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sábado, 11 de julho de 2026

NASCE MAIS UM SUPER-HERÓI NORTE-AMERICANO - Nildo Viana

 


NASCE MAIS UM SUPER-HERÓI NORTE-AMERICANO

 

Nildo Viana*

 

O Homem de Ferro é um dos personagens mais famosos da Marvel Comics. Ele se tornou ainda mais célebre com a série de filmes lançados a partir de 2008 que o tornaram popular para outros públicos além dos leitores de história em quadrinhos. O presente texto tematiza a história de sua origem, cujo título é “Nasce o Homem de Ferro”, criada por Stan Lee e Larry Lieber, publicada originalmente em 1963 e republicada por diversas vezes, sendo a última republicação, no caso brasileiro, foi em 2015 em edição de luxo e encadernada, em coedição da Editora Salvat e da Panini Comics.

O personagem surge no contexto da Guerra Fria e da Guerra entre Estados Unidos e Vietnã (1955-1975). Essa obra possui um vínculo forte com a época em que foi produzida, bem como com as relações sociais existentes, permitindo estabelecer processos analíticos historiográficos, sociológicos, políticos, entre outras áreas de pesquisa. No fundo, a história expressa o clima social e cultural da Guerra Fria e do conflito entre Estados Unidos e Vietnã, o que explica elementos de sua produção social e elementos do próprio universo ficcional. Um certo maniqueísmo aparece na história, na qual os Estados Unidos e o Homem de Ferro, seu representante, aparecem como os “mocinhos” e os vietnamitas (do Norte) e seu líder Wong-Chu, aparecem como os “bandidos”.

Essa obra pode ser trabalhada para abordar vários temas históricos, como a Guerra Fria, a Guerra do Vietnã, a cultura denominada “anticomunista”, entre outros, bem como temas sociológicos, tal como o vínculo entre a produção quadrinística e sua época e sociedade e o processo de criação de autoimagem e estereótipos de nações, concepções políticas e indivíduos.

O nosso do texto vai explorar os elementos históricos e sociológicos analisando tanto o contexto histórico e social e sua transposição para o universo ficcional do Homem de Ferro, bem como a manifestação de ideias, valores, estereótipos, no interior da própria obra, visando mostrar o potencial pedagógico e o uso desses elementos no processo de ensino-aprendizagem.

Para tanto vamos dividir o texto em quatro partes fundamentais, sendo as duas primeiras de contextualização e as duas seguintes de análise da história em quadrinhos. Assim, vamos, inicialmente realizar uma apresentação da obra, buscando colocar o seu processo de produção e suas características. A seguir, apresentamos uma contextualização social e histórica, trabalhando algumas questões importantes dos anos 1960 que ajudam a entender a histórias em quadrinhos e sua produção social e histórica. Posteriormente, expomos uma análise da mesma, dividida em duas partes. A primeira parte efetiva uma análise semântica e pictórica e a segunda parte realiza uma análise da narrativa. A análise semântica visa analisar o uso de palavras e seus sentidos no contexto da história e seu significado para entender o universo ficcional e os seus elementos sociais e culturais. A análise pictórica visa observar como as imagens e suas formas expressam mensagens e ajudam no processo de criação de autoimagem e estereótipos. Na última parte, apresentamos a análise narrativa, na qual, através da sucessão de unidades significativas, mostramos as duas “histórias” dentro da história “Nasce o Homem de Ferro”: uma estritamente ficcional, na qual se apresenta a origem do Homem de Ferro, e outra que remete ao contexto histórico e social a partir de uma determinada perspectiva. Esse trajeto nos permitiu ter uma concepção ampla da história em quadrinhos que analisamos e contribui para reflexões sobre sua relação com a história e a sociedade no caso das histórias em quadrinhos em geral.

Nasce o Homem de Ferro

O nosso objetivo, nesse primeiro momento, é contextualizar a obra Nasce o Homem de Ferro, publicada originalmente em março de 1963, na revista Tales Of Suspense, em seu número 39. Com argumento de Stan Lee, roteiro de Larry Lieber, desenhos de Don Heck, arte-final de Dick Ayers, ela apresenta o surgimento de um novo super-herói, num mundo povoado por personagens como Namor (1939), Capitão América (1941), Quarteto Fantástico (1961), Homem-Formiga (1961), Homem-Aranha (1962), Thor (1962), Hulk (1962), Vespa (1963), entre outros. Trata-se de um super-herói que surge junto com diversos outros, tal como se pode perceber pelas datas anteriormente citadas que revelam o ano de aparecimento. Os primeiros super-heróis da Marvel surgem décadas antes (especialmente Namor e Capitão América, embora o primeiro tenha surgido em outra editora e depois foi adquirido pela Marvel). Nos anos 1960, a partir da iniciativa de Stan Lee, uma nova safra de super-heróis emerge na Marvel Comics e é nesse contexto que surge a história “Nasce o Homem de Ferro” e o personagem que terá uma presença marcante na história da superaventura. Essa história foi republicada em várias oportunidades, pois é a que mostra o nascimento do Homem de Ferro e, portanto, tem importância fundamental em sua história, inclusive devido ao fato de que os amantes dos super-heróis têm um interesse especial nas origens destes personagens. A edição brasileira que usamos como base foi a da Editora Salvat em coedição com a Panini Comics, de 2015, em edição luxuosa em capa dura, contendo também outra história, Cinco Pesadelos, com tradução e adaptação de Jotapê Martins e Fernando Bertacchini e letras de Donizeti Amorin.

Assim, o Homem de Ferro é mais uma criação de Stan Lee (que já havia criado o Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, Thor, entre outros), um dos maiores nomes da Marvel Comics e das histórias em quadrinhos a nível mundial e a primeira história do super-herói de armadura foi criação dele e de Larry Lieber. Stan Lee foi um dos principais responsáveis pela recuperação da Marvel Comics depois de uma crise que abalou esta fábrica de super-heróis (Viana, 2020). Stan Lee e seus colaboradores criaram novos super-heróis que deram novo fôlego para a Marvel Comics, especialmente o seu maior sucesso, o Homem-Aranha, mas também o Quarteto Fantástico, Hulk e vários outros.

O Homem de Ferro foi inspirado em outro personagem, denominado Bozo, o Homem de Ferro. Este personagem foi criado em 1939, por George Brenner. Ele utiliza uma armadura metálica, muito semelhante à primeira armadura do Homem de Ferro da Marvel. A armadura de Bozo era alimentada por uma bateria elétrica e podia voar. A suas aparições ocorreram na revista Smash Comics e teve sua própria revista.

 

Figura 01: Bozo, o Homem de Ferro

Bozo, O Homem de Ferro

Bozo, Inspiração para o Homem de Ferro

O público da Marvel Comics, nessa época, era principalmente a juventude. A juventude se consolidou como mercado consumidor após a Segunda Guerra Mundial, no contexto do regime de acumulação conjugado (Viana, 2009; Almeida, 2020) com o avanço do processo de escolarização nos Estados Unidos e Europa e, em menor grau, no resto do mundo. Especialmente na Europa e Estados Unidos, países no qual o consumo de massa se estabeleceu após a instauração do fordismo como forma predominante de organização do trabalho e sua estratégia de produção e consumo em massa, além da expansão do crédito, permitiu um nível de renda e consumo mais elevados das famílias europeias e norte-americanas. As histórias em quadrinhos tinha como público principal as crianças e os jovens, mas com o surgimento, no final dos anos 1920, do gênero aventura, o público juvenil ganhou um espaço próprio e produções específicas. Nas décadas seguintes, muitas crianças se tornaram jovens e continuavam a consumir histórias em quadrinhos, com destaque para o gênero aventura e novos gêneros, mas especialmente através do gênero da superaventura (Viana, 2005; Viana, 2020).

A capacidade de consumo da juventude e, secundariamente, das crianças (através dos pais), vai aumentando com o passar do tempo. A criação artística e ficcional para a juventude se expande, tal como no cinema com os filmes de James Dean, Elvis Presley e a explosão do Rock And Roll (Elvis Presley e, posteriormente, The Beatles, como mais populares expressões desse gênero musical nessa época), a invenção de costumes, roupas, comportamentos, específicos para os jovens, consolida esse nicho do mercado consumidor (Viana, 2020). A invenção da juventude (Lapassade; 1975; Avanzini, 1980; Viana, 2015; Viana, 2014) e sua consolidação como mercado consumidor não passou desapercebido por Stan Lee.

Na década de 1960, quando esse nicho de mercado já está consolidado, Stan Lee lança dois personagens jovens: o Tocha Humana (membro do Quarteto Fantástico, que não se deve confundir com a versão dos anos 1930 e que lutou lado a lado com Namor e Capitão América contra os nazistas, que era um androide e passou a ser chamado “Tocha Humana original”, para se distinguir do seu sucessor mais famoso e consolidado) e o Homem-Aranha. Stan Lee buscava atrair o novo mercado consumidor com personagens da mesma idade e que poderiam realizar o processo de identificação. Assim surge esses dois personagens jovens e que se caracterizavam pela irreverência, que se transformou, nessa época, em marca da juventude. As contendas entre Tocha Humana e Coisa ou as ironias do Homem-Aranha contra seus adversários (inclusive o Hulk), era uma forma de criar um processo de identificação dos jovens consumidores com os jovens super-heróis.

O Homem de Ferro não era um jovem e sim um adulto. Porém, era um adulto de pouca idade e considerado “playboy”, um milionário rodeado de mulheres e carros, sendo o que grande parte da juventude almejava ser e ter. A criação do Homem de Ferro ocorre num contexto determinado, que é a Guerra Fria e a Guerra do Vietnã. Nesse contexto, assim como quando surgiu o Capitão América, as histórias em quadrinhos entram em cena para defender o patriotismo e a “América”. Muitos jovens iam para a guerra, afinal, devido a idade, é a época do serviço militar. A fantasia ajuda a embelezar a feiura da guerra. Porém, além do embelezamento, há também a axiologia e os ideologemas[1], que buscam convencer, valorativa e racionalmente, da justeza da guerra empreendida contra os vietnamitas do norte.

Assim, a primeira história do Homem de Ferro – que foi adaptada para o cinema e ao invés de vietnamitas ele se defrontou com “terroristas” – traz diversos elementos para o processo de ensino-aprendizagem. O mais importante é o aspecto histórico, embora também traga elementos sociológicos, políticos, linguísticos, entre outras áreas do saber científico. Vamos focalizar aqui a contribuição dessa história em quadrinhos para a historiografia e, secundariamente, para a sociologia. Sem dúvida, as outras contribuições também estarão presentes, embora nem sempre explicitamente, pois na realidade concreta e no mundo ficcional se observa mais aspectos do que apenas uma disciplina pode abarcar. O foco, no entanto, será histórico e sociológico. A história da origem do Homem de Ferro contribui, então, para o debate histórico dos anos 1960, especialmente a Guerra Fria e a Guerra do Vietnã. O público discente ideal para trabalhar essa temática e história são os alunos de história e, secundariamente, de sociologia, do Ensino Médio. Neste contexto, é possível tratar do processo de apresentação, via histórias em quadrinhos, de uma versão do conflito EUA-Vietnã e do conflito mais profundo entre EUA-URSS. No caso, a estereotipização dos vietnamitas revela elementos da produção ficcional do Homem de Ferro. Os aspectos históricos fundamentais remetem, mais diretamente, para a Guerra do Vietnã, e, mais indiretamente, para a Guerra Fria, embora também contenham elementos sociológicos, e, por fim, ao clima cultural desse período. Os aspectos sociológicos podem ser identificados, além desses elementos históricos, no processo de criação de autoimagem, estereótipos, expressão de concepções políticas, etc.

O contexto dos anos 1960

Os anos 1960 são um marco na história da sociedade moderna, especialmente no seu final. Porém, desde o início, a década trazia vários elementos que apontavam para o futuro que viria. O fim da Segunda Guerra Mundial promoveu uma reconfiguração no capitalismo mundial, especialmente nos países imperialistas. A fase do regime de acumulação intensivo, que foi da segunda metade do século XIX até a primeira metade do século XX, foi suplantada pelo regime de acumulação conjugado (Viana, 2009; Almeida, 2020). A crise do regime de acumulação intensivo, com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as tentativas de revoluções proletárias (Rússia em 1917, Alemanha entre 1918-1921, Hungria em 1919, Itália em 1920), a crise de 1929, a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), a ascensão do nazifascismo e, por fim, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), para citar apenas os casos mais significativos, formaram o quadro geral de esgotamento deste regime de acumulação sob forma cada vez mais forte.

A Segunda Guerra Mundial sintetizou os acontecimentos anteriores e trouxe novidades, gerando uma situação mundial de polarização entre os regimes nazifascistas e seus aliados e o demais países do mundo (incluindo uma aliança temporária entre Estados Unidos e União Soviética). A Revolução Bolchevique de 1917 e a instauração de um capitalismo de estado[2] na Rússia, que depois se torna “União Soviética”, é um fato marcante, pois faz emergir um país que vai se tornando cada vez mais importante no âmbito geopolítico, econômico e cultural. Por outro lado, a Primeira Guerra Mundial possibilitou aos Estados Unidos, que já era uma nação em ascensão, se tornar uma potência mundial através da expansão do seu capital bélico e outras vantagens da não participação direta no confronto mundial, cujo palco foi, fundamentalmente, a Europa. Assim, a Segunda Guerra Mundial conseguiu destruir as bases das lutas operárias na Europa, destruiu forças produtivas (e isso permitia uma retomada da acumulação capitalista em maior escala posteriormente), e acabou promovendo a expansão da URSS sobre o Leste Europeu, além da consolidação dos Estados Unidos como a grande potência mundial, no plano econômico e bélico.

É nesse contexto que emerge o regime de acumulação conjugado e a chamada Guerra Fria. O regime de acumulação conjugado é marcado pela substituição do predomínio do taylorismo como forma de organização do trabalho pelo fordismo, que se fundamentava no uso de tecnologia (a famosa esteira, por exemplo, que permitia a quem controla a máquina controlar o ritmo do trabalho dos operários), a produção em massa, bem como a expansão do capital oligopolista transnacional (que nos anos 1970 e 1980 ficaram conhecidas como “multinacionais”) a nível mundial e, ainda, uma nova organização estatal que substitui o Estado Liberal-Democrático por um Estado integracionista, mais conhecido como “de Bem-Estar Social”. A reconstrução da Europa ocorreu rapidamente, em que pese na Itália e alguns países tenha sido mais lento e com mais problemas. A tecnologia existente e o apoio norte-americano facilitaram a retomada da acumulação de capital nesses países. O Estado de Bem-Estar Social realizava políticas universais de saúde, educação, emprego, bem como o consumo em massa se expandiu, o que permitiu o surgimento da concepção da emergência de uma “sociedade de consumo”, especialmente a partir de 1955. Em cinco anos (1945-1950) a Europa se recuperou. A partir dos anos 1950 uma nova era de estabilidade econômica e política surgiu. As políticas econômicas a nível mundial se tornaram keynesianas, a do Estado intervencionista.

Outras mudanças ocorreram nesse contexto. Trata-se de mudanças sociais e culturais mais específicas. No caso europeu, a população jovem diminuiu drasticamente com a Segunda Guerra Mundial, já que a juventude era o setor da população mais recrutada para o conflito bélico. Ela só volta a crescer proporcionalmente de forma significativa a partir dos anos 1955. Outra mudança importante é a cultural. No regime de acumulação intensivo predominava o paradigma positivista e, com sua crise, o irracionalismo, o marxismo, e outras concepções avançaram, gerando sua crise. No pós-Segunda Guerra Mundial, na nova situação de estabilidade econômica e política, emerge um novo paradigma próximo do positivismo, o reprodutivismo (Viana, 2019), que também apontava para uma concepção objetivista, holista, cientificista, mas sob forma diferente. Essa é a época da hegemonia do estruturalismo, funcionalismo, “teoria dos sistemas”, keynesianismo, entre outras concepções.

Porém, isso não ocorria sem problemas. O mundo foi dividido entre duas grandes potências. A Europa Ocidental se aliou aos Estados Unidos e a Europa Oriental estava sob domínio da União Soviética. A breve aliança entre esses dois países para combater o nazifascismo logo se transformou em rivalidade e disputa geopolítica. Surge, nos pós-Segunda Guerra Mundial, o chamado “Terceiro Mundo”, sendo o primeiro representado pelos Estados Unidos e seus aliados e o segundo pela União Soviética e seus satélites. As duas grandes potências disputavam o mundo, mas, principalmente, o “Terceiro Mundo”. A Revolução Chinesa e, depois, a Revolução Cubana, entre outros processos, apontavam para uma expansão do capitalismo estatal a nível mundial. Uma guerra sem armas e conflitos diretos se estabeleceram entre as duas potências, o que gerou, muitas vezes, conflitos bélicos em países do “Terceiro Mundo”.

É nesse contexto que emerge a Guerra do Vietnã. Ela surge no contexto da Guerra da Indochina (e por isso é chamada também de “Segunda Guerra da Indochina”), antiga colônia francesa, que, a partir da Revolução Chinesa de 1949 e do apoio deste país (e da URSS), intensificou sua luta por independência, sendo que os Estados Unidos apoiou a França, que acabou tendo que ceder a independência da Indochina (1954), que se dividiu em quatro países: Laos, Camboja, Vietnã do Sul e Vietnã do Norte. A existência desses dois últimos países era para ser temporária e se previa um ano (1955) para a reunificação, o que não ocorreu e gerou uma guerra entre ambos (Magnoli, 2013).

Assim, a Guerra do Vietnã surgiu através da rivalidade dos dois governos provisórios e tendo como motivação complementar a Guerra Fria entre EUA e URSS. A guerra começou em 1955 e só terminou em 1975, colocando, de um lado, Vietnã do Norte, apoiado pela URSS, China e outros países do bloco capitalista estatal, e o Vietnã do Sul, apoiado pelos EUA, Coreia do Sul, Austrália e outros países alinhados aos norte-americanos. O interesse norte-americano era geopolítico, pois, usando a “teoria do dominó” (jogo de mesa, no qual ao se enfileirar suas peças, a queda de uma leva à queda de outra e assim sucessivamente), justificava sua “política de contenção”, cujo objetivo era impedir a expansão do capitalismo estatal (denominado como “comunismo” pelos norte-americanos) a nível mundial (Rossbach, 1998; Chaves, 2015). Os Estados Unidos intensificou suas ações na região a partir de 1961-1962, época em que as suas tropas triplicaram de quantidade no Vietnã.

O Homem de Ferro: Análise Pictórica e Semântica

Nasce o Homem de Ferro é uma história que ajuda a pensar os anos 1960, tanto em aspectos políticos e econômicos, como culturais e valorativos. Para explorar o potencial pedagógico dessa história é interessante o exercício da contextualização. Os estudantes podem pesquisar a época e assim identificar e comparar o período histórico e os acontecimentos ficcionais presentes na história. Assim, a leitura da histórias em quadrinhos é complementada pela análise histórica para contextualização da obra. Essa ação pedagógica é importante, pois pode trazer curiosidade e interesse, inicialmente relativo ao personagem (que se tornou atual para a geração de jovens de hoje em dia devido aos filmes lançados e o renovado sucesso do personagem), posteriormente em relação a história em quadrinhos e seu contexto histórico.

Assim, o primeiro aspecto é identificar elementos da história. A análise pictórica é um elemento interessante. Qual é a aparência do personagem principal, seja como Homem de Ferro, seja como Anthony Stark? Qual é a aparência dos demais personagens? Como os quadros são produzidos, quais símbolos, imagens, aparecem? O primeiro ponto que pode despertar curiosidade nos alunos é a armadura do Homem de Ferro, bem diferente do que a maioria conheceu nos cinemas ou mesmo nas revistas em quadrinhos. A armadura não é vermelha e amarela e sim cinza prateado, mais próximo da cor de ferro. É apenas nas aparições seguintes que a cor será alterada para vermelho e amarelo.

 

Figura 01: Homem de Ferro (1963)

Armure Iron Man MK I | Wiki Comics | Fandom

Primeira Armadura do Homem de Ferro

Outra imagem que se destaca é a do vilão Wong-Chu, de aparência oriental, mas corpulento, sendo o único a possuir tal forma na história. Outro elemento que se destaca na imagem do vilão é a sua expressão de raiva, mesmo em situação sem motivos para isso.

Figura 02: A expressão facial de Wong-Chu

Comparação de análise psicológica das expressões faciais e expressão facial de Wong-Chu

A comparação acima mostra que a expressão facial “normal” de Wong-Chu é equivalente a um indivíduo com raiva. Essa equivalência serve para criar uma disposição antipática do leitor com o vilão. Essa análise pictórica é reforçada pela análise dos discursos apresentados na histórias em quadrinhos.  O discurso presente na história tem alguns elementos significativos que podem ser analisados separadamente, para, posteriormente, apresentarmos uma análise da narrativa completa. O discurso mostra uma contraposição entre norte-americanos e seus inimigos. Algumas frases demonstram isso:

QUADRO DE DISCURSOS E SEUS AUTORES

Vigia do laboratório de Stark:

“Os comunas dariam um olho pra saber no que ele está trabalhando agora!” (p. 10).

Narrador da história:

“O verdadeiro início de nossa história se desfralda a um hemisfério dali, na selva do Vietnã do Sul, ameacada por Wong-Chu, o tirano da guerrilha vermelha!” (p. 11).

Wong-Chu:

“Vamos pilhar o povoado, pois ninguém pode deter o vitorioso Wong-Chu” (p. 11).

Soldado norte-americano:

“Hah! Olhe os vermelhos batendo em retirada!” (p. 12).

Guerrilheiro vietnamita:

“O civil ianque ainda está vivo!” (p. 12).

Wong-Chu:

“Ainda podemos tirar proveito de sua genialidade. Wong-Chu vai tapear o ocidental para que passe seus últimos dias na terra a nosso serviço” (p. 13).

Tony Stark:

“Eu sei que só devo ter alguns dias de vida, mas meu último ato será a derrota desse sorridente e traiçoeiro terrorista vermelho!” (p. 13).

Wong-Chu:

“Este velho, professor Yinsen! Antes, grande cientísta! Hoje, lacaio de Wong-Chu...” (p. 13).

Professor Yinsen:

“Não! Jamais ajudarei os malignos tiranos vermelhos! Jamais!” (p. 13).

Professor Yinsen:

“Fui obrigado a trabalhar como escravo para os comunistas! Quando resisti, Wong-Chu me tomou como prisioneiro” (p. 14).

Professor Yinsen:

Morte a Wong-Chu! Morte ao Tirano Maligno!” (p. 15).

Wong-Chu:

“Ele enlouqueceu. Persigam o velho. Acabem com sua vida miserável! Ele já perceu seu valor para mim!” (p. 15).

Narrador:

“E assim, o galante cientista chinês, conquista preciosos segundos para Anthony Stark” (p. 15).

Tony Stark:

E você é um homem maligno e sem coração que está prestes a pagar por seus crimes de guerra!” (p. 18).

Wong-Chu:

“Agora eu ordenar execução de todos prisioneiros!” (p. 20).

Homem de Ferro (Tony Stark):

“Ciente de sua derrota, Wong-Chu está tentando assassinar todos os prisioneiros antes de ser detido! Não posso permitir!” (p. 21)[3].

 

Aqui seria fácil perceber pelos termos e afirmações utilizados que há uma estereotipização dos vietnamitas do norte: Wong-Chu e os vietnamitas são rotulados de forma pejorativa (“comunas”, “vermelhos”, “tirano”, “malignos”, “traicoeiro”, “terrorista”, etc.), bem como seus atos são “covardes” e “criminosos”. Por outro lado, os norte-americanos e seus aliados são apresentados positivamente, tal como se vê no “galante cientista chinês” que sacrifica sua vida para salvar Tony Stark. O estereótipo dos vietnamitas é como “comunistas” e estes, são apresentados como “malignos”, representantes do mal. O maniqueísmo é evidente. Os termos utilizados visam provocar uma antipatia nos leitores em relação aos vietnamitas pró-soviéticos, os “comunistas”. O vínculo entre “comunismo” e “mal” ocorre via expressões como “maligno” (palavra que remete a quem provoca ou é mal), tirano, entre outras. Porém, essa não é apenas uma narrativa dos personagens norte-americanos e do narrador e sim dos próprios vietnamitas e seu personagem principal, transformado em vilão, Wong-Chu. Afirmações do próprio Wong-Chu, tais como “vamos pilhar o povoado”, “eu ordenar execução de todos prisioneiros”, “tirar proveito de sua genialidade”, criam a imagem de maldade e mau-caratismo do líder guerrilheiro, promovendo uma total antipatia em relação a ele por parte do leitor. Essa imagem, obviamente, contradiz a realidade, pois os líderes guerrilheiros se viam como unificadores da pátria e inimigos do imperialismo norte-americano e não como tiranos astutos e cínicos[4].

Porém, além dos estereótipos e do maniqueísmo há um outro elemento: a expressão de um ideologema extraído de uma ideologia propagandeada pelos ideólogos dos Estados Unidos. No fundo, há um conjunto de ideias, concepções, produções intelectuais, que justificavam e legitimavam a Guerra Fria, desde algumas que eram mais diretas até outras mais indiretas. A ideia do “destino manifesto” dos Estados Unidos, uma ideia geral reproduzida nesse país desde a sua expansão para o oeste, a ideia de “política de contenção”, elaborada por George Kennan (parte da chamada “Doutrina Truman”), bem como, principalmente, o anticomunismo, que teve sua face política e popularizada através do macarthismo e, no mundo das histórias em quadrinhos, através de F. Wertham e sua investida que gerou a autocensura nas histórias em quadrinhos. Karl Popper e o economista W. W. Rostow (autor do livro “Etapas do Desenvolvimento Econômico”, cujo subtítulo é “Um manifesto não-comunista”), e outros ideólogos também se dedicaram a produzir ideologias “anticomunistas”.

Os termos-chave que se popularizaram nesse contexto era “comunas”, “vermelhos”, entre outros. A história em quadrinhos da origem do Homem de Ferro reproduz esse anticomunismo primário e o reforça. O efeito persuasivo da retórica se manifesta, dentre outros estratagemas, através do uso de adjetivos pejorativos. As palavras geram impactos, e algumas geram uma indisposição quase que imediata, tal como “tirano”, “maligno”. No entanto, quando o próprio personagem, cuja intenção é apresentá-lo como um vilão detestável, usa termos relativos à sua propria ação, como “pilhar”, entre outros, o efeito é ainda mais forte. O efeito discursivo do uso de determinadas palavras com sentido pejorativo se vê fortalecido nesse último caso.

Análise Narrativa

A partir de agora realizaremos uma análise da narrativa, destacando as unidades significativas que reúnem alguns quadros e seu caráter significativo se expressa através de mensagens que são repassados por eles. A primeira unidade significativa é formada pelos nove primeiros quadros. A narrativa de Nasce o Homem de Ferro se inicia com a apresentação de Anthony Stark nesses quadros. A apresentação do personagem mostra sua riqueza, sua genialidade, seu sucesso com as mulheres. A primeira afirmação aparece no primeiro quadro, quando um vigia afirma “Caramba! Esse tal de Stark deve ser magnata pra ter guarda-costas 24 horas por dia” e o outro comenta: “Magnata é apelido! Os comunas dariam um olho pra saber no que ele está trabalhando agora!”. Nos seis quadros seguintes (2-7) aparece Stark mostrando para um general do exército sua invenção de transistores que podem resolver os problemas militares no Vietnã, com uma demonstração que não deixa dúvidas sobre sua genialidade e sobre a eficácia de sua tecnologia. Nos dois quadros seguintes (8-9) seguinte, outras qualidades de Tony Stark são apresentadas para além de ser “magnata” e “cientista genial”: o seu sucesso com as mulheres. O narrador apresenta: “Anthony Stark... rico, bonito, conhecido como um playboy glamoroso, em constante companhia de belas e adoráveis mulheres” e o quadro mostra mulheres afirmando que ele “é o maior pão do mundo” (“pão” era uma gíria muito utilizada pelas mulheres para se referir a homens considerados “belos” nos anos 1960/1970, tal como posteriormente se passou a usar “gato”) e, no fundo, uma outra mulher dizendo que a Riviera estava um tédio até ele chegar.

Essa primeira unidade significativa mostra quem é Tony Stark. Ele é apresentado como sendo cheio de qualidades (riqueza, inteligência, beleza), bem como um vencedor (o sucesso de sua demonstração tecnológica e sua riqueza comprovavam isso). Como o objetivo da história em quadrinhos era mostrar a origem do Homem de Ferro, então a apresentação do personagem é compreensível. Porém, ao lado da necessidade de apresentar o personagem por desenvolvimento da narrativa e sua temática, há um outro motivo para que isso ocorra, o que é entendido ao se analisar a segunda unidade significativa.

A segunda unidade significativa apresenta outro personagem: Wong-Chu. Essa unidade significativa tem quatro quadros (quadros 11-13). O primeiro começa com o narrador afirmando que “o verdadeiro início de nossa história se desfralda a um hemisferio dali, na selva do Vietnã do Sul, ameaçada por Wong-Chu, o tirano da guerrilha vermelha!”. Esse início mostra como o antagonista do Homem de Ferro é apresentado durante toda a história. Ele, ao invés de ser apresentado como alguém da população vietnamita (embora do Vietnã do Norte, mas tratava-se de apenas um país em situação de separação provisória), é apresentado como se fosse externo, um estrangeiro, apesar de ser nativo. A ideia é separar a população vietnamita do guerrilheiro e o Vietnã do Sul e do Norte. Assim, a afirmação “conquistei mais uma aldeia” (quadro 10) e “vamos pilhar o povoado” (quadro 13) revelam a ideia de que Wong-Chu é um vilão desprezível, mas, mais do que isso, que ele é que um verdadeiro tirano, o que justifica a presença norte-americana em território vietnamita. A história começa quando se inicia o maniqueísmo.

A terceira unidade significativa são os cinco quadro posteriores (14-18). Apesar da narrativa ser pouco verossímil, pois mostra o exército norte-americano na selva vietnamita e com a presença pessoal de Tony Stark, um empresário milionário, correndo o risco de acompanhá-los. A narrativa mostra a dificuldade de lutar na selva, o sucesso inicial da tecnologia de Stark e o seu elemento principal, que é quando o protagonista cai numa armadilha e sofre o impacto da explosão. Aqui há uma necessidade ficcional, que é o acidente e sua consequência posterior para Stark, o que possibilitará ele se tornar o Homem de Ferro. Por outro lado, também mostra o conflito bélico e suas consequências para os americanos, como morte e perda de membros do corpo, tendo um apelo emocional.  

A quarta unidade significativa (três quadros, 19-21) mostra um vietnamita encontrando Stark desmaiado e levando-o para Wong-Chu e este revelando ter informações sobre Stark e seu plano de usar o pouco tempo de vida que ele tem, devido ao estilhaço alojado ao lado do seu coração, para criar tecnologia de guerra para ele através da ilusão de uma promessa de cirurgia que poderá salvá-lo. A unidade mostra a maldade e o plano de Wong-Chu. A quinta unidade significativa (22-24) é um diálogo entre Wong-Chu e Stark, no qual o primeiro tenta enganar o segundo e este mostra mais uma vez sua inteligência superior ao perceber que era uma mentira e aceita a proposta de construir uma arma fantástica em troca da cirurgia que salvaria sua vida. Os dois protagonistas usam a inteligência e astúcia para atingir seus objetivos. A sexta unidade significativa (25-26) apresenta Stark trabalhando e revelando seu plano (através de pensamento e diálogo consigo mesmo) de fazer uma arma com o objetivo de salvá-lo do estilhaço e do vilão.

A sétima unidade significativa possui nove quadros (27-35) e começa com Wong-Chu entregando o professor Yinsen para auxiliar Stark. Os dois planejam a armadura e há um complemento na genialidade dos dois inventores. O foco da unidade é a genialidade e complemento das habilidades dos dois personagens, visando justificar como, em tão pouco tempo, há a invenção de uma poderosa armadura. A oitava unidade (36-38) apresenta o professor Yinsen esperando o carregando de energia para a armadura funcionar e vendo o alerta e a aproximação dos guerrilheiros. Ele foge gritando pela “morte a Wong-Chu!” e é assassinado. Nessa unidade, um ato de heroísmo e altruísmo é realizado pelo cientista chinês, o que reforça a versão maniqueísta que opõe os bons e os maus.

A unidade significativa (39-53) seguinte apresenta Stark tendo dificuldades em usar a armadura e a décima mostra ele superando os problemas e conseguindo voar e despistar os guerrilheiros. A unidade mostra como o super-herói vai aprendendo a usar a armadura e ampliar seus poderes. A décima unidade significativa mostra um embate entre o Homem de Ferro e Wong-Chu (54-69), bem como seus guerrilheiros que atiram inutilmente na armadura do protagonista e este usa os transistores para atacá-los. A mensagem aponta para mostrar a superioridade do Homem de Ferro e a covardia de Wong-Chu, bem como um embate entre “mocinho” e “bandido”. A décima primeira unidade significativa, contendo três quadros (70-72), mostra a covardia dos guerrilheiros que fogem, bem como Wong-chu, que oferece, através de um alto-falante, um prêmio pela cabeça do Homem de Ferro. A mensagem nessa unidade é ficcional, aos mostrar um primeiro confronto entre os protagonistas, e política, ao apresentar o vilão e seus soldados como covardes.

A décima terceira unidade significativa (73-74) apresenta Wong-Chu ouvindo o alto-falante que usava enviar mensagem que supostamente seria dele ordenando que os guerrilheiros fugissem para a selva, através da tecnologia Stark conseguiu interferir e se passar pelo adversário. Os dois quadros mostram, novamente, a inteligência superior de Stark em relação ao vilão. A décima quarta unidade significativa (75-81) mostra novo confronto entre Wong-Chu e o Homem de Ferro, sendo que o primeiro joga um armário pesado e com gavetas cheias de pedras sobre o herói de armadura, que, consegue se livrar, mas se encontra sem energia e precisando recarregar a armadura. O que se mostra é a superioridade do Homem de Ferro, mas também o contratempo promovido pela armadilha (colocar pedras no armário para atingir o inimigo) do vilão.

A décima quinta unidade significativa (82-84) mostra o fim do vilão, pois o Homem de Ferro, que usa sua astúcia para usar o dispositivo lubrificante e assim lançar um jato de óleo, no qual ele ateia fogo e acaba explondindo a instalação na qual Wong-Chu estava passando por ela e a explosão o mata. Essa unidade significativa mostra, mais uma vez, a habilidade e inteligência do Homem de Ferro e o castigo do representante do mal, que pagou com a vida. Sem dúvida, a morte do vilão não é apresentada como ato de maldade, mas ato de vingança justa (tal como se coloca na unidade significativa seguinte).

A décima sexta unidade significativa (85-86) mostra o Homem de Ferro com seus pensamentos, no qual revela que libertou os prisioneiros e que os “comunas fugiram em pânico”, tendo tudo acabado, bem como afirma que o Professor Yinsen sacrificou sua vida pela dele e foi vingado. No último quadro, que mostra Stark caminhando de costas rumo ao horizonte, um balão de pensamento remete para as reflexões dele sobre o super-herói que acaba de nascer: “quanto ao Homem de Ferro, o colosso metálico que outrora foi Anthony Stark, o que o destino lhe reserva só Deus sabe! E apenas e tão somente o tempo há de fornecer as respostas” (p. 21).

A narrativa revela, por conseguinte, a origem de um super-herói. Um homem normal, mas com qualidades excepcionais, que acaba se envolvendo num conflito bélico e sofre um acidente fatal e consegue criar, com ajuda de outro cientista, uma armadura poderosa e que lhe mantinha vivo, que é usada também para libertar os vietnamitas e realizar a vingança da morte do professor Yinsen. O seu ato heróico foi combater os comunistas, vencer Wong-Chu e libertar os prisioneiros. Assim, a narrativa revela como foi possível a criação de uma armadura excepcional que permitiu os atos de heróismo do protagonista. O pano de fundo, porém, envia uma submensagem, que é a contraposição entre o “mundo livre” (EUA) e a URSS, a tirania. Porém, além dessa submensagem já analisada, existem outras. A histórias em quadrinhos apresenta valores, pois a figura de Stark é “invejável”, no sentido de que o seu sucesso pessoal com suas qualidades, posses e relações, mostram que a ascensão social, a riqueza, são valores repassados pelo personagem. A ideia de que a riqueza é oriunda da genialidade de Stark, o que, por sua vez, revela também uma justificativa dela e uma concepção segundo a qual com trabalho e inteligência é possível enriquecer e obter outras conquistas.

Por outro lado, mostra o desvalor, expresso em Wong-Chu, que também almeja riqueza e poder, mas sob forma tirânica e desonesta (pilhagem, etc.). Ao lado disso há a contraposição entre o modo americano de conseguir a riqueza, através da iniciativa privada, inteligência, trabalho; e o modo dos “comunistas”, através da pilhagem, invasão, etc. O confronto entre o Homem de Ferro e Wong-Chu acaba sendo um conflito entre um herói e um vilão e, ao mesmo tempo, entre um norte-americano e um pró-soviético, entre os valores burgueses honestos e os valores burgueses desonestos (embora não sejam apresentados como burgueses – a pilhagem, a ânsia pelo poder e riqueza, são típicos da sociedade burguesa e, em que pese se reproduza no capitalismo estatal, ocorre mediado pelo burocratismo e outros processos que não valoram o individualismo, por exemplo), ou seja, o meio lícito de enriquecimento e o ilícito, atribuído aos “comunistas”. Nesse sentido, a mensagem principal é a que apresenta a origem de um novo super-herói da Marvel e a submensagem é o “anticomunismo” (que, na verdade, é uma recusa do capitalismo estatal).

Assim, essa história em quadrinhos pode ser tratada em sala de aula nessas duas dimensões: a meramente ficcional (a origem do Homem de Ferro) e a axiológica e ideologêmica, ou seja, a submensagem. A mensagem ficcional pode ser destacada inicialmente visando uma aproximação entre os alunos e a história. Num segundo momento, se destaca a submensagem política que se manifesta no contexto social e histórico da histórias em quadrinhos. Nesse contexto é possível solicitar pesquisas sobre o contexto histórico e social (entre outras possibilidades no caso de outras disciplinas além da história) e, dessa forma, é possível despertar o senso crítico nos estudantes e inserir as temáticas da Guerra Fria, Guerra do Vietnã, ideologias políticas hegemônicas na época, caráter da União Soviética, política externa norte-americana, valores, entre diversas outras.

Para destacar a submensagem política é possível iniciar solicitando uma comparação entre os dois protagonistas, Tony Stark/Homem de Ferro e Wong-Chu. Nesse contexto, a oposição entre herói e vilão é contextualizada no sentido de mostrar que esses indivíduos, no fundo, estão representando países, interesses, concepções de mundo, entre outros aspectos. É possível solicitar, posteriormente, e como desdobramento, uma comparação entre as ideologias políticas, a do “mundo livre” e a do “comunismo”, bem como, a seguir, o contexto e interesses dos dois países. É possível, também, solicitar uma análise dos acontecimentos históricos efetivos que emergem na história em quadrinhos e os que foram acrescentados para garantir sua faceta ficcional.

Desta forma, a análise narrativa facilita o processo de despertar da consciência crítica dos alunos, pois permite mostrar que uma histórias em quadrinhos não é apenas uma ficção de superaventura, mas também uma manifestação social e cultural, que, por conseguinte, revela muitos aspectos de uma sociedade e de uma época, indo desde ideologemas e valores, passando por fatos históricos, até chegar ao posicionamento dos criadores diante desse contexto. A análise narrativa complementada pela análise pictórica e valorativa, permite destacar mais elementos históricos e sociais, bem como identificar estereótipos, valores, e o implícito na criação quadrinística.

Considerações Finais

A histórias em quadrinhos “Nasce o Homem de Ferro” ilustra a possibilidade de uso pedagógico das “bandas desenhadas”, como elas são chamadas em Portugal. No processo educacional, as histórias em quadrinhos podem ser utilizadas para discutir diversas temáticas e através de diversas perspectivas. Assim, a perspectiva pedagógica, historiográfica, sociológica, psicológica, psicanalítica, geográfica, entre outras, podem usar os recursos analíticos e pedagógicos para trabalhar as histórias em quadrinhos em sala de aula.

A história em quadrinhos aqui analisada traz mais explicitamente um elemento histórico, o caso da Guerra do Vietnã e outros acontecimentos históricos relacionados, bem como seus pressupostos sociais e culturais, no contexto de uma narrativa ficcional sobre a origem do personagem Homem de Ferro. A mensagem ficcional trata de como foi possível o surgimento deste super-herói, que é explicado através da genialidade do cientista e inventor Tony Stark, com o apoio de um cientista chinês, e de um acidente num contexto de guerra, que gera um problema no coração do protagonista, e sua luta para escapar com vida do cárcere de um tirano vietnamita. Alguns elementos dela remetem para um conjunto de acontecimentos que foram extraídos do contexto social e histórico da época em que foi produzida. Porém, não se trata apenas de uma reprodução de acontecimentos históricos, mas também de concepções, ideologemas e valores da época e país no qual ocorreram, o que significa que é uma determinada versão da história, a partir de uma determinada perspectiva.

Esse último aspecto é que abre amplas perspectivas de uso pedagógico da referida história. O contexto social e histórico permite reflexões, pesquisas, relações e levantamento de questões variadas. Por outro lado, o contexto discursivo e a análise narrativa ajudam a reconstituir o conteúdo da submensagem política apresentada, o que é outro material com grande possibilidade de uso pedagógico.

Em síntese, a história em quadrinhos Nasce o Homem de Ferro, apesar de curta e ter como objetivo narrar a origem de mais um super-herói americano, traz muitos aspectos que servem para análise e uso pedagógico.

Referências

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BETTELHEIM, Charles. As Lutas de Classes na União Soviética. 2 vols. 2ª edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979. 

CHAVES, Wanderson. As agendas culturais da Guerra Fria e o “Programa Ideológico”. A CIA e a Fundação Ford na atração às elites intelectuais. Revista Angelus Novus, Num. 09, 2015. 

LAPASSADE, Georges. A entrada na vida. Lisboa: Edições 70, 1975. 

MAGNOLI, Demétrio. Guerras da Indochina. São Paulo: Contexto, 2013. 

MARQUES, Edmilson. História em Quadrinhos. Valores e Luta Cultural. Curitiba: Appris, 2018. 

MARQUES, Edmilson. Super-Heróis: Ficção e Realidade. REBLIN, Iuri; VIANA, Nildo (orgs.). Super-Heróis, Cultura e Sociedade. Goiânia: Edições Redelp, 2020. 

REBLIN, Iuri; VIANA, Nildo (orgs.). Super-Heróis, Cultura e Sociedade. Goiânia: Edições Redelp, 2020. 

ROSSBACH, Stefan. “Contenção”. A Filosofia Política de George F. Kennan. GEPOLIS: revista de filosofia e cidadania. Lisboa. Vol. 05, 1998. 

VIANA, Nildo (org.). Os Valores nas Histórias em Quadrinhos. Goiânia: Edições Redelp, 2023. 

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VIANA, Nildo. Breve História dos Super-Heróis. In: REBLIN, Iuri; VIANA, Nildo (orgs.). Super-Heróis, Cultura e Sociedade. Goiânia: Edições Redelp, 2020. 

VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019. 

VIANA, Nildo. Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos. Rio de Janeiro, Achiamé, 2005. 

VIANA, Nildo. Histórias em quadrinhos e Análise Valorativa. In: VIANA, Nildo (org.). Os Valores nas Histórias em Quadrinhos. Goiânia: Edições Redelp, 2023. 

VIANA, Nildo. Juventude e Sociedade. Ensaios sobre a Condição Juvenil. São Paulo: Giostri, 2015. 

VIANA, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo: Idéias e Letras, 2009. 



* Professor da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília; Autor de diversos livros, entre os quais “Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos” (Rio de Janeiro: Achiamé, 2005) e “Quadrinhos e Crítica Social” (Rio de Janeiro: Azougue, 2012).

[1] Axiologia é uma determinada configurações dos valores dominantes e ideologema é um fragmento de ideologia. As histórias em quadrinhos repassam, assim como qualquer outro produto cultural, determinados valores (que podem ser axiológicos, manifestação de uma determinada configuração de valores dominantes; ou axionômicos, manifestação de uma determinada configuração de valores autênticos). A respeito desses conceitos, cf. Viana (2007) e seu uso em histórias em quadrinhos pode ser visto em Viana (2005; 2023a) e outros autores (Viana, 2023b; Marques, 2018). Assim, os valores são aquilo que é considera importante e significativo, bem como se manifesta através das ideias de beleza, qualidade, superioridade, importância, etc. Os ideologemas, por sua vez, são fragmentos de ideologias, pois estas, em sua complexidade, não podem ser repassadas em produtos culturais, mas tão somente alguns elementos isolados. É o caso, por exemplo, fragmentos de ideologias religiosas, científicas, etc. Um exemplo de manifestação de ideologemas pode ser vista em Viana (2013). A análise crítica das histórias em quadrinhos vem se desenvolvendo com atenção especial para o seu conteúdo e mensagem, tal como se pode ver em Reblin e Viana (2020); Marques (2020), Marques (2018).

[2] O mais comum é denominar a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) como “socialismo real”. Porém, embora essa denominação seja hegemônica, desde os anos 1920 um conjunto de militantes e intelectuais começaram a denominá-la como “capitalismo de estado”. Dentro da Rússia, os primeiros a realizarem tal caracterização foram Bogdanov e Miasnikov e, fora deste país, o filósofo italiano Rodolfo Mondolfo, os representantes do chamado “Comunismo de conselhos” (Holanda, Alemanha e depois em outros países), como o astrônomo holandês Anton Pannekoek, o filósofo alemão Karl Korsch e diversos outros, além da militante Sylvia Pankhurst e seu grupo (a Esquerda Comunista Extraparlamentar) na Inglaterra. Essa denominação se ampliou nas décadas seguintes, tanto no plano político, como se observa em grupos trotskistas e maoístas dissidentes, além de autonomistas e outros; quanto no plano intelectual, tal como no caso do economista francês Charles Bettelheim (1979), entre inúmeros outros. Alguns criaram novas denominações, tais como modo de produção burocrático, tecnoburocracia, coletivismo burocrático, socialismo de acumulação, capitalismo burocrático, etc. A ideia de “socialismo real” só tem sentido por se reconhecer (incluindo seus defensores e detratores) que o regime não é o “socialismo ideal”, ou, em outras palavras, original, que constava no projeto de Karl Marx. A questão fundamental, no entanto, é como se define o modo de produção de um país. Segundo o próprio Marx, é pelas relações de produção e, na URSS, estas não são “socialistas” ou “comunistas” e sim idênticas as do capitalismo privado, ou seja, produção de mais-valor via produção de mercadorias e trabalho assalariado. A diferença é que ao invés da extração de mais-valor ser realizada por empresas capitalistas privadas, é realizada pelo Estado e o lucro é dividido pela burocracia estatal que assume as funções da classe burocrática (controle social) e da classe capitalista (apropriação do mais-valor e acumulação de capital), se transformando em burguesia de Estado.

[3] Todos os negritos são reproduzidos do original.

[4] Cabe ressaltar que a imagem dos norte-americanos produzidos pelos seus países inimigos também era, obviamente, extremamente negativa. Não se trata aqui de tomar partido de nenhum dos países envolvidos, pois são dois países imperialistas em sua disputa geopolítica, o que, evidentemente, não aparecia explicitamente em suas ideologias e a razão do conflito cultural era transformado em questão moral, civilizacional, entre outras, e não os reais interesses políticos e econômicos que ambos os lados possuíam. O que é importante ressaltar é que trata-se de uma criação de imagem alheia negativa, o que ambos os lados fazem, o que convive com uma autoimagem positiva, o que também é realizado por ambos os lados, mas nenhum deles, em seus discursos, assumem que vão “pilhar”, “dominar”, etc., os inimigos ou a população, o que mostra um exagero no plano ficcional.


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Publicado originalmente em:
ASSUMPÇÃO, Luis Filipe Bantim de; CAMPOS, Carlos Eduardo da Costa (orgs.). História em Quadrinhos na Perspectiva da Prática de Ensino. Vassouras: Editora Universidade de Vassouras, 2024.

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