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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A Esfera Científica no Cinema


Alceu 31

A esfera científica no cinema
Por: Nildo Viana

 ResumoA ciência e a produção científica são objetos de representações por elas mesmas e, de forma mais aprofundada, pela sociologia da ciência, filosofia da ciência e história da ciência. O cinema através de suas produções fílmicas também apresentam aspectos da ciência e de suaprodução intelectual. O presente artigo objetiva analisar três filmes (A fúria pela honra; Óleo de Lorenzo; O informante) e observar quais representações eles produzem a respeito da ciência, da esfera científica e da produção que esta realiza. A conclusão é que esses filmes revelam adinâmica dominante do campo científico e suas ligações complementares com o capital e o Estado burocrático, cada um concentrando-se sobre um aspecto destas relações.
Palavras-chave
Esfera científica. Cinema. Competição. Burocracia. Capital.
 Résumé
Des sciences et de la production scientifique sont des représentations d’objets par eux-mêmes et, plus en profondeur, la sociologie de la science, la philosophie de la science et de l’histoirede la science. Le film à travers ses productions filmiques comportent aussi des aspects de la science et de la production intellectuelle. Cet article vise à analyser trois films (Le fury parhonneur, Huile de Lorenzo, L’informateur) et observer ce qu’ils produisent des représentations sur la science, la sphère scientifique de la production et que cette porte. La conclusion est que ces films révèlent la dynamique dominante dans le domaine scientifique de ses liensavec la capitale, et la bureaucratie d’Etat, étant complémentaires, puisque chaque concentre sur un aspect de ces relations.
Mots-clé
Sphère scientifique. Cinéma. Competition. Bureaucratie. Capitale.

A esfera científica no cinema 

terça-feira, 3 de maio de 2011

A VOZ DOS TRABALHADORES PRECOCES: ENTREVISTA E GRUPOS SILENCIADOS


A VOZ DOS TRABALHADORES PRECOCES: ENTREVISTA E GRUPOS SILENCIADOS*

Nildo Viana

O presente texto nasceu da necessidade de compreender contradições encontradas no discurso de pessoas entrevistadas, bem como determinadas formas de reação destas. Neste sentido, iremos analisar o processo de entrevista quando envolve grupos sociais oprimidos, partindo do caso dos trabalhadores precoces[1], supondo que a partir deste caso se pode generalizar as conclusões para todos os grupos sociais oprimidos.
Partimos do seguinte princípio metodológico: uma entrevista não é um “dado” e sim um processo, um processo constituído pela relação entrevistador/entrevistado e pela posição e formação de ambos. A partir deste princípio metodológico e de uma discussão teórica sobre o processo de entrevista com grupos sociais oprimidos iremos analisar o caso dos trabalhadores precoces que, segundo nosso ponto de vista, tal como já colocamos, serve de paradigma para compreender o problema da entrevista com grupos sociais oprimidos.
As entrevistas que forneceram o material informativo que utilizaremos para discutir a questão do processo de entrevista com grupos sociais oprimidos se referem à problemática do trabalho de menores de idade, onde se buscava descobrir a visão do trabalho por parte dos trabalhadores precoces.
O que os trabalhadores precoces pensam do seu trabalho? Como eles se sentem desenvolvendo atividades remuneradas? Por qual motivo ingressam no mercado de trabalho? Qual é a relação entre trabalho e estudo em sua percepção? Estas são algumas questões que encontramos quando tratamos da questão do trabalho precoce. Entrevistamos vinte e cinco trabalhadores precoces visando ver como eles respondiam algumas destas questões. Porém, esbarramos novamente em um problema metodológico da entrevista, do qual trataremos a seguir.
Trabalhador Precoce: O Outro do Outro
Como colocamos anteriormente, a força de trabalho precoce se encontra numa situação de fragilidade diante do capital e os indivíduos menores de dezoito anos possuem uma autonomia menor diante da sociedade. Outros segmentos da força de trabalho e da sociedade também se encontram em situação análoga mas nenhuma com tão poucos recursos para resistir.
Porém, isto tem implicações mais profundas, pois o grupo social composto por indivíduos menores de dezoito anos não consegue, tal como outros grupos sociais oprimidos, manifestar sua voz, seus desejos, etc. Trata-se de um “grupo silenciado”. Edwin Ardner elaborou a teoria dos grupos silenciados para explicar o fato da existência de grupos sociais que não conseguem se manifestar e apresentar seu próprio discurso, e nas raras vezes que o consegue é utilizando a linguagem dominante, ou seja, ainda fica sob o efeito da dominação[2]. Os grupos sociais silenciados são envolvidos pela cosmovisão, pela ideologia e pela linguagem dominantes e quando manifesta sua voz não consegue se livrar do discurso dominante.
Isto traz um sério problema para a técnica da entrevista. O que o entrevistado geralmente fornece é sua “opinião” e esta geralmente está em concordância com o discurso dominante. Tal como colocaram Erich Fromm e Michael Maccoby: “uma opinião por si mesma nada mais é que a aceitação de um padrão de pensamento compartilhado pela sociedade em geral ou por determinado grupo (...). Foi admitido [em sua pesquisa sobre o camponês] que só as opiniões arraigadas na estrutura do caráter de uma pessoa — se forem, pode-se dizer, ‘opiniões entranhadas’ — constituem motivações possantes para agir. No caso duma opinião com raízes na estrutura do caráter, deve-se falar de uma convicção, ao invés de uma opinião. Convicções de raízes profundas são, com efeito, as motivações mais pujantes para ação desde que as possibilidades para esta tenha surgido (isso se aplica a qualquer gênero de convicção, que seja racional ou irracional, boa ou má, certa ou errada)” [3].
Os trabalhadores precoces quando emitem suas opiniões se comportam como “o Outro” gostaria de vê-los se comportando. Quem é este outro? O adulto. Parafraseando Simone de Beauvoir, o jovem determina-se e diferencia-se em relação ao adulto e não este em relação aquele. Segundo esta mesma autora, retomando Hegel, o sujeito só se afirma negando outro sujeito, transformando-o em “objeto”. Desta forma, para um grupo social se tornar “o outro” de outro grupo social é preciso que ele aceite isso e deixe de se considerar sujeito. Não é isto que ocorre na relação de diversos grupos sociais, mas é, segundo Beauvoir, o que ocorre com a mulher. Segundo ela, “nenhum sujeito se coloca imediata e espontaneamente como inessencial; não é o Outro que definindo-se como Outro que define o Um; ele é posto como Outro pelo Um definindo-se como Um. Mas para que o Outro não se transforme no Um é preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio”[4].
Isto também ocorre com indivíduos menores de dezoito anos (crianças, adolescentes, jovens, ou qualquer outro nome que se lhe dê), pois eles são definidos como o Outro dos adultos e aceitam este “ponto de vista alheio”. É por isso que podemos dizer que as mulheres e os “menores de idade” são grupos silenciados e são silenciados por que são oprimidos[5].
Isto então quer dizer que o processo de entrevista com trabalhadores precoces é inútil, porquanto não ouvimos sua voz? Não, mas significa que o processo de análise da entrevista é bem mais complexo e difícil do que parece à primeira vista. Isto deriva do princípio metodológico anteriormente colocado segundo o qual os “dados” obtidos pela entrevista não são “coisas” ou “objetos”. É por isso que, tal como colocaram Fromm e Maccoby, “a pesquisa social tem sido restringida sobretudo por métodos que fornecem dados a respeito do comportamento, tais como opiniões e atitudes conscientes”[6].
Ainda segundo estes autores, “no questionário convencional, as respostas são tomadas como matéria-prima ou codificadas segundo categorias de comportamento e a tarefa consiste em analisá-las estatisticamente, seja simplesmente em termos de freqüência de cada uma delas, ou duma forma mais requintada, por meio de análise fatorial, que revela grupos de respostas encontradas juntas com freqüência significante”[7].
A diferença entre esta concepção e a de Fromm e Maccoby se encontra na interpretação das respostas, que, no último caso, busca não somente o “dito” mas “seu significado inconsciente e não-premeditado”. É a partir desta perspectiva que iremos analisar as entrevistas realizadas com os trabalhadores precoces, buscando ouvir sua voz por detrás do seu silêncio.
Trabalhadores Precoces e o Significado do Trabalho
Os trabalhadores precoces entrevistados, em sua maioria, afirmaram que trabalham por necessidade, ou seja, para garantir sua sobrevivência e ajudar a família. Uma grande parte afirmou que os pais começaram a trabalhar bastante jovens. Porém, o processo de entrevista apresenta uma dificuldade: a relação entre entrevistador e entrevistado assume a forma de uma relação entre adulto e criança\adolescente. Devido a isto o entrevistado não responde, na maioria dos casos, tal como pensa e sim de acordo com a sua suposta expectativa do outro. Em outras palavras, o entrevistado responde as questões de acordo com a expectativa do entrevistador embora, em muitos casos, esta expectativa seja uma atribuição do entrevistado ao entrevistador e não uma expectativa existente de fato. Cria-se, assim, uma atribuição de expectativa ao entrevistador.
No nosso caso isto acabou ocorrendo. Mas como surge a expectativa atribuída ao entrevistador? O trabalhador precoce, retomando o que anteriormente colocamos, se define pela definição do outro (sendo que este é o adulto). Isto ocorre com o processo de socialização, no qual a criança vai criar a figura do adulto como “outro generalizado”, segundo expressão de George H. Mead. Segundo este autor, “é sob a forma do outro-generalizado que o processo social afeta o comportamento dos indivíduos nisso comprometidos ou que o realizam, isto é, que a comunidade exerce um controle sobre a conduta de seus membros. É dessa maneira, com efeito, que o processo social ou a comunidade se tornam um fator determinante do pensamento do indivíduo”[8].
O entrevistador é identificado com o grupo dos adultos e por isso as respostas são condicionadas pela expectativa atribuída pelo trabalhador precoce. Qual é a expectativa atribuída pelo trabalhador precoce ao entrevistador no caso de pergunta sobre o trabalho? É a de que o entrevistador tenha a mesma concepção que os demais adultos. Na maioria das entrevistas os pais, segundo os trabalhadores precoces entrevistados, apoiam o fato do filho\filha trabalhar. Nestes casos, os trabalhadores também dizem gostar de seu trabalho, com raras exceções. Aqui nos interessa muito mais as exceções do que a regra, pois são nos casos extraordinários que a resposta condicionada pela expectativa atribuída ao entrevistador é superada e ao invés da opinião temos a convicção.
Tomemos dois exemplos. O primeiro exemplo nos mostra um trabalhador precoce que diz que acha seu trabalho “excelente” e no decorrer da entrevista acaba demonstrando o contrário:
  — O que você acha do seu trabalho?
  — Excelente.
  — O que você mais gosta no seu trabalho?
  — O que eu mais gosto? Da hora do almoço.
  — Por quê você gosta da hora do almoço?
  — Porque eu tenho duas horas para almoçar, ué!
  — Por causa do tempo livre?
  — É.
  — O que você menos gosta em seu trabalho?
  — Trabalhar.
  — Por quê?
  — É muito cansativo.
  — Você abandonaria seu trabalho se pudesse?
  — Com certeza (Paulo, 17 anos).
Aí vemos uma contradição visível e que seria incompreensível sem a percepção da resposta condicionada pela expectativa atribuída ao entrevistador e a visão de que essa expectativa é a de que o entrevistador compartilhe a mesma visão do trabalho que os demais adultos com os quais o entrevistado convive.
O outro exemplo nos permite ver a percepção da alienação por uma trabalhadora precoce. Ela responde da seguinte maneira à pergunta sobre o que acha de seu trabalho:
“Eu gosto, mas não sinto bem. Não me sinto muito bem, sabe? Eu sinto assim algo estranho, como se tivesse algo me prendendo, fazendo coisa que não gosto. Mas eu não quero sair [do emprego] para não ver os outros falando de mim” (Vausciley, 15 anos).
Esta trabalhadora precoce afirma que trabalha porque precisa e para ajudar a família. Ganha um salário mínimo e não tem carteira assinada. Os seus pais começaram a trabalhar desde cedo e todos em sua família trabalham. Os seus familiares gostam do fato dela trabalhar, “dão dez” e quando ela não está empregada é criticada. Ela diz que é “forçada” a trabalhar. Ela também afirma que o trabalho dificulta seu desempenho na escola e que melhora seu rendimento escolar quando não está trabalhando. Disse também que abandonaria o emprego, sem a menor dúvida, para se dedicar aos estudos. Por fim, coloca em evidência os danos psíquicos que o trabalho alienado provoca em uma jovem de 15 anos:
“Eu passei por psicóloga. A médica me deu encaminhamento para a psicóloga” (Vausciley, 15 anos).
Vemos neste caso novamente a contradição: “eu gosto, mas não me sinto bem” e a consciência dos efeitos do trabalho sobre sua vida (desempenho prejudicado na escola, problemas psíquicos). Mas como explicar o “eu gosto” (mesmo que logo acompanhado pelas outras afirmações que demonstram que na verdade não gosta)? O eu gosto é uma resposta condicionada, pois a entrevistada considerava que o entrevistador, sendo adulto, compartilhava a opinião de sua família — e certamente da psicóloga — sobre a necessidade de se “adaptar” ao trabalho.
A grande maioria dos entrevistados reproduzem o discurso da classe dominante e dos seus pais sobre o seu trabalho:
“É melhor trabalhar do que ficar na rua. Na rua a gente pode aprender coisa errada. Tem muita marginalidade na rua. Então é melhor trabalhar prá não ficar na rua. A gente aprende [no trabalho] a coisa certa, gasta o tempo aprendendo coisa boa e não coisa ruim” (Fernando, 12 anos).
Neste sentido, observamos que os trabalhadores precoces, na maioria dos casos, reproduzem o que o mundo dos adultos circundante pensa a respeito do trabalho. Raras são as exceções e quando elas ocorrem é de forma contraditória.
Desta forma, observamos que os grupos socialmente oprimidos também são oprimidos e silenciados no processo de entrevista, independente da intenção do entrevistador. Disto resulta a necessidade de repensar o processo de entrevista e de buscar realizar análises mais complexas, visando superar a ilusão com a mera opinião e também a idéia de que as entrevistas são “dados”.
_________________________
Artigo publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. A Voz dos Trabalhadores Precoces: Entrevistas e Grupos Silenciados. Revista Espaço Livre, Vol. 3, num. 06, Jul/2007-Dez./2008.



* O presente texto é uma parte de nossa Dissertação de Mestrado Inspeção do Trabalho e Trabalho Precoce, com ligeiras alterações formais.
[1] Por trabalhadores precoces compreendemos os trabalhadores menores de dezoito anos.
[2] Apud. Moore, Henrietta. Antropologia Y Feminismo. Madrid, Ediciones Cátedra, 1991.
[3] Fromm, Erich & Maccoby, Michael. Caráter Social de uma Aldeia. Um Estudo Sociopsicanalítico. Rio de Janeiro, Zahar, 1972, p. 45.
[4] Beauvoir, Simone de. O Segundo Sexo. Vol. 1. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988, p. 16.
[5] “As mulheres e as crianças são mencionadas simultaneamente (‘mulheres e crianças, para trás’). O vínculo especial que as mulheres têm com as crianças é reconhecido por todos. Contudo, proponho que a natureza desse vínculo não passa de uma opressão compartilhada” (Firestone, Shulamith. A Dialética do Sexo. Rio de Janeiro, Labor do Brasil, 1976, p. 87).
[6] Fromm, Erich & Maccoby, Michael. Ob. cit., p. 43.
[7] Fromm, Erich & Maccoby, Michael. Ob. cit., p. 46.
[8] Mead, George H. O Jogo Livre (Folguedo), o Jogo Regulamentado e o “Outro Generalizado”. In: Birbaun, P. & Chazel, F. (orgs.). Teoria Sociológica. São Paulo, Hucitec, 1977, p. 27. Sobre o “outro generalizado” no processo de socialização, veja-se também: Berger, Peter & Luhmann, Thomas. A Construção Social da Realidade. 7A edição, Petrópolis, Vozes, 1987.  Esta situação é análoga a que o psicanalista Rollo May observa na prática psicológica, a ingenuidade do pesquisador diante do pesquisado, principalmente o de orientação behaviorista. Ele coloca isto através de uma parábola, na qual um psicólogo se encontra diante de São Pedro na  porta do Céu e é criticado por este devido sua esquematização grosseira e se defende ao afirmar que pensa estar deixando “o homem falar por si próprio” e julga estar correto pelo motivo de que “todos os sujeitos participaram de boa vontade nas experiências”.  Rollo May coloca o seguinte posicionamento de São Pedro: “o animal humano tem uma grande capacidade para fingir que é ludibriado e não deixar sequer aperceber-se de que está fingindo. Mas era você que eu tinha em melhor conceito...” (May, Rollo. Psicologia e Dilema Humano. 3a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1977, p. 14).

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Futebol, Política e Religião


Futebol, Política e Religião



Nildo Viana


Segundo o ditado popular, futebol, política e religião não se discute. A princípio, a afirmação parece óbvia como todos os ditados populares. Porém, existe algo além do que está dito e só a reflexão pode resgatar isso e nos proporcionar um entendimento mais adequado do ditado, do seu significado e seu alcance. Algumas questões ajudam a rediscutir este ditado e entrarmos na questão fundamental que é o futebol como tema para discussão*. As questões são as seguintes: a) o que existe de comum no futebol, na religião e na política? B) por que se busca evitar discutir esses temas? C) quais são as conseqüências ao se evitar discutir tais assuntos?

Ao entender o que há em comum entre estes assuntos, temos a chave para abrir a porta da resposta para as outras duas questões. A religião, a política e o futebol são caracterizados por um alto grau de envolvimento sentimental e valorativo dos indivíduos, bem como com seus interesses. A religião é marcada por um forte vínculo sentimental e valorativo do indivíduo com suas crenças, símbolos, representantes, ídolos. É por isso que ela enfraquece a racionalidade e pode gerar o fanatismo e a intolerância com relativa facilidade e por isso é fonte de polêmicas, conflitos e até guerras e mortes. Não é preciso lembrar as cruzadas ou do conflito entre judeus e muçulmanos para demonstrar isso. Milhões morreram por causa de conflitos religiosos. A política (no sentido de adesão a determinadas concepções ou disputa pelo poder) também possui o mesmo forte vínculo sentimental e valorativo e por isso também gera também um enfraquecimento da razão e polêmicas, conflitos, guerras e não faltam exemplos para demonstrar isso, desde a briga de ruas até as guerras mundiais e as ações nazistas e stalinistas. Os interesses estão presentes nos dois casos, intimamente relacionados com os valores e sentimentos, mas também com o poder, a riqueza, etc.

O futebol, da mesma forma, também é marcado pelo envolvimento sentimental e valorativo e, logo, também é gerador de fanatismo, intolerância, e, por conseguinte, polêmicas e conflitos. Contudo, a intensidade disso é bem menor no futebol, que nunca conseguiu gerar guerras ou morte de milhões de seres humanos, como nos casos anteriores. O futebol gera discussões acaloradas, brigas e violência, em alguns casos gera morte derivada do conflito entre torcidas organizadas, mas nada comparável com o que ocorre no caso da religião e da política. Assim, o que há em comum entre estes três fenômenos sociais é o alto grau de envolvimento com sentimentos e valores e, em menor grau, com os interesses dos indivíduos.

É por isso que discutir estes temas geralmente provoca desentendimentos, brigas, rompimentos. Daí muitos tentarem evitar tais assuntos e isso é a fonte do ditado popular. Assim, temos a resposta da segunda questão ao responder à primeira. Evitar discutir futebol, política e religião é evitar polêmicas e conflitos, pois com a primazia dos sentimentos e valores, a racionalidade é enfraquecida e o diálogo dificultado. Porém, a discussão é, de qualquer forma, uma tentativa de comunicação e de uso da razão, que geralmente falha devido à supremacia sentimental e valorativa, mas seu abandono é ainda pior. O que passa a reinar é a incomunicação e a formação de grupos inflexíveis e rivais. Nesse sentido, a mediação entre discussão e conflito aberto não é mais mediada pela polêmica (palavra derivado do grego, polemos, que significa guerra), que significa guerra ou disputa intelectual. Assim, o isolamento é seguido imediatamente pelo conflito e pela guerra física. Desta forma, o mais adequado não é evitar a polêmica e a discussão sobre estes temas e sim buscar, apesar das dificuldades nesse sentido, que ela seja comandada pela razão. É somente a racionalidade coordenando os sentimentos e valores que é possível avançar intelectualmente e nas relações sociais, bem como é o que permite discutir futebol, religião e política sem cair em agressões verbais ou físicas diante das diferentes posições.

Desta forma, o futebol é discutível, inclusive com mais facilidade do que a religião e a política. Claro que dependendo de quem está discutindo. Mantendo o princípio da racionalidade na discussão, a polêmica pode até se desenvolver, mas estará resguardada pela elegância dos debatedores. Por isso, a discussão em torno destes assuntos é fundamental. Mas o meu foco aqui é o futebol. Este é um dos assuntos nos quais os sentimentos e valores tendem a obstruir a racionalidade e por isso ou gera discussões acaloradas que muitas vezes gera conflitos ou no máximo descamba para uma competição humorística sem avanço nenhum sobre o tema e as posições dos debatedores. No fundo, quanto mais se discutir e compreender o futebol, menos polêmicas e conflitos ele irá gerar. Logo, a conclusão é a de que não só que futebol se discute, mas também que é fundamental a discussão sobre ele.

* Este é o primeiro de uma série de textos sobre futebol.

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Discurso e Poder

Informe e Crítica

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Minicurso: Análise Sociológica dos Quadrinhos






Ementa:

Para uma sociologia dos quadrinhos. Os quadrinhos como fenômeno social. A produção social dos quadrinhos. Capitalismo, mercantilizacao e burocratização. Temas, abordagens ou a luta de classes expressa nos quadrinhos. O social nos quadrinhos: valores, relações, etc. Quadrinhos, axiologia e ideologema. Quadrinhos, axionomia e teorema. Por um método de análise dos quadrinhos.

Módulo 01: Sociologia e Quadrinhos

1.1. Sociologia das Histórias em Quadrinhos. História, problemas, perspectivas.
1.2. História dos Quadrinhos como domínio temático: a produção social dos quadrinhos. Os quadrinhos como fenômeno social.
1.3. Capitalismo e Quadrinhos.

Módulo 02: Quadrinhos e Mensagens

2.1. As mensagens dos quadrinhos (temas, abordagens, luta de classes).
2.2. Relações sociais e valores nos quadrinhos.
2.3. Manifestações axiológicas e ideologêmicas nos quadrinhos.
2.4. Manifestações axionômicas e teorêmicas nos quadrinhos.

Módulo 03: Método de análise dos quadrinhos.

3.1. Método dialético e análise dos quadrinhos.
3.2. A Constituição social dos Quadrinhos e análise da mensagem.
3.3. Identificando valores e ideologemas.
3.4. Uma história do Brasinha: exemplo de análise dialética da mensagem.



  
 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Para Uma Leitura Não-Dogmática


Para Uma Leitura Não-Dogmática




Nildo Viana



A leitura é sempre mediada pelos valores, sentimentos, concepções que o indivíduo leitor possui. Estes criam uma predisposição mental para concordâncias e discordâncias, para maior ou menor concentração e interesse, para identificações, etc. Enquanto os valores e sentimentos são mais resistentes a um processo de transformação e ampliação, o processo de desenvolvimento da consciência (informações, concepções, etc.) pode continuamente se ampliar e aumentar seu peso no condicionamento da leitura. Esse é um processo natural e, dependendo de qual base valorativa e sentimental um indivíduo possui, facilita ou dificulta o desenvolvimento da consciência em geral. Da mesma forma, o desenvolvimento de mais leituras, experiências, etc. tendem a permitir um maior desenvolvimento da consciência. Porém, sempre é possível haver contradição no conjunto de valores e sentimentos que o indivíduo possui, e estas também podem entrar em contradição com suas concepções. Isto também é algo bastante comum e a autoformação e auto-crítica são elementos que ajudam no processo de superação destas contradições num sentido de fazer avançar a consciência*.



Neste contexto, uma contradição relativamente comum se encontra naqueles que aderem ao pensamento revolucionário. Tendo em vista que ninguém nasce revolucionário, torna-se revolucionário, para parafrasear Simone de Beauvoir, embora noutro contexto, já que nascemos e somos socializados para reproduzir a sociedade existente e não para transformá-la, então é preciso compreender o processo de emergência do pensamento revolucionário. Alguns indivíduos chegam ao pensamento revolucionário devido aos fortes valores e sentimentos humanistas aliado com o desenvolvimento de sua consciência. Outros chegam até ele através de um desenvolvimento da consciência que inclui um acesso à tradições revolucionárias que reforça determinados valores e sentimentos e assim também realiza uma adesão a ele. De qualquer forma, o pensamento revolucionário surge prioritariamente por desencadeamento de acesso ao pensamento revolucionário pré-existente, com maior ou menor tendência anterior por parte do indivíduo, pois mesmo quando este, por questões valorativas/sentimentais já esboçava um pensamento revolucionário, não pode ter uma concepção mais profunda a partir de si mesmo e por isso tem que procurar no pensamento existente as bases para pensar criticamente a realidade e sua transformação. Assim, há sempre um ponto de partida, que pode ser mais fundado em elementos do universo psíquico do que em outros (valores/sentimentos ou desenvolvimento da consciência).



A questão é que os valores/sentimentos ou mesmo a filiação a alguma tradição revolucionária pode criar certa rigidez no pensamento e atitudes de determinados indivíduos e isto pode gerar dogmatismo. O dogmatismo, por sua vez, pode ser um obstáculo para leituras mais adequadas e corretas e para o desenvolvimento de uma consciência correta da realidade. Porém, muitas vezes é difícil separar firmeza e convicção fundamentada de dogmatismo. Por isso, muito que aparece como dogmatismo é, na verdade, apenas uma convicção fundamentada em várias leituras, reflexões, que se consolidaram e possuem toda uma base explicativa e de fundamentação (mais ou menos ampla, mais ou menos profunda, dependendo do indivíduo).



Como então distinguir entre dogmatismo e convicção fundamentada? A distinção ocorre quando as afirmações, conclusões, análises, textos, de determinado indivíduo tem ou não fundamentação e a capacidade deste de rever quando sua fundamentação se mostra frágil (rever no sentido de concordar com aquele que refutou sua fundamentação ou então de perceber que sua fundamentação é insuficiente e por isso precisa aprofundar e desenvolver mais, o que é um incentivo para mais estudos, leituras e desenvolvimento da consciência, o que, num debate, o primeiro caso significa fazer auto-crítica e no segundo buscar a anticrítica, ou seja, aceitar que o outro debatedor possui razão ou que não tem condições de continuar e irá retornar posteriormente). Claro que isto é dificultado na sociedade moderna, cuja mentalidade produz valores e sentimentos adequados para reproduzir a sociabilidade capitalista, especialmente, para o caso aqui tratado, a competição, que ocorre nas disputas intelectuais e divergências políticas. Assim, ninguém quer ser "perdedor" e tudo é uma competição, o que importa é vencer. Porém, pensando em indivíduos revolucionários, que terão menor influência da competição em sua mentalidade, este risco é menor, bem como o debate tende a ser mais civilizado. No caso de debates com pessoas não-revolucionárias, o que significa que possuem a predominância de uma mentalidade burguesa, então a situação é diferente, mas não é o caso aqui abordado. Assim, a fundamentação e a capacidade de auto-clarificação intelectual caracteriza um indivíduo não-dogmático. Claro é que o grau de fundamentação e de auto-clarificação intelectual vai variar dependendo do indivíduo (formação, idade, condições de leitura e estudos, etc.).



Depois destes esclarecimentos iniciais, podemos agora partir para a questão da leitura dogmática e não-dogmática. Lembrando que o dogma é um ponto de partida não questionado e inquestionável, então uma leitura dogmática será aquela que impede determinadas reflexões e questionamentos. Uma leitura não-dogmática, por sua vez, é aquela que permite o desenvolvimento de reflexões e questionamentos, possibilita uma crítica desapiedada do texto, entre outros elementos. Um leitor dogmático de Marx irá considerar seus livros como "obra sagrada", inquestionável e que se este autor disse algo, isto não está em questão. Marx disse, está dito. E é verdade. O exemplo de Marx é apenas um entre milhões, embora ele tenha maior possibilidade de permitir isso, devido sua extensa e de alta qualidade produção teórica. A sacralização de obras ou pensadores é um dos principais obstáculos para o avanço da consciência e é expressão de uma consciência fetichista. É o processo bastante comum em nossa sociedade, na qual há o predomínio da acomodação sobre a assimilação (cf. Práxis, Alienação e Consciência). Um leitor não-dogmático irá ler Marx e, caso haja convergência perspectival entre o leitor e autor (o que pressupõe, no caso de Marx, que seja alguém de consciência revolucionária), como um pensador que expressa uma determinada perspectiva que é compartilhada e que abre amplos horizontes para a compreensão da realidade social, mas que não é a "verdade revelada", também pode ter equívocos, falhas, lacunas, etc., como toda produção intelectual humana, pois, apesar de sua excepcionalidade intelectual derivada de sua base valorativa/sentimental e seu processo histórico de vida, além do imenso processo de pesquisa que ele realizou, ele não era infalível. Além disso, é preciso contextualizar historicamente o autor, pois na época em que um autor escreveu, as relações sociais eram outras e assim o que era justificável para um pensador revolucionário naquela época, pode não sê-lo hoje. Claro que este é o caso daqueles pensadores que julgamos revolucionários e não outros que podem ser considerados com maior cuidado e menos confiança.



Antes de prosseguir, é necessário deixar evidente que existem formas diferenciadas de dogmatismo. A citada acima é apenas uma. Existe uma outra forma, na qual o leitor dogmático não só pensa que o autor sempre tem razão, mas como parte de um outro dogma anterior à leitura e ao autor e assim o interpreta para confirmar o dogma (talvez movido pela necessidade de possuir uma "autoridade" para confirmar aquilo que pensa e por uma rigidez mental oriunda de seu processo histórico de vida). Este é o caso, por exemplo, de um leitor que busca encontrar em Marx e no comunismo de conselhos uma posição anti-estatista. Porém, a leitura dominante de Marx é a de que ele é um estatista. Ao encontrar um debatedor que afirma que Marx não é estatista, ele passa então a defender esta tese partindo das indicações, textos, etc. fornecidos pelo debatedor. Porém, após isto, este leitor dogmático irá encontrar em Marx apenas textos anti-estatistas, e os que não o são, são interpretados mesmo que de forma absurda para sustentar sua tese, tal como pensar que o Manifesto Comunista era um texto que tratava da Revolução Burguesa... O tipo de raciocínio por detrás disso, que provoca uma espécie de incapacidade mental de análise correta, é que Marx era revolucionário e muito inteligente e por isso não poderia ter sido estatista** e assim troca a leitura pela pressuposição fundada em um dogma.



Assim, algumas indicações para uma leitura não-dogmática podem ser feitas no sentido de prevenir aqueles que são bem intencionados e buscam expressar a perspectiva do proletariado (revolucionário e não "empírico", que fique claro), no sentido de evitar leituras dogmáticas. A primeira questão é ter a compreensão de que qualquer pensador, desde o mais brilhante ao menos talentoso, são seres humanos, logo, são falhos, equivocados, não possuem acesso a todas as informações existentes, possuem contradições, pressões externas, estão inseridos num determinado contexto histórico, estão submetidos a determinadas relações, realizam omissões (claro que em graus diferenciados dependendo dos objetivos, coragem, etc., do referido pensador, pois a questão da religião, por exemplo, pode simplesmente ser omitida ao não ser considerada de fundamental importância para o processo de transformação social e seria "impopular" ou criaria obstáculos um ataque direto à religiosidade), enfirm, estão marcados por sua história e pela sociedade em que vivem, mais ou menos, dependendo do autor. Marx é um caso exemplar. Todos sabem que ele era um pensador excepcional, não por "nascimento" ou qualquer "dom" especial e sim por alguns elementos básicos que permitiram a ele desenvolver uma contribuição teórica de grande porte. Isto foi derivado de seu processo histórico de vida, que contribuiu para que ele desenvolvesse determinados valores, sentimentos e concepções que formaram as bases de seu pensamento. A partir desta base, ele buscou expressar teoricamente (e conscientemente) a perspectiva do proletariado. Este foi um dos elementos fundamentais para que ele realizasse sua produção teórica. Outro elemento foi sua intensa pesquisa, que reunia toda uma gama de produção intelectual de sua época e anterior, em diversos anos de estudos. Também é necessário lembrar que o tempo dedicado a leitura e reflexão, na época de Marx, era incomparavelmente maior do que hoje. Basta lembrar que naquela época não existia televisão, rádio, internet, etc. e que a leitura era um das atividades mais constantes que existia e, no caso dele, que ocupa, certamente, várias horas diárias. É por isso que ele fez um manuscrito sobre matemática, pois sua capacidade de leitura e reflexão lhe permitia não ser um mero especialista em alguma ciência qualquer. Porém, muita coisa que ele escreveu pode ter problemas e efetivamente tem. Apesar de toda sua base, inclusive metodológica, ele podia se equivocar e isso ocorreu algumas vezes. Sua posição sobre a questão da greve, por exemplo, foi equivocada. Suas análises sobre a democracia continham diversos problemas, mas, na época em que escreveu (daí a importância da contextualização histórica numa leitura não-dogmática), na qual predominava a democracia censitária (cf. Estado, Democracia e Cidadania) então não havia como julgar que ele deveria analisar a democracia partindo que ela se transformou posteriormente e que hoje sabemos, mas ele não.



Assim, uma leitura não-dogmática deve partir, em primeiro lugar, da possível falibilidade dos pensadores, mesmo entre os melhores. Porém, isso também não é motivo para se criar um dogma contrário no sentido de partir do pressuposto da falibilidade do pensador. As falhas e acertos de um pensador devem ser percebidas no processo concreto dos seus textos e sua relação com a realidade social e não em algum pressuposto anterior à leitura e pesquisa de sua correspondência com a realidade.



Outro elemento de uma leitura não-dogmática é a contextualização histórica, tal como já colocamos anteriormente. A contextualização histórica é fundamental em vários casos. Ela é importante para a compreensão do que o autor quis dizer mais exatamente. Mas no caso da leitura não-dogmática, a questão fundamental é compreender o contexto social e cultura no qual ele produziu suas obras e não fazer uma leitura transhistórica, exigindo do autor que escrevesse, na época em que escreveu, posicionamentos que são os de hoje e que não existiam outros na época. Tomemos um exemplo. Karl Korsch, em Marxismo e Filosofia, ao delimitar as três fases do marxismo, coloca Lênin, ao lado de Rosa Luxemburgo, como representante da terceira fase, na qual o marxismo retomaria seu caráter revolucionário. Hoje, há muitas críticas ao leninismo e seu fundador. Atualmente, Lênin pode ser caracterizado como um ideólogo da burocracia. Porém, naquela época, ninguém (talvez com a exceção de Makhaisky, amplamente desconhecido fora da Rússia...) e a oposição bolchevique ou contra o bolchevismo, também quase inacessível, é que questionavam de forma mais radical as concepções e práticas de Lênin. Ler hoje Korsch e condená-lo é um equívoco pela falta de percepção deste contexto. O Lênin que aparecia era o autor de O Estado e a Revolução e que defendeu a palavra de ordem "todo o poder aos sovietes (conselhos operários)" e os meios de comunicação da época não permitiam maiores contatos e informações. Isto tanto é verdade que posteriormente, em sua anticrítica, Korsch irá reavaliar Lênin e retirá-lo da posição que lhe havia atribuído.



O mesmo vale para uso de palavras, que em determinada época (ou idioma, o que provoca o problema das traduções) possui um significado e em outra tem outro. Por isso a compreensão histórica do contexto social e cultural é fundamental. É difícil, por exemplo, entender certas posições de certos autores não sabendo por qual motivo ele radicaliza determinadas concepções. Para um leitor do futuro de obras atuais, caso não compreenda este contexto, não conseguirá avaliar corretamente o caso daqueles que, na ânsia de superar o bolchevismo, acabam se colocando contra as tentativas de organização e articulação de grupos revolucionários e qualquer intervenção nas lutas sociais. Para compreender isso mais adequadamente, seria necessário entender o contexto histórico, social, cultural, marcado, por um lado, pela queda dos regimes capitalistas estatais que deixaram de ser referência, o que permitiu uma ampliação da crítica a estas experiências, desmoralização do bolchevismo (devido a este processo e também às práticas dos partidos que reivindicam desta posição), e, por outro, a ampliação da influência da ideologia pós-estruturalista ("pós-moderna"), o renascimento do anarquismo e outras tradições revolucionárias não ou anti leninistas, etc. criando toda uma cultura em choque com o bolchevismo, promovendo assim o desejo de ser o contrário do que ele era, em vários sentidos. Isto faz com que inclusive ex-bolcheviques condenem qualquer tentativa de organização mais estruturada e articulação de grupos revolucionários (e aí entra também a leitura dogmática de determinadas tradições que apontam para a crítica da organização, descontextualizando-a). Sem a compreensão deste contexto, então não há como entender estas teses e sua gênese.



Outro aspecto de uma leitura não-dogmática é compreender o processo de formação e desenvolvimento do pensamento de um autor. Tomemos o exemplo de Anton Pannekoek (e poderia ser o de Korsch ou qualquer outro). Pannekoek não "nasceu revolucionário", tal como nenhum indivíduo. Então é preciso, na leitura de suas obras, entender o seu processo de encadeamento e desenvolvimento. Assim, tomar obras como Marxismo e Darwinismo ou As Divergências Táticas no Interior do Movimento Operário, sem entender que nesse período ele se inseria na social-democracia (de forma dissidente, mas ainda no seu interior, não ultrapassando certos limites oriundos de tal inserção), é um equívoco. Obviamente que, para alguns, que não concordam com o desenvolvimento posterior do seu pensamento (sua chegada ao comunismo de conselhos) então a referência descontextualizada a estas obras não é problemática e ainda gera confusão para os que possuem outro posicionamento e não tem a percepção desta diferenciação. Assim, Pannekoek se torna pouco compreensível e muitos pensam que ele sempre foi "comunista conselhista" e usam tais obras como se fosse expressão de tal posicionamento, algo sem sentido, já que a emergência do comunismo de conselhos e da posição definitiva de Pannekoek, só ocorrerá aproximadamente uma década depois.



Um outro elemento fundamental para evitar as leituras dogmáticas é a leitura de autores possuem maior credibilidade com alguns leitores, seja devido a convergência perspectival (ou seja, convergências de perspectivas, devido valores, sentimentos, concepções, que, no fundo, expressam classes sociais determinadas), seja devido a fama ou status social (e outros motivos poderiam ser adicionados, de forma independente ou complementar, tal como qualidade teórica da produção, amplitude, etc. ou outras mais fetichistas, como o número de páginas - obras volumosas impressionam mais... – ou a capa do livro...), devem ser avaliados de forma crítico-revolucionária, de acordo com um espírito libertário, sendo que o fundamental é a questão do compromisso do leitor com a emancipação humana. Se o autor tem tal compromisso, é um ponto positivo, mas o leitor deve saber que mesmo o melhor pensador, é falho, escreve num determinado contexto, possui contradições pessoais e pressões sociais, etc., e, portanto, não é infalível e que o grande critério não é se autor A, B ou C disse isso ou aquilo e sim se isto corresponde à realidade e contribui com a libertação humana. Se sim, ótimo enquanto ainda for assim. Se não ou se deixar de sê-lo, então a crítica deve ser a resposta aos textos que revela esta contradição com a realidade ou abandono do compromisso libertário.



Uma leitura rigorosa é importante para evitar a leitura dogmática. Quanto mais rigor houver na leitura, menos os dogmas do leitor irão interferir na interpretação e menos as obras irão confirmar o que se quer ver ao invés de ver o que está efetivamente lá, seja algo positivo ou negativo. Alguns evitam certos trechos ou afirmações de alguns autores para preservar uma imagem "santificada" do autor, como se um equívoco fosse algo gravíssimo ou então uma afirmação contrária ao que se pensa fosse desabar seu dogma e não teria mais para quem apelar. A leitura rigorosa pressupõe a reconstituição do pensamento do autor em seus detalhes e estrutura própria, a percepção semântica do significado das palavras e conceitos utilizados, uma percepção de sua totalidade e partes constituintes em suas relações, etc.



Obviamente que isto poderia ser complementado com outras sugestões e ideias. Este texto poderia ser enriquecido e ampliado. Porém, o autor destas linhas, leitor de inúmeros outros autores e autor também, sabe que isso é impossível no atual momento, uma manhã de domingo, em situação de cansaço derivada de situação anterior e com compromissos urgentes para concluir e, portanto, com tempo limitado, e por isso apenas esboça uma contribuição que outros, com melhores condições, podem corrigir, aprofundar e melhorar (este é um elemento que muitos leitores não sabem e não buscam entender, inclusive distinguir, por exemplo, o significado de um texto de uma carta de Marx e de O Capital, ou seja, que a posição mais refletida, estruturada e que expressa melhor a perspectiva do autor está nas obras mais amadurecidas e não em pequenos textos marcados por determinada conjuntura e condições de elaboração). Um pontapé foi dado e ao abrir possibilidades de reflexões, contribui de alguma forma e esta foi a intenção. O resto é com o leitor.



* É claro que os valores, sentimentos, concepções, são constituídos socialmente e possuem em sua base as relações sociais nos quais os indivíduos vivem, sendo que a classe social de pertencimento é um aspecto fundamental e que provoca tendências no sentido de determinada formação de mentalidade, e há a mentalidade dominante, que se dissemina até nas classes exploradas.



** Em certo sentido, Marx não era "estatista", mesmo antes da Comuna, mas não é algo tão evidente e claro assim, e que somente leituras rigorosas e análises profundas podem deixar isso claro, bem como imprecisões e afirmações que fornecem elementos de "estatismo". Porém, o problema maior está na leitura forçada para que a imagem do autor seja tão perfeita na realidade como é na imaginação do leitor dogmático.

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