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terça-feira, 3 de novembro de 2026

O INDIVÍDUO DIANTE DO SUBJETIVISMO - NILDO VIANA

 




O Indivíduo diante do Subjetivismo


Nildo Viana


Isso tudo gera mais isolamento, solidão, sensação de fracasso, entre outros processos, que possuem efeitos psíquicos já identificados na sociedade e podem ser vistos em seus sintomas de “depressão”, ansiedade, suicídio, entre diversos outros. A competição, a mercantilização e a burocratização dominam também o mundo virtual da internet e gera os mesmos problemas, inclusive para os movimentos sociais. A burocratização e mercantilização dos movimentos sociais não só geram um processo de cooptação e moderação, como também gera processos internos burocráticos e mercantis (Viana, 2016). Os demais aspectos, incluindo os culturais e psíquicos, também se reproduzem internamente e em suas ações externas, sendo mais um obstáculo para o seu desenvolvimento e passagem da hegemonia burguesa para a hegemonia proletária. Por outro lado, em política institucional (partidos, políticos profissionais, etc.) e nos movimentos sociais (nos seus setores hegemônicos) passa a dominar o populismo e o oportunismo, bem como, em certos setores, o medo e a covardia em desafiar os novos lugares-comuns das correntes predominantes de opinião e das ideologias hegemônicas.

Alguns pesquisadores refletiram sobre alguns desses elementos há muito tempo, embora, obviamente, eles vêm se aprofundando cada vez mais. Desde Christopher Lasch – autor de A Cultura do Narcisismo (1983) e O Mínimo Eu (1986) – até chegar a Enrique Rojas – autor de O Homem Moderno – A Luta Contra o Vazio (1986) –, trabalhando sobre as questões psíquicas, há uma percepção da força do narcisismo, do vazio, do neoindividualismo, entre outros problemas. Da mesma forma, as análises dos problemas sobre identidade, desde Jock Young (2002) – Autor de A Sociedade Excludente – até os atuais críticos (com os seus limites) do “identitarismo”, bem como os alertas de Nancy Fraser (2018) e diversos outros, chegando a Elisabeth Badinter (2020), há uma percepção, mesmo que limitada e sem uma reflexão mais profunda sobre suas raízes, da situação gerada no capitalismo contemporâneo e algumas de suas consequências.

Essas obras, apesar de questionadoras e avançarem mais do que os meros reprodutores do que é hegemônico e modismos, são limitadas e não conseguem apresentar uma concepção mais ampla e profunda, pois alguns não se livram totalmente do paradigma hegemônico ou não se fundamentam em bases teórico-metódicas mais desenvolvidas, entre outros possíveis razões de seus limites. Apesar disso trazem elementos que, desde que lidos e refletidos criticamente, ajudam a compor um quadro totalizante do capitalismo contemporâneo, que precisa ser complementado com diversos outros aspectos não tratados em tais discussões[1].

O avanço do moralismo conservador não pode ser compreendido sem a percepção da imposição do moralismo subjetivista, bem como o que alguns chamam de “fundamentalismo religioso”, fortalecido e aliado com o conservantismo, não pode ser compreendido sem essas e outras mudanças culturais. E o moralismo conservador, que ganha adeptos até em lugares inesperados (no caso brasileiro, o mais curioso é pessoas que gostam de rock e MPB, que raramente assumem uma posição conservantista[2], com suas mensagens críticas, que agora adotam tal posição moralista conservadora, caindo em flagrante contradição), se reforça e gera insatisfação nos setores progressistas, gerando um processo de polarização (muito bem explorado pelos partidos e políticos profissionais para fins político-eleitorais e disputa de poder) moral que gera extremismos e sentimentos antipáticos mútuos. O moralismo conservador reforça e é reforçado pelo moralismo subjetivista, que também se encontra nesse mesmo estado de ser fortalecido e de fortalecer o seu oposto. A polarização moral (e a política) promove um processo de conflitos e animosidades crescentes, gerando mais motivos para afastamentos e isolamentos. E isso atinge até quem está fora da polarização, pois a irracionalidade acaba se tornando predominante e quem não está de um lado é automaticamente acusado de estar do lado contrário. Essa simplificação contribui para a reprodução da deterioração das relações sociais no capitalismo contemporâneo.

O indivíduo nesse mundo hostil, cercado por todos os lados, seja pelas relações sociais reais e concretas do capitalismo (competição, burocratização, mercantilização), seja pelos seus subprodutos culturais, gerando uma insatisfação generalizada convivendo com processos de conflitos até nas relações que anteriormente significavam o espaço de consolo, como a família, os grupos de amizades, e pequenas coletividades, que agora estão perpassadas não só pela competição (que era parcialmente reintegrada sob a forma humorística), mas pelo conflito moral e “político”. No caso dos indivíduos das classes sociais inferiores, o problema é ainda mais grave. Apesar de em certos setores parte dessas questões possuírem efeito menor, as dificuldades da vida cotidiana com a precarização do trabalho, as condições de vida desfavoráveis, a superexploração de diversos trabalhadores, entre outros elementos, mostram um outro motivo para insatisfação. A desumanização de proletários, serviçais, entre outros trabalhadores, gera um desgaste físico e mental que promove uma insatisfação que pode vir a se manifestar concretamente a qualquer momento (além das formas marginais e mais individuais pelas quais isso ocorre).



[1] Uma reflexão sobre os “ventos de falsidade” de Julian Marías (2003) e diversas outras obras poderiam ser citadas. Não deixa de ser interessante destacar que Erich Fromm, em suas últimas obras, já havia percebido os males do subjetivismo emergente, tal como “a doutrina do mínimo esforço”, “hedonismo radical”, “egoísmo do culto do eu”, “fobia do autoritarismo” (cf. Fromm, 1992; Viana, 2024).

[2] O que é diferente em certos gêneros e subgêneros, como o sertanejo e o chamado “brega”, além da apologia da “ostentação” no “funk” brasileiro e “sertanejo universitário”, por exemplo.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:






segunda-feira, 3 de abril de 2023

Revista Poeticus, num. 10 Online!

 

v. 6 n. 10 (2022): Revista Poeticus - Revista de Poesia, Arte e Reflexões 10

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Revista Poeticus - Revista de Poesia, Arte e Reflexões. Vol. 06, num. 10, 2022.

Publicado: 2023-04-03

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

CRUELDADE COM OS ANIMAIS E DESUMANIZAÇÃO EM “QUE CAÇADA!”, DE STEVE CUTTS

CRUELDADE COM OS ANIMAIS E DESUMANIZAÇÃO EM “QUE CAÇADA!”, DE STEVE CUTTS

O vídeo de Steve Cutts, Que Caçada! (What a hunt! 2013), é um vídeo criado no Photoshop & After Effects e inspirado, segundo o próprio Cutts informa, pela cobertura realizada pelo capital comunicacional (meios oligopolistas de comunicação) da caçada feita por Melissa Bachman na África do Sul. Melissa Bachman é uma apresentadora de TV dos Estados Unidos e tem como passatempo a caçada (veja notícia no The Guardian clicando aqui, em inglês).

O vídeo realiza uma crítica não apenas a um indivíduo concreto, no caso, Melissa Bachman, mas também a todos que são insensíveis ao ponto de matar animais sem nenhum motivo além do próprio prazer da caça.


Usando diversas imagens de personagens animais, especialmente da Disney e Hannah Barbera, que povoa a imaginação infantil e dos adultos que recordam sua infância (especialmente os desenhos animados de Hanna Barbera), e mostrando cenas de O Rei Leão, bem como personagens como Zé Colmeia, Pernalonga, Pumba e Timão, entre diversos outros, Cutts lança mão dos sentimentos despertados pelos animais e personagens para alertar contra a crueldade com os animais e a futilidade de indivíduos que matam (animais) por prazer.


Uma das imagens que aparece no vídeo de Steve Cutts é a de Melissa Bachman ao lado de um leão morto...

...no caso, Simba, de O Rei Leão, que reproduz a foto divulgada por ela.

Assim, o processo de humanização do mundo, que se inicia com a formação do ser humano, passa a ser permeado por muitas contradições oriundas das sociedades de classes, e, no capitalismo contemporâneo, se realiza um processo de desumanização. O vídeo de Steve Cutts mostra um aspecto dessa desumanização, no qual um passatempo e necessidade de aparecer, tira vida de animais sem nenhum motivo (não se trata de defesa, necessidade de alimentação, etc. e sim mero capricho produzido socialmente e marcado pela futilidade). O ser humano, como já dizia Marx, humaniza o mundo através da práxis (trabalho teleológico consciente) e da socialidade fundada na liberdade e igualdade, e assim também humaniza a natureza. A relação do ser humano com a natureza através da destruição gratuita mostra um processo de desumanização.

O único problema do vídeo encontra-se em seus créditos, pois além da autoria coloca que é em apoio aos direitos dos animais. A ideia de “direito” (o que, no sentido jurídico, remete ao que se denomina “direitos subjetivos” ou, ainda, direitos individuais), é, em si, problemática, e “direito dos animais” é algo sem sentido. O direito, nesse sentido, é o reconhecimento da capacidade de exigir no interior do aparato jurídico burguês e cuja efetividade depende de diversas determinações e cuja solicitação pode ou não ser justa. O seu grande problema é que o chamado “direito subjetivo” é a sua aceitação e simultânea legitimação da legalidade e do aparato jurídico. O direito dos animais é apenas uma extensão disso ao reino animal.

Independentemente disso, o vídeo mostra o processo de desumanização e coisificação, ou seja, como determinadas pessoas desenvolvem uma consciência coisificada, pois a crueldade com animais apenas mostra que o mundo circundante é composto por “coisas” sem valor, pois apenas o hedonismo e o narcisismo constituídos socialmente e encarnados em Melissa Bachman é que tem valor para ela.  

Vídeo “Que Caçada!”, de Steve Cutts:


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