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sexta-feira, 14 de outubro de 2022

O BLOCO REVOLUCIONÁRIO E AS ELEIÇÕES

 


O BLOCO REVOLUCIONÁRIO E AS ELEIÇÕES

 

Nildo Viana

 

A luta operária realiza avanços e retrocessos durante o processo histórico. A explicação disso remete a um conjunto de determinações. O aparato estatal, a ilusão democrática, o consumismo, a cultura (ideologias, doutrinas, discursos, etc.), o capital comunicacional, entre inúmeras outras determinações, travam a luta operária. Com o desenvolvimento do capitalismo, a estratégia burguesa vai se ampliando e agora invade o lazer, a cotidianidade, os sentimentos, as divisões sociais, no sentido de impedir uma autonomização do proletariado. Não é nosso objetivo discutir essa questão mais geral e sim algo mais específico. Trata-se da questão das eleições e do bloco revolucionário e sua relação com a estagnação da luta operária. Sem dúvida, as eleições são parte da “ilusão democrática” e o bloco revolucionário deveria ser um ponto de apoio para a autonomização do proletariado. Por isso, é fundamental uma reflexão sobre a relação do bloco revolucionário com as eleições e de ambos com o movimento operário.

As eleições reforçam as ilusões democráticas. Elas amortecem a luta de classes ao desviar a insatisfação social existente para a arena eleitoral e disputas pelo poder estatal. Além dos candidatos “messiânicos” (os “salvadores da pátria”), as promessas irrealizáveis, a tentativa de “lavagem cerebral” do aparato estatal e capital comunicacional, o próprio período eleitoral aparece como um momento de “democracia”, no qual o “povo” escolhe os governantes, e de possibilidade de mudança. Sem dúvida, uma parte da população não se ilude com isso, pois eleições após eleições, a sua vida não muda, a corrupção continua, as coisas pioram em vários aspectos e momentos. Outra parte, por outras determinações, como setores da juventude e da intelectualidade, também recusa o processo eleitoral. Estes setores, em sua maioria, são integrantes do bloco revolucionário. Porém, para grande parte da população a ilusão democrática persiste.

Nesse sentido, as eleições realizam o processo de amortecer as lutas de classes. E isso é ainda mais verdade com o oportunismo dos partidos de esquerda que canalizam todas as suas forças para conseguir retorno eleitoral. assim, uma das determinações (embora de efeito temporário) da estagnação do movimento operário é o processo eleitoral. O bloco revolucionário, tem, por conseguinte, a tarefa de combater a ilusão eleitoral. O bloco revolucionário deveria ser a fração mais resoluta, a que tem uma percepção mais global e acima dos interesses pessoais, partidários, grupais ou até mesmo de setores das classes trabalhadoras, dentre aqueles que lutam pela transformação social, tal como Marx definiu ao tratar da posição dos comunistas. Porém, aqui encontramos um elemento problemático, que é a ambiguidade no interior do bloco revolucionário. Essa ambiguidade se manifesta não apenas no processo eleitoral, mas em diversas outras questões. Contudo, o nosso objetivo se limita a analisar a relação entre bloco revolucionário e o processo eleitoral, o que nos faz focalizar apenas esse aspecto da questão.

O bloco revolucionário deveria ser o setor mais avançado da luta política, trabalhando no sentido de contribuir com a autonomização do proletariado para que este assumisse independência de classe e lutasse por seus interesses, tanto os imediatos quanto o histórico e fundamental, que é transformação radical e total das relações sociais, o que significa lutar pela abolição do capital, e, por conseguinte, pela sua autoabolição. A autonomização do proletariado significa que ele deixa de seguir ao reboque do capital, dos governos, dos partidos, de outras classes sociais (burocracia, intelectualidade, etc.), rompe com a hegemonia burguesa e ideias dominantes, e, ao mesmo tempo, recusa a burocracia e os seus falsos representantes e dirigentes. Esse processo de autonomização significa que a classe operária passa a se ver como classe e reconhecer o processo de exploração e dominação ao qual está submetida, bem como a necessidade de revolução social. O proletariado caminha espontaneamente para tal autonomização, pois seu modo de vida e condição de classe, as relações instituídas com a burguesia e o resto da sociedade, gera sua insatisfação e contestação, gera a luta. O trabalho alienado, mortificador, além dos problemas políticos e econômicos, as crises financeiras, a ameaça do desemprego, entre milhares de outras determinações (que afetam diferentemente setores distintos da classe operária e sob formas e intensidades diferentes em contextos sociais e históricos distintos), tendem a jogar o proletariado na luta. Na luta, o proletariado avança e desenvolve sua consciência, suas formas de organização, sua unificação, e, nesse processo, passa de classe determinada pelo capital para classe autodeterminada (ou, como disse Marx usando linguagem hegeliana, “de classe em-si a classe para-si”). Porém, a classe dominante sabe disso e por isso usa todos os seus recursos (aparato estatal, meios oligopolistas de comunicação, instituições de ensino, etc.) para amortecer os conflitos de classes e evitar a autonomização do proletariado.

O proletariado realiza sua autolibertação, mas não faz isso num fantástico mundo isolado, fora da história e das relações sociais. As lutas espontâneas são combatidas e impedidas pelo capital e, nesse processo, recebe a ajuda escusa da esquerda, dos partidos políticos, da classe burocrática e da classe intelectual. O que existe de apoio ao proletariado, uma classe social de assalariados sem grandes recursos, sem grande bagagem cultural, é as demais classes inferiores, que, na maioria das vezes, se encontra num nível inferior de desenvolvimento da consciência e organizacional, bem como de setores da juventude e da intelectualidade, e o bloco revolucionário. De todos esses aliados potenciais, o bloco revolucionário seria o mais sólido no plano intelectual e o mais resoluto no plano da ação e da iniciativa. Os demais também são atingidos pela hegemonia burguesa, pelas necessidades cotidianas, entre outros processos.

Porém, o bloco revolucionário não está livre da hegemonia burguesa e dos demais elementos que atinge o resto da sociedade. A origem de classe de grande parte de seus integrantes, geralmente oriundos das classes superiores, é um dos obstáculos nesse processo, pois esses indivíduos carregam consigo valores, interesses, ideias, que não são efetivamente proletárias (no sentido revolucionário), devido ao lugar social do qual emergem. A isso se soma o lugar onde se encontram, sendo que a maioria são estudantes ou intelectuais e, portanto, estão envolvidos com as escolas e instituições de ensino e suas ideologias, doutrinas, interesses, valores, influências, correntes de opinião. Alguns tentam superar isso caindo no obreirismo e outros equívocos semelhantes, confundindo proletariado como classe determinada e proletariado como classe autodeterminada. Além disso, os limites intelectuais (o que, na contemporaneidade, se torna mais dramático, pois ao mesmo tempo em que o acesso às obras revolucionárias e a informação é facilitado, o grau de leitura e aprofundamento é reduzido, bem como os modismos e a hegemonia se tornaram ainda mais fortes nos meios revolucionários) acabam promovendo interpretações e análises equivocadas, gerando ecletismos e ambiguidades por conta da falta de autonomia intelectual e dificuldade de expressar a perspectiva do proletariado revolucionário.

Neste contexto, a relação entre bloco revolucionário e processo eleitoral deveria ser de luta contra as eleições e afirmação da necessidade de autonomização do proletariado. Porém, as ambiguidades do bloco revolucionário dificultam esse processo. Inclusive, em períodos eleitorais, os setores mais indecisos e volúveis do bloco revolucionário abandonam a posição revolucionária, e alguns não apenas momentaneamente, mas definitivamente (no fundo, abandonam o seu período de “arroubo infantil” e rebeldia, voltando como filhos pródigos ao lar das classes superiores, passando a buscar “vencer na vida”, o que combina bem com o conformismo e conservadorismo, mesmo que seja em sua forma “progressista” e ainda mantendo discurso “esquerdista”). Outros cedem às pressões do progressismo e eleitoralismo, incluindo supostos anarquistas, que seriam antieleitorais por princípio.  Alguns não conseguem se posicionar contra a corrente predominante de opinião que se estabelece nos meios intelectualizados e acabam cedendo ao eleitoralismo. Resta, assim, apenas uma parte do bloco revolucionário, a que efetivamente expressa sem ambiguidades a hegemonia proletária.

Assim, a relação entre bloco revolucionário e eleições é complexa e atualmente é marcada pelo retrocesso. Sem dúvida, a estagnação do movimento operário é uma das principais determinações desse processo. Contudo, a iniciativa do bloco revolucionário hoje pode contribuir com a superação dessa estagnação (e a desestabilização e possível crise que se aproxima é outra ainda mais forte), criando uma retroalimentação. Isso também serviria para fortalecer e ampliar a hegemonia proletária no interior do bloco revolucionário, o que beneficiaria ele nas lutas posteriores e isso, por sua vez, ampliaria sua possibilidade de uma intervenção mais importantes nas lutas de classe que virão. Assim, apenas o voto nulo autogestionário ou outras formas de recusa do processo eleitoral são formas de luta revolucionária, visando deslegitimar a democracia burguesa e contribuir com a autonomização do proletariado.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Classes Inferiores e Classes Superiores



Classes Superiores e Classes Inferiores

Nildo Viana




A questão das classes sociais é fundamental na teoria de Marx e para o marxismo. Ela ganhou várias discussões e abordagens sociológicas. Porém, tanto nas abordagens sociológicas quanto na marxista, ainda existem muitos pontos obscuros. Dentre estes pontos obscuros, basta citar o pouco desenvolvimento da análise de determinadas classes sociais específicas. Em certos casos, dependendo do sociólogo que se aventurou a tratar das classes sociais, nem sequer há uma discussão sobre cada uma das classes sociais. Porém, não vamos tratar aqui da sociologia das classes sociais e das diversas abordagens nesse temário, pois nosso objetivo é discutir a concepção marxista de classes sociais num aspecto bem delimitado, que é o uso de termos que expressem as classes sociais em seus dois agregados mais amplos, as classes superiores e as classes inferiores. Assim, também não vamos discutir a teoria das classes sociais de Marx e seu desenvolvimento posterior por outros autores marxistas, apesar de realizar uma breve síntese a esse respeito para possibilitar a nossa análise sobre classes sociais superiores e inferiores.

Uma classe social pode ser definida como um conjunto de indivíduos que possuem o mesmo modo de vida, os mesmos interesses e a mesma luta comum contra outras classes sociais, que são elementos derivados da divisão social do trabalho, que, por sua vez, é determinada pelo modo de produção dominante[1]. Assim, é equivocado definir classes sociais apenas pelo modo de vida, interesses e lutas comuns, pois isso pode se manifestar no caso de outros grupos e setores da sociedade. Esses aspectos em comuns são específicos, são derivados da “atividade fixa” na divisão social do trabalho (MARX; ENGELS, 1982) e, na perspectiva marxista, é fundamental entender que esta última só pode ser compreendida a partir de sua constituição pelo modo de produção dominante. Assim, os servos domésticos e os assalariados domésticos só podem ser assim entendidos pelas relações de produção dominantes, a servidão e a produção de mais-valor, assim como o campesinato no capitalismo e outras classes sociais em todas as sociedades de classes. O elemento diferenciador das classes sociais para grupos sociais ou outros agrupamentos é o vínculo com o trabalho e com o processo de reprodução das condições de existência. O que une os indivíduos no pertencimento de classe é a posição na divisão social do trabalho e não a corporeidade (características biológicas, como sexo e raça), a etnia, a cultura, ou qualquer outro aspecto. Sem dúvida, o pertencimento de classe tem efeito sobre todos estes outros aspectos, mas não é uma característica das classes e sim impactos da condição de classe nesses outros elementos das diferenciações sociais. Assim, as mulheres, os negros, os hippies, os jovens, os muçulmanos, os católicos, os judeus, os ecologistas, entre inúmeros outros exemplos possíveis, não são classes sociais. Essa afirmação é um tanto óbvia, embora muitos sociólogos e outros pesquisadores confundam ou apresentem definições confusas que acabam permitindo confundir essas coisas distintas.

Porém, aqui tratamos de classes sociais em geral. Essa foi uma das discussões efetivadas pioneiramente por Marx, mas ele foi além disso e desenvolveu uma análise das classes sociais no capitalismo (MARX, 1988; VIANA, 2018; VIANA, 2016). A partir do modo de produção capitalista emergem as duas classes sociais fundamentais: a classe capitalista e a classe operária, ou, usando outros termos, a burguesia e o proletariado. E, derivado da divisão social do trabalho gerada pelo modo de produção capitalista, emergem outras classes, tal como a burocracia (VIANA, 2018) e outras classes instituídas nas formas sociais (“superestrutura”), nos modos de produção subordinados (camponeses, artesãos, etc.), etc. No fundo, a sociedade capitalista institui um conjunto de classes sociais[2].

Explicitado o significado do conceito de classes sociais, é necessário entender que na realidade concreta estas se articulam, seja via blocos sociais (o setor organizado, consciente e ativo que representam as classes sociais), seja nas lutas sociais concretas por possuírem interesses semelhantes. Marx apontava para uma tendência de polarização cada vez mais intensa entre burguesia e proletariado com o desenvolvimento capitalista (MARX; ENGELS, 1988). Ele pensava isso a partir da constatação de que as classes sociais em decadência (oriundas da sociedade feudal), as classes sociais de modos de produção subordinados e pequenos proprietários (campesinato, etc.), tendiam a diminuir e desaparecer, simplificando os conflitos de classes e restando o antagonismo entre as classes sociais fundamentais, burguesia e proletariado, como forma básica e visível das contradições do capitalismo. Por outro lado, Marx também colocou que as duas classes fundamentais tendiam a hegemonizar as lutas sociais, com as demais classes sociais girando em torno delas e assumindo o lado de uma ou outra classe social, por mais que algumas pudessem querer se autonomizar[3].

As duas assertivas de Marx, a da simplificação do antagonismo de classes com a polarização da luta entre burguesia e proletariado e a coalizão de classes em torno delas, não se efetivaram exatamente como ele previu. Assim, as classes decadentes foram realmente desaparecendo e as classes ligadas a modos de produção subordinados perderam quantidade e espaço político, mas, no entanto, outras classes sociais emergiram ou se fortaleceram. Por um lado, a nobreza desapareceu e só restaram adornos integrados na sociedade capitalista, bem como os servos deixaram de existir e o clero foi integrado no capitalismo como uma esfera social[4]. Os artesãos também foram reduzidos à quase inexistência com o desenvolvimento capitalista e o campesinato foi ficando cada vez mais diminuto, até desaparecer em alguns países[5]. E, nesse aspecto, Marx estava correto. Porém, Marx escreveu no século 19 e, embora tenha percebido as mutações e até emergência de novas classes sociais, não pensou que elas se tornariam tão importantes, tanto pela quantidade quanto pela força política. Assim, Marx percebeu a emergência da burocracia e seu crescimento vertiginoso, enquanto burocracia estatal (MARX, 1986) e enquanto burocracia empresarial, o que ele denominou “gerentes” (MARX, 1988). Após a morte de Marx, há um processo ainda mais intenso de desenvolvimento da burocracia, tanto das frações que já existiam, quanto através da emergência de novas frações, tais como a universitária (e escolar), a partidária, a sindical, etc., ou seja, a burocracia civil avança a partir da segunda metade do século 19, a fase A da burocratização, segundo Lapassade (1989)[6]. Por outro lado, Marx não considerou a intelectualidade uma classe social (VIANA, 2013), pois seu desenvolvimento era muito incipiente no século 19. Essas duas classes sociais, no entanto, cresceram em quantidade e força política, especialmente a partir do século 20. A partir do pós-Segunda Guerra Mundial, a expansão quantitativa da intelectualidade e burocracia é visível, bem como o crescimento do seu peso político.

Assim, a tese da simplificação da luta de classes e sua condensação na luta entre as duas classes fundamentais e antagônicas estava correta para a época, mas devido ao desenvolvimento e ampliação da divisão social do trabalho, a situação acabou se complexificando novamente. E isso ficou ainda mais grave com o desenvolvimento da democracia representativa e formação dos partidos políticos, pois a ideologia da representação e as ilusões eleitorais permitiram que burocratas e intelectuais passassem a se declarar como sendo os porta-vozes da classe operária, do “povo”, da “nação”, etc. Estes e outros mecanismos, acabaram gerando um processo de dificuldade para a autonomização do proletariado e, por conseguinte, sua passagem a classe autodeterminada (“em-si”, segundo terminologia de Marx). A emergência da juventude como grupo social importante politicamente, complexificou ainda mais esta questão, pois os jovens pertencem a todas as classes, bem como um setor mais específico no seu interior, os estudantes, que também ganharam força nas lutas políticas. Desta forma, a tese da simplificação dos antagonismos de classes foi superada historicamente e uma nova complexificação foi instituída.

A outra assertiva de Marx, sobre a coalizão de classes em torno das duas classes fundamentais, continua válida, mas também se tornou mais complexa. E isso tem a ver com o desenvolvimento capitalista e a alteração na composição e divisão de classes já aludidas anteriormente. A coalizão de classes em torno da burguesia ocorre, embora haja setores de algumas classes sociais que buscam se autonomizar e, assim, parecem ficar ao lado da outra coalizão, que seria em torno do proletariado. A burguesia, devido ao seu poder financeiro e domínio sobre o aparato estatal, transformou a burocracia e a intelectualidade em suas classes auxiliares. A posição e função na divisão social do trabalho destas duas classes apontam para a reprodução das relações de produção capitalistas, uma através do controle social e outra através da produção cultural. É por isso que alguns setores dessas classes possuem altos salários, tal como já alertava, desde o final do século 19, Makhaïsky (1981)[7]. Em 1914, Robert Michels (1982) já alertava para a burocratização dos partidos social-democratas e a criação de uma “nova camada pequeno-burguesa”, o que, no fundo, significava nova fração de classe da burocracia. Os estratos inferiores dessas classes sociais, por sua vez, já não recebem salários tão elevados, e alguns ficam no nível do proletariado, ou até menos em alguns casos, mas ainda mantém o vínculo com os valores, interesses, etc., de sua classe de origem. Porém, uma parte desse setor busca se autonomizar e se afastar da burguesia, defendendo seus próprios interesses de classe. Mas, e isso complexifica a luta de classes, alguns pensam e afirmam estar defendendo o proletariado, a “transformação social”, o “socialismo”, o “povo”, as “classes populares”, etc. e, no fundo, defendem a tomada de poder e a substituição da burguesia pela burocracia. A intelectualidade fica a reboque da burocracia nesses casos, pois são as organizações burocráticas (partidos, sindicatos, Organizações Não-Governamentais, etc.) que possuem maior força e iniciativa política, apesar de seu enfraquecimento crescente com o desenvolvimento capitalista.

O que vem sendo dificultado com o desenvolvimento capitalista é a coalizão de classes em torno do proletariado. Obviamente que a burguesia sempre lutou contra tal coalizão, e sempre foi beneficiada pelo auxílio da burocracia e da intelectualidade, tanto em seus setores mais conservadores e próximos da burguesia, quanto nos seus setores mais autonomizados e que dizem representar a população e a transformação, pois ao se intitularem "representantes” ou “vanguarda” dos trabalhadores, do proletariado, das “classes populares”, do “povo”, acabam corroendo a hegemonia proletária em favor de uma hegemonia burocrática. O bloco progressista, que reúne os setores mais organizados, conscientes e ativos dessas duas classes, ao contrário do outro setor que se articula com o bloco dominante sob hegemonia burguesa, promove um processo de criação de organizações burocráticas (partidos, sindicatos, etc.) que são obstáculos para a autonomização do proletariado, bem como geram ideologias, doutrinas, correntes de opinião, que são outros obstáculos. Além disso, aglutinam setores das classes inferiores, incluindo do proletariado, em torno de suas organizações e concepções.

A coalizão de classes em torno do proletariado somente ocorre quando há ascensão das lutas sociais, o que significa que o bloco revolucionário, que é o setor mais organizado, consciente e ativo que expressa os interesses do proletariado, tende a se tornar mais forte e presente, e o proletariado se autonomiza, gerando a hegemonia proletária[8]. Alguns setores da intelectualidade e da juventude (em que pese esta não ser uma classe social, mas adquiriu, com o desenvolvimento capitalista, uma importância política considerável)[9], também se articulam em torno do proletariado e isso se fortalece com a autonomização do proletariado.

Assim, a assertiva de Marx sobre a coalizão de classes em torno do proletariado continua válida, mas vem sendo dificultada e obstaculizada pela burguesia e suas classes auxiliares. E uma “terceira coalizão” se tornou possível, em torno da burocracia, inclusive atraindo setores das classes inferiores, com o discurso em nome do proletariado ou dos “trabalhadores”. Esses elementos ajudam a compreender a discussão a seguir sobre classes superiores e inferiores.

As classes superiores se apresentam no plural por não ser uma classe social e sim um agregado de classes sociais. O mesmo ocorre com as classes inferiores. E qual é a relevância dessa distinção e do uso desses termos? O primeiro aspecto é descritivo[10]. Distinguir entre classes superiores e classes inferiores[11] é um elemento da composição e divisão de classes sociais. As classes superiores são algumas classes sociais agregadas por sua situação de classe, bem como as inferiores. Esse agregado de classes é a reunião de algumas classes sociais no sentido descritivo, através da posição e função de cada uma delas na divisão social do trabalho e na pirâmide social. Porém, além do aspecto descritivo, essa distinção também tem um caráter político, que é a tendência para unificação em torno da burguesia no caso das classes superiores e em torno do proletariado no caso das classes inferiores. E a própria consciência de pertencer ao agregado das classes superiores ou das classes inferiores já contribui para a unificação em torno das classes fundamentais, o que corrói, parcialmente, a possibilidade da “terceira coalizão”, que, no fundo, propõe um capitalismo reformado e não uma nova sociedade e assim não atende as necessidades e interesses das classes inferiores.

No plano concreto, as classes superiores são aquelas que possuem maior poder e renda. A classe dominante, a burguesia, obviamente é a detentora do capital e do poder financeiro, bem como possui o domínio sobre o aparato estatal e hegemonia na sociedade civil. Ela é a principal classe superior e em torno do qual todas as demais existem e a maioria são suas classes auxiliares. Em certos momentos históricos, outras classes proprietárias podem fazer parte das classes superiores, tal como a classe latifundiária. A nobreza foi parte das classes superiores durante algum tempo, até ser superada historicamente pelo desenvolvimento capitalista. Além dessas, as classes auxiliares da burguesia, a burocracia e a intelectualidade fazem parte das classes superiores, embora seus estratos inferiores estejam próximos, por sua renda e menor poder, das classes inferiores. Essas classes sociais estão, por conseguinte, no topo da pirâmide social. As classes proprietárias (incluindo, obviamente, a classe capitalista) e as classes auxiliares da burguesia formam as classes superiores.

As classes inferiores são aquelas destituídas de poder e de menor renda, sendo as classes trabalhadoras (incluindo o lumpemproletariado), algumas sendo exploradas, algumas sendo submetidas à pobreza e salários baixos. A principal classe inferior é, obviamente, o proletariado, a classe dos trabalhadores assalariados produtivos, que são aqueles que produzem mais-valor. A sua importância se revela em ser o sustentáculo da produção material na sociedade capitalista, sem a qual não existiria riqueza, bens materiais, sobrevivência da espécie. Além dessa importância, “econômica”, o proletariado é importante no plano político, pois sem ele não existe possibilidade de transformação social, pois sem alteração nas relações de produção, que depende dele, não há como emergir uma nova sociedade. Além disso, ele possui uma potencialidade revolucionária, pois o trabalho alienado, a exploração capitalista, o seu vínculo com a produção e o fato de estar no coração das relações de produção capitalistas o tornam o artífice de novas relações de produção e novas relações sociais. É isso que torna o proletariado (e não sua quantidade, que em certo momento histórico e lugares foi também expressiva e talvez a mais numerosa em alguns casos) uma classe revolucionária.

O proletariado é destituído de poder e sua renda é baixa, pois mesmo nos setores em que os salários são mais elevados, eles não se comparam aos das classes superiores (a não ser no caso dos estratos inferiores da burocracia e da intelectualidade). Porém, existem outras classes em situação semelhante e que formam, junto com ele, o agregado das classes inferiores. Esse é o caso do lumpemproletariado, a classe marginal na divisão social do trabalho e que vive no desemprego ou do subemprego[12], dos subalternos[13], dos camponeses, dos artesãos, entre outras classes, que também variam em quantidade dependendo da época e lugar. Os artesãos, por exemplo, foram reduzidos drasticamente e são parte de uma classe quase extinta.

Desta forma, poderíamos retomar a pirâmide social para ilustrar esses dois agregados de classes sociais:

O segundo aspecto que demonstra a relevância dessa distinção entre classes superiores e classes inferiores é a tendência para a coalizão delas em torna da burguesia e do proletariado, respectivamente. Já colocamos que essa tendência, observada por Marx, não se efetiva facilmente devido aos obstáculos gerados pelas condições da sociedade capitalista, especialmente a emergência do bloco progressista e da ideologia da representação (incluindo a da vanguarda). No caso das classes superiores, essa coalizão nem sempre se concretiza englobando o conjunto delas. Sem dúvida, existem divisões no interior da classe capitalista (suas frações e outras subdivisões), bem como existem interesses distintos e, em alguns casos, até opostos (mas não antagônicos) entre as diversas classes que fazem parte do seleto grupo das classes superiores. As divisões das outras classes além da burguesia também afetam essa coalizão, mas é algo secundário (os estratos inferiores da burocracia e da intelectualidade, por exemplo, tendem a querer se autonomizar e buscar formar uma “terceira coalizão”, gerando o bloco progressista e girando em torno dele).

No caso das classes inferiores, a coalizão é ainda mais difícil. Isso pelo simples motivo de que a hegemonia burguesa gera uma adesão de uma grande quantidade de indivíduos dessas classes aos valores e concepções do bloco dominante, conservador, e, secundariamente, aos do bloco progressista. No primeiro caso, temos os indivíduos e setores das classes inferiores que reproduzem e reforçam as ideias, valores, dominantes, a hegemonia burguesa, e, por conseguinte, buscam ascensão social, a propriedade, o consumo, etc. e defendem a sociedade existente. Trata-se de uma quantidade considerável de indivíduos, sendo, geralmente, a maioria dos indivíduos que compõem as classes inferiores. E foi assim em todas as épocas, com variações apenas no percentual dessa maioria, se 80 ou 70%, por exemplo. Uma parte dos indivíduos das classes inferiores, por ligações com partidos, sindicatos, etc., aderem aos valores e concepções do bloco progressista. O quantum dessa adesão também varia historicamente. Isso se justifica pelo motivo que alguns setores relativamente descontentes querem alguma mudança, fazem reivindicações, ou, alguns, se aproximam de ideias e valores ligados a tal bloco, em parte se iludindo com suas promessas e discursos (alguns reproduzindo o marxismo, e, por conseguinte, elementos dos interesses do proletariado). A última parte, quantitativamente insignificante em épocas de estabilidade econômica e política, tende a se aproximar do bloco revolucionário ou demonstrar um descontentamento geral sem ser acompanhado por uma utopia ou ideia de transformação social. Sem dúvida, nesses dois últimos casos, há variação devido à época e lugar, podendo aumentar ou diminuir. Em momentos de radicalização das lutas de classes, a tendência é aumentar a adesão aos valores e concepções do bloco progressista e do bloco revolucionário (sendo que, historicamente, há uma diminuição no primeiro caso, devido ao conservadorismo, oportunismo e burocratismo crescente da social-democracia e bolchevismo) e diminuição drástica da adesão à hegemonia burguesa. Também não é preciso dizer que existem diferenças no interior das classes inferiores. Os pequenos proprietários e comerciantes são mais conservadores, bem como setores das classes trabalhadoras, como comerciários, entre outros. Outros setores das classes inferiores já tendem mais à rebeldia, tais como setores do lumpemproletariado, proletariado, especialmente os jovens. No entanto, trata-se de rebeldia e não posição revolucionária e isso é derivado tanto da condição juvenil (no caso específico dos jovens) quanto da falta de autoformação e condições de desenvolver ou conhecer projeto alternativo, ou, ainda, acreditar em sua possibilidade (o que inclui parte dos jovens e adultos).

Assim, a hegemonia burguesa reina absoluta nas classes superiores, com pouca dissidência e com uma parte, especialmente da burocracia e intelectualidade, aderindo à hegemonia burocrática e, uma parte ainda mais diminuta – da intelectualidade e juventude das classes superiores[14] – à hegemonia proletária. A hegemonia burocrática é forte nos estratos inferiores da burocracia e intelectualidade, bem como possui força atrativa em setores da juventude das classes superiores e inferiores, além de atrair setores das classes inferiores. A hegemonia proletária, por sua vez, é a menos influente e que aglutina o menor número de indivíduos, sendo que atinge setores da intelectualidade e juventude das classes superiores, em pequena quantidade, e jovens e indivíduos em geral das classes inferiores, também em quantidade muito pequena.

Essa é a situação em períodos de estabilidade econômica e política. Processos de desestabilização de um regime de acumulação, crises financeiras, lutas espontâneas e acirramentos dos conflitos de classes, alteram esse processo, sem contar acontecimentos extraordinários em outras instâncias (emergência de uma produção artística em perspectiva revolucionária que consegue espaço na sociedade mesmo em períodos de estabilidade, produção teórica que consegue, por sua capacidade explicativa, aglutinar mais pessoas, conflitos localizados em certos lugares ou rebeldia juvenil que desemboca em radicalização no plano cultural, etc.)[15], alteram isso e podem promover o aumento de espaços de hegemonia proletária em disputa com a hegemonia burocrática, que, em alguns casos, também se fortalece.

Desta forma, a divisão entre classes superiores e inferiores expressa também uma importância política. O proletariado revolucionário (via hegemonia proletária) tende a atrair as classes inferiores e tal tendência se fortalece com as crises e radicalização das lutas de classes. E isso ocorre, entre outras coisas, pelas semelhanças na posição da sociedade, nas reivindicações, na insatisfação compartilhada, na desilusão com governos e partidos, etc. Essa, no entanto, é uma tendência e já apontamos os obstáculos. Inclusive os setores ambíguos do bloco revolucionário (que são semiproletários e, por isso, se aproximam, em muitos casos, do bloco progressista ou de elementos de ideologias burguesas e/ou burocráticas) é um outro obstáculo no interior da própria luta revolucionária. Os indivíduos da ala semiproletária do bloco revolucionário são influenciados pela hegemonia burguesa e burocrática, mesclando isso com elementos de hegemonia proletária, e por isso a competição, a ambição (inclusive intelectual), entre outros processos, dificultam a unificação do bloco e o reforço da hegemonia proletária.

Porém, as condições de vida semelhantes das classes inferiores, ou pelo menos de sua parte composta por trabalhadores assalariados e lumpemproletariado, tendem a gerar uma unificação em torno do proletariado, ou seja, aderir à hegemônica proletária, especialmente em momentos revolucionários. Nessas épocas, até indivíduos das classes superiores podem aderir (alguns momentaneamente, abandonando tal posição quando volta a estabilidade ou a tentativa de revolução é derrotada, com algumas exceções, obviamente) à hegemonia proletária.

O fundamental, no entanto, é entender que a percepção da existência das classes inferiores é importante para analisar a divisão e composição de classes da sociedade capitalista, por um lado, e para a compreensão das lutas políticas, por outro. Além da importância analítica, há sua importância política, pois é necessário compreender que o proletariado é a classe revolucionária de nossa época, mas ele aglutina outras classes (as inferiores), especialmente nos momentos revolucionários, e é assim que, mesmo não sendo a classe com maior quantidade de indivíduos, reúne a maioria da população sob hegemonia proletária. O caso da Revolução Russa mostra justamente isso, pois a maioria da população era camponesa (70% da população) e o proletariado era concentrado em algumas grandes cidades mais industrializadas e reuniu, além das classes inferiores (especialmente o campesinato, nesse caso), apoio de setores da intelectualidade e outros setores da sociedade. Isso também serve para alertar militantes e intelectuais, que querem atuar apenas com indivíduos proletários, que a grande questão é fazer avançar a hegemonia proletária, tanto no âmbito do proletariado com sua autonomização e passagem para classe autodeterminada, quanto das demais classes inferiores e setores das classes superiores (especialmente setores da juventude e da classe intelectual) para fortalecer focos dessa hegemonia e ampliá-la ao máximo, mesmo em momentos de estabilidade política e econômica, pois isso fortalece a tendência de seu fortalecimento e maior possibilidade de superar as demais forças hegemônicas em momentos revolucionários.

Referências

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HOBSBAWN, Eric. Mudança no Proletariado provoca Crise das Esquerdas. Revista Ruptura, Ano 01, num. 01, Maio de 1993.

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WOLF, Eric R. Sociedades camponesas. 2ª edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1976.









[1] Essa definição, não explícita, se encontra em Marx e Engels (1982) e tem desdobramentos em outras obras, tal como se pode ver na síntese realizada dos diversos escritos destes autores (VIANA, 2018; VIANA, 2016).
[2] Alguns sociólogos deformaram a concepção de Marx ao atribuir a ele a ideia de apenas duas classes sociais no capitalismo (GURVICHT, 1982), certamente por ter lido apenas o volume 01 de O Capital, no qual ele focaliza a produção de mais-valor, logo, a relação de produção existente entre burguesia e proletariado, pois, se tivesse lido os demais volumes, veria as referências e análises dos latifundiários, campesinato, lumpemproletariado, etc.
[3] Esse foi o caso das lutas de classes na França, especialmente no que se refere à Comuna de Paris (MARX, 2011).
[4] Sobre as esferas sociais veja: Viana, 2015a.
[5] Hobsbawn (1993) afirma que o campesinato desapareceu na Europa. Claro que aqui se trata do conceito marxista de campesinato, como a pequena propriedade nominal e familiar, e não qualquer definição deste termo, tal como aqueles que pensam que todos os que moram no “campo” (zona rural) são camponeses, criando uma indistinção histórica entre servos, camponeses, latifundiários, operários agrícolas, etc. É isso tipo de confusão que permite alguns abordarem o que denominam “sociedades camponesas” (WOLF, 1976).
[6] Sobre a classe burocrática, é possível ver uma análise em: Viana, 2018a; Viana, 2018b) e a respeito da abordagem de Marx sobre a burocracia: Viana, 2015b.
[7] Ele chegou a afirmar, não sem certo exagero, que Kautsky tinha um modo de vida idêntico ao de um burguês (MAKHAÏSKY, 1981).
[8] Sobre hegemonia burguesa e hegemonia proletária, cf. Viana, 2018c; Viana, 2015c.
[9] Isso é possível devido às características da intelectualidade e da juventude. Alguns setores da intelectualidade, por seu vínculo com a produção cultural e os valores vinculados a ela, bem como sua contradição relativa com a burguesia (burocratização e mercantilização da produção intelectual – arte, ciência, etc. –, entre outros aspectos), possuem maior capacidade de ruptura com a classe dominante, especialmente os setores mais autônomos, que se encontram geralmente nos estratos mais baixos e aqueles que valoram mais suas atividades (embora, quando exageram nesse ponto, se vinculam mais ao bloco progressista). A juventude, por sua vez, devido sua autonomia relativa e negação de sua inserção no mundo adulto, tende a rebeldia e ativismo, que, em certos setores, acaba se aproximando do proletariado (embora outro setor, maior, se aproxima do bloco progressista, ou seja, da hegemonia burocrática). Em momentos de radicalização da luta de classes, aumenta a adesão de indivíduos intelectuais e jovens à hegemonia proletária. Porém, é preciso deixar claro que a classe intelectual é uma classe auxiliar da burguesia e, por conseguinte, é conservadora. No entanto, indivíduos, ou até setores inteiros, podem ultrapassar essa determinação, embora seja raro além de casos individuais ou setores marginalizados (que podem também aderir ao extremismo conservador visando ganhar espaços com isso, tal como ocorre hoje no Brasil em torno de Jair Bolsonaro, apesar de alguns realizarem tal aproximação por questões morais).
[10] Porém, não é qualquer descrição. Trata-se de uma descrição da realidade tal como ela é efetivamente, sendo, portanto, concreta.
[11] Em alguns textos passados utilizei os termos “classes privilegiadas” e “classes desprivilegiadas”. Porém, esses termos são problemáticos pela confusão em torno das discussões problemáticas atuais em torno dos “privilégios”, bem como focar nesse item que, embora real, é de menor importância. Daí a alteração para classes superiores e classes inferiores, expressão da posição das classes na pirâmide social, forma ilustrativa da posição das classes na sociedade capitalista.
[12] Sobre o significado do lumpemproletariado existe várias polêmicas e posições negativas ao seu respeito, desde Marx, mas que se intensificou e se tornou unilateral após ele. Marx manteve algumas ambiguidades em sua definição de lumpemproletariado (VIANA, 2018a), mas esta é uma das formas pelas quais ele o concebe. Contemporaneamente, outros autores vêm ressignificando o conceito no sentido de romper com tais ambiguidades e lhe retirando o caráter negativo (VIANA, 2018a; BRAGA, 2013; VIANA, 2015d).
[13] A classe subalterna é aquela que engloba o conjunto dos trabalhadores domésticos (o que Marx denominou a “classe dos serviçais”), trabalhadores dos serviços e comércio, que possuem renda inferior e não possuem poder nas instituições (funcionários de limpeza, segurança, etc.).
[14] Essa adesão, no entanto, é geralmente temporária e, na maioria das vezes, ambígua. Apenas uma parte insignificante, numericamente, dos jovens das classes superiores mantém adesão à hegemonia proletária após a entrada na idade adulta. As razões para isso já foram apresentadas em Viana, 2015e.
[15] Estes processos ocorrem em momentos de estabilidade, gerando focos de hegemonia proletária. Porém, seu efeito vai além disso, pois, uma vez existindo, em momentos de desestabilização se fortalecem e ampliam, reforçando a tendência para a coalizão das classes inferiores em torno do proletariado, ou seja, adesão à hegemonia proletária, indo além de focos para se tornar algo mais generalizado.

domingo, 12 de maio de 2019

COMO COMBATER O REACIONARISMO?



COMO COMBATER O REACIONARISMO?

Nildo Viana



Hoje é possível perceber um avanço do reacionarismo que vem ganhando cada vez mais espaço, especialmente na sua forma do conservantismo, inclusive no Brasil. Esse conservantismo (e não fascismo, como querem nos fazer crer o discurso petista)[1] vem se fortalecendo em escala mundial, tendo alguns países que elegeram presidentes conservantistas ou próximos disso. O conservantismo é uma variante do reacionarismo, tal como o fascismo e o nazismo, embora mais moderado em alguns aspectos. Ele se caracteriza por ser um conservadorismo amplo, tanto moral quanto político. Desta forma, ele é estatista, autocrático, tradicionalista, etc. O regime militar, no Brasil, era conservantista. No caso brasileiro, há um avanço do conservantismo e do liberal-conservantismo[2].

A questão que assume importância hoje é: como combater o conservantismo? Esse problema, no entanto, é em si mesmo, problemático e vamos mostrar isso. Em síntese, os nossos objetivos aqui são dois: discutir como combater o conservantismo e mostrar que isso é algo problemático se reduzido a apenas isso.

O que é o reacionarismo?

No interior da sociedade capitalista, emergem inúmeras ideologias, doutrinas, representações, ideias, etc., que são burguesas e próximas (burocráticas, semiburguesas, etc.). Isso cria uma enorme dificuldade de entender suas diferenciações. Num nível mais abstrato, poderíamos simplesmente colocar que são concepções burguesas, o que é correto, mas aí perdemos de vista suas divisões e diferenciações internas, correndo o risco de não compreender as disputas internas no interior do bloco dominante, bem como entre este e o bloco progressista, além de não entender ações e discursos. Podemos realizar divisões e subdivisões e isso não seria apenas um exercício intelectual, mas algo importante para compreender as lutas políticas dentro do bloco dominante e de sua disputa eleitoral e política com o bloco progressista. O pensamento conservador (expressão intelectual do bloco dominante) pode assumir a forma do reacionarismo, do liberalismo, do republicanismo, etc. O pensamento progressista (expressão política do bloco progressista) pode assumir a forma do trabalhismo, social-democracia, bolchevismo, etc.

O reacionarismo é, portanto, uma expressão intelectual de uma ala do bloco dominante, a ala reacionária[3]. Ela conta com uma base social variada, incluindo setores da burguesia, da semiburguesia, da burocracia, etc. Ela é bem diminuta em momentos de estabilidade política e econômica, mas tende a se fortalecer quando emergem processos de desestabilização, diminuição da renda de certas classes sociais, crises, ascensão da luta operária, etc. Ela se torna, em muitos momentos, a tropa de choque da classe dominante. A burguesia, no seu conjunto, não apoia a ala reacionária e até a desdenha. Apenas um restrito setor dessa classe adere ao reacionarismo.

Porém, a desestabilização faz aumentar os adeptos da classe capitalista ao reacionarismo e, em momentos de crise, ameaça de revolução proletária, a maioria da burguesia pode apoiar a ala reacionária do bloco dominante para garantir a sobrevivência do capitalismo. O fascismo e o nazismo encarnam a ala reacionária do bloco dominante em momentos de crise e necessidade de expansão imperialista, enquanto que o conservantismo é mais comum e emerge em diversos países e momentos históricos, assumindo diversas formas, mas mantendo sua essência. Outras formas de reacionarismo, como o liberal-conservantismo e o estatismo, são formas híbridas e mais comuns dentro da sociedade capitalista, mas podem desembocar no conservantismo dependendo da situação nacional e mundial. O reacionarismo, em qualquer de suas formas, pode ganhar popularidade e obter apoio de setores das classes trabalhadoras. A conquista de setores das classes trabalhadoras ocorre, geralmente, pelo apelo ao nacionalismo, ao moralismo conservador, a ideia (geralmente deformada) de raça, aos interesses nacionais, etc.[4]

Em síntese, o reacionarismo é uma ala do bloco dominante e seu combate é muito mais contra os trabalhadores, determinados grupos sociais, do que por algum ideal em si mesmo. Isso mostra o seu caráter pragmático, tal como se vê no nazismo, fascismo, conservantismo, bem como o seu pouco desenvolvimento intelectual, constituindo doutrinas políticas muito mais que ideologias e mostrando fraqueza intelectual e, em alguns casos, desdém pela teoria, pela formação intelectual, etc.[5] O seu objetivo é sempre a retomada da acumulação capitalista e aumento da exploração, bem como intensificação da repressão e controle social. Todas as tendências reacionaristas tem alguns elementos em comum: nacionalismo, estatismo, controle, etc. O reacionarismo pode ser definido com um conjunto de doutrinas e concepções burguesas que sustentam a reação capitalista diante da desestabilização ou crise (do regime de acumulação e/ou do capitalismo), sendo a ala mais extremista do conservadorismo.

A luta contra o reacionarismo é uma luta contra o conservadorismo e o progressismo

Quando, em 1939, Otto Rühle, que participou do processo da revolução alemã, lançou seu texto A Luta contra o Fascismo começa com a Luta contra o Bolchevismo,  ele já coloca alguns elementos fundamentais para compreender a luta proletária contra as tendências fascistas e sua relação com a luta de classes. A grande questão é compreender que a luta contra o reacionarismo a partir da perspectiva de outros setores do conservadorismo (liberalismo, republicanismo, etc.) ou do progressismo (social-democracia, bolchevismo, etc.) é um recuo para o movimento operário e para o conjunto das classes trabalhadoras.

A razão disso se encontra no fato de que a luta, a partir desta perspectiva, é a redução da luta operária a uma luta de partidos (ou alas, blocos, etc.) no qual se luta contra um setor da burguesia e a favor de outro ou a favor da burocracia. Isso gera um desarmamento do proletariado e dos trabalhadores em geral, pois gera despolitização e reboquismo no conjunto das classes trabalhadoras, além de apagar os interesses de classes e seu antagonismo. A despolitização dos trabalhadores é um interesse do capital, pois quanto mais despolitizado for a população, mais fácil dominá-la, explorá-la, e menores serão as reivindicações, mais fracas serão as lutas, etc. A despolitização é interesse também da esquerda, pois por mais que façam discurso sobre educação e outros aspectos, querem que os trabalhadores fiquem num nível elementar de consciência, que é para ser os seus apoiadores (seja eleitoralmente, seja como bucha de canhão, etc.). Aliás, não é sem motivo que a sociedade contemporânea, altamente desenvolvida tecnologicamente, possui um desenvolvimento intelectual tão restrito e surgem fantasmagorias junto com o reacionarismo (religiosidade confusa, pseudoteorias da conspiração, ideias ridículas como a de que a “terra é plana”, simplificações políticas grosseiras, etc.) e os progressistas apostam em outras mistificações (tal como o discurso sobre o “fascismo”, mas também o neopopulismo marcado por promessas irrealizáveis, etc.).

Assim, a luta contra o reacionarismo, quando este chega ao poder, por parte dos liberais, republicanos, social-democratas, etc., geralmente assume a forma da crítica a indivíduos e governos, a determinadas políticas pontuais e específicas, a uma recusa das ações e políticas governamentais, sem apresentar nenhuma alternativa real (e geralmente fazendo de conta de que não há problema algum, ou seja, o único problema é o governo).

Isso se manifesta hoje na sociedade brasileira, e o fato de ter havido os governos petistas (três mandatos completos e um iniciado e interrompido) não alterou em nada esse quadro. Pelo contrário, reforçou. As políticas educacionais dos governos petistas foram no sentido de diminuir a qualidade do ensino e da educação e a ampliação da hegemonia burguesa e de determinadas ideologias, inclusive irracionalistas[6]. O bolchevismo, na Rússia, também efetivou um processo de despolitização, ao criar a ilusão da abolição das classes e do capitalismo e gerar a simplificação intelectual do pseudomarxismo transformado em ensino obrigatório.

É necessário, portanto, evitar o reboquismo. O reboquismo se manifesta através da adesão acrítica à luta pela democracia burguesa, o que significa apoiar setores da burguesia (a ala moderada do bloco dominante) e da burocracia (progressismo) e abandonar a necessidade de autonomia de classe e a luta por seus interesses. Assim, ao criar um “inimigo comum”, que é apenas a ala reacionária do bloco dominante, se cria uma unidade que é em torno de forças burguesas ou burocráticas visando garantir a conquista do governo ou vitória eleitoral, entre outras possibilidades semelhantes. No plano concreto, é apenas discurso defensivo contra reformas retrógradas, políticas governamentais, ou ataque a partidos e indivíduos. Nesse caso, o proletariado e o conjunto das classes trabalhadoras se tornam apenas uma força auxiliar numa luta interburguesa e/ou entre setores da burguesia contra outros setores da burguesia e da burocracia. Assim, a luta gira em torno de quem deve governar e como deve fazê-lo: quem deve governar é a reacionária do bloco dominante ou uma aliança de sua ala moderada com o bloco progressista? Claro que nessa disputa há também aquela que é quem terá hegemonia na luta contra o governo da ala reacionária, pois isso lhe beneficia nas futuras disputas eleitorais. Daí o discurso da “unidade”, da “frente popular” e outros nomes dependendo do caso concreto.

Ao lado disso, os interesses de classe do proletariado e demais trabalhadores são esquecidos e em seu lugar se opta por um programa liberal, reformista, ou qualquer outro programa burguês que, sem dúvida, não só mantém a exploração e a dominação, como geralmente há a tendência a se impor um processo de deterioração das condições de vida do conjunto dos trabalhadores, pois, para evitar o “fascismo”, é necessário “sacrifícios de todos”, embora nem todos fazem parte do “todos”. As necessidades e reivindicações dos trabalhadores são esquecidas e apenas um fetichismo da democracia permanece e é exigido de todos. O que se pede aos trabalhadores é “apoiem e/ou votem nos democratas para que eles cheguem ao poder e reproduzam o que existe, piorando a sua situação” e assim se escamoteia quem ganha com isso e quem perde. E quem perde, ganhe a ala reacionária ou ganhe os seus adversários, são os trabalhadores.

A percepção da luta de classes é apagada e se reduz a uma luta de partidos ou coalizão de partidos, que pode assumir a aparência de mera “resistência” ao governo. Nesse momento, o proletariado é abandonado pelos progressistas, bem como suas reivindicações, necessidades, interesses (tanto os imediatos quanto os fundamentais e históricos), e assim é possível conquistar o governo sem ter que prometer nada, apenas manter a farsa democrática[7].

É por isso que, a partir da perspectiva do proletariado, a luta contra o reacionarismo é, simultaneamente, uma luta contra o conservadorismo em geral e também contra o progressismo. A autonomização do proletariado é fundamental, para colocar contra as forças políticas do bloco dominante e do bloco progressista, suas reivindicações e assim criar uma força maior no sentido de realizar suas exigências, gerar suas formas organizacionais próprias, desenvolver a autoformação (e consciência de classe, não uma consciência fragmentada e reboquista), etc. Se aliar ao progressismo, ou a setores conservadores que defendem a democracia burguesa, é algo que reforça organizações, indivíduos, concepções antiproletárias e que não se diferenciam radicalmente, da perspectiva de classe, do reacionarismo. Por isso é fundamental um combate simultâneo ao reacionarismo, ao conservadorismo em geral e ao progressismo.

As táticas para combater o reacionarismo

E como se combate o reacionarismo, sob qualquer forma que ele apareça? Podemos dizer que existem elementos comuns nesse combate ao reacionarismo e elementos distintos dependendo da forma como ele aparece e o contexto social e histórico. Historicamente, existiram algumas táticas visando combater algumas manifestações do reacionarismo e vamos apresentá-las para mostrar seus limites e apontar outra forma de realizar tal combate.

Uma tática que se convencionou utilizar para enfrentar o reacionarismo foi a luta armada. Essa é defendida por variadas posições políticas. No entanto, no plano da luta concreta, ela sempre fracassou. Ela também assumiu formas distintas: o combate de rua, a guerrilha, a guerra civil, etc. Alguns defendem tal tática até em momentos em que isso não se faz necessário ou mesmo possível, a partir de análise de casos isolados. No caso da Alemanha e do nazismo, houve combates entre integrantes do KPD (Partido Comunista da Alemanha) e do Partido Nazista. Como todos sabem, isso não evitou a ascensão nazista ao poder. No Brasil, na luta contra o conservantismo, setores da esquerda resolveram realizar a luta armada via guerrilhas e outras ações simultâneas, o fracasso é conhecido, e as consequências também (mortes, torturas, etc.). A luta armada é uma tática equivocada por alguns motivos básicos. No caso do combate de rua, ela transforma a luta em disputa de facções armadas e as forças paramilitares de algumas forças reacionárias possuem vantagem de armamentos e treinamento, bem como muitas vezes podem ser apoiadas pelo aparato repressivo do Estado capitalista ou contar com sua omissão.

A guerrilha (urbana ou rural, ou ambas, simultaneamente) é outra tática equivocada na maioria dos contextos. E o que a torna equivocada, assim como o combate de rua, é a falta de apoio popular. O caso brasileiro, onde um punhado de guerrilheiros queriam enfrentar o exército brasileiro num país continental, é algo totalmente desproporcional e mostra como a esquerda perde o senso de realidade por causa de suas crenças, muitas vezes descoladas completamente da realidade.

A luta armada só tem sentido e possibilidade de efetividade quando não é ação partidária e sim um movimento mais amplo e com iniciativa popular, pois, caso contrário, as forças reacionárias (e o aparato estatal, em determinados contextos e dependendo da situação) são muito mais preparadas para tal confronto e o agrupamento combatente tende a ser reduzido. Da mesma forma, trata-se de iniciativa popular, ao lado do bloco revolucionário, e não de “apoio popular”, o que significaria que as classes trabalhadoras estariam apoiando algum partido ou coalização de partidos ou outras forças políticas. Isso significa que a luta armada só tem sentido num momento de guerra civil, ou seja, quando a população está diretamente envolvida na luta e o proletariado se autonomiza colocando sua perspectiva de classe, de forma autônoma e independente. Fora disso significa combater e morrer por forças que não expressam os interesses dos trabalhadores e sim a reprodução do capitalismo. A guerra civil espanhola foi um momento em que era possível a luta armada contra um regime ditatorial, mas isso só tem sentido se houver uma defesa da autonomização do proletariado e não defesa do bloco progressista ou mera disputa política institucional. Da mesma forma, não se deve idealizar a luta armada que se manifesta nesse contexto e transpô-la para qualquer outro contexto como alguns fazem. A luta armada só tem sentido ao lado da iniciativa popular e lutando pelos interesses do proletariado, pois se for para reforçar forças democráticas da burguesia ou da burocracia, significa tão somente apoio popular e reboquismo.

Outra tática é a eleitoral. Essa, por tudo que já dito acima, é totalmente inócua e contrária aos interesses das classes trabalhadoras, pois significa um apoio popular superficial para um determinado setor que quer reproduzir a sociedade burguesa contra outro setor. As eleições não garantem a derrota do reacionarismo e nem impede sua ascensão, que pode ocorrer via eleitoral ou via insurrecional. Mussolini foi convidado pelo rei Victor Emannuele para fazer parte do governo. O presidente da Alemanha, Paul von Hindenburg, nomeou Hitler chanceler em 1933. Eles não ganharam eleições, mas ganharam o poder que foi doado por quem havia vencido o processo eleitoral. Outras formas de reacionarismo tomaram o poder via golpe de estado ou guerra civil. Isso quer dizer que as eleições não são o elemento fundamental para definir quem exercerá o poder estatal e sim a correlação de forças na sociedade e por isso, com ou sem eleição, os reacionários podem conquistar o poder estatal. As eleições como tática para evitar o reacionarismo é uma ingenuidade, pois havendo correlação de forças contrárias a quem ganha a eleição, existem vários subterfúgios para se derrubar o governo e colocar um reacionário em seu lugar.

A tática eleitoral de setores ditos “revolucionários”, que apoiam de bom grado os ditos “reformistas”, é um contrassenso, pois fortalece o bloco progressista que é contrário ao bloco revolucionário e aos interesses da maioria da população, enfraquecendo, assim, sua autonomia, criticidade, iniciativa, etc. E, mais do que isso, o processo eleitoral é marcado pela ausência do proletariado, da luta de classes, etc. E quando se brada o “perigo do reacionarismo”, o que se faz é colocar em disputa qual forma de dominação burguesa se escolherá e se coloca o proletariado para combater do lado de uma das forças pró-burguesas. A tática eleitoral é, além disso, desmobilizadora e despolitizadora. Ela é desmobilizadora por delegar a um terceiro a luta contra o reacionarismo e é despolitizadora por colocar o proletariado a reboque dos progressistas e lutando por questões que não são relacionadas com seus interesses de classe, pois a discussão fica geralmente reduzida a escolher entre ditadura (burguesa) ou democracia (burguesa). Ao apoiar o progressismo, há um processo de desmobilização e despolitização que, por sua vez, havendo a derrota dos progressistas, gera uma situação onde não há um trabalho e uma base para uma iniciativa popular e, portanto, para a autonomização do proletariado. Assim, a disputa entre reacionários e outras forças burguesas e burocráticas serve apenas para facilitar a dominação burguesa e a anulação do proletariado.

Uma terceira tática é a da chamada “frente popular”, ou “frente democrática” ou, ainda, “frente única”. No fundo, essa tática pode estar sendo defendida junto com a da luta armada ou eleitoral. Por isso, padece dos mesmos problemas dessas duas formas já abordadas. A frente democrática é, no fundo, ou uma união de forças burguesas (republicanistas, liberais-democráticos, etc.) e forças burocráticas (social-democracia, trabalhismo, bolchevismo, etc.) contra uma ala do bloco dominante, a ala reacionária vinculada quase exclusivamente à burguesia. Novamente o proletariado e o bloco revolucionário (a não ser seus segmentos mais volúveis e semiproletários que mantém um vínculo psíquico[8] com a social-democracia e/ou bolchevismo e acabam ficando ao reboque da burocracia dessas tendências) ficam ausentes ou servem apenas como apoio, especialmente eleitoral. O problema da frente popular é justamente o mesmo que as demais táticas, o afastamento da luta de classes, do proletariado, da ideia de transformação social, e a tomada de partido por uma das forças que querem governar para reproduzir o capitalismo. Se ela se torna luta armada, reproduz o mesmo problema[9].

O que todas essas táticas possuem em comum é o abandono da perspectiva do proletariado e da transformação social, o que, indiretamente, significa adesão ao capitalismo. Por mais que digam que o voto é crítico, que é um apoio temporário, que é para evitar o pior, que é melhor para desenvolver as lutas, apenas se justifica e legitima um ato covarde e não-proletário. Sem dúvida, que isso vale para aqueles que possuem determinada formação e são aguerridos defensores do apoio aos progressistas e seus aliados burgueses e não para os que acabam cedendo por pressão e sem grande convicção.

Como se deve combater o reacionarismo?

Se todas as táticas anteriores não servem, então resta a pergunta: como combater o reacionarismo? A noção de tática, é ela mesma de origem militarista, o que significa uma disputa entre forças militares e burocráticas e não luta de classes. Ao invés de tática, trata-se de pensar uma estratégia específica numa situação específica. E, enquanto estratégia, pressupõe reflexão e análise, bem como nunca abandonar o objetivo final. Assim, a primeira questão é entender qual forma de reacionarismo se combate e após essa identificação, é preciso entender suas fontes, o que o fortaleceu para se tornar uma possibilidade de chegar ao poder. De posse desses elementos reflexivos, o passo seguinte é elaborar a estratégia específica de combate na perspectiva do proletariado.

Contra qual reacionarismo é a luta? Fascismo, nazismo, conservantismo? Quais são as fontes geradoras desse reacionarismo? E o que o bloco revolucionário, ao lado do proletariado e demais classes trabalhadoras, pode e deve fazer nesse contexto? O primeiro elemento é não se aliar com o bloco progressista e/ou outros setores da burguesia, pois isso seria ajudar um inimigo contra outro e enfraquecer o proletariado e os trabalhadores em geral. Como já dissemos e explicamos anteriormente, a luta contra o reacionarismo é uma luta contra o progressismo, tal como já destacava, sob outra forma, Otto Rühle[10].

A isso se soma as estratégias constantes da luta proletária: a) luta nos locais de trabalho, moradia, estudo; b) luta cultural; c) trabalho junto com as classes trabalhadoras no sentido de reforçar sua autonomização, auto-organização e autoformação (não chamando ela para apoiar forças burguesas ou burocráticas e sim para decretar sua autonomia e efetivar sua própria luta contra ambos os lados em disputa); d) reivindicações e exigências proletárias, ou seja, que atendam aos seus interesses (imediatos e fundamentais). Essas estratégias constantes, no entanto, nem sempre se concretizam, e menos ainda com grande eficácia. Isso ocorre por uma razão bem simples: o bloco revolucionário, por mais desenvolvido que seja teoricamente, depende da ascensão das lutas dos trabalhadores e por mais que incentive essa luta, não pode criá-la artificialmente, pode fortalecê-la, mas não pode gerá-la (pelo menos não em grandes proporções, a não ser que ele esteja extremamente desenvolvido, o que significa que as próprias lutas operárias também estão, pois é sua condição de possibilidade).

Assim, o bloco revolucionário tem como elemento fundamental buscar desenvolver a união, as organizações autárquicas e a formação/autoformação das classes trabalhadoras, num sentido autogestionário. E o avanço do reacionarismo é apenas um sintoma de que algo na sociedade está gerando problemas e estes, a partir de certo contexto, gerando soluções equivocadas. Por isso, para combater o reacionarismo e seus adversários é preciso entender a sua forma e a sua fonte. Nesse momento, a luta cultural passa a ter que abordar outros elementos e realizar uma luta contra a adesão das classes trabalhadoras ao reacionarismo e aos seus adversários.  

Um dos elementos que o reacionarismo utiliza é a manipulação dos sentimentos. Em épocas de crise, de contradições mais agudas, de ascensão da luta proletária, etc., a manipulação dos sentimentos é uma das armas que atinge o proletariado e os demais trabalhadores no sentido de desviá-los da luta de classes e da autonomização. Os nazistas, por exemplo, culpam os judeus do desemprego e assim despolitizam esse fenômeno social e seu vínculo com as classes sociais e seus interesses. Desta forma, criam um inimigo imaginário que se torna responsável pelos males sociais e canaliza o ódio e outros sentimentos contra ele e livra a burguesia da responsabilidade. Um dos elementos que os vários reacionarismos utilizam para combater a esquerda é a questão da família, tradição, nação, etc.
Aqui temos a dificuldade da esquerda em combater o reacionarismo. A esquerda geralmente cede ao racionalismo e iluminismo e assim desconsidera os sentimentos e a questão da moral, ou então tenta impor à população a sua concepção moral (ou faz como os fascistas, buscam manipular os sentimentos). Isso cria um afastamento. Mais contemporaneamente, derivado do novo paradigma hegemônico, o subjetivismo, a esquerda passou, em vários setores, a reproduzir essa concepção e os seus elementos derivados, tal como o moralismo subjetivista, e assim acabou criando novos obstáculos diante da maioria da população. A ideia liberal do “meu corpo, minhas regras”, da defesa do “politicamente correto” e outros processos, geraram um moralismo progressista subjetivista que é oposto ao que a maioria dos indivíduos das classes trabalhadoras defendem. Aliado a isso, parte da esquerda aderiu à política de identidades e abandonou as políticas voltadas para as classes trabalhadoras. No caso brasileiro, que não cabe aqui retomar[11], os governos petistas foram os responsáveis pela geração de um forte antipetismo e o endurecimento do moralismo conservador em vários setores da sociedade como reação ao moralismo progressista subjetivista (e seu subproduto, o imoralismo). Assim, ao não contribuir para o desenvolvimento de uma consciência de classe e ainda gerar um moralismo malvisto pela maioria dos trabalhadores, a esquerda se afasta e perde a influência sobre as classes trabalhadoras. O problema é que o bloco revolucionário, seja pela influência do bloco progressista seja por suas debilidades próprias[12], não conseguiu preencher o vazio, e por isso uma grande parte dos trabalhadores acabam preferindo o conservadorismo ao progressismo.

O bloco revolucionário também comete alguns erros, tal como reproduzir o moralismo progressista ou o imoralismo. É preciso deixar claro que esse é um campo pouco explorado pela teoria e pelos grupos, intelectuais, militantes e por isso é espaço aberto para a reprodução das concepções progressistas. É preciso aprofundar a discussão nesse âmbito e colocar uma perspectiva proletária em relação a tais questões. Algumas tentativas e esboços nesse sentido já foram realizados no passado, mas nada de muito desenvolvido e as interpretações posteriores e influência do paradigma hegemônico, dificultam um avanço nessas questões.

Mas um elemento fundamental seria romper com o moralismo, seja o conservador, seja o progressista, e em todas as suas formas. O moralismo se fundamenta em uma moral, e esta pode ser compreendida como “um conjunto de normas produzidas de forma exterior aos indivíduos, é imposta pela sociedade ao indivíduo. Por isso, ela é pouco praticada embora seja muito propagandeada, gerando quase sempre uma contradição entre discurso e prática”[13]. Se temos, por um lado, a moral religiosa como uma das manifestações da moral conservadora, temos, por outro, o politicamente correto como uma das manifestações da moral progressista. Ambas são imposições de normas de conduta sobre os indivíduos e isso gera, geralmente, uma contradição entre discurso e prática. O bloco revolucionário deve expandir a ética revolucionária e não ceder aos moralismos (e nem ao “imoralismo”, subproduto do moralismo progressista que quer romper com “todas as regras”, num hiperindividualismo, muitas vezes hedonista). Não cabe a quem se considera revolucionário partir dos indivíduos da sociedade atual, com seus valores (constituídos socialmente), concepções, desequilíbrios psíquicos, falta de autonomia e reflexão, submetidos ao modo de pensar burguês (reducionista, anistórico e antinômico), para formar “normas de conduta” para os demais ou para a futura sociedade autogerida. Uma sociedade de seres humanos livres é a mais adequada para instaurar uma ética generalizada na sociedade e não a projeção de seres humanos de uma sociedade desumanizada sobre um projeto de futuro[14].

Assim, o combate ao reacionarismo deve se fundamentar na estratégia revolucionária constante (luta nos locais de trabalho, moradia, estudo; luta cultural; trabalho junto com as classes trabalhadoras no sentido de reforçar sua autonomização, auto-organização e autoformação, reivindicações proletárias). Porém, a debilidade do bloco revolucionário é um obstáculo para tal. Essa debilidade é expressa no aspecto quantitativo (quantidade de militantes, e que é menor ainda se levarmos em conta apenas aqueles que atuam mais frequentemente), nas divisões internas, nas ambiguidades de vários indivíduos e grupos, entre outros processos, alguns já aludidos anteriormente, na dificuldade de vínculo mais efetivo com as classes trabalhadoras em certos momentos históricos (especialmente nas épocas de estabilidade ou no qual a classe dominante consegue impor polarização entre setores do bloco dominante ou entre este e o bloco progressista), a falta de estratégia de vários setores, etc.[15] Independentemente dessa debilidade, é preciso elaborar estratégia específica para combater o reacionarismo. No entanto, em primeiro lugar é preciso deixar claro que não se trata apenas de combater o reacionarismo e sim lutar contra a sociedade capitalista. O combate ao reacionarismo só tem sentido se for uma luta contra o capital, o estado e todas as concepções, organizações, etc., que visam sua reprodução. O combate ao reacionarismo é um combate ao capitalismo num contexto de fortalecimento da ala reacionária do bloco dominante ou então sob um governo comandado por ela. Não se trata de lutar apenas contra o reacionarismo, pois isso fortalece os liberais, os republicanos, os progressistas nas suas várias tendências.

Isso significa que o primeiro ponto é entender e ter clareza de qual é o combate e que não se trata de limitar a luta a uma recusa do reacionarismo, pois isso seria perder autonomia, ser não estratégico (pois não contribui com a realização do objetivo final) e fortalecer outros setores da burguesia ou da burocracia. Este esclarecimento, ausente em vários setores do bloco revolucionário, é o que permite e gera o reboquismo. Isso é reforçado pelo clima social e cultural que pode ser criado, bem como pressão social, envolvimento com processos de manifestações e outras ações, além de interesses pessoais. Um professor universitário, por exemplo, pode ficar preocupado excessivamente com os cortes de verbas e outros ataques dos reacionários contra as universidades, em grande parte dos casos por temer por seu futuro, pelo impacto que isso tem diretamente, etc. Agora, um professor universitário que se considera revolucionário, deveria fazer uma autoanálise e ser mais crítico em relação à situação e não cair no desespero e dramas que se efetiva em muitos casos. Um revolucionário é uma pessoa que deve estar disposta a ir, em muitos casos, contra os seus interesses pessoais, pois é o interesse de classe, do proletariado, é que deve ser priorizado. Então ele não deve fazer coro com os progressistas e sim defender uma ação autônoma e independente e de caráter estratégico.

Tendo essa clareza e superando estes obstáculos, o que resta é efetivar o combate ao reacionarismo e isso é realizado através da estratégia revolucionária constante e que assume alguns elementos específicos nesse contexto, que é mais na forma como se efetiva do que no seu conteúdo. É preciso combater o reacionarismo em suas fontes, o que significa “atacar o mal pela raiz”. É necessário identificar e demonstrar o caráter de classe do reacionarismo, o que significa ultrapassar o discurso progressista que focaliza em indivíduos (os ataques, muitas vezes infantis, ao líder e principais representantes da ala reacionária, por exemplo)[16], partidos, governos, pois em que pese possam ser nomeados e ter seus problemas revelados, esse não deve ser o foco, pois isso não gera politização e não serve para a autonomização do proletariado. Atacar apenas o partido X só tem sentido se ele é um suposto representante e tem força no interior do proletariado e das classes trabalhadoras. Porém, atacar um partido conservador ou reacionário, ou seus líderes e representantes, é se limitar a luta partidária e sair da luta de classes. A crítica aos partidos progressistas pode ser necessária em momentos em que estes são obstáculos para a autonomização do proletariado, o que não ocorre com os partidos conservadores, já que estes não possuem raízes no interior das classes trabalhadoras.

Qual é a raiz do reacionarismo? Quais são seus objetivos? Isso depende do país (há uma diferença enorme entre o reacionarismo que emerge no bloco imperialista e o que emerge no bloco subordinado, pois no primeiro caso o nacionalismo pode ser autêntico e no segundo é mero discurso sem base real, a começar pela burguesia subordinada que não tem força política, e nem vontade e interesse, para combater o imperialismo), da época, do contexto, da hegemonia cultural, etc. Uma análise do golpe militar[17] da década de 1960 é suficiente para mostrar que a luta contra a “república sindicalista” e o “comunismo” foi mero pretexto para efetivar políticas voltadas para o aumento da exploração[18]. O reacionarismo existe no interior da sociedade capitalista, mas somente se torna forte e influente em certas situações, nas quais uma parte da classe dominante passa a apoiá-lo. Isso ocorre geralmente em momentos de declínio da taxa de lucro ou em momentos de desestabilização ou crise (e essas coisas estão, geralmente, inter-relacionadas). A burguesia, em sua maioria, prefere os liberais, os republicanos, e até mesmo trabalhistas e social-democratas, do que os reacionários. Mas, nesses momentos históricos, uma parte considerável dela passa a apoiar os reacionários, pelo simples motivo de que eles não titubeiam em expressar os seus interesses e tomar medidas impopulares e de forma mais drástica, rápida e direta[19]. Assim, uma luta cultural ampla e geral que explicite as bases do reacionarismo, bem como dos seus opositores institucionais, é um dos pilares desse combate.

Assim, cabe ao bloco revolucionário ampliar suas ações, de forma autônoma e independente, e se aproximar mais das classes trabalhadoras, que tem que ser precavida da necessidade de não se aliar nem com os reacionários nem com os seus opositores. Isso, em momentos marcados pela existência de um governo reacionário, que tende a gerar um aumento progressivo da insatisfação dos trabalhadores, abre maior espaço para o bloco revolucionário e a possibilidade de sua ampliação, tanto no sentido de maior força quanto quantitativo, tendo novas adesões de desiludidos com o bloco progressista ou trabalhadores e jovens que buscam alternativas.

Por isso, o combate ao reacionarismo se inicia com uma ampla luta cultural no sentido de mostrar o seu vínculo com os interesses da classe dominante. Isso requer análises de suas políticas estatais concretas, bem como apresentação de alternativas. Isso significa não reproduzir o discurso progressista (muitas vezes vazio e apenas uma recusa das políticas estatais implementadas, sem nenhuma análise mais profunda e sem nenhuma alternativa real e exequível). Essa luta cultural é, portanto, teórica (uma explicação mais profunda da gênese e significado do reacionarismo, uma análise desenvolvida dos seus representantes e de suas ações, entre outros aspectos), propagandística (esclarecer e combater ele e seus semelhantes, incluindo o progressismo), artística (voltada para o esclarecimento e crítica social), etc.

Por outro lado, tendo em vista que existe uma possibilidade de maior receptividade do bloco revolucionário por parte da população, ampliar as ações para fortalecer a luta pela auto-organização, autoformação e união das classes trabalhadoras, bem como nos locais de trabalho, estudo e moradia. Isso deve ser acompanhado por reivindicações que atendam aos interesses do proletariado e do conjunto das classes trabalhadoras. Ou seja, ao invés de apenas questionar ações e políticas dos reacionários, e defender interesses de diversas classes e grupos, é preciso colocar em evidência interesses próprios e específicos do proletariado e dos trabalhadores em geral, como a questão do salário mínimo (no caso dos interesses imediatos) e da auto-organização e autoformação (no caso dos interesses fundamentais). O bloco revolucionário deve, portanto, ao invés de fazer como seus setores reboquistas fazem, devem ao invés de atuar nas manifestações, reivindicações e ações com o bloco progressista, deve se esforçar para agir diretamente com as classes trabalhadoras (e sem reproduzir os receituários e discursos progressistas).

Em síntese, é isso que pode e dever ser feito no combate ao reacionarismo, que é, um combate à sociedade capitalistas e todas as suas manifestações, tal como o bloco dominante e o bloco progressista. A capacidade e a força nesse processo depende de diversas determinações e uma delas é a disposição e luta do bloco revolucionário, que, pode antecipar grandes explosões de insatisfações e assim ajudar a elas serem orientadas para a transformação radical e total das relações sociais, ao invés de serem desviadas e canalizadas para interesses da classe dominante ou da burocracia (especialmente a partidária, ou seja, o bloco progressista). Em cada caso concreto, com sua especificidade, requer análise e pensar as formas de luta e como concretizar essa estratégia.

Enfim, não existe uma fórmula infalível. O que existe é uma estratégia geral, da qual fizemos uma síntese, que depende muito mais do que sua mera existência para se concretizar e gerar resultados satisfatórios ou não, e não há muito o que inventar. Um elemento fundamental nesse processo é a insatisfação das classes trabalhadoras e do proletariado, que é o rastro de pólvora que poderá explodir a sociedade capitalista, mas ela tem que ser acompanhada com um projeto, bem como com a união e autonomização do proletariado, o que só pode ocorrer com auto-organização e autoformação. E o bloco revolucionário tem um significado importante em contribuir com essa passagem da insatisfação para a luta radicalizada e possibilidade de revolução proletária. Agora, se a maioria do bloco revolucionário fica a reboque do bloco progressista, não só se autossabota como fortalece um inimigo que é fundamental para a reprodução do capitalismo e das situações que ele cria, incluindo o reacionarismo.




[1] Trata-se, geralmente, de um discurso oportunista e eleitoral e que tem como um dos elementos não definir o que é fascismo ou apresentar uma pseudodefinição tão ampla que pode se aplicar até aos aliados dos petistas. Ao definir fascismo como violência ou qualquer autoritarismo acabam banalizando o termo e nem percebem que essa suposta definição se aplica ao stalinismo e aos países capitalistas estatais (falsamente chamados de “socialismo real”, como URSS, China, Cuba, etc.) e que o PCdoB é stalinista. Logo, a vice de Haddad poderia ter sido chamada de fascista durante o último processo eleitora, pois isto se torna possível quando se usa essas pseudodefinições amplas ou não se define. Sobre fascismo, cf: O que é fascismo?
[2] Inclusive, no caso brasileiro, o presidente Jair Bolsonaro, era originalmente um conservantista, ou seja, um estatista, mas, por causa de objetivos eleitorais, avançou para o liberal-conservantismo, tal como expresso na sua escolha do Ministro da Economia, o liberal Paulo Guedes, o que significa a manutenção do moralismo conservador misturado com um liberalismo econômico.
[3] A ala reacionária é uma subdivisão da ala oposicionista no interior do bloco dominante. O bloco dominante possui a ala governista, composta por quem está no governo, e uma ala oposicionista, na qual há setores da burguesia que são oposição. A ala reacionária é uma das subdivisões da ala oposicionista e somente em algumas situações históricas ela se torna a ala governista e, a antiga ala governista se torna oposicionista (e, em certas situações, acaba se aliando ou se tornando omissa, especialmente em regimes ditatoriais, com poucos setores assumindo realmente que é oposição).
[4] O liberal-conservantismo, uma mistura híbrida de conservantismo e liberalismo (um acordo entre setores da ala moderada e da ala extremista do bloco dominante), é algo mais excepcional, pois emerge em pleno momento de hegemonia neoliberal e subjetivista e por isso mantém aspectos do conservantismo e os une com elementos de liberalismo. Se não fosse isso, o governo brasileiro atual seria puramente conservantista, mas a força da burguesia e do liberalismo constrange a essa concessão, que pode ser superada com a dinâmica das lutas de classes e mudança na situação do país.
[5] A respeito do pragmatismo do nazifascismo, cf. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas (ainda a ser publicado).
[6] O subjetivismo, o irracionalismo, etc., são algumas das formas ideológicas que dão suporte ao anti-intelectualismo reinante até os dias de hoje e foi reforçado pelas políticas educacionais de um governo denominado de esquerda. A hegemonia subjetivista atacou, pela esquerda e pela direita, a formação política e intelectual e as políticas governamentais, no caso brasileiro, reforçaram essa hegemonia e precarizaram a educação no país.
[7] Não existe nada mais ridículo que anarquistas, autonomistas e outros se aproximarem dos trabalhadores e da população para pedir votos para os progressistas para evitar o reacionarismo. Ao invés de contribuírem com a politização (luta cultural) e autonomização (a formação de organizações autárquicas), com a formação de conselhos de bairros, conselhos de trabalhadores, entre outras formas, apontam para solicitar o apoio aos burocratas partidários para que esses façam o trabalho sujo para a burguesia no sentido de reproduzir o capitalismo e determinadas políticas estatais necessárias no momento para essa classe.
[8] Isso pode ser explicado pelo sentimento de unidade que se cria entre os indivíduos do bloco revolucionário pela proximidade de linguagem, discurso, símbolos, referências intelectuais, com parte do bloco progressista, bem como pela convivência, pressão social, locais de atuação que muitas vezes são semelhantes. Esse sentimento de unidade pode se tornar um obstáculo para a percepção do real significado do progressismo e do seu caráter burguês ou semiburguês e de adesão de muitos às táticas do bloco progressista.
[9] Há aqueles que recusam tais alianças, mas acabam reproduzindo elas ao ir ao reboque intelectual das interpretações e posições de outros setores, especialmente do bloco progressista. Isso é derivado de falta de autonomia intelectual (o que remete ao problema da formação intelectual e política), da proximidade sentimental com o bloco progressista (derivado da proximidade de linguagem, símbolos, autores de referência – tal como Marx, que é usado de forma deformada pelos progressistas, alguns valores – como o humanismo de alguns progressistas, embora distinto do humanismo radical, da não percepção do populismo e hipocrisia vinculados a esta posição, etc.).
[12] Esses elementos não estão separados, pois são as suas debilidades próprias (na verdade, a da maioria dos seus componentes) que o faz ficar a reboque do bloco progressista e gerar um divisionismo interno que o enfraquece.
[13] VIANA, Nildo. Crítica ao Moralismo. Revista Posição, vol. 2, num. 7, 2015, p. 10.
[14] Um exemplo disso se encontra no debate de Erich Fromm e Herbert Marcuse. Fromm avança mais por se manter numa posição humanista, enquanto que Marcuse cai em erros grosseiros. Assim, se Marcuse defende a liberação das perversões sexuais (como, por exemplo, a coprofilia), Fromm é um crítico disso. A questão que se coloca é: a coprofilia é uma necessidade humana ou produto de um desequilíbrio psíquico gerado por uma sociedade repressiva e desumanizadora? Para os moralistas a solução seria defender uma ou outra posição. Para a posição revolucionária, trata-se de ser prudente e não criar modelos de sociedade (e, como Fromm coloca, gerados por pessoas problemáticas constituídas por essa sociedade) e de comportamento. Trata-se, na verdade, de defender uma ética que aponte para a liberdade e não criar normas de comportamento, pois elas são constituídas por pessoas dessa sociedade e para essa sociedade, partindo da percepção de indivíduos dessa sociedade com os problemas gerados por ela.
[15] No caso de certos indivíduos e grupos, essa debilidade também se manifesta através falta de teoria, estratégia, ou, ainda, incompreensão da conjuntura. Isso é mais forte no caso de grupos de jovens quando inexperientes e sem maior formação intelectual, bem como no caso do anarquismo e é mais forte contemporaneamente devido a hegemonia subjetivista.
[16] Isso é visível contemporaneamente, no qual a infantilidade da esquerda brasileira se manifesta de forma tão explícita quando nos apelidos dados ao atual presidente da república, Jair Bolsonaro, o que inclusive faz perder a seriedade e para os não-iniciados (trabalhadores não ligados ao progressismo) e fica parecendo “torcida organizada” ao invés de debate sério sobre questões políticas e sociais.
[17] Aqueles que querem reformular o nome e chamar o golpe da década de 1960 como “civil-militar” ou “empresarial-militar” apenas dizem a obviedade de que ele não é algo meramente ou apenas militar. No fundo, nunca existiu golpe apenas militar. Mas por detrás dessa terminologia, que tem como única vantagem expressar que existem interesses na sociedade civil no sentido de realizar o golpe, há uma incompreensão do significado das forças militares e seu vínculo indissolúvel com a classe capitalista. Todos os golpes militares, assim como todos os regimes ditatoriais, expressam os interesses da burguesia em determinado contexto histórico e por isso não tem sentido colocar o termo “civil-militar”, pois nunca houve uma autonomização das forças armadas, mesmo quando elas implantam tais regimes. O caso mais extremo de autonomização, tal como o nazismo, foi efetivado de acordo e com o apoio da classe capitalista alemã. Isso é suficiente para explicar a razão da não adoção da “nova terminologia”, que aponta para um esclarecimento e gera um obscurecimento, simultaneamente.
[18] VIANA, Nildo. Acumulação Capitalista e Golpe de 1964. Revista História & Luta de Classes, Rio de Janeiro, v. 01, n.01, p. 19-27, 2005. Disponível em: https://informecritica.blogspot.com/2019/05/acumulacao-capitalista-e-golpe-de-1964.html
[19] Embora possa haver exceções, especialmente quando um governo reacionário tem forte oposição ou legitimidade e apoio popular muito limitado.

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