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domingo, 1 de julho de 2018

Luta de Classes e Universo Cultural



Luta de Classes e Universo Cultural

Nildo Viana

Certa vez o psicanalista alemão Wilhelm Reich afirmou que a grande questão para a luta pela transformação social e criação de um novo mundo – livre da exploração e alienação e baseado na igualdade e liberdade – é responder por qual motivo os trabalhadores e oprimidos em geral não se rebelam e fazem uma revolução. Por qual motivo uma pessoa faminta não rouba a comida que matará sua fome? Ou seja, a questão, ao contrário da que é colocada normalmente em nossa sociedade, não é explicar porque algumas pessoas famintas roubam e sim por qual motivo outras no mesmo estado não fazem a mesma coisa.
Segundo ele:
“Se dois homens A e B têm fome, um pode resignar-se, não roubar, mendigar ou ficar esfomeado; o outro pode procurar alimento pelos seus próprios meios. Uma vasta camada do proletariado vive segundo os princípios de B. Chama-se lumpemproletariado. Não partilhamos da admiração romântica pelo mundo dos malfeitores mas é preciso esclarecer o assunto. Qual dos dois tipos de homens acima citados tem mais elementos de consciência de classe? Roubar não é ainda um índice de consciência de classe; mas uma breve análise mostra – mesmo se isto choca o nosso sentido de moral – que o que não se adapta às leis e rouba quando tem fome, exprimindo assim a sua vontade de viver, é possuidor de uma maior capacidade de revolta do que o que se entrega docilmente ao matadouro do capitalismo. Mantemos a tese de que o problema fundamental de uma boa psicologia não é saber porque rouba o esfomeado mas, ao contrário, porque é que não rouba[1]”.
Reich acrescenta que roubar não é ainda consciência de classe mas coloca que é um tijolo com a qual, junto com outros tijolos e elementos (vidros, janelas etc.) se constrói uma casa, isto é, é um elemento que permite a formação da consciência de classe. A questão fundamental seria, então, explicar por qual motivo os trabalhadores, oprimidos, descontentes não realizam atos de negação da sociedade existente. Por qual motivo o esfomeado não rouba? Os trabalhadores não tomam conta das fábricas? O desabrigado não toma conta dos lotes baldios ou das grandes propriedades territoriais? São questões que nos remetem ao motivo dos explorados, dominados, oprimidos etc. não terem feito uma revolução, a transformação social radical abolindo a exploração, dominação, opressão. Sem dúvida a resposta é complexa. Podemos falar do aparato repressivo do Estado, o exército e a polícia como fator importante para a não realização da revolução. No entanto, este aparato só entra em ação quando o confronto é aberto, quando todos os outros meios que a classe dominante e o governo utilizam para manter a passividade da população já não funcionam mais. Hoje, apenas uma minoria radical entra em confronto direto com o aparato repressivo do estado capitalista e não por propor a revolução social mas sim por questões pontuais (protestos, manifestações, lutas pela moradia, luta pela terra, ou seja, tijolos que são elementos para construir a casa mas ainda não é a casa).
Existe algo anterior à força repressiva que é um forte obstáculo ao processo revolucionário. Aqui lembramos o filósofo Rousseau. Segundo ele, o que importa, para explicar a origem das desigualdades, é indicar, “no progresso das coisas, o momento em que, o direito sucedendo à violência, a natureza submeteu-se à lei; de explicar por que encadeamento de prodígios pôde o forte decidir-se a servir ao fraco, e o povo a comprar um repouso imaginário ao preço de uma felicidade real[2].
Portanto, Rousseau explica a origem das desigualdades a partir do momento em que surgiu a supremacia do direito sobre a violência. Isto se encontra de acordo com o que colocamos anteriormente: a força repressiva é sustentáculo da desigualdade, da exploração, da dominação, da opressão, mas só é utilizada no momento em que falham os outros sustentáculos destas relações. Rousseau assim coloca a origem da propriedade privada e, por conseguinte, da desigualdade:
“O primeiro que, tendo cercado um terreno, arriscou-se a dizer: “isso é meu’, e encontrou pessoas bastantes simples para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, mortes, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: Fugi às palavras deste impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos pertencem a todos, e que a terra não é de ninguém. Entretanto parece que as coisas já haviam chegado ao ponto de não mais poder continuar como estavam; pois essa idéia de propriedade, dependendo de muitas idéias anteriores que não puderam nascer senão sucessivamente, não se formou repentinamente no espírito humano. Foi preciso fazer muitos progressos, adquirir muita indústria e saber transmiti-los e aumentá-los de geração em geração, antes de se atingir esse último estágio do estado de natureza”[3].
Rousseau, apesar de sua contextualização histórica-social deixar muito a desejar, coloca um elemento fundamental para nossa discussão. A questão do consentimento. Ou seja, a repressão estatal só atua quando se rompe o consentimento da população, a força só entra em ação quando as palavras não funcionam mais. Aqui entramos na questão cultural e no papel da cultura para a reprodução da exploração, da desigualdade, da opressão. Por que os explorados, oprimidos, esfomeados, não se rebelam? Basta uma rápida olhada no mundo contemporâneo para ver milhões de indivíduos passando fome ou outros milhões em estado de miséria, milhões de trabalhadores explorados, milhões de desempregados, milhões de indivíduos oprimidos devido à cor da pele, a religião, a etnia etc. A grande questão reside no que foi colocado por Reich: por qual motivo não se rebelam? E Rousseau nos afirma que a origem da desigualdade se encontra na cultura, no consentimento. Sem dúvida, a cultura exerce um papel fundamental na reprodução da sociedade existente e em todos os males gerados por ela. De que forma a cultura contribui com a reprodução do capitalismo? O universo cultural na sociedade capitalista é muito amplo e possui vários aspectos. Iremos destacar os principais:
A)    A Axiologia
B)    A Ideologia;
C)    As Representações Cotidianas Ilusórias.
Iremos discutir cada um destes itens. A axiologia é uma determinada configuração dos valores dominantes em determinada sociedade[4]. A axiologia na sociedade capitalista moderna aponta para determinados valores, tais como a competição, o culto à autoridade, a luta pela ascensão social e status, o desejo de consumo e posses etc. A sociedade capitalista produz uma estruturação de valores que são inculcados nos indivíduos desde sua infância. A competição é uma parte constitutiva do processo de socialização, tanto familiar quanto escolar. Nós vivemos num mundo competitivo e a competição acaba formando valores introjetados pelos indivíduos. Todos querem “ser o melhor”, o melhor aluno (o que tira “as melhores notas”), o melhor jogador de futebol, o torcedor do melhor time e assim por diante. A competição que se encontra na sociedade (na escola, na busca de posições através de concursos, na disputa por uma vaga na escola ou universidade ou por um emprego no mercado de trabalho), no mundo dos esportes, nas igrejas, nas instituições em geral. A competição é tão grande que se encontra até mesmo nas relações amorosas entre homens e mulheres[5], nas quais os homens competem pelas mulheres (segundo, geralmente, os valores dominantes, que valoram a beleza, em especial) e as mulheres competem pelos homens (também segundo os mesmos valores, o que leva a preferência pelos homens poderosos e ricos). Esta sociedade competitiva irá criar indivíduos competitivos e é por isso que diversos pesquisadores irão colocar a existência de uma “personalidade competidora”, de um “caráter competitivo”. A ascensão social, a riqueza e o status são elementos fundamentais na cultura capitalista contemporânea.
Como isto interfere na formação da mentalidade dos indivíduos explorados e oprimidos? Isto gera, no interior dos grupos sociais oprimidos e das classes exploradas, o individualismo e a competição. Aliás, o mesmo se vê nos grupos políticos – tanto os falsamente de esquerda, tais como os partidos políticos, quanto os que realmente buscam a emancipação humana, embora neste último caso isto ocorra geralmente de forma minimizada. Muitos tentam superar sua situação indesejável de exploração e opressão através de uma solução individual, buscando realizar a ascensão social, adquirir o poder ou riqueza. Aqui temos uma negação de uma situação – de exploração e opressão – simultaneamente com sua reafirmação – a solução individual que reforça os valores burgueses e leva os indivíduos a quererem a conservação da sociedade capitalista na ilusão de que poderão realizar tais valores. Eles também irão incentivar a formação de determinados sentimentos, como os do ciúme e inveja, entre outros, que dificultarão o processo de engajamento na luta pela transformação social.
Os valores são mobilizadores, eles fazem as pessoas agirem, escolherem, decidirem. O aspecto mais importante do universo cultural reside justamente nos valores. E existem, para os indivíduos, valores fundamentais que estão acima na sua escala de valores e estes são mais eficazes do que os outros. Estes valores são constituídos socialmente e reproduzem a sociabilidade existente, capitalista. Tal como colocou Reich:
“A existência e as condições de existência dos homens, refletem-se, incrustam-se e reproduzem-se na sua estrutura mental, à qual dão forma. É só através desta estrutura mental que este processo objetivo nos é acessível, que podemos entravá-lo, favorecê-lo ou dominá-lo. Só por intermédio da cabeça do homem, da sua vontade de trabalho, da sua procura da alegria de viver, em resumo, de sua existência psíquica, que nós criamos, consumimos, transformamos o mundo. Foi tudo isto que esqueceram há muito os ‘marxistas’ que degeneraram em economicistas”[6].
Esta referência ao marxismo é importante, pois muitos consideram que para Marx as idéias não passavam de mero epifenômeno, de coisa sem importância e influência no curso real dos acontecimentos e das lutas sociais, o que é um equívoco, pois para ele as idéias se transformam em “forças materiais” quando são desenvolvidas pelos explorados e oprimidos. Segundo Marx:
“Se alguém acredita possuir 100 táleres*, se essa não é para ele apenas uma representação arbitrária, subjetiva, se ele acredita nela, então os 100 táleres imaginados têm para ele o mesmo valor que 100 táleres reais. Por exemplo, ele contrairá dívidas em função desse seu dado imaginário, o qual terá uma ação efetiva: foi assim, de resto, que toda a humanidade contraiu dívidas contando com seus deuses”[7].
A força do imaginário, tal como Marx colocou, é ativa e mobilizadora. Uma idéia é, independentemente de ser verdadeira ou falsa, mobilizadora, ativa. Assim, os valores geram uma visão imaginária de sua realização que mobiliza conservadoramente grande parte da população.
Tendo sua base nos valores dominantes e servindo para reproduzi-los, temos a ideologia. A ideologia surge com a divisão entre trabalho intelectual e manual e se desenvolve em formas cada vez mais complexas. A ideologia na sociedade capitalista se manifesta sob a forma de ciência, filosofia, teologia. Ela é uma sistematização da falsa consciência, ou seja, é um pensamento complexo, sistemático, que dá forma a um conteúdo falso. Daí a valoração da linguagem técnica, do formalismo, da metodologia, da tradição e erudição etc. A filosofia, a ciência e a teologia são as principais formas deste pensamento sistemático e falso. Ora, a ideologia está intimamente ligada à divisão social do trabalho e são os especialistas na produção de idéias, os ideólogos, que irão produzir e reproduzir a ideologia. Os ideólogos irão, na sociedade capitalista, se subdividir em diversas especializações (o economista, o psicólogo, o filósofo, o matemático, o físico, o biólogo) e terão um status social e um reconhecimento de sua capacidade e formação especializada. A sociedade capitalista é marcada por uma crescente especialização e por criação de técnicos e especialistas em quase tudo. E tais especialistas acabam assumindo a forma de autoridade e isto propicia o que podemos denominar “culto á autoridade”. Algumas pessoas se julgam incapazes de tomar decisões sem consultar um especialista (médico, dentista, psicólogo e cada vez mais, arquitetos, agentes de turismo e coisas do gênero).
Os ideólogos, no entanto, estão a serviço do poder. Existem, entre os especialistas (cientistas, filósofos, teólogos) algumas exceções, mas a maioria está a serviço da reprodução do capitalismo, inclusive alguns com discurso supostamente progressista. A razão disto se encontra no fato de que eles constituem classes sociais auxiliares da burguesia, e devido a isto recebem privilégios (salariais, principalmente) de sua posição e devido seu papel de falsificação da realidade social e também na elaboração de técnicas de controle social e amortecimento dos conflitos sociais. Um psiquiatra, por exemplo, que realiza psicocirurgia ou indica uma droga para evitar a depressão está tão-somente representando os interesses daqueles que fazem a psicocirurgia e da indústria farmacêutica e apresentando um paliativo para um problema psíquico que tem sua origem nas relações sociais e no conjunto das insatisfações geradas por elas. Um psicólogo terapeuta realiza o mesmo papel, ou seja, representa seus próprios interesses – pois recebe dinheiro pelo tratamento terapêutico – e os da classe dominante, ao produzir mais um indivíduo enquadrado e adaptado (bem ou mal...) à sociedade existente. O urbanista que elabora um projeto urbano contribui com a organização do espaço urbano capitalista, um espaço dividido e voltado para a reprodução das relações de exploração e dominação. Em outras palavras, os ideólogos não apenas legitimam a sociedade capitalista como atuam no sentido de reproduzi-la através de sua prática profissional, da criação de técnicas e tecnologias e assim por diante.
Devido ao culto à autoridade e pela desvaloração do saber popular, cria-se nos grupos oprimidos e classes exploradas uma valoração da ideologia e um sentimento de incapacidade de alcançar “tão relevante” saber, que é o científico, filosófico, teológico. Assim, o discurso dos especialistas, dos cientistas e outros ideólogos, assumem a aparência de verdade inquestionável (como muitos dizem ingenuamente: “isto já foi comprovado pela ciência”...). A popularização da ideologia, o que traz sua desfiguração e simplificação, reforça, pois, o conservadorismo da população. As revistas de vulgarização científica, os meios de comunicação de massas (rádio, televisão, jornais, revistas semanais) e o ensino escolar cumprem este papel. Assim, a ideologia, apesar de sua produção estar restrita no círculo dos ideólogos, possui uma eficácia política que é uma força que garante o consentimento e a conservação da sociedade burguesa.
Por fim, temos as representações cotidianas ilusórias, o reino do imaginário popular. O saber popular, chamado pelos ideólogos de “senso comum”, é formado pelo conjunto das representações cotidianas que os indivíduos possuem da natureza e das relações sociais. Estas representações cotidianas, que se expressam no dia-a-dia da população, podem ser falsas ou verdadeiras. Para algumas ideologias, elas são necessariamente e sempre falsas, o que é uma inversão da realidade. As representações cotidianas – que são as representações não apenas produzidas pelos indivíduos das classes exploradas e grupos oprimidos mas por todos os indivíduos desta sociedade, inclusive os cientistas que não pensam “cientificamente” sobre tudo e a todo o momento – são predominantemente falsas, especialmente nos setores privilegiados da sociedade. Na realidade concreta, existe nos indivíduos uma mescla de representações cotidianas falsas e verdadeiras, que expressa a contraditoriedade da consciência de classe já discutida por Reich e Gramsci[8]. As representações cotidianas ilusórias reforçam o imobilismo, os valores dominantes e assim por diante, também servindo para a reprodução do capitalismo. Elas nascem, em primeiro lugar, das próprias relações sociais existentes, que são “naturalizadas” e “universalizadas”. Quem já não ouviu a frase “a desigualdade existirá para sempre”. Ora, as pessoas que nascem numa sociedade caracterizada pela desigualdade, vivem e envelhecem nesta sociedade, tendem a pensar que isto é “natural” e “universal”: assim é, assim sempre será. Tal opinião fica mais forte ainda quando algum cientista vem para afirmar que existe na natureza uma “luta pela sobrevivência”, onde há uma “seleção natural dos mais aptos” e só estes sobrevivem (tal como afirmou Darwin, o ideólogo da evolução) ou então que a fome é produto do crescimento populacional, que cresce em proporção muito maior do que a produção de alimentos (tese do economista Malthus, ideólogo do século 19 que tem adeptos até hoje e inspirador de Darwin). Assim, as representações cotidianas também são mobilizadoras, e as que são ilusórias mobilizam no sentido de conservação da sociedade existente.35314000
No entanto, até agora apenas observamos o papel conservador da cultura na luta de classes. Isto é fundamental para percebermos a força das idéias no processo de conservação da sociedade capitalista e da necessidade de buscar realizar uma intensa luta cultural visando diminuir a eficácia política da cultura burguesa e aumentar a força do projeto revolucionário. As classes exploradas e grupos oprimidos trazem em si um conjunto de idéias, valores, representações que realizam uma crítica da sociedade capitalista. É preciso, pois, reforçar isto. Os grupos políticos revolucionários também produzem um amplo material crítico e revolucionário, bem como alguns intelectuais dissidentes e movimentos sociais. Ora, o que é preciso é reforçar todo este processo de constituição de uma cultura libertária, ampliando-a quantitativamente e qualitativamente, bem como realizar uma articulação entre as diversas produções culturais libertárias. A criação de meios de comunicação alternativos e de intervenção nos meios de comunicação existentes é outra forma de encaminhar esta luta cultural, pois além da produção de uma cultura libertária, é preciso sua divulgação, para proporcionar sua ampliação, produzindo novos produtores.
Assim, a produção cultural libertária deve se expandir e articular e se realizar sob os mais variados meios (jornais, revistas, livros, CDs, apresentações públicas etc.) e sob as mais variadas formas (teatro, música, teoria etc.). Isto, ao lado da atuação militante nos movimentos sociais e luta pela auto-organização das classes exploradas e grupos oprimidos e da articulação dos movimentos revolucionários, abre espaço para se contribuir com o processo de transformação social, que hoje vem sendo reforçado pela tendência de crise e instabilidade do capitalismo, fornecendo condições sociais de crescimento do descontentamento popular e adesão ao projeto de transformação social. A luta cultural é um ponto fundamental para a luta pela transformação social. A cultura libertária, assim como a cultura burguesa, também é mobilizadora e, portanto, deve ser considerado elemento fundamental da luta revolucionária.
Artigo publicado originalmente em: Letralivre. Rio de Janeiro, Ano 11, n. 45, 2006.



[1] Reich, Wilhelm. O Que é a Consciência de Classe? Lisboa, Textos Exemplares, 1976, p. 23.
[2] Rousseau, Jean-Jacques. Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Brasília/São Paulo, Edunb/Ática, 1989, p. 49.
[3] Rousseau, J-J. ob. cit., p. 84.
[4] Cf. Viana, N. A Questão dos Valores. Revista Cultura & Liberdade. Ano 02, Número 02, Abril de 2002.
[5] Sobre isso: Alberoni, F. O Erotismo. São Paulo, Círculo do Livro.
[6] Reich, W. ob. cit., p. 19.
* Moeda alemã da época (século 19).
[7] Cit. Por: Lukács, George. Ontologia do Ser Social. Os Princípios Ontológicos Fundamentais de Marx. São Paulo, Lech, 1979, p. 13.
[8] Reich, W. Ob. cit.; Gramsci, A. Concepção Dialética da História. 7a edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1988.

domingo, 10 de junho de 2018

Representações Cotidianas: Teoria e Pesquisa


Sinopse

Representações Cotidianas: teoria e pesquisa é uma coletânea de estudos sobre a teoria e a pesquisa das representações cotidianas organizada por Edmilson Marques. O livro busca avançar para além da ideologia do senso comum e das representações sociais. Encontramos aqui respostas apresentadas por Edmilson Marques sobre o que são as representações cotidianas e a sua sistematização teórica. Maria Angélica Peixoto aborda a ideologia das representações sociais e a teoria das representações cotidianas. Nildo Viana analisa: 1. A distinção entre convicção e opinião; 2. “Aquilo que Marx denominou de 'representações ilusórias' da realidade”, observando as relações entre duas formas elementares de ilusões, o imaginário e a ideologia, e o processo em que uma transforma-se na outra. Cassia Soares, Heitor Pasquim, Luciana Cordeiro e Sheila Lachtim propõem “a construção participativa de material instrucional para jogo educativo e as principais representações cotidianas expostas e transformadas durante a construção do material”, com atenção para as representações cotidianas sobre drogas. Alessandra Cofani, Celia Campos e Heitor Pasquim analisam a concepção de juventude de indivíduos de classes ou frações de classes distintas, enfatizando o consumo de álcool por jovens de diferentes grupos sociais. A coletânea é concluída com um estudo de Cassia Soares, Elda de Oliveira, Leandro Batista e Marco Separavich sobre as representações cotidianas produzidas por “jovens do ensino médio de uma escola pública, no bairro de Guaianazes na periferia de São Paulo”, sobre a “periferia, a mídia, a juventude, os rolezinhos, a juventude e o consumo de drogas”.

Detalhes do produto

Editora: EDITORA CRV
ISBN:978-85-444-2347-9
DOI: 10.24824/978854442347.9
Ano de edição: 2018
Distribuidora: EDITORA CRV
Número de páginas: 122
Formato do Livro: 16x23 cm
Número da edição:1

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Autores

EDMILSON MARQUES
Graduado em História e especialista em Ciência Política pela Universidade Estadual de Goiás, mestre em História pela Universidade Federal de Goiás e doutor em História pela Universidade Federal de Goiás. Realizou o estágio de doutorado em 2011 na Universidade de Valência/Espanha, e o pós-doutorado em 2015 pelo programa de sociologia da Universidade Federal de Goiás com uma pesquisa sobre o rádio em Goiás no período do Regime Militar, tomando como referencial teórico-metodológico a teoria das representações cotidianas. Atualmente atua como professor efetivo da Universidade Estadual de Goiás, câmpus de Uruaçu. Integra o corpo docente do mestrado em Ciências da Religião da PUC, oferecido pela FASEM, em Uruaçu-Goiás. É autor do livro Estado, Luta de Classes e Autogestão Social e Histórias em Quadrinhos: valores e luta cultural.
ALESSANDRA COFANI
Enfermeira, mestre em Cuidado em Saúde pelo Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. 
CASSIA BALDINI SOARES
Enfermeira, Mestre em Saúde Pública e Doutora em Educação. Professora Associada do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva, da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. É líder do grupo de pesquisa “Fortalecimento e desgaste no trabalho e na vida: bases para a intervenção em saúde coletiva”, bolsista produtividade em pesquisa e vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação Mestrado Profissional em Enfermagem na Atenção Primária em Saúde no Sistema Único de Saúde. Pesquisa o tema da juventude na atualidade, especialmente no que se refere ao consumo de drogas, buscando aprimorar conhecimentos relativos à educação nessa área. Vem se dedicando também ao tema da formação e do trabalho em enfermagem e em saúde coletiva. Participa do grupo de metodologia de revisão de escopo, do Instituto Joanna Briggs. Tem sido um desafio desenvolver a pesquisa-ação emancipatória, metodologia potente para compreender necessidades em saúde e para arquitetar e implementar projetos e práticas políticas em saúde. 
CELIA MARIA SIVALLI CAMPOS
Bacharelado em enfermagem pela Universidade Estadual de Campinas, especialização em enfermagem em saúde mental pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP (EERP), mestrado em Enfermagem em Saúde Coletiva pela Escola de Enfermagem da USP (EE) e doutorado em Enfermagem pelo Programa Interunidades (EE/EERP). Professora Associada no Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da EEUSP, vice coordenadora do grupo de pesquisa “Fortalecimento e desgaste no trabalho e na vida: bases para intervenção em saúde coletiva”áreas de interesse de atividades de ensino, pesquisa e extensão: necessidades em saúde e juventude. 
ELDA DE OLIVEIRA
Enfermeira – doutora em Ciências Universidade de São Paulo – USP; faz parte do grupo de pesquisa “Fortalecimento e desgaste no trabalho e na vida: bases para intervenção em saúde coletiva”. Tem experiência na área de Enfermagem em saúde coletiva com ênfase em saúde mental, educação e comunicação social, consumo de drogas. 
HEITOR MARTINS PASQUIM
Professor de educação física, mestre e doutor em ciências pela Universidade de São Paulo – USP. Membro do conselho editorial da revista Corpus et Scientia. Membro do comitê científico do grupo de trabalho temático “Atividade física e saúde” do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte – CBCE. Professor da Faculdade de Educação Física e Dança da Universidade Federal de Goiás – UFG. Faz parte do grupo de pesquisa “Fortalecimento e desgaste no trabalho e na vida: bases para intervenção em saúde coletiva”. Pesquisa o tema do lazer no campo da saúde, principalmente na área de saúde mental, drogas e juventude. 
LEANDRO LEONARDO BATISTA
É Professor Doutor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, no Departamento de Publicidade, Propaganda e Relações Públicas desde 1997. Recebeu os títulos de Mestre e Doutor da University of North Carolina em Chapel Hill, North Carolina, EUA em 1990 e 1996, respectivamente. Professor Leandro tem trabalhos apresentados em conferências de porte internacional nos Estados Unidos e Europa, bem como publicações em estudos de políticas públicas e efeitos da mídia. Suas principais áreas de interesse são teoria e métodos de pesquisa em comunicação, processos de decisão, percepção de riscos, comunicação de riscos e neurociência aplicada à propaganda. Atualmente coordena o grupo de pesquisa e laboratório 4C: Centro de Ciências Cognitvas e Comunicação, onde são desenvolvidas pesquisas experimentais com base na relação entre psicologia cognitiva e comunicações com uso de medidores fisológicos como rastreador de olhos e medidas galvânicas da pele. 
LUCIANA CORDEIRO
Terapeuta ocupacional, mestre e doutora em Cuidado em Saúde pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Tem experiência com o desenvolvimento de pesquisa-ação com trabalhadores da saúde e com docência na graduação e pós graduação. Atuou na clínica de saúde mental como terapeuta ocupacional e como supervisora de equipe de CAPS. 
MARCO ANTÔNIO SEPARAVICH
Sociólogo, Mestre e Doutor em Saúde Coletiva pela Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas. Atualmente é pós-doutorando em Saúde Coletiva, Departamento de Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo. Atua na Saúde Coletiva, na área de Ciências Sociais e Saúde, com experiência em investigações na interface de Comunicação e saúde, Ciências Sociais e adoecimentos crônicos, Políticas Públicas de Saúde e gênero. 
MARIA ANGÉLICA PEIXOTO
Professora do Instituto Federal de Goiás. Doutora em Sociologia pela UFG e pesquisadora dos seguintes temas: representações cotidianas, drogas e violência, violência contra a mulher, tráfico internacional de mulheres, entre outros. 
NILDO VIANA
Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília e Pós-Doutor pela Universidade de São Paulo; 
SHEILA APARECIDA FERREIRA LACHTIM
Enfermeira, mestre e doutora em ciências pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – USP. Faz parte do grupo de pesquisa “Fortalecimento e desgaste no trabalho e na vida: bases para intervenção em saúde coletiva”. Pesquisa o tema do lazer no campo da saúde, principalmente na área de saúde mental, drogas e juventude.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

LULA OU BOLSONARO? A PESQUISA ELEITORAL E A ILUSÃO DA OPINIÃO


LULA OU BOLSONARO?
A PESQUISA ELEITORAL E A ILUSÃO DA OPINIÃO

Nildo Viana

O resultado da pesquisa eleitoral realizada pelo Instituto Paraná Pesquisas/RecordTV Goiás, pode ser, para muitos, surpreendente. Porém, é preciso compreender alguns aspectos da pesquisa eleitoral para entender o seu significado. Assim, vamos iniciar com uma discussão sobre pesquisa eleitoral e depois analisar o resultado dessa pesquisa, que apontou um empate técnico entre Lula e Bolsonaro na preferência do eleitorado goiano.

As pesquisas eleitorais são pesquisas de opinião. Isso traz um problema para tais pesquisas, pois opiniões não são convicções[1]. As opiniões são momentâneas, volúveis. As convicções são mais arraigadas e mudam com muito mais dificuldade. As preferências eleitorais são, em sua maioria, opiniões e, portanto, facilmente alteradas. Isso altera com o tempo. No contexto atual, o índice de eleitores que manifestam suas opiniões (em comparação com as convicções) é bem maior do que quando estivermos diante da disputa eleitoral, pois agora reina falta de informações, não começou a propaganda política (o que tende a alterar a imagem dos candidatos, os desconhecidos ficam um pouco mais conhecidos, os que estão na frente passam a ser mais criticados e atacados, etc.), entre outras questões.

Por isso, o resultado da pesquisa em questão é bastante superficial e dificilmente será o que veremos nas eleições do ano que vem, inclusive devido ao quadro caótico da política e sociedade brasileira atuais, o que torna o eleitorado ainda mais vulnerável para mudanças drásticas de opinião. O resultado da pesquisa aponta para três aspectos que chamam a atenção: os primeiros colocados, Lula e Bolsonaro, mais ainda o segundo e por sua posição de quase empate com o primeiro; os índices de votos de Lula junto à população de idade mais avançada, especialmente acima de 60 anos e o índice de Bolsonaro diante dos eleitores mais jovens; o alto índice de futuros eleitores que não votam em nenhum dos candidatos listados.


Os primeiros colocados na pesquisa são Lula e Bolsonaro. Essa é uma tendência nacional. Porém, uma tendência do momento e, além disso, numa situação política e social caótica que caracteriza a sociedade brasileira na atualidade. Com o desenvolvimento do processo social e político, incluindo o início das campanhas eleitorais, a tendência é ambos os candidatos perderem votos, pois na competição eleitoral, informações e denúncias, entre outros processos (além do surgimento e fortalecimento de outros candidatos), tendem a atingir especialmente estes dois candidatos.


A razão para isso é a oposição que a candidatura Lula teria para os setores que articularam o impeachment de Dilma Roussef, que aglutina não apenas diversos partidos, mas também setores da sociedade e poderosas instituições e organizações empresariais. A ala mais conservadora do bloco dominante[2] não somente evitará aliança com o PT (Partido dos Trabalhadores), tal como aconteceu no passado e permitiu a ascensão desse partido à burocracia governamental (Partido Liberal, Rede Globo, etc.), como agora tende a tentar evitar sua volta ao governo usando todos os recursos para isso. A campanha contra Lula tende a ser impiedosa e poderosa, do ponto de vista financeiro.

Além disso, Lula tem ampla rejeição de vários outros setores da sociedade, por outros motivos. Diversos setores da juventude e certos grupos e intelectuais, rejeitam Lula por causa de seus governos anteriores e não ter efetivado uma política voltada para mudanças sociais mais amplas. Outro setor que rejeita Lula é o daqueles que priorizam as questões morais, sendo que o vínculo do Partido dos Trabalhadores com certas políticas e discursos, como “gênero”, “homossexualidade”, “corrupção”, etc., tendem a criar forte rejeição nos meios populares.

Por outro lado, ele tem eleitores fiéis, como os petistas e simpatizantes, além de outros setores da esquerda, da burocracia e intelectualidade, bem como setores de movimentos sociais que foram cooptados pelos governos petistas.  No entanto, o peso eleitoral desses setores é bem pequeno e as eleições municipais de 2016 demonstraram isso.

A tendência, nesse contexto, é a de que Lula perca terreno durante a campanha eleitoral e sua posição atual seja explicada pelos elementos citados acima. O caso de Bolsonaro é diferente. Os seus índices eleitorais são mais surpreendentes. No entanto, também não é um candidato forte e está sendo beneficiado pela conjuntura e falta de outros candidatos mais expressivos. Bolsonaro tem setores da sociedade que são fiéis e manterão o voto, mas no conjunto, é percentualmente muito pequeno. O início da campanha deve gerar um candidato mais adequado para unir o bloco dominante e seus setores antipetistas. Muitos destes setores não gostam e não confiam em Bolsonaro. Seria muito difícil ele conseguir ser um segundo Collor. Isso só ocorreria se ele e Lula disputassem o segundo turno, sendo o candidato preferido do bloco dominante nesse contexto.

O início da campanha deve mostrar uma rejeição maior em relação ao atual deputado do PSC (Partido Social Cristão), da mesma forma que no caso de Lula. O seu alto grau de rejeição convive, ainda, com um partido pouco expressivo e sem grande estrutura e quadros políticos e recursos financeiros, o que significa que uma vez iniciada a campanha eleitoral tende a ficar atrás no processo de propaganda eleitoral generalizada.

Assim, é possível perceber, pela pesquisa, que a maioria dos eleitores de Lula são de escolaridade inferior e acima de 60 anos, o que nos aponta para a hipótese de que sua força está mais, além de suas bases próprias, nos setores mais empobrecidos da população e mais velhos, nos quais a relativa “melhoria” durante os dois governos de Lula seja motivação para votar nele novamente. Sem dúvida, é um setor da população que vincula a estabilidade política e financeira relativa existente nos dois mandatos de Lula com o indivíduo que ocupou a presidência, desconsiderando as bases criadas pelos governos anteriores e desconhecendo a dinâmica da acumulação de capital que permitiu um período de aceleramento da acumulação.

No entanto, entre a juventude, a sua popularidade é baixa, tanto em relação aos votos mais conservadores que estão migrando para Bolsonaro e outros, quanto os setores mais descontentes, que migram para o voto nulo e abstenção (o que pode ser deduzido da opinião de não votar em nenhum dos sete candidatos apontados pela pesquisa)[3]. Os votos de Bolsonaro junto à juventude é especialmente em relação a certos setores dessa, majoritariamente os homens. Aqui temos outra divisão: Lula tem mais votos femininos e Bolsonaro mais votos masculinos. Bolsonaro tem uma grande rejeição entre as mulheres, por razões óbvias (seu discurso sexista, por exemplo). No entanto, o quadro eleitoral geral, a partir da pesquisa, mostra que Lula tem mais votos em certos setores da sociedade, mas mesmo nesse caso está longe de ser unanimidade, não consegue chegar nem a um terço. O caso de Bolsonaro é um pouco inferior. O fato de Bolsonaro ter conseguido ficar em segundo lugar e com uma votação expressiva é explicado pela distância do processo eleitoral, pela falta de opções e informações, bem como pela rejeição de Lula que em grande parte vai migrar para o segundo lugar ou para o seu antagonista no plano moral.

No entanto, a disputa eleitoral pode avançar num sentido no qual nenhum dos dois candidatos melhor posicionados chegue ao segundo turno, tanto pela rejeição e problemas de ambos, que serão exaustivamente explorados na campanha eleitoral, quanto pela situação conturbada que vive o país. No caso de Bolsonaro, outro elemento é a fragilidade de sua sigla partidária e no caso de Lula há o elemento adicional do enfraquecimento drástico do PT.


Um terceiro elemento que chama atenção na pesquisa é o número elevado de pessoas que afirmam não votar em nenhum dos sete candidatos listados (15%) e um percentual razoável de “indecisos” (5%). Os eleitores que não votam em ninguém ficam em terceiro lugar na pesquisa. Isso significa, que mesmo numa pesquisa estimulada e que busca avaliar opinião (e não convicção) eleitoral, o índice de recusa de todos os setes candidatos é alto e o número de indecisos é razoável e dentro do esperado. Esse processo tende a fortalecer o número de votos nulos, votos brancos e abstenções.


Por outro lado, essas informações mostram que parte da população rejeita todos os candidatos e que a força de Bolsonaro entre a juventude é pequena, embora significativa eleitoralmente, mas que tende a diminuir. Da mesma forma, os que não votam em ninguém mostram os descontentes e que eles se concentram nos setores mais empobrecidos e nos setores mais intelectualizados, sendo que o índice menor de recusa se encontra nos setores intermediários, tanto no plano da renda quanto da educação. Isso significa que os dois setores em que Lula teria mais força, há um maior número de descontentes. E isso tende a aumentar com a campanha eleitoral. Ou seja, além do número significativo de eleitores que rejeitam todos os candidatos, há uma tendência para eles aumentarem e enfraquecerem justamente os dois primeiros colocados na pesquisa.

Em síntese, a pesquisa mostra um momento de predominância de determinadas opiniões eleitorais que tende a se alterar com o desenvolvimento da campanha eleitoral e da situação do país. Esse momento não deve iludir as pessoas pensando que teremos um segundo turno com Lula e Bolsonaro. Os candidatos que estarão no segundo turno são ainda imprevisíveis e uma das possibilidades é que nenhum dos dois que hoje ficam nos primeiros lugares das pesquisas eleitorais chegue ao segundo turno.





[1] Sobre isso, cf. VIANA, Nildo. A Pesquisa em Representações Cotidianas. Lisboa: Chiado, 2016; VIANA, Nildo. Representações Cotidianas e Correntes de Opinião. Revista Espaço Livre. Vol. 10, num. 19, 2015. Disponível em: http://redelp.net/revistas/index.php/rel/article/view/293/227

[2] Para compreender os blocos sociais, cf. VIANA, Nildo. Blocos Sociais e Luta de Classes. Revista Enfrentamento, ano 10, N. 17, jan/jun. 2015. Disponível em: http://enfrentamento.net/enf17.pdf e em: http://informecritica.blogspot.com.br/2016/03/blocos-sociais-e-luta-de-classes.html

[3] Os sete candidatos que aparecem na pesquisa são: Lula, Bolsonaro, João Dória/Geraldo Alckmin, Marina Silva, Ciro Gomes, Joaquim Barbosa, Álvaro Dias. A pesquisa apresentou duas possibilidades de candidatura do PSDB, João Dória e Geraldo Alckmin e a mudança de candidato não altera significativamente o quadro eleitoral.

domingo, 21 de agosto de 2016

O MOVIMENTO ESTUDANTIL EM FOCO



Dados do Livro:

VIANA, Nildo (org). O Movimento Estudantil em Foco. Goiânia: Edições Redelp, 2016.



O Movimento Estudantil em Foco reúne análises do movimento estudantil sob diversos aspectos a partir de uma perspectiva crítica e renovadora. Assim, temas como reivindicações estudantis, MPL, Frente de Luta, Maio de 1968, formação e ressocialização estudantil, são analisados criticamente na presente obra.


A Coleção Movimentos Sociais, Poder Político e Transformação Social, é uma coedição do NEMOS – Núcleo de Estudos e Pesquisa em Movimentos Sociais, da Faculdade de Ciências Sociais da UFG (Universidade Federal de Goiás) e Edições Redelp. Ela visa publicar reflexões teóricas e análises concretas sobre os temas que são título desta coleção e da linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFG.



Veja o Livro:


segunda-feira, 13 de junho de 2016

Jogo Educativo e Representações Cotidianas - Uma Experiência na USP

Cidade Dorme - Representações Cotidianas sobre Drogas, é uma experiência de uso de jogo educativo para trabalhar com representações cotidianas. Vale a penas conferir o vídeo, clicando aqui.


sábado, 12 de dezembro de 2015

Revista Sociologia em Rede, número 05, online!



v. 5, n. 5 (2015)

Revista Sociologia em Rede 05


terça-feira, 21 de julho de 2015

A Pesquisa em Representações Cotidianas

Acaba de ser publicado o livro, A Pesquisa em Representações Cotidianas.
VIANA, Nildo. A Pesquisa em Representações Cotidianas. Lisboa: Chiado, 2015.

O presente livro é uma rara contribuição para a reflexão e prática da pesquisa com representações. Além de uma síntese da teoria das representações cotidianas, apresentando os principais conceitos e contribuições teóricas, apresenta de forma pormenorizada os elementos essenciais para a pesquisa desse fenômeno, também chamado de “senso comum” ou “representações sociais”, tanto aspectos metodológicos e analíticos quanto técnicos. Assim, uma discussão aprofundada sobre entrevistas em geral e uso da entrevista interpretativa, bem como de outras técnicas auxiliares, bem como reflexão aprofundada sobre o processo analítico das representações cotidianas, faz dessa obra instrumento indispensável para todos os pesquisadores da área da sociologia, psicologia, ciência política e das ciências humanas em geral.

Prefácio de Cássia Baldini Soares.

terça-feira, 14 de julho de 2015

AS REPRESENTAÇÕES DA VIOLÊNCIA NO DISCURSO JORNALÍSTICO


AS REPRESENTAÇÕES DA VIOLÊNCIA NO DISCURSO JORNALÍSTICO


Nildo Viana*

 

Resumo: O artigo aborda as representações da violência no discurso jornalístico. O objetivo central é demonstrar que o que predomina no discurso jornalístico é uma posição ideologêmica. Para tanto, se utiliza da análise do discurso em sua vertente crítica para analisar um caso que reproduz a prática constante de grande parte dos discursos jornalísticos sobre o fenômeno da violência. Esse caso exemplar é reforçado por outros casos concretos e a conclusão do artigo é a de que a maioria dos discursos jornalísticos possui uma posição ideologêmica que se manifesta em suas representações sobre a violência.

Palavras-chave: discurso jornalístico, representações, violência, ideologema, análise do discurso.

Abstract: The paper explores the representations of violence in journalistic discourse. The central objective is to demonstrate that the predominant speech is a journalistic position ideologemical. Therefore, using discourse analysis in its critical stance to analyze a case that reproduces the constant practice of most journalistic discourses on the phenomenon of violence. This exemplary case is reinforced by other individual cases and conclusion of the article is that most of the journalistic discourse has a position ideologemical which manifests itself in their representations of violence.

Keywords: journalistic discourse, representations, violence, ideologem, discourse analysis.

A violência é um dos temas mais debatidos na atualidade, tanto nos meios acadêmicos e políticos, quanto nos meios de comunicação e na vida popular em geral. Assim, existe o fenômeno e as representações do fenômeno. Nosso objetivo é justamente analisar uma das representações deste fenômeno, a representação presente no discurso jornalístico. O objetivo é, portanto, analisar o discurso jornalístico focalizando sua discussão sobre violência. Para tanto, vamos discutir o conceito de violência e após isto discutiremos o processo de produção do discurso jornalístico e suas características, para, por fim, abordar as manifestações discursivas sobre violência no jornalismo.

Elementos para uma Análise do Discurso

O ponto de partida de nossa análise remete a uma discussão sobre o conceito de discurso e seu processo de produção. O discurso é sempre proferido por alguém. Ele não é autônomo e nem é neutro. Todo discurso é discurso de alguém e a compreensão das razões do discurso nos leva a buscar compreender quem o proferiu e em que condições sociais ele foi produzido. A partir destas colocações já podemos deixar claro que não partiremos da perspectiva da lingüística estruturalista, tal como fundada por Saussure (1995) e desenvolvida por seus continuadores. Também não nos inspiraremos em outras correntes da lingüística (gramática gerativa, pragmática, etc.), embora possamos, num momento ou noutro, em casos específicos, lançar mão desta ou daquela contribuição de algumas das correntes ou “escolas” da lingüística.

Porém, buscaremos, de forma mais constante, utilizar a contribuição de algumas abordagens da lingüística que estão mais próximas de uma perspectiva sociológica, em especial a teoria da enunciação ¾ tal como representada por Mikhail Bakhtin (1990) ¾ e da análise do discurso. Bakhtin irá trazer para a instância da linguagem a idéia de luta de classes e assim rompe com a idéia de pretensa inocência do discurso, pois ele é perpassado (até em suas unidades mais simples, tal como o signo) pelos conflitos de classes e, portanto, possui caráter social e está intimamente ligado com as relações de poder na sociedade.

A análise do discurso, por sua vez, nos trará diversas contribuições. Esta se caracteriza, entre outras coisas, em romper com a dicotomia rígida entre língua (estrutura invariante da linguagem) e fala (manifestação concreta da linguagem) inaugurada pela lingüística estruturalista de Saussure:
Embora reconhecendo o valor da revolução lingüística estruturalista provocada por Saussure, logo se descobriram os limites dessa dicotomia pelas conseqüências advindas da exclusão da fala do campo dos estudos linguísticos (BRANDÃO, 1997, p. 9).
O discurso é produzido e reproduzido socialmente e seu estudo, portanto, deve incorporar não apenas sua estrutura formal mas principalmente o seu caráter social (VIANA, 2009). Porém, nem sempre os adeptos da análise do discurso conseguiram efetivar este projeto. Coube à chamada “escola francesa da análise do discurso” (PECHEUX, 1997; PECHEUX, 1998; BRANDÃO, 1997) levar esta perspectiva até suas últimas consequências e isto proporcionou, segundo alguns afirmam, a demolição do muro que separava lingüística e sociologia.

A escola francesa de análise de discurso nasce da tentativa de articulação entre lingüística, marxismo e psicanálise e tem como característica articular “o lingüístico com o social” (BRANDÃO, 1997, p. 17), trabalhando de forma interdisciplinar ao tomar em consideração as contradições de diversas ciências humanas (história, sociologia, psicologia, etc.). Porém, a análise do discurso busca se distinguir das demais correntes da lingüística e para fazer isto deve incluir novas dimensões, tal como colocou Maingueneau (apud. BRANDÃO, 1997), a saber:

1. O quadro das instituições em que o discurso é produzido, as quais delimitam fortemente a enunciação; 2. Os embates históricos, sociais, etc. que se cristalizam no discurso; 3. O espaço próprio que cada discurso configura para si mesmo no interior de um interdiscurso.

Portanto, temos aqui uma concepção que remete ao estudo da instituição onde o discurso é produzido, aos conflitos históricos e sociais, além de levar em consideração a configuração do espaço próprio de um discurso no contexto de um meio discursivo. Assim, extrairemos da escola francesa da análise do discurso alguns elementos para nossa análise, complementada com outras concepções (BAKHTIN, 1990; VIANA, 2009), que compõem o nosso referencial teórico a respeito do discurso.

Para os objetivos do presente artigo é fundamental reter a idéia de que o discurso é produzido no interior de uma instituição e é marcado pelo conflito. Neste momento devemos colocar em discussão a relação entre discurso e poder. Nesta discussão retomaremos algumas considerações de Foucault sobre este tema, lembrando que ele exerce uma grande influência sobre a escola francesa de análise do discurso. Segundo Foucault,
Em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade (FOUCAULT, 1996, p. 8-9).
Assim, o poder impede a manifestação livre do discurso. Cria um processo de exclusão através da interdição e também (no caso da oposição entre razão e loucura) da separação e rejeição. Aqui podemos nos reencontrar com Bakhtin (1990) e a teoria da luta de classes em torno do signo. Também nos reencontramos com a tese de Ardiner a respeito dos grupos silenciados. Segundo esta teoria, os grupos dominantes na sociedade silenciam a voz dos grupos dominados e a voz destes – quando aparece, nos raros casos em que isto ocorre – o faz sob a linguagem própria dos dominantes. Este silenciamento dos grupos dominados (ARDINER, apud. MOORE, 1991) ou o predomínio da classe dominante na esfera do discurso (BAKHTIN, 1990) são elementos que podem ser integrados numa análise que utiliza a concepção foucaultiana de discurso em sua relação com o poder.

Porém, não devemos esquecer as diferenças entre Foucault e as demais abordagens acima apresentadas. Foucault apresenta uma concepção metafísica de poder (VIANA, 2000), pois ele está difuso na sociedade e está em todo lugar, sendo mais uma relação do que uma propriedade (FOUCAULT, 1986; FOUCAULT, 1983). Em Bakhtin (1990), por exemplo, existe o poder, mas ele não é autônomo e sim a incorporação da dominação de classe que também se encontra na esfera do discurso. A fonte da diferença, neste caso, está no pós-estruturalismo de Foucault e na influência do marxismo no caso de Bakhtin.

De qualquer forma, a relação que Foucault faz entre discurso e poder – que pode muito bem ser integrada numa concepção conflitual fundamentada na luta de classes, tal como expresso nas obras de Bakhtin (1990) e Viana (2009), bem como em determinada fase da escola francesa de análise do discurso – que lança mão explicitamente da obra de Foucault – é de fundamental importância para se compreender o engendramento de um discurso no interior de uma instituição. Segundo Foucault, toda forma de saber é produto das relações de poder e um “novo poder” gera um “novo saber” (MACHADO, 1981). Assim se pode dizer que o poder sobre os “loucos” gera a psiquiatria, o poder exercido sobre os estudantes a pedagogia, etc.

Esta discussão é importante para percebermos o entrelaçamento entre discurso e poder, instituição, interesses. Assim, o discurso é um produto social que atua sobre as relações sociais. Mas o que é o discurso? Podemos dizer que é uma manifestação específica, concreta, delimitada, da linguagem e por isso se distingue dela. O discurso é uma forma de manifestação da linguagem e esta pode produzir diversos discursos, desde os semelhantes aos antagônicos. O discurso é uma totalidade que possui como partes constituintes a estrutura, que é unissêmica, e a conjuntura, que é polissêmica. Neste sentido, o discurso é sempre algo concreto, é sempre discurso de alguém, de um autor, um grupo social, etc., sendo, por isso, um todo coerente e organizado (cujo grau de coerência e organização depende de quem profere o discurso e em que contexto) e isto se revela em sua estrutura e seu caráter unissêmico (VIANA, 2009).

O discurso é sempre discurso de alguém, ou seja, uma manifestação específica de um determinado indivíduo e sua consciência. A consciência, contudo, não é mais que o indivíduo consciente e, desta forma, é manifestação deste ser social, histórico, que possui um processo histórico de vida específico e por isso possui sua singularidade (VIANA, 2011), que pode, também, manifestar a singularidade de um grupo ou instituição. Nesse sentido, não existe discurso destacado de quem o produz e este é um ser humano, um ser social e histórico. Por conseguinte, o discurso é um produto social (VIANA, 2009). O passo seguinte após a definição de discurso, é analisar seu processo social de constituição.

 Discurso Jornalístico e Propaganda Ideologêmica

Portanto, o discurso é produzido socialmente. Em grande parte dos casos é constituído no interior de uma instituição e por isso possui características próprias em cada instituição. O processo de constituição do discurso remete ao contexto social e cultural. O contexto social remete ao conjunto das relações sociais que, na sociedade moderna, é marcada pela luta de classes. O contexto cultural, por sua vez, remete ao conjunto das produções intelectuais e também traz em si a manifestação do conflito entre as classes sociais. Nesse sentido, o discurso é perpassado por relações de poder na sociedade capitalista (VIANA, 2009). Porém, cada forma de discurso possui suas próprias determinações e por isso a análise de sua constituição e característica se torna fundamental.

Isto significa que existem formas de discurso que correspondem a formas de poder. A forma de discurso que aqui nos interessa é o discurso jornalístico (em sentido estrito, ou seja, limitando-se ao jornalismo escrito, pois este é mais fácil de analisar, embora os mesmos procedimentos possam ser utilizados para analisar outras manifestações). A instituição, nesse caso, é a imprensa escrita. Para compreender o complexo problema das relações entre saber e poder nesta instituição é preciso levar em consideração não apenas as relações internas desta instituição como também as relações externas. Isto nos remete, novamente, a uma análise que vai além de Foucault, que, embora utilizando sua contribuição, insere a questão do conjunto das relações sociais e das relações de poder na sociedade. O caso da censura e da repressão policial durante o regime militar no Brasil[1] coloca em questão o caráter mais amplo das relações de poder que ultrapassam os limites de uma instituição[2].

O discurso jornalístico não está envolvido pelas relações de poder externas apenas em períodos políticos conturbados, pois existe todo um conflito que envolve a imprensa escrita, tais como os anunciantes, o público leitor, etc., que remete às relações de poder em toda a sociedade. O discurso jornalístico é fundamentalmente uma forma de transmitir propaganda. Isto pode parecer estranho à primeira vista, pois, em que pese a propaganda comercial que é realizada pelo jornal, o seu sentido, ou sua razão de ser, é a informação. Isto pode ser esclarecido se retomarmos a análise realizada por Aranguren a respeito da diferença entre informação e propaganda. Segundo Aranguren, a fronteira entre informação e propaganda é bastante tênue:
Como todos sabemos, esses veículos de comunicação de massa não podem, como qualquer outro negócio, ser lucrativo sem publicidade. A informação é fornecida gratuitamente ao público pelo rádio e pela televisão e muito abaixo do custo pela imprensa. Para tanto a comunicação de massa tem de ser mantida viva pela publicidade e é, num grau cada vez mais elevado, controlada pelos anunciantes. (...). Assim, vê-se que as notícias e as comunicações publicitárias estão intimamente vinculadas, numa tal extensão que é impossível, muitas vezes, dizer se uma reportagem jornalística sobre um astro cinematográfico, ou uma nova unidade industrial (‘orgulho desta nação e eloqüente prova do progresso que nos colocou em plano de igualdade com as nações mais avançadas’), ou uma estância turística em grande voga, é apenas material noticioso oferecido desinteressadamente ao leitor ou ouvinte, ou se é publicidade para manter o jornal ou a emissora (ARANGUREN, 1975, p. 139-140).
Aranguren diz que a fronteira entre informação e propaganda é difícil de delimitar devido também a dois outros fatores: a interferência política e a dificuldade lingüística.  A respeito da interferência política ele afirma que:
Todo e qualquer evento é significativo, mas o seu significado é inequívoco; precisa ser interpretado com uma completa objetividade, que muitas vezes se almeja, mas dificilmente se atinge. Cada jornal interpreta os acontecimentos de acordo com o seu ponto de vista ou, nos países onde a imprensa não é livre, de acordo com as diretrizes do governo. A distinção entre órgãos de informação e órgãos de opinião é puramente relativa. Os órgãos de informação não estão menos condicionados por interesses do que os de opinião; simplesmente os interesses são de uma espécie diferente – mais econômicos do que políticos (ARANGUREN, 1975, p. 140).
Sobre a dificuldade de natureza lingüística ele afirma que existe uma extrema dificuldade, para não dizer impossibilidade, de distinguir entre informação e publicidade ou propaganda. Para se observar isso basta fazer uma superposição do significado das três palavras.
A definição de dicionário para ‘publicidade’ é a qualidade ou estado de ser público e o meio de fazer uma coisa pública através da informação ou comunicação. Etimologicamente, ‘propaganda’ é a ação de propagar ¾ quer dizer, difusão ou informação. Contudo, excetuando-se em contextos muito especiais, como ‘dar publicidade a’ (sinônimo de ‘tornar público’) ou o latim ‘propaganda Fidei’ (‘propagação da fé’), as palavras propaganda e ‘publicidade’ são entendidas no sentido de um anúncio na imprensa ou para transmissão por um veículo de telecomunicação, que divulga um produto ou serviço e é pago pelo comerciante ou fabricante, nada tendo a ver com a difusão de notícias ou informações. Mas, por uma inversão compensatória de significados, a propaganda política ¾ que merece o nome tanto quanto a sua congênere comercial ¾ rejeitou esse nome e o que costumava ser o Ministério da Propaganda chama-se hoje Ministério da Informação (ARANGUREN, 1975, p. 141).
Portanto, a imprensa escrita (bem como a imprensa em geral) transmite propaganda, ou seja, realiza a difusão de alguma idéia ou acontecimento. Porém, não é qualquer idéia ou acontecimento que são veiculados pela imprensa. Há um processo de seleção. Este é um processo complexo que se inicia com os jornalistas (às vezes com os redatores, que indicam que tipo de notícias quer para o jornal e que os jornalistas devem ir atrás, às vezes os próprios jornalistas possuem autonomia de buscar as notícias, dependendo do jornal e do contexto, mas uma vez apresentado o tipo de notícia a ser objeto de reportagem, então é o jornalista quem faz a primeira seleção do material no próprio processo de coleta), que realizam uma seleção inicial, e termina com a edição e redação, que realiza uma seleção da seleção, que é uma seleção final. Neste processo de seleção – tal como se depreende do próprio nome – algo se torna material de propaganda e algo é excluído e assim notamos o processo de interdição e de rejeição, tal como apresentado por Foucault.

Esse processo de seleção é realizado através de uma diversidade de critérios e objetivos, no qual se destacam a linha editorial do jornal, o interesse dos anunciantes, a opinião do leitor, as ideologias e mentalidade da equipe do jornal e dos seus diretores e proprietários, etc., mas existe outra determinação mais ampla que é a fornecida pelo conjunto das relações sociais e de poder na sociedade, o que inclui todo o complexo da formação cultural, dos interesses de classe e das disputas ideológicas e políticas em determinada sociedade e em um dado momento histórico.

Porém, é preciso distinguir entre dois tipos de propaganda que são transmitidos pela imprensa escrita: a propaganda ideologêmica[3] e a propaganda comercial. Embora não se possa falar em distinção absoluta entre ambas, pois a propaganda comercial traz em si elementos ideologêmicos (isto é, fragmentos de ideologias) e a propaganda ideológica muitas vezes está relacionada com a comercial e reforça a existência de uma mercantilização das relações sociais. A propaganda comercial foi objeto de vários estudos de especialistas das ciências sociais (BARAN e SWEEZY, 1977; MOLINÉ, 1980; LAGNEAU, 1981; PIETROCOLLA, 1985) e foi relacionada com o capitalismo monopolista e com a “sociedade de consumo”. A propaganda ideologêmica também recebeu diversos estudos[4] (JAHR GARCIA, 1980; BROWN, 1971), juntamente com a propaganda política (DOMENACH, 1963; BROWN, 1971; JAHR GARCIA, 1980), embora não se possa confundir propaganda ideologêmica e propaganda política (no sentido usual do termo), pois a propaganda política é apenas uma modalidade de propaganda ideologêmica.

Como não é possível discutir aqui o complexo e polêmico tema da ideologia, bem como as diversas concepções de ideologia (ALTHUSSER, 1989; CHAUÍ, 1990; HALL et al., 1983; AGOSTI, 1984; EAGLETON, 1997; MANNHEIM, 1986; VIANA, 2013; VIANA, 2010), nos limitaremos a apresentar brevemente a concepção que utilizaremos. A ideologia, tal como Marx colocou, surge com a divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual (MARX, 1992). Com esta divisão surgem os ideólogos e a ideologia possui como característica, por conseguinte, a sistematização de uma falsa consciência da realidade. A ideologia é uma inversão da realidade e é produzida pelas classes sociais que possuem em sua consciência “limites intransponíveis” (MARX, 1988) derivados de sua posição diante das relações de produção. A ideologia, devido seu caráter sistemático, se erige como uma verdadeira mentalidade, portadora não somente do sistema de pensamento explícito, mas também de valores, sentimentos, geralmente implícitos. Porém, a ideologia possui um círculo de produtores (que são os responsáveis pela sua produção) e reprodutores (aqueles que compreendem e divulgam tal ideologia) mais ou menos restrito dependendo da sociedade em que se manifesta. Uma grande parte da população possui uma mentalidade desarticulada, tal como colocou GRAMSCI (1987) e a ideologia ao atingir esta população acaba sofrendo o mesmo processo de desarticulação ou de perda de sistematicidade (VIANA, 2008), devido ao processo realizado pelos receptores. Em síntese, a recepção da ideologia geralmente destrói a ideologia enquanto sistema, embora muitas vezes conserve aspectos que são seus componentes, que são mesclados com outros elementos, muitas vezes contraditórios.

A propaganda é um processo de difusão generalizada de ideias, acontecimentos, valores, etc. e esse elemento promove, por sua vez, um obstáculo para sua difusão mantendo sua forma sistemática: os meios oligopolistas de comunicação e suas formas de difusão são incompatíveis com a complexidade do pensamento complexo, tal como o ideológico. As notícias e reportagens devem ser breves e mais acessíveis possível ao grande público. Nesse sentido, não há exatamente uma “propaganda ideológica” nos meios oligopolistas de comunicação e sim propaganda ideologêmica e axiológica, na qual há a difusão de fragmentos de ideologias e dos valores dominantes.

A manifestação da ideologia no discurso jornalístico encontra outros três obstáculos: a) os produtores do discurso jornalístico (jornalistas, copidesque, redatores, etc.) nem sempre conseguem dominar ou compreender a ideologia que querem e/ou acreditam reproduzir e desta forma eles passam uma falsa consciência da realidade mas geralmente de forma assistemática; b) como o discurso jornalístico visa o grande público ele deve simplificar e resumir a mensagem e isto dificulta a transmissão de uma mentalidade sistematizada; c) tal discurso também deve levar em consideração a reação do público e por isso muitas vezes deve buscar aparentar “neutralidade” e “ética” em sua propaganda ideologêmica. Desta forma, o discurso jornalístico é fragmentário e assistemático, carregando em si elementos contraditórios.

Essa propaganda ideologêmica se efetiva por diversos meios. Os meios oligopolistas de comunicação são os mais utilizados, pois atingem uma parcela mais ampla da população. A propaganda ideologêmica, que, tal como já colocamos, vai além da propaganda política-institucional, também ocorre através do discurso jornalístico e reflete as relações de poder na sociedade. Porém, isto não quer dizer que sempre haja intencionalidade em se fazer isto, pois, como se trata de uma mentalidade, isto ocorre naturalmente e acaba se tornando inevitável.

Neste sentido podemos dizer que na imprensa escrita o que existe é uma propaganda ideologêmica, embora em alguns momentos possa tentar repassar um pensamento ideológico, pois um jornal sempre traz algumas partes (cadernos de opinião, debate, etc.) em que é possível apresentar uma concepção sistematizada. Mas isto não ocorre com toda imprensa escrita, pois em revistas é mais fácil veicular tal concepção. Porém, o que se conclui é que a propaganda ideológica é limitada na imprensa escrita (e mais ainda em suas outras formas) e que ela acaba se aproximando mais das representações ilusórias da realidade (MARX e ENGELS, 1990) do que da ideologia, no sentido em que utilizamos esta palavra, como sistema de pensamento ilusório (MARX e ENGELS, 1990; VIANA, 2010), o que significa que está mais para as representações cotidianas (VIANA, 2008), o “senso comum”, do que para um pensamento sistemático, mas geralmente é uma propaganda ideologêmica, mesclando representações cotidianas e ideologia, sendo que esta aparece fragmentada e perdendo sua sistematicidade. Nesse sentido, não se trata de ideologia propriamente dita, mas representações cotidianas com elementos isolados de alguma ideologia. Essas representações cotidianas são ilusórias, ou seja, expressam um imaginário social.

É desta forma que o discurso jornalístico cria imagens dos fenômenos sociais. Não há espaço aqui para discutir as concepções filosóficas e psicológicas da imagem (tanto a imagem visual quanto a imagem artística)[5], mas podemos dizer que entendemos por imagem (social, ou seja, distinta da imagem visual e da artística) uma determinada percepção de um fenômeno social que não ultrapassa o seu aparecer social, sendo portanto, uma representação ilusória da realidade[6]. Essas representações cotidianas ilusórias compõem um imaginário social, uma falsa consciência da realidade. Contudo, se o imaginário é manifestação das representações cotidianas, isso não quer dizer que toda representação cotidiana é ilusória. Desde Marx há a percepção de que existem representações verdadeiras ou falsas da realidade (Marx e Engels, 1990). Contudo, essa posição não é compartilhada por todos, pois alguns entendem que as representações são sempre falsas (LEFEBVRE, 2006) ou verdadeiras, tal como na abordagem das representações sociais (MOSCOVICI, 1977), o que é criticado por outros (VIANA, 2008; PEIXOTO, 2010).

Existe um processo de produção e substituição da imagem (SHOTTER, 1977) e o discurso jornalístico também realiza este processo. Tal discurso realiza a criação de imagens sob os mais variados fenômenos sociais, mas aqui nos interessa tão-somente a imagem sobre a violência contra as crianças. Qual é a imagem que o discurso jornalístico produz sobre a violência? O que é violência?

A questão da violência é muito ampla e possui diversas abordagens (MICHAUD, 1989). Consideramos a violência como um fenômeno social caracterizado pela imposição de algo – pela força física ou por qualquer outra forma de se constranger outro a aceitar algo indesejável ou prejudicial ao desenvolvimento natural do indivíduo ou grupo social – realizada por um indivíduo ou grupo social a outro indivíduo ou grupo social (VIANA, 1999; VIANA, 2002). Por isso se pode falar em diversas formas de exercício da violência: física, simbólica, sexual, etc.

Mas cabe ressaltar a diferença entre violência e imagem ou representação da violência, pois é preciso enfatizar esta diferença para não se cair em equívocos. O discurso jornalístico apresenta uma imagem da violência e, portanto, apresenta uma representação da violência. Podemos dizer que

“não se pode tomar a realidade da violência pelas representações dela produzidas. Sobretudo porque, não é supérfluo relembrar, diferentes conteúdos valorativos e ideológicos são responsáveis por diferentes representações sociais da violência” (PORTO, 1995, p.266).
No caso do discurso jornalístico isto é bastante visível em relação à violência, tal como foi objeto de análise de alguns pesquisadores. Diversos pesquisadores já se debruçaram sobre a questão da imprensa e da violência (VENTURA, 1995; IMBERT, 1995; CARDIA, 1995). Trata-se de uma relação complexa e que tem vários aspectos. O nosso foco aqui é a questão do discurso jornalístico sobre a violência. Nesse caso, vamos partir de uma análise de um caso concreto para depois passarmos para uma análise do editorial de um jornal relacionando com nossa ideia de que o discurso jornalístico geralmente reproduz um imaginário que repassa ideologemas.

Renata Veloso e Miguel Alsina se debruçaram sobre o caso da atriz Daniella Perez tal como apresentado pelo Jornal O Globo e revelaram a existência de uma mentalidade por detrás da imagem do crime cometido, onde se apresenta a vítima como boa por natureza e o assassino como mau por natureza e faz isto construindo uma versão do crime que é muito mais uma construção do que uma informação. Tal construção é verificada em seus diversos mecanismos e após isto os autores concluem que se revela uma visão de mundo por detrás da pretensa informação. Segundo estes autores,

a construção discursiva de O Globo, apesar de falar de um crime, revela-nos muito mais que versões sobre um crime. Revelou-nos uma explicação do mundo onde não havia espaço para uma reflexão crítica sobre os acontecimentos. O fato real – ou seja, o crime – foi tirado do seu contexto (complexo) e justificado mediante os mecanismos demonstrados: construção de uma estrutura maniqueísta e preconceituosa (ALSINA e VELOSO, 1995, p. 214-215).

Aí se trata de um tipo específico de violência, a violência criminal. Esta não se enquadra nas formas de exercício da violência, pois as formas de exercício da violência se referem ao meio que ela se manifesta (através da agressão física, cultural, sexual, etc.). Neste caso, temos que diferenciar também quem realiza a violência e quem é vítima da violência, pois, tal como colocamos anteriormente, a violência é uma relação social. Por conseguinte, existem aqueles que são os agentes da violência e aqueles que são as vítimas da violência e com isso a classificação da violência também se torna mais complexa indo além de suas formas para enquadrar também os grupos e indivíduos que realizam a violência e aqueles que são atingidos por ela. Assim se pode falar de violência criminal quando ela é executado por indivíduos considerados criminosos, violência policial quando é realizada por policiais, violência estatal quando é efetivada pelo Estado, etc. Em síntese, a violência é uma relação social e por isso existem aqueles que estão envolvidos em sua existência.

Desta forma podemos dizer que a violência pode ser classificada através da forma como ela é realizada, através dos agentes que a executam e também através daqueles que são suas vítimas. Mas isto pode ser mesclado. Por exemplo, a violência estatal pode ter diversas vítimas (divergentes políticos, criminosos, etc.) e diversas formas de se manifestar (cultural, física, etc.); as vítimas da violência também podem ser objetos de diversas formas de violência, tal como é o caso da juventude (violência simbólica, física, etc.) que podem ser realizados por diversos agentes (policiais, criminosos, familiares, outros jovens, etc.); as formas de exercício da violência, por sua vez, são utilizadas nos mais variados casos e muitas vezes se apresentam mesclados (as violências cultural e física em muitos casos caminham juntas).

As representações da violência no discurso jornalístico não são homogêneas, assim como existem divisões e brechas no capital comunicacional, bem como divisão entre os jornalistas e outros profissionais da área da comunicação, bem como as formas alternativas de comunicação (rádios universitárias, por exemplo), criam um espaço para manifestação de representações marginais ou com concepções mais críticas e sem origens ideológicas ou axiológicas.
O caso citado acima do jornal O Globo é apenas um exemplo entre milhares. O processo de reportagens por parte de jornais impressos, radiofônicos e televisivos. Há uma seleção de quem são os entrevistados, quais são as perguntas, qual é o foco. Os entrevistados vão ter suas entrevistas reduzidas e editadas. A consulta rápida e aleatória a determinados jornais impressos (ou mesmo televisivos) confirma isso, pois geralmente os sociólogos entrevistados ocupam uma parte mínima do espaço e delegados e outros que confirmam a posição do jornal ganham um espaço muito maior.

Esse processo de edição mostra uma determinada preferência e opinião, sub-repticiamente manifesta por ao abordar duas posições distintas, enfatiza e oferece mais tempo para a posição dos detentores dos meios de comunicação e seus representantes. A preferência pelo discurso do delegado, nos dois exemplos citados, em detrimento do discurso do sociólogo, revela o discurso jornalístico, reprodutor das ideias dominantes. O discurso dos delegados acaba naturalizando a violência, o que é típico em diversas ideologias (VIANA, 2004; VIANA, 2002) e isso legitima a reivindicação de mais repressão, aparato policial, redução da idade penal, pena de morte, etc. É um discurso ideologêmico, fundado em representações que naturalizam a violência e a sociedade existente, reproduzindo os valores dominantes.

Ao analisar um editorial do jornal Folha de São Paulo temos mais elementos para entender o discurso jornalístico, analisando um caso concreto. Esse caso é exemplar, pois sendo o editorial do referido jornal, então revela a posição assumida pelo mesmo diante do tema apresentado. O editorial do Jornal Folha de São Paulo do dia 18 de janeiro de 2013 inicia-se assim:

A onda de violência que se abateu sobre a Grande São Paulo no segundo semestre do ano passado parece ter sofrido um refluxo após a posse do novo secretário da Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, que assumiu o cargo no final de novembro. Ainda assim, a insegurança persiste na periferia.
A afirmação aparentemente é mera informação. Contudo, o discurso jornalístico, assim como o científico e todos os que precisam aparentar neutralidade, convive com a presença do explícito e do implícito. O explícito é aquilo que é dito diretamente, o que é transparente, direto, declarado, admitido. O implícito é aquilo que fica oculto, subliminar, sub-reptício, indireto, subentendido, o que fica nas “entrelinhas”. Este é próximo ao “não dito”, para usar expressão de Foucault (1996). O trecho acima citado tem informações explícitas: houve uma onda de violência no segundo semestre na cidade de São Paulo de 2012; Fernando Grella Vieira assumiu a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo no final de novembro de 2012; persiste a insegurança na periferia da capital paulista. Contudo, ao lado das meras informações, há o implícito, que começa com uma relação estabelecida: a onda de violência “parece ter sofrido um refluxo após a posse do novo secretário”. A palavra “parece” é, obviamente, inconclusiva, mas passa uma determinada mensagem que relaciona diminuição da violência com posse de novo secretário. O editorial continua:

Na sexta-feira à noite, 14 homens encapuzados mataram sete pessoas em um bar na zona sul da cidade. A chacina se deu na mesma rua em que, dois meses atrás, cinco policiais militares assassinaram um suspeito desarmado --cena deplorável exibida na televisão.
A ocorrência desse tipo de episódio mostra que o sangrento 2012 ainda não cicatrizou totalmente, sem que a população tenha sido informada sobre as verdadeiras razões da escalada de violência.
O número de chacinas na região metropolitana de São Paulo vinha caindo de forma constante desde 2007. Subitamente, as matanças saltaram de 12, em 2011, para 24 no ano passado, e o número de mortos nesses casos foi de 41 a 80.
De todos esses homicídios múltiplos cometidos em 2012, até agora apenas um foi solucionado pelo Estado --e seis policiais militares terminaram presos acusados de participar do crime.
A falta de esclarecimento infunde medo na população, que se sente à mercê da violência. Pior, alimenta a hipótese, sinistra, de que policiais estejam envolvidos em outros episódios. Sintoma desse quadro, pesquisa Datafolha do final de novembro mostrou que 53% dos paulistanos sentiam mais medo do que confiança na Polícia Militar.

Novas informações são apresentadas. O editorial informa sobre mortes na zonal sul de São Paulo: no mesmo local onde no ano passado policiais militares assassinaram um suspeito desarmado. Isto seria uma “cena deplorável”. Esta afirmação revela um valor atribuído ao acontecimento. A informação é fornecida para justificar a afirmativa de que “a escalada de violência do ano anterior ainda não havia cicatrizado totalmente”, ou seja, o alto índice de violência não havia sido totalmente superado. As verdadeiras razões desta escalada de violência não foi informada à população. Ora, se não informada a verdadeira razão, então outra, provavelmente falsa, era conhecida. Isso fica implícito. Outra informação: de todos os crimes do ano anterior, apenas um foi solucionado e envolvia policiais militares. O editorial continua afirmando que o não esclarecimento da população sobre as verdadeiras razões de tal violência provoca medo na população, inclusive da polícia militar, pois alimenta a hipótese, “sinistra”, do envolvimento policial. Isso é complementado com a informação de uma pesquisa que demonstra que a maioria da população (53%) sente mais medo do que confiança na polícia militar, que seria “sintoma desse quadro”. A expressão sinistra, que significa, tal como se observa nos dicionários, “apavorante”, “alarmante”, “aterrorizante”, mas também “perversa”, “maldita” pode ser interpretada como sendo uma hipótese lamentável (devido ao não esclarecimento das causas da escalada de violência), o que seria um eufemismo e consideração do editorial amenizando o que viria depois ou poderia ser colocada no sentido de ser assustador, o que colocaria a posição do jornal contra o envolvimento da polícia militar em crimes ou, ainda, uma ambiguidade premeditada para não deixar explícito o seu posicionamento. No entanto, o conjunto das afirmações e até a seleção das informações (diversos outros atos de violência sem envolvimento da polícia poderiam ter sido selecionados e citados) apontam para uma posição crítica em relação à polícia militar.

As afirmações seguintes trazem novos elementos analíticos:
Para o sociólogo Ignacio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro: a troca de comando na Secretaria da Segurança Pública já melhorou a situação. A diminuição no número de homicídios dolosos na capital corrobora a impressão.
Apesar disso, as suspeitas não se dissiparam. Moradores da região de São Paulo onde ocorreu a primeira chacina de 2013 atribuíram as mortes a agentes da PM, o que não foi comprovado.
O secretário Fernando Grella Vieira parece empenhado em reparar os estragos e restaurar a confiança no trabalho da polícia. É imprescindível que o faça, e esclarecer esses morticínios é um dos primeiros passos nessa direção.

O passo seguinte foi seguir a lógica das reportagens e lançar mão de um especialista, logo, uma “autoridade no assunto”, o sociólogo Ignacio Cano, que afirma que a situação melhorou com a troca no comando da Secretaria da Segurança Pública. A diminuição dos homicídios, a afirmação seguinte, “confirma” a “impressão”. Isso não promoveu o fim das “suspeitas” a respeito da participação de policiais militares na chacina de 2013. O último parágrafo termina com a afirmação de que o novo secretário “parece” estar empenhado em “reparar os estragos” e “restaurar a confiança no trabalho da polícia”. O editorial novamente se posiciona ao afirmar que tal esclarecimento a respeito desses “morticínios” é “imprescindível” e “um dos primeiros passos nessa direção”.

O discurso presente no editorial aponta para algumas afirmações e posicionamentos. As afirmações (fatos, avaliações, etc.) são principalmente a de que há uma escalada de violência em São Paulo, que há um possível envolvimento da polícia militar, que a população não foi esclarecida e isso reforça essa hipótese de envolvimento, bem como que o novo secretário parece estar interessado em resolver o problema, pois já teve uma diminuição. A posição do jornal está mais ou menos explícita: há um medo da população provocado pelo não esclarecimento das razões da escalada de violência na cidade de São Paulo e uma relação com a polícia militar. Implicitamente o jornal confirma tal relação entre escalada de violência e ação policial. E se posiciona no sentido de que o novo secretário esclareça a situação, como primeiro passo, para organizar a polícia militar e impedir a continuação da “escalada da violência”.

Em outras palavras, a posição do jornal parece ser progressista e contra a violência policial. Contudo, uma análise mais pormenorizada pode explicitar o implícito e mostrar que, se a posição do jornal não é abertamente reacionária e não é favorável à polícia militar, mas também não é progressista e crítica. Os elementos implícitos ajudam a entender o caráter ideologêmico do posicionamento do editorial do jornal. Em primeiro lugar, o editorial evita acusar a polícia militar da responsabilidade de diversos atos de violência, o que pode ser interpretado como “cautela”. No entanto, além da cautela há outros elementos. O primeiro elemento é a força atribuída ao novo secretário de esclarecer e agir sobre esse processo. A ideia de que cabe a um indivíduo fazer isso poderia ser um fragmento de uma ideologia individualista, mas repassa a ideia de que o Estado, através do governo (e, por conseguinte, da Secretaria de Segurança Pública) representa a sociedade como um todo e é neutra, acima da sociedade de classes. O caso da polícia militar é apenas, nesse caso, um elemento “disfuncional”, que, pode ser resolvido com um ato do governo. Essa concepção repassada é voluntarista e estatista, pois o Estado é que deve resolver os problemas sociais, mesmo quando é ele que cria o problema.

O discurso jornalístico tem um impacto sobre as representações cotidianas e é um elemento que possibilita a monotonia repetitiva da argumentação, algo que já foi identificado em outros casos (ALVIM, 1994). Tal “monotonia repetitiva da argumentação”, no caso, era a ideia de que é melhor a criança trabalhar do que ficar na rua (ALVIM, 1994). Como esse processo ocorre em diversos outros casos e é muito presente nos discursos desenvolvidos por pessoas não especializadas, ou seja, no campo das representações cotidianas, então é interessante discutir seu significado e processo de constituição. Esse fenômeno pode ser melhor denominado como o uso de chavões para sustentar uma posição. Para sustentar a posição de que deve haver trabalho infantil, apela-se para o chavão segundo o qual “é melhor trabalhar do que ficar na rua”. As representações cotidianas têm como uma de suas características a simplicidade (Viana, 2008) e por isso é necessário entender que os chavões são recursos constantes e acabam recebendo difusão e generalização na população. A constituição dos chavões era realizada pela tradição oral, mas, com a emergência dos meios oligopolistas de comunicação (jornal impresso, rádio, TV), estes acabam sendo outras fontes da produção, reprodução e/ou difusão de chavões. Um destes chavões foi criado recentemente no Brasil, principalmente por policiais, referente à discussão sobre redução da maioridade penal, segundo o qual “a partir dos 14 anos o indivíduo já sabe o que faz”, embora alguns podem “mudar a idade”, seja para mais ou para menos. Quando os meios oligopolistas de comunicação apresentam tais chavões através de entrevistas ou outras formas e, geralmente concordando[7], há uma generalização do chavão junto à maioria da população. Posteriormente, ao entrevistar a população sobre determinado acontecimento e essa lança mão desse chavão, ela apenas reproduz o que o discurso jornalístico produziu. E isso acaba gerando um círculo vicioso caracterizado pela propagação expandida do chavão. Um exemplo disso são as entrevistas de determinados telejornais, mostrando o apelo ao chavão pela maioria dos entrevistados para sustentar sua posição, ou, em alguns casos, todos os entrevistados (apesar de ser isso questionável, não somente por questão de poder se duvidar da honestidade do telejornal, mas também pelo local, tamanho da amostra ou outras características das pessoas entrevistadas e não ter mostrado outra posição)[8].

Obviamente que o discurso jornalístico e o chavão de que o menor de 18 anos já é consciente e responsável, traz, implicitamente, outra determinada representação da violência, que é a de que ela se constitui como responsabilidade individual – o que está de acordo com as concepções neoliberais e pós-estruturalistas que hoje são hegemônicas – e que de que o remédio para esse mal é a punição, o que também está de acordo com a ideologia neoliberal, fundada na prática repressiva do “Estado penal”, para utilizar expressão de Löic Wacquant (2001).

O impacto do discurso jornalístico na população é forte, mas ele atua em grande parte no nível da opinião e não no nível da convicção, dois elementos constituintes das representações cotidianas (VIANA, 2008). É por isso que é importante utilizar as brechas dos meios oligopolistas de comunicação para superar os chavões e a reprodução das representações conservadoras, ideologêmicas, axiológicas, bem como ampliar as formas e meios de divulgar uma reflexão mais crítica e profunda do que as veiculadas em tais meios.

Considerações finais

A conclusão geral que chegamos é a de que as representações da violência no discurso jornalístico repassam uma determinada mensagem marcada pela manifestação de uma concepção ideologêmica, ou seja, um fragmento de ideologia, geralmente aquelas que naturalizam o fenômeno social da violência. A análise do discurso jornalístico em alguns casos comprova isso. Contudo, a abordagem aqui apresentada não tem caráter generalizador, pois é mais que conhecido o fato de que existem exceções, ou seja, essa conclusão não se aplica a todo e qualquer discurso jornalístico. A realização de novas pesquisas sobre o discurso jornalístico e o que fica implícito nele é uma das mais instigantes e promissoras da sociologia contemporânea.

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* Professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília; autor dos livros “O Capitalismo na Era da Acumulação Integral” (São Paulo: ideias e Letras, 2009); “Cinema e Mensagem” (Porto Alegre: Asterisco, 2009); “Quadrinhos e Crítica Social” (Rio de Janeiro: Azougue, 2013); “Cérebro e Ideologia” (Jundiaí: Paco, 2010), entre outros.
[1] Sobre isto consulte-se Faria (1979); sobre a história da imprensa escrita, veja-se Terrou (1964).
[2] Daí a idéia de totalidade, criticada e ausente na obra de Foucault. Sobre totalidade, pode-se ler Lukács (1989); Korsch (2008), Viana (2007) e Marx (1983).
[3] O ideologema é um fragmento de uma ideologia (VIANA, 2013), entendendo-se por esse um sistema de pensamento ilusório e cuja sistematicidade não pode ser reproduzida pelo discurso jornalístico.
[4] Os autores citados, no entanto, usam a expressão “propaganda ideológica”.
[5] Um histórico da concepção de imagem na filosofia e psicologia pode ser visto em Sartre (1987) e Paim (1972).
[6] A aparência e a essência não coincidem imediatamente na consciência humana, tal como colocou Marx, pois se isto ocorresse a ciência seria supérflua (Marx, 1988).
[7] Como foi colocado anteriormente, não existe neutralidade e os discursos jornalísticos expressam valores, representações, sentimentos, embora geralmente moderados, camuflados ou implícitos.

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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. As Representações da Violência no Discurso Jornalístico. Comunicação e Política. Vol. 31, num. 02, Mai./Ago. 2013b.

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