O Ovo da Serpente está chocando
Nildo Viana
E o que isso tudo significa? Aqui
podemos utilizar uma metáfora de orientação psicanalítica marxista. A sociedade
capitalista se assemelha a uma panela de pressão. Ela não explode por criar
válvulas de escape. Porém, no regime de acumulação integral e mais ainda mais
recentemente, com sua desestabilização, a pressão aumentou muito e o capital e
seus aparatos (e especialmente, mas não unicamente, o estatal) vem fechando as
válvulas de escape. Quando Denis Papin criou a “marmita de Papin” (panela de
pressão), colocou uma válvula de segurança e outra para controle de pressão. Na
nossa metáfora, a sociedade capitalista é uma panela de pressão prestes a
explodir e por isso gerou mais do que duas válvulas de escape. E ultimamente
vem fechando-as. Assim, quanto maior é a repressão dos indivíduos, maior é a
sombra, a energia destrutiva acumulada que pode explodir a qualquer momento.
A sociedade capitalista com a vigilância
intensiva, burocratização e controle social extensivo e intensivo, moralismo
progressista subjetivista, polarização moral e política, sentimentalismo, entre
outros elementos, está fechando várias válvulas de escape. A superexploração,
precarização e marginalização de milhões de pessoas é outro aspecto desses
processos. A miséria psíquica e a miséria material são algumas das
consequências do regime de acumulação integral.
Isso alerta para o problema da explosão
de violência que pode ocorrer numa sociedade sem esperança e utopias, por um
lado, e sem perspectivas para milhões de indivíduos, por outro. Se não há
“luz no fim do túnel”, não “há nada a se perder”. Os ingênuos podem pensar que os jogos de
videogame violentos geram violência e por isso querem coibir tais jogos. O que
eles não sabem é que tais jogos são violentos por causa de uma sociedade que
gera violência e destrutividade e que eles são uma válvula de escape, pois
descarregam sua agressividade no plano lúdico e que, impedir isso, gera mais
agressividade (é um novo impedimento e repressão, bem como uma forma a menos
para poder extravasar a energia destrutiva) e a busca por outro lugar para
descarregar a energia destrutiva acumulada.
O sentimentalismo é um subproduto do paradigma subjetivista que atinge
mais as gerações mais novas, pois a socialização após a instauração do regime
de acumulação integral e a hegemonia subjetivista, geram pessoas com
pouquíssima capacidade de frustração e resistência, o que faz parte de um
processo de imaturalização da população. Alguns vídeos que circulam na
internet, embora possam fazer parte da dubiedade informativa, tal como a de um
rapaz de uns vinte anos que dá um “chilique” após um acidente de carro, ou
diversos outros sobre crianças e jovens que mostram não suportar a mínima
contrariedade, é apenas um sintoma desse processo que é reforçado por discursos
como da “empatia”, “liberdade de expressão”, etc. O problema não está em
valorar os sentimentos, mas sim no seu exagero e na imaturalização que lhe
acompanha[1],
o que gera um despreparo para enfrentar o mundo hostil de uma sociedade fundada
na luta de classes e competição social. Esse processo de imaturalização é
contraditório e problemático tanto para o movimento revolucionário quanto para
a reprodução da atual sociedade, o que gera o movimento contrário, tal como as
recentes ações no exército chinês e afirmações de Zuckerberg, sem deixar de
lado outras posições contrárias mais antigas, a começar pelo conservantismo e
similares. A ameaça de guerra pode inverter isso, mas para muitos será um pouco
tarde e trágico. Sem dúvida, existem interesses governamentais, eleitorais,
partidários e econômicos por detrás disso, mas é uma faca de dois gumes.
É sempre possível aparecer os argumentos, simplistas e reducionistas, de
que os atos de violência cometidos por aqueles que jogavam videogames comprovam
sua influência nesse sentido, mas isso só é possível subtraindo vários aspectos
da realidade. Dez casos que ocorrem num total de 50 milhões de indivíduos que
jogam videogame violentos é tido como explicação de algo muito mais complexo.
Desses milhões que jogam videogame, alguns indivíduos possuíam uma sombra mais
forte e outras questões específicas individuais, alguns poucos cometeram atos
de violência. O que restaria explicar, já que o jogo seria o responsável, por
qual motivo os outros milhões não fizeram o mesmo. Sem dúvida, alguns poucos
por causa da repressão e por maior estabilidade psíquica, outros por possuírem
compensações além das válvulas de escape (relações afetivas, pertencimento de
classe e satisfações substitutas, etc.). Porém, ainda restaria explicar
milhares de casos que não se converteram em atos de violência e que isso não
poderia ser reduzido ao videogame. E, resta saber, se os jogos violentos de
videogame sendo banidos, quantos mais não chegariam ao seu limite e cometeriam
atos de violência? E o problema maior é quando esses possíveis indivíduos
violentos não exercem apenas atos individuais, mas encontram um “líder”,
geralmente ao serviço do capital, para lhes mandar fazer o serviço sujo.
A sociedade capitalista vem aumentando a
motivação para que um quantum cada vez maior de indivíduos aumente sua
sombra e, ao mesmo tempo, cada vez mais fecha as válvulas de escape, ou seja,
dificultam o extravasamento das energias destrutivas (sombra). Assim, se não
bastasse o burocratismo no trabalho e nas escolas, a competição desenfreada
nesses e outros lugares (internet, família, esporte, lazer, etc.), a
necessidade e busca capitalista pelo aumento da produtividade, a
mercantilização intensiva, entre outros processos geradores de insatisfação e
sombra, ainda gera o moralismo subjetivista e tudo que lhe acompanha, assim
como seus subprodutos (semelhantes e opostos), imposição de leis e controles
ainda mais intensos na vida cotidiana e na vida privada, a intolerância com a
religião e o fanatismo religioso, entre diversas outros processos sociais em
vigor, fechando mais válvulas de escape. O seu subproduto que é o
fortalecimento do reacionarismo (seja o conservantismo puro ou sua aliança com
o neoliberalismo, seja o neonazismo que já existia antes na Europa e se
fortalece nessa região e nos Estados Unidos) e o acirramento de polarização
despolitizada num contexto de busca de certezas num mundo de incertezas,
desequilíbrios psíquicos graves, etc., gerando mais conflitos e problemas na
sociedade.
[1]
A imaturalização difere da imaturação. A imaturação é um processo normal que
ocorre com as crianças que avançam no sentido da maturação. A imaturalização,
ao contrário, é uma fabricação artificial de imaturação (Anderson, 2021;
Epstein, 2023).

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