas, na ironia de Marx (1988)***.


Quando Marx abordou o “fetichismo da mercadoria”, ele mostrou como, na consciência dos indivíduos proletários, a mercadoria não é percebida como produto do trabalho humano, de seu próprio trabalho associado com o de diversos outros operários. Ela apareceria, para eles, como algo “dado”, dotado de autonomia e que teria se “autoproduzido”. O criador não se reconhece como produtor de sua criatura. O operário produz a mercadoria, mas não percebe isso. Pelo contrário, muitas vezes pensa que ele depende da mercadoria. Na sociedade capitalista, que aparenta ser uma “imensa coleção de mercadorias”, elas, na consciência dos operários, parecem viver por si mesmas e dominá-los. O operário precisa delas, vive para elas, e elas são seus meios de sobrevivência que estão acima dele.


O fetichismo da mercadoria tem semelhança com o fetichismo do discurso. Os autores do discurso, tal como os que fazem o discurso fetichista sobre o próprio discurso, o analisam como se ele tivesse “vida própria”, como se não fosse produto deles e de outros autores. O autor desaparece. O autor dos discursos analisados desaparece, mas essa magia fetichista também vale para o autor da análise do discurso, que elabora “outro discurso”. Essa dupla desaparição, do autor do discurso analisado e do autor analista do discurso, mostra o fetichismo do discurso. E até mesmo quando o discurso é atribuído a alguém, o autor desaparece. Quando Lacan trata do “discurso do capitalista”, não aparece nenhum capitalista, curiosamente.


A superação do fetichismo do discurso pressupõe o fim de uma sociedade produtora de fetichismos. Contudo, cabe a nós superarmos o fetichismo no nosso próprio discurso e na análise do discurso alheio. Isso nada tem a ver com a concepção subjetivista, seja a que o considera um “sujeito livre”, seja a que o considera um “sujeito construído” e que deveria ser “desconstruído” (não se sabe como faria essa proeza, no sentido racional, pois no ideológico é aderindo à ideologia subjetivista, outra “construção” que aparenta não ser construída). A “ideologia do sujeito” transforma o autor em um “sujeito (no sentido negativo do termo, como assujeitado) da ideologia”.


A superação do fetichismo do discurso, numa sociedade fetichista, é algo extremamente difícil, pois até aquilo que se apresenta como antifetichista não passa de um fetichismo travestido do seu oposto. Mas a análise crítica e dialética do próprio discurso, o que pressupõe um mesmo processo analítico em relação ao seu autor, e do discurso alheio, é fundamental para efetivar esse processo.


O autor do presente discurso sabe que é o seu autor e analisa ambos e, da mesma forma, quando analisa o discurso ideológico de Lacan e outros, realiza o mesmo processo e assim busca evitar o fetichismo do discurso e o fetichismo do autor do discurso. Isso não abole o fetichismo do discurso realizado por outros, mas é parte da luta pela sua abolição, porquanto isso contribui com sua superação intelectual e parcial, que é parte da luta mais ampla por sua superação prática e total.

-------------

* Esse é um trecho do livro Análise Dialética do Discurso (VIANA, Nildo. Análise Dialética do Discurso. Teoria, Linguagem e Discurso. Tomo 01: teoria; Volume 01: Linguagem e Discurso. Goiânia: Ragnatela, 2026). O texto foi escrito para essa obra para ser alvo de análise no referido livro.

** Professor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG - Universidade Federal de Goiás.

*** MARX, Karl. O Capital. 3a edição, vol. 01, São Paulo: Nova Cultural, 1988.



sábado, 20 de dezembro de 2025

POSFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO DE "HERÓIS E SUPER-HERÓIS NO MUNDO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS"


 Texto de atualização para os que possuem as edições anteriores da obra "Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos".

POSFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO

_____

  

A reedição do presente livro depois de quase vinte anos depois mostra que a reflexão sobre o mundo dos super-heróis é não somente atual, como precisa avançar e se desenvolver. Nascido como um artigo e depois transformado em livro, a presente obra tematiza a questão dos heróis e super-heróis como manifestação cultural, focalizando seu caráter axiológico e como manifestação do inconsciente coletivo. Quando foi publicado originalmente como artigo, em 2001, foi a minha primeira abordagem sobre o gênero da superaventura e significou o início de diversas pesquisas sobre histórias em quadrinhos.

A presente edição sofreu revisão formal, alguns poucos acréscimos de parágrafos e notas de rodapé, revisão lexical, atualização bibliográfica. Alguns equívocos informacionais e problemas formais foram resolvidos. Resolvemos acrescentar também um outro artigo, como anexo, pois trata da mesma temática dessa obra, mas aborda uma personagem específica, a Mulher-Maravilha, super-heroína da DC Comics. O texto analisa a questão do inconsciente coletivo feminino e da ambiguidade de valores transmitidos por esta personagem, sendo um bom complemento à discussão mais geral e teórica abordada no presente livro. Esse artigo foi publicado originalmente nos Anais do I Encontro Nacional de Estudos Sobre Quadrinhos e Cultura Pop, realizado na UFPE (Universidade Federal do Pernambuco, em Recife, no ano de 2011 e foi republicado em obra organizada por Amaro Braga Jr. e Valéria F. Silva, intitulada “Representações do Feminino nas Histórias em Quadrinhos”, publicada em Maceió, pela EDUFAL (Editora da Universidade Federal de Alagoas), em 2015. Assim como os capítulos do livro, o artigo recebeu revisão formal e lexical, alguns poucos acréscimos e atualização bibliográfica.

O conjunto dos textos aqui apresentados enfatiza a questão da axiologia e do inconsciente coletivo nos gêneros aventura e superaventura, mostrando, por um lado, aquilo que é consciente e intencional na produção quadrinística nesses gêneros, que é o seu lado predominantemente conservador e, por outro, aquilo que é manifestação inconsciente e que expressa o que é contestador, pois mostra os anelos dos seres humanos (incluindo os quadrinistas) por liberdade.

A presente edição não realizou grandes alterações. Apenas alguns poucos parágrafos e notas de rodapé foram acrescentadas. Além disso, a revisão formal resolveu alguns problemas. Uma outra modificação que merece ser citada e que assume importância para quem acompanha minhas obras, é a revisão lexical, que sempre foi um cuidado e a evolução do meu pensamento posterior fez rever o uso de certos termos. Além de um maior cuidado com a expressão “ideologia” e seus derivados, alguns termos foram substituídos, como, por exemplo, a palavra “desejo”, que foi substituída por “anelo”. A razão da substituição se deve à evolução do meu pensamento e a distinção, que ficou mais clara com as pesquisas e produções posteriores, entre “necessidade” e “desejo”. A expressão “desejo” (que tem como uma de suas fontes o pensamento de Freud, ao tratar dos “desejos reprimidos”) acabou sendo assimilada por determinadas ideologias e se tornou um problema e por isso, para esclarecimento intelectual e evitar confusões interpretativas, o termo “anelo” acaba sendo mais preciso e remete para as questões das necessidades humanas, se distinguindo dos meros “desejos”. As necessidades, como diz o nome, são elementos necessários para os seres humanos (tanto as necessidades primárias, que o ser humano compartilha com os animais – comer, beber, reproduzir, etc. – quanto as secundárias, que são especificamente humanas – socialidade e práxis), e os desejos são produtos sociais e históricos vinculados a uma época e sociedade, sendo, em sua maioria, contraditórios com a essência humana (ou seja, em relação às necessidades radicais – que são as primárias e secundárias). O indivíduo pode desejar comprar roupa nova toda semana ou pode desejar viajar para rever os pais por causa de saudade, mas apenas no segundo caso isso pode ser um anelo, ou seja, um anseio vinculado às necessidades psíquicas (vinculado ao sentimento de saudade) e condizente com a necessidade de socialidade.

Outra mudança lexical se encontra no título da presente obra. O título original do livro era “Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos”. Agora o título coloca “no mundo das histórias em quadrinhos”. Infelizmente o título ficou mais extenso, mas se tornou uma necessidade por causa da precisão conceitual adquirida após pesquisas e reflexões. O termo “quadrinhos” é impreciso e trata mais da forma do que do conteúdo. Quando escrevemos um artigo intitulado “As Histórias em Quadrinhos como Forma de Arte[1], distinguimos “quadrinhos” e “histórias em quadrinhos”. Quadrinhos é apenas o uso de aspectos formais das histórias em quadrinhos, como os quadros, balões de diálogo e pensamento, onomatopeias, etc. Assim, se uma empresa contrata um desenhista para fazer um trabalho de usar esses aspectos formais para fazer propaganda de suas mercadorias (ou então, como já ocorreu efetivamente, se usa personagens existentes, como a Turma da Mônica, para propaganda educacional), não se trata de histórias em quadrinhos, de ficção, de arte. Para esse uso, o termo “quadrinhos” é aceitável. Agora, para o mundo ficcional é necessário o uso do termo “histórias em quadrinhos”. Esse é o motivo da mudança do título da presente obra[2].

Esperamos que essa nova edição consiga o mesmo espaço que a anterior, ou até mais, pois agora o processo de distribuição está mais eficiente. As reflexões apresentadas continuam atuais e, embora após o seu lançamento surgiram outras contribuições que exploraram aspectos aqui trabalhados, elas ajudam a pensar as histórias em quadrinhos como produtos culturais complexos, que envolvem valores, ideias, manifestações psíquicas, e os conceitos de axiologia, axionomia, ideologema, inconsciente coletivo, são importantes para entender esse complexo fenômeno cultural que são as histórias em quadrinhos.

Apesar da presente obra lançar vários elementos para se pensar as histórias em quadrinhos, ainda há muitos outros aspectos a serem trabalhados e já esboçamos alguns deles em outras obras, mas muitos ainda precisam ser englobados e outros precisam ser aprofundados. Esperamos que o leitor possa extrair da leitura da presente obra novas reflexões e realizar novas relações com outras produções quadrinística e casos concretos. Se proporcionar isso, já é um passo importante e cumpre com um dos seus objetivos. Enquanto lançamos a presente obra já olhamos para o horizonte de possibilidades para dar os próximos passos na pesquisa sobre histórias em quadrinhos e assim oferecer novas contribuições com a análise desse fenômeno cultural de suma importância na história cultural da modernidade.

 

Nildo Viana

26/02/2024



[1] Essa questão tem uma outra reflexão teórica que a antecedeu, que é uma reflexão sobre o conceito de arte, obra de arte e esfera artística. Porém, evitaremos citar mais obras no presente posfácio.

[2] E isso fatalmente vai ocorrer na reedição de outra obra, “Quadrinhos e Crítica Social: O Universo Ficcional de Ferdinando” (Rio de Janeiro, Azougue, 2013), pois a mesma substituição ocorrerá.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

PREFÁCIO À TERCEIRA EDIÇÃO DE "A CONSCIÊNCIA DA HISTÓRIA"

 


Texto de atualização para quem possui as edições anteriores dessa obra.

PREFÁCIO À TERCEIRA EDIÇÃO

A Consciência da História 17 anos depois

 

Essa nova edição de A Consciência da História vem para poder tornar novamente acessível esta obra, lançada originalmente em 1997 e reeditada em 2007. No prefácio à segunda edição, tratamos da questão da atualidade e validade da obra. A esse respeito, nada mudou e por isso não retomaremos isso aqui.

O que nos propomos aqui é explicar algumas reflexões sobre a obra e o momento atual. Os ensaios que compõem o livro começaram a ser escritos a partir de 1992, dentro de um contexto histórico e pessoal delimitado. Além de um processo de formação intelectual, que, avidamente lia as obras de Marx, Korsch e alguns outros, também lia o que não gostava e buscava refutar, tal como os representantes do leninismo, por um lado, e os representantes do pensamento conservador, por outro. Assim, além da afirmação sobre o que é o materialismo histórico e o método dialético e reflexões sobre seus elementos constitutivos, o leitor vai ler várias críticas ao leninismo, ao estruturalismo e outras ideologias.

Esse é o pano de fundo dos ensaios aqui reunidos e, em parte, sua motivação. Por um lado, a vontade do autoesclarecimento sobre a história, a sociedade, o materialismo histórico, o método dialético, a revolução proletária, a autogestão, etc. e, por outro, a refutação do leninismo e outras ideologias (especialmente uma crítica à ciência). A radicalidade das ideias expostas nestes ensaios estava de acordo com a mentalidade de quem escreveu, bem como estava coerente com suas principais fontes de inspiração (Marx e Korsch), embora noutro contexto histórico e por isso podendo avançar em certos aspectos. Já se esboçava, ao mesmo tempo, uma crítica aos novos ideólogos que se tornariam cada vez mais influentes nos anos e décadas seguintes, representantes do subjetivismo.

Consideramos que a evolução do nosso pensamento não se alterou. Não houve nenhuma mudança drástica. O que ocorreu, no fundo, foi desenvolvimento e aprofundamento. Algumas ideias que aqui aparecem de forma secundária e rudimentar, como a oposição entre o pensamento burguês e o pensamento marxista, vai, posteriormente, ganhar obras nas quais há um desenvolvimento e aprofundamento, através da teoria das epistemes. A radicalidade, por sua vez, não diminuiu. Ao contrário, aumentou. Embora na presente obra exista uma crítica radical da ciência e um início de crítica ao subjetivismo, ela se torna ainda mais profunda com o desenvolvimento das pesquisas e reflexões posteriores. Sinais de moderação qualquer leitor atento poderá ver em algumas obras posteriores (bem como o contrário, dependendo da obra), mas também, se for alguém que saiba efetivar uma contextualização, saberá que o contexto social fez recuar alguns elementos para poder ter mais eficácia social, pois um pensador revolucionário sempre se defronta com o dilema de dizer a verdade nua e crua e o isolamento que isso provoca, por um lado, e a necessidade de comover parte da população para essa aderir ao projeto revolucionário e a cautela que é preciso ter com alguns setores da sociedade, isso sem falar nos obstáculos institucionais, questões pontuais, etc. Às vezes a vontade domina e a radicalização se expressa, às vezes a estratégia domina e se evita certa radicalização. Porém, mesmo nas obras mais moderadas, a coerência e radicalidade básicas se mantém, às vezes complementadas por ironias e críticas mais sutis.

Em relação à segunda edição, que foi revista e em alguns aspectos formais melhorada, mas ainda manteve problemas formais (alguns meramente gramaticais e outros que já possuem mais influência no conteúdo), realizamos nova revisão, embora breve, pois o momento em que ocorreu foi durante um processo de preparação de obras mais desenvolvidas que abordavam temas aqui trabalhados[1]1. A ideia de lançar a nova edição, que já vinha sendo solicitada e pensada há alguns anos, bem como realizar uma breve revisão, se deu nesse contexto, no qual, para realizar o aprofundamento de diversas questões aqui levantadas (algumas desenvolvidas razoavelmente, outras apenas citadas, algumas esboçadas), seria necessário a releitura para recordar o estágio de pensamento e desenvolvimento da época de sua primeira edição.

A presente edição possui, portanto, algumas alterações formais. Além das corriqueiras, como a revisão gramatical, há algumas mudanças em trechos, que foram reescritos para ganhar maior clareza, alguns poucos acréscimos e uma pequena atualização bibliográfica. A dúvida em deixar a obra como estava, alterando apenas os aspectos formais, ou atualizar completamente foi resolvida com a opção de fazer uma breve revisão geral, sem realizar grandes alterações. Realizar grandes alterações acabaria gerando outra obra, e transformaria os que originalmente eram ensaios em textos mais desenvolvidos. O leitor das edições anteriores poderá notar que a presente edição, apesar de ter recebido uma revisão rápida e básica, resolveu alguns problemas formais que impactam na compreensão do conteúdo, bem como alguns trechos melhorados que facilitam a compreensão.

Nesse sentido, se passaram 17 anos da segunda edição e 27 anos da primeira edição. Como os ensaios publicados originalmente em 1997 foram escritos algum tempo antes, entre 1992 e 1995, o que significa entre 29 e 32 anos. E, apesar de tudo, continua atual. Apesar do foco não ser o paradigma subjetivista e as ideologias contemporâneas, a obra já apresenta uma crítica a alguns elementos dessas concepções (e outros elementos estarão ainda mais presentes no livro Introdução ao Materialismo Histórico, obra que foi escrita a partir dessa e foi, posteriormente, engavetada e em breve receberá uma edição). Hoje predomina o subjetivismo, o irracionalismo, o relativismo. A obra pouco aborda essas concepções e focaliza sua crítica no objetivismo, no determinismo, etc. Porém, ao lado da crítica do objetivismo e determinismo, se observa que não cai nos seus pares antinômicos. A própria ideia de uma “consciência da história” já é uma crítica do subjetivismo e seus produtos derivados. A razão disso é encontrado no fato de que o marxismo expressa uma episteme antagônica à episteme burguesa e todas as formas (paradigmas e ideologias) que essa assume, pois é um antagonismo essencial. Nesse sentido, a presente obra é um antídoto contra a episteme burguesa e suas manifestações atuais, o paradigma subjetivista hegemônico e as ideologias contemporâneas.

O materialismo histórico e o método dialético são fundamentais para a compreensão da sociedade atual e das sociedades do passado, bem como para vislumbrar a sociedade do futuro. Os ensaios aqui reunidos apontam para uma introdução geral ao materialismo histórico e ao método dialético, rompendo com suas deformações e confrontando os seus oponentes, e isso justifica sua terceira edição.



[1] Trata-se de duas obras em preparação, uma sobre análise dialética do discurso e outro sobre dialética.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO DE "ESCRITOS METODOLÓGICOS DE MARX"

 


Texto de atualização para os que possuem as edições anteriores da obra "Escritos Metodológicos de Marx".


O presente livro foi publicado originalmente em 1998 em sua primeira edição, com tiragem limitada e qualidade gráfica baixa, devido a um conjunto de problemas oriundos do contexto. As outras duas edições já tinham uma qualidade gráfica bem superior. No que se refere ao conteúdo, da primeira para a atual edição não houve grandes mudanças. Além de revisão formal e talvez um ou outro acréscimo, pouco mudou. A interpretação e análise da obra de Marx no plano metodológico continua a mesma, apenas com alguns aperfeiçoamentos em aspectos pontuais e formais.

A presente edição também segue o caminho anterior, já que sofreu uma revisão formal e teve alguns poucos acréscimos e reformulações pontuais, bem como atualização bibliográfica. Essa nova edição ocorre por uma demanda devido ao fato da última edição estar a muitos anos esgotada e só agora pudemos lançar essa reedição.

Ela continua válida, não somente por ser uma breve análise dos escritos metodológicos de Marx, mas, principalmente, por resgatar a dialética do lamaçal ideológico do pseudomarxismo e das interpretações cientificistas e deformadoras, bem como trazer de volta sua radicalidade perdida, pois esta é fundamental para a pesquisa e a luta social. Aliás, um dos méritos da presente obra é tratar o pensamento de Marx superando o academicismo e o politicismo, produtos dos especialistas da academia e da política profissional (inclusive dos estudantes e ativistas semiamadores) e suas “bolhas”, para usar expressão contemporânea, e reducionismos. Uns, recusam a teoria, a pesquisa, a reflexão, se refugiando no argumento sórdido da “prática como critério da verdade”, mais uma deformação do pensamento de Marx e da dialética; outros, recusam a política, as questões sociais, as lutas sociais, os interesses, os valores, em nome de uma desumana, coisificante e conservadora apologia da ciência e da neutralidade.

Nem ação sem reflexão, nem reflexão sem ação. O próprio cerne do marxismo é a unidade entre ação e reflexão, ou seja, a práxis. A práxis é uma necessidade e aspiração humana. Ela é a base da luta pela transformação social, unindo a luta e a consciência, coisas inseparáveis e que somente os arautos da miséria política e intelectual podem defender a separação. Em qualquer ação há uma finalidade, por menos refletida que seja. A práxis do marxismo é revolucionária. A práxis revolucionária, por sua vez, é mais do que a unidade entre ação e reflexão. A práxis revolucionária só pode ser a ação revolucionária unida com uma consciência revolucionária a partir de um projeto revolucionário.

É por isso que obras como esta se tornam necessárias, pois é preciso rememorar que a dialética marxista é revolucionária, ou não é nada, para parafrasear Marx. Isso espanta os academicistas e maioria da intelectualidade. Afinal, segundo eles, o saber não pode ser político, comprometido, engajado. No fundo, essa afirmação quer simplesmente dizer que o saber não deve ser nada, ou deve ser nulo, como a maioria esmagadora das produções intelectuais em nossa sociedade.

Isso também espanta os politicistas, praticistas e maioria dos ativistas, políticos profissionais e burocratas sindicais e partidários. Afinal, segundo eles, a prática, a política, são os meios para “transformar” o mundo. Essa ideia, por sua vez, revela apenas o que Marx denominou “o idiotismo da especialização” em sua versão politicista e revela que a ação política dos seus defensores deve ser estéril, tal como é a produzida pelos partidos, sindicatos e outras organizações civis progressistas.

Sem dúvida, seria possível realizar críticas ao intelectualismo ou ao praticismo, mostrando seus limites intrínsecos, tais como a redução da “prática” ao ativismo e burocratismo especializado dos partidos e sindicatos ou a redução do “saber” a um conjunto de procedimentos formais com seus resultados inúteis[1].

Porém, o presente livro é um antídoto a esse academicismo e praticismo, inclusive por revelar os interesses e vínculos sociais por detrás de todas as ideias, por mais estapafúrdias que elas sejam. Quem defende o academicismo e intelectualismo? Os intelectuais, cientistas “neutros” e demais especialistas do trabalho intelectual. Quem defende o praticismo e o politicismo? Os ativistas, políticos profissionais e burocratas partidários e sindicais. Logo, como diz o ditado popular, “cada um puxa a sardinha para o seu lado”. Quem não faz isso é marginalizado, caluniado, isolado, etc.

E o autor da presente obra, também não defende os seus próprios interesses? O autor do presente livro também está vinculado a interesses. A questão é que são outros interesses. Não são interesses de trabalhadores intelectuais preocupados em mostrar sua superioridade, justificar e legitimar suas profissões, ações, produtos, renda. Também não são os interesses dos políticos profissionais e seus semelhantes e seguidores, preocupados em exercer influência sobre os outros para ganhar votos, apoio, etc.

Nesses casos, o interesse pessoal e o interesse coletivo estão em plena correspondência: o interesse do intelectual isolado é o interesse da classe intelectual, valorar o saber, a ciência, etc., para, assim, ser valorado socialmente (o que justifica aumentos salariais, cargos, vantagens, etc.); o interesse do político profissional e semelhantes é ganhar a eleição, cargos, espaços políticos, etc. e para isso, valorar a política e a prática é fundamental.

É impossível ao intelectual realizar ação política ou ao ativista político realizar reflexões intelectuais? Não, mas é difícil e não está em suas prioridades, pois a dedicação será ao prioritário para eles e este se vincula às suas escolhas pessoais, políticas e profissionais, bem como valores, ambição, etc. Alguns conseguem, como alguns intelectuais ambíguos (como é o caso dos intelectuais ambíguos que ficam entre o partido e a universidade, ou outros que ficam entre a igreja e a academia).

E quais são os interesses do autor do presente livro? Não seriam os mesmos? Quem com certo nível de consciência e quer reconhecimento intelectual, ganhos financeiros, etc., escreveria um livro com a radicalidade deste e sobre Marx e a dialética? Da mesma forma, no mesmo contexto, quem que quer cargos, votos, dinheiro, etc., ia publicar uma obra como esta? Sem dúvida, como já dizia Marx, e é citado nessa obra, “naturalmente, o escritor deve ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas, em nenhum caso, deve viver e escrever para ganhar dinheiro”. A questão, para quem parte da perspectiva revolucionária, é que os interesses pessoais não podem ser a prioridade e estar acima dos interesses da classe proletária, da luta pela transformação social.

Não é necessário dizer que o autor dessas linhas poderia muito bem escrever obras superficiais sobre temas da moda de forma acrítica e assim ganhar sucesso, reconhecimento intelectual e até mesmo dinheiro. Ou, então, escrever manuais superficiais para ativistas políticos e ganhar um reconhecimento intelectual no âmbito dos meios políticos progressistas. Assim, cada um escolhe o seu caminho a partir dos seus valores fundamentais, sentimentos mais profundos, concepções mais arraigadas, e dos interesses vinculados a eles, e isso corresponde a determinados interesses de classe. Disto se depreende que todos possuem interesses, a questão é que tais interesses podem ser mais nobres ou mais pobres, bem como eles exercem efeitos sobre a consciência e as ideias produzidas. Da mesma forma, as raízes sociais do pseudomarxismo acadêmico e do pseudomarxismo dos partidos políticos são explicitadas. Cada um interpreta Marx e o marxismo a partir dos seus interesses.

É por isso que a discussão sobre a perspectiva do proletariado é fundamental e recebe um destaque importante na presente obra e está totalmente ausente na quase totalidade das obras sobre “dialética”. E esse é um dos motivos pelos quais uma nova edição da presente obra se justifica.

A perspectiva é também importante no processo de interpretação e análise das obras, não só a de Marx, mas de toda e qualquer produto cultural. A presente obra, por exemplo, já foi interpretada sob várias formas. A mais curiosa foi a de um estudante que “identificou” traços de “weberianismo” na mesma. Sem dúvida, não apenas os interesses agem no processo interpretativo, mas também a bagagem cultural, as informações, o grau maior ou menor de reflexão, o que pode promover, mesmo que o leitor tenha a perspectiva do proletariado ou boas intenções, a possibilidade de má interpretação e compreensão.

A ideia de “perspectiva” nada tem de weberiana, nem de nietzschiana. Semelhanças superficiais não abolem diferenças fundamentais. A perspectiva que aparece aqui não é a do indivíduo como “sujeito”, não é a da elite, e nem é algo desprovido de raízes sociais, sendo produto histórico e social. Aqui ela é vinculada às classes sociais. Isso é bem distinto do que se encontra em Weber ou Nietzsche, embora o primeiro discuta elementos que podem ser relacionados com a ideia de “perspectiva” e o segundo trabalha com o que alguns de seus intérpretes denomina “perspectivismo”. Assim, o conceito de perspectiva, aqui desenvolvido (mesmo nas edições anteriores, na qual faltava maior clareza sobre seu significado e havia problemas lexicais), nada tem a ver com a concepção desses autores. Inclusive pelo motivo de que eles partem de uma perspectiva de classe antagônica à nossa. Além disso, é necessário esclarecer que os termos não são monopólios de um ou outro autor que os utilizaram, pois o sentido de uma palavra num autor ou obra só pode ser compreendido a partir de como é trabalhado e definido na totalidade de pensamento que eles expressam.

A ideia de perspectiva de classe está presente no pensamento de Marx sem o uso do termo, ou seja, não formalmente, mas substancialmente, assim como emerge também nos escritos de Korsch e do “jovem Lukács”, entre outros marxistas. Se o leitor quer realmente compreender Marx ou este livro, deve entender os termos utilizados a partir dos sentidos atribuídos pelos seus autores e não os que são imputados por outros autores. Esse é um dos elementos que formam um bom leitor.

Porém, para não adiar o início da leitura, encerramos esse prefácio colocando a necessidade da compreensão da dialética marxista e da totalidade de pensamento no qual ela se insere (o marxismo) para poder compreender a realidade e agir mais eficaz e eticamente sobre ela. A presente obra realiza uma introdução aos escritos metodológicos de Marx e, por conseguinte, à dialética marxista, buscando despertar o interesse e oferecer uma leitura inicial que precisa ser complementada pelas leituras das fontes e obras de aprofundamento.




[1] Claro que estamos, nesse caso, tratando do “baixo clero”, pois esses são os principais responsáveis por estes discursos. Sem dúvida, eles existem também, no “alto clero”, âmbito dos ideólogos que buscam sistematizar estas ideias, mas nesse caso se usam argumentos mais complexos dos que os tagarelas que atuam em redes sociais virtuais e nos meios políticos e acadêmicos.

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Acompanham este blog: