segunda-feira, 2 de maio de 2011

Indivíduo e Sociedade em Norbert Elias

nobert elias

INDIVÍDUO E SOCIEDADE EM NORBERT ELIAS

Nildo Viana*

Norbert Elias, em A Sociedade dos Indivíduos, realiza uma exaustiva análise da relação entre indivíduo e sociedade e busca apresentar, no interior desta análise, uma visão alternativa desta questão, superando tanto o “individualismo” quanto o “holismo”. O nosso objetivo aqui é apresentar uma abordagem crítica da “sociologia processual” de Norbert Elias, pois, ao nosso ver, o desenvolvimento da consciência humana ocorre através de um amplo processo marcado pela crítica, autocrítica, debate e contradições e, neste sentido, a mera contemplação manteria o saber no mesmo estágio, o que significa uma situação estática e isso é indesejável para o desenvolvimento da consciência humana.

A SOCIOLOGIA PROCESSUAL DE NORBERT ELIAS

Norbert Elias questiona o sentido usual dos termos “indivíduo” e “sociedade”. O que é o indivíduo? O que é a sociedade? Como se relaciona indivíduo e sociedade? São questões complexas que Elias busca dar uma nova resposta, contrapondo-se, assim, a duas concepções amplamente conhecidas: a “individualista” e a “coletivista” (ou “holista”). Até que ponto Elias consegue superar estas duas concepções? É isto que buscaremos descobrir mais adiante.

Elias resume as concepções individualista e holista da seguinte forma: “Parte das pessoas aborda as formações sócio-históricas como se tivessem sido concebidas, planejadas e criadas, tal como agora se apresentam ao observador retrospectivo, por diversos indivíduos ou organismos. Alguns indivíduos, dentro desse campo geral, talvez tenham certo nível de consciência de que esse tipo de resposta realmente não é satisfatório. É que, por mais que distorçam suas idéias de modo a fazê-las corresponderem aos fatos, o modelo conceitual a que estão presos continua a ser o da criação racional e deliberada de uma obra - como um prédio ou uma máquina - por pessoas individuais. Quando têm à sua frente instituições sociais específicas, como os parlamentos, a polícia, os bancos, os impostos ou seja lá o que for, eles procuram, para explicá-las, as pessoas que originalmente criaram tais instituições. Ao lidarem com um gênero literário, buscam o escritor que constituiu o que os outros seguiram como modelo. Ao depararem com formações em que esse tipo de explicação é difícil - a linguagem ou o Estado, por exemplo -, ao menos procedem como se essas formações sociais pudessem ser deliberadamente produzidas por pessoas isoladas para fins específicos. Podem argumentar, por exemplo, que a finalidade da linguagem é a comunicação, ou que a finalidade do Estado é a manutenção da ordem - como se, no curso da história da humanidade, a linguagem ou a organização de associações específicas de pessoas sob forma de Estados tivesse sido deliberadamente criada para esse fim específico por indivíduos isolados, como resultado de um pensamento racional. E, com bastante freqüência, ao serem confrontados com fenômenos sociais que obviamente não podem ser explicados por esse modelo, como é o caso da evolução dos estilos artísticos ou do processo civilizador, seu pensamento estanca. Param de formular perguntas”[1].

Ele afirma, continuando sua caracterização do holismo e do individualismo, que o holismo “despreza essa maneira de abordar as formações históricas e sociais. Para seus integrantes, o indivíduo não desempenha papel algum. Seus modelos conceituais são primordialmente extraídos das ciências naturais; em particular, da biologia. Mas nesse caso, como tantas vezes acontece, os modos científicos de pensamento misturam-se, fácil e imperceptivelmente, com os modos religiosos e metafísicos, formando uma perfeita unidade. A sociedade é concebida, por exemplo, como uma entidade orgânica supra-individual que avança inelutavelmente para a morte, atravessando etapas de juventude, maturidade e velhice. As idéias de Spengler constituem bom exemplo dessa maneira de pensar, mas hoje se encontram noções análogas, independentemente dele, nos mais variados matizes e cores. E, ainda quando na se vêem levados, por força das experiências de nossa época, ao equívoco de conceber uma teoria geral da ascensão e declínio das sociedades como algo inevitável, ainda quando antevêem um futuro melhor para a nossa sociedade, até os adversários dessa perspectiva spengleriana compartilham - por estarem dentro desse mesmo campo - uma abordagem que tenta explicar formações e processos sócio-históricos pela influência de forças supra-individuais anônimas”[2].

Desta forma, uns privilegiam o indivíduo, enquanto que outros privilegiam a sociedade. mas, para Elias, o importante é superar esta antinomia entre indivíduo e sociedade. Na verdade, segundo ele, não há um abismo que os separa, pois, “ninguém duvida de que os indivíduos formam a sociedade ou de que toda sociedade é uma sociedade de indivíduos”[3].

Segundo Elias, o que nos falta são modelos conceituais e uma visão global que os torne compreensíveis. Elias nos explica esta relação apelando para o processo histórico e para a relação entre a parte e o todo. Retomando um exemplo de Aristóteles, Elias busca esclarecer a relação entre indivíduo e sociedade como uma relação entre a parte e o todo. O exemplo é o da casa. Não se pode compreender uma casa, o todo, observando suas partes individuais, as pedras. A pedra, enquanto componente isolado, nada esclarece sobre a casa. A compreensão de uma pedra ou de todas as pedras tomadas individualmente nada contribui para a compreensão da casa. O mesmo ocorre com a unidade somatória das pedras: ela não tem poder explicativo.

Para apresentar sua concepção, Elias apela para a teoria da gestalt: “a teoria gestalt descortinou mais a fundo esses fenômenos. Ensinou-nos, primeiramente, que o todo é diferente da soma das suas partes, que ele incorpora leis de um tipo especial, as quais não podem ser elucidadas pelo exame de seus elementos isolados. Essa teoria forneceu à consciência geral de nossa época diversos modelos simples, capazes de nos ajudar a fazer o pensamento avançar nessa direção, como o exemplo da melodia, que também não consiste em nada além de notas individuais, mas é diferente de sua soma, ou o exemplo da relação entre a palavra e os sons, a frase e as palavras, o livro e as frases. Todos estes exemplos mostram a mesma coisa: a combinação, as relações de unidades de menor magnitude - ou, para usarmos um termo mais exato, extraído da teoria dos conjuntos, as unidades de potência menor - dão origem a uma unidade de potência maior, que não pode ser compreendida quando suas partes são consideradas em isolamento, independentemente de suas relações”[4].

Assim, o fundamental é esclarecer como se dá a relação indivíduo-sociedade e superar a aparente antinomia entre estes dois termos tal como ela nos aparece em nossa forma de pensar habitual. Como Elias resolve esta questão? Segundo Elias, a vida social dos indivíduos é marcada por contradições, tensões e explosões, há, nas sociedades humanas, períodos de declínio e ascensão, guerra e paz, crises e surto de crescimento. A sociedade é, portanto, uma totalidade, embora não seja harmoniosa. Existe, na sociedade, e é isto que lhe caracteriza como uma totalidade, uma ordem oculta que não é diretamente perceptível pelos sentidos dos indivíduos.

Segundo Elias, “numa palavra, cada pessoa que passa por outra, como estranhos aparentemente desvinculados na rua, está ligada a outras por laços invisíveis, sejam estes laços de trabalho e propriedade, sejam de instintos e afetos. Os tipos mais díspares de funções tornaram-na dependente de outrem e tornaram outros dependentes dela. Ela vive, e viveu desde pequena, numa rede de dependências que não lhe é possível modificar ou romper pelo simples giro de um anel mágico, mas somente até onde a própria estrutura dessas dependências o permita; vive num tecido de relações móveis que a essa altura já se precipitaram nela como seu caráter pessoal. E aí reside o verdadeiro problema: em cada associação de seres humanos, esse contexto funcional tem uma estrutura muito específica. Numa tribo de criadores nômades de gado, ela é diferente da que existe numa tribo de lavradores; numa sociedade feudal de guerreiros, é diferente da existente na sociedade industrial de nossos dias, acima disso tudo, é diferente nas diferentes comunidades nacionais da própria sociedade industrial. Entretanto, este arcabouço básico de funções interdependentes, cuja estrutura e padrão conferem a uma sociedade seu caráter específico, não é criação de indivíduos particulares, pois cada indivíduo, mesmo o mais poderoso, mesmo o chefe tribal, o monarca absolutista ou o ditador, faz parte dele, é representante de uma função que só é formada e mantida em relação a outras funções, as quais só podem ser entendidas em termos da estrutura específica e das tensões específicas desse contexto total”[5].

Elias nos chama a atenção para o caráter singular da relação entre indivíduo e sociedade e isto significa dizer que não há relação igual ou análoga em qualquer outra esfera da existência. Segundo ele, “deve-se começar pensando na estrutura do todo para se compreender a forma das partes individuais. Esses e muitos outros fenômenos têm uma coisa em comum, por mais diferentes que sejam em todos os outros aspectos: para compreende-los é necessário desistir de pensar em termos de substâncias isoladas, únicas e começar a pensar em termos de relações e funções. E nosso pensamento só fica plenamente instrumentado para compreender nossa experiência social depois de fazermos esta troca”[6].

O indivíduo nasce e é criado no interior de uma estrutura marcada por relações e funções que ele julga ser universal e natural. Entretanto, esta estrutura não tem nada de universal, pois trata de uma rede de relações que são características de uma conformação histórica. O abismo que encontramos entre indivíduo e sociedade tem sua origem nos hábitos mentais específicos de hoje e que estão arraigados em nossa consciência. Para a maioria das pessoas, diz Elias, é extremamente difícil pensar que as relações podem ter estrutura e regularidade próprias. É por isso que é extremamente difícil compreender a estrutura das relações humanas. Portanto, torna-se necessário pensar em termos de relações e funções para se compreender a relação indivíduo-sociedade.

Elias retoma a questão, muitas vezes tratada para se referir ao caráter de ser social do homem, da socialização da criança: “ao nascer, cada indivíduo pode ser muito diferente, conforme sua constituição natural. Mas é apenas na sociedade que a criança pequena, com suas funções mentais maleáveis e relativamente indiferenciadas, se transforma num ser mais complexo. Somente na relação com outros seres humanos é que a criatura impulsiva e desamparada que vem ao mundo se transforma na pessoa psicologicamente desenvolvida que tem o caráter de um indivíduo e merece o nome de ser humano adulto. Isolada dessas relações, ela evolui, na melhor das hipóteses, para a condição de um animal humano semi-selvagem. Pode crescer fisicamente, mas, em sua composição psicológica, permanece semelhante a uma criança pequena. Somente ao crescer num grupo é que o pequeno ser humano aprende a fala articulada. Somente na companhia de outras pessoas mais velhas é que, pouco a pouco, desenvolve um tipo específico de sagacidade e controle dos instintos. E a língua que aprende, o padrão de controle instintivo e a composição adulta que nele se desenvolve, tudo isso depende da estrutura do grupo em que ele cresce e, por fim, de sua posição nesse grupo e do processo formador que ela acarreta”[7].

Elias conclui que a individualidade e a inter-relação social das pessoas não são antitéticas e a moldagem e a diferenciação especiais das funções mentais que chamamos “individualidade” só é possível quando uma pessoa nasce no interior de uma sociedade.

A especificidade das relações humanas se encontra nas funções psicológicas dos indivíduos que são marcadas, principalmente, pelo controle dos instintos. Segundo Elias, “trata-se de funções muito específicas do organismo humano. São funções que, ao contrário das do estômago ou dos ossos, por exemplo, se dirigem constantemente para outras pessoas e coisas. São formas particulares de auto-regulação em relação a outras pessoas e coisas[8].

No homem existem duas áreas de funções diferentes: existem órgãos e funções que buscam manter e reproduzir o organismo e órgãos e funções que buscam servir às relações do organismo com outras partes do mundo, bem como sua auto-regulação nestas relações.

Esta auto-regulação humana, por ser flexível e maleável, se transforma com o processo histórico de mudanças sociais. Esta auto-regulação não é comandada pelo indivíduo e sim pela sociedade. Isto quer dizer que a auto-regulação que um indivíduo realiza é determinada, em sua forma e conteúdo, pela sociedade onde ele está inserido. Segundo Elias, “mas ainda que (...), a margem de decisão individual emerja dentro da rede social, não existe uma fórmula geral indicando a grandeza exata dessa margem individual em todas as fases da história em todos os tipos de sociedade. Justamente o que caracteriza o lugar do indivíduo em sua sociedade é que a natureza e a extensão da margem de decisão que lhe é acessível dependem da estrutura e da constelação histórica em que ele vive e age[9].

A sociedade, afirma Elias, produz não apenas o semelhante e o típico mas também o individual. Isto quer dizer que a autoconsciência e a identidade do ser humano brota num contexto histórico e social delimitado e se transforma com a transformação deste contexto. Na sociedade contemporânea, com o decorrer do processo civilizatório, ocorreu uma transformação da autoconsciência dos indivíduos. Surgiu um novo nível de autoconsciência na época de Descartes e ele foi um exemplo desta transformação.

É na era moderna que o processo de individualização adquire a máxima importância. Nesta época, “um número cada vez maior de funções relativas à proteção e ao controle do indivíduo, previamente exercidas por pequenos grupos, como a tribo, a paróquia, o feudo, a guilda ou o Estado, vai sendo transferido para Estados altamente centralizados e cada vez mais urbanizados. À medida que essa transferência avança, as pessoas isoladas, uma vez adultas, deixam mais e mais para trás os grupos locais próximos, baseados na consangüinidade. A coesão dos grupos rompe-se à medida que perdem suas funções protetoras e de controle. E, nas sociedades estatais maiores, centralizadas e urbanizadas, o indivíduo tem que batalhar muito mais por si. A mobilidade das pessoas, no sentido espacial e social, aumenta. Seu envolvimento com a família, o grupo de parentesco, a comunidade local e outros grupos dessa natureza, antes inescapável pela vida inteira, vê-se reduzido. (...). E, à medida, que os indivíduos deixam para trás os grupos pré-estatais estreitamente aparentados, dentro de sociedades nacionais cada vez mais complexas, eles se descobrem diante de um número crescente de opções. Mas também têm que decidir muito mais por si. Não apenas podem como devem ser mais autônomos. Quanto a isso não têm opção”[10].

Desta forma, a auto-imagem (ou autoconsciência) e a composição social - “habitus”, segundo Elias, dos indivíduos se transforma com a mudança histórica. Essa auto-imagem pode, em determinado período histórico, privilegiar a “identidade-eu” ou a “identidade-nós”, ou seja, a identidade do “eu individual” ou a do pertencimento a um grupo ou sociedade. Daí o conceito fundamental da balança nós-eu, que, em determinada época e lugar, pende mais para um lado ou para outro. Tal como já foi dito, na época contemporânea a balança nós-eu pende mais para a “identidade-eu”. Mas mesmo na época moderna a balança não pende para o mesmo lado em todos os países, pois, segundo Elias, nos países altamente desenvolvidos a balança pende mais para a “identidade-eu” enquanto que nos países “em desenvolvimento” pende mais para a “identidade-nós”.

Portanto, podemos observar o parentesco das idéias de Elias com o historicismo. A sociologia processual de Elias é um historicismo sociológico, pois postula uma especificidade das relações sociais - que possuem leis próprias - e que se transforma historicamente. O indivíduo não é ator desta transformação e sim o conjunto dos indivíduos que formam a sociedade com sua regularidade própria que está acima do indivíduo. É a sociedade, ou melhor, uma determinada configuração histórica específica desta, que determina para qual lado a balança nós-eu irá pender: se para a identidade-eu ou para a identidade-nós[11]. Mesmo pendendo para a “ identidade-eu”, ou seja, para o individualismo, isto continua sendo o produto de uma determinada configuração histórica de uma sociedade[12]. Elias constata, tal como Richard Tawney, Émile Durkheim, Louis Dumont, entre outros, que é na sociedade moderna que o individualismo assume um valor maior do que em qualquer outra época histórica da humanidade.

PARA UMA CRÍTICA DA SOCIOLOGIA PROCESSUAL DE ELIAS

Mas a abordagem de Elias consegue explicar satisfatoriamente a relação indivíduo-sociedade? Ele consegue superar o abismo que o “nosso modo de pensar” coloca entre ambos? Ele supera as posições individualistas e coletivistas (holistas)?

A resposta a todas estas questões é simplesmente não. Deixando de lado os méritos e os aspectos positivos da obra de Elias, o que é condição necessária para se efetivar uma análise crítica, podemos dizer que sua concepção apresenta diversas limitações. E estas limitações, ao nosso ver, são todas derivadas de sua concepção holista da sociedade. Iremos elencar estas limitações e depois analisá-las uma a uma: a) Elias não consegue superar o “abismo” que geralmente se vê na relação indivíduo-sociedade; b) a relação indivíduo-sociedade é mais complexa do que se apresenta em sua sociologia processual; c)Elias não consegue superar o individualismo e o holismo.

Elias não consegue ultrapassar a dicotomia entre indivíduo e sociedade e isto decorre de sua definição de indivíduo como “pessoa singular” e da sociedade como “pluralidade de pessoas”, sendo que esta última se caracteriza por possuir leis específicas, caracterizadas por determinadas relações e funções. a relação entre indivíduo e sociedade deriva daí: a sociedade possui leis próprias e específicas que ultrapassam os indivíduos (e tal afirmação, presente em diversos pensadores “holistas”, deixam entrever a posição de Elias na disputa entre individualismo e holismo). A dicotomia entre indivíduo e sociedade permanece e, tal como nas concepções individualistas e holistas, o que se faz é apresentar a primazia de um sobre o outro.

As teses de Elias, neste ponto, são bastante semelhantes às de Durkheim. Este lutou incansavelmente para conquistar a autonomia da sociologia em relação à filosofia e também para lhe garantir o status de ciência. Durkheim afirmou que os fatos sociais são “coisas” que possuem leis próprias e que eles exercem coerção sobre os indivíduos, sendo que, através da educação (que Elias descreve de forma parecida ao tratar da criança e sua inserção social, ou, como diria Durkheim, sua “socialização”) o indivíduo introjeta os valores de sua sociedade. A semelhança não pára aqui. Segundo Durkheim, com a passagem da solidariedade mecânica para a solidariedade orgânica surge o individualismo moral, ou seja, é na sociedade moderna que surge o individualismo ou, em linguagem da sociologia processual de Elias, a “identidade-eu” ganha a primazia sobre a “identidade-nós”.

O parentesco das teses de Durkheim e Elias nos parece evidente. A razão de ser desta comparação se encontra no objetivo de demonstrar, tal como é amplamente reconhecido no caso de Durkheim, que sua abordagem é holista e, mais do que isso, que ele não ultrapassa a dicotomia entre indivíduo e sociedade.

Quais as razoes disto? Ao respondermos isto estaremos apresentando também uma análise das outras limitações da obra de Elias apresentadas anteriormente. A comparação com Durkheim reforça a tese de que sua posição é holista. Se lembrarmos sua tese segundo a qual a sociedade em sua configuração histórica determinada é que pende a balança nós-eu para um ou outro lado, bem como possui leis próprias e específicas que estão acima dos indivíduos, veremos o caráter holista de sua posição e que, portanto, ele não conseguiu superar a disputa entre holismo e individualismo. É claro que, em termos de juízo de valor, Elias se abstém de se declarar favorável a um ou a outro (embora sua identificação entre “processo civilizatório” e “processo de individualização crescente” dê margem para pensá-lo como sendo simpatizante do “individualismo moral”, isto apenas retrata sua simpatia por uma sociedade que elege o individualismo como valor dominante), mas, em termos metodológicos, ele se apresenta claramente como um holista.

Além disso, Elias não reconhece toda a complexidade da relação indivíduo-sociedade. Apesar dele reconhecer os conflitos, a sua importância explicativa é minimizada e o seu caráter ofuscado. Qual é a natureza dos conflitos na sociedade contemporânea? Como estes conflitos se relacionam com o problema da relação indivíduo-sociedade?

Ao nosso ver, a resposta a estas questões se encontram na teoria da sociedade elaborada por Karl Marx. Segundo esta abordagem, existe uma complexidade de conflitos sociais (raciais, sexuais, religiosos, etc.) que são derivados dos conflitos de classes. Portanto, não basta reconhecer a existência de conflitos, pois é necessário reconhecer que eles são conflitos de classes e que estes conflitos produzem uma oposição de interesses, ideologias, grupos, etc., no interior de uma mesma sociedade.

A concepção holista de Elias opõe o indivíduo, como parte, à sociedade, como totalidade. Mas, segundo a concepção marxista, a sociedade não é uma totalidade homogênea (uma entidade metafísica, que Elias busca desvencilhar-se mas não consegue) e sim uma totalidade concreta e contraditória, marcada pela luta de classes. Os conflitos individuais são derivados das lutas de classes e não só derivados como são formas de sua manifestação. A competição e a concorrência citada por Elias são produtos do modo de produção capitalista, que produz a competição entre capitais individuais pelo mercado consumidor, entre os trabalhadores assalariados pelo mercado de trabalho, entre os indivíduos pela ascensão social, dinheiro e poder. Neste sentido, não há oposição entre indivíduo e sociedade e sim entre classes sociais e derivado desta há a oposição entre um indivíduo e outros indivíduos devido a interesses divergentes provocados pela luta de classes.

Elias, devido sua concepção holista, esquece-se de explicar porque numa mesma sociedade e num mesmo período histórico existe o confronto entre “individualistas” e “holistas. Se a sociedade fosse uma totalidade homogênea[13], então como poderia ela produzir ideologias conflitantes? Em suma, se Elias respondesse a estas questões teria que abandonar o holismo e explicitar s raízes sociais do individualismo e do holismo e, por conseguinte, reconhecer a importância das lutas de classes.

Por fim, podemos dizer que a sociologia processual de Elias é um historicismo sociológico abstrato, pois não supera os limites representados pela concepção holista. Daí decorre todas as suas outras limitações. Mas, apesar disso, devemos reconhecer que se trata de um holismo mais sofisticado do que muitos outros e que seu historicismo, mesmo abstrato, que nos lembra a História das Mentalidades (Àries, Vovelle, Le Goff, etc.), permite reconhecer as mudanças históricas e como cada período histórico possui sua especificidade e suas características próprias.
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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. Indivíduo e Sociedade em Norbert Elias. Estudos (Goiânia/UCG), Goiânia, v. 28, n. 5, 2001.

* Sociólogo e filósofo, Professor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG.
[1]Elias, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994, p. 13.
[2]Elias, Norbert. Ob. cit., p. 13.
[3]Elias, Norbert. Ob. cit., p. 13-14.
[4]Elias, Norbert. Ob. cit. p. 16. Deixamos de lado aqui, a discussão de Elias sobre “meios” e “fins” relacionados com o indivíduo e a sociedade. Essa discussão é de extrema importância para se descobrir as raízes sociais do individualismo e do holismo. Sem dúvida, o individualismo está intimamente ligado ao liberalismo e concepções semelhantes, enquanto que o holismo está ligado às ideologias totalitárias (nazismo, fascismo, stalinismo, etc.) e ao estatismo. Entretanto, não cabe aqui aprofundar estas questões, por questão de espaço.
[5]Elias, Norbert. Ob. cit., p. 22.
[6]Elias, Norbert. Ob. cit., p. 25.
[7]Elias, Norbert. Ob. cit., p. 27.
[8]Elias, Norbert. Ob. cit., p. 36.
[9]Elias, Norbert. Ob. cit., p. 49.
[10] Elias, Norbert. Ob. cit. p. 102.
[11] Isto pode ser mais facilmente compreendido quando lembramos da tese althusseriana do “modo de produção com dominante”, segundo a qual um modo de produção (base econômica) elege uma de suas instâncias (política, econômica, cultural, etc.) como “dominante”, mas, em última instancia, o que determina é o modo de produção, pois é ele que decide qual instancia irá dominar (cf. Althusser, Louis. A Favor de Marx. 2a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1979). O raciocínio de Elias é análogo: a sociedade, em última instância, é o que determina o predomínio da “identidade-eu” ou da “ identidade-nós”.
[12] Tal concepção é semelhante a do marxista russo do início do século, G. Plekhânov: “as relações sociais têm sua lógica: enquanto os homens se encontrarem em determinadas relações mútuas, necessariamente sentirão, pensarão e atuarão assim e não de modo diverso. Seria inútil que a personalidade se empenhasse em lutar contra esta lógica: a marcha natural das coisas (isto é, a própria lógica das relações sociais) reduziria a nada seus esforços” (Plekhânov, George. O Papel do Indivíduo na História. In: A Concepção Materialista da História. 4a edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974).
[13] Sem dúvida, Elias afirma que a sociedade não é uma “totalidade harmoniosa” e nem chega a dizer que é “homogênea”, mas está implícito em A Sociedade dos Indivíduos que a sociedade possui conflitos, abalos, apogeu e crise e, no entanto, é um todo indiferenciado, pois as suas unidades constitutivas são os indivíduos e estes não possuem autonomia para decidir o destino dela, já que ela possui leis próprias acima dos indivíduos. Em poucas palavras, ao opor o indivíduo, como parte e unidade, e a sociedade, como totalidade, e estabelecer que esta possui estrutura e regularidade próprias que estão acima dos indivíduos, Elias nos impede de pensar que os conflitos, que ele reconhece existir, existem entre as partes que compõem o todo e os apresenta como sendo produtos da totalidade, que se torna uma entidade metafísica conflituosa, mas indiferenciada (já que o conflito não é produzido por suas partes) e, portanto, homogênea.

8 comentários:

  1. Muito bom , Me ajudou vou me sair bem na minha prova Obg

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  2. Muito bom , Me ajudou vou me sair bem na minha prova Obg

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  3. mto bom aqui esta bem exposto tdo oq tinha minhas duvidas

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  4. vale com essa infomaçao vou passa na prova..

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  5. òtimo ! Muito obrigada

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  6. Essa Obra é ótima, mas tenho uma duvida, este trecho que contem no blog é uma analise critica sobre oque o autor escreveu?

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