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domingo, 27 de setembro de 2020

A Arte como ela é: Um breve comentário sobre A Arquitetura da Destruição

 



A ARTE COMO ELA É

Um breve comentário sobre “A Arquitetura da Destruição”.

 

Nildo Viana

 

O documentário “Arquitetura da Destruição” (Peter Cohen, Suécia, 1992) possui vários méritos, embora possua também alguns problemas. O documentário apresenta alguns aspectos interessantes para discutir a questão da relação arte e sociedade. Assim, a percepção da “arte nazista” como produto de uma sociedade e de artistas envolvidas nesta e no que se tornou hegemônico no seu interior é um dos pontos altos do documentário. Da mesma forma, o documentário permite ver a relação entre arte e propaganda, a arte e pseudorracismo, entre outros elementos. O uso do cinema, nova arquitetura, entre outras formas de arte, para legitimar e fortalecer o regime nazista é apresentado e pode ser analisado criticamente, contribuindo com a compreensão da relação entre arte e sociedade durante o nazismo na Alemanha.

 

Em síntese, o documentário mostra a arte sob o nazismo e como se tornou hegemônica e repassou mensagens nazistas, antissemitas, apesar de deixar a desejar em sua forma e conteúdo. O documentário possui problemas, tais como o maniqueísmo e individualismo implícito, que é perceptível ao evitar apresentar as determinações sociais do nazismo.

 

Apesar disso, o documentário é interessante não só para mostra a relação entre arte e nazismo e vários outros elementos derivados, mas também permite realizar reflexões sobre a arte em geral. A arte nazista e sua hegemonia pode ser comparada com a arte contemporânea e sua hegemonia, pois ambas manifestam valores, concepções e sentimentos correspondentes aos interesses da classe dominante, inclusive as de orientação progressista.  A diferença acaba sendo de grau, como se pode notar o mesmo período nos EUA, com artistas e obras artísticas, Pato Donald, filmes, super-heróis e heróis todos são mobilizados em torno do americanismo. E isso revela também algo comum no discurso artístico e científico, segundo a qual a parcialidade é condenada, mas sempre a dos outros e nunca a própria, que aparece, para defensores da neutralidade científica e autonomia da arte, como “normais”, “naturais”, embora tão parciais quanto as demais.

 

A forma mais exagerada de um fenômeno permite perceber suas manifestações mais amenas e moderadas, e seu vínculo com a reprodução social. A relação nazismo e arte permite observar a relação mais geral entre arte e sociedade burguesa em momentos de maior estabilidade política e social, cumprindo a mesma função: reproduzir as relações sociais existentes.

 

O problema se encontra no processo de naturalização, onde tudo se torna natural, inclusive a arte e os valores ligados a ela, desde a arte pela arte até a forma e a técnica como critérios de avaliação da qualidade da obra artística. A arte é um produto social e histórico e, em uma sociedade fundada na dominação e na exploração, reproduz os interesses da classe dominante, seja de forma mais explícita, como no caso da arte nazista, seja na forma mais implícita, como os filmes hollywoodianos e dos serviços de streaming contemporâneos.

 

Assim, o documentário contribui para percebermos a importância da des-naturalização para a luta pela transformação social, sair da imanência e atingir a transcendência, perceber a historicidade da sociedade e da arte, bem como que nós mesmos somos produtos sociais e históricos e precisamos realizar um esforço enorme para ter consciência disso e agir contra isso.


Assista "A Arquitetura da Destruição" abaixo ou clique para assistir no youtube:





sábado, 18 de agosto de 2018

O sentido da Arte




O sentido da arte

Entrevista de Nildo Viana com José Braga.



José Braga: Segundo sua definição de arte, alguns "artistas" que jogam tinta aleatoriamente em telas fazem arte? Por quê?



Nildo Viana: Esse é um caso específico e diferenciado. A arte, em minha concepção, é expressão figurativa da realidade, uma determinada forma de expressar a realidade, marcada pela figuração, o que remete ao reino da ficção. É claro que é preciso entender que realidade engloba tudo o que existe, inclusive os sentimentos dos indivíduos que produzem arte. Assim como é preciso entender que não se trata de “refletir a realidade”, seja a partir da ideologia leninista do reflexo ou qualquer outra concepção ideológica e “objetivista”. Trata-se de “expressão”, o que significa que alguém expressa e sob forma singular. Isso também não significa “subjetivismo”, pois quem expressa é um ser humano, histórico e social e só assim pode ser compreendido. A singularidade remete ao seu processo histórico de vida, que é social, constituindo a forma específica como determinado indivíduo se insere e se relaciona socialmente no conjunto das relações sociais. A união da “expressão” e da “realidade” significa que uma forma específica de expressão de uma determinada realidade (seja no plano totalizante ou de um fenômeno específico, tal como os sentimentos e outros elementos do universo psíquico daquele que realiza tal expressão) sob a forma figurativa. A figuração é a essência da arte, pois existem outras formas de expressar a realidade (a teoria, a ideologia, as representações cotidianas, etc.). Jogar tinta aleatoriamente numa tela não é produzir arte, porquanto não há figuração. Porém, uma vez que um artista faça isso e o seu quadro seja exposto numa galeria, então é percebida como arte por aqueles que possuem acesso ao mesmo. Então eu diria que não se trata de arte e sim de pseudoarte. A pseudoarte se passa por arte e é vista como arte, mas não é realmente isso, é uma falsidade que tem aparência artística, mas não conteúdo artístico.



José Braga: A arte se julga autônoma. No seu livro A Esfera Artística - Marx, Weber, Bourdieu e a Sociologia da Arte (Porto Alegre, Zouk, 2007) o senhor diz que isso é ilusório. A arte não seria uma forma de manifestação da natureza humana e, portanto, não seria sublime? Não seria a sociedade capitalista ou as sociedades de classes que deformaria ela e lhe retirariam o seu caráter sublime? E, sendo sublime, não seria autônoma?



Nildo Viana: A arte não é manifestação da natureza humana. A essência humana é algo que antecede a produção artística. A produção artística pode ser uma das formas de manifestação da natureza humana, pois permite o desenvolvimento das potencialidades humanas, como a criatividade, mas é uma entre outras e pode não ser assim. A produção artística pode ser alienada e, nesse caso, não expressa a natureza humana e sim sua negação. Por conseguinte, a arte não pode ser considerada sublime por este motivo. Sem dúvida, a sociedade capitalista gera o processo de mercantilização da arte e isso faz com que ela perca a possibilidade de manifestar a natureza humana, apesar disso continuar ocorrendo em certos casos. Uma música trivial é produzida para gerar dinheiro e não para produzir algo significativo para os seres humanos. Uma música produzida para ter um significado emancipatório é algo que pode ser considerado belo. Mas em nenhum dos dois casos se tornou “sublime”, pois são produtos humanos, históricos e sociais. Não há motivo para considerá-la superior à outras atividades humanas e ela carrega em si tanto a grandeza quanto a pequeneza de todos os produtos humanos. A arte no capitalismo se torna um produto da especialização e da divisão social do trabalho. Emerge, na sociedade capitalista, a esfera artística e a produção artística deixa de ser uma das diversas atividades dos seres humanos e passa a ser atributo de determinados indivíduos, os chamados “artistas”, e estes, por sua vez, tendem a supervalorar sua atividade (assim como os cientistas fazem com a ciência, os matemáticos com a matemática, os juristas com o direito, etc.). É daí que vem a ideia da arte ser sublime, supervalorando uma atividade humana que foi concentrada em especialistas e assim surge os discursos e ideologias que lhe atribuem uma “superioridade”. Numa sociedade autogerida, pós-capitalista, a arte será uma atividade humana generalizada e não domínio de especialistas e assim será uma forma de manifestação da natureza humana. Nesse sentido, ela não é sublime e nem autônoma. Ela pode se autonomizar no capitalismo com o processo de expansão da divisão social do trabalho, mas numa sociedade autogerida, seria reinserida no conjunto de atividades humanas e perderia essa ilusão de autonomia absoluta. Sendo assim, ela não é nem sublime, nem autônoma.



José Braga: A arte não é uma necessidade humana?



Nildo Viana: Ela é uma das formas de manifestação de certas necessidades humanas, mais exatamente a práxis. Ela, em si, não é uma necessidade humana. É um meio, assim como outros, de manifestar determinadas necessidades.



José Braga: Para que serve a arte?



Nildo Viana: A arte deveria servir para manifestar a práxis, o desenvolvimento das potencialidades humanas, a criatividade. Isso é o que deveria ser. Na sociedade capitalista, ela passa a servir para outras coisas: gerar dinheiro e lucro, competição social, etc. Isso depende de quem está usando a arte. Um artista pode produzir arte para seu prazer pessoal, para obter fama e/ou dinheiro, etc. Um capitalista pode distribuir arte para obter lucro. Logo, a arte pode servir para várias coisas, de acordo com os interesses e pessoas relacionadas com ela.Uma parte da produção artística serve para manifestar a práxis, que é a arte engajada, expressão da luta pela libertação humana.



José Braga: A arte deve contribuir com a emancipação humana, segundo sua paráfrase de Marx no livro A Esfera Artística. Mas o artista, quando produz sua obra e manifesta sua essência, não está fazendo isso? Neste sentido, não basta produzir arte? Ou isto seria fetichismo da arte?



Nildo Viana: O artista quando produz uma obra de arte, pode ou não manifestar um elemento da essência humana. Quando um artista produz arte por gostar e desenvolver sua criatividade e potencialidades, está manifestando um elemento da essência humana. Mas ele pode fazer produzindo algo que é antagônico à própria natureza humana no conteúdo e mensagem de sua obra. Por exemplo, um pintor que é apaixonado pela pintura e o faz por prazer e sem ter intenção de comercializar seu quadro, está manifestando a práxis. Contudo, se ele simplesmente pintou uma paisagem para expressar nela a beleza da vida, está fazendo apologia de uma sociedade que destrói a vida de milhões e impede a quase totalidade da população de poder realizar esse tipo de manifestação. Logo, não basta fazer arte por gostar e para desenvolver suas potencialidades para que ela sirva para a luta pela emancipação humana, é necessário partir da perspectiva do proletariado e que o conteúdo não seja uma apologia dessa sociedade. Esse não é um problema da arte e sim da sociedade na qual a arte é produzida, ou seja, é um problema do capitalismo. Brecht expressou isso bem ao colocar que a sociedade capitalista torna a pintura de uma árvore um crime. Por qual motivo, no capitalismo, pintar uma árvore é um crime? Por ter um significado determinado nessa sociedade, o descompromisso com a luta pela transformação radical da sociedade e, por isso, é um crime. Um ser humano não pode se dar ao luxo de pintar uma árvore deixando de lado os problemas humanos postos por essa sociedade e nem pensar que basta produzir arte, pois é preciso produzir arte engajada. Claro que isso não quer dizer que tudo o que um artista faz deve ser, imediatamente engajado. Um músico, por exemplo, pode fazer músicas com mensagens críticas e fazer algumas sem teor crítico, pois é a totalidade da sua produção musical que importa para avaliar seu engajamento. Produzir somente músicas sentimentalistas é condenável, pois produzir uma música para expressar sentimentos pessoais, ao lado de outras marcadas por crítica social, não é condenável. Assim, pensar que a arte é um fim em si mesma é equivocado e se iludir com a ideia da arte pela arte é fetichismo da arte.



José Braga: Marx, Weber e Bourdieu aparecem no seu livro sobre esfera artística. Durkheim não aparece, por qual motivo, ele não tem nada a dizer sobre arte, apesar de ser considerado um clássico da sociologia?



Nildo Viana: O Durkheim não produziu obra significativa sobre arte, que não era um dos seus temas de análise. Mas o motivo pelo qual ele não apareceu, bem como inúmeros outros sociólogos que produziram sobre arte (mesmo não sendo clássicos), é devido aos objetivos do livro. O livro não visava discutir sociologia da arte e sim uma determinada concepção de arte e focalizando a esfera artística e os autores mais importantes e significativos para tal discussão eram Marx, Weber e Bourdieu. Marx abordou a divisão social do trabalho, Weber trabalhou com a ideia de esferas e Bourdieu com a ideia de campo, que são elementos mais gerais que contribuem com a compreensão da arte na sociedade capitalista e além disso fizeram apontamentos sobre arte e contribuíram diretamente com a discussão sobre esfera artística.



José Braga: Os movimentos artísticos possuem alguma ligação direta com os movimentos políticos? O expressionismo alemão tinha algo a ver com as lutas operárias na Alemanha? Haveria uma tendência operária na "nova objetividade" no cinema alemão? E em outros casos, em outros países?



Nildo Viana: Alguns movimentos artísticos são esteticistas e, por conseguinte, são distantes dos movimentos políticos. Outros, no entanto, possuem proximidade com determinados movimentos ou até mesmo organizações políticas (partidos, grupos, etc.). O expressionismo alemão foi um produto da luta de classes na Alemanha e assumiu uma posição de crítica social e perspectiva do proletariado, de forma mais direta no caso de determinados coletivos formados no bojo da Revolução Alemã (Grupo de Novembro, Conselho dos Trabalhadores de Artistas de Berlim, Liga de Artistas Revolucionários, Grupo Vermelho), embora tivesse outras tendências anteriores. Eu apresentei uma reflexão sobre o expressionismo em geral e principalmente em sua manifestação cinematográfica no livro A Concepção Materialista da História do Cinema (Porto Alegre: Asterisco, 2009). A chamada Nova Objetividade é um movimento que conheço menos e penso que seria necessário uma pesquisa para o compreender melhor. Alguns colocam de George Grosz como representante desse movimento (apesar de outros o colocarem como expressionista) e, sendo assim, poderíamos dizer que ele encarnava a perspectiva do proletariado no interior de tal movimento. No caso do cinema, o mesmo problema persiste, pois alguns consideram Metrópolis, de Fritz Lang um filme expressionista e outros afirmam que é representante da Nova Objetividade. No entanto, não penso que no cinema se possa colocar que existiram filmes partindo da perspectiva do proletariado. Porém, considero que isso precisa ser aprofundado e se analisar mais profundamente a relação do expressionismo com a nova objetividade e inclusive entender se esse último foi realmente um movimento artístico. Nos demais países e épocas existiram aproximações entre movimentos artísticos (mais precisamente setores no seu interior) e determinadas organizações ou concepções políticas, tal como a relação entre Brecht e o Partido Comunista Alemão ou entre André Breton, representante do surrealismo, e Trotsky. O chamado “realismo poético” francês se aproximou do movimento operário (e não de um movimento político específico), bem como o realismo, na Rússia, estava atrelado ao aparato estatal.



José Braga: No seu texto há uma crítica ao neo-realismo italiano. Por qual motivo?



Nildo Viana: O neo-realismo italiano é criticado por causa do realismo vinculado com uma determinada posição política. O filmes neo-realistas não mostram a utopia, a possibilidade de transformação. Mostram a miséria, a pobreza, os problemas sociais. Não mostram a luta e a utopia. Por isso são conformistas e não podem ser interpretados como filmes engajados. Isso tem a ver com a situação política italiana, do pós-Segunda Guerra Mundial e posição moderada do Partido Comunista Italiano e as alianças políticas da época, fazendo com que o bloco progressista se vinculasse com o proletariado de forma artificial e sob o signo do neo-realismo. Além disso, o neorrealismo italiano reproduz o problema da concepção estética realista, gerada pelo pseudomarxismo e que aponta para uma concepção de arte que não parte da perspectiva do proletariado.



José Braga: O tropicalismo, tal como coloca em seu livro O Tropicalismo - A Ambivalência de um Movimento Artístico (Rio de Janeiro, Corifeu, 2007) é ambivalente, sendo simultaneamente esteticista e crítico. Desta forma, a análise de um movimento artístico é bem mais complexa do que a mera tentativa de interpretação de sua produção. Quais são os elementos que se deve ter em vista para tal análise?



Nildo Viana: Eu coloco nesse livro, no primeiro capítulo, uma discussão sobre questão de método no caso de análise de músicas. Um dos elementos é entender que para compreender um movimento artístico é preciso entender a sua produção cultural. Porém, para entender tal produção cultural é preciso entender o contexto histórico, a situação dos seus adeptos no interior da esfera artística ou de sua subesfera específica (no caso do tropicalismo, a subesfera musical), entre outros aspectos. Em nível mais geral, é necessário uma base teórico-metodológica (método dialético e teoria do capitalismo, bem como teorias de fenômenos mais específicos, como as esferas sociais) e um material informativo para poder realizar a análise e compreensão de determinado movimento.



José Braga: O Senhor vislumbra algum movimento artístico revolucionário hoje? Existe algum com o qual o Senhor se identifica? Ainda existem movimentos artísticos? Caso não, qual é a força desta expressão, para que serve?



Nildo Viana: Não conheço nenhum movimento artístico revolucionário na contemporaneidade. As derrotas das lutas operárias e estudantis do final dos anos 1960 fez emergir o pós-vanguardismo (o equivalente do pós-estruturalismo nas ciências humanas e filosofia) e isso gerou uma predominância do subjetivismo e outras ideologias e concepções, como o neoindividualismo (e mais tarde, o neoliberalismo). O novo regime de acumulação que se instaura nesse momento, o regime de acumulação integral, torna o pós-vanguardismo hegemônico e os movimentos artísticos perdem as bases sociais necessárias para sua existência, pois ao lado desse processo há uma crescente mercantilização das relações sociais e da arte. Nesse caso, a arte é relativizada, os artistas se tornam mais individualistas, e movimentos artísticos deixam de surgir e ganhar força. Por conseguinte, considero que não existem movimentos artíticos hoje, pois eles são ligados a ideia de vanguardas artísticas, que é marginalizada. Alguns esboços existem, mas são muito fracos e sem maior força, o que é reforçado com a falta de projetos alterantivos de sociedade que tenham grande ressonância social, expressando o que alguns chamaram de “crise da utopia”. No caso de movimentos artísticos do passado, o expressionismo, o realismo poético francês, parte do surrealismo, são alguns que eu citaria como mais próximo do meu gosto e valores. A expressão “movimentos artísticos” tem dupla importância. Como todo conceito, ele expressa uma realidade mutável e por isso existiram movimentos artísticos e hoje praticamente não existe. Isso significa que tem um valor histórico, assim como o conceito de “feudalismo” ou “socialismo utópico”. Contudo, além do valor histórico, ele tem a capacidade de explicar um fenômeno social que hoje está ausente, mas que pode retornar e assim volta a ser necessário o seu uso, não apenas para a análise da história passada e sim para a análise do presente.



José Braga: A arte pode ser ideológica? Pode trazer ilusão como no pensamento ideológico, na perspectiva marxista?



Nildo Viana: Eu considero que não é possível a arte ser ideológica, devido o significado do conceito de ideologia. Ideologia é um sistema de pensamento ilusório e a arte não expressa pensamentos sistematizados. Uma pintura, um filme, uma música, pode até repassar ideologemas, fragmentos de ideologia, mas não uma ideologia em sua totalidade. A arte cumpre uma função conservadora mais através dos valores que repassa do que as ideias em si. Nesse sentido, eu chamaria axiologia, uma determinada configuração de valores dominantes. Foi justamente para entender as obras de arte que desenvolvi uma análise marxista dos valores. Sobre a questão da ilusão, é preciso entender que a arte não busca dizer o que é a realidade (essa é a pretensão da ciência, da filosofia, da teoria, etc.). Mas ela pode repassar elementos ilusórios, ideologemas.



José Braga: Existe algum critério objetivo para avaliar uma obra de arte? Para me dizer se Lima Barreto é melhor ou pior que Machado de Assis?



Nildo Viana: Eu discuti essa questão no livro Os Valores na Sociedade Moderna. A avaliação de uma obra de arte é um processo de valoração. A partir de determinados valores, temos determinada avaliação. No entanto, os valores não são equivalentes. A distinção entre axiologia e axionomia expressa justamente essa diferença de valores. A axiologia expressa os valores dominantes e logo o processo de valoração derivado é negativo. A axionomia expressa os valores autênticos, correspondentes à natureza humana e à perspectiva do proletariado, e por isso fornece as bases para um processo de valoração mais adequado. Porém, a concepção marxista aponta para o entendimento da obra de arte como uma totalidade e além dos valores é necessário uma fundamentação teórica e metodológica nesse processo de valoração. Uma obra de arte é uma totalidade e o seu conteúdo é o elemento fundamental, mas o aspecto formal não pode ser descartado. A arte fascista, por exemplo, é ruim tanto na forma quanto no conteúdo. As músicas triviais também tendem a ter essa mesma característica. Agora comparar Lima Barreto e Machado de Assis é algo diferente de avaliar as obras que eles produziram ou obras específicas de cada um. Sem dúvida, Lima Barreto produziu uma obra axionômica sem ambiguidade e Machado de Assis produziu obras interessantes, mas sua perspectiva nem sempre é clara. Entao é possível, numa avaliação preliminar e não embasada em pequisa (o que pressupõe ter acesso ao conjunto da obra dos dois literatos comparados, por exemplo) apontar qual seria melhor, mas é algo que precisa ser fundamentado para perder o seu caráter preambular.



José Braga: O Senhor já tentou fazer alguma obra de arte? Se sim, qual?



Nildo Viana: Sim. Eu já escrevi contos e poesias e composição de músicas. A maioria dos contos estão no livro O Doutor e outros contos incorretos. Em matéria de músicas, foram várias e quase todas em coautoria com Edmilson Marques, tal como Marionete Consciente, O Bom Burguês, Meu Amigo João, entre outras.



José Braga: Qual é a diferença entre fazer arte e pesquisar arte?



Nildo Viana: A diferença é que são formas de produção intelectual distintas. Fazer uma letra de música, escrever um conto, pode ser extremamente prazeroso, bem como escrever um texto teórico no qual se expõe uma descoberta. No entanto, são processos distintos. Muitas vezes a poesia, o conto, a ideia de uma história em quadrinhos vai surgindo e adquirindo forma, enquanto que o trabalho teórico pressupõe pesquisa e é mais longo. Pesquisar arte é bom quando quem pesquisa gosta de arte. Fazer arte é algo que todos os seres humanos deveriam concretizar, desde que não seja sob forma alienada, pois é práxis. E a práxis pode ser ponto de partida para a uma práxis revolucionária, ao perceber que essa sociedade é um obstáculo para sua realização.
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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

As Esferas Sociais - A Constituição da Divisão Capitalista do Trabalho Intelectual


VIANA, Nildo. As Esferas Sociais. A Constituição Capitalista do Trabalho Intelectual. Rio de Janeiro: Rizoma, 2015.



Da Introdução:

A sociedade capitalista é extremamente complexa. Ao ampliar a divisão social do trabalho sob intensidade nunca vista antes na história da humanidade, expandiu, igualmente a especialização e as subdivisões. A presente obra visa abordar um dos aspectos dessa divisão social do trabalho e faz parte de um projeto de análise das formas sociais burguesas. Por conseguinte, o seu objetivo é analisar a divisão social do trabalho intelectual no capitalismo, que faz parte das formas sociais e, portanto, contribui com a compreensão de um de seus componentes fundamentais. Trata-se das esferas sociais, que já foram denominadas por outras formas, mas que sempre se referiu a um certo conjunto de relações sociais que constituem o fenômeno que assim denominamos.

As esferas sociais surgem com o capitalismo. É parte das formas sociais burguesas. Essa parte das formas sociais possui especificidade, pois é um lugar de trabalho especializado, mas está inserido no seu interior e no conjunto da sociedade moderna. Desta forma, o presente trabalho visa apontar para uma análise de suas especificidades e relações internas, mas também para sua relação com o conjunto da sociedade, mostrando que não são autônomas e sim determinadas e que fazem parte do capitalismo, exercendo uma função reprodutiva do mesmo. No entanto, aqui buscamos evitar dois equívocos, o reducionista e o isolacionista.

[...]

O objetivo do presente livro é, portanto, superar os dois equívocos e apresentar uma concepção diferenciada de esferas sociais, parte das formas sociais, e cuja compreensão é fundamental para uma análise mais ampla do capitalismo e da produção cultural no seu interior. Para realizar esse processo, é necessário analisar a relação entre capitalismo e esferas sociais. O passo seguinte é analisar o que são as esferas sociais e sua dinâmica interna, para, por fim, analisar suas relações com o capital, o Estado e as lutas de classes. O resultado esperado, para usar terminologia acadêmica, é uma compreensão mais profunda das esferas sociais e sua relação com a sociedade capitalista. Se o resultado foi alcançado, isso cabe ao leitor dizer. Assim, resta o veredicto da leitura.

Sobre as esferas sociais:

As Esferas Sociais, denominadas como "campo" por Bourdieu e por "esferas", por Weber, são concebidas nessa obra como subdivisões da classe intelectual, formando suas frações de classe, tal como a esfera artística, a esfera científica, a esfera técnica, a esfera jurídica, a esfera religiosa, entre outras. A divisão social do trabalho, tal como teorizada por Marx, é o elemento fundamental para explicar as esferas sociais. O livro analisar as diversas esferas em sua dinâmica interna e em sua relação com a totalidade das relações sociais.

Resenha:
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Sumário

Introdução
Capitalismo e Esferas Sociais
As Esferas Sociais
A Dinâmica das Esferas Sociais: Hierarquia e Competição
A Dinâmica das Esferas Sociais: Os Mecanismos de Competição
A Formação das Esferas Sociais
Capital e esferas sociais
Estado e esferas sociais
Esferas sociais e lutas de classes
Considerações Finais
Referências

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Veja textos sobre esferas ou subesferas específicas:



domingo, 9 de agosto de 2015

AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS COMO FORMA DE ARTE


AS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS COMO FORMA DE ARTE

Nildo Viana*

Resumo:
O presente artigo aborda as histórias em quadrinhos como forma de arte. A partir de uma concepção não-elitista de arte e de uma discussão teórico e conceitual sobre o significa da arte, entendida como expressão figurativa da realidade, o autor demonstra que as histórias em quadrinhos possuem o mesmo caráter que as demais produções artísticas, o que se revela em seu universo ficcional, bem como discute questões derivadas. A conclusão final é a de que as histórias em quadrinhos são uma forma de arte específica e que somente numa concepção elitista o seu caráter artístico seria questionado.

Palavras-chave: Arte, histórias em quadrinhos, forma de arte, universo ficcional, expressão figurativa da realidade.

Abstract:
This article discusses the comics as an art form. From a non-elitist conception of art and a theoretical and conceptual discussion about the meaning of art, understood as figurative expression of reality, the author demonstrates that the comics have the same character as other artistic productions, which reveals itself in its fictional universe, as well as discuss matters arising. The final conclusion is that comics are a specific form of art and that only an elitist conception its artistic character would be questioned.

Keywords: art, comics, art form, fictional universe, figurative expression of reality.

A arte é compreendida por muitos como algo “sublime”, como expressão da beleza, da criatividade, entre outras possibilidades interpretativas. As grandes obras de arte seriam produtos de gênios, como Mozart, Leonardo Da Vinci, Bertolt Brecht, Balzac, entre outros. Nesse sentido, o que é considerado “arte” é algo raro, distinto das capacidades comuns ou medianas da maioria dos indivíduos. Essa concepção revela um caráter elitista e problemático que passa a classificar como arte apenas algumas manifestações culturais, excluindo outras, seja por sua forma ou pelo seu conteúdo.

É isso que explica que o cinema e as histórias em quadrinhos foram consideradas, por muito tempo e isso ainda encontra defensores até hoje, como não sendo arte, bem como também elucida a desclassificação como arte de determinadas manifestações musicais (as músicas “bregas”, por exemplo), entre outros exemplos. O nosso objetivo aqui é justamente apresentar uma concepção distinta de arte e, por conseguinte, oposta a respeito do caráter das histórias em quadrinhos (e do cinema), defendendo a tese de que elas são uma forma de arte, o que nos leva a discutir o conceito de arte e forma de arte, entre outros aspectos, para demonstrar as razões pelas quais defendemos essa ideia.

Arte e Esfera Artística

O que é a arte? Essa é uma pergunta difícil de ser respondida, sendo que muitos não conseguiram encontrar uma resposta e alguns tentaram, com maior ou menor sucesso. Não apresentaremos as diversas concepções de arte existentes, pois isso não seria muito proveitoso. Apenas destacamos que as representações ilusórias sobre a arte, concebendo-a como algo “sublime”, “superior” ou como um mundo fechado em si mesmo, são problemáticas e elitistas. No fundo, revelam o fetichismo da arte já criticado pelo sociólogo Bourdieu (1996) e por outros (VIANA, 2007a).

A arte é uma produção humana e, portanto, é algo bastante comum, prosaico, um produto histórico e social. Não tem nada de sublime ou superior, podendo ser bastante pobre e inferior. Obviamente que a concepção elitista da arte reconhece como tal apenas as grandes obras e por isso afirmar que ela pode ser pobre e inferior pode parecer estranho. No entanto, mesmo as grandes obras podem ser bem “pequenas” e medíocres, pois sua grandiosidade não é algo dado e acima dos interesses, valores, concepções, daqueles que assim as avaliam.

A resolução desse problema só pode ocorrer através de uma definição do que é arte. Obviamente que podemos partir das grandes obras de arte, tal como um quadro de Picasso, uma música de Beethoven, uma peça de Moliére, para realizar tal definição. Contudo, porque tais obras seriam “grandes”? E por qual motivo um conto do Zé da Silva não poderia ser considerado “grande”? A própria ideia de “grandes obras” já é problemática em si e ao colocá-las como “grande” significa que existe o “pequeno” e que a diferença não é de substância e sim de forma, grau ou quantidade. Essas distinções revelam valores. Estes valores são ligados a uma concepção elitista de arte. São os valores dominantes, seja da esfera artística ou dos setores intelectualizados da sociedade. Estes valores reproduzem as relações sociais existentes e, portanto são manifestações axiológicas (VIANA, 2007b). Desta forma, a definição de arte deve englobar tanto o que se considera “grande” como o que se considera “pequeno”, tanto o bom quanto o ruim.

A arte é expressão figurativa da realidade (VIANA, 2007a), ou seja, uma criação fictícia de uma realidade paralela ao mundo realmente existente. Essa concepção de arte engloba tanto as grandes como as pequenas obras de arte, desde que expressem figurativamente a realidade. E essa realidade que é expressa nas obras de arte é a sociedade em seu conjunto, aspectos dela, ou a realidade dos sentimentos, desejos, valores, do indivíduo, mesmo sua intimidade e inconsciente, que a produz. Sendo assim, qualquer poesia, peça teatral, conto, música, pintura, entre outras manifestações artísticas, são obras de arte.

A diferença entre as diversas músicas, peças teatrais, obras literárias, entre outras manifestações artísticas, são entendidas não com uma divisão entre “arte” e “não arte” e sim entre arte de qualidade ou sem qualidade, sendo que isto remete a diversas outras questões, inclusive de valores (VIANA, 2007b). Nesse sentido, os livros de literatura de Paulo Coelho são obras de arte, da mesma forma que os livros de Lima Barreto, Kafka, Flaubert, entre milhares de outros, bem como as poesias de autodidatas, como as de Enes da Cunha Teles. O que pode distingui-las é a avaliação das mesmas, que são marcadas por valores, alguns supervalorando as formas, outros o conteúdo, outros integrandos ambos os elementos.

No fundo a recusa em considerar arte aquilo que não é produzido pelos especialistas na produção artística, os indivíduos da esfera artística, os artistas, é um primeiro equívoco a ser superado. A esfera artística, que segundo Marx e outros (MARX e ENGELS, 1986; VIANA, 2007a; BOURDIEU, 1996), surgiu na sociedade capitalista, graças à expansão da divisão social do trabalho, coloca uma oposição entre iniciados e leigos, que busca se afirmar através do monopólio da produção artística, o que é algo sem sentido ou com sentido apenas para os indivíduos desta esfera, de acordo com seus valores, interesses, concepções. Para produzir arte não precisa ser artista profissional, os artistas amadores produzem arte e muitas vezes de alta qualidade, enquanto que muitos profissionais produzem arte, muitas vezes, de baixa qualidade.
Outra diferença gerada pela constituição da esfera artística é expressa nas divisões internas, nas quais os que são hegemônicos buscam desqualificar os não hegemônicos, por um lado, e também pela hierarquia constituída no seu interior. Mas aqui nos interessa uma outra divisão no interior da esfera artística. Trata-se da divisão existente entre as subesferas, sendo que cada uma delas manifesta distintas formas de arte[1].

Assim, a esfera artística possui diversas subesferas, entre as quais a subesfera musical, teatral, literária, etc., que é expressa, na produção artística, pelas formas de arte (música, teatro, literatura, etc.) e, que, obviamente, também possuem subdivisões internas, algo comum na sociedade capitalista. Cada subesfera busca se autovalorar e colocar-se como acima das demais subesferas[2]. Esse processo de autovaloração é acompanhado pela desvaloração das demais formas de arte, que são a manifestação de outras subesferas[3].

Isso significa que a arte é algo comum e que qualquer ser humano é capaz de produzir, basta usar sua imaginação, sua criatividade. O resultado, a obra de arte concreta, pode ser de alta qualidade ou de baixa qualidade, mas isso depende de diversas determinações e a sua avaliação está ligada a determinados valores, sendo que o tecnicismo e formalismo são dominantes nos agentes da esfera artística, mas não em outros setores da população. Nesse sentido, ao entender que a essência da arte está em expressar de forma figurativa a realidade, não somente temos uma definição e delimitação, como também podemos distinguir as formas de arte, que realizam tal expressão de forma diferenciada e que, na sociedade capitalista, são produtos de indivíduos especializados de uma subesfera social.

Nesse sentido, todo produto cultural que realiza uma expressão figurativa da realidade é arte. A questão da qualidade é outra discussão e remete para uma avaliação das obras de arte em cada caso concreto e com base em determinadas concepções e valores. Não é nosso objetivo discutir a questão da qualidade das obras de arte aqui e em todas as formas de arte é possível encontrar diferenças qualitativas.

As histórias em quadrinhos como forma de arte

A partir dessa concepção de arte não há nenhuma dúvida que as histórias em quadrinhos são uma das formas de arte. As histórias em quadrinhos realizam uma expressão figurativa da realidade, usando os diversos recursos que possui, tal como as imagens, diálogos, balões, quadros, onomatopeias, etc., e criam um universo ficcional. Ou seja, tal como qualquer outra obra de arte, cria uma realidade paralela, ficcional, expressando figurativamente a realidade. A forma como faz isso a distingue de outras formas de arte, mas realizar tal expressão figurativa é algo que ela compartilha com todas as demais e a caracteriza como produção artística.

 Esses universos ficcionais podem ser mais simples ou mais complexos. A turma da Mônica, em sua versão infantil, é simples, enquanto que Tio Patinhas é mais complexo um pouco e os super-heróis da Marvel são ainda mais complexos e assim podemos observar diversas formas de manifestação de histórias em quadrinhos, desde as tiras de jornais até os álbuns de luxo, desde histórias curtas e infantis até complexas histórias envolvendo diversos personagens e exigindo uma reflexão para seu entendimento mais adequado. Uma tira de jornal com quatro quadros não se compara a um algum de luxo de duzentas páginas, pois a diferença não só quantitativa como também na extensão e complexidade do universo ficcional é mais que visível. Nesse processo, há diferenciações também por gênero, público-alvo, valores dos produtores, posições políticas, estilo, entre inúmeras outras. A diferença por gênero aponta para a existência de uma grande diversidade, como o da aventura, superaventura, humor, terror, etc. Existem histórias em quadrinhos para o público infantil, adulto, entre outros. Esses exemplos apenas mostram algumas das variedades na produção quadrinística.

O universo ficcional criado pelas histórias em quadrinhos possuem elementos comuns com outras formas de arte e, inclusive, existem adaptações e influências recíprocas. Em alguns casos existe maior dificuldade de adaptação, tal como os super-heróis das histórias em quadrinhos que em suas primeiras tentativas de adaptação cinematográfica deixaram muito a desejar pela dificuldade de produzir algo semelhante ao que era visível nas revistas em quadrinhos, o que só foi superado com o desenvolvimento tecnológico que permitiu reproduzir ambientes, cenas e ações com maior proximidade com a versão original. O universo ficcional das histórias em quadrinhos são produtos culturais como os demais e por ser uma expressão figurativa da realidade, é uma forma de manifestação artística.

Esses universos ficcionais são os mais variados e cada criador ou equipe de criação/reprodução criam uma realidade paralela, um outro mundo, ao lado do nosso mundo social, natural e concreto, que, no entanto, o reproduz. Ao ver o fantástico mundo dos super-heróis da Marvel Comics, com a existência não somente do planeta terra em sua face visível e que conhecemos, alterado com a inserção de seres superpoderosos que aqui passam a habitar (Capitão América, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Demolidor, e inúmeros outros, sem esquecer os supervilões), mas milhares de outros mundos, como Asgard, do Poderoso Thor; Atlântida, o mundo submarino do príncipe Namor; o mundo subterrâneo do vilão O Toupeira; o Olimpo dos deuses gregos, diversos planetas e dimensões, incluindo o Planeta Vivo; ou mesmo o mundo microcósmico onde, por exemplo, o Incrível Hulk teve aventuras.

Esses exemplos mostram a complexidade e riqueza do chamado “universo Marvel”, mas é apenas um entre os diversos universos ficcionais produzidos nas histórias em quadrinhos. Essas realidades paralelas, por mais fantásticas que sejam, estão expressando a nova realidade, seja dos desejos, intenções, sentimentos, inconsciente, dos seres humanos que as produzem, seja da sociedade ou de aspectos dela, ou da natureza. As histórias em quadrinhos, como toda obra de arte, é uma expressão da realidade, que não a retrata, mas através da figuração a recria. Esse recriar é um processo característico de toda produção artística, manifestação da criatividade, onde se recria o mundo gerando outro mundo, através da figuração, da ficção. Esse processo de criação é recriação, no qual dois mundos se encontram, o real e o ficcional, sendo o primeiro gerador do segundo e este reprodutor do primeiro. São distintos e, ao mesmo tempo, iguais.

Vigostky (2014) afirma que a imaginação trabalha com a realidade para criar um mundo imaginário, pois ela é sua matéria-prima. Um indivíduo só pode imaginar um centauro por existirem seres humanos e cavalos e assim ele pode uni-los, em sua imaginação, os dois formando uma terceira imagem: o corpo de um cavalo com o pescoço e o rosto de um homem. O Hulk só foi criado por que existiu milhares de seres reais e outros seres fictícios anteriores (como Frankenstein), que inspiraram Stan Lee quando este o criou. O real, no entanto, não está presente apenas como matéria-prima e fonte de inspiração, pois também se manifesta sob outras formas no conjunto da produção ficcional. O Hulk expressa a realidade da preocupação com o ser humano num mundo científico-tecnológico, dominado pela ciência e sua possível desumanização, além de diversas outras coisas. Da mesma forma, o Capitão América só foi criado por existir os Estados Unidos, a bandeira deste país, a Segunda Guerra Mundial, a necessidade de heróis, entre outros aspectos da época de sua criação (VIANA, 2005), bem como os valores, sentimentos, concepções e representações dos envolvidos em sua criação (Joe Simon e Jack Kirby). A história dos super-heróis comprova justamente esse seu caráter intimamente ligado à realidade social na qual emergem (VIANA, 2011).

Essa forma de arte possui não somente características próprias que expressam a maneira como expressam a realidade figurativamente, como também, como produto social e histórico do capitalismo, também acaba sendo um produto do trabalho artístico especializado, criando a subesfera quadrinística. Ela também acaba criando uma hierarquia entre os produtores, os hegemônicos, bem como outros setores que vão se desenvolvendo. Tal como o cinema, a produção quadrinística tende a ser uma produção coletiva e marcada por uma divisão interna do trabalho. Contudo, diferentemente do cinema, é possível com muito mais facilidade a produção individual. Sem dúvida, as produções dominadas pelo capital editorial, as grandes revistas em quadrinhos de circulação internacional (e em grande parte as de circulação nacional) são produzidas por equipes e não por um indivíduo. O desenvolvimento capitalista dificulta a existência da produção individual e um autor de histórias em quadrinhos pode, numa evolução posterior, usar uma equipe e ter o seu nome como o grande produtor, apesar da produção ser coletiva, como é o caso de Maurício de Souza, no Brasil, e Al Capp, nos Estados Unidos[4]. Mas, tanto em um caso quanto em outro, trata-se de obras de arte, cuja qualidade varia, mas nem por isso deixa de ser algo artístico.

É preciso, no entanto, distinguir forma e conteúdo. O conteúdo das histórias em quadrinhos são expressões figurativas da realidade, cuja forma mantém uma unidade, que é o uso do desenho e diversos outros recursos derivados e complementares. No entanto, é possível separar esta forma do conteúdo. Assim, os quadrinhos, como forma, se separa das histórias, do conteúdo. É como ocorre no caso de propagandas e outros usos, não-ficcionais, dos mesmos recursos formais das histórias em quadrinhos. Isso também ocorre em outras formas de arte, como a música ou o cinema. Na música, os jingles de campanhas eleitorais não tem nada de ficcional, é mera propaganda. Da mesma forma, o documentário usa os recursos cinematográficos, mas não produz ficção.

Desta forma, quando utilizamos o termo “quadrinhos”, ele significa o uso dos recursos formais das histórias em quadrinhos sem a produção de uma expressão figurativa da realidade, não sendo, pois, obras de arte. Por isso é necessário distinguir quadrinhos e histórias em quadrinhos, sendo que os primeiros são cópias do segundo, mas apenas no nível formal, e o segundo é obra de arte, ou seja, unidade entre forma e conteúdo[5]. Existem também formas mistas, que usam também a ficção para se tornar mais atrativo ao público, mas podemos considerar como formas degeneradas de arte, pois o conteúdo está corrompido (e geralmente empobrecido) pela intenção de propaganda ou outra qualquer que vincula a interesses financeiros e políticos diretamente.

Assim, as histórias em quadrinhos são uma forma de arte que compartilha o elemento essencial de toda obra artística, ser uma expressão figurativa da realidade, e possui uma especificidade que se encontra na forma como realiza isso, através de um “enredo organizado de forma sequencial e utilizando diversos recursos, sendo que o desenho (imagens) é o aspecto formal fundamental e os demais são complementares” (VIANA, 2013, p. 46). Sem o enredo, que o caracteriza como forma específica de universo ficcional, não se trata de histórias em quadrinhos, podendo ser uma charge, quadrinhos (no sentido acima delimitado), caricatura, etc. É uma forma de arte como as demais e somente numa concepção elitista se poderia querer questionar seu caráter artístico ou então a partir de outras definições de arte, que podem ser tão problemáticas quando o elitismo defendido por outros.

Considerações Finais

Logo, ao contrário das concepções elitistas de arte, as histórias em quadrinhos não podem ser excluídas do mundo artístico. Obviamente que a competição entre as subesferas podem gerar concepções que irão considerá-las não-arte ou “arte inferior”, mas isto apenas expressa algumas das características da esfera artística, a sua subdivisão e competição interna.

As histórias em quadrinhos seriam uma forma de arte “inferior”? A resposta só pode ser negativa, pois os valores por detrás dessa concepção são evidentes. Sem dúvida, existem histórias em quadrinhos de má qualidade, assim como existem obras musicais, cinematográficas, literárias, etc. que padecem do mesmo mal. Contudo, existem histórias em quadrinhos de alta qualidade (e isso partindo de várias concepções de qualidade), algumas são excelentes no aspecto formal, outras em seu conteúdo (tanto que pode ter um caráter crítico quanto apenas por complexidade). O personagem Ferdinando, de Al Capp, por exemplo, demonstra uma qualidade em seu universo ficcional que pode ser percebido não só na construção dos personagens e complexidade das estórias (não de todas, obviamente), quanto na crítica social efetivada através das mesmas (VIANA, 2013). Os Super-Heróis da Image Comics demonstram traços que formalmente são muito superiores às de outras produções, em que pese em seu conteúdo deixe a desejar em comparação com a Marvel ou a DC Comics.

Em síntese, as histórias em quadrinhos são uma forma de arte e possui sua especificidade e ao mesmo tempo compartilha o caráter artístico com as demais formas artísticas, não tendo nada de inferior. Isso não significa que as pessoas devam, necessariamente, gostar e admirar as histórias em quadrinhos, assim como qualquer forma de arte, pois considerá-las forma de arte não significa cair no fetichismo da arte, são produtos culturais, históricos, sociais, cuja valoração ou desvaloração, o gosto, as preferências, não tem nada de natural ou imanente.

As histórias em quadrinhos podem ser de alta ou baixa qualidade, pode ser um produto que contribui com a emancipação humana ou para a reprodução de um mundo desumano. Isso não é algo da essência dos quadrinhos e sim expressão de suas várias formas de manifestação concreta e por isso somente analisando casos concretos é que se pode fazer tal avaliação. Independente da qualidade, as histórias em quadrinhos são uma forma de arte, assim com a pior música não deixa de ser música e, portanto, obra de arte.
Referências

BOTTOMORE, Tom. Introdução à Sociologia. 3a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1970.

BOURDIEU, Pierre. As Regras da Arte. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

DELLA VOLPE, Galvano. As Linguagens Artísticas. In: PEREIRA, Wilcon (org.). Della Volpe. Col. Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática, 1980.

MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Sobre Literatura e Arte. 4a edição, São Paulo, Global, 1986.

VIANA, Nildo. A Esfera Artística. Marx, Weber, Bourdieu e a Sociologia da Arte. Porto Alegre: Zouk, 2007a.

VIANA, Nildo. Breve História dos Super-Heróis. In: REBLIN, Iuri e VIANA, Nildo (orgs.). Super-Heróis, Cultura e Sociedade. Aproximações Multidisciplinares Sobre o Mundo dos Quadrinhos. São Paulo: Ideias e Letras, 2011.

VIANA, Nildo. Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos. Rio de Janeiro: Achiamé, 205.

VIANA, Nildo. Os Valores na sociedade moderna. Brasília: Thesaurus, 2007b.

VIANA, Nildo. Quadrinhos e Crítica Social. O Universo Ficcional de Ferdinando. Rio de Janeiro: Azougue, 2013.

VIANA, Nildo. Sobre as Ciências Sociais. Estudos – Revista da Universidade Católica de Goiás. Vol. 27, no 04, out./dez.2000.

VIGOTSKY, Lev. Imaginação e Arte na Infância. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2014.




* Sociólogo e filósofo; Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília; Pós-Doutorando em Saúde Coletiva pela Universidade de São Paulo.

[1] Essa divisão é expressa por Galvano Della Volpe (1980) como “linguagens artísticas”. Contudo, a concepção de que existem diversas “linguagens artísticas” acaba sendo ideológica, no sentido de que cai num formalismo que se autonomiza, criando um fetichismo que inverte a realidade. A ideia de formas de arte mantém a percepção da unidade, são formas de algo concreto, que possuem sua especificidade e ao mesmo tempo elementos que perpassam todas elas e que não possuem autonomia absoluta ou uma lógica própria imanente e a diferenciação ocorre dentro de uma unidade. Isso vale tanto para os produtos culturais quanto para as relações sociais entre aqueles que realizam sua produção, isto é, tanto para a subesfera quanto para a forma de arte.

[2] Aqui, quando colocamos “a esfera” ou “a subesfera”, não estamos caindo numa concepção fetichista e sim colocando que os indivíduos reais e concretos, que agem e produzem representações e concepções, é que realizam isso, segundo a perspectiva do grupo e posição de que partem, não existindo nenhuma entidade abstrata e acima dos seres humanos de carne e osso.

[3] O mesmo ocorre no caso da esfera científica e isso é amplamente reconhecido, pois as subesferas geram valores, interesses, etc. no interior de uma sociedade competitiva e é por isso que há uma disputa entre as subesferas científicas e que cada uma busca ser considerada a mais importante e superior às demais, gerando inclusive os determinismos e “imperialismo”, tal como a sociologia, por exemplo, é acusada (BOTTOMORE, 1970; VIANA, 2000).

[4] Al Capp iniciou sua carreira como colaborador, sem receber os créditos, de outro quadrinista (Ham Fischer, criador de Joe Paloka) e o acusou de usá-lo como “desenhista-fantasma” (o que depois gerou polêmica, falsificação e suicídio de Fischer). Depois iniciou sua carreira autônoma e após alguns anos e sucesso, passou a ter trabalhos produzidos coletivamente e foi acusado também de usar desenhistas-fantasma (VIANA, 2013).

[5] Essa distinção passou desapercebida ao escrever o livro “Quadrinhos e Crítica Social” (VIANA, 2013), cujo título correto seria: Histórias em Quadrinhos e Crítica Social, o que será feito em futuras edições.

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