Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

Mostrando postagens com marcador estado neoliberal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador estado neoliberal. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de setembro de 2020

CRÍTICA À RAZÃO TECNICISTA



CRÍTICA À RAZÃO TECNICISTA

 

Nildo Viana

 

A sociedade contemporânea vive num dilema: razão tecnicista ou razão neopopulista? Porém, como já dizia o compositor Herbert Vianna, esse é “um dilema que nem o cinema pode resolver”. É uma escolha entre o inferno e o purgatório. Ou, para ser mais exato, entre o inferno com um diabo mau encarado e um inferno com um diabo sorridente, ambos furando o corpo de suas vítimas com tridentes e um dizendo “não tem outro remédio” enquanto que o outro diz “vou fazer você feliz”. Vamos analisar, brevemente, a razão tecnicista e o diabo mau encarado no presente texto e posteriormente trataremos da razão neopopulista e do diabo sorridente.

O tecnicismo tem uma longa história como termo nas ciências humanas, bem como vários significados. Aqui nos referimos ao tecnicismo contemporâneo. A sua base ideológica é o neoliberalismo inflexível dos anos 1980, cuja ideia era aumentar a exploração e a precarização com base no cálculo mercantil. O cálculo mercantil (chamado por alguns ideólogos como “cálculo racional” ou “cálculo econômico”) quantifica e determina tudo em termos calculistas, quantitativistas e individualistas. O indivíduo age racionalmente no mercado, fazendo “escolhas racionais”, que beneficiam a ele e ao conjunto da sociedade (leia-se: “economia de mercado”, ou, em termos marxistas, modo de produção capitalista). É o neoliberalismo que afirma não existir “almoço grátis” (Milton Friedman). O mercado é o Deus supremo e todos devem se curvar diante dele. O estado, nesse contexto, deve ser “mínimo” e realizar o cálculo mercantil, equilibrando suas contas e evitando o déficit orçamentário. Ele deve, portanto, “fazer o que tem que ser feito”. Isso, obviamente, está de acordo com os interesses do capital oligopolista transnacional. A conclusão óbvia disso, que pode ser cantada com um soneto de fundo e que se encerra com uma chave de ouro malthusiana, é a de que o aparato estatal deve diminuir seus gastos, especialmente com “políticas sociais”. A lei da selva mercantil deve dominar para que os leões do capital reinem absolutos.

Assim, essa razão tecnicista, pois os argumentos são técnicos e fundados no cálculo mercantil, e inspirados nos patéticos economistas neoliberais do passado e do presente, aponta não só para a diminuição dos gastos estatais com “políticas públicas”, mas também com a previdência social (o envelhecimento populacional, por exemplo, “prova” que os gastos com aposentadoria se tornam cada vez mais amplos e desproporcional em relação à força de trabalho ativa) e diversos outros elementos cuja responsabilidade é do Estado. Um aparente realismo justifica e legitima decisões políticas extremamente prejudiciais para vastos setores da sociedade. O realismo mercantil mostra a soberania do mercado sobre os seres humanos.

Nesse contexto, o descontentamento tende a ser grande, especialmente nos setores mais atingidos e nos mais empobrecidos. Assim, a classe operária, os semiburgueses (pequenos proprietários, pequenos comerciantes, rentistas), o lumpemproletariado (aqui englobando todos os desempregados e semiempregados), o campesinato, etc., são atingidos negativamente pelas políticas neoliberais inflexíveis. Alguns setores da burocracia estatal (especialmente das instituições estatais, tal como se vê no caso de universidades, hospitais públicos, etc.), a redução do emprego “público”, etc., atinge também alguns setores da burocracia e da intelectualidade.

A precarização do trabalho, o desemprego, o empobrecimento, entre outros problemas sociais, tiveram uma expansão com a emergência do neoliberalismo, bem como violência e a criminalidade tendem a aumentar nesse contexto e foi o que ocorreu. Nesse contexto, o aparato estatal deve se tornar mais repressivo e emerge a chamada “política de tolerância zero” e por isso o Estado neoliberal foi denominado “Estado penal” pelo sociólogo Löic Wacquant (2001). Porém, isso ocorreu no período de implantação dos governos neoliberais, mais inflexíveis, ou seja, no momento de formação do regime de acumulação integral (VIANA, 2009). A crise do regime de acumulação anterior e sua substituição foi um período difícil e o novo regime de acumulação, graças ao aumento da exploração com a chamada “reestruturação produtiva”, ao neoliberalismo e ao hiperimperialismo, conseguiu retomar o ritmo da acumulação de capital[1], gerando uma relativa estabilidade do capitalismo mundial nos anos 1990 até meados dos anos 2000 (e, dependendo do país, um pouco antes ou um pouco depois).

O problema é que a acumulação de capital tem uma tendência cíclica e o ciclo dos regimes de acumulação apontam para isso. A crise financeira de 2008 abriu caminho para o desencadeamento de um processo tendencial já existente no sentido da desestabilização do regime de acumulação integral. Nesse contexto, reaparecem, novamente, os adeptos do neoliberalismo inflexível, mas sob forma ainda mais exagerada e metamorfoseada como neoliberalismo discricionário, diante da desestabilização e ameaça de crise geral do capitalismo (VIANA, 2020). Esse neoliberalismo discricionário começa a ser praticado em alguns países, com as chamadas “políticas de austeridade”. Essas políticas de austeridade visam resolver o problema da acumulação de capital a partir da própria lógica deste regime, ou seja, com mais neoliberalismo (VIANA, 2020). Assim, a razão tecnicista se torna ainda mais forte e truculenta.

Os representantes desta razão tecnicista são economistas neoliberais empedernidos, capitalistas, representantes de instituições internacionais e nacionais, entre outros. No Brasil, o atual Ministro da Economia, Paulo Guedes, é um deles, embora esteja limitado por um governo de orientação conservantista[2]. Se Paulo Guedes fosse soberano em suas decisões, o caos já havia tomado conta do país, pois a razão tecnicista é reducionista e não leva em consideração os aspectos políticos, as lutas de classes, o significado do Estado, entre outros processos. A realidade é vista a partir da ótica do cálculo mercantil como se fosse a única coisa existente e importante, e, ao desconsiderar todo o resto, acaba promovendo mais problemas do que soluções, embora possa dar resultados positivos para o capital em curto prazo, mas insustentáveis a longo prazo.

A razão tecnicista neoliberal não somente desconsidera as questões humanas, como também as políticas, entre outras. Trata-se um mundo intelectual pobre e nessa pobreza, onde reina a matemática financeira, a riqueza da realidade é ofuscada, e as decisões políticas são orquestradas por um maestro bitolado. E nesse contexto, o aparato estatal, a salvaguarda do capitalismo, é enfraquecido, tornando ainda mais potencialmente explosiva uma nova crise no capitalismo.

A única ação voltada para o “social” promovida pela razão tecnicista é a responsabilização da sociedade civil e do indivíduo. Assim, coisas como “meritocracia”, “empreendedorismo”, por um lado, visando o sucesso individual, e ações como incentivo de ONGs, voluntariado e outras, como colaboração da sociedade civil para substituir o Estado e sua omissão no que se refere às políticas de assistência social e falta de ação das instituições estatais (fechadas, privatizadas, precarizadas). Os gastos estatais com a educação especial são suspensos e em seu lugar emerge a chamada “política de inclusão”. O discurso da inclusão se torna hegemônico. O que não se esclarece é que se trata de uma inclusão marginal e que são os professores que são os responsabilizados por resolver os novos problemas criados. Isso vale para todos os tipos de “inclusão”, embora ela tenha, no seu interior, uma certa “inclusão seletiva” (para cargos, por exemplo), que é uma forma de cooptação de setores de determinados grupos sociais[3] e que significa tão somente a substituição de quem ocupará determinado cargo ao invés de mudanças reais.

Assim, a razão tecnicista de orientação neoliberal promove um processo de justificação e legitimação das políticas neoliberais em sua forma mais endurecida, que é no seu período de formação e no momento de desestabilização do regime de acumulação integral, gerando um processo de aprofundamento através do neoliberalismo discricionário. Ela é expressão, nua e crua, dos interesses capitalistas e, por conseguinte, da desumanização mais intensa da sociedade burguesa. Porém, essa não é a única possibilidade e expressão do neoliberalismo. Uma outra forma é a razão neopopulista, que, no entanto, será o tema de outro artigo.

 

Referências

MARX, Karl. O Capital. 5 vols. 1, 3ª edição, São Paulo: Nova Cultural, 1988.

 

VIANA, Nildo. A Mercantilização das Relações Sociais. Modo de Produção Capitalista e Formas Sociais Burguesas. Curitiba: Appris, 2018.

 

VIANA, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo: Idéias e Letras, 2009.

 

VIANA, Nildo. Regime de Acumulação Integral e Dinâmica Histórica do Neoliberalismo. In: ALMEIDA, Felipe Mateus (org.). O Regime de Acumulação Integral. Retratos do Capitalismo Contemporâneo. Goiânia: Edições Redelp, 2020.

 

WACQUANT, Löic. As Prisões da Miséria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.



[1] Um indivíduo numa rede social e outro numa palestra virtual provaram, com seus questionamentos, que, a despeito de serem dos meios intelectualizados e com formação universitária na área de ciências humanas, não entendem o significado de “acumulação de capital” e a confundem com “concentração de renda” ou acumulação de setores do capital (determinadas empresas, por exemplo). Diante da miséria intelectual contemporânea, isso não é tão fantástico assim. Quando usamos o termo “acumulação de capital” não estamos tratando de “concentração de renda” e nem de setores do capital e sim do processo social mais geral que é do conjunto do capital e referente à taxa de lucro. Isso nada tem a ver com concentração de renda, que pode ocorrer mesmo com o decréscimo geral da acumulação de capital e que não tem o mesmo significado, pois uma coisa é “renda” e outra coisa é “capital”. Se um indivíduo ganha na loteria, ele fica rico e concentra renda, mas não capital, e isso pode ocorrer, tal como efetivamente ocorre. Isso pode ocorrer em momento de recuo da taxa de lucro ou mesmo crise de um regime de acumulação. O que ocorre, nesse caso, é apropriação de mais-dinheiro via transferência de dinheiro e não acumulação de capital (VIANA, 2018). Infelizmente, esse esclarecimento tem que ser efetivado devido a um conjunto de indivíduos presunçosos que leram poucas coisas, ou garimparam algo na internet, e já se julgam entendidos de “economia”. Sem dúvida, para entender mais profundamente o que foi aqui esclarecido (e que algumas pessoas já tem noção e não realizam tal confusão), seria necessário um processo de pesquisa mais profundo e entendimento de conceitos como renda, capital, lucro, taxa de lucro, massa de lucro, reprodução ampliada do capital, etc., que, obviamente, não poderemos apresentar aqui (cf. MARX, 1988). Podemos sintetizar o que colocamos da seguinte forma: quando a taxa de lucro aumenta, o ritmo de acumulação de capital se acelera e isso tem efeitos globais na sociedade, enquanto que quando ela entra em declínio, ocorre o processo contrário. A taxa de lucro, por sua vez, não se confunde com massa de lucro, pois expressa a porcentagem da taxa de exploração, enquanto que a massa de lucro é em termos globais, a totalidade quantitativa do lucro.

[2] O conservantismo é estatista, ao contrário do neoliberalismo. A aliança de Bolsonaro – conservantista – e Paulo Guedes – neoliberal – foi produto do oportunismo eleitoral do primeiro, que queria apoio de setores do capital e diminuir a resistência ao seu nome por parte de outros, visando ganhar a eleição. Isso gerou um regime híbrido, uma espécie de liberal-conservantismo.

[3] Não se resolve o problema dos grupos sociais, pois a inclusão é de alguns poucos indivíduos e que, uma vez incluídos, passam a ter novos interesses, que geralmente não são mais (se um dia foram, dependendo do caso) o do grupo social de origem.

----------
Leia também: Crítica à Razão Neopopulista (em breve).

segunda-feira, 27 de março de 2017

I Encontro de Teoria Política: Marxismo e Estado



O I Encontro de Teoria Política: Marxismo e Estado é uma realização do NUPAC (Núcleo de Pesquisa e Ação Cultural), com apoio do GPDS/UFG (Grupo de Pesquisa Dialética e Sociedade), NEMOS (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Movimentos Sociais), NPM/UEG (Núcleo de Pesquisa Marxista), NEPALM/UFMS (Núcleo de Estudos e Pesquisa América Latina em Movimento).

O objetivo do curso é levantar uma discussão teórica e reflexões a respeito da concepção marxista do estado. A posição de Marx diante do Estado era claramente crítica e sua proposta política era a da abolição do estado em geral. Nesse sentido, Marx se distinguia de todas as concepções ideológicas e legitimadoras do aparato estatal. No entanto, após sua morte, os pseudomarxistas realizam uma deformação do seu pensamento e assumiram a forma de concepções estatistas que pregavam a tomada do poder estatal e não sua abolição. Assim se criou a ilusão de que Marx era um estatista. Depois de Marx, alguns poucos marxistas autênticos retomaram a concepção crítica e revolucionária deste pensador e reafirmaram a necessidade de abolição do poder estatal, tal como os comunistas conselhistas e o marxismo autogestionário. A reflexão sobre marxismo e estado é fundamental, pois assim é possível resgatar o pensamento de Marx a respeito dessa instituição e analisar, numa perspectiva marxista, as interpretações da formação estatal e explicar sua relação com a acumulação capitalista e suas mutações, constituindo a atual forma estatal, a neoliberal.

Essa reflexão será realizada através de uma mesa redonda, uma palestra e um grupo de debate (comunicações acompanhadas de debate). Os participantes podem efetivar inscrição com apresentação de comunicação e todos os inscritos poderão debater durante as três partes do encontro (Mesa redonda, palestra, grupo de debate).

Outro objetivo do curso é incentivar a produção escrita dos participantes, gerando, dessa forma, resumos antes do evento e, posteriormente, caso seja interesse dos participantes, a elaboração de um artigo sobre a temática do encontro - em suas várias possibilidades (análise crítica de ideologias legitimadoras do estado, do concepção pseudomarxista da questão do poder estatal, a concepção marxista - Marx e outros, ou influenciada pelo marxismo), a respeito do Estado, análise histórica-concreta do Estado e suas diversas relações com a sociedade em geral, com os regimes de acumulação, etc.

O I Encontro de Teoria Política: Marxismo e Estado será realizado num único encontro presencial, no dia 01 de abril de 2017, no Ruptura - Espaço Cultural.


As inscrições para o I Encontro de Teoria Política: Marxismo e Estado, deve ser realizado através do preenchimento da ficha de inscrição  (clique aqui) e, caso seja com apresentação de comunicação, preencher o item do resumo nesta ficha. Após o preenchimento, a ficha deve ser enviada para o email gpdsufg@gmail.com

Há número limitado de vagas. Não haverá seleção e por isso o preenchimento das vagas será por ordem de inscrição.

O valor da inscrição é de 20 reais. A inscrição é paga no dia do encontro.

ATENÇÃO! Apenas 35 vagas! Faça sua inscrição, enquanto ainda tem vagas.

Vá ao link da inscrição e faça download da ficha em seu computador, preencha e envie para o email especificado acima:








I Encontro de Teoria Política: Marxismo e Estado

Data: 01 de abril de 2017





PROGRAMAÇÃO
I ENCONTRO TEORIA POLÍTICA: MARXISMO E ESTADO

Dia 01 de Abril de 2017


-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
08:00 - 12:00

Mesa redonda:

Marxismo e Estado

a) Marx e a crítica do Estado - José Santana da Silva

b) Marxismo, Escola Derivacionista e estado capitalista - Edmilson Marques

c) Análise marxista do estado neoliberal - Lucas Maia

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

12:00 - 14:00 - Intervalo

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

14:00 - 15:00:

Palestra:

Estado e Acumulação de Capital - Nildo Viana

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

15:00 - 18:00

Grupo de Debates: Marxismo e Estado

(Comunicações e debate).

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Para mais informações e Inscrições, clique aqui.

Valor da Inscrição: R$ 20,00

domingo, 26 de julho de 2015

Nova edição do livro Estado, Democracia e Cidadania



Abaixo dados e textos de orelhas e contracapa do livro.

VIANA, Nildo. Estado, Democracia e Cidadania. A Dinâmica da Política Institucional no Capitalismo. 2a edição, Rio de Janeiro: Rizoma, 2015.

A nova redição conta com um prefácio que mostra as mudanças de concepção de autor e sua atualização, discutindo a questão da revisão em relação ao problema da burocracia, estado, mercantilização, função, entre outros aspectos.

Orelhas e contracapa de "Estado, Democracia e Cidadania"

Orelha A:
O Estado capitalista é o principal aparato de reprodução das relações de produção capitalistas. Ele é o “capitalista coletivo ideal” e exerce um conjunto de funções para reproduzir o capital e seu processo incessante de reprodução ampliada. Ele crie um conjunto de aparatos estatais (educacionais, sanitários, financeiros, repressivos, comunicacionais, etc.) e instituições (universidades, escolas, hospitais, etc.) que exercem atividades específicas para concretizar esse seu objetivo fundamental. Ele também cria processos de autovaloração e autolegitimação, que são as fontes das ideologias, desde a antiga filosofia política até as mais modernas produções ideológicas da ciência política e outras disciplinas. A sua imagem ideológica de “universal”, “coisa pública”, entre outras, vem para esconder seu real caráter, que é ser um aparato capitalista que nada tem de neutro. Nesse sentido, a análise e crítica do estado capitalista são fundamentais e elemento necessário para a superação das ilusões estatistas, eleitorais, democráticas, entre outras, que é condição para constituição de uma sociedade autogerida, sem estado, sem capital e exploração. Sem a destruição dessa poderosa máquina estatal burocrática, a autogestão social e a emancipação humana são impossíveis.

Orelha B:
O estado capitalista busca se autolegitimar não apenas através de ideologias e discursos, mas também através de aparatos, instituições e outras formas de materialização da política institucional. A democracia e a cidadania são, nesse processo, dois elementos legitimadores da dominação burguesa. O Estado capitalista constitui dois regimes políticos para efetivar sua dominação de classe mediada pela burocracia: a democracia e a ditadura. A democracia é a forma mais permanente, especialmente nos países capitalistas imperialistas, e é a que busca legitimar o estado capitalista e a sociedade burguesa como um todo. No entanto, entre ela e a ditadura o que temos é apenas variação de grau e diferença de forma, pois ambos os regimes políticos são formas de dominação burguesa. A cidadania, por sua vez, é defendida até pela pseudoesquerda, já que ela tem uma face amigável, tal como o estado capitalista e a democracia burguesa em sua aparência, mas esconde o seu real objetivo e significado: integrar o indivíduo no capitalismo, ou seja, mais uma forma de reprodução das relações de produção. Nesse sentido, a crítica da democracia burguesa e representativa e da cidadania também é fundamental para a transformação radical da sociedade, a instauração da autogestão social, que é ao mesmo tempo uma luta contra o capital e o estado, mas também contra as ideologias e representações cotidianas ilusórias que buscam legitimá-los e reforçá-los.

Texto da Contracapa

Atribui-se a Esopo uma fábula na qual um lobo veste uma pele de lã para entrar no rebanho para devorar as ovelhas. A expressão “lobo na pele de cordeiro” significa então o uso de uma imagem aparente boa para esconder suas reais intenções e assim conseguir seus objetivos. Essa fábula se enquadra muito bem no caso do estado, democracia e cidadania, três inocentes e generosas palavras que apontam para um grau maior de igualdade, participação, civilização. Mas, tal como no caso do lobo, é apenas um disfarce, pois por debaixo da pele ideológica se encontra as reais motivações e ações dessas formas sociais: a reprodução do capital. O presente livro realiza uma análise crítica dessas formas sociais e mostra seu processo histórico de engendramento e papel na reprodução do capitalismo. É preciso retirar a pele das ideologias e dos imaginários para ver que ao invés de “público” e “representante do universal”, o estado é um aparato do capital; que ao invés de “liberdade” e “participação”, a democracia representativa é uma forma de dominação; e ao invés de “direitos” do homem e do cidadão, a cidadania é uma forma de integração manipuladora dos indivíduos na sociedade capitalista. A crítica da política institucional, seu processo de formação e reprodução ligado à evolução do capitalismo (luta de classes e regimes de acumulação) é o ponto de partida para a sua superação. Este é o objetivo-trajeto desta obra.

Onde Adquirir:

http://rizomaeditorial.com/store/index.php?route=product/product&product_id=523

http://www.amazon.com/Democracia-Cidadania-Din%C3%A2mica-Institucional-Capitalismo-ebook/dp/B010GUXZCS/ref=sr_1_1?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1437835614&sr=1-1&keywords=Estado%2C+Democracia+e+Cidadania

http://www.estantevirtual.com.br/b/nildo-viana/estado-democracia-e-cidadania/2955898532

E em outras livrarias.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O novo regime de acumulação capitalista e a violência nas escolas


O novo regime de acumulação capitalista
e a violência nas escolas

Nildo Viana

O neoliberalismo evita os gastos com políticas sociais, contribui com a transformação na esfera da produção e exploração internacional e realiza uma política privatizante em benefício do capital. A sua máxima é um Estado mínimo e forte, isto é, um estado que intervém minimamente e que reprime maximamente.
 
O capitalismo contemporâneo vem sendo o palco de um conjunto de transformações que possui relação direta com o crescimento da violência nas escolas. Este conjunto de transformações tem sua fonte nas lutas sociais e na ofensiva do capital no sentido de aumentar a exploração, já que a partir dos anos 60 a taxa de lucro médio vem caindo. A revolta estudantil de maio de 68, juntamente com outros movimentos contestadores da época, representou um primeiro sintoma do novo período de lutas sociais e de transição para um novo regime de acumulação, marcado por uma ofensiva no sentido de retomar o padrão de acumulação capitalista.

O novo regime de acumulação vai se esboçando e a partir da década de 1980 - com a ascensão e paulatina generalização do neoliberalismo, a chamada reestruturação produtiva e as novas relações internacionais constitutivas de um neoimperialismo - temos sua materialização. Estes três elementos caracterizam o regime de acumulação integral, chamado por alguns de "flexível", e provocam diversas mudanças na sociedade civil, no mundo da cultura e da ideologia. O neoliberalismo evita os gastos com políticas sociais, contribui com a transformação na esfera da produção e exploração internacional e realiza uma política privatizante em benefício do capital. A sua máxima é um Estado mínimo e forte, isto é, um estado que intervém minimamente e que reprime maximamente. A política repressiva é, nos países de capitalismo subordinado, acompanhada de políticas paliativas (sistema de cotas, educação inclusiva, programas específicos de caráter assistencialista) que se revelam nada mais do uma forma de tentar impedir a total deslegitimação do Estado neoliberal sem sair de sua lógica, isto é, sem aumentar os gastos públicos, jogando a responsabilidade para a sociedade civil ou beneficiando uns em detrimento de outros, tal como na política de cotas.

O aumento mundial da população carcerária é apenas uma expressão da face repressiva do neoliberalismo, atingindo todos os países do mundo (por exemplo, aumentou 240% na Holanda e 140% em Portugal). Nem é preciso citar a situação dos países mais pobres e os altos índices de fome, miséria, entre outros, para ver o novo quadro do capitalismo mundial contemporâneo. A chamada ?reestruturação produtiva?, expressa no toyotismo e modelos similares, aponta para um aumento da extração de mais-valor, tanto absoluto quanto relativo, e o neoimperialismo aponta para a intensificação da exploração internacional.

A situação marcada pelo aumento da exploração, da miséria, dos conflitos, da deterioração das relações familiares e da saúde psíquica das pessoas, são elementos fundamentais para compreender a crescente violência no espaço escolar. As políticas paliativas ou "compensatórias" acabam é realizando uma reprodução maquiada das condições de vida desfavoráveis da população ao invés de propor soluções reais. O aumento da violência e sua presença crescente nas escolas é uma conseqüência deste estado de coisas. O discurso conservador vem para pregar a moralização da escola e para apelar para a responsabilidade individual e desvincular as relações sociais e a pobreza da violência, reproduzindo as ideologias norte-americanas e reforçando a reprodução de toda esta situação deplorável e, por conseguinte, a violência nas escolas.

_______________
Artigo publicado originalmente em: Jornal A Página, Portugal, N.º 140, Ano 13, Dezembro 2004.
 
POSTS RELACIONADOS:
 
Sobre Capitalismo Contemporâneo
 

Informe e Crítica


Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Acompanham este blog: