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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Formas e tipos de discurso - Nildo Viana

 


Formas e tipos de discurso


Por Nildo Viana


A reflexão realizada até aqui deixou entrever a existência de determinadas formas de discurso: discurso escrito e discurso falado, bem como formas de discurso escrito e discurso falado. As formas podem ser simples (protótipos discursivos) ou complexas (gêneros discursivos). O leitor atento, no entanto, percebeu o uso de diversos termos para nos referirmos a manifestações discursivas específicas: discurso redundante, discurso retórico, discurso prolífico, discurso prolixo, discurso dialogal, discurso apócrifo, discurso coletivo, etc. Uma infinidade de manifestações discursivas emergiu na presente obra. Essas diversas manifestações do discurso não seriam “formas de discurso”?

Aqui entramos numa questão metódica fundamental. Não será possível, aqui, desenvolver isso, mas é necessário uma breve explicação e indicação bibliográfica para aprofundamento. As formas do discurso são processos reais, concretos, que apreendemos em nossa consciência através das categorias dialéticas de forma e substância (ou “conteúdo”). Essas categorias foram discutidas na obra A Dialética Revolucionária (Viana, 2024a). Toda forma é a forma de uma substância, como disse Marx e enfatizou Korsch (2026). Assim, as formas de discurso são manifestações formais de uma substância específica que é o discurso. Esse é o processo dialético de análise em geral e que vale, obviamente, para a análise do discurso.

Porém, uma substância, um ser, tal como uma parte da realidade, é algo complexo (e aqui emerge outra categoria da dialética), pois além de sua essência, possui um conjunto de outros aspectos. Para entender um determinado ente (um ser específico), um fenômeno, eu tenho que entender sua substância, sua essência, e suas formas históricas e concretas de manifestação. Note-se que aqui estou no âmbito do que é essencial e suas formas de manifestação. Um ser, no entanto, em seu processo concreto de existência, possui muitos outros aspectos. A essência do discurso foi apresentada em seu conceito. Esse conceito, no entanto, não abarca a totalidade do discurso, apenas o que é essencial. As formas de discurso, por sua vez, apresentam essa essência em suas formas existenciais.

Dito isto, fica claro que se o discurso é ou não redundante, se é sério ou cômico, entre diversos outros aspectos que poderíamos enfatizar (e, em certos contextos, o fizemos), não é uma manifestação formal dele. É um aspecto dele. E a discussão sobre os aspectos (Viana, 2024) não poderá ser retomada aqui, mas é possível dizer que eles são características inessenciais do ente ou fenômeno em questão. A reflexão sobre as formas de violência ajuda a entender isso. Muitos classificam tais formas pelas suas vítimas (violência contra a mulher, contra a criança, contra os imigrantes, etc.) ou pelo lugar no qual ela ocorre (violência urbana, violência rural, violência doméstica, etc.). Outros usam outros critérios para classificar as formas de violência. Contudo, não se trata de formas de violência e sim de aspectos selecionados pelo classificador. O mesmo vale para “formas de discurso”, no qual se usar o termo “forma” equivocadamente (da perspectiva dialética). Contudo, o uso da expressão “formas”, quando o objetivo é classificar a violência em suas formas de manifestação, é equivocado, mas há o uso irrefletido que não remete exatamente para essa ideia mais específica. Nesse sentido, quando se afirma que está tratando das formas de violência e cita a “violência econômica”, “a violência pedagógica”, “a violência juvenil”, “a violência revolucionária” (Barreiro, 1978)[1], se comete um equívoco.

A questão que emerge a partir disso é: então como entender essas outras maneiras de se referir a outras manifestações discursivas? Quando selecionamos um aspecto do fenômeno e o distinguimos de outros aspectos ou comparamos ou relacionamos com outros fenômenos a partir disso, estamos tratando de tipos e não de formas. Essa é a origem das “tipologias”. Sem dúvida, a maioria das tipologias são sistemas classificatórios abstratificados e aleatórios. E elas são mais problemáticas quando se apresentam como “formas”. Os tipos ideias weberianos, por exemplo, são limitados, pois não captam a essência do fenômeno, assim como a tipologia durkheimiana (Weber, 2004; Durkheim, 1974).

Assim, discurso individual e discurso coletivo se referem a tipos de discurso. Não são formas de discurso, mas sim uma tipificação na qual se destaca o aspecto do caráter individual ou coletivo da produção discursiva. Podemos fazer inúmeras tipificações a partir de diversos aspectos dos seres, tal como no caso do discurso. Assim, quando Max Pagès (1993) distingue, equivocadamente, entre “discurso subjetivo” e “discurso objetivo”[2], está realizando uma tipificação que enfatiza um aspecto do discurso. Ao contrário das tipologias e seu aspecto abstratificante ou arbitrário, a tipificação é um processo consciente que encontra em determinados entes ou fenômenos aspectos que podem gerar tipos, o que é útil para a pesquisa e a compreensão da realidade.

Nesse sentido, as formas de discurso são aquelas que foram trabalhadas ou citadas enquanto tais no presente capítulos e todas as demais referências a outros discursos estão se referindo a tipos de discurso.

 



[1] Diversos autores que realizam tal processo poderiam ser citados, contudo, não é nosso objetivo abordar essa questão, razão pela qual nos restringimos a apenas esse autor. Nós mesmos não tínhamos consciência desse processo quando abordamos pela primeira vez o fenômeno da violência (Viana, 1999), pois foi o desenvolvimento de nossas reflexões sobre a realidade e sobre a dialética que permitiram a percepção disso.

[2] Realizamos uma crítica dessa concepção e apresentamos termos distintos: discurso idiossincrático (ao invés de “subjetivo”) e “discurso consensual” (ao invés de “objetivo”) (Viana, 2016).

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O presente texto é um apêndice que está no livro "Análise Dialética do Discurso":

VIANA, Nildo. Análise Dialética do Discurso. Teoria, Linguagem, e Discurso. Tomo 01, Vol. 01, Goiânia: Ragnatela, 2026.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O que é marxismo? Nova edição!

 

O que é marxismo? é uma obra de caráter teórico e crítico que enfrenta, de modo rigoroso, uma das questões mais controversas das Ciências Sociais e da Filosofia política contemporâneas: a definição do marxismo para além de suas leituras vulgarizadas, dogmáticas ou ideologizadas. Nildo Viana parte de uma proposta ousada e metodologicamente consequente: submeter o próprio marxismo a uma análise materialista histórico-dialética, buscando apreender sua essência e não apenas suas múltiplas aparências históricas.

Ao longo do livro, o autor demonstra que o marxismo não pode ser reduzido a um sistema fechado de ideias, a uma doutrina política ou a uma ciência neutra, mas deve ser compreendido como expressão teórica do proletariado em sua luta histórica contra o capitalismo. Essa definição permite explicar, de forma crítica, a proliferação dos chamados “marxismos” e distinguir teoria revolucionária de ideologia.

Com linguagem clara, argumentação consistente e sólida fundamentação teórica, a obra dialoga com Marx, Lukács e Korsch, ao mesmo tempo em que confronta leituras consagradas da tradição social-democrata e bolchevique. Trata-se de um livro indispensável para estudantes, pesquisadores e leitores interessados em compreender o marxismo em sua radicalidade teórica, histórica e política, sem concessões ao ecletismo ou ao relativismo intelectual.

Sobre o autor

Nildo Viana é sociólogo, professor e um dos mais prolíficos intelectuais marxistas contemporâneos no Brasil. Autor de vasta produção no campo da teoria social, da crítica da ideologia e da sociologia política, dedica-se à análise do capitalismo, das classes sociais e das formas de consciência produzidas na sociedade moderna. Sua obra caracteriza-se pela defesa de um marxismo crítico, não dogmático e comprometido com a radicalidade teórica e emancipatória do pensamento de Karl Marx.

Em O que é marxismo?, Viana retoma um trabalho originalmente desenvolvido no âmbito de sua pós-graduação e o apresenta ao público em versão revista, mantendo seu núcleo teórico fundamental. O livro constitui uma contribuição relevante para o debate marxista contemporâneo ao propor critérios rigorosos para a compreensão do marxismo, articulando teoria, historicidade e luta de classes, e reafirmando sua atualidade como instrumento crítico de interpretação e transformação da realidade social.
Cristiano Bodart, Doutor em Sociologia (USP). Professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

Características do livro:

Autor: Nildo Viana (UFG)
Editora: Editora Café com Sociologia
Selo: Editora Café com Sociologia
Ano: 2026
Edição: 1ª
Idioma: Português
ISBN: 978658760083-3
Nº de páginas: 115
Tamanho: 14x21cm
Peso: 292g

Para adquirir: https://www.editoracafecomsociologia.com/product-page/marxismo

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Análise Dialética do Discurso - Novo livro de Nildo Viana


 Análise Dialética do Discurso - de Nildo Viana


A análise dialética do discurso é uma obra que apresenta uma nova forma de pensar e trabalhar o discurso. No primeiro tomo e volume de sua obra, Nildo Viana desenvolve uma teoria do discurso. Para tanto, discute linguagem, pensamento, conceito de discurso, elementos constitutivos do discurso, suas formas simples e complexas (protótipos e gêneros discursivos), a questão da circunstância e constituição social do discurso, além de um capítulo breve sobre “discurso falado”. O autor efetiva uma análise crítica, totalizante e complexa do fenômeno discursivo. Além disso, trata-se de uma obra pioneira que apresenta um processo explicativo do discurso que não se encontra em outras concepções, oferecendo esclarecimentos cruciais para aqueles que almejam compreender as diversas manifestações discursivas. É uma obra fundamental para quem quer uma base teórica e analítica dos discursos, para linguistas, sociólogos, filósofos, cientistas políticos, entre diversos outros.

Título: Análise Dialética do Discurso
Autor: Nildo Viana
Editora: Ragnatela
Tomo: 01 (teoria)
Volume: 01 (linguagem e discurso)
Subtítulo: Teoria, Linguagem e Discurso.
Edição: 01
Ano: 2026
Páginas: 562
ISBN: 978-65-84983-52-6
ISBN EBOOK: não.


TEXTO DA ORELHA
O método dialético é uma ferramenta poderosa para analisar a realidade. Nildo Viana, autor de A Dialética Revolucionária, utiliza os recursos heurísticos e o processo analítico dialético para elaborar uma teoria do discurso. A presente obra destrincha o verdadeiro significado do discurso, seus elementos constitutivos, sua constituição social e diversos outros elementos e aspectos que promovem um avanço da consciência sobre o discurso em geral e sobre as mais variadas manifestações discursivas existentes.

SOBRE O AUTOR:

NILDO VIANA é sociólogo, filósofo, Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Professor da Universidade Federal de Goiás (UFG). Também é autor de diversos livros, entre os quais A Dialética Revolucionária; A Consciência da História; Escritos Metodológicos de Marx; A Pesquisa em Representações Cotidianas; A Elaboração do Projeto de Pesquisa; Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas; O Modo de Pensar Burguês; A Questão da Causalidade nas Ciências Sociais; Individualismo e Holismo nas Ciências Humanas; Cinema e Mensagem; Memória e Sociedade; entre diversas outras.

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

PREFÁCIO À TERCEIRA EDIÇÃO DE "A CONSCIÊNCIA DA HISTÓRIA"

 


Texto de atualização para quem possui as edições anteriores dessa obra.

PREFÁCIO À TERCEIRA EDIÇÃO

A Consciência da História 17 anos depois

 

Essa nova edição de A Consciência da História vem para poder tornar novamente acessível esta obra, lançada originalmente em 1997 e reeditada em 2007. No prefácio à segunda edição, tratamos da questão da atualidade e validade da obra. A esse respeito, nada mudou e por isso não retomaremos isso aqui.

O que nos propomos aqui é explicar algumas reflexões sobre a obra e o momento atual. Os ensaios que compõem o livro começaram a ser escritos a partir de 1992, dentro de um contexto histórico e pessoal delimitado. Além de um processo de formação intelectual, que, avidamente lia as obras de Marx, Korsch e alguns outros, também lia o que não gostava e buscava refutar, tal como os representantes do leninismo, por um lado, e os representantes do pensamento conservador, por outro. Assim, além da afirmação sobre o que é o materialismo histórico e o método dialético e reflexões sobre seus elementos constitutivos, o leitor vai ler várias críticas ao leninismo, ao estruturalismo e outras ideologias.

Esse é o pano de fundo dos ensaios aqui reunidos e, em parte, sua motivação. Por um lado, a vontade do autoesclarecimento sobre a história, a sociedade, o materialismo histórico, o método dialético, a revolução proletária, a autogestão, etc. e, por outro, a refutação do leninismo e outras ideologias (especialmente uma crítica à ciência). A radicalidade das ideias expostas nestes ensaios estava de acordo com a mentalidade de quem escreveu, bem como estava coerente com suas principais fontes de inspiração (Marx e Korsch), embora noutro contexto histórico e por isso podendo avançar em certos aspectos. Já se esboçava, ao mesmo tempo, uma crítica aos novos ideólogos que se tornariam cada vez mais influentes nos anos e décadas seguintes, representantes do subjetivismo.

Consideramos que a evolução do nosso pensamento não se alterou. Não houve nenhuma mudança drástica. O que ocorreu, no fundo, foi desenvolvimento e aprofundamento. Algumas ideias que aqui aparecem de forma secundária e rudimentar, como a oposição entre o pensamento burguês e o pensamento marxista, vai, posteriormente, ganhar obras nas quais há um desenvolvimento e aprofundamento, através da teoria das epistemes. A radicalidade, por sua vez, não diminuiu. Ao contrário, aumentou. Embora na presente obra exista uma crítica radical da ciência e um início de crítica ao subjetivismo, ela se torna ainda mais profunda com o desenvolvimento das pesquisas e reflexões posteriores. Sinais de moderação qualquer leitor atento poderá ver em algumas obras posteriores (bem como o contrário, dependendo da obra), mas também, se for alguém que saiba efetivar uma contextualização, saberá que o contexto social fez recuar alguns elementos para poder ter mais eficácia social, pois um pensador revolucionário sempre se defronta com o dilema de dizer a verdade nua e crua e o isolamento que isso provoca, por um lado, e a necessidade de comover parte da população para essa aderir ao projeto revolucionário e a cautela que é preciso ter com alguns setores da sociedade, isso sem falar nos obstáculos institucionais, questões pontuais, etc. Às vezes a vontade domina e a radicalização se expressa, às vezes a estratégia domina e se evita certa radicalização. Porém, mesmo nas obras mais moderadas, a coerência e radicalidade básicas se mantém, às vezes complementadas por ironias e críticas mais sutis.

Em relação à segunda edição, que foi revista e em alguns aspectos formais melhorada, mas ainda manteve problemas formais (alguns meramente gramaticais e outros que já possuem mais influência no conteúdo), realizamos nova revisão, embora breve, pois o momento em que ocorreu foi durante um processo de preparação de obras mais desenvolvidas que abordavam temas aqui trabalhados[1]1. A ideia de lançar a nova edição, que já vinha sendo solicitada e pensada há alguns anos, bem como realizar uma breve revisão, se deu nesse contexto, no qual, para realizar o aprofundamento de diversas questões aqui levantadas (algumas desenvolvidas razoavelmente, outras apenas citadas, algumas esboçadas), seria necessário a releitura para recordar o estágio de pensamento e desenvolvimento da época de sua primeira edição.

A presente edição possui, portanto, algumas alterações formais. Além das corriqueiras, como a revisão gramatical, há algumas mudanças em trechos, que foram reescritos para ganhar maior clareza, alguns poucos acréscimos e uma pequena atualização bibliográfica. A dúvida em deixar a obra como estava, alterando apenas os aspectos formais, ou atualizar completamente foi resolvida com a opção de fazer uma breve revisão geral, sem realizar grandes alterações. Realizar grandes alterações acabaria gerando outra obra, e transformaria os que originalmente eram ensaios em textos mais desenvolvidos. O leitor das edições anteriores poderá notar que a presente edição, apesar de ter recebido uma revisão rápida e básica, resolveu alguns problemas formais que impactam na compreensão do conteúdo, bem como alguns trechos melhorados que facilitam a compreensão.

Nesse sentido, se passaram 17 anos da segunda edição e 27 anos da primeira edição. Como os ensaios publicados originalmente em 1997 foram escritos algum tempo antes, entre 1992 e 1995, o que significa entre 29 e 32 anos. E, apesar de tudo, continua atual. Apesar do foco não ser o paradigma subjetivista e as ideologias contemporâneas, a obra já apresenta uma crítica a alguns elementos dessas concepções (e outros elementos estarão ainda mais presentes no livro Introdução ao Materialismo Histórico, obra que foi escrita a partir dessa e foi, posteriormente, engavetada e em breve receberá uma edição). Hoje predomina o subjetivismo, o irracionalismo, o relativismo. A obra pouco aborda essas concepções e focaliza sua crítica no objetivismo, no determinismo, etc. Porém, ao lado da crítica do objetivismo e determinismo, se observa que não cai nos seus pares antinômicos. A própria ideia de uma “consciência da história” já é uma crítica do subjetivismo e seus produtos derivados. A razão disso é encontrado no fato de que o marxismo expressa uma episteme antagônica à episteme burguesa e todas as formas (paradigmas e ideologias) que essa assume, pois é um antagonismo essencial. Nesse sentido, a presente obra é um antídoto contra a episteme burguesa e suas manifestações atuais, o paradigma subjetivista hegemônico e as ideologias contemporâneas.

O materialismo histórico e o método dialético são fundamentais para a compreensão da sociedade atual e das sociedades do passado, bem como para vislumbrar a sociedade do futuro. Os ensaios aqui reunidos apontam para uma introdução geral ao materialismo histórico e ao método dialético, rompendo com suas deformações e confrontando os seus oponentes, e isso justifica sua terceira edição.



[1] Trata-se de duas obras em preparação, uma sobre análise dialética do discurso e outro sobre dialética.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO DE "ESCRITOS METODOLÓGICOS DE MARX"

 


Texto de atualização para os que possuem as edições anteriores da obra "Escritos Metodológicos de Marx".


O presente livro foi publicado originalmente em 1998 em sua primeira edição, com tiragem limitada e qualidade gráfica baixa, devido a um conjunto de problemas oriundos do contexto. As outras duas edições já tinham uma qualidade gráfica bem superior. No que se refere ao conteúdo, da primeira para a atual edição não houve grandes mudanças. Além de revisão formal e talvez um ou outro acréscimo, pouco mudou. A interpretação e análise da obra de Marx no plano metodológico continua a mesma, apenas com alguns aperfeiçoamentos em aspectos pontuais e formais.

A presente edição também segue o caminho anterior, já que sofreu uma revisão formal e teve alguns poucos acréscimos e reformulações pontuais, bem como atualização bibliográfica. Essa nova edição ocorre por uma demanda devido ao fato da última edição estar a muitos anos esgotada e só agora pudemos lançar essa reedição.

Ela continua válida, não somente por ser uma breve análise dos escritos metodológicos de Marx, mas, principalmente, por resgatar a dialética do lamaçal ideológico do pseudomarxismo e das interpretações cientificistas e deformadoras, bem como trazer de volta sua radicalidade perdida, pois esta é fundamental para a pesquisa e a luta social. Aliás, um dos méritos da presente obra é tratar o pensamento de Marx superando o academicismo e o politicismo, produtos dos especialistas da academia e da política profissional (inclusive dos estudantes e ativistas semiamadores) e suas “bolhas”, para usar expressão contemporânea, e reducionismos. Uns, recusam a teoria, a pesquisa, a reflexão, se refugiando no argumento sórdido da “prática como critério da verdade”, mais uma deformação do pensamento de Marx e da dialética; outros, recusam a política, as questões sociais, as lutas sociais, os interesses, os valores, em nome de uma desumana, coisificante e conservadora apologia da ciência e da neutralidade.

Nem ação sem reflexão, nem reflexão sem ação. O próprio cerne do marxismo é a unidade entre ação e reflexão, ou seja, a práxis. A práxis é uma necessidade e aspiração humana. Ela é a base da luta pela transformação social, unindo a luta e a consciência, coisas inseparáveis e que somente os arautos da miséria política e intelectual podem defender a separação. Em qualquer ação há uma finalidade, por menos refletida que seja. A práxis do marxismo é revolucionária. A práxis revolucionária, por sua vez, é mais do que a unidade entre ação e reflexão. A práxis revolucionária só pode ser a ação revolucionária unida com uma consciência revolucionária a partir de um projeto revolucionário.

É por isso que obras como esta se tornam necessárias, pois é preciso rememorar que a dialética marxista é revolucionária, ou não é nada, para parafrasear Marx. Isso espanta os academicistas e maioria da intelectualidade. Afinal, segundo eles, o saber não pode ser político, comprometido, engajado. No fundo, essa afirmação quer simplesmente dizer que o saber não deve ser nada, ou deve ser nulo, como a maioria esmagadora das produções intelectuais em nossa sociedade.

Isso também espanta os politicistas, praticistas e maioria dos ativistas, políticos profissionais e burocratas sindicais e partidários. Afinal, segundo eles, a prática, a política, são os meios para “transformar” o mundo. Essa ideia, por sua vez, revela apenas o que Marx denominou “o idiotismo da especialização” em sua versão politicista e revela que a ação política dos seus defensores deve ser estéril, tal como é a produzida pelos partidos, sindicatos e outras organizações civis progressistas.

Sem dúvida, seria possível realizar críticas ao intelectualismo ou ao praticismo, mostrando seus limites intrínsecos, tais como a redução da “prática” ao ativismo e burocratismo especializado dos partidos e sindicatos ou a redução do “saber” a um conjunto de procedimentos formais com seus resultados inúteis[1].

Porém, o presente livro é um antídoto a esse academicismo e praticismo, inclusive por revelar os interesses e vínculos sociais por detrás de todas as ideias, por mais estapafúrdias que elas sejam. Quem defende o academicismo e intelectualismo? Os intelectuais, cientistas “neutros” e demais especialistas do trabalho intelectual. Quem defende o praticismo e o politicismo? Os ativistas, políticos profissionais e burocratas partidários e sindicais. Logo, como diz o ditado popular, “cada um puxa a sardinha para o seu lado”. Quem não faz isso é marginalizado, caluniado, isolado, etc.

E o autor da presente obra, também não defende os seus próprios interesses? O autor do presente livro também está vinculado a interesses. A questão é que são outros interesses. Não são interesses de trabalhadores intelectuais preocupados em mostrar sua superioridade, justificar e legitimar suas profissões, ações, produtos, renda. Também não são os interesses dos políticos profissionais e seus semelhantes e seguidores, preocupados em exercer influência sobre os outros para ganhar votos, apoio, etc.

Nesses casos, o interesse pessoal e o interesse coletivo estão em plena correspondência: o interesse do intelectual isolado é o interesse da classe intelectual, valorar o saber, a ciência, etc., para, assim, ser valorado socialmente (o que justifica aumentos salariais, cargos, vantagens, etc.); o interesse do político profissional e semelhantes é ganhar a eleição, cargos, espaços políticos, etc. e para isso, valorar a política e a prática é fundamental.

É impossível ao intelectual realizar ação política ou ao ativista político realizar reflexões intelectuais? Não, mas é difícil e não está em suas prioridades, pois a dedicação será ao prioritário para eles e este se vincula às suas escolhas pessoais, políticas e profissionais, bem como valores, ambição, etc. Alguns conseguem, como alguns intelectuais ambíguos (como é o caso dos intelectuais ambíguos que ficam entre o partido e a universidade, ou outros que ficam entre a igreja e a academia).

E quais são os interesses do autor do presente livro? Não seriam os mesmos? Quem com certo nível de consciência e quer reconhecimento intelectual, ganhos financeiros, etc., escreveria um livro com a radicalidade deste e sobre Marx e a dialética? Da mesma forma, no mesmo contexto, quem que quer cargos, votos, dinheiro, etc., ia publicar uma obra como esta? Sem dúvida, como já dizia Marx, e é citado nessa obra, “naturalmente, o escritor deve ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas, em nenhum caso, deve viver e escrever para ganhar dinheiro”. A questão, para quem parte da perspectiva revolucionária, é que os interesses pessoais não podem ser a prioridade e estar acima dos interesses da classe proletária, da luta pela transformação social.

Não é necessário dizer que o autor dessas linhas poderia muito bem escrever obras superficiais sobre temas da moda de forma acrítica e assim ganhar sucesso, reconhecimento intelectual e até mesmo dinheiro. Ou, então, escrever manuais superficiais para ativistas políticos e ganhar um reconhecimento intelectual no âmbito dos meios políticos progressistas. Assim, cada um escolhe o seu caminho a partir dos seus valores fundamentais, sentimentos mais profundos, concepções mais arraigadas, e dos interesses vinculados a eles, e isso corresponde a determinados interesses de classe. Disto se depreende que todos possuem interesses, a questão é que tais interesses podem ser mais nobres ou mais pobres, bem como eles exercem efeitos sobre a consciência e as ideias produzidas. Da mesma forma, as raízes sociais do pseudomarxismo acadêmico e do pseudomarxismo dos partidos políticos são explicitadas. Cada um interpreta Marx e o marxismo a partir dos seus interesses.

É por isso que a discussão sobre a perspectiva do proletariado é fundamental e recebe um destaque importante na presente obra e está totalmente ausente na quase totalidade das obras sobre “dialética”. E esse é um dos motivos pelos quais uma nova edição da presente obra se justifica.

A perspectiva é também importante no processo de interpretação e análise das obras, não só a de Marx, mas de toda e qualquer produto cultural. A presente obra, por exemplo, já foi interpretada sob várias formas. A mais curiosa foi a de um estudante que “identificou” traços de “weberianismo” na mesma. Sem dúvida, não apenas os interesses agem no processo interpretativo, mas também a bagagem cultural, as informações, o grau maior ou menor de reflexão, o que pode promover, mesmo que o leitor tenha a perspectiva do proletariado ou boas intenções, a possibilidade de má interpretação e compreensão.

A ideia de “perspectiva” nada tem de weberiana, nem de nietzschiana. Semelhanças superficiais não abolem diferenças fundamentais. A perspectiva que aparece aqui não é a do indivíduo como “sujeito”, não é a da elite, e nem é algo desprovido de raízes sociais, sendo produto histórico e social. Aqui ela é vinculada às classes sociais. Isso é bem distinto do que se encontra em Weber ou Nietzsche, embora o primeiro discuta elementos que podem ser relacionados com a ideia de “perspectiva” e o segundo trabalha com o que alguns de seus intérpretes denomina “perspectivismo”. Assim, o conceito de perspectiva, aqui desenvolvido (mesmo nas edições anteriores, na qual faltava maior clareza sobre seu significado e havia problemas lexicais), nada tem a ver com a concepção desses autores. Inclusive pelo motivo de que eles partem de uma perspectiva de classe antagônica à nossa. Além disso, é necessário esclarecer que os termos não são monopólios de um ou outro autor que os utilizaram, pois o sentido de uma palavra num autor ou obra só pode ser compreendido a partir de como é trabalhado e definido na totalidade de pensamento que eles expressam.

A ideia de perspectiva de classe está presente no pensamento de Marx sem o uso do termo, ou seja, não formalmente, mas substancialmente, assim como emerge também nos escritos de Korsch e do “jovem Lukács”, entre outros marxistas. Se o leitor quer realmente compreender Marx ou este livro, deve entender os termos utilizados a partir dos sentidos atribuídos pelos seus autores e não os que são imputados por outros autores. Esse é um dos elementos que formam um bom leitor.

Porém, para não adiar o início da leitura, encerramos esse prefácio colocando a necessidade da compreensão da dialética marxista e da totalidade de pensamento no qual ela se insere (o marxismo) para poder compreender a realidade e agir mais eficaz e eticamente sobre ela. A presente obra realiza uma introdução aos escritos metodológicos de Marx e, por conseguinte, à dialética marxista, buscando despertar o interesse e oferecer uma leitura inicial que precisa ser complementada pelas leituras das fontes e obras de aprofundamento.




[1] Claro que estamos, nesse caso, tratando do “baixo clero”, pois esses são os principais responsáveis por estes discursos. Sem dúvida, eles existem também, no “alto clero”, âmbito dos ideólogos que buscam sistematizar estas ideias, mas nesse caso se usam argumentos mais complexos dos que os tagarelas que atuam em redes sociais virtuais e nos meios políticos e acadêmicos.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Educação e Dialética: A contribuição da dialética para a formação intelectual (Minicurso)

Educação e Dialética: A contribuição da dialética para a formação intelectual (Minicurso)



MC02: Educação e Dialética: A contribuição da dialética para a formação intelectual 
Ministrante: Nildo Viana (UFG)

A partir do desenvolvimento realizado por Marx, a dialética se transformou num método fundamental para a compreensão da realidade. Por conseguinte, a dialética deveria ter tido um forte impacto nas concepções pedagógicas e técnicas de ensino. Porém, isso requer uma compreensão mais ampla da dialética como método, com todos os seus pressupostos e recursos, bem como sua adaptação ao processo educacional. Esse processo enfrenta o obstáculo da hegemonia da episteme burguesa, antidialética, e ideologias hegemônicas. Isso torna resgatar o verdadeiro significado da dialética e sua contribuição ao processo de ensino-aprendizagem. Na contemporaneidade, na qual a internet permite uma enorme gama de informações, é fundamental uma formação crítica para trabalhar com elas, através de uma análise dialética e um processo de abordagem genética, analítica e sintética. A compreensão da formação das categorias, conceitos, processo de abstração e concreção, deve ser materializada no processo educacional.

Informações e Inscrições:


Veja também, no mesmo evento:

Mesa Redonda:



GT: Dilemas da Educação na Sociedade Contemporânea:


O 
2º Congresso Internacional e Multidisciplinar de Educação: Educação e Cidadania na Era da Desinformação tem apoio do GPDS - Grupo de Pesquisa Dialética e Sociedade/FCS-UFG.


segunda-feira, 9 de outubro de 2023

CURSO DE EXTENSÃO: ANÁLISE DO DISCURSO EM PERSPECTIVA DIALÉTICA

 CURSO DE EXTENSÃO: ANÁLISE DO DISCURSO EM PERSPECTIVA DIALÉTICA.



Promovido pelo GPDS e Ragnatela, o curso de extensão "Análise do discurso em perspectiva dialética" oferece uma introdução geral à análise do discurso e à dialética, bem como analisa as contribuições do método dialético para o processo analítico dos discursos.

Os participantes também poderão publicar artigos em coletânea sobre essa temática se optar por isso na inscrição.

Informações e inscrições em:



domingo, 5 de setembro de 2021

Determinismo Genético, ciência e política - Entrevista com Richard Lewontin

 


Entrevista com Richard Lewontin sobre “ciência e política”, tratando de questões como o determinismo genético e a relação entre ciência e sociedade. 

A entrevista foi concedida para a série de vídeos do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade de Berkeley/Califórnia, intitulada “Conversações sobre a História”, apresentada por Harry Kreysler, em 2004. 

Sobre Richard Lewontin: 

“Lewontin é biólogo, geneticista, matemático e professor de Zoologia na Universidade de Harvard. Richard Lewontin já teve algumas obras publicadas em português, como ‘A Tripla Hélice: Gene, Ambiente e Organismo’ e também ‘Biologia como Ideologia’” (VIANA, Nildo. Desvendando a Biologia por Dentro. In: Biology Under the Influence: Dialectical Essays on Ecology, Agriculture, and Health (apresentação da edição portuguesa no prelo, tradução de Nelson Marques/USP e Luiz Menna-Barreto/USP). 

Richard Lewontin faleceu, infelizmente, dia 04 de julho de 2021, aos 92 anos de idade. 

Veja também o documentário “Onde Darwin Errou?”: https://youtu.be/lJoc9BhmriQ 




segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O Que é Marxismo? Novo livro disponibilizado


VIANA, Nildo. O que é o Marxismo? Florianópolis: Bookess, 2012.

DOWNLOAD.

SINOPSE:

O marxismo revela-se como a mais importante teoria do século 20. Ele surgiu no século 19 e vem se desenvolvendo até os dias de hoje, no início do século 21 e, ao que tudo indica, apesar das proclamadas “crises do marxismo”, permanecerá vivo e atuante neste século. A importância desta teoria é facilmente reconhecida quando se observa a sua influência sobre as sociedades contemporâneas, a filosofia, as lutas políticas, as artes e as ciências humanas em geral. A famosa afirmação de Jean-Paul Sartre nos parece correta (Sartre, 1967): o marxismo é a filosofia do nosso século (seria melhor dizer: da nossa época). Isto revela a importância que possui o estudo do marxismo e da obra de Marx.
A questão que buscamos responder aqui é: o que é o marxismo? O marxismo sempre foi definido de formas diferentes pelas várias correntes políticas, científicas e filosóficas que se reivindicam dele. Pode-se dizer, também, que não existe um consenso entre os não-marxistas sobre a definição de marxismo. O nosso objetivo aqui é apresentar uma definição do marxismo que dê conta de explicar, inclusive, o motivo da existência de vários “marxismos”.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A Dialética Marxista - Curso sobre método dialético




Nas manhãs de sábado, entre os dias 15 de setembro e 6 de outubro, o Ruptura Espaço Cultural promoverá o curso "A DIALÉTICA MARXISTA".

Excelente oportunidade tanto para aqueles que já possuem estudos da obra de Karl Marx, quanto para aqueles que desejam uma abordagem inicial.

As inscrições custam 20 reais e há certificação ao final do curso.

O curso será ministrado pelo Prof. Dr. Nildo Viana, da Faculdade de Ciências Sociais da UFG.

O Ruptura Espaço Cultural está localizado próximo à Praça da Bíblia. Av. Anhanguera, Qd 117-B, Lt. 04, Nº 128.

Em frente ao Sindicato dos Empregados no Comércio (SECEG) e Igreja Videira.

Informações e Inscrições:
nupaccursos@gmail.com
http://nupac.net 







quinta-feira, 19 de julho de 2018

Nildo Viana: Dialética e Contemporaneidade


MARQUES, Edmilson e MAIA, Lucas (orgs.). Nildo Viana: Dialética e Contemporaneidade. Lisboa: Chiado, 2018.

A obra que o leitor tem em mãos é uma introdução a alguns temas presentes na vasta obra de Nildo Viana. Trata-se de um intelectual engajado que vem há vários anos realizando pesquisas nos mais variados campos das humanidades: psicanálise, sociologia, filosofia, história, economia etc. Entretanto, seu pensamento não pode ser acorrentado em nenhuma destas especialidades. A produção intelectual deste autor é, como ele próprio define, adisciplinar.
É um dos principais pesquisadores no desenvolvimento do pensamento marxista na contemporaneidade. Surge daí sua preocupação em rediscutir a obra de Marx, procurando afastá-la das deformações que se acumulam sobre ela. Contudo, suas pesquisas vão muito além. Esforça-se em atualizar o marxismo, identificar onde o pensamento de Marx é ainda pertinente, onde está ultrapassado etc. A partir disto, consegue elaborar instigantes análises do capitalismo contemporâneo, demonstrando a vitalidade do materialismo histórico-dialético.
Ao reunir em um único volume algumas considerações sobre aspectos da obra de Nildo Viana, Dialética e Contemporaneidade permite um melhor entendimento do próprio desenvolvimento capitalista, de suas contradições, de elementos de sua constituição: seus regimes de acumulação, o problema da educação, dos valores, das representações cotidianas etc. Permite, sobretudo, compreender a luta de classes na sociedade moderna e o processo de autoemancipação da classe proletária. O projeto autogestionário é o esteio, o fio condutor que dá unidade a toda a produção intelectual de Nildo Viana. Sua obra é, portanto, parte do processo de constituição de tal projeto, ou seja, da Autogestão Social.

Para adquirir:

sábado, 3 de março de 2018

COMO ESCREVER UMA TESE DE DOUTORADO NUMA PERSPECTIVA DIALÉTICA




COMO ESCREVER UMA TESE DE DOUTORADO NUMA PERSPECTIVA DIALÉTICA

Nildo Viana

Nas universidades existe, geralmente, a exigência de realizar uma pesquisa e redigir um texto escrito (TCC, monografia, dissertação, tese) para finalizar determinados cursos. O presente texto trata dessa questão numa perspectiva dialética, ou seja, como escrever uma tese (dissertação, monografia, etc., para resumir colocaremos apenas “tese”) numa perspectiva dialética.

O primeiro passo é ter claro qual é o tema a ser pesquisado. Para facilitar a compreensão do que vamos desenvolver aqui, colocaremos três temas diferentes de distintos casos concretos e apontaremos três formas diferentes para desenvolver a tese. Os três temas que expressam três formas de efetivar a pesquisa e que tomaremos como casos concretos são o Poder Negro, o Pensamento de Freud e o Discurso Neonazista. Após escolher o tema, é necessário fazer algumas leituras iniciais sobre o mesmo e textos teóricos e ideológicos[1] sobre o tema para poder realizar a problematização, ou seja, a elaboração do problema de pesquisa[2].

Após as leituras sobre o tema e sobre as teorias/ideologias que abordam o tema, é necessário elaborar o problema de pesquisa e a partir daí, caso queira, os objetivos, justificativa, hipótese[3]. As leituras vão variar dependendo do tema. Se o tema é o Poder Negro, então as leituras necessárias são sobre o próprio Poder Negro, bem como sobre movimentos sociais, movimento negro. Se o tema é o pensamento de Freud, então as leituras necessárias são algumas das principais obras de Freud, sobre psicanálise, sobre teoria da ciência, sobre esferas sociais e esfera psicanalítica, etc. Se o tema é o discurso neonazista, então as leituras são sobre análise do discurso, discurso político, doutrinas políticas, nazismo, neonazismo. É claro que tais leituras são introdutórias e algumas serão descartadas (como referencial teórico, pois podem ser trabalhadas como fontes de informação, como alvo de críticas, com aspectos que são momentos de verdade que podem ser trabalhados, etc.).

Tendo estes elementos concretizados, já há material para a composição da introdução (onde teria tema, delimitação do tema, problema, objetivos, justificativa, hipótese) e do primeiro capítulo (equivalente ao referencial teórico do projeto de pesquisa, só que mais desenvolvido e aprofundado). Um referencial teórico bem estruturado e um problema de pesquisa bem elaborado é fundamental para o encaminhamento da tese e já fornece o fio diretor do resto da pesquisa.

O referencial teórico não é apenas um conjunto de termos (construtos, noções, conceitos) incoerentes e desorganizados que aparece sem relação como em um dicionário. O conceito fundamental é relacionado com diversos outros conceitos, formando uma teoria, ou seja, um universo conceitual que expressa (e, portanto, explica) determinado fenômeno. Assim, no caso do tema ser o Poder Negro, temos os conceitos de movimentos sociais e movimento negro como os mais importantes, pelo menos inicialmente. A definição de quais são os conceitos fundamentais depende do problema de pesquisa. Se o problema de pesquisa é o que gerou o Poder Negro, então o trabalho conceitual deverá apontar elementos explicativos que permitem responder esse problema, ou seja, que permita uma hipótese que poderá ou não ser confirmada.

Para analisar o movimento negro é preciso compreendê-lo como um movimento social e este precisa ser explicitado sob a forma conceitual. O conceito de movimentos sociais é distinto de uma mera definição, pois ele é uma concepção a respeito desse fenômeno e em sua própria definição remete a diversos outros conceitos, que, por sua vez, demandam outros conceitos, num processo infinito, formando um universo conceitual, e que cabe ao pesquisador saber onde parar. Não se trata de apresentar a história do movimento negro, pois é um referencial teórico que visa explicar o fenômeno mais amplamente para que depois, durante a pesquisa, se explique sua manifestação no caso concreto do Poder Negro. Ainda no caso do problema de pesquisa ser o que gerou essa organização do movimento negro, então é necessário retirar da teoria dos movimentos sociais a explicação de como surgem as organizações mobilizadoras. E, assim, “organizações mobilizadoras” se torna um conceito fundamental, bem como os demais que explicam sua existência. Se o problema de pesquisa é descobrir a gênese das concepções do Poder Negro, então os conceitos fundamentais já são outros, como consciência, ideologia, doutrina, etc. O conceito de movimentos sociais aparece, mas não é o fundamental, pois o fundamental são os conceitos e a teoria que constitui elementos explicativos da formação da consciência em uma determinada organização.

No caso do pensamento de Freud, os conceitos fundamentais seriam “saber complexo”, ciência, psicanálise, esfera psicanalítica (com esse ou outro nome, o que vai depender da abordagem das obras consultadas). Porém, é a partir do problema de pesquisa que se poderá definir melhor os conceitos mais apropriados. O que ser quer descobrir no pensamento de Freud? Se quisermos descobrir quais são as suas raízes epistêmicas, então os conceitos fundamentais passam a ser episteme, método, campo analítico, campo linguístico, etc. (e na ausência de conceitos, parte-se, para posteriormente realizar a crítica, dos construtos de epistemologia, método, etc.). Se o problema é o que possibilitou o surgimento da psicanálise freudiana, então os conceitos fundamentais passam a ser os da teoria da consciência (no caso de Marx, ideologia, teoria, formas de consciência, história, divisão social do trabalho, “superestrutura” ou “formas sociais”, etc.). Se é a formação institucional da psicanálise, então seria esferas sociais, esfera psicanalítica, etc. Não se apresenta história da psicanálise ou do pensamento de Freud, pois é um referencial teórico e não uma contextualização histórica.

Se o tema é o discurso neonazista, os conceitos básicos são os de discurso, formas do discurso, neonazismo, etc. Na inexistência de uma teoria a esse respeito, então é necessário recorrer às abordagens ideológicas do discurso para que se tenha uma base que, após sua crítica, realize um esboço de teoria. As correntes da análise do discurso seriam a base bibliográfica. As questões a serem abordadas é o que é o discurso, quais suas formas, qual sua determinação fundamental, qual a especificidade do discurso político. Esses elementos fornecem, posteriormente, a chave explicativa do caso concreto do discurso neonazista.

Alguns podem indagar por qual motivo começar pela teoria. A tradição acadêmica instituiu esse processo e até parte dos empiricistas mais exagerados aceitam esse procedimento. Na perspectiva dialética, o início é pela teoria por que ela revela a essência do fenômeno ou de um fenômeno mais amplo que permite explicar o fenômeno menos amplo que será pesquisado. Uma teoria da ciência fornece explicações úteis para compreender a psicanálise freudiana, bem como a teoria dos movimentos sociais joga luzes sobre o movimento negro e uma teoria do discurso contribui com a compreensão do discurso neonazista. A pesquisa dialética sempre começa pela essência e é por isso que Marx dedica o primeiro capítulo de O Capital para analisar a produção especificamente capitalista de mercadorias, ou seja, a produção de mais-valor. Esse é o momento de colocar a determinação fundamental do fenômeno[4].

Em seu texto sobre o Método da Economia Política, Marx diz que a pesquisa começa naturalmente pela consciência espontânea dos fenômenos, as representações imediatas, a intuição. Depois ele coloca que, uma vez fixados os conceitos e elaborado uma teoria, ou ideologia, já não se parte mais dessa consciência espontânea e sim da consciência teórica (ou ideológica) já produzida sobre o fenômeno, que será comparada com a realidade para se estabelecer se há correspondência ou não. No caso de não correspondência, cabe a crítica (das ideologias) e no caso de correspondência, cabe o desenvolvimento e aprofundamento. É por isso que a pesquisa numa perspectiva dialética se inicia com a teoria ou ideologia (caso não exista ainda uma teoria sobre o fenômeno específico a ser analisado).

O referencial teórico trata da essência do fenômeno, de sua determinação fundamental, e, quando é sobre um fenômeno mais amplo que lança luzes para a explicação de um fenômeno menos amplo (movimentos sociais e movimento negro, por exemplo), abarca também as múltiplas determinações do fenômeno mais amplo, sendo que o menos amplo possui especificidades e que será através da pesquisa que isso se delineará.

Existem duas formas básicas de realizar o referencial teórico. A primeira é quando se apresenta diversas abordagens e depois se apresenta a crítica delas e apresenta a abordagem com a qual se concorda. A segunda é quando se desenvolve apenas a teoria que é a base da pesquisa, sendo que outras abordagens podem aparecer de forma complementar em algum aspecto mais particular, observações críticas em notas de rodapé, etc., desde que não se crie incoerências. A primeira forma apresenta a vantagem de demonstrar erudição e a segunda a vantagem do aprofundamento, pois tanto em termos de tempo quanto de espaço (número de páginas), a primeira reduz o espaço da exposição da base teórica escolhida. No caso da pesquisa sobre Poder Negro, a primeira forma seria apresentar algumas das diversas concepções de movimentos sociais/movimento negro e depois de criticá-las e apresentar a concepção teórica em que se baseará; no caso do pensamento de Freud, seria as diversas concepções da epistemologia e constituição de métodos e depois a teoria escolhida e o mesmo no caso do discurso (as várias formas de análise do discurso e sua crítica para apresentar a análise dialética do discurso posteriormente).

Existe um caso diferente. É quando não existe referencial teórico estabelecido para analisar determinado fenômeno. O que existem são ideologias ou até mesmo essas podem estar ausentes. Quando existem ideologias, é necessário apresentá-las no referencial teórico e criticá-las, extraindo delas os seus momentos de verdade e ao ter uma teoria mais desenvolvida da sociedade capitalista, inserir elementos da análise dessa sociedade (a partir dos pressupostos do método dialético e materialismo histórico) e elaborar uma teoria a respeito do tema específico em questão. Isso pode ser visto, por exemplo, em Os Mitos no Mundo Moderno[5]. Inicialmente foram apresentadas quatro concepções ideológicas (Lévi-Strauss, Maurice Godelier, Ernst Cassirer, Mircea Eliade) do mito e depois elas foram criticadas. Após isso, um novo conceito de mito, bem como explicação do mesmo, é realizado, retomando alguns momentos de verdade das ideologias anteriores e contribuições mais gerais do materialismo histórico, Erich Fromm, etc.

É por isso que na pesquisa dialética é preciso superar uma concepção equivocada que é partir da totalidade ou da história. Os fenômenos sociais são históricos e inseridos numa totalidade, mas a forma específica como isso ocorre só pode ser compreendida após o término da pesquisa e não no início. No início, através da teoria, que é uma abstração dialética que trata do essencial (e não do histórico ou do total), se lançam as bases analíticas da pesquisa. A definição do que é essencial depende do tema e especialmente do problema de pesquisa.

Uma vez determinado o referencial teórico, a abordagem da essência, aí se passa para a análise da existência, ou seja, parte-se da determinação fundamental para as múltiplas determinações que se manifestam nos casos históricos e no conjunto das relações sociais (totalidade). Isso ocorre no capítulo que muitos denominam “contextualização”.

A contextualização no caso de uma pesquisa sobre o Poder Negro é a desestabilização do regime de acumulação conjugado (ou do “capitalismo norteamericano”), os antecedentes do movimento negro norte-americano, a hegemonia burguesa da época e as formas de contestação, as ações do estado integracionista, etc. No caso do pensamento de Freud, é o contexto de surgimento da psicanálise, ou seja, o capitalismo oligopolista e sua especificidade no caso alemão, as correntes ideológicas e metodológicas hegemônicas, a formação intelectual de Freud, etc. No caso do discurso neonazista, é preciso contextualizar a sua fonte de inspiração, ou seja, o discurso nazista, e o contexto em que torna possível o aparecimento do neonazismo, o que remete ao processo de constituição do regime de acumulação integral e seus impactos sociais, etc.

Após isto, temos o último capítulo, que é dedicado ao fenômeno específico que é o tema pesquisado visando responder o problema de pesquisa. O problema de pesquisa fornece o foco analítico, pois não se trata de abordar o Poder Negro, o pensamento de Freud, o discurso neonazista em todos os seus aspectos, mesmo porque isso é impossível, já que toda descoberta teórica traz novas questões e novas necessidades e nem mesmo escrevendo mil páginas isso será resolvido. Assim, se o problema de pesquisa é o que gerou a organização Poder Negro, e no referencial teórico se trabalhou como surgem as organizações mobilizadoras, então é necessário, neste capítulo, analisar o seu processo de formação e suas especificidades.

Aqui é o momento de tratar do específico, a sua forma de se relacionar com a totalidade. A teoria do primeiro capítulo e a contextualização do segundo capítulo oferecem as ferramentas para compreender a essência do fenômeno e a totalidade na qual se insere e o passo seguinte e final é mostrar como se insere nessa totalidade, o que traz a necessidade de analisar como a condição de classe social dos integrantes do Poder Negro, para citar apenas um exemplo, influenciou na sua formação, e como o conflito racial naquele momento permitiu um processo de radicalização do movimento negro, bem como suas possíveis relações com outras organizações (Panteras Negras, Congresso da Igualdade Racial, Associação Nacional de Promoção das Pessoas de Cor, etc.) contemporâneas e antecedentes (o que remete para as organizações ligadas a Martin Luther King, Malcom X, etc.) e as divergências intelectuais no seu interior[6].

No caso do pensamento de Freud e o problema ser “quais são suas raízes epistêmicas”, então é necessário uma análise profunda do seu procedimento metodológico, o que remete a análise de alguns escritos sobre a questão e outros em que se pode demonstrar como ele produzia sua análise. No caso do discurso neonazista, trata-se de um processo analítico aprofundado do seu discurso em si, a sua construção discursiva, os seus temas fundamentais, o seu processo explicativo, etc.

O tratamento aprofundado do material informativo sobre a organização do Poder Negro, seus discursos, etc. se torna fundamental[7]. Os demais capítulos são fundamentais para a concretização deste, mas é este o que traz uma luz nova sobre a realidade, desvendando a realidade de um fenômeno específico, o que traz a necessidade de enriquecer o processo analítico através do aprofundamento. Esse capítulo, no fundo, também é teórico, pois traz uma teoria nova. É uma teoria da formação do Poder Negro, das raízes epistêmicas do pensamento de Freud ou do discurso neonazista.

A partir do método dialético e de teorias mais amplas (o materialismo histórico que é uma teoria da história e a teoria do capitalismo, bem como teorias de fenômenos no interior deste, como dos movimentos sociais, dos discursos, da psicanálise) chega a teorias de fenômenos mais específicos (a explicação desses fenômenos, e não apenas a “descrição” dos empiricistas). O método dialético, o materialismo histórico, etc., aparecem como pressupostos, não são explicitados. Não é necessário ficar afirmando e repetindo que se parte do método dialético e do materialismo histórico, basta utilizar isso na escolha e definição do referencial teórico (que não é uma ampla teoria da história como o materialismo histórico e sim aquela teoria que fornece a chave explicativa do fenômeno específico que é o tema da pesquisa). Isso fica implícito em toda a pesquisa, pois ele é realizado tendo por parte um método (com a teoria da consciência e da realidade subjacente, bem como com o processo analítico específico que realiza), de teorias mais amplas, que é uma totalidade. A resposta ao problema de pesquisa é o que se queria descobrir e foi descoberto, uma explicação de um fenômeno específico.

Em síntese, e esquematicamente, podemos colocar assim o processo de elaboração de uma tese em perspectiva dialética (sendo que cronologicamente se realiza primeiro o passo da realização da pesquisa e depois o passo da composição/redação):


Realização da Pesquisa
Composição (redação) da tese
Leituras introdutórias sobre o tema e leituras teóricas
Introdução provisória* (tema, delimitação do tema, problema).
Elaboração do problema
* Ela geralmente é revista após o término dos demais capítulos, especialmente quando há mudanças no plano original.
Aprofundamento das leituras teóricas, escolha dos conceitos básicos, teorias e/ou ideologias que serão abordadas.
Composição do referencial teórico.
Definição dos elementos de contextualização necessários e leitura/análise dos mesmos.
Composição do capítulo da contextualização.
Leitura e Análise do material informativo sobre o fenômeno específico pesquisado.
Composição do terceiro capítulo, análise do fenômeno pesquisado.

Essa breve reflexão aponta para alguns dos elementos essenciais de uma tese elaborada a partir da perspectiva dialética. Existem, obviamente, casos concretos em que algumas diferenças formais podem ocorrer. Da mesma forma, apesar de três capítulos serem suficientes, por causa de extensão, é possível que haja mais capítulos, mas o que interessa é o conteúdo necessário e não as formas como se divide ou toma forma na redação.




[1] Tendo em vista que a produção teórica é algo raro, então muitas obras são ideológicas e outras descritivas. Para ter uma percepção mais ampla do tema é necessário realizar leituras diversas, embora nem todas sejam trabalhadas posteriormente. No próprio processo de leitura de obras teóricas e/ou ideológicas, se realiza um processo de seleção daquelas que serão realmente trabalhadas no desenvolvimento da tese.
[2] Esse é o mesmo procedimento no caso da elaboração de um projeto de pesquisa. A elaboração da tese e a elaboração do projeto de pesquisa são semelhantes até o término da composição do referencial teórico. A diferença começa a partir desse ponto, pois no caso do projeto, os passos seguintes são o planejamento da pesquisa (o que alguns chamam “metodologia”, expondo como efetivará a pesquisa futura, como, por exemplo, qual é o universo pesquisado, quais técnicas de pesquisa utilizará, quais processos analíticos serão utilizados). No caso da tese, os passos seguintes são a pesquisa e a composição dos capítulos da mesma.
[3] A este respeito o livro A Elaboração do Projeto de Pesquisa fornece uma síntese de como efetivar esses processos. Esses três últimos elementos são geralmente solicitados na academia, mas não são obrigatórios a não ser em casos específicos (em projeto para concurso ou seleção de pós-graduação nos quais se apresenta os itens que devem conter o projeto para inscrição). Numa perspectiva dialética, justificativa e objetivos são dispensáveis, pois a primeira é uma formalidade sem maior importância e a os objetivos são repetitivos em relação ao problema de pesquisa.
[4] Os elementos históricos são desenvolvidos em outros capítulos (como na análise da acumulação primitiva, a formação da burguesia, etc.) e também os elementos mais totalizantes (as formas do mais-valor, a dinâmica da acumulação de capital, o trabalho improdutivo, etc.). É depois de apresentar a essência do mais-valor é que é possível analisar suas múltiplas determinações. Sem o conceito de mais-valor, sua essência, não tem como distinguir suas formas de manifestação (mais-valor absoluto e mais-valor relativo) e sem entender o mais-valor, não tem como entender a formação do preço das mercadorias e assim por diante.
[5] Trata-se de um projeto de pesquisa produzido por mim durante graduação. A parte teórica foi publicada sob a forma de artigos. O primeiro artigo é a exposição e crítica das ideologias (cf. https://periodicos.ufrn.br/cronos/article/view/2122/pdf) e o segundo artigo a concepção teórica proposta (cf. http://www.saps.com.br/sites/estacio/downloads/revista/revista08_humanas-14.pdf). Estes textos estão disponíveis no blog Informe e Crítica (http://informecritica.blogspot.com.br/): http://informecritica.blogspot.com.br/2016/09/mito-e-ideologia.html e http://informecritica.blogspot.com.br/2016/09/mito-ideologia-e-utopia.html.
[6] Note-se que aqui não é uma abordagem dessas outras organizações e sim da relação do Poder Negro com elas.
[7] Para quem é brasileiro, isso é algo mais difícil, devido a dificuldade de acesso ao material informativo. Se o tema fosse a Frente Negra, o Movimento Negro Unificado, aí teria muito mais acessibilidade e material informativo.

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