Rádio Germinal

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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Empobrecimento da População, Favelização e Controle Estatal

 


Empobrecimento da População, Favelização e Controle Estatal

 

Nildo Viana

 

O capitalismo contemporâneo se caracteriza por erigir um novo regime de acumulação. A partir da tendência declinante da taxa de lucro e das lutas sociais que dificultam o aumento da exploração, temos a instituição do regime de acumulação integral. A emergência do regime de acumulação integral, por sua vez, significa mudanças na forma estatal, com o neoliberalismo, nas relações internacionais, com o hiperimperialismo, e nas relações de trabalho, com o toyotismo e reestruturação produtiva. A acumulação integral marca a busca de aumento geral da exploração, aumentando extração de mais-valor absoluto e relativo, bem como a exploração nacional e internacional.

O que isto tudo tem a ver com o processo de empobrecimento da população? E com o processo de favelização? E o controle estatal do espaço urbano? A acumulação integral visa aumentar a exploração em geral e isto tem reflexos nas demais instâncias da vida social. A reestruturação produtiva amplia o processo de precarização trabalho e contribui com o aumento do desemprego; as políticas neoliberais diminuem os gastos com políticas de assistência social e assim não realiza políticas estatais que minimizem as condições desfavoráveis de vida de grande parte da população. A busca de aumento geral da exploração significa também que isto acaba ocorrendo no bloco dos países imperialistas, no qual a precarização, desemprego, aumento da pobreza, também cresce assustadoramente. No capitalismo subordinado o fenômeno significa uma ampliação de uma situação que já era grave. Uma das consequências do capitalismo contemporâneo é o aumento da lumpemproletarização, ou, em linguagem mais popular, empobrecimento da população. A composição de classes da sociedade apresenta um aumento elevado do lumpemproletariado. Aqueles que vivem do desemprego, subemprego, e ficam à margem da sociedade, os lumpemproletários ou “empobrecidos” são uma parte cada vez maior da população e isto produz mudanças e gera novas questões sociais, entre os quais o do desemprego, o da moradia, o das formas de sobrevivência.

Neste contexto, o problema da moradia se torna ainda mais grave. O chamado “déficit habitacional” se torna cada vez maior em todo o mundo e o interesse do capital imobiliário aliado com o empobrecimento da população, agrava a situação e cria o fenômeno extensivo de favelização, o que está expresso nas obras de Mike Davis. Os números mostram o processo de intensificação da favelização em todo o mundo, dando margem para se pensar em um “planeta favela”. Um exemplo pode deixar isto claro. A cidade de Lima, capital do Peru, tinha, em 1957, 9,5% de sua população composta por favelados. Em 1981, o número de favelados aumentou para 31,9% e em 2004 para 59%, ou seja, se tornando a maioria da população desta cidade. A cidade está cercada por favelas.

A cidade de Lima está sitiada pelas favelas. A resposta do neoliberalismo é a repressão e as políticas paliativas e o microrreformismo. Porém, agora, partindo da doutrina de segurança militar norte-americana e das experiências no Iraque, e neste contexto de favelização crescente, acrescenta-se a política de contrainsurgência produzida na atual fase do neoliberalismo. A política de contrainsurgência busca ser uma política de “espectro total”, combinando repressão, cooptação, autocontrole, revitalização, coleta de informação, que são elementos complementares. A repressão é usada esporadicamente, sendo preventiva ou reativa. A coleta de informações é realizada para “conhecer o inimigo”, ou seja, saber da oposição que irá encontrar, dos setores populares passíveis de cooptação, das formas de ação a partir da cultura local. A cooptação se revela na busca de apoio popular através das chamadas “lideranças” locais, nativas ou implantadas. A política de autocontrole busca que a própria população local se fiscalize e organize, seja através da formação de lideranças locais – onde elas não existam – e formas de organização que possam amenizar os conflitos sociais. A política de revitalização significa reativar e reforçar processos de produção e financeiros, ou os serviços sociais essenciais. No caso do Iraque, era um amplo processo de política industrial, financeira, etc. No caso das favelas, é um processo de criar estratégias de sobrevivência (cooperativas, microempresas), educação popular, profissionalização, etc. Isto tudo é realizado (com exceção da repressão) principalmente através da mediação de organizações burocráticas da sociedade civil, que penetram no mundo das favelas, tal como as ONGs, igrejas, ou por militantes políticos, intelectuais, entre outros, que exercem o papel de realizar um feedback em relação aos empobrecidos e permitir novas estratégias de ação repressiva, políticas assistencialistas desmobilizadoras, autocontrole, revitalização. Esses grupos realizam uma mediação burocrática entre Estado e população empobrecida, e proporcionam informações que serão usadas para as ações estatais em relação a ela. A chamada antropologia urbana cumpre um papel fundamental neste processo de coleta de informações com seus estudos culturais e possibilidade de compreensão das formas organizacionais dos favelados. É isto que explica a expansão dos estudos da chamada antropologia urbana na América Latina no novo século.

Os antropólogos urbanos como José Matos Mar, assessor de governos e organismos internacionais, por exemplo, oferecem um excelente processo de informação para o Estado capitalista no sentido de entender a organização espacial de uma favela. Ao lado de vários outros, inclusive alguns com posições mais à esquerda, contribuem com a compreensão estatal do que antes lhe era incompreensível, já que a organização do espaço urbano nas favelas revela outra lógica, diferente da lógica do poder estatal. Estes estudos revelam a forma organizativa das favelas, com sua auto-organização e processo interno de segurança, e possibilitando as propostas estatais de reordenamento espacial, tal como efetivamente vem ocorrendo.

O que ocorre, na verdade, é uma nova fase das lutas urbanas no qual se coloca, em algumas cidades, frente a frente o Estado capitalista e os empobrecidos. A favela é o resultado desta luta de classes, sendo que expressa a iniciativa dos empobrecidos, do lumpemproletariado. Porém, o Estado capitalista visa reconquistar e reordenar o espaço urbano e evitar o perigo dos empobrecidos para os setores privilegiados da sociedade burguesa. A mediação burocrática de instituições como ONGs, igrejas, bem como de intelectuais e militantes, são elementos que contribuem para amenizar os conflitos, ampliar a capacidade de controle estatal e, no fim, fortalecem o projeto de reordenamento espacial da região da cidade que não foi organizada ou coordenada pelo aparato estatal. Em outras épocas, o lumpemproletariado foi cooptado pelo Estado, por partidos conservadores, etc. Porém, no atual estágio do capitalismo, a composição social produz uma nova situação, sendo que a política de cooptação se torna uma política extremamente limitada, já que a quantidade de empobrecidos é tão elevada que este processo só atingiria pequenos grupos que não poderiam conter a luta da totalidade dos empobrecidos. A disputa entre o controle estatal e o controle popular das favelas é apenas uma parte da luta de classes que ocorre e se intensifica em todo o mundo. Quanto mais o capitalismo se desenvolve, mais difícil fica sua sobrevivência, por mais difícil que seja perceber isto.

Artigo publicado originalmente em: Espaço Plural – Caderno de Textos. IESA/UFG. 2008.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

OS CONFLITOS PSÍQUICOS EM “SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE” - Nildo Viana


OS CONFLITOS PSÍQUICOS EM “SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE”

Nildo Viana*

O filme “Sete Minutos Depois da Meia-Noite”, de J. A. Bayona[1], é uma obra cinematográfica complexa e que envolve fantasia, sonho, imaginação, com um fundo sentimental bastante forte, o que dificulta as interpretações da obra. Como não foi um grande sucesso cinematográfico, junto com a dificuldade interpretativa, não atraiu muitos materiais de análises mais desenvolvidas. O filme é um excelente exemplo de união entre universo ficcional fílmico e psicanálise, pois as temáticas que emergem na obra são psicanalíticas, embora também tragam questões que são comuns em análises de outras ciências, da filosofia, marxismo, etc.

O que pretendemos aqui é entender a mensagem de Sete Minutos Depois da Meia-Noite. Tratar-se-ia de um filme que aborda a questão do luto, verdade, amadurecimento, entre outras questões, tal como aparece em comentários na internet? Esses aspectos estão presentes na obra, mas reduzi-lo a um deles, isoladamente, é um equívoco. Por isso é importante retomar o universo ficcional e observar o que é fundamental na mensagem explícita e o que se pode encontrar como submensagens, mensagens implícitas, etc. Sem dúvida, não poderemos fazer uma análise mais profunda do filme e teremos que focalizar a sua relação com os temas psicanalíticos. Uma análise mais totalizante dessa obra cinematográfica fica para outra oportunidade. A nossa análise aqui será mais sintética e vinculando a mensagem do filme com questões abordadas pela psicanálise[2].

Antes de iniciar a análise fílmica, no entanto, é importante fazer um alerta. O filme aborda questões que os psicanalistas tratam frequentemente, como os sonhos, o inconsciente, etc. Contudo, uma análise do filme sob forma psicanalítica pode conter um equívoco grave. O filme não é uma obra psicanalítica e nem foi produzida por psicanalistas, embora vários elementos – inclusive mostraremos alguns – possam ser coincidentes com afirmações de determinados psicanalistas[3]. O que interessa é entender que se trata de um filme, uma obra artística, baseado em obra literária (outra forma de obra de arte) e não “um sonho” ou algo do tipo. No filme, aparecem sonhos e imaginação, mas dentro de um exercício mais profundo do uso da imaginação que foi a criação do universo ficcional de Sete Minutos Depois da Meia-Noite. Esse esclarecimento é importante para evitar reducionismos psicanalíticos muito comuns e na diferença metódica entre analisar sonhos e analisar imaginação, e, mais ainda, esses dois fenômenos psíquicos no interior de um outro, que é um universo ficcional fílmico.

Para ver o texto completo consulte a obra "Filme e Psicanálise".



* Professor da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB); autor de diversos livros, entre os quais “A Concepção Materialista da História do Cinema”; “Cinema e Mensagem” e “Como Assistir um Filme”.

[1] O filme foi baseado no livro homônimo (no original, em inglês, “A Monster Calls”, cuja tradução mais comum seria “Um Monstro Chama”), escrito por Patrick Ness, que desenvolveu a ideia da obra idealizada por Siobhan Dowd, que não pôde conclui-la ao morrer de câncer (e não conseguimos informações sobre o grau de desenvolvimento em que estava a obra quando a autora morreu). Segundo Ness, “ela tinha os personagens, uma premissa e um começo. O que lhe faltava, infelizmente, era tempo” (https://en.wikipedia.org/wiki/Siobhan_Dowd). O filme foi dirigido por J. A. Bayona a partir do roteiro produzido por Patrick Ness.

[2] Utilizamos “psicanálise”, aqui, no sentido amplo, ou seja, envolvendo todas as abordagens psicanalíticas, desde a de Freud, passando por seus dissidentes mais ou menos famosos (Jung e Adler, por exemplo) até chegar nas escolas psicanalíticas posteriores (incluindo o chamado “freudo-marxismo”) e não apenas a de orientação freudiana.

[3] No caso desse filme, especialmente as de Erich Fromm, embora, secundariamente, também é possível estabelecer vínculos com a obra de Jung, como mostraremos adiante. Uma análise “freudiana” do filme seria muito problemática.


terça-feira, 21 de julho de 2026

A Sombra, um conto de Nildo Viana

 





Eu estava no meu quarto. Era meia-noite. Estava tudo muito escuro. Só existiam sombras. A sombra tomava conta de tudo. Não havia luz e não existia nenhum ponto claro. Eu comecei a pensar sobre a sombra e a escuridão. Naquele momento e naquele lugar só existia sombra. E eu só pensava em sombra, que me cercava por todos os lados. Até o meu pensamento não conseguia ultrapassar a sombra. A sombra tomou conta do meu pensamento.

Dormi. E a sombra estava no meu sonho. Tudo estava escuro. Mas tinha algo. Eu levantei da cama e tudo estava escuro, mas existia uma coisa ainda mais escura no escuro, uma sombra na sombra. Como é possível uma sombra na sombra? A sombra disse que era para eu parar de pensar. Sim, a sombra falou e foi isso que ela me disse:

“Pare de pensar. O pensamento nunca te ajudou em nada. Você passou a vida inteira pensando e o que isso lhe serviu? Você precisa agir e não pensar. O quarto é escuro? O que isso interessa? O que interessa não é o que você pensa, sabe, sonha. O que interessa é o que você faz. Veja a imagem mais escura que se forma na escuridão. Ver, sentir, agir. Está vendo. É um punhal. Veja uma sombra que se delineia noutra sombra e há um pulso segurando um punhal. Agora que já viu que tudo é sombra e que há uma “sombra na sombra”, você também está sentindo. O que está sentindo? Qual é o recado que lhe dá o pulso e o punhal. Qual é este recado? Entendeu o recado? Então agora deve agir!”.

Acordei assustado. Não consegui dormir mais. Foi um sonho muito forte, a voz da sombra era grave e agressiva, muito realista. Fiquei assustado com o seu realismo. Parecia que não era um sonho, que era algo que eu estava vivendo realmente. Acordei e fui cuidar da vida. Café da manhã, transporte, trabalho e as coisas da vida cotidiana. Sempre as mesmas coisas se repetindo eternamente e me fazendo uma espécie de robô pré-programado que não questiona e sempre faz tudo do mesmo jeito e sempre as mesmas coisas. Repetição e repetição da repetição, numa eterna repetição. Até que finalmente chega a noite. Eu sempre assisto TV e vejo as redes sociais virtuais depois do jantar, repetida e cotidianamente, todos os dias, ou, se preferirem, todas as noites. E sempre fico entediado com o dia e a noite. Não quero dormir. Eu nunca quero dormir. Eu sei que se eu for dormir, não farei nada que gostaria de fazer, embora eu também não o faça quando estou acordado. Só que se eu dormir, quando acordar, vou ter que fazer o que sempre faço.

Nessa noite, no entanto, foi diferente. Eu não queria dormir para não ter que reiniciar o ciclo da tortura cotidiana de mais um dia de trabalho e de outras repetições, que parecem pequenos trabalhos do lado do grande trabalho, que me consome oito horas por dia. Mas nesse dia eu não queria dormir também por estar com medo. Medo da sombra, medo do pesadelo. Eu fui dormir e deixei a luz do quarto acesa. Olhei para as paredes e o teto e quase não havia sombra, estava quase tudo iluminado ou pequenos trechos de sombra fraca por detrás de algum móvel. O meu costume é dormir em torno da meia-noite. A luz estava me incomodando. Deu meia-noite e não consegui dormir. De repente, olhei para o relógio-despertador que eu tenho no criado-mudo e eram duas horas da manhã. E aconteceu algo assustador. Olhei para a porta e ela estava escura. Fiquei com muito medo. A escuridão da porta foi se alastrando lentamente, e subitamente acabou a energia elétrica e ficou tudo escuro. Eu estava muito assustado e mais ainda quando ouvi a voz da sombra:

“Para de fugir de você mesmo! Para de fugir se refugiando em pensamentos e luzes artificiais. A luz verdadeira já se apagou dentro de você. Agora você é só sombra. Você é parte da sombra, da escuridão. A sombra não é um todo indiferenciado, pois existem tons no seu interior. Olhe para a parede, veja: um pulso e um punhal. Eis o que deve ver! Já viu, agora é preciso sentir! O que está sentindo? Qual é a mensagem do pulso e do punhal? Para que serve um punhal? Um punhal é uma arma de lâmina curta e pontiaguda, usada para defender ou atacar. É uma ferramenta de defesa pessoal. Veja que você pode usá-lo para se matar ou para matar outros. Veja o que você está sentindo e se está bem com esse sentimento. O punhal é usado no combate corpo a corpo. Ele também é símbolo de posição social e poder. Você não tem posição social e poder. Você é um Zé Ninguém. Prefere ser um Zé Ninguém ou um Khanjar? Você sente medo. O medo paralisa. O medo faz você fugir. Você foge da sombra e se refugia na luz. Você foge do medo e se refugia no pensamento. Você foge do cotidiano e se refugia na evasão e na ficção. Mas o medo não impede que a sombra continue se alastrando e tomando conta de você, dos últimos redutos no seu interior que ainda não estão sob o seu domínio. O pulso você tem. O punhal você tem. Já viu e já sentiu. Agora, deve agir!”.

Acordei assustado novamente. Naquele momento, eu acreditava que não era um sonho. Pensei que estava acordado e essas coisas estariam realmente acontecendo na vida real. A verdade é que eu dormi e sonhei que o quarto escureceu e a luz se apagou. Não consegui dormir mais e fui pesquisar para saber o que significavam esses sonhos terríveis. O que significa sombra? Para uns, a sombra simboliza o inconsciente, aspectos da personalidade ocultos (medos, desejos, impulsos). Para outros, a sombra simboliza o mal, ou a dualidade entre o bem e o mal, com a escuridão representando o mal. Ela também é associada com a morte ou a transformação, a passagem de um estado para outro. E continuei pesquisando e vendo outras possibilidades: ela pode simbolizar o desconhecido, o misterioso, o inexplicável, ou, ainda a “parte obscura da personalidade”. Descobri outros significados, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Só sabia que sentia medo de tais pesadelos. Precisaria procurar um psiquiatra ou psicólogo? Um psicanalista? Amanheceu e eu não tinha alternativa a não ser voltar para o círculo infernal da cotidianidade. Nesse momento eu pensei no que era pior: esses sonhos medonhos noturnos ou a realidade sombria diurna que eu tinha que suportar?

Quando se aproximou novamente a meia-noite, eu estava com muito medo de dormir. Lembrei da pesquisa que fiz e que relaciona a sombra com personalidade. Alguns diziam que é preciso enfrentar o medo, a sua parte obscura. Outros diziam para “integrar a sombra” e assim desenvolver uma “personalidade total”. A própria voz da sombra me dizia para enfrentar o medo, pois ele é paralisante! Resolvi então “encarar meu medo”. Apaguei as luzes e fui dormir, com medo, com os olhos fechados para não me defrontar com a escuridão. Depois de algum tempo, ouvi ruídos. Era como se alguém estivesse raspando uma faca na parede. Faca... um punhal! E a voz novamente se fez ecoar pelo quarto silencioso:

“Já viu e já sentiu. Agora deve agir! O que você quer fazer com o punhal? Você tem duas alternativas. Vou lhe ensinar como agir diante da primeira alternativa: pegue o punhal e coloque-o no rumo do seu peito e use toda a sua força para enterrá-lo no seu corpo. Isso sim é uma ação digna. Se nada vale a pena, então cumpra sua pena. A única pena que lhe resta não é a autopiedade ou a pena de si mesmo e sim a pena de morte! Essa é a alternativa dos covardes, dos medrosos, dos fracos! Vou lhe ensinar também como agir diante da segunda alternativa: pegue o punhal e procure as pessoas que te fazem mal. Vá atrás de uma por uma e enterre o punhal no coração deles! Sim, sem piedade! Sem titubear! Sem pensar duas vezes, ou melhor, sem pensar de forma nenhuma! Pulso, punhal, sangue, redenção! E não adianta tentar o auxílio de pensamentos ponderados! Não adianta pensar que nem todo mundo te faz mal! Ora, quem não te faz mal? O seu patrão que te explora e humilha? O seu colega de trabalho que fica competindo com você e zombando de ti pelas suas costas? O seu irmão invejoso que nem imagina a angústia que você vive e nem se importa com isso? O seu vizinho que joga o lixo dele no seu quintal? O Presidente da República que mente e ilude para se manter no poder e não busca resolver nada efetivamente? As celebridades que se enriquecem te vendendo falsa arte? As pessoas que fingem te amar? Ouça a música: “declare guerra a quem finge te amar!”. Mate! Mate todos! Mate tudo! Destruir o mundo imundo que te machuca! Agora escolha: vai se destruir ou vai destruir quem te destrói?”.

Acordei muito assustado! Aquilo parecia tão vivo, tão real! Eu fiquei pensativo. O que era pior? A luz diária que me massacrava todos os dias ou a sombra noturna que me atormentava todas as noites? A voz da sombra me deu duas alternativas. Uma delas me livrava de tudo isso. A outra me fazia fazer parte de tudo isso, mas como Khanjar, a ferramenta da destruição. Era preciso decidir entre três alternativas: continuar no círculo e ciclo vicioso da tortura cotidiana, morrer ou matar. Então eu aprendi o que a sombra me ensinava, mas ao contrário. Eu precisava unir o pensar e o sonhar, para depois agir.

Resolvi fazer diferente. Tomei meu café, pois disso eu gostava. Não fui trabalhar. Decidi me dedicar a algo que me agradasse, ao invés de algo que fosse uma imposição. Eu sei que teria consequências. Teria vantagens também. A tranquilidade seria bem maior. Eu gostava muito de desenhar histórias em quadrinhos quando era mais jovem, quando tinha 18 anos. Larguei os desenhos, a ficção, a aventura, o amor. Tudo isso em troca da sobrevivência um pouco mais confortável, emprego, segurança. Os sonhos juvenis foram substituídos por pesadelos adultos. Quando era jovem, tudo era mais tranquilo. Não precisava ter emprego, identidade, dinheiro, poder, status, imagem social. Bastava viver e pronto. Fazer o que precisa para sobreviver e fazer o que gosta. As relações com as pessoas, pelo menos algumas, eram mais verdadeiras, mais sinceras. O peso da segurança é muito maior do que uma pessoa pode suportar. Optei pela leveza da vida despreocupada.

Eu sabia que havia desafios nessa decisão. No fundo, seria a troca de uma luta por outra, mas eu agora sabia qual era a melhor luta. Voltei a desenhar histórias em quadrinhos. Vou ter que arrumar outro trabalho, vou ter que enfrentar as fofocas, vou diminuir minhas chances e oportunidades na vida de ganhar dinheiro, ter pessoas interesseiras próximas de mim, entre milhares de outras coisas. Mas o que me animava era saber que isso não era só uma questão minha. Essa sombra não assustava apenas a mim, pois a pesquisa que fiz na internet mostrou que milhões estão assim: entre a sombra e a luz, em duplo sentido, em dois momentos. O sentido real e concreto que atinge a todos e o sentido interno, dentro de nós mesmos. Então o que me anima é a possibilidade de encontrar outros como eu, um desafiador da sombra. Ela, no entanto, ainda me acompanha, mas ela não me dirige – como ela gostaria de fazer – pois agora sou eu que a direciono.

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Publicado originalmente em:

VIANA, Nildo. A Sombra. Poeticus, vol. 10, num. 14, 2026. Disponível em: https://redelp.net/index.php/poe/article/view/1752.





segunda-feira, 20 de julho de 2026

A GÊNESE DA MÚSICA SERTANEJA - NILDO VIANA

 A GÊNESE DA MÚSICA SERTANEJA - NILDO VIANA


https://redelp.net/index.php/rsr/article/view/1756

A GÊNESE DA MÚSICA SERTANEJA - NILDO VIANA

O tema do presente trabalho é a formação do gênero musical sertanejo no Brasil. O problema de pesquisa traz o questionamento das razões para a emergência desse gênero musical na sociedade brasileira.


A música sertaneja já foi bastante tematizada em teses, dissertações, livros, documentários. E quase todas as obras dedicadas à música sertaneja apontam suas origens. Isso poderia ser motivo para questionar o motivo de tematizar a gênese da música sertaneja. A razão para a escolha do tema da origem da música sertaneja está na diferença de perspectiva e embasamento para a reflexão que realizaremos a seguir.

A nossa concepção visa superar as abordagens puramente descritivas da formação da música sertaneja, bem como as concepções que visam elogiar ou desqualificar esse gênero musical, que são procedimentos recorrentes quando se trata dessa temática[1]. Por outro lado, alguns autores buscaram ultrapassar essas interpretações limitadas e buscaram oferecer uma análise mais sociológica, mas não conseguiram captar aspectos do fenômeno e, por isso, apresentamos uma concepção alternativa. A perspectiva aqui será histórica explicativa, com caráter crítico, a partir do uso do método dialético e materialismo histórico. Assim, a nova abordagem justifica a presente obra, bem como a importância social e econômica do gênero sertanejo, que hoje movimenta milhões no mercado musical.

O objetivo do presente trabalho é esclarecer, sob forma crítica e totalizante, a gênese da chamada “música sertaneja”. Disso deriva alguns objetivos específicos, tais como abordar o que é um gênero musical e como ele pode ser caracterizado, qual é a relação entre música caipira e música sertaneja, quais são os elementos constitutivos dessa última. Esses objetivos buscam responder ao problema de pesquisa que levantamos no presente trabalho: o que explica a emergência da chamada “música sertaneja” justamente num período histórico da sociedade brasileira na qual a cidade passa a ter supremacia sobre o campo?

Para destrinchar essa problemática e atingir os nossos objetivos, o método dialético será fundamental, pois traz as regras analíticas fundamentais que, ao lado da análise crítica de algumas obras sobre música sertaneja e análise das líricas sertanejas, compõem os elementos básicos de nossa análise do processo de surgimento desse gênero musical.

História da Música e Gêneros Musicais

A história da música possui uma longevidade e complexidade que pode ser dividida em diversos períodos e a sua historicidade cobre diversos aspectos. Aqui nos interessa o aspecto do gênero musical. Nesse sentido, o que precisamos discutir é a formação de um gênero musical. Para entender a formação de um gênero musical é necessário, antes de mais nada, possuir uma compreensão do que constitui esse fenômeno. O gênero musical é pouco trabalhado, inclusive quando se aborda a formação ou mesmo características de alguns deles. No caso histórico, é fundamental uma compreensão mais profunda sobre o significado dos gêneros musicais, pois, sem isso, o risco é ficar no descritivismo. Por isso vamos, inicialmente, discutir o que é gênero musical, e, posteriormente, analisar o gênero sertanejo.

Para acessar o artigo completo: https://redelp.net/index.php/rsr/article/view/1756 



[1] O que não significa, sob forma alguma, apresentar uma suposta “neutralidade” ou evitar críticas, como se verá em alguns momentos do presente artigo.


domingo, 19 de julho de 2026

Entrevista sobre o livro A Dialética Revolucionária - Nildo Viana

 


Entrevista sobre o livro A Dialética Revolucionária, na Revista Sociologia em Rede.


Dialética e Ruptura Epistêmica - Entrevista
Entrevista de Nildo Viana sobre sua obra "A Dialética Revolucionária". Nela, o autor oferece esclarecimentos sobre a obra, alguns termos utilizados e outros elementos vinculados a ela.


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