NASCE
MAIS UM SUPER-HERÓI NORTE-AMERICANO
Nildo Viana*
O Homem de Ferro é um dos
personagens mais famosos da Marvel Comics. Ele se tornou ainda mais célebre com
a série de filmes lançados a partir de 2008 que o tornaram popular para outros
públicos além dos leitores de história em quadrinhos. O presente texto tematiza
a história de sua origem, cujo título é “Nasce
o Homem de Ferro”, criada por Stan Lee e Larry Lieber, publicada
originalmente em 1963 e republicada por diversas vezes, sendo a última
republicação, no caso brasileiro, foi em 2015 em edição de luxo e encadernada, em
coedição da Editora Salvat e da Panini Comics.
O personagem surge no contexto
da Guerra Fria e da Guerra entre Estados Unidos e Vietnã (1955-1975). Essa obra
possui um vínculo forte com a época em que foi produzida, bem como com as
relações sociais existentes, permitindo estabelecer processos analíticos
historiográficos, sociológicos, políticos, entre outras áreas de pesquisa. No
fundo, a história expressa o clima social e cultural da Guerra Fria e do
conflito entre Estados Unidos e Vietnã, o que explica elementos de sua produção
social e elementos do próprio universo ficcional. Um certo maniqueísmo aparece
na história, na qual os Estados Unidos e o Homem de Ferro, seu representante,
aparecem como os “mocinhos” e os vietnamitas (do Norte) e seu líder Wong-Chu,
aparecem como os “bandidos”.
Essa obra pode ser trabalhada
para abordar vários temas históricos, como a Guerra Fria, a Guerra do Vietnã, a
cultura denominada “anticomunista”, entre outros, bem como temas sociológicos, tal
como o vínculo entre a produção quadrinística e sua época e sociedade e o
processo de criação de autoimagem e estereótipos de nações, concepções
políticas e indivíduos.
O nosso do texto vai explorar
os elementos históricos e sociológicos analisando tanto o contexto histórico e
social e sua transposição para o universo ficcional do Homem de Ferro, bem como
a manifestação de ideias, valores, estereótipos, no interior da própria obra,
visando mostrar o potencial pedagógico e o uso desses elementos no processo de
ensino-aprendizagem.
Para tanto vamos dividir o texto em quatro
partes fundamentais, sendo as duas primeiras de contextualização e as duas
seguintes de análise da história em quadrinhos. Assim, vamos, inicialmente realizar
uma apresentação da obra, buscando colocar o seu processo de produção e suas
características. A seguir, apresentamos uma contextualização social e histórica,
trabalhando algumas questões importantes dos anos 1960 que ajudam a entender a
histórias em quadrinhos e sua produção social e histórica. Posteriormente, expomos
uma análise da mesma, dividida em duas partes. A primeira parte efetiva uma
análise semântica e pictórica e a segunda parte realiza uma análise da
narrativa. A análise semântica visa analisar o uso de palavras e seus sentidos
no contexto da história e seu significado para entender o universo ficcional e
os seus elementos sociais e culturais. A análise pictórica visa observar como
as imagens e suas formas expressam mensagens e ajudam no processo de criação de
autoimagem e estereótipos. Na última parte, apresentamos a análise narrativa,
na qual, através da sucessão de unidades significativas, mostramos as duas
“histórias” dentro da história “Nasce o Homem de Ferro”: uma estritamente ficcional,
na qual se apresenta a origem do Homem de Ferro, e outra que remete ao contexto
histórico e social a partir de uma determinada perspectiva. Esse trajeto nos
permitiu ter uma concepção ampla da história em quadrinhos que analisamos e
contribui para reflexões sobre sua relação com a história e a sociedade no caso
das histórias em quadrinhos em geral.
Nasce o Homem de Ferro
O nosso objetivo, nesse
primeiro momento, é contextualizar a obra Nasce
o Homem de Ferro, publicada originalmente em março de 1963, na revista Tales Of Suspense, em seu número 39. Com
argumento de Stan Lee, roteiro de Larry Lieber, desenhos de Don Heck,
arte-final de Dick Ayers, ela apresenta o surgimento de um novo super-herói,
num mundo povoado por personagens como Namor (1939), Capitão América (1941),
Quarteto Fantástico (1961), Homem-Formiga (1961), Homem-Aranha (1962), Thor
(1962), Hulk (1962), Vespa (1963), entre outros. Trata-se de um super-herói que
surge junto com diversos outros, tal como se pode perceber pelas datas
anteriormente citadas que revelam o ano de aparecimento. Os primeiros
super-heróis da Marvel surgem décadas antes (especialmente Namor e Capitão
América, embora o primeiro tenha surgido em outra editora e depois foi
adquirido pela Marvel). Nos anos 1960, a partir da iniciativa de Stan Lee, uma
nova safra de super-heróis emerge na Marvel Comics e é nesse contexto que surge
a história “Nasce o Homem de Ferro” e o personagem que terá uma presença
marcante na história da superaventura. Essa história foi republicada em várias
oportunidades, pois é a que mostra o nascimento do Homem de Ferro e, portanto,
tem importância fundamental em sua história, inclusive devido ao fato de que os
amantes dos super-heróis têm um interesse especial nas origens destes
personagens. A edição brasileira que usamos como base foi a da Editora Salvat
em coedição com a Panini Comics, de 2015, em edição luxuosa em capa dura,
contendo também outra história, Cinco
Pesadelos, com tradução e adaptação de Jotapê Martins e Fernando
Bertacchini e letras de Donizeti Amorin.
Assim, o Homem de Ferro é mais
uma criação de Stan Lee (que já havia criado o Quarteto Fantástico,
Homem-Aranha, Thor, entre outros), um dos maiores nomes da Marvel Comics e das
histórias em quadrinhos a nível mundial e a primeira história do super-herói de
armadura foi criação dele e de Larry Lieber. Stan Lee foi um dos principais
responsáveis pela recuperação da Marvel Comics depois de uma crise que abalou
esta fábrica de super-heróis (Viana, 2020). Stan Lee e seus colaboradores
criaram novos super-heróis que deram novo fôlego para a Marvel Comics,
especialmente o seu maior sucesso, o Homem-Aranha, mas também o Quarteto
Fantástico, Hulk e vários outros.
O Homem de Ferro foi inspirado
em outro personagem, denominado Bozo, o
Homem de Ferro. Este personagem foi criado em 1939, por George Brenner. Ele
utiliza uma armadura metálica, muito semelhante à primeira armadura do Homem de
Ferro da Marvel. A armadura de Bozo era alimentada por uma bateria elétrica e
podia voar. A suas aparições ocorreram na revista Smash Comics e teve sua própria revista.
Figura 01: Bozo, o Homem de Ferro
Bozo, Inspiração
para o Homem de Ferro
O público da Marvel Comics,
nessa época, era principalmente a juventude. A juventude se consolidou como
mercado consumidor após a Segunda Guerra Mundial, no contexto do regime de
acumulação conjugado (Viana, 2009; Almeida, 2020) com o avanço do processo de
escolarização nos Estados Unidos e Europa e, em menor grau, no resto do mundo.
Especialmente na Europa e Estados Unidos, países no qual o consumo de massa se
estabeleceu após a instauração do fordismo como forma predominante de
organização do trabalho e sua estratégia de produção e consumo em massa, além
da expansão do crédito, permitiu um nível de renda e consumo mais elevados das
famílias europeias e norte-americanas. As histórias em quadrinhos tinha como
público principal as crianças e os jovens, mas com o surgimento, no final dos
anos 1920, do gênero aventura, o público juvenil ganhou um espaço próprio e
produções específicas. Nas décadas seguintes, muitas crianças se tornaram
jovens e continuavam a consumir histórias em quadrinhos, com destaque para o
gênero aventura e novos gêneros, mas especialmente através do gênero da
superaventura (Viana, 2005; Viana, 2020).
A capacidade de consumo da
juventude e, secundariamente, das crianças (através dos pais), vai aumentando
com o passar do tempo. A criação artística e ficcional para a juventude se
expande, tal como no cinema com os filmes de James Dean, Elvis Presley e a
explosão do Rock And Roll (Elvis Presley e, posteriormente, The Beatles, como
mais populares expressões desse gênero musical nessa época), a invenção de
costumes, roupas, comportamentos, específicos para os jovens, consolida esse
nicho do mercado consumidor (Viana, 2020). A invenção da juventude (Lapassade; 1975;
Avanzini, 1980; Viana, 2015; Viana, 2014) e sua consolidação como mercado
consumidor não passou desapercebido por Stan Lee.
Na década de 1960, quando esse
nicho de mercado já está consolidado, Stan Lee lança dois personagens jovens: o
Tocha Humana (membro do Quarteto Fantástico, que não se deve confundir com a
versão dos anos 1930 e que lutou lado a lado com Namor e Capitão América contra
os nazistas, que era um androide e passou a ser chamado “Tocha Humana
original”, para se distinguir do seu sucessor mais famoso e consolidado) e o
Homem-Aranha. Stan Lee buscava atrair o novo mercado consumidor com personagens
da mesma idade e que poderiam realizar o processo de identificação. Assim surge
esses dois personagens jovens e que se caracterizavam pela irreverência, que se
transformou, nessa época, em marca da juventude. As contendas entre Tocha
Humana e Coisa ou as ironias do Homem-Aranha contra seus adversários (inclusive
o Hulk), era uma forma de criar um processo de identificação dos jovens
consumidores com os jovens super-heróis.
O Homem de Ferro não era um
jovem e sim um adulto. Porém, era um adulto de pouca idade e considerado “playboy”,
um milionário rodeado de mulheres e carros, sendo o que grande parte da
juventude almejava ser e ter. A criação do Homem de Ferro ocorre num contexto
determinado, que é a Guerra Fria e a Guerra do Vietnã. Nesse contexto, assim
como quando surgiu o Capitão América, as histórias em quadrinhos entram em cena
para defender o patriotismo e a “América”. Muitos jovens iam para a guerra,
afinal, devido a idade, é a época do serviço militar. A fantasia ajuda a
embelezar a feiura da guerra. Porém, além do embelezamento, há também a
axiologia e os ideologemas[1], que
buscam convencer, valorativa e racionalmente, da justeza da guerra empreendida
contra os vietnamitas do norte.
Assim, a primeira história do
Homem de Ferro – que foi adaptada para o cinema e ao invés de vietnamitas ele
se defrontou com “terroristas” – traz diversos elementos para o processo de
ensino-aprendizagem. O mais importante é o aspecto histórico, embora também
traga elementos sociológicos, políticos, linguísticos, entre outras áreas do
saber científico. Vamos focalizar aqui a contribuição dessa história em
quadrinhos para a historiografia e, secundariamente, para a sociologia. Sem
dúvida, as outras contribuições também estarão presentes, embora nem sempre
explicitamente, pois na realidade concreta e no mundo ficcional se observa mais
aspectos do que apenas uma disciplina pode abarcar. O foco, no entanto, será
histórico e sociológico. A história da origem do Homem de Ferro contribui,
então, para o debate histórico dos anos 1960, especialmente a Guerra Fria e a
Guerra do Vietnã. O público discente ideal para trabalhar essa temática e
história são os alunos de história e, secundariamente, de sociologia, do Ensino
Médio. Neste contexto, é possível tratar do processo de apresentação, via
histórias em quadrinhos, de uma versão do conflito EUA-Vietnã e do conflito
mais profundo entre EUA-URSS. No caso, a estereotipização dos vietnamitas
revela elementos da produção ficcional do Homem de Ferro. Os aspectos
históricos fundamentais remetem, mais diretamente, para a Guerra do Vietnã, e,
mais indiretamente, para a Guerra Fria, embora também contenham elementos
sociológicos, e, por fim, ao clima cultural desse período. Os aspectos
sociológicos podem ser identificados, além desses elementos históricos, no
processo de criação de autoimagem, estereótipos, expressão de concepções
políticas, etc.
O contexto dos anos 1960
Os anos 1960 são um marco na
história da sociedade moderna, especialmente no seu final. Porém, desde o
início, a década trazia vários elementos que apontavam para o futuro que viria.
O fim da Segunda Guerra Mundial promoveu uma reconfiguração no capitalismo
mundial, especialmente nos países imperialistas. A fase do regime de acumulação
intensivo, que foi da segunda metade do século XIX até a primeira metade do
século XX, foi suplantada pelo regime de acumulação conjugado (Viana, 2009;
Almeida, 2020). A crise do regime de acumulação intensivo, com a Primeira
Guerra Mundial (1914-1918), as tentativas de revoluções proletárias (Rússia em
1917, Alemanha entre 1918-1921, Hungria em 1919, Itália em 1920), a crise de
1929, a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), a ascensão do nazifascismo e, por
fim, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), para citar apenas os casos mais
significativos, formaram o quadro geral de esgotamento deste regime de
acumulação sob forma cada vez mais forte.
A Segunda Guerra Mundial
sintetizou os acontecimentos anteriores e trouxe novidades, gerando uma
situação mundial de polarização entre os regimes nazifascistas e seus aliados e
o demais países do mundo (incluindo uma aliança temporária entre Estados Unidos
e União Soviética). A Revolução Bolchevique de 1917 e a instauração de um
capitalismo de estado[2] na
Rússia, que depois se torna “União Soviética”, é um fato marcante, pois faz
emergir um país que vai se tornando cada vez mais importante no âmbito
geopolítico, econômico e cultural. Por outro lado, a Primeira Guerra Mundial
possibilitou aos Estados Unidos, que já era uma nação em ascensão, se tornar
uma potência mundial através da expansão do seu capital bélico e outras
vantagens da não participação direta no confronto mundial, cujo palco foi,
fundamentalmente, a Europa. Assim, a Segunda Guerra Mundial conseguiu destruir
as bases das lutas operárias na Europa, destruiu forças produtivas (e isso
permitia uma retomada da acumulação capitalista em maior escala
posteriormente), e acabou promovendo a expansão da URSS sobre o Leste Europeu,
além da consolidação dos Estados Unidos como a grande potência mundial, no
plano econômico e bélico.
É nesse contexto que emerge o
regime de acumulação conjugado e a chamada Guerra Fria. O regime de acumulação
conjugado é marcado pela substituição do predomínio do taylorismo como forma de
organização do trabalho pelo fordismo, que se fundamentava no uso de tecnologia
(a famosa esteira, por exemplo, que permitia a quem controla a máquina controlar
o ritmo do trabalho dos operários), a produção em massa, bem como a expansão do
capital oligopolista transnacional (que nos anos 1970 e 1980 ficaram conhecidas
como “multinacionais”) a nível mundial e, ainda, uma nova organização estatal
que substitui o Estado Liberal-Democrático por um Estado integracionista, mais
conhecido como “de Bem-Estar Social”. A reconstrução da Europa ocorreu
rapidamente, em que pese na Itália e alguns países tenha sido mais lento e com
mais problemas. A tecnologia existente e o apoio norte-americano facilitaram a
retomada da acumulação de capital nesses países. O Estado de Bem-Estar Social
realizava políticas universais de saúde, educação, emprego, bem como o consumo
em massa se expandiu, o que permitiu o surgimento da concepção da emergência de
uma “sociedade de consumo”, especialmente a partir de 1955. Em cinco anos
(1945-1950) a Europa se recuperou. A partir dos anos 1950 uma nova era de
estabilidade econômica e política surgiu. As políticas econômicas a nível
mundial se tornaram keynesianas, a do Estado intervencionista.
Outras mudanças ocorreram
nesse contexto. Trata-se de mudanças sociais e culturais mais específicas. No
caso europeu, a população jovem diminuiu drasticamente com a Segunda Guerra
Mundial, já que a juventude era o setor da população mais recrutada para o
conflito bélico. Ela só volta a crescer proporcionalmente de forma
significativa a partir dos anos 1955. Outra mudança importante é a cultural. No
regime de acumulação intensivo predominava o paradigma positivista e, com sua
crise, o irracionalismo, o marxismo, e outras concepções avançaram, gerando sua
crise. No pós-Segunda Guerra Mundial, na nova situação de estabilidade
econômica e política, emerge um novo paradigma próximo do positivismo, o
reprodutivismo (Viana, 2019), que também apontava para uma concepção
objetivista, holista, cientificista, mas sob forma diferente. Essa é a época da
hegemonia do estruturalismo, funcionalismo, “teoria dos sistemas”,
keynesianismo, entre outras concepções.
Porém, isso não ocorria sem
problemas. O mundo foi dividido entre duas grandes potências. A Europa
Ocidental se aliou aos Estados Unidos e a Europa Oriental estava sob domínio da
União Soviética. A breve aliança entre esses dois países para combater o
nazifascismo logo se transformou em rivalidade e disputa geopolítica. Surge,
nos pós-Segunda Guerra Mundial, o chamado “Terceiro Mundo”, sendo o primeiro
representado pelos Estados Unidos e seus aliados e o segundo pela União
Soviética e seus satélites. As duas grandes potências disputavam o mundo, mas,
principalmente, o “Terceiro Mundo”. A Revolução Chinesa e, depois, a Revolução
Cubana, entre outros processos, apontavam para uma expansão do capitalismo
estatal a nível mundial. Uma guerra sem armas e conflitos diretos se estabeleceram
entre as duas potências, o que gerou, muitas vezes, conflitos bélicos em países
do “Terceiro Mundo”.
É nesse contexto que emerge a
Guerra do Vietnã. Ela surge no contexto da Guerra da Indochina (e por isso é
chamada também de “Segunda Guerra da Indochina”), antiga colônia francesa, que,
a partir da Revolução Chinesa de 1949 e do apoio deste país (e da URSS),
intensificou sua luta por independência, sendo que os Estados Unidos apoiou a
França, que acabou tendo que ceder a independência da Indochina (1954), que se
dividiu em quatro países: Laos, Camboja, Vietnã do Sul e Vietnã do Norte. A
existência desses dois últimos países era para ser temporária e se previa um
ano (1955) para a reunificação, o que não ocorreu e gerou uma guerra entre
ambos (Magnoli, 2013).
Assim, a Guerra do Vietnã
surgiu através da rivalidade dos dois governos provisórios e tendo como
motivação complementar a Guerra Fria entre EUA e URSS. A guerra começou em 1955
e só terminou em 1975, colocando, de um lado, Vietnã do Norte, apoiado pela
URSS, China e outros países do bloco capitalista estatal, e o Vietnã do Sul,
apoiado pelos EUA, Coreia do Sul, Austrália e outros países alinhados aos
norte-americanos. O interesse norte-americano era geopolítico, pois, usando a “teoria
do dominó” (jogo de mesa, no qual ao se enfileirar suas peças, a queda de uma
leva à queda de outra e assim sucessivamente), justificava sua “política de
contenção”, cujo objetivo era impedir a expansão do capitalismo estatal
(denominado como “comunismo” pelos norte-americanos) a nível mundial (Rossbach,
1998; Chaves, 2015). Os Estados Unidos intensificou suas ações na região a
partir de 1961-1962, época em que as suas tropas triplicaram de quantidade no
Vietnã.
O Homem de Ferro: Análise Pictórica e Semântica
Nasce o Homem de Ferro é uma
história que ajuda a pensar os anos 1960, tanto em aspectos políticos e
econômicos, como culturais e valorativos. Para explorar o potencial pedagógico
dessa história é interessante o exercício da contextualização. Os estudantes
podem pesquisar a época e assim identificar e comparar o período histórico e os
acontecimentos ficcionais presentes na história. Assim, a leitura da histórias
em quadrinhos é complementada pela análise histórica para contextualização da
obra. Essa ação pedagógica é importante, pois pode trazer curiosidade e
interesse, inicialmente relativo ao personagem (que se tornou atual para a
geração de jovens de hoje em dia devido aos filmes lançados e o renovado
sucesso do personagem), posteriormente em relação a história em quadrinhos e
seu contexto histórico.
Assim, o primeiro aspecto é
identificar elementos da história. A análise pictórica é um elemento
interessante. Qual é a aparência do personagem principal, seja como Homem de
Ferro, seja como Anthony Stark? Qual é a aparência dos demais personagens? Como
os quadros são produzidos, quais símbolos, imagens, aparecem? O primeiro ponto
que pode despertar curiosidade nos alunos é a armadura do Homem de Ferro, bem
diferente do que a maioria conheceu nos cinemas ou mesmo nas revistas em
quadrinhos. A armadura não é vermelha e amarela e sim cinza prateado, mais
próximo da cor de ferro. É apenas nas aparições seguintes que a cor será alterada
para vermelho e amarelo.
Figura 01: Homem de Ferro (1963)
Primeira Armadura
do Homem de Ferro
Outra imagem que se destaca é
a do vilão Wong-Chu, de aparência oriental, mas corpulento, sendo o único a
possuir tal forma na história. Outro elemento que se destaca na imagem do vilão
é a sua expressão de raiva, mesmo em situação sem motivos para isso.
Figura 02: A expressão facial de Wong-Chu
Comparação de
análise psicológica das expressões faciais e expressão facial de Wong-Chu
A comparação acima mostra que a expressão facial “normal” de Wong-Chu é
equivalente a um indivíduo com raiva. Essa equivalência serve para criar uma
disposição antipática do leitor com o vilão. Essa análise pictórica é reforçada
pela análise dos discursos apresentados na histórias em quadrinhos. O discurso presente na história tem alguns
elementos significativos que podem ser analisados separadamente, para,
posteriormente, apresentarmos uma análise da narrativa completa. O discurso
mostra uma contraposição entre norte-americanos e seus inimigos. Algumas frases
demonstram isso:
QUADRO DE DISCURSOS E SEUS AUTORES
|
Vigia do laboratório de Stark: |
“Os comunas dariam um olho pra
saber no que ele está trabalhando agora!” (p. 10). |
|
Narrador da história: |
“O verdadeiro início de nossa
história se desfralda a um hemisfério dali, na selva do Vietnã do Sul,
ameacada por Wong-Chu, o tirano da
guerrilha vermelha!” (p. 11). |
|
Wong-Chu: |
“Vamos pilhar o povoado, pois
ninguém pode deter o vitorioso Wong-Chu” (p. 11). |
|
Soldado norte-americano: |
“Hah! Olhe os vermelhos batendo
em retirada!” (p. 12). |
|
Guerrilheiro vietnamita: |
“O civil ianque ainda está
vivo!” (p. 12). |
|
Wong-Chu: |
“Ainda podemos tirar proveito de sua genialidade.
Wong-Chu vai tapear o ocidental para que passe seus últimos dias na terra a nosso serviço” (p. 13). |
|
Tony Stark: |
“Eu sei que só devo ter alguns dias de vida, mas meu último ato será
a derrota desse sorridente e traiçoeiro terrorista vermelho!” (p. 13). |
|
Wong-Chu: |
“Este velho, professor Yinsen!
Antes, grande cientísta! Hoje, lacaio de Wong-Chu...” (p. 13). |
|
Professor Yinsen: |
“Não! Jamais ajudarei os
malignos tiranos vermelhos! Jamais!” (p. 13). |
|
Professor Yinsen: |
“Fui obrigado a trabalhar como
escravo para os comunistas! Quando resisti, Wong-Chu me tomou como
prisioneiro” (p. 14). |
|
Professor Yinsen: |
“Morte a Wong-Chu! Morte ao Tirano Maligno!” (p. 15). |
|
Wong-Chu: |
“Ele enlouqueceu. Persigam o
velho. Acabem com sua vida miserável! Ele já perceu seu valor para mim!” (p.
15). |
|
Narrador: |
“E assim, o galante cientista
chinês, conquista preciosos segundos para Anthony Stark” (p. 15). |
|
Tony Stark: |
“E você é um homem maligno e sem coração que está prestes a pagar por seus crimes de guerra!” (p.
18). |
|
Wong-Chu: |
“Agora eu ordenar execução de todos prisioneiros!” (p. 20). |
|
Homem de Ferro (Tony Stark): |
“Ciente de sua derrota, Wong-Chu
está tentando assassinar todos os prisioneiros antes de ser detido! Não posso
permitir!” (p. 21)[3]. |
Aqui seria fácil perceber pelos termos e afirmações utilizados que há uma
estereotipização dos vietnamitas do norte: Wong-Chu e os vietnamitas são
rotulados de forma pejorativa (“comunas”, “vermelhos”, “tirano”, “malignos”, “traicoeiro”,
“terrorista”, etc.), bem como seus atos são “covardes” e “criminosos”. Por
outro lado, os norte-americanos e seus aliados são apresentados positivamente,
tal como se vê no “galante cientista chinês” que sacrifica sua vida para salvar
Tony Stark. O estereótipo dos vietnamitas é como “comunistas” e estes, são
apresentados como “malignos”, representantes do mal. O maniqueísmo é evidente. Os
termos utilizados visam provocar uma antipatia nos leitores em relação aos
vietnamitas pró-soviéticos, os “comunistas”. O vínculo entre “comunismo” e “mal”
ocorre via expressões como “maligno” (palavra que remete a quem provoca ou é
mal), tirano, entre outras. Porém, essa não é apenas uma narrativa dos
personagens norte-americanos e do narrador e sim dos próprios vietnamitas e seu
personagem principal, transformado em vilão, Wong-Chu. Afirmações do próprio
Wong-Chu, tais como “vamos pilhar o
povoado”, “eu ordenar execução de
todos prisioneiros”, “tirar proveito
de sua genialidade”, criam a imagem de maldade e mau-caratismo do líder
guerrilheiro, promovendo uma total antipatia em relação a ele por parte do
leitor. Essa imagem, obviamente, contradiz a realidade, pois os líderes
guerrilheiros se viam como unificadores da pátria e inimigos do imperialismo
norte-americano e não como tiranos astutos e cínicos[4].
Porém, além dos estereótipos e do maniqueísmo há um outro elemento: a
expressão de um ideologema extraído de uma ideologia propagandeada pelos
ideólogos dos Estados Unidos. No fundo, há um conjunto de ideias, concepções,
produções intelectuais, que justificavam e legitimavam a Guerra Fria, desde
algumas que eram mais diretas até outras mais indiretas. A ideia do “destino
manifesto” dos Estados Unidos, uma ideia geral reproduzida nesse país desde a
sua expansão para o oeste, a ideia de “política de contenção”, elaborada por
George Kennan (parte da chamada “Doutrina Truman”), bem como, principalmente, o
anticomunismo, que teve sua face política e popularizada através do macarthismo
e, no mundo das histórias em quadrinhos, através de F. Wertham e sua investida
que gerou a autocensura nas histórias em quadrinhos. Karl Popper e o economista
W. W. Rostow (autor do livro “Etapas do
Desenvolvimento Econômico”, cujo subtítulo é “Um manifesto não-comunista”), e outros ideólogos também se
dedicaram a produzir ideologias “anticomunistas”.
Os termos-chave que se popularizaram nesse contexto era “comunas”, “vermelhos”,
entre outros. A história em quadrinhos da origem do Homem de Ferro reproduz
esse anticomunismo primário e o reforça. O efeito persuasivo da retórica se
manifesta, dentre outros estratagemas, através do uso de adjetivos pejorativos.
As palavras geram impactos, e algumas geram uma indisposição quase que
imediata, tal como “tirano”, “maligno”. No entanto, quando o próprio
personagem, cuja intenção é apresentá-lo como um vilão detestável, usa termos
relativos à sua propria ação, como “pilhar”, entre outros, o efeito é ainda
mais forte. O efeito discursivo do uso de determinadas palavras com sentido
pejorativo se vê fortalecido nesse último caso.
Análise Narrativa
A partir de agora realizaremos uma análise da narrativa, destacando as
unidades significativas que reúnem alguns quadros e seu caráter significativo
se expressa através de mensagens que são repassados por eles. A primeira
unidade significativa é formada pelos nove primeiros quadros. A narrativa de Nasce o Homem de Ferro se inicia com a
apresentação de Anthony Stark nesses quadros. A apresentação do personagem
mostra sua riqueza, sua genialidade, seu sucesso com as mulheres. A primeira
afirmação aparece no primeiro quadro, quando um vigia afirma “Caramba! Esse tal
de Stark deve ser magnata pra ter guarda-costas 24 horas por dia” e o outro
comenta: “Magnata é apelido! Os comunas dariam um olho pra saber no que ele
está trabalhando agora!”. Nos seis quadros seguintes (2-7) aparece Stark
mostrando para um general do exército sua invenção de transistores que podem
resolver os problemas militares no Vietnã, com uma demonstração que não deixa
dúvidas sobre sua genialidade e sobre a eficácia de sua tecnologia. Nos dois
quadros seguintes (8-9) seguinte, outras qualidades de Tony Stark são
apresentadas para além de ser “magnata” e “cientista genial”: o seu sucesso com
as mulheres. O narrador apresenta: “Anthony Stark... rico, bonito, conhecido
como um playboy glamoroso, em constante companhia de belas e adoráveis
mulheres” e o quadro mostra mulheres afirmando que ele “é o maior pão do mundo”
(“pão” era uma gíria muito utilizada pelas mulheres para se referir a homens
considerados “belos” nos anos 1960/1970, tal como posteriormente se passou a
usar “gato”) e, no fundo, uma outra mulher dizendo que a Riviera estava um
tédio até ele chegar.
Essa primeira unidade significativa mostra quem é Tony Stark. Ele é
apresentado como sendo cheio de qualidades (riqueza, inteligência, beleza), bem
como um vencedor (o sucesso de sua demonstração tecnológica e sua riqueza
comprovavam isso). Como o objetivo da história em quadrinhos era mostrar a
origem do Homem de Ferro, então a apresentação do personagem é compreensível.
Porém, ao lado da necessidade de apresentar o personagem por desenvolvimento da
narrativa e sua temática, há um outro motivo para que isso ocorra, o que é
entendido ao se analisar a segunda unidade significativa.
A segunda unidade significativa apresenta outro personagem: Wong-Chu. Essa
unidade significativa tem quatro quadros (quadros 11-13). O primeiro começa com
o narrador afirmando que “o verdadeiro início de nossa história se desfralda a
um hemisferio dali, na selva do Vietnã do Sul, ameaçada por Wong-Chu, o tirano
da guerrilha vermelha!”. Esse início mostra como o antagonista do Homem de
Ferro é apresentado durante toda a história. Ele, ao invés de ser apresentado
como alguém da população vietnamita (embora do Vietnã do Norte, mas tratava-se
de apenas um país em situação de separação provisória), é apresentado como se
fosse externo, um estrangeiro, apesar de ser nativo. A ideia é separar a
população vietnamita do guerrilheiro e o Vietnã do Sul e do Norte. Assim, a
afirmação “conquistei mais uma aldeia” (quadro 10) e “vamos pilhar o povoado”
(quadro 13) revelam a ideia de que Wong-Chu é um vilão desprezível, mas, mais
do que isso, que ele é que um verdadeiro tirano, o que justifica a presença
norte-americana em território vietnamita. A história começa quando se inicia o
maniqueísmo.
A terceira unidade significativa são os cinco quadro posteriores (14-18).
Apesar da narrativa ser pouco verossímil, pois mostra o exército
norte-americano na selva vietnamita e com a presença pessoal de Tony Stark, um
empresário milionário, correndo o risco de acompanhá-los. A narrativa mostra a
dificuldade de lutar na selva, o sucesso inicial da tecnologia de Stark e o seu
elemento principal, que é quando o protagonista cai numa armadilha e sofre o
impacto da explosão. Aqui há uma necessidade ficcional, que é o acidente e sua
consequência posterior para Stark, o que possibilitará ele se tornar o Homem de
Ferro. Por outro lado, também mostra o conflito bélico e suas consequências
para os americanos, como morte e perda de membros do corpo, tendo um apelo
emocional.
A quarta unidade significativa (três quadros, 19-21) mostra um vietnamita
encontrando Stark desmaiado e levando-o para Wong-Chu e este revelando ter
informações sobre Stark e seu plano de usar o pouco tempo de vida que ele tem,
devido ao estilhaço alojado ao lado do seu coração, para criar tecnologia de
guerra para ele através da ilusão de uma promessa de cirurgia que poderá
salvá-lo. A unidade mostra a maldade e o plano de Wong-Chu. A quinta unidade
significativa (22-24) é um diálogo entre Wong-Chu e Stark, no qual o primeiro
tenta enganar o segundo e este mostra mais uma vez sua inteligência superior ao
perceber que era uma mentira e aceita a proposta de construir uma arma
fantástica em troca da cirurgia que salvaria sua vida. Os dois protagonistas
usam a inteligência e astúcia para atingir seus objetivos. A sexta unidade
significativa (25-26) apresenta Stark trabalhando e revelando seu plano
(através de pensamento e diálogo consigo mesmo) de fazer uma arma com o
objetivo de salvá-lo do estilhaço e do vilão.
A sétima unidade significativa possui nove quadros (27-35) e começa com Wong-Chu
entregando o professor Yinsen para auxiliar Stark. Os dois planejam a armadura
e há um complemento na genialidade dos dois inventores. O foco da unidade é a
genialidade e complemento das habilidades dos dois personagens, visando
justificar como, em tão pouco tempo, há a invenção de uma poderosa armadura. A
oitava unidade (36-38) apresenta o professor Yinsen esperando o carregando de
energia para a armadura funcionar e vendo o alerta e a aproximação dos
guerrilheiros. Ele foge gritando pela “morte a Wong-Chu!” e é assassinado. Nessa
unidade, um ato de heroísmo e altruísmo é realizado pelo cientista chinês, o
que reforça a versão maniqueísta que opõe os bons e os maus.
A unidade significativa (39-53) seguinte apresenta Stark tendo
dificuldades em usar a armadura e a décima mostra ele superando os problemas e
conseguindo voar e despistar os guerrilheiros. A unidade mostra como o
super-herói vai aprendendo a usar a armadura e ampliar seus poderes. A décima
unidade significativa mostra um embate entre o Homem de Ferro e Wong-Chu (54-69),
bem como seus guerrilheiros que atiram inutilmente na armadura do protagonista
e este usa os transistores para atacá-los. A mensagem aponta para mostrar a
superioridade do Homem de Ferro e a covardia de Wong-Chu, bem como um embate
entre “mocinho” e “bandido”. A décima primeira unidade significativa, contendo
três quadros (70-72), mostra a covardia dos guerrilheiros que fogem, bem como
Wong-chu, que oferece, através de um alto-falante, um prêmio pela cabeça do
Homem de Ferro. A mensagem nessa unidade é ficcional, aos mostrar um primeiro
confronto entre os protagonistas, e política, ao apresentar o vilão e seus
soldados como covardes.
A décima terceira unidade significativa (73-74) apresenta Wong-Chu ouvindo
o alto-falante que usava enviar mensagem que supostamente seria dele ordenando
que os guerrilheiros fugissem para a selva, através da tecnologia Stark
conseguiu interferir e se passar pelo adversário. Os dois quadros mostram,
novamente, a inteligência superior de Stark em relação ao vilão. A décima
quarta unidade significativa (75-81) mostra novo confronto entre Wong-Chu e o
Homem de Ferro, sendo que o primeiro joga um armário pesado e com gavetas
cheias de pedras sobre o herói de armadura, que, consegue se livrar, mas se
encontra sem energia e precisando recarregar a armadura. O que se mostra é a
superioridade do Homem de Ferro, mas também o contratempo promovido pela
armadilha (colocar pedras no armário para atingir o inimigo) do vilão.
A décima quinta unidade significativa (82-84) mostra o fim do vilão, pois
o Homem de Ferro, que usa sua astúcia para usar o dispositivo lubrificante e
assim lançar um jato de óleo, no qual ele ateia fogo e acaba explondindo a
instalação na qual Wong-Chu estava passando por ela e a explosão o mata. Essa
unidade significativa mostra, mais uma vez, a habilidade e inteligência do
Homem de Ferro e o castigo do representante do mal, que pagou com a vida. Sem
dúvida, a morte do vilão não é apresentada como ato de maldade, mas ato de
vingança justa (tal como se coloca na unidade significativa seguinte).
A décima sexta unidade significativa (85-86) mostra o Homem de Ferro com
seus pensamentos, no qual revela que libertou os prisioneiros e que os “comunas
fugiram em pânico”, tendo tudo acabado, bem como afirma que o Professor Yinsen
sacrificou sua vida pela dele e foi vingado. No último quadro, que mostra Stark
caminhando de costas rumo ao horizonte, um balão de pensamento remete para as
reflexões dele sobre o super-herói que acaba de nascer: “quanto ao Homem de
Ferro, o colosso metálico que outrora foi Anthony Stark, o que o destino lhe
reserva só Deus sabe! E apenas e tão somente o tempo há de fornecer as
respostas” (p. 21).
A narrativa revela, por conseguinte, a origem de um super-herói. Um homem
normal, mas com qualidades excepcionais, que acaba se envolvendo num conflito
bélico e sofre um acidente fatal e consegue criar, com ajuda de outro
cientista, uma armadura poderosa e que lhe mantinha vivo, que é usada também
para libertar os vietnamitas e realizar a vingança da morte do professor
Yinsen. O seu ato heróico foi combater os comunistas, vencer Wong-Chu e
libertar os prisioneiros. Assim, a narrativa revela como foi possível a criação
de uma armadura excepcional que permitiu os atos de heróismo do protagonista. O
pano de fundo, porém, envia uma submensagem, que é a contraposição entre o “mundo
livre” (EUA) e a URSS, a tirania. Porém, além dessa submensagem já analisada,
existem outras. A histórias em quadrinhos apresenta valores, pois a figura de
Stark é “invejável”, no sentido de que o seu sucesso pessoal com suas qualidades,
posses e relações, mostram que a ascensão social, a riqueza, são valores
repassados pelo personagem. A ideia de que a riqueza é oriunda da genialidade
de Stark, o que, por sua vez, revela também uma justificativa dela e uma
concepção segundo a qual com trabalho e inteligência é possível enriquecer e
obter outras conquistas.
Por outro lado, mostra o desvalor, expresso em Wong-Chu, que também almeja
riqueza e poder, mas sob forma tirânica e desonesta (pilhagem, etc.). Ao lado
disso há a contraposição entre o modo americano de conseguir a riqueza, através
da iniciativa privada, inteligência, trabalho; e o modo dos “comunistas”,
através da pilhagem, invasão, etc. O confronto entre o Homem de Ferro e
Wong-Chu acaba sendo um conflito entre um herói e um vilão e, ao mesmo tempo,
entre um norte-americano e um pró-soviético, entre os valores burgueses
honestos e os valores burgueses desonestos (embora não sejam apresentados como
burgueses – a pilhagem, a ânsia pelo poder e riqueza, são típicos da sociedade
burguesa e, em que pese se reproduza no capitalismo estatal, ocorre mediado
pelo burocratismo e outros processos que não valoram o individualismo, por
exemplo), ou seja, o meio lícito de enriquecimento e o ilícito, atribuído aos “comunistas”.
Nesse sentido, a mensagem principal é a que apresenta a origem de um novo
super-herói da Marvel e a submensagem é o “anticomunismo” (que, na verdade, é
uma recusa do capitalismo estatal).
Assim, essa história em quadrinhos pode ser tratada
em sala de aula nessas duas dimensões: a meramente ficcional (a origem do Homem
de Ferro) e a axiológica e ideologêmica, ou seja, a submensagem. A mensagem
ficcional pode ser destacada inicialmente visando uma aproximação entre os
alunos e a história. Num segundo momento, se destaca a submensagem política que
se manifesta no contexto social e histórico da histórias em quadrinhos. Nesse
contexto é possível solicitar pesquisas sobre o contexto histórico e social
(entre outras possibilidades no caso de outras disciplinas além da história) e,
dessa forma, é possível despertar o senso crítico nos estudantes e inserir as
temáticas da Guerra Fria, Guerra do Vietnã, ideologias políticas hegemônicas na
época, caráter da União Soviética, política externa norte-americana, valores,
entre diversas outras.
Para destacar a submensagem política é possível iniciar solicitando uma
comparação entre os dois protagonistas, Tony Stark/Homem de Ferro e Wong-Chu.
Nesse contexto, a oposição entre herói e vilão é contextualizada no sentido de
mostrar que esses indivíduos, no fundo, estão representando países, interesses,
concepções de mundo, entre outros aspectos. É possível solicitar,
posteriormente, e como desdobramento, uma comparação entre as ideologias
políticas, a do “mundo livre” e a do “comunismo”, bem como, a seguir, o
contexto e interesses dos dois países. É possível, também, solicitar uma
análise dos acontecimentos históricos efetivos que emergem na história em
quadrinhos e os que foram acrescentados para garantir sua faceta ficcional.
Desta forma, a análise narrativa facilita o processo de despertar da
consciência crítica dos alunos, pois permite mostrar que uma histórias em
quadrinhos não é apenas uma ficção de superaventura, mas também uma
manifestação social e cultural, que, por conseguinte, revela muitos aspectos de
uma sociedade e de uma época, indo desde ideologemas e valores, passando por
fatos históricos, até chegar ao posicionamento dos criadores diante desse
contexto. A análise narrativa complementada pela análise pictórica e
valorativa, permite destacar mais elementos históricos e sociais, bem como identificar
estereótipos, valores, e o implícito na criação quadrinística.
Considerações
Finais
A histórias em quadrinhos “Nasce o Homem de Ferro” ilustra a possibilidade
de uso pedagógico das “bandas desenhadas”, como elas são chamadas em Portugal.
No processo educacional, as histórias em quadrinhos podem ser utilizadas para
discutir diversas temáticas e através de diversas perspectivas. Assim, a
perspectiva pedagógica, historiográfica, sociológica, psicológica,
psicanalítica, geográfica, entre outras, podem usar os recursos analíticos e
pedagógicos para trabalhar as histórias em quadrinhos em sala de aula.
A história em quadrinhos aqui analisada traz mais explicitamente um
elemento histórico, o caso da Guerra do Vietnã e outros acontecimentos
históricos relacionados, bem como seus pressupostos sociais e culturais, no
contexto de uma narrativa ficcional sobre a origem do personagem Homem de
Ferro. A mensagem ficcional trata de como foi possível o surgimento deste
super-herói, que é explicado através da genialidade do cientista e inventor
Tony Stark, com o apoio de um cientista chinês, e de um acidente num contexto
de guerra, que gera um problema no coração do protagonista, e sua luta para
escapar com vida do cárcere de um tirano vietnamita. Alguns elementos dela
remetem para um conjunto de acontecimentos que foram extraídos do contexto
social e histórico da época em que foi produzida. Porém, não se trata apenas de
uma reprodução de acontecimentos históricos, mas também de concepções,
ideologemas e valores da época e país no qual ocorreram, o que significa que é
uma determinada versão da história, a partir de uma determinada perspectiva.
Esse último aspecto é que abre amplas perspectivas de uso pedagógico da
referida história. O contexto social e histórico permite reflexões, pesquisas,
relações e levantamento de questões variadas. Por outro lado, o contexto
discursivo e a análise narrativa ajudam a reconstituir o conteúdo da
submensagem política apresentada, o que é outro material com grande
possibilidade de uso pedagógico.
Em síntese, a história em quadrinhos Nasce
o Homem de Ferro, apesar de curta e ter como objetivo narrar a origem de
mais um super-herói americano, traz muitos aspectos que servem para análise e
uso pedagógico.
Referências
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BETTELHEIM, Charles. As Lutas de Classes na União Soviética. 2 vols. 2ª edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979.
CHAVES, Wanderson. As agendas culturais da Guerra Fria e o “Programa Ideológico”. A CIA e a Fundação Ford na atração às elites intelectuais. Revista Angelus Novus, Num. 09, 2015.
LAPASSADE, Georges. A entrada na vida. Lisboa: Edições 70, 1975.
MAGNOLI, Demétrio. Guerras da Indochina. São Paulo: Contexto, 2013.
MARQUES, Edmilson. História em Quadrinhos. Valores e Luta Cultural. Curitiba: Appris, 2018.
MARQUES, Edmilson. Super-Heróis: Ficção e Realidade. REBLIN, Iuri; VIANA, Nildo (orgs.). Super-Heróis, Cultura e Sociedade. Goiânia: Edições Redelp, 2020.
REBLIN, Iuri; VIANA, Nildo (orgs.). Super-Heróis, Cultura e Sociedade. Goiânia: Edições Redelp, 2020.
ROSSBACH, Stefan. “Contenção”. A Filosofia Política de George F. Kennan. GEPOLIS: revista de filosofia e cidadania. Lisboa. Vol. 05, 1998.
VIANA, Nildo (org.). Os Valores nas Histórias em Quadrinhos. Goiânia: Edições Redelp, 2023.
VIANA, Nildo. A Dinâmica da Violência Juvenil. 2ª edição, São Paulo: Ar editora, 2014.
VIANA, Nildo. Breve História dos Super-Heróis. In: REBLIN, Iuri; VIANA, Nildo (orgs.). Super-Heróis, Cultura e Sociedade. Goiânia: Edições Redelp, 2020.
VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.
VIANA, Nildo. Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos. Rio de Janeiro, Achiamé, 2005.
VIANA, Nildo. Histórias em quadrinhos e Análise Valorativa. In: VIANA, Nildo (org.). Os Valores nas Histórias em Quadrinhos. Goiânia: Edições Redelp, 2023.
VIANA, Nildo. Juventude e Sociedade. Ensaios sobre a Condição Juvenil. São Paulo: Giostri, 2015.
VIANA, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo: Idéias e Letras, 2009.
*
Professor da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela
Universidade de Brasília; Autor de diversos livros, entre os quais “Heróis e
Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos” (Rio de Janeiro: Achiamé, 2005) e
“Quadrinhos e Crítica Social” (Rio de Janeiro: Azougue, 2012).
[1]
Axiologia é uma determinada configurações dos valores dominantes e ideologema é
um fragmento de ideologia. As histórias em quadrinhos repassam, assim como
qualquer outro produto cultural, determinados valores (que podem ser
axiológicos, manifestação de uma determinada configuração de valores
dominantes; ou axionômicos, manifestação de uma determinada configuração de
valores autênticos). A respeito desses conceitos, cf. Viana (2007) e seu uso em
histórias em quadrinhos pode ser visto em Viana (2005; 2023a) e outros autores
(Viana, 2023b; Marques, 2018). Assim, os valores são aquilo que é considera
importante e significativo, bem como se manifesta através das ideias de beleza,
qualidade, superioridade, importância, etc. Os ideologemas, por sua vez, são
fragmentos de ideologias, pois estas, em sua complexidade, não podem ser
repassadas em produtos culturais, mas tão somente alguns elementos isolados. É
o caso, por exemplo, fragmentos de ideologias religiosas, científicas, etc. Um
exemplo de manifestação de ideologemas pode ser vista em Viana (2013). A
análise crítica das histórias em quadrinhos vem se desenvolvendo com atenção
especial para o seu conteúdo e mensagem, tal como se pode ver em Reblin e Viana
(2020); Marques (2020), Marques (2018).
[2] O
mais comum é denominar a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas)
como “socialismo real”. Porém, embora essa denominação seja hegemônica, desde
os anos 1920 um conjunto de militantes e intelectuais começaram a denominá-la
como “capitalismo de estado”. Dentro da Rússia, os primeiros a realizarem tal
caracterização foram Bogdanov e Miasnikov e, fora deste país, o filósofo
italiano Rodolfo Mondolfo, os representantes do chamado “Comunismo de
conselhos” (Holanda, Alemanha e depois em outros países), como o astrônomo
holandês Anton Pannekoek, o filósofo alemão Karl Korsch e diversos outros, além
da militante Sylvia Pankhurst e seu grupo (a Esquerda Comunista
Extraparlamentar) na Inglaterra. Essa denominação se ampliou nas décadas
seguintes, tanto no plano político, como se observa em grupos trotskistas e
maoístas dissidentes, além de autonomistas e outros; quanto no plano
intelectual, tal como no caso do economista francês Charles Bettelheim (1979),
entre inúmeros outros. Alguns criaram novas denominações, tais como modo de
produção burocrático, tecnoburocracia, coletivismo burocrático, socialismo de
acumulação, capitalismo burocrático, etc. A ideia de “socialismo real” só tem sentido
por se reconhecer (incluindo seus defensores e detratores) que o regime não é o
“socialismo ideal”, ou, em outras palavras, original, que constava no projeto
de Karl Marx. A questão fundamental, no entanto, é como se define o modo de
produção de um país. Segundo o próprio Marx, é pelas relações de produção e, na
URSS, estas não são “socialistas” ou “comunistas” e sim idênticas as do
capitalismo privado, ou seja, produção de mais-valor via produção de
mercadorias e trabalho assalariado. A diferença é que ao invés da extração de
mais-valor ser realizada por empresas capitalistas privadas, é realizada pelo
Estado e o lucro é dividido pela burocracia estatal que assume as funções da
classe burocrática (controle social) e da classe capitalista (apropriação do
mais-valor e acumulação de capital), se transformando em burguesia de Estado.
[3]
Todos os negritos são reproduzidos do original.
[4]
Cabe ressaltar que a imagem dos norte-americanos produzidos pelos seus países
inimigos também era, obviamente, extremamente negativa. Não se trata aqui de
tomar partido de nenhum dos países envolvidos, pois são dois países
imperialistas em sua disputa geopolítica, o que, evidentemente, não aparecia
explicitamente em suas ideologias e a razão do conflito cultural era
transformado em questão moral, civilizacional, entre outras, e não os reais
interesses políticos e econômicos que ambos os lados possuíam. O que é
importante ressaltar é que trata-se de uma criação de imagem alheia negativa, o
que ambos os lados fazem, o que convive com uma autoimagem positiva, o que
também é realizado por ambos os lados, mas nenhum deles, em seus discursos,
assumem que vão “pilhar”, “dominar”, etc., os inimigos ou a população, o que
mostra um exagero no plano ficcional.

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