
O Indivíduo diante do Subjetivismo
Nildo Viana
Isso tudo gera mais isolamento, solidão, sensação de
fracasso, entre outros processos, que possuem efeitos psíquicos já
identificados na sociedade e podem ser vistos em seus sintomas de “depressão”,
ansiedade, suicídio, entre diversos outros. A competição, a mercantilização e a
burocratização dominam também o mundo virtual da internet e gera os mesmos
problemas, inclusive para os movimentos sociais. A burocratização e
mercantilização dos movimentos sociais não só geram um processo de cooptação e
moderação, como também gera processos internos burocráticos e mercantis (Viana,
2016). Os demais aspectos, incluindo os culturais e psíquicos, também se
reproduzem internamente e em suas ações externas, sendo mais um obstáculo para
o seu desenvolvimento e passagem da hegemonia burguesa para a hegemonia
proletária. Por outro lado, em política institucional (partidos, políticos
profissionais, etc.) e nos movimentos sociais (nos seus setores hegemônicos)
passa a dominar o populismo e o oportunismo, bem como, em certos setores, o medo
e a covardia em desafiar os novos lugares-comuns das correntes predominantes de
opinião e das ideologias hegemônicas.
Alguns pesquisadores refletiram sobre
alguns desses elementos há muito tempo, embora, obviamente, eles vêm se
aprofundando cada vez mais. Desde Christopher Lasch – autor de A Cultura do
Narcisismo (1983) e O Mínimo Eu (1986) – até chegar a Enrique Rojas
– autor de O Homem Moderno – A Luta Contra o Vazio (1986) –,
trabalhando sobre as questões psíquicas, há uma percepção da força do
narcisismo, do vazio, do neoindividualismo, entre outros problemas. Da mesma
forma, as análises dos problemas sobre identidade, desde Jock Young (2002) –
Autor de A Sociedade Excludente – até os atuais críticos (com os seus
limites) do “identitarismo”, bem como os alertas de Nancy Fraser (2018) e
diversos outros, chegando a Elisabeth Badinter (2020), há uma percepção, mesmo
que limitada e sem uma reflexão mais profunda sobre suas raízes, da situação
gerada no capitalismo contemporâneo e algumas de suas consequências.
Essas obras, apesar de questionadoras e
avançarem mais do que os meros reprodutores do que é hegemônico e modismos, são
limitadas e não conseguem apresentar uma concepção mais ampla e profunda, pois
alguns não se livram totalmente do paradigma hegemônico ou não se fundamentam
em bases teórico-metódicas mais desenvolvidas, entre outros possíveis razões de
seus limites. Apesar disso trazem elementos que, desde que lidos e refletidos
criticamente, ajudam a compor um quadro totalizante do capitalismo contemporâneo,
que precisa ser complementado com diversos outros aspectos não tratados em tais
discussões[1].
O avanço do moralismo conservador não
pode ser compreendido sem a percepção da imposição do moralismo subjetivista,
bem como o que alguns chamam de “fundamentalismo religioso”, fortalecido e
aliado com o conservantismo, não pode ser compreendido sem essas e outras
mudanças culturais. E o moralismo conservador, que ganha adeptos até em lugares
inesperados (no caso brasileiro, o mais curioso é pessoas que gostam de rock e
MPB, que raramente assumem uma posição conservantista[2], com
suas mensagens críticas, que agora adotam tal posição moralista conservadora,
caindo em flagrante contradição), se reforça e gera insatisfação nos setores progressistas,
gerando um processo de polarização (muito bem explorado pelos partidos e
políticos profissionais para fins político-eleitorais e disputa de poder) moral
que gera extremismos e sentimentos antipáticos mútuos. O moralismo conservador
reforça e é reforçado pelo moralismo subjetivista, que também se encontra nesse
mesmo estado de ser fortalecido e de fortalecer o seu oposto. A polarização
moral (e a política) promove um processo de conflitos e animosidades
crescentes, gerando mais motivos para afastamentos e isolamentos. E isso atinge
até quem está fora da polarização, pois a irracionalidade acaba se tornando
predominante e quem não está de um lado é automaticamente acusado de estar do
lado contrário. Essa simplificação contribui para a reprodução da deterioração
das relações sociais no capitalismo contemporâneo.
O indivíduo nesse mundo hostil, cercado
por todos os lados, seja pelas relações sociais reais e concretas do
capitalismo (competição, burocratização, mercantilização), seja pelos seus
subprodutos culturais, gerando uma insatisfação generalizada convivendo com
processos de conflitos até nas relações que anteriormente significavam o espaço
de consolo, como a família, os grupos de amizades, e pequenas coletividades,
que agora estão perpassadas não só pela competição (que era parcialmente
reintegrada sob a forma humorística), mas pelo conflito moral e “político”. No
caso dos indivíduos das classes sociais inferiores, o problema é ainda mais
grave. Apesar de em certos setores parte dessas questões possuírem efeito
menor, as dificuldades da vida cotidiana com a precarização do trabalho, as
condições de vida desfavoráveis, a superexploração de diversos trabalhadores,
entre outros elementos, mostram um outro motivo para insatisfação. A
desumanização de proletários, serviçais, entre outros trabalhadores, gera um desgaste
físico e mental que promove uma insatisfação que pode vir a se manifestar
concretamente a qualquer momento (além das formas marginais e mais individuais
pelas quais isso ocorre).
[1]
Uma reflexão sobre os “ventos de falsidade” de Julian Marías (2003) e diversas
outras obras poderiam ser citadas. Não deixa de ser interessante destacar que
Erich Fromm, em suas últimas obras, já havia percebido os males do subjetivismo
emergente, tal como “a doutrina do mínimo esforço”, “hedonismo radical”, “egoísmo
do culto do eu”, “fobia do autoritarismo” (cf. Fromm, 1992; Viana, 2024).
[2]
O que é diferente em certos gêneros e subgêneros, como o sertanejo e o chamado
“brega”, além da apologia da “ostentação” no “funk” brasileiro e “sertanejo
universitário”, por exemplo.


