Rádio Germinal

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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

"Goiânia", música sobre a capital de Goiás



"Goiânia",

Edmilson Marques.

Composição: Edmilson Marques e Nildo Viana



"Goiânia"


Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Rever a Praça do Bandeirante

O herói com espada e espingarda

Que lavou o ouro com o sangue

dos índios que exterminou com sua gangue

 

Passar na Praça Cívica do monumento

Três raças e apenas uma classe

de trabalhadores buscando alento

O suor que gera alimento para outro estamento

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Quando estou em Luziânia

Quero voltar para Goiânia

Quando telefono para a Tânia

Sinto saudade de Goiânia.

 

Quanto estou com insônia

Fico pensando em Goiânia

Mas quando saio com a Sônia

Não converso sobre Goiânia

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Ir até o zoológico e o Mutirama

Onde o trabalhador esquece o drama

Da exploração e da vida cotidiana

E da trama que produz tanta grana

 

Vamos nos perder nas avenidas

Por onde passaram tantas vidas

Anhanguera, Goiás e Araguaia

Lugar de comércio, carros e tocaia

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

O bom e o mau gosto e desgosto

de braços dados, eternos aliados

Vendo o mendigo exposto

e o rico escondendo o rosto

 

E ver gente bonita, arte e rock

No shopping o dinheiro dá o toque

Mas o mercado não mata a vida

Que insiste em ser vivida

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

No Serra Dourada ver Goiás e Vila

O tigre e o grito da cidade

Uma bela fuga da realidade

Ver a dor e alegria que lá desfila

 

Terra de batalhas e guerras

Onde o pensamento se rebela

Inspiração para uma nova era

Que o mundo tanto espera

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!




sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Especial sobre Juventude na Rádio Germinal


Para ouvir músicas sobre juventude, com comentários, acesse Rádio Germinal, domingo, 11 horas. Ou assista os reprises na segunda-feira ou sabádo seguinte.

Programa Overdose Musical:
http://radiogerminal.com

domingo, 10 de junho de 2018

Ruptura Cultural - Dia 30 de junho


https://www.facebook.com/Ruptura10/

Ruptura Cultural é um evento misto que visa produzir uma ruptura cultural. Show musical, lançamento de livros, oficina e varal de fanzines, exposição e muito mais! Integrando várias manifestações culturais num mesmo dia e ato. Compareça!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Rádio Germinal - App no Google Play


Acesse e faça o download do aplicativo da Rádio Germinal para seu celular. Através dele poderá ouvir a Rádio Germinal, acessar diretamente músicas e vídeos musicais de Edmilson Marques, bem como acesso a novidades, postagens, textos, reflexões sobre música, canal do youtube da Rádio Germinal, etc.

Para baixar o app, clique neste link:

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O CAPITAL FONOGRÁFICO E A FORMAÇÃO DO GOSTO MUSICAL


O CAPITAL FONOGRÁFICO E A FORMAÇÃO DO GOSTO MUSICAL

Nildo Viana*

A formação do gosto musical é algo pouco discutido teoricamente e nas ciências humanas. O processo de formação do gosto é social e não individual, tese que só seria defensável no mundo das ideologias. Obviamente que tais ideologias existiram e ainda continuam existindo. Aqui vamos trabalhar com a formação social do gosto musical e do papel do capital fonográfico na sua constituição[1], o que nos leva a discutir inúmeras outras questões, como valores, gostos distintos e grupos sociais distintos, entre outros.

O gosto, em geral, pode ser pensado sob duas formas: o espontâneo e o refletido[2]. O gosto espontâneo é aquele no qual os indivíduos desenvolvem sem maiores reflexões, por familiaridade, acessibilidade, compartilhamento social. O gosto refletido é aquele no qual os indivíduos se informam, relacionam com outros aspectos da vida social, usa os valores fundamentais como critério para suas escolhas, etc. Obviamente que no gosto espontâneo, o preconceito, as idiossincrasias e outras determinações também atuam, mas sem um processo reflexivo. No caso do gosto refletido, essas determinações também atuam, mas geralmente sob a forma racionalizada. No caso do gosto musical, esse processo se manifesta da mesma forma.

Nesse sentido, o gosto dos indivíduos é formado socialmente, mas como os indivíduos possuem uma singularidade psíquica (VIANA, 2011a; VIANA, 2013), uma história de vida única, então as chamadas idiossincrasias são elementos diferenciadores na constituição do gosto. No caso do gosto musical, deixando de lado as diferenças individuais, que existem, mas que não são coisas metafísicas, são elas mesmas produtos sociais, é possível entender a sua formação num nível mais geral, no caso dos grupos sociais. Pensar no gosto musical da população é algo problemático, tendo em vista que não há homogeneidade neste gosto. Neste sentido, é interessante perceber que o gosto musical é composto por diversas camadas que expressam um grupo social ou diversos grupos/classes sociais.

Assim, podemos realizar algumas divisões para analisar o gosto musical, sendo a principal divisão entre grande público, composto pelas classes exploradas e dominadas em geral (proletariado, lumpemproletariado, campesinato, pequenos proprietários, subalternos, etc.) e setores menos privilegiados das classes privilegiadas[3], bem como setores destas interessados ou oriundos das classes exploradas[4] e público intelectualizado, composto por indivíduos das classes privilegiadas e por indivíduos das classes exploradas que conseguem uma determinada escolarização ou formação intelectual. O que predomina, no primeiro caso, é o gosto musical espontâneo e, no segundo, o refletido.

No entanto, é possível perceber subdivisões nos dois casos. No caso do grande público, a subdivisão ocorre mais em casos regionais (no caso brasileiro, existem variações ligadas a estado, cidade, bairros de regiões metropolitanas, etc.), ação do capital fonográfico em determinados setores da sociedade (classes, grupos, etc.), etc. Assim, no interior de São Paulo e de Goiás, a música sertaneja[5] sempre teve os seus aficionados, enquanto que no Pernambuco há aqueles que preferem o frevo e no Rio de Janeiro o samba tem um público permanente.

No caso do público intelectualizado, há o gosto musical dos especialistas (músicos, compositores, etc.), ou seja, da subesfera musical[6], bem como daqueles que compartilham tal gosto por sua influência e legitimidade socialmente conquistada, o que geralmente é dominante na sociedade neste setor. O critério fundamental nessa subesfera é a técnica e a forma. A música clássica é o exemplo maior nesse caso, mas que se reproduz, com diferenças, no interior da música popular também. Acontece que nesse público se forma outros gostos musicais, muitas vezes compartilhando suas preferências, outras vezes recusando e elaborando outros critérios para definição do que é considerado bom. No caso, os valores dominantes da subesfera musical apontam para a técnica e a forma, a tradição musical, etc. enquanto que alguns setores intelectualizados vão, partindo de outros valores, erigir outros critérios de qualidade musical, tais como a crítica social, o vínculo com as raízes histórico-culturais, o nacionalismo, etc. Algumas “facções”[7] são constituídas também. Esse é o caso de grupos de indivíduos que elegem determinadas preferências a partir de grupos unificados por um estilo de vida (punks, emos, etc.), por relações de amizade, por compartilhamento de gostos, etc. Além de grupos mais restritos, de gosto unificado e delimitado a um gênero, banda, cantor, etc., há outros mais amplos, que possuem gosto unificado, mas que vai além de um gênero ou outro elemento, embora sejam mais frágeis e cujo elemento unificador é mais a amizade que gera compartilhamento e reprodução de um mesmo gosto musical (seja um conjunto de músicas, gêneros, cantores, ou critérios de julgamento e formação de gosto).

Em síntese, o gosto musical é distinto no interior da população e podemos pensar em dois grandes blocos, o do grande público, que constitui a maioria da população, e o público intelectualizado, composto principalmente pelos indivíduos das classes privilegiadas. Existe uma subdivisão no interior destes grupos e, inclusive, certos setores que são “intermediários”, tal como parte da juventude pertencente às classes desprivilegiadas, que possuem um gosto que muitas vezes diverge do gosto dominante nestas, devido ao vínculo com outros jovens (de outras classes, através dos meios oligopolistas de comunicação, etc.). Nesse caso, alguns mesclam o gosto dominante do grande público com o do público intelectualizado, outros aderem a este e abandona o primeiro. Despois dessa breve análise da distribuição social do gosto musical, podemos discutir o papel do capital fonográfico na sua formação.

O Capital Fonográfico e a Formação do Gosto Dominante

O capital fonográfico é constituído pelas gravadoras de música, grandes empresas que com seu desenvolvimento se tornaram oligopolistas. O capital fonográfico oligopolista mundial conta com grandes gravadoras como a Universal, EMI, Sony, Warner, Indie Recors, entre diversas outras, que são as mais importantes também no mercado brasileiro, contando com algumas empresas oligopolistas brasileiras, como a Eldorado e Som Livre. O capital fonográfico oligopolista tem toda uma estrutura de produção, distribuição e divulgação articulada com outros setores do capital comunicacional (“indústria cultural”), tais como redes de televisão, emissoras de rádio, imprensa, etc. e com o capital comercial, tal como grandes distribuidoras, lojas, etc. Nesse contexto, o grande capital fonográfico não somente tem uma capacidade de produção muito mais elevada que o pequeno capital, como também tem uma estrutura de divulgação e distribuição muito superior e acaba sendo um das principais determinações da formação do gosto dominante do grande público e, em menor grau, do público intelectualizado.

Esse processo se realiza através do processo de gravação, já que o capital fonográfico seleciona o que vai gravar e, portanto, escolhe os músicos, gêneros, cantores, bem como influencia no processo de gravação. Além disso, uma vez que o cantor ou cantora, banda, etc., pretende ter sucesso, há a busca em se adequar à dinâmica do capital fonográfico (o que significa se adequar às suas exigências) e do capital comunicacional (inclusive alguns sem perceber, mas querendo o sucesso, produz aquilo que está sendo divulgado e aceito pelo grande público – ou, em alguns casos, pelo público intelectualizado). Ao selecionar o que é produzido em matéria de música, oferece um universo de escolhas limitadas e ao privilegiar e gravar uma maior quantidade de determinado tipo de música, torna o processo de escolha por parte do público ainda mais limitado.

A sua influência também se manifesta no seu poder de distribuição e divulgação, através do capital comercial e outros setores do capital comunicacional. A televisão e o rádio assumem um papel fundamental nesse processo (sendo reforçado por outros). A quantidade de músicas gravadas é muito maior do que a de músicas conhecidas pelo público. Isso se deve ao fato de que as antigos Long Plays (LPs) ou os atuais Compact Discs (CDs) possuem uma quantidade determinada de músicas, geralmente dez, mas são divulgados uma ou duas músicas, e apenas no casos dos cantores já consagrados um número maior. A escolha de quais faixas serão divulgadas e terão primazia no disco também é determinada pelo capital fonográfico. O capital fonográfico usa seus critérios para realizar tais escolhas e estes interferem tanto no conteúdo da música (mensagem) quanto na forma (melodia, arranjo, interpretação, etc.). Por conseguinte, não se espera de uma dupla sertaneja nada além da interpretação tradicional (a não ser que se crie um “derivado” com diferenciação, tal como o chamado “sertanejo universitário”), e o que se quer são refrãos repetitivos e coisas que supostamente seriam do gosto popular, que, contudo, é o gosto dominante imposto pelo capital fonográfico que se reproduz na população, tornando-se “popular”. Nesse sentido, a produção de músicas triviais é a preferência do capital fonográfico, por ser uma fórmula mais fácil de sucesso e isso reforça tal preferência como gosto dominante no grande público. As emissoras de rádio são influenciadas pelo capital fonográfico e, além disso, muitas delas pertencem a eles ou fazem parte de algum aglomerado do capital comunicacional, contando com gravadora, emissoras de rádio e TV[8].

A presença das músicas na televisão é outra fonte de popularidade. A Rede Globo, devido sua audiência, que em outras épocas foi maior, exercia uma forte influência na produção dos sucessos, com as trilhas sonoras de novelas, programas musicais que existiram ou ainda existem (Globo de Ouro, Cassino do Chacrinha, Domingão do Faustão, Fantástico, etc.). As outras redes de TV, algumas inclusive possuem público específico e menos exigente, realizam processo semelhante e colocam em evidência cantores e músicas de pior qualidade ainda, tal como nos programas de Silvio Santos e semelhantes, bem como as redes “educativas”, que possuem um público telespectador muito menor (TV Cultura, por exemplo), que trabalham geralmente com músicas complexas, atendendo ao gosto musical do público intelectualizado.

A força do capital fonográfico se manifesta quando ele resolve emplacar um produto, pois nem todos recebem a mesma atenção, inclusive em sua ação sobre as emissoras de rádio. O caso dos Beatles nos anos 1960, citado por Jambeiro (1975, p. 8) apenas exemplifica esse processo:
         A criação de um ídolo para o público, no que se refere às gravadoras é a mais agressiva possível e bastante comercial. Quando do lançamento dos Beatles no Brasil, por exemplo, a gravadora que os lançou chegou ao ponto de conseguir de todas as rádios que tocassem, num determinado dia, às 9 horas da manhã, todas juntas, somente o disco de lançamento dos Beatles. Ao mesmo tempo, todas as lojas de disco, nas mesmas cidades, faziam a mesma coisa, o que inundou os ouvidos de grande parte da população brasileira com o som do ruidoso conjunto.
Capital Fonográfico e Grande Público

Essa ação tem uma eficácia enorme principalmente junto ao grande público. A razão disto é que, como colocamos anteriormente, o seu gosto é mais espontâneo e, por conseguinte, mais influenciável pela repetição, familiaridade, clima social, simplicidade, etc. e, portanto, mais próximo da música trivial. A influência do capital fonográfico sobre outros setores do capital comunicacional (rádios, TVs, revistas, jornais, etc.) criam um processo marcado pela repetição das mesmas músicas, criando um clima social de que tais músicas são as da moda e que a maioria gosta, o que é reforçado pela familiaridade e simplicidade das mesmas, uma exigência das gravadoras para sua seleção, pois o grande público adere mais facilmente a tais formas musicais. Os modismos e a fabricação de ídolos são algumas das estratégias mais utilizadas pelo capital fonográfico.

A criação de modismos emerge com o Rock and Roll, que era uma moda voltada principalmente para o público jovem em geral[9]. O que existia antes eram produções musicais para públicos específicos e canções populares para o grande público, mas sem uma renovação rápida, o que passa a ser presente com as mudanças do capitalismo no pós-segunda guerra mundial, com a formação do regime de acumulação conjugado, que em suas interpretações ideológicas ficou conhecido como “sociedade de consumo”. Esse processo foi avançando com o tempo. Os modismos criam um vínculo geracional, pois ele atinge principalmente a juventude. Esse foi o caso da música disco no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, no qual tal gênero musical era importado dos Estados Unidos e tinha seus copiadores nacionais, sendo inclusive tema de novela da Rede Globo, Dancin’ Days. A referida novela teve forte impacto, pois a disco music aparecia constantemente não só na trilha sonora, mas na própria temática da novela, com diversas cenas em discotecas (época das mesmas e das matinês para crianças), no seu título e música de abertura, cantada pelo grupo As Frenéticas. A trilha sonora internacional trazia várias músicas do gênero e a nacional tinha até a roqueira Rita Lee entrando na moda, mas de forma irônica, o título da música era “Agora é moda”.

A fabricação de ídolos é outra estratégia do capital fonográfico. No caso brasileiro, isso ocorre desde Carmem Miranda e as “grandes vozes” (Silvio Caldas, Vicente Celestino, Francisco Alves, etc.), mas o processo de criação de ídolos se torna muito mais eficaz após 1945, especialmente nos anos 1950 e 1960. Elvis Presley foi o primeiro grande exemplo e The Beatles foi o segundo. Elvis Presley era um produto direcionado para um novo e amplo mercado consumidor, a juventude[10], e por isso a dança frenética, a irreverência e rebeldia foram elementos utilizados, ao lado do uso expressivo de outros setores do capital comunicacional, especialmente o cinema, já que este cantor estrelou diversos filmes, aliado com outras estratégias, como grandes shows, televisão, etc. Já o caso de The Beatles mantinha muitas semelhanças, bem como diferenças. Apesar das diferenças, tais como o capital comunicacional estar muito mais desenvolvido e o quarteto ser inglês, o sucesso também foi estrondoso e o capital fonográfico teve um papel fundamental.

No caso brasileiro, o maior exemplo é a cópia brasileira do rock norte-americano com a chamada “Jovem Guarda” e, principalmente, Roberto Carlos. Obviamente que num contexto marcado pela oposição entre bossa nova, por um lado, e a canção de protesto, por outro, a emergência da Jovem Guarda, e também do tropicalismo, aumenta a variedade e marca um processo de substituição, pois os últimos acabam superando os primeiros. A música trivial, mais adequada ao gosto espontâneo, ganha espaço nesse contexto e Roberto Carlos é escolhido para ser o grande ídolo fabricado brasileiro, uma experiência do tipo Elvis Presley, mas sem a voz, estilo, entre outras características, do mesmo. A escolha foi péssima, pois a voz de Roberto Carlos é horrível e sua irreverência se limitou a algumas músicas bem simplistas (tipo “Calhambeque”; “Splish, Splash” e “Pega Ladrão”), sem falar de que o rock (dele e da Jovem Guarda) era risível.

A fabricação de Roberto Carlos como ídolo seguiu a fórmula de Elvis Presley, que ficou conhecido como “Rei do Rock”. Em programa de TV, na Rede Tupi, no início de sua carreira, Roberto Carlos era apresentado como “Elvis Brasileiro”. A ideia de transformá-lo em “rei” tem essa origem e acabou sendo reproduzido por muitos, em que pese apesar de suas vendagens expressivas, sempre teve um público bastante oposto a ele, e por razões bens distintas da oposição a Elvis Presley, pois este era acusado de cantar música negra, entre outras questões sociais, enquanto que o problema de Roberto Carlos era geralmente a má qualidade de suas músicas e/ou seu conservadorismo político, expresso em suas letras de músicas (inexpressivas e que não saiam do romantismo brega) e outras práticas concretas, tal como no seu show no Chile onde agradece ao ditador Augusto Pinochet e sua relação amistosa – e segundo alguns documentos, “colaboração” – com o regime militar. No entanto, o programa de TV da “Jovem Guarda” (TV Record, 1965-1968), apresentado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, era uma fórmula que deu resultados, inclusive maiores do que dos seus concorrentes[11].

Desta forma, o gosto dominante do grande público é formado principalmente pelo capital fonográfico aliado aos demais setores do capital comunicacional. Obviamente que existem outras determinações que ultrapassam a força do capital fonográfico. Muitos indivíduos do grande público têm acesso ao que é produzido para o público especializado e alguns mudam ou mesclam suas preferências anteriores com as novas oriundas desse contato. O sentimento nostálgico, de músicas do passado que relembram acontecimentos, sentimentos, etc., também é uma determinação mais individual e ligada à história do indivíduo[12], bem como seus contatos sociais e informações sobre música e sociedade. As músicas também podem despertar sentimentos e ao fazê-lo também promove o gosto por ela. Os jovens e os que pretendem trabalhar no ramo musical, oriundo do que foi chamado “grande público”, também se aproximam do gosto do público intelectualizado, seja parcialmente ou de forma mais ampla. A época e as ressonâncias das lutas sociais, os valores de cada grupo ou indivíduo dentro do grande público, a formação intelectual, entre diversos outras determinações, além das divisões já aludidas, tal como as regionais, dificulta o reino absoluto do capital fonográfico. Isto sem esquecer os equívocos que os responsáveis pelo capital fonográfico podem cometer, tal como a tentativa frustrada de retomada da bossa nova após o fim do boom do rock brasileiro em meados dos anos 1990, forçando inclusive roqueiros a produzir músicas nesse gênero (Rita Lee, Lobão, Lulu Santos, etc.), o que foi um fracasso.

Capital Fonográfico e Público Intelectualizado

O capital fonográfico e seus aliados do capital comunicacional também atua sobre o público intelectualizado. Nesse caso, a influência é menor e os agentes da subesfera musical acabam sendo fortes influências nas ações do capital fonográfico. Contudo, os interesses dos artistas venais ligados diretamente ao capital comunicacional e dos outros, ligados às estruturas de produção e reprodução do capital fonográfico, provoca em vários setores (compostos por aqueles que são hegemônicos e estabelecidos na subesfera musical) a política de “boa vizinhança” com os mais comerciais. É por isso que poucos entraram em confronto com Roberto Carlos, por exemplo, tal como o fez Sérgio Sampaio em sua música “Meu Pobre Blues” ou, recentemente, Caetano Veloso, no caso mais específico a respeito da questão das biografias não-autorizadas. No caso da música sertaneja, não deixa de ser engraçado como Lulu Santos fez a crítica e depois voltou atrás, embora Guilherme Arantes, agora em 2013, criticou e até agora não se arrependeu.

O público intelectualizado é mais dividido do que o grande público. Alguns preferem música clássica, outros MPB, Jazz, etc. Entre os mais jovens, o Rock ainda ocupa grande espaço, bem como surgem facções com variados gostos musicais, formado desde por fã clubes até grupos caracterizados por estilo de vida, sem falar nos saudosistas que formam grupos de gosto referentes às músicas mais antigas (por cantor, época, gênero, etc.). Esse processo de diferenciação tem a ver com a classe social, frações de classes, nível de formação intelectual, idade, geração, atividade profissional, até chegar às diferenças mais individuais, as mesmas que atuam também sobre o grande público. Mas como o gosto musical do público intelectualizado é mais refletido, então as músicas complexas são preferidas em relação às músicas triviais. Obviamente que as músicas complexas não possuem homogeneidade e seu nível de complexidade varia, bem como algumas músicas triviais[13] acabam conquistando também parcela do público intelectualizado, mas sendo mais comum as que se destacam ou possuem algum diferencial.

O público intelectualizado possui como determinação do seu gosto musical a racionalidade, o que gera critérios específicos para julgar, avaliar e gostar de músicas, de acordo com determinados valores. O hegemônico nesse público é o que a subesfera musical define como qualidade e o aspecto técnico-formal torna-se o fundamental. Esse formalismo e tecnicismo gera uma concepção elitista, o que é comum num setor de tal público. Até intelectuais renomados, como Theodor Adorno (2008), demonstram uma concepção elitista de música. Outros setores elegem como critério a criticidade das músicas, embora muitos de forma ambígua, usando-o apenas para justificar seu gosto geralmente irrefletido. No entanto, esse é um dos critérios do público intelectualizado e a ênfase, ao contrário da concepção elitista, recai é na mensagem, no conteúdo, e não na forma ou técnica. Para algumas concepções mais extremas, até mesmo a desqualificação da forma e técnica é realizada, como em algumas manifestações musicais e de gosto. Uma outra vertente já apresenta um conjunto de critérios por enfatizar a totalidade da música, embora colocando como essencial o conteúdo, ou seja, sua mensagem, de caráter crítico, no sentido de uma utopia concreta.

Por detrás de cada uma dessas preferências, se manifestam valores. No primeiro caso, revela-se um gosto axiológico, pautado nos valores dominantes, enquanto que nos demais revela-se um gosto axionômico, ou seja, fundado em valores autênticos[14]. Grupos mais restritos podem escolher gênero, cantor, banda, etc., e o critério, nesse caso, tem a ver com uma tradição criada pelo grupo (ou pelo capital fonográfico, região, etc.) ou fundada na história da música, etc., e os valores que motivam isso pode ser o nacionalismo, regionalismo, rebeldia, entre outros.

O capital fonográfico produz estratégias específicas para atingir tal público, sendo que o principal é o discurso da qualidade, aliado ao formalismo e tecnicismo, e muitas aliando isso com outros elementos, para criar uma ponte com o grande público. No entanto, o capital fonográfico elege públicos específicos e existem gravadoras especializadas em determinadas produções musicais, não só para o grande público, mas também para o público intelectualizado. Existem emissoras de rádio especializadas em Rock, Country, Jazz, MPB, etc., assim como para o grande público existem emissoras especializadas em sertanejo, “jovem” ou “pop”, etc. Da mesma forma, existem aquelas que querem atingir o maior número possível do público intelectualizado, sendo, portanto, ecléticas ou priorizando a suposta qualidade, expresso no formalismo/tecnicismo.

Contudo, esse público intelectualizado que escolhe seu gosto musical de forma racionalizada, nem sempre o faz através de amplas reflexões. Muitos conhecem muito pouco de história da música, gêneros, técnica, sentimentos ou emoções despertados, etc., e geralmente seguem as opiniões surgidas de supostas “autoridades” no assunto (seja os agentes da subesfera musical, seja indivíduos que fazem discurso sobre qualidade ou técnica nos meios oligopolistas de comunicação), sendo que ambos são acessíveis principalmente através do capital comunicacional (jornais, revistas, rádio, TV e, em menor grau, livros), embora uma parte seja nas instituições de ensino (universidades, por exemplo) ou mesmo amizades consideradas “cults” ou entendidos no assunto. A razão para tal incorporação de gosto musical remete aos valores dominantes e a necessidade de “distinção”, para usar termo de Bourdieu (2007). Ou seja, na competição social, algo estrutural da sociedade capitalista (VIANA, 2008), algumas pessoas querem se destacar e vencer e uma das formas de conseguir isso é mostrando superioridade intelectual, o que pode ser demonstrado por possuir um gosto pautado numa suposta “qualidade”, em saber técnico, em opinião de pessoas cultas ou especializadas[15]. Contudo, a aparência de inteligência revela, na essência, a ignorância.

Considerações Finais

O gosto musical individual é constituído socialmente, seja ele qual for. Mesmo o setor mais refletido do gosto musical do público intelectualizado tem sua formação social. O gosto musical manifesta valores incorporados, tal com a técnica, a crítica, a tradição, a nação, a região, a voz, a interpretação, a letra, a melodia, o gênero, emoções ou sentimentos despertados, etc. e isso vale para o mais complexo e “refinado”. Por isso, nada mais ilusório do que aqueles indivíduos que não fazem autorreflexão e autocrítica sobre seu gosto (musical e qualquer outro), julgando que ele é uma mônada, um mundo isolado, autossuficiente e autoproduzido e, pior ainda, que é superior e indiscutível. Inclusive essa última pretensão é mais um produto da competição social e da mentalidade burguesa (VIANA, 2008).

Da mesma forma, recusar a influência do capital fonográfico no gosto individual é ilusório, pois o que varia é o seu grau. Outro problema é o relativismo, ao considerar que todo gosto musical é equivalente, pois eles manifestam interesses, valores, representações, sentimentos, etc., que são expressões de distintas perspectivas de classe e, por conseguinte, não são neutras e nem equivalentes, servem para objetivos e projetos distintos, desde aquele que é fascista até o que é expressão da luta pela emancipação humana, aqueles que servem para entorpecer e os que servem para desenvolver a consciência.

O gosto musical, portanto, deve ser compreendido e analisado não para promover o seu domínio pela razão instrumental, o que seria querer generalizar a preferência de parte do público intelectualizado. O tecnicismo e o formalismo são as bases de um elitismo tão pobre e torpe quanto qualquer concepção conservadora. A música é uma totalidade e sua qualidade só pode ser avaliada levando isso em consideração (VIANA, 2007), bem como entendendo que o seu conteúdo é o essencial e elemento principal de avaliação, embora não único. Uma música que passa uma mensagem excelente, com teor crítico e elaborado, mas sua forma (interpretação, arranjo, melodia, etc.) é mal elaborada, é, comparativamente, inferior em qualidade a uma outra que tanto conteúdo quanto forma são bem estruturadas.

Por fim, é fundamental entender que o gosto musical é formado socialmente e que o capital fonográfico tem um papel importante em sua formação. Os indivíduos precisam ter consciência de que seu gosto musical não é natural, que brotou em sua cabeça a partir do nada, de algo inato ou de algo metafísico como um “mundo interior” de caráter místico. O desejo de liberdade não deve promover a confusão entre o ideal e o real. A ilusão de liberdade é um reforço para a reprodução da falta de liberdade e o reconhecimento da não-liberdade é um primeiro passo para sua realização.


Referências

ADORNO, Theodor. Escritos Musicales IV. Madrid: Akal, 2008.

BOURDIEU, Pierre. A Distinção. Porto Alegre: Zouk, 2007.

BOURDIEU, Pierre. Gostos de Classe e Estilo de VidaIn: ORTIZ, Renato (org.). BourdieuSão Paulo: Ática, 1994.

DIAS, Marcia Tosta. Os Donos da Voz. Indústria Fonográfica Brasileira e Mundialização da Cultura. São Paulo: Boitempo, 2000.

JAMBEIRO, Othon. Canção de Massa – As Condições da Produção. São Paulo, Pioneira, 1975.

VIANA, Nildo. A Dinâmica da Violência Juvenil. São Paulo: Ar Editora, 2014a.

VIANA, Nildo. A Esfera Artística. Marx, Weber, Bourdieu e a Sociologia da Arte. 2ª edição, Porto Alegre: Zouk, 2011b.

VIANA, Nildo. Introdução à Sociologia. 2ª edição, Belo Horizonte: Autêntica, 2011a.

VIANA, Nildo. Juventude e Sociedade. No prelo. 2014b

VIANA, Nildo. O Papel do Indivíduo na História. Cadernos de História. Belo Horizonte/PUC-MG, 2013.

VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília, Thesaurus, 2007a.

VIANA, Nildo. Para Além da Crítica dos Meios de Comunicação. In: VIANA, Nildo (org.). Indústria Cultural e Cultura Mercantil. Rio de Janeiro: Corifeu, 2009.

VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta, 2008.





* Professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás e Doutor em Sociologia/UnB.

[1] Não vamos discutir aqui de forma aprofundada o conceito de capital fonográfico ou o conceito de capital comunicacional. Para ficar compreensível o que queremos dizer entenda-se pelo primeiro termo o que comumente se chama de “indústria fonográfica” e pelo segundo “indústria cultural”, apesar das diferenças de concepções e, por conseguinte, de terminologia. Sobre “indústria fonográfica” existe uma certa bibliografia, com destaque para Dias (2000) e sobre capital comunicacional é possível consultar Viana (2009).

[2] Não há espaço para uma discussão sobre as diversas definições e concepções de gosto. Aqui apenas esclarecemos que em nossa perspectiva gosto significa disposição afetiva favorável a um ser, objeto, pessoa, obra de arte, etc. Nesse sentido, o gosto tem elementos sentimentais e racionais, sendo que em alguns casos o peso maior é dos sentimentos e no segundo da razão. O gosto musical, portanto, é a disposição afetiva favorável a determinadas músicas, cantores ou cantoras, bandas, gêneros, etc.

[3] As classes privilegiadas são a burguesia e suas classes auxiliares, especialmente a burocracia e a intelectualidade.

[4] Os setores interessados são aqueles que produzem ou ganha com determinada produção musical, como é o caso dos cantores de música trivial (“brega” e músicas simples em geral). No segundo caso, temos, como exemplo, os “novos ricos” ou pessoas oriundas das classes exploradas que conseguem uma ascensão social (sob as mais variadas formas, desde o sucesso inesperado em algum programa televisivo, tal como um Reality Show, passando pela sorte na loteria ou por processos sociais mais amplos que permitem ascensão de um contingente maior de pessoas). Em ambos os casos, os indivíduos mudam de classe social, mas não possuem a cultura da classe a qual passam a pertencer, mantendo sua cultura anterior, mesmo que mesclando alguns aspectos.

[5] Nada mais falso do que a ideia de Goiânia é uma cidade que tradicionalmente tinha vínculo com música sertaneja. Isso foi um produto do capital comunicacional a partir dos anos 1980, que, graças a sua ação acabou influenciando o gosto musical de parte da população, inclusive muitos que explicitamente não gostavam deste tipo de música.

[6] A esfera artística, assim como as demais, pode ser dividida em subesferas, e no seu caso, há a subesfera musical, teatral, literária, quadrinística, etc.

[7] Ao invés de usar termos como “tribos” ou “guetos”, preferimos “facções”, retirando-lhe o sentido militar ou pejorativo. As facções são grupos informais reunidos em torno de uma causa, estilo de vida, valores, gostos, posições políticas, crenças religiosas, etc. O termo tribo é descontextualizado, pois é manifestação das sociedades tribais e sua adaptação ao caso da sociedade moderna é problemática, assim como gueto, esse último para tratar dos grupos que abordamos aqui.

[8] O caso mais conhecido e famoso é o das organizações globo (e suas reprodutoras regionais, embora poucas possuam gravadoras), que além da Rede de TV, emissoras de rádio, jornais, editora, também possui a gravadora Som Livre, responsável pelas trilhas sonoras das suas novelas. A maior gravadora brasileira, a Eldorado, é do Grupo Estadão.

[9] Claro que isso não se refere ao Rock como um todo e nem em relação aos seus produtores mais críticos, mas o foco aqui é o capital fonográfico e este que possibilitou a explosão desse gênero musical e sob esta forma.

[10] A juventude é um grupo social constituído na sociedade capitalista (VIANA, 2014a) e tem como uma de suas características atribuídas à rebeldia (VIANA, 2014a; VIANA, 2014b) e o rock, com sua irreverência, crítica ou ironia, dependendo da época, banda, etc. acaba sendo a forma ideal de música para tal grupo.

[11] Na época havia o programa dos representantes da bossa nova, O Fino da Bossa (TV Record, 1965-1967), apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues, que acabou perdendo espaço para eles, bem como, na sequência, o programa dos representantes da Tropicália, Gilberto Gil e Caetano Veloso, Divino Maravilhoso (TV Tupi, outubro-dezembro de 1968, pois o programa foi cancelado devido exílio dos apresentadores pelo regime militar), entre outros.

[12] É um caso individual que afeta aos indivíduos em geral, sob formas e com intensidades diferentes. O capital fonográfico também se aproveita disso, tal como se pode perceber no lançamento (e sucesso) de Stars On 45, fazendo medley ou pout pourri, ou seja, mistura de músicas selecionadas de um cantor/a, banda, estilo, etc. O Stars On 45 fez medleys dos Beatles, Bee Gees, Aba, Boney M, Disco Music, músicas dos anos 1970 e dos anos 1980, entre outros. Mas o capital fonográfico ganha mais hoje com o avanço tecnológico que permite a aquisição de músicas antigas e permite grandes vendagens, tal como ocorre com as músicas dos anos 1960. 1970 e, principalmente, 1980 e os diversos CDs lançados com coletâneas desse período demonstra isso. Obviamente que isso tem a ver com a perda de qualidade e sucessão mais rápida dos modismos realizada pelo capital fonográfico e o desagrado do público de gerações anteriores.

[13] As músicas triviais são aquelas que são mais simples, seja nas letras, melodias, arranjos, interpretação, geralmente em mais de um desses elementos simultâneos. Não se deve confundir músicas triviais com músicas “cafonas” (termo usado na década de 1970 e generalizado pela novela com o nome “Cafona”), ou “bregas” (termo utilizado a partir do início dos anos 1980 e popularizado pela Rede Globo principalmente via sua novela, “Brega Chique”, de 1987), pois estas são músicas de determinado tipo, consideradas de “mau gosto”, seja devido a um romantismo simplório, obscenidade, exageros visuais, vocais, etc. As músicas complexas, como o nome já diz, são as que a complexidade é maior em seus elementos, seja em um ou vários (letra, melodia, arranjo, interpretação). Existem algumas músicas que ficam num plano intermediário. Algumas buscam mesclas intencionalmente, como Eduardo Dusek na MPB em algumas de suas produções, especialmente seu LP “Brega Chique” (1984). Em outros casos, é o espírito rebelde ou intenção crítica que gera isso, tal como no Punk Rock, onde elementos de músicas triviais (e até alguns que seriam considerados de música brega, tal como alguns trechos de música dos Garotos Podres, para citar apenas um exemplo) se encontram presentes. Não deixa de ser curioso o desdém de certos intelectuais pela música “cafona” ou “brega” apelando para a concepção de indústria cultural de Adorno, sem perceber que até as palavras que usam são produtos desta e que, portanto, não estão tão em oposição a ela como pensam.

[14] Sobre axiologia e axionomia, cf. Viana (2007), e a respeito dos critérios escolhidos para o gosto e o que se considera de qualidade, veja o capítulo “valores e qualidade”.

[15] Isso atinge até algumas pessoas das classes desprivilegiadas, mesmo que apenas formalmente, tal como no caso de um operário que diz gostar de música clássica apesar de não entendê-la, tal como se pode ver em pesquisa realizada por Bourdieu (1994).
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Publicado originalmente em:
http://redelp.net/revistas/index.php/rel/article/view/4viana17/142

sábado, 12 de dezembro de 2015

Revista Sociologia em Rede, número 05, online!



v. 5, n. 5 (2015)

Revista Sociologia em Rede 05


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

"Dilma", Um Rock Bolero


Abaixo a mais nova música de Edmilson Marques, o Rock-Bolero "Dilma", um uso irônico do bolero para realizar crítica social:


sábado, 11 de outubro de 2014

Demagogia

Boa música para o período eleitoral. Para ouvir essa e outras músicas, ouça Rádio Germinal.


Demagogia


Dão nas vistas em qualquer lugar
Jogando com as palavras como ninguém
Sabem como hão-de contornar
As mais directas perguntas

Aproveitam todo o espaço
Que lhes oferecem na rádio e nos jornais
E falam com desembaraço
Como se fossem formados em falar demais

Demagogia feita à maneira
É como queijo numa ratoeira

P’ra levar a água ao seu moinho
Têm nas mãos uma lata descomunal
Prometem muito pão e vinho
Quando abre a caça eleitoral

Desde que se vêem no poleiro
São atacados de amnésia total
Desde o último até ao primeiro
Vão-se curar em banquetes, numa social

Demagogia feita à maneira
É como queijo numa ratoeira



Letra e música de Luís Pedro Fonseca

Álbum Perto de ti, Lena d’Água 1982

quinta-feira, 9 de junho de 2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Tropicalismo - A Ambivalência de um Movimento Artístico



TROPICALISMO: A AMBIVALÊNCIA DE UM MOVIMENTO ARTÍSTICO

Nildo Viana

O presente trabalho busca apresentar uma interpretação do Tropicalismo enquanto fenômeno histórico e social do mundo artístico. A hipótese que buscaremos confirmar aqui é a de que o Tropicalismo se caracteriza pela ambivalência. Não se trata da idéia de que o Tropicalismo unia o arcaico e o moderno e sim de que ele era um movimento artístico ambivalente. A união do arcaico e do moderno é apenas a expressão na obra de uma ambivalência existente no próprio movimento, que, ao contrário do que colocam certas teses, não era nem “revolucionário” nem conservador.
Antes de buscar fundamentar esta hipótese, iremos apresentar uma abordagem sobre o método de análise. Este é um ponto fundamental. É a partir daí que iremos buscar interpretar o movimento tropicalista. A partir da discussão em torno do método será possível verificar o que nos propomos no presente trabalho: explicar o Tropicalismo e isto implica em ultrapassar as visões formalistas que buscam apenas descrever o seu processo de construção das letras e melodias.
A nossa explicação do Tropicalismo parte tanto de sua contextualização histórica, que explica a razão de ser de sua existência e de seu posicionamento, quanto da análise das letras das músicas, que explicita qual era este posicionamento.
Para efetivar esta análise, partiremos do método dialético para reconstituir as determinações deste fenômeno e seu significado. Dedicaremos o primeiro capítulo para apresentar as bases teórico-metodológicas que apresentam relevância para fornecer o processo de explicação do tropicalismo. Isto é importante tendo em vista que a maioria dos textos e obras sobre música popular não ultrapassam a descrição, ficando na superfície do fenômeno. A discussão metodológica se torna necessária para superar a aparência do fenômeno e revelar sua essência.
O segundo capítulo apresenta uma discussão sobre as condições de possibilidade do tropicalismo e seu caráter ambivalente. Assim, a constituição social e histórica do tropicalismo é apresentada, bem como sua concepção esteticista. A reconstituição da formação histórica do tropicalismo e de sua concepção de arte é fundamental para perceber o seu caráter ambivalente, tal como é desenvolvido nos capítulos seguintes.
O terceiro capítulo aborda a relação entre tropicalismo e política, isto é, o posicionamento políticos dos integrantes do movimento em contexto histórico marcado por conflitos políticos, ditadura militar, e uma forte presença da esquerda oficial no meio estudantil e junto à intelectualidade. Assim, as disputas políticas e estéticas aparecem mescladas e isto contribui para a percepção do caráter ambivalente do tropicalismo.
No quarto capítulo buscamos comprovar nossa hipótese da ambivalência do tropicalismo através da análise das letras de algumas das músicas mais representativas do movimento tropicalista, bem como as que se revelavam opostas, o que reforça a tese da ambivalência.
Assim, o tropicalismo recebe uma análise que parte da totalidade deste fenômeno artístico, colocando o processo social e histórico de sua constituição, o clima e disputas políticas e estéticas, o papel dos meios oligopolistas de comunicação, as ideologias estéticas, a relação com a política da época, algumas das principais interpretações deste movimento, e a análise de algumas das principais letras musicais produzidas pelos tropicalistas. Assim, o procedimento descritivo ou que parte apenas de interpretações arbitrárias das letras, através do isolamento fantástico delas, não é realizado aqui, e sim uma análise da totalidade do fenômeno.

Veja abaixo o livro completo:

Tropicalismo - A Ambivalência de um Movimento Artístico
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Livros de Nildo Viana disponibilizados na internet

Sobre Arte

Música e Crítica Social

domingo, 23 de janeiro de 2011

Tropicalismo e Política


TROPICALISMO E POLÍTICA
Nildo Viana*

A relação do tropicalismo com a política é bastante complexa e é isto que permite as mais variadas interpretações. O período histórico em que ele existiu foi marcado pela agitação política. Para alguns, o tropicalismo era conservador. Para outros, ele era revolucionário. Para um terceiro grupo, ele era rebelde. Ocorre, porém, que um movimento artístico não pode ser três coisas ao mesmo tempo. Podemos dizer que é retomando o significado original dos autores que podemos apresentar uma “interpretação correta” (Hirsch)[1] do fenômeno tropicalista. Porém, como se trata de um movimento e não de apenas um autor e tal movimento pode ter em seus componentes posições e ligações políticas diferentes, então a análise é dificultada. Entretanto, a orientação estética do movimento lhe fornece uma determinada unidade também no que diz respeito a política. A relação entre arte e política é vista de acordo com a ótica da autonomia da primeira. Do ponto de vista político, a grande maioria não tinha posições definidas. Gilberto Gil e Caetano Veloso deram depoimentos afirmando que não compreendiam bem o que se passava no mundo político da época.
Sem dúvida, o tropicalismo influenciou o desenvolvimento das lutas políticas. Gilberto Gil, numa entrevista, ao responder a questão colocada pelo entrevistador, que perguntava (comentava) se (que) o tropicalismo não era apenas um movimento musical, pois dava um “corte muito vertical nas coisas”, respondeu que o tropicalismo
“era Insight da realidade brasileira. E mais que na brasileira, na coisa do mundo todo, cê tá entendendo? O que cercava a gente, não era mais... Uma cidade como São Paulo é uma cidade brasileira, mas tem o mundo todo dentro dela, tem tudo, pôxa, o que que há? Paris tá um pouco aqui dentro. Nova York tá um pouco aqui dentro, Londres, Tóquio, cê tá entendendo? Roma, Milão tá aqui dentro. Essas coisas. E a informação de fora chegando, obrigando a gente a tomar atitudes diante disto, a responder a essa inflação de informação e etc., etc., etc.”[2].

Antes de comentarmos tais colocações, devemos citar outro trecho, onde o entrevistador coloca que o tropicalismo seria “bem global”, influindo na maneira de ver e sentir, onde Gilberto Gil responde: “exato, porque ele falava dos costumes, de tudo, do comportamento. Questionava ao nível da alma brasileira. Obrigava as pessoas a tomar outras posições, a rever... então era incômodo. Não que a gente tivesse intenção[3]. Estas afirmações deixam claro que ao nível dos costumes e do comportamento, os representantes do tropicalismo não tinham a intenção de transformar nada e que eles foram constrangidos a dar uma resposta a esta nova situação mundial. Este constrangimento foi imposto inclusive pela imprensa e pela interpretação do movimento. A própria entrevista que colocamos demonstra este constrangimento, onde o entrevistador quer apresentar o tropicalismo como sendo mais “global” do que realmente pretendia ser. A primeira questão feita parte da afirmativa de que o tropicalismo dava “um corte muito vertical nas coisas” e a resposta de G. Gil foi não no sentido que o entrevistador queria dar à sua colocação e sim no sentido de ser um “insight da realidade brasileira e mundial” e por isso o entrevistador refez sua questão, afirmando que o tropicalismo era “bem global” e que “influía na maneira de agir e sentir” e somente neste momento que Gilberto Gil confirmou o que o entrevistador queria ouvir, já colocado na primeira pergunta (sobre o “corte mais vertical”). Daí apresentamos a nossa hipótese da ambivalência do tropicalismo: ele era um movimento artístico esteticista que foi constrangido pela situação histórica mundial e nacional a assumir um caráter constestador, que ultrapassava sua pretensão esteticista.
Neste sentido, não é possível apresentar o tropicalismo como sendo conservador, rebelde ou revolucionário. A letra de uma mesma música fornece munição para “fundamentar” tal interpretação. É o que ocorre, por exemplo, com Alegria, Alegria, de Caetano Veloso. Ela é considerada (ao lado de Tropicália e Geléia Geral) como uma das mais representativas músicas do tropicalismo. Sendo assim, nela deveria estar contidos os elementos essenciais do movimento tropicalista. Este é um dos motivos, entre outros, de muitos estudiosos da MPB terem se debruçado sobre ela. As interpretações são diferentes e às vezes contraditórias. Reco­lhemos algumas das principais interpretações e apresentaremos alguns trechos delas juntamente com a reprodução da letra de Alegria, Alegria.
ALEGRIA, ALEGRIA
(Caetano Veloso)
caminhando contra o vento
sem lenço, sem documento
no sol de quase dezembro
eu vou
o sol se reparte em crimes
espaçonaves guerrilhas
em cardinales bonitas
eu vou
em caras de presidentes
em grandes beijos de amor
em dentes pernas bandeiras
bomba e brigitte bardot
o sol nas bancas de revista
me enche de alegria e preguiça
quem lê tanta notícia?
eu vou
por entre fotos e nomes
os olhos cheios de cores
o peito cheio de amores vãos
eu vou
por que não? por que não?
Ela pensa em casamento
e eu nunca mais fui à escola
sem lenço sem documento
eu vou
eu tomo uma coca-cola
ela pensa em casamento
uma canção me consola eu vou
por entre fotos e  nomes
sem livros e sem fuzil
sem fome sem telefone
no coração do brasil
ela nem sabe até pensei
em cantar na televisão
o sol é tão bonito
eu vou
sem lenço sem documento
nada no bolso ou nas mãos
eu quero seguir vivendo
                                       amor

eu vou
por que não? por que não?

A primeira interpretação afirma que o tropicalismo é um movimento artístico de caráter político-revolucionário. Segundo Cláudio Coelho, o tropicalismo apresentava uma nova concepção de revolução social em oposição à visão da “esquerda tradicional”:
“os tropicalistas, ao oferecerem uma versão da realidade brasileira alternativa à da esquerda, estavam, ao mesmo tempo, construindo uma versão alternativa da idéia de revolução. Entendo que os tropicalistas compartilhavam a visão da esquerda de que a produção artística devia estar associada a transformações revolucionárias, discordando da esquerda, apenas, no entendimento do que seriam estas transformações”[4].

A segunda interpretação é a que apresenta o tropicalismo como sendo um movimento rebelde. Segundo Heloísa Buarque de Hollanda e Marcos Gonçalves,
“Na canção de Caetano, a novidade de uma letra construída  a partir de referências ao cotidiano da cultura urbana, montando uma espécie de painel do fragmentário mundo das bancas de revista, das fotos e nomes, das espaçonaves e guerrilhas, iluminado pelo brasileiríssimo sol de quase dezembro (...). Notem-se, além da referência às mitolo­gias da comunicação de massa, a crítica musical, explícita na bem-humorada alusão à ‘canção que consola’ quando a MPB procura­va desenvolver uma retórica da revolta e a crítica comportamen­tal, influenciada pela atitude hippie de quem vai pelas ruas sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos. Certas problemáticas localizadas ¾ a família, o casamento, a roupa, o corpo, o amor, etc.  passavam a ser valorizadas e em certo sentido “politizadas” pela intervenção do grupo baiano, numa tentativa de recolocar o repertó­rio de preocupações tidas como legítimas ou prioritárias pelo pensa­mento de esquerda. Por que não?”.
 “entre a exi­gência política e a solicitação da indústria cultural, optou pelas duas. Ou melhor: pela tensão que poderia ser estabelecida entre esses pó­los. E aqui tanto o sentido dessas exigências quanto a adequação aos esquemas do consumo de massa foram objeto de um redimensiona­mento. Na opção tropicalista o foco da preocupação política foi des­locado da área da Revolução Social para o eixo da rebeldia, da in­tervenção localizada, da política concebida enquanto problemática cotidiana, ligada à vida, ao corpo, ao desejo, à cultura em sentido amplo. Na relação com a indústria cultural essa nova forma de con­ceber a política veio a se traduzir numa explosiva capacidade de pro­vocar áreas de atrito e de tensão não apenas no plano específico da linguagem musical, mas na própria exploração dos aspectos visu­ais/corporais que envolviam suas apresentações”[5].

Uma terceira interpretação coloca o tropicalismo como sendo um movimento conservador. Segundo José Ramos Tinhorão,
“...Alegria, Alegria, com seus versos finais: ‘sem lenço sem docu­mento/nada no bolso ou nas mãos/eu quero seguir vivendo/amor/eu vou/por que não?/ por que não?, colocava da forma mais clara a dis­posição de rompimento com as expectativas culturais e estilo de vida até então seguidos pelo autor, e que na verdade coincidia com o de tantos outros jovens da classe média dos grandes centros, desejosos de fugir pela via do individualismo, do descomprometimento políti­co e do escapismo hippie à falta de perspectivas e mediocridade do mo­mento histórico posterior ao movimento militar de 1964: sem lenço (porque, desligado do passado, não haveria lágrimas para secar), sem documento (uma vez que nada devia identificar o indivíduo com o sistema), nada no bolso ou nas mãos (quer dizer, ‘sem livro e sem fuzil’, ou sem responsabilidade ideológica ou política, como indicava outro verso da mesma canção), eu quero seguir vivendo/amor (ou seja, fugindo egoísta e hedonisticamente às responsabilidades soci­ais), o que desde logo ¾ antes tantos apelos à disponibilidade total ¾ explicava o último verso em forma de pergunta-sugestão: por que não? por que não? ”.
“O grande erro de perspectiva do poder mi­litar, ao insurgir-se contra a irreverência  e o deboche do tropicalis­mo, através da medida política de expulsão de Caetano Veloso e Gil­berto Gil, foi não perceber que, afinal, a pro­posta dos baianos corres­pondia exatamente, no plano cultural, ao da filosofia de atualização tecnológica programada pelo movimento de 1964 no plano econômico”[6].

O objetivo da exposição destas interpretações  é dar uma visão geral de como um movimento ou uma letra de música pode ser interpretada de forma diferente. No caso de Alegria, Alegria, o que se vê é a afirmação de que ela expressa uma visão revolucionária, rebelde ou conservadora, depen­dendo de quem a interpreta e de que forma a avalia. Estas interpretações são equivocadas por que realizam um procedimento marcado pela sobreposição do caráter político sobre um movimento artístico esteticista. Se o tropicalismo fosse um movimento artístico engajado, este procedimento seria correto, pois neste caso o “motor” de sua ação seria a concepção política, mas por ser esteticista, tais interpretações são equivocadas.
No caso de Tinhorão, o tropicalismo é avaliado a partir de sua concepção nacionalista e é dentro desta perspectiva que o tropicalismo é interpretado. Assim, o que incomoda no tropicalismo é principalmente o uso de instrumentos elétricos (principalmente a guitarra) e a partir desta visão há uma interpretação simplista que coloca o tropicalismo como sendo “conservador” e homólogo ao imperialismo no plano da cultura. Daí se seleciona certos trechos da música, tais como “sem lenço, sem documento”, “sem livros e sem fuzil”, deixando de lado o resto da letra que coloca coisas que contradizem tal interpretação. Aliás, o autor selecionou o último verso mas poderia ter selecionado o primeiro, onde antes da expressão “sem lenço sem documento” se encontra a afirmação “caminhando contra o vento”, o que significa ir “contra” e não a favor. 
Além disso, a idéia de se condenar o tropicalismo pelo uso de instrumentos elétricos e admitir a influência do Rock é extremamente limitada, pois do ponto de vista político não se pode perder de vista que o rock enquanto melodia e o uso da guitarra sempre simbolizaram a rebeldia e, do ponto de vista mais geral, a subordinação do Brasil ao capitalismo superdesenvolvido se dava em todos os níveis da realidade brasileira, tais como tecnológico, cultural, etc., e isto ocorre desde o descobrimento do Brasil. Neste sentido, não é possível ficar defendendo um “purismo nacional”.
A interpretação do tropicalismo como movimento rebelde é precedido por um arcabouço metodológico da historiografia que apresenta a obra como identificada com algum elemento histórico contemporâneo, no caso o movimento hippie, e aí se abre a possibilidade de interpretá-lo como um “movimento rebelde”. Mas as letras das músicas não são tão “rebeldes” quanto parecem e junto com a “intervenção localizada” se apresenta várias referências à realidade política nacional e internacional demonstrando uma certa posição diante da questão social e política. A letra da música onde se vê o cotidiano também se vê falar em crime, guerrilhas, presidentes, etc., e as letras de Tropicália, Soy Loco Por Ti América, entre outras são mais claras nas referências políticas. Estas referências a questões políticas ultrapassavam o universo do cotidiano. No caso de Soy Loco Por Ti América a letra deixa entrever uma posição bem mais radical (segundo C. Coelho ela seria uma canção que “homenageia” Che Guevara) como se vê nas expressões “um poema ainda existe/com palmeiras com trincheiras/canções de guerra quem sabe...” principalmente se levarmos em consideração que um poema tinha um significado muito importante para os representantes do tropicalismo. Some-se a isto o ritmo cubano rumba utilizado na composição melódica e veremos o elogio da luta pela libertação nacional em Cuba.
A interpretação do tropicalismo como sendo “revolucionário” significa uma projeção de posicionamento e desejos para algo que se identifica, ou seja, significa uma vontade de “validar” o tropicalismo transformando-o em algo semelhante ao que se pensa. Sem dúvida, existem muitos elementos críticos nas letras das músicas tropicalistas mas não se pode dizer que se trata de uma nova concepção de revolução. Este exagero só pode ser explicado pela vontade de fazer o fenômeno cultural coincidir com a concepção política de quem o analisa.
A interpretação do tropicalismo como um movimento artístico revolucionário (no sentido político do termo) pode ser contestado, pois existem muitos elementos que desmentem tal concepção. Em primeiro lugar, para o tropicalismo possuir um caráter político-revolucionário seria preciso que os seus componentes tivessem tal posição política. É público e notório que nenhum dos componentes do movimento se considerassem revolucionários ou partidários de posições políticas radicais, seja anarquista, marxista, ou qualquer outra. Basta ver a afirmação de Caetano Veloso sobre a música É Proibido Proibir, a mais explícita música deste compositor em matéria de negação da sociedade burguesa, justamente por se inspirar na revolta estudantil de Maio de 68 em Paris:
“O episódio ‘É proibido proibir’ resume-se no seguinte: Guilherme Araújo, meu empresário, me mostrou na Manchete uma reportagem sobre os acontecimentos de maio em Paris que eu não quis ler pois tenho preguiça de ler. Lembro-me que ele mesmo virou a página e disse: é engraçado, eles pixaram coisas lindas nas paredes. Esta frase aqui é linda ¾ ‘é proibido proibir’. Eu falei. É lindíssima. Ele falou ¾ faça uma música usando esse negócio como refrão. Eu disse ¾ tá. Passou. Eu não fiz. Daí ele me cobrou. Eu disse, faço, fiz. Achei meio boba, mas bonitinha. Todo mundo na hora achou bonita. No dia seguinte eu já achava péssima. Até hoje só gosto do ritmo e de uma parte da letra que diz ‘eu digo sim, eu digo não ao não’. Veio o festival da Globo. Eu não tinha nenhuma música bacana pra botar. Nem muita vontade de entrar no festival. Só me convenci a concorrer quando decidi pegar aquela música que eu não gostava e fazer uma esculhambação com o festival. A canção foi escondida pelo happenning e pelas vaias. Sérgio Ricardo ficou intrigado nos bastidores ao ver minha alegria: ‘não entendo como vocês podem ficar tão contentes de serem vaiados’. Quando voltei para repetir a música já o Gil tinha sido desclassificado (o que me enfureceu porque eu achava o número dele genial) enquanto o meu ‘É proibido proibir’ tinha merecido do júri as melhores notas. Entrei no teatro decidido a dar um esporro. E dei. Disse que o júri era incompetente e a platéia burra ou coisa assim. Tá no disco” .

E acrescenta:
“até hoje me orgulho de tê-lo feito. E me congratulo comigo mesmo pelo fato daquela canção estar esquecida. De fato, falou-se muito do escândalo, mas o disco não vendeu e, de todas as canções que eu escrevi desde ‘Alegria, Alegria’ prá cá, ‘É proibido proibir’ é uma das menos conhecidas do público. Jamais admitirei que alguém a tome como típica do movimento tropicália ou do meu trabalho em particular”[7].

Neste sentido, apesar de podermos discordar da justificativa que Caetano Veloso deu de sua atitude no Festival da Globo, ele deixa claro que a música É Proibido Proibir não expressa sua concepção de mundo e nem suas concepções políticas. Desta forma, se quisermos recuperar o significado original da obra teremos que abandonar o procedimento acima utilizado e reconhecer que o tropicalismo possuía uma orientação esteticista.
A partir de agora buscaremos analisar o que significou este movimento. Segundo nossa hipótese, o tropicalismo, do ponto de vista político, não pode ser considerado conservador, rebelde ou revolucionário. As letras das músicas poderão colaborar para a fundamentação desta hipótese. Como não é possível analisar todas as letras de todas as músicas do movimento, então teremos que selecionar algumas. Quais são os critérios de seleção? O critério será a escolha das letras mais representativas do movimento, a saber: Alegria, Alegria e Tropicália.
Alegria, Alegria é uma das mais conhecidas músicas da tropicália. Assim como todas as letras do movimento, ela é de interpretação difícil devido ao seu caráter antropofágico, onde se mistura tudo. Como já reproduzimos a letra acima, não iremos reproduzi-la novamente, mas apenas comentar seus versos e analisá-la. Caminhar contra o vento pode significar ir “contra” tal como alguns intérpretes afirmam. Mas ao nosso ver isto não é tão evidente assim. Tal afirmação parece mais retomar a música de Chico Buarque, Roda Viva, que coloca em um de seus versos: “a gente vai contra a corrente/até não poder mais resistir”. Caminhando contra o vento pode ter o mesmo significado que caminhar contra a corrente ou então ser apenas expressão da mania tropicalista, tantas vezes alardeada, de montagem de coisas diferentes, fazendo sua mistura geral. Sem lenço, sem documento, que alguns interpretam como “descompromisso” pode significar “desprevenido”, ou seja, sem se importar com as conseqüências de sua atitude anterior (ir contra o vento). Mas também pode significar o contrário da afirmação anterior, ou seja, primeiro se diz que vai contra e depois esse contra é sem algo a oferecer de alternativo.  Lenço significa um recurso para enxugar as lágrimas e documento significa uma identificação. Neste sentido, esta interpretação parece ser a mais adequada. Caetano vai contra a corrente mas sem apresentar uma alternativa, e por que precisaria uma alternativa? O sol de quase dezembro significa que é o sol de quase final de ano e a idéia de final é bastante sugestiva. O sol do crepúsculo, ou seja, o sol que anuncia o seu próprio adeus. Por fim, afirma “eu vou”. Sim, neste contexto, de ir contra a corrente, desprevenido e sem apresentar uma alternativa, ele vai.
O sol do crepúsculo, que anuncia o seu próprio fim, se “reparte em crimes”, “espaçonaves guerrilhas” (sem virgula), “em cardinales bonitas”. O que significa tudo isto? Sem dúvida, há aqui uma referência ao crepúsculo marcado por crimes (que podem muito bem ser os da época, do governo militar) e “espaçonaves guerrilhas” e a união de espaçonaves e guerrilhas sem a virgula pode deixar entrever uma crítica ao movimento guerrilheiro na época que tomou uma atitude pouco realista de aderir a estratégia de guerra de guerrilhas e isto significa, segundo expressão popular, estar “no mundo da lua”, “voando”, e a imagem de uma espaçonave pode muito bem significar isto. Ao mesmo tempo que existe crime, guerrilhas fantasiosas e a aparência de que vai tudo bem como “cardinales bonitas” dá a visão de uma aparência, se afirma “eu vou”.  Em meio a tudo isto é preciso continuar a caminhar.
Caras de presidentes, grandes beijos de amor, dentes e pernas, bandeiras, bombas e Brigitte Bardot, são apenas uma nova referência ao mundo da aparência expresso pelas cardinales bonitas em meio a símbolos políticos, tal como bandeiras, bombas e presidentes. Dois tipos de símbolos que se misturam e retratam a realidade brasileira da época. Os símbolos da aparência enganadora juntos com os símbolos políticos parecem apresentar uma justaposição bastante comum nas músicas tropicalistas mas além disso parece querer desmascarar a aparência ao inserir os fatos políticos no seu meio.
O sol, segundo nossa interpretação, significa o crepúsculo e ele está reproduzido “nas bancas de revistas”, que noticiam crimes, guerrilhas, cardinales, Brigitte Bardot, bombas. E isto pode “encher de alegria” e “preguiça” e pergunta-se “quem lê tanta notícia”? Ora, aqui parece intervir a “subjetividade” do autor. As notícias lhe enchem de alegria (certamente alguns fatos noticiados e não todos, pois são de diferentes perspectivas) e preguiça (basta lembrarmos que Caetano afirmou ter “preguiça de ler” para observarmos isto) e a pergunta (sobre quem lê) reforça esta interpretação. Ele segue o seu caminho.
Fotos, nomes, olhos cheios de cores. É a diversidade já assinalada anteriormente e que é reproduzida pela indústria cultural que se encontra novamente presente aqui. Fotos, nomes, que refletidos nos olhos os enchem de cores. Importante parece a afirmação seguinte: “o peito cheio de amores vãos”. O que significa amores vãos? Significa a falta de convicção e o caráter vão dos amores que estão no peito e que apesar disso continua-se o caminho, e pergunta-se “por que não?”, ou seja, o que se pode argumentar contra? Aqui há um jogo de oposição: ela pensa em casamento (compromisso, responsabilidade) e eu nunca mais fui à escola (fugi das responsabilidades, do compromisso) e “desprevenido eu vou”. Quem é ela? Sem dúvida, a idéia deve estar relacionada com o texto anterior (muitos intérpretes pegam frases isoladas e determinam o conteúdo por esse processo de isolamento arbitrário que permite selecionar só o que se quer ouvir). Como foi colocado anteriormente, havia uma falta de alternativa, ou seja, caminhava-se contra o vento sem apresentar uma alternativa. No peito residia “amores vãos”. Mas surge aí alguém (“ela”) pensando em compromisso, em responsabilidades, em tomada de posição, em uma alternativa, em casamento. A cobrança sendo feita. Quem é ela? Ao que tudo indica a esquerda.
Tomar coca-cola pode simbolizar consumir algo estrangeiro, tal como as guitarras que tanta resistência causou à “esquerda nacionalista” da época. Tomar coca-cola simboliza a aliança entre a música brasileira e estrangeira. Caetano Veloso, acompanhado pelos Beat Boys, grupo argentino de iê-iê-iê que se apresentava nos programas da “Jovem Guarda” com suas guitarras, apresentavam no Festival de Música Popular Brasileira a idéia de aliança do arcaico e do moderno (presente não só nas letras das músicas mas também nos procedimentos dos representantes do tropicalismo), do nacional e do estrangeiro. Mas a “esquerda nacionalista” pensa em casamento, ou seja, em um compromisso com o nacionalismo e a canção de protesto. Uma canção me consola pode significar muito coisa. Para alguns, isto é uma referência à Jovem Guarda, que por ser “alienada”, “consola”; para outros é uma referência à Canção de Protesto, que expressava a impotência da “esquerda nacionalista”, que não podia fazer outra coisa a não ser se consolar com o protesto musical. Esta última interpretação parece ser a mais correta, pois pelo contexto parece ser uma crítica à “esquerda nacionalista” por se iludir com o protesto musical e querer fazer disso a nova forma obrigatória de “prática revolucionária”, exigindo um compromisso permanente com o protesto.
Novamente a referência a fotos e nomes, e se diz “sem livros” e “sem fuzil”, que significa sem concordar com a “esquerda nacionalista” e “livresca” que quer doutrinar através da música de protesto e sem concordar com a “esquerda armada” das guerrilhas. Também sem nome e sem telefone, ou seja, sem identidade política (novamente a falta de alternativa) e sem comunicação, contato. No “coração do Brasil”, pois a tropicália tem a ambição de “deglutir” a cultura brasileira através do que ela tem de melhor (seu “coração”, sua “essência”). Ela (a “esquerda nacionalista”) nem sabe que Caetano pensava em cantar na televisão, não só nos programas da Jovem Guarda e Buzina do Chacrinha, como no próprio programa do movimento tropicalista, chamado Divino Maravilhoso, que foi ao ar de outubro a novembro de 1968. Por fim, o sol novamente aparece agora como “algo bonito”, ou seja, a mistura geral expressa nas bancas de revistas que expressa o mundo conturbado da época ainda assim é considerado “bonito”. Por fim, desprevenido (sem lenço e sem documento), sem dinheiro (nada no bolso), sem bandeiras (nada nas mãos), Caetano quer seguir vivendo e vai seguindo seu caminho, e pergunta novamente: o que se pode argumentar contra?
Após esta interpretação dos fragmentos podemos retomar a idéia geral da letra. A letra tem como tema central a posição de Caetano e do tropicalismo como um todo referente a questão da arte e da política. O texto se caracteriza pela crítica ao nacionalismo da “esquerda” da época tanto no que se refere a questão da arte quanto no que se refere a questão da luta política em si mesma. Negava-se o nacionalismo cultural e defendia a busca de contribuições culturais da cultura estrangeira. Isto é bastante visível não só nas músicas mas também nas próprias afirmações de Caetano Veloso:
“algumas pessoas ficaram histéricas quando ouviram Alegria, Alegria com arranjo de guitarras elétricas. A estes, tenho a declarar que adoro guitarras elétricas. Outros insistem em que devemos nos folclorizar. (..). Nego-me a folclorizar meu subdesenvolvimento para compensar as dificuldades técnicas. Ora, sou baiano, mas a Bahia não é só folclore. E Salvador é uma cidade grande. Lá não tem apenas acarajé, mas também lanchonetes e hot dogs, como em todas as cidades grandes”[8].

Tais afirmações revelam a preocupação com o subdesenvolvimento e a vontade de superá-lo. Mas o problema é deslocado aqui da transformação social para o da superação do subdesenvolvimento, tal como é afirmado em outras oportunidades. O que deixa claro a posição de Caetano a respeito do nacionalismo. Ao mesmo tempo se vê a crítica da esquerda armada e da idéia de que não é necessário apresentar uma alternativa política, pois a arte é autônoma. Sobre isto as afirmações de Caetano são esclarecedoras:
“Já ouvi uma porção de bobagens sobre a bossa nova; já se falou que ela era música de apartamento, música de pequeno-burgueses e uma série de sociologismos imbecis que nem quero repetir”.
“Uma vez me perguntaram porque eu não fazia mais política, e eu respondi: você acha que o toque de violão do Baden Powel é da esquerda ou da direita? Porque uma coisa não tem nada a ver com outra. Tal ou qual opinião política não valida, como também não invalida, o trabalho de arte de ninguém”[9].

Isto não impede o tropicalismo de “caminhar contra o vento” e se opor tanto à “esquerda nacionalista” quanto à direita. Mas porque ir contra a direita? É aqui que se encontra a ambivalência do tropicalismo. Um movimento artístico esteticista que se pretende acima das questões políticas mas que não pode se desvencilhar do envolvimento político. Este envolvimento político fica mais claro em outras letras de músicas, tal como é o caso de Tropicália. A letra desta música apresenta o mesmo “método” de composição usual do tropicalismo. A mistura está presente e também o procedimento de dificultar a sua compreensão, ou seja, de decifrar os hieróglifos colocados. Isto revela uma das facetas do tropicalismo: ele sempre evitou colocar claramente suas concepções, pelo menos em suas letras de músicas e até mesmo em algumas de suas entrevistas e artigos para jornais e revistas. Mas independentemente disto, a letra de Tropicália, apresenta uma determinada visão política do período e assume uma postura contestadora. A seguinte parte da música, mais voltada para questões políticas, é esclarecedora: “eu organizo o movimento/eu oriento o carnaval/eu inauguro o monumento no planalto central do país” simboliza o autoritarismo do estado que comanda tudo, o movimento (expressão de significado amplo), o carnaval (a cultura) e inaugura um “monumento”, ou seja, entra para a história, pois um monumento significa uma obra ou construção que se caracteriza por tentar transmitir à posteridade a recordação de um fato ou pessoa e neste sentido Brasília ganha o rótulo de monumento que garantiu a entrada de um governo nos livros de história. O “eu” aqui é claramente o estado. Mas o monumento é defeituoso (assim como o movimento e o carnaval controlados pelo estado), pois ele “não tem porta”, sua “entrada é uma rua estreita e torta”. Quando se fala “no pulso esquerdo o bang-bang/em suas veias corre muito pouco sangue/mas seu coração balança a um samba de tamborim”, vê-se novamente uma crítica à “esquerda nacionalista” e à “esquerda armada”. O samba de tamborim expressa o nacionalismo arcaico dos adeptos da canção de protesto e o “bang-bang” reflete o caráter fictício do movimento guerrilheiro.  Outras referências políticas estão presentes no texto, mas estas são suficientes para os nossos propósitos. A mistura da cultura brasileira está presente: bossa, palhoça, fino da bossa (programa da bossa nova na TV), Luar do Sertão (de Catulo da Paixão Cearense), brisa nordestina, Ipanema, Iracema, “que tudo mais vá pro inferno” (Roberto Carlos), cinco mil autofalantes (a grafia correta é alto-falantes, mas ao invés de mero erro, mais parece ter sido intencional esta “troca” e neste caso o que se queria dizer é: cinco mil faladores/falantes da “esquerda” da época que falam de si mesmos ¾ por isso, auto, embora se refiram às classes exploradas), monumento moderno, banda (Chico Buarque), Carmem Miranda, etc., etc. E note-se também que a contracomunicação atua na letra da música escrita, onde há o abandono do uso das maiúsculas, tanto para nomes pessoais quanto para inícios de frases.
Há também as músicas mais politizadas, tais como algumas já citadas e Domingo no Parque, de Gilberto Gil; Um Sonho, do mesmo autor, entre outras. Mas a referência constante em certas letras a determinados objetos e assuntos lembram a idéia freudiana do “sonho recorrente”. Bombas, coca-cola, sol, indústria cultural, nacionalismo, etc., estão sempre presentes e fazem parte do universo cultural do tropicalismo. Enfim, as letras de músicas produzidas pelos representantes do tropicalismo demonstram uma mistura geral. Na base desta mistura geral havia a idéia de renovação estética fundamentada na concepção de autonomia da arte.
Onde está a ambivalência do tropicalismo? A nosso ver esta ambivalência pode ser vista no fato do tropicalismo ser um movimento artístico esteticista e ao mesmo tempo ultrapassar o seu próprio esteticismo e apresentar um envolvimento político que não correspondia aos seus objetivos intencionais. Além das letras de música confirmarem isto, pois Alegria, Alegria, Soy Loco Por Ti América, Um Sonho, Domingo no Parque, É Proibido Proibir, Marginália II, Tropicália, entre outras, apresentam uma contestação ao regime militar, o cotidiano e em alguns casos até mesmo a sociedade burguesa como um todo. O esteticismo é bastante evidente no tropicalismo e as declarações que apresentamos não deixa dúvida sob este aspecto. Mas ao lado do esteticismo existia a contestação política que levava a ultrapassar os limites estreitos do esteticismo. Mas o esteticismo subsistia e na música Baby se afirmava soberano.
Como caracterizar politicamente o tropicalismo? Nem esquerda nem direita? Talvez um movimento artístico contraditório do ponto de vista político, que apresentava elementos de ambas as posições políticas mas que predominava a contestação. Portanto pode ser considerado contraditório mas que no interior de sua contradição predominava a postura contestadora, sendo, pois, mais próximo da esquerda, embora não pudesse ser chamado de “revolucionário” (e nem mesmo de rebelde, o que pressuporia uma posição assumida). A orientação esteticista e a-política do movimento foi muitas vezes repetida pelos seus integrantes: “não me iludo e cansei de dizer que não tenho o menor interesse em política. Na época da faculdade achava esse assunto muito enjoado”[10].
A ambivalência do tropicalismo reside, portanto, no seu esteticismo ¾ que significa defender a arte pela arte, o que leva fatalmente ao apoliticismo ¾ e no seu envolvimento político através da contestação ¾ o que significa que se ultrapassava o apoliticismo. Os indivíduos que integravam o movimento tropicalista não possuíam posicionamento político definido e o movimento não tinha nenhuma orientação política mas acabou realizando uma ação política através de suas letras. Por quais motivos o tropicalismo se envolveu em questões políticas e tornou-se ambivalente? Algumas afirmações poderão elucidar isto:
“Realmente havia uma diferença entre os nossos interesses e os interesses de criação de uma cultura revolucionária e engajada no processo revolucionário que rolava na época. A gente precisou botar isso em questão, mais do que propriamente definir outra posição. (...). Mas essas questões do nacional e do engajado me interessavam mais naquela época. Todo mundo falava nisso e eu pra defender minha inspiração usava o jargão da época, às vezes até sem muito conhecimento. Na verdade a minha visão do panorama cultural era vaga e o que eu desejava também”[11].

Os representantes do tropicalismo foram “jogados” na arena política, mesmo sem ter muita consciência disto. Foi somente um conjunto de fatores históricos que constrange o tropicalismo a radicalizar e se envolver com a política. O fato da ditadura militar ter se instalado provocava a necessidade de posicionamento contra ela. O autoritarismo atingia também o mundo artístico e os valores “democráticos”, “liberais”, de “liberdade de expressão”, etc. O moralismo dominava o ambiente. Por isto, os representantes do tropicalismo não poderiam apoiar esta situação. No caso das modas artísticas isto era bem possível e os “restos” da jovem guarda não entraram em atrito com a ditadura. Roberto Carlos se tornou o Rei da Música Popular Brasileira e a música apologética passou a dizer que “o Brasil é um país que vai prá frente”, que “somos setenta milhões em ação, salve a seleção”, “eu te amo meu Brasil, ninguém segura a juventude do Brasil”, etc., etc.
Caetano Veloso afirmou que foi eleito, entre outros para representar os anseios da intelectualidade e de outros setores:
“Como Glauber (mais ou menos involuntariamente) tornei-me uma caricatura de líder intelectual de uma geração. Nada mais. Um ídolo para consumo de intelectuais, jornalistas, universitários em transe. Só que jogando sem grandes grilos nos apavorantes meios de comunicação de massas. Isso, creio, é o que fez com que se esperasse demais de mim. Na sua miséria, a intelectualidade brasileira viu em mim um porta-estandarte, um salvador, um bode expiatório”[12].

Mas, como observou J. R. Tinhorão, houve uma vontade de parte da população (que ele chama de “classes médias”) transformar os tropicalistas em “porta-voz” da sua insatisfação. Ele cita a passagem acima transcrita para confirmar isto. A imprensa reforçou tal fato. Mas existiam outros motivos. A própria resistência à ditadura acima citada. Assim, o caráter contestador do tropicalismo pode ser explicada por três motivos fundamentais: em primeiro lugar, o momento histórico e suas pressões sobre a arte, o que era mais forte ainda em um movimento artístico que queria realizar um “insight da realidade brasileira e mundial” (Gilberto Gil); em segundo lugar, um descontentamento de setores sociais (jornalistas, artistas, “classes médias”, etc.) que queriam ouvir uma mensagem contestadora da situação e incentivavam e interpretavam as manifestações culturais neste sentido; em terceiro lugar, a concepção esteticista e renovadora do tropicalismo (que se caracterizava por tentar antropofagicamente “deglutir” todas as contribuições culturais, realizando uma “geléia geral”) apontava para uma visão anti-autoritária da cultura e por conseguinte da relação entre política e cultura e da política em si mesma que entrava em choque tanto com a direita (ditadura militar, moralismo, etc.) e com a “esquerda da época” (nacionalismo estreito, intolerância, etc.).
Tudo isto levou o tropicalismo a se tornar um movimento contestador. Sendo assim, este conjunto de características fez do tropicalismo um movimento artístico ambivalente, que politicamente pode ser considerado contestador, e não conservador, rebelde ou revolucionário. Era contestador por que contestava mas não apresentava nenhuma alternativa ou seja não possuía nenhum projeto, sendo, pois, diferente da rebeldia (vista no movimento hippie, que propunha um novo modo de vida), do revolucionário (que propunha o “socialismo”, seja do tipo soviético, cubano, etc.). O tropicalismo contesta o mundo existente de sua época mas não apresenta nenhuma alternativa. Portanto, o tropicalismo era politicamente contestador e ao adquirir esta característica se tornou ambivalente, pois acabou seguindo por um caminho duplo: esteticista e contestador.


* Professor de Sociologia da AEUDF.
[1]Cf Woolf, Janet. A Produção Social da Arte. RJ, Zahar, 1981.
[2]Gil, Gilberto. Depoimento em 1972. In: Tropicália, 20 anos. Ob. Cit., p. 29, grifos meus.
[3]Gil, Gilberto. Ob. Cit., p. 29.
[4]Coelho, Cláudio. A Tropicália: Cultura e Política nos Anos 60. In: Tempo Social, 1(2), 159-166, 1989,
[5]Hollanda, H. B. & Gonçalves, M. A. Ob. cit., p. 58-59 e 66.
[6]Tinhorão, José Ramos. Ob. cit., p. 259 e 265.
[7]Veloso, Caetano. Apud. Franchetti, P. & Pécora, A. (Orgs.). Caetano Veloso - Literatura Comentada. São Paulo, Abril Cultural, 1981, p. 36.
[8]Apud. Coelho, C. Ob. cit., p. 167.
[9]Cit. por.: Tinhorão, J. R. Ob. cit., p. 257.
[10]Cit. por: Tinhorão, J. R. Ob. cit., p. 258.
[11]Cit. Por: Hollanda, H. B. & Gonçalves, M. Ob. cit., p. 85.
[12] Veloso, Caetano. Apud. Franchetti, P. & Pécora, A. Ob. cit., p. 35.

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Trabalho apresentado no Seminário: “Tropicalismo: a explosão e seus estilhaços”, UnB, 1997 e republicado no livro: VIANA, Nildo. Tropicalismo: A Ambivalência de um Movimento Artístico. Rio de Janeiro, Corifeu, 2007.
- O livro completo está disponível nesse blog: http://informecritica.blogspot.com.br/2018/01/livro-tropicalismo-ambivalencia-de-um.html e também neste link: http://2012.nildoviana.com/wp/wp-content/uploads/2012/09/Tropicalismo-A-Ambivalencia-de-um-Movimento-Artistico-Nildo-Viana.pdf

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