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terça-feira, 8 de setembro de 2026

PSICANÁLISE DA ILUSÃO ELEITORAL - Nildo Viana

 

Erich Fromm analisando um eleitor...

PSICANÁLISE DA ILUSÃO ELEITORAL

 

 

Nildo Viana

 

Temos uma escolha. Fugir em pânico ante a iminência do desmoronamento das nossas estruturas; acovardar-nos com a perda dos portos conhecidos; fi­car paralisados, inertes e apáticos. Fa­zendo isso, estamos abrindo mão da oportunidade da formação do futuro. Estamos negando a característica mais distintiva do ser humano – influenciar a evolução do meio do reconhecimento consciente – , capitulando frente à força destrutiva e cega da história, de­sistindo de moldar uma sociedade fu­tura mais justa e mais humana. Ou será que devemos lançar mão de toda cora­gem necessária para preservar nossos sentimentos, nossa consciência e res­ponsabilidade ante a mudança radical? Participar conscientemente, mesmo em pequena escala, da formação da nova sociedade? Espero que esta seja a esco­lha, pois nela baseio minha dissertação.

Rollo May

 

A época das eleições revela um conjunto de comportamentos e discursos considerados “irracionais”, sendo que alguns são razoabilizados (“racionalizados”). Diversas pessoas que passam a sua vida inteira alheia às questões políticas e sociais mais amplas, de repente, como num passe de mágica, se tornam ardorosos defensores de candidatos A ou B. Depois de três anos de completo apolicitismo, emergem figuras que do nada se julgam entendidos em política e que devem convencer os demais a qualquer custo. Um comportamento irracional[1].

Isso remete ao problema psíquico das eleições e das ilusões eleitorais e, por conseguinte, alguns aspectos da psicanálise podem contribuir com a compreensão desse fenômeno psíquico.

O Desejo Fetichizado

O primeiro elemento é entender as motivações desse comportamento, que possuem pouca ou nenhuma racionalidade. Sendo que sua motivação não é racional, então talvez seja interessante descobrir quais são suas reais motivações. Obviamente que excluímos da análise aqueles que possuem interesses (pessoais, grupais, etc.) envolvidos em sua escolha eleitoral, que abordamos em outra oportunidade[2]. Aqui se trata do caso de pessoas que não possuem nenhum interesse pessoal ou grupal no processo eleitoral e se tornam, repentinamente, defensores insistentes de determinados candidatos, o que torna a ausência de racionalidade ainda mais perceptível. A psicanálise[3] é extremamente útil para explicar esse comportamento irracional.

E nada melhor do que um psicanalista servir de exemplo para análise. Um psicanalista profissional geralmente é alheio às questões políticas, mas não deixa de se envolver no processo eleitoral. Vejamos o que diz o psicanalista Contardo Calligaris:

Votar talvez seja um rito e uma espécie de ato de fé. Mas o momento crucial desse rito não é coletivo – ao contrário, ele é estritamente reservado ao indivíduo. Rito de qual culto, então? E ato de fé em quê? Pois é, ninguém (salvo ilusões e delírios) acredita que, depositando nosso voto na urna, a gente possa mudar o mundo. Mas, paradoxalmente, votamos exatamente por isso, para confirmar nossa fé no poder de os indivíduos modificarem o mundo[4].

Essa é a questão fundamental que atinge grande parte da população. A ilusão eleitoral se fundamenta, em grande parte dos casos, numa “fé”, num desejo, numa crença. O conceito de crença necessita ser revisto e ampliado, mas é ele que consegue dar conta dessa realidade. Trata-se de uma crença fundada num desejo. A questão é que não é um desejo como os outros que temos na nossa vida. É um tipo específico de desejo. É um desejo que entra em contradição com a realidade, sendo ilusório, mas que se sustenta por ser fetichizado. É um caso semelhante ao de pessoas que, dominadas pelos valores burgueses da competição, busca de ascensão e riqueza, querem se tornar milionários, mas nada fazem para concretizar tal desejo. Esse tipo de pessoa fica esperando “a grande sorte”, o “destino”, “Deus” ou qualquer outra coisa que produza um resultado sem o trabalho de lutar pra consegui-lo. Algumas pessoas ficam esperando ficar rica sem fazer nenhum esforço para tal. Outros jogam na loteria esperando um dia ser contemplado.

Todos estes exemplos revelam desejos fetichizados. O desejo ganha vida própria, passa a ser um agente da história ou da vida dos indivíduos, se autorrealizando, pois aquele que deseja nada faz para sua realização. Essa forma de desejo é produto da sociedade capitalista e da alienação generalizada (isso será abordado adiante), mas se reproduz na época das eleições. É isso que explica como pessoas geralmente alheias às questões políticas, tanto institucionais (as políticas estatais e processos políticos partidários e parlamentares, ações governamentais) quando no sentido mais amplo (local de trabalho, moradia, estudo, manifestações, movimentos sociais, etc.), repentinamente começam a querer discutir política e colocar como fundamental algo que nem sequer faz parte de sua vida cotidiana.

O desejo fetichizado tem na democracia representativa a sua forma mais cristalina de existência, pois basta você escolher seu “representante” e governante e pronto, pode continuar alheio à vida política. A valoração da política se dá apenas no momento eleitoral, bem como a ação política se reduz ao voto. Depois de heroicamente, como nosso psicanalista acima, votar, o cidadão vai para casa e passa a cuidar de sua vida privada. O desejo fetichizado de mudança ou qualquer outro é fetichista e por isso tem a ver com a fé, tendo um mecanismo psíquico semelhante, pois se trata de uma crença. Ele é uma mistura de vontade intensa e conformismo prático. Em alguns, o conformismo prático pode até gerar um certo ativismo para que o desejo fetichizado, ainda sob forma fetichista, seja “realizado” (pedir votos, fazer “promessas” – como algumas pessoas religiosas fazem, ir na loteria toda semana jogar, etc.).

O desejo fetichizado provoca uma pseudestesia (falsa sensação) de esperança. No caso eleitoral, o eleitor vota e vai cuidar da vida privada, só reaparecendo nas próximas eleições, alguns anos depois. Se o candidato dele perdeu, ele tenta votar no mesmo ou semelhante. Se ganhou e não cumpriu as promessas, ele aceita as supostas explicações ou esquece tal fato e vota novamente. Alguns, nesse caso, podem trocar de candidato. Esse mecanismo psíquico é o mesmo do jogador de loteria que quer ficar milionário: ele joga e perde, mas na semana seguinte e nas posteriores, está novamente fazendo sua “fezinha”[5], nome esclarecedor. Ele continua com sua crença ilusória de que da próxima vez ele poderá ganhar.

A superação do desejo fetichizado em época eleitoral pode ocorrer sob a forma positiva, que é sua substituição por uma esperança verdadeira, na qual o indivíduo busca efetivamente realizar seu projeto e percebe que depende de si mesmo para concretizá-lo, ou sob a forma negativa, que é a sua substituição pelo niilismo, o desejo de destruição de si e/ou dos outros. A sociopsicanálise pode apenas mostrar esse processo psíquico e explicar suas fontes, trazendo a necessidade de superação da situação que gera o desejo fetichizado. O marxismo é fundamental para a explicação dessa situação e por apresentar um projeto alternativo de sociedade, a autogestão social. Da perspectiva da luta política, a luta contra a ilusão eleitoral e o desejo fetichizado deve se aliar com análise da totalidade da sociedade e projeto autogestionário como alternativa.

A Manipulação do Medo

O medo é um sentimento humano normal e comum. Em certos momentos ele pode ser exagerado, quando ocorre processos sociais determinados que geram uma generalização ou intensificação do medo, ou, em casos individuais, quando há desequilíbrio psíquico. O processo eleitoral é um jogo no qual os jogadores (partidos, candidatos, etc.) fazem de tudo para ganhar o mesmo, inclusive passando por cima das próprias regras. Dentre as diversas formas utilizadas para tentar conseguir votos e retirar dos adversários está a manipulação do medo.

A manipulação do medo assume várias formas. Uma das formas é criar relações para atribuir medo. Se utiliza de um sentimento relativamente comum, que é o medo do desconhecido, do estrangeiro, do diferente, para criar uma relação negativa com o(s) adversário(s). Assim é que logo se relaciona o adversário com o “fascismo”, o “comunismo”, etc. Na história das eleições no Brasil, esse procedimento foi utilizado de forma sistemática pela candidatura de José Serra contra a de Luiz Inácio Lula da Silva (2002). A atriz Regina Duarte aparecia no programa eleitoral e chamadas do PSDB  (Partido da Social-Democracia Brasileira) falando que temia a volta da inflação, o fim da estabilidade conquistada pelo governo tucano, o candidato oposto, etc.[6]

Em 2014, disputa entre Dilma Roussef (PT) e Aécio Neves (PSDB), no segundo turno, a mesma manipulação é realizada, só que agora invertida, pois é o PT que usa esse estratagema contra o PSDB. Ou seja, usa o discurso do medo, afirmando que a estabilidade, os parcos programas sociais, entre outras coisas, seriam perdidos caso o candidato adversário ganhasse[7].

Obviamente que o discurso pode parecer convincente, mas é geralmente falso. O interesse de qualquer partido e candidato é manter-se no poder e isso pressupõe manter a governabilidade. Instabilidade financeira, inflação, altas taxas de desemprego, etc., não é interesse de nenhum governo, pois lhe retira apoio, legitimidade e possibilidade de manutenção no poder. Se isso ocorre, é geralmente por causa de forças externas e independente da vontade de cada governo (crise mundial, por exemplo). Tanto é que o medo de Regina Duarte não foi comprovado. Da mesma forma, os programas sociais não seriam retirados se dão retorno eleitoral, a não ser que a situação exija. Assim, de qualquer forma, dificilmente há justificativa para o medo, pois não tende a ver mudança fundamental nos elementos que se utilizam para balançar tal bandeira.

Isso pode ocorrer em alguns casos, quando há excesso de incompetência ou quando o futuro governo tem realmente alguma grande diferença programática e política com o partido no poder durante a eleição. No caso das eleições de 2014, isso não existia, pois os dois partidos em disputa são neoliberais e seguem as diretrizes do grande capital transnacional. Basta recordar o protótipo do programa “bolsa família”, cuja origem é neoliberal, foi gestado no Banco Mundial[8], implantado pelo governo do PSDB e mantido com algumas poucas modificações pelo governo do PT. Com o retorno eleitoral que ele já promoveu, nenhum governo o jogaria na lata de lixo. O mesmo ocorre com diversas outras iniciativas governamentais, o máximo que pode ocorrer é trocar algumas pessoas que estão na gestão dos programas e é aí que está a verdadeira disputa. Claro está também que muitos governos dizem ter realizado conquistas que, no fundo, é produto do desenvolvimento capitalista (o uso de computadores e celulares, por exemplo, tanto é que se espalhou por todo o mundo, mesmo em países muito mais pobres) e dizer mentiras faz parte do jogo eleitoral.

É sempre o partido governista que usa esse estratagema, pois ele é conservador, pois apresenta a tendência da situação piorar com um governo de outro partido e visa apenas conservar as supostas “conquistas”. Isso pode ser reforçado por vínculos, práticas, rótulos, etc., atribuídos (reais ou não) ao adversário.

A manipulação do medo, no entanto, não atinge todo o eleitorado, mas somente parte, que se reconhecem nas supostas “conquistas” (alguns são “convencidos”), os que obtiveram privilégios, os que pensam que realmente pode piorar e atingi-los.

Isso acaba desviando da verdadeira questão: na verdade, quem perderá pessoalmente é apenas os indivíduos com cargos, vantagens e privilégios por estarem ligados ao bloco dominante expresso pelo partido no governo. Em todo o processo eleitoral, o que se troca são as forças provisórias do bloco dominante (indivíduos, partidos, grupos de interesses, etc.) e para esses, realmente é necessário ter medo, pois vão perder algo, sem dúvida.

No caso brasileiro, além do jogo de interesses dos componentes do bloco dominante, perdas reais podem ocorrer, mas isso muito mais por causa da tendência do capitalismo mundial e da dinâmica do capitalismo brasileiro do que por qualquer outra coisa. Sem dúvida, quando o ciclo de crescimento chega ao fim, ele gera problemas e necessidade de reajustes. As políticas estatais de assistência social tendem a diminuir, bem como outros investimentos podem recuar, mas tanto faz quem será o governo, nenhum dos dois partidos em disputa nas eleições tem uma concepção e projeto alternativo ao neoliberalismo e por conseguinte as diferenças são tão pequenas que até que poderiam juntar e fariam juntos o mesmo mal que fariam separados.

A grande questão é que o medo gera retraimento e conservadorismo. Por isso é necessário substituir o medo pela coragem, pelo desafio. Ao invés de escolher entre ficar do jeito que está com algumas promessas de poucas melhorias ou de supostas mudanças é preciso escolher a utopia, a luta pelo que é realmente novo e radicalmente diferente. Escolher entre ser um escravo com o dono X ou com o Y não é escolha. A única escolha digna é abolir a escravidão, os escravos e os donos. Sonho irrealizável? Melhor viver e lutar por um sonho irrealizável do que viver num pesadelo cotidiano e constantemente renovado, recorrente[9].

Ao invés de medo e apoio à reprodução do mundo existente, devemos recusar, nas urnas com o voto nulo, e na vida, com diversas ações e lutas, para superar esse mundo que algumas pessoas ainda insistem em defender, apesar de 1 em cada 7 seres humanos estar passando fome no mundo, da destruição ambiental em escala mundial (e que pode se tornar irreversível), da superexploração da força de trabalho, da miséria psíquica, sexual, cultural, e milhões de outras coisas que poderiam ser elencadas e que são apoiadas e reforçadas por todos os governos de todos os partidos (inclusive os da esquerda).

O único caminho alternativo é sair do discurso dominante e de suas supostas divergências, pois divergem dentro da convergência da reprodução do capital e tudo que é derivado dele e foi citado anteriormente. Medo? Do que deveriam ter medo não têm, pois só conseguem ver o cotidiano, as coisas palpáveis, a vida medíocre e suas necessidades imediatas. Coragem? Essa é necessária para mudar o mundo.

A Alienação Generalizada

O desejo fetichizado, tal como abordamos anteriormente, não emerge do nada, ele tem uma fonte social. Nesse sentido, é fundamental entender as fontes do desejo fetichizado, não só para compreendê-lo, mas também para poder pensar sua superação, o que pressupõe romper com a alienação, o burocratismo, o imobilismo e o conformismo, condições para uma verdadeira esperança e utopia concreta.

O desejo fetichizado ocorre sob várias formas e uma delas é o fetichismo eleitoral. Assim como o fetichismo da mercadoria é explicado pela existência do trabalho alienado, o desejo fetichizado (ou fetichismo eleitoral) é explicado pela generalização da alienação na sociedade capitalista. O trabalho alienado é aquele no qual o trabalhador não possui controle de sua atividade e com isso perde o controle do produto do seu trabalho, gerando a alienação do produto (propriedade privada). A alienação é, assim, uma relação social na qual alguns controlam a atividade de outros e assim usurpam o produto da mesma[10]. Esse processo é mais amplo do que parece à primeira vista, pois a sociedade capitalista realiza um processo de ampliação da divisão social do trabalho, mercantilização e burocratização das relações sociais. A burocratização das relações sociais acaba gerando um processo de controle da vida cotidiana dos indivíduos, através do Estado e seus aparatos (democracia burguesa, aparato repressivo, aparato educacional, aparato comunicacional, etc.) e as empresas e instituições privadas, promovendo também a burocratização da sociedade civil em geral (igrejas, partidos, sindicatos, etc.). Esse processo atinge o conjunto da sociedade, desde 1945. Os indivíduos passam a estar submetidos a diversas instâncias sociais que dirigem sua vida em geral. Os indivíduos são controlados no trabalho, nos estudos, no lazer, estando submetidos a especialistas e burocratas em todos os lugares.

A alienação generalizada da sociedade capitalista promove a mentalidade burocrática, tanto a de caráter dirigista daqueles das classes superiores, especialmente os burocratas (do estado e governos, empresas, instituições em geral) quanto a sua versão submissa dos dirigidos em sua maioria. O que ambos concordam é que há a necessidade de dirigentes e dirigidos. Tantos os indivíduos das classes superiores quanto os das classes inferiores, em sua maioria, aceitam a alienação. Nas classes inferiores, uma grande parte aceita resignadamente, enquanto que outra parte aceita por ambicionar passar de dirigido para dirigente, esperando ascender ao poder.

A mentalidade burocrática é a do controle total e dirigista, produzida e reproduzida por burocratas, capitalistas e pretendentes. Para aqueles que são das classes exploradas, isso se revela, em grande parte dos casos, como submissão e se manifesta mais como mentalidade submissa que justifica e legitima a dominação e direção. A nível da sociedade, isso reforça a estratégia burguesa de canalizar todas as lutas sociais para o Estado, via democracia representativa, na qual as pessoas trocam sua luta direta por escolha de representantes, adesão a partidos e candidaturas, etc., o que significa, em alguns casos, abrir mão da luta para que outro supostamente a faça em seu lugar e em seu nome.

Assim, temos relações sociais concretas marcadas pela alienação e burocratização e mentalidade burocrática e submissa gerada por tais relações e confirmadas cotidianamente por elas e pela própria mentalidade que lhe reforça. Nesse contexto, existe uma recusa da alienação, do burocratismo, do controle e falta de liberdade, mas em grande parte dos casos é insciente ou relegada a mero desejo fetichizado. Aqui temos um processo de alienação generalizada e produção de desejo fetichizado.

O processo de superação do desejo fetichizado de liberdade e de eliminação da burocracia e da alienação, elementos inseparáveis, ocorre através da luta e, especialmente, da práxis. A luta é necessária e é a primeira forma de liberdade e superação da alienação e burocratismo, pois nós mesmos agimos em busca da liberdade, já sendo sua manifestação inicial. Contudo, isso deve ser teleológico (com uma finalidade, a liberdade real, autoemancipação e autogestão das lutas visando a autogestão social), consciente e ativo, por isso práxis. A negação prática é mais rica, profunda e eficaz quando é também negação consciente e teórica.

Ora, se há uma alienação generalizada na sociedade capitalista, então devemos lutar também sob forma generalizada contra ela. Trata-se de uma luta generalizada visando instaurar e generalizar a autogestão (das lutas para conseguir torná-la autogestão do conjunto das relações sociais, ou seja, da sociedade como um todo). Esse processo de luta não pode ser, no entanto, separado das relações sociais existentes e por isso não é num esforço de imaginação que isso se realiza ou de um dia para o outro. Se alguns indivíduos buscam e tentam efetivar isso, eles encontrarão a oposição da classe dominante, do Estado, do capital, bem como de suas classes auxiliares e até mesmo de amplas parcelas das classes exploradas que ainda não terão superado alienação generalizada e a hegemonia burguesa. Inclusive haverá oposição das próprias pessoas que querem a transformação radical, em sua mentalidade, pois ninguém rompe com a mentalidade dominante e milhares de outros elementos culturais e sociais de uma hora para outra e em sua totalidade. Esse é um processo de luta onde milhares estão lutando e por isso é preciso lutar contra nós mesmos em muitos aspectos, principalmente tendo em vista que nem tudo que é apresentado como “revolucionário” o é realmente. É preciso entender que muito do que se coloca como contestador é, no fundo, mera luta por vantagens competitivas dentro do capitalismo e isso acaba criando divisões e promovendo influências para os que acreditam em tais discursos. Por isso a reflexão deve ser mais profunda.

Assim, a luta cultural tem um papel fundamental, bem como a luta em todos os lugares e sob variadas formas. O voto nulo autogestionário (ou seja, vinculado à luta pela autogestão) e a luta antiparlamentar é uma dessas formas – que não é a única e nem a mais importante, pois existem milhares de outras, inclusive mais profundas e necessárias. A questão é que o voto nulo (ou abstenção) é uma ação que não é dirigida por ninguém, o que significa que é uma forma de luta que rompe tanto na prática quanto na consciência, com a alienação e o burocratismo. Nesse sentido, é um dos lugares de luta, que não pode, no entanto, aparecer como o único ou principal, bem como esse fato não deve servir de pretexto para omissões oportunistas e convenientes a nível pessoal de supostos revolucionários, que querem evitar conflitos e problemas e ficar em sua situação de conforto nas relações sociais com conservadores, oportunistas, etc.

Obviamente que existem outras consequências do voto nulo (protesto, deslegitimação da democracia burguesa e estado capitalista, etc.), principalmente se articulado com outras lutas, tal como a luta cultural mais geral, a luta pela formação de organizações autárquicas (formas de auto-organização) e autoeducação da população em seu conjunto, o projeto autogestionário, etc. Nesse sentido, a luta[11] pelo voto nulo é um processo de superação do desejo fetichizado e elemento da luta cultural pela autogestão social e contra a alienação generalizada do capitalismo. A superação do desejo fetichizado pode ser conquistada, em alguns casos individuais, com a luta cultural e pelo voto nulo autogestionário, mas é com a superação da alienação generalizada no conjunto das relações sociais que isso pode ocorrer de forma também generalizada.



[1] Não utilizamos o termo “irracional” da mesma forma que outros autores ou no sentido comum da palavra. Para nós, o irracional (e a irracionalidade) é um fenômeno mental caracterizado pelo predomínio absoluto de uma sensitividade prejudicial sobre a racionalidade. A sensitividade são as energias psíquicas manifestas pela sentimentalidade, temperamento, inconsciente. A sensitividade não é algo positivo nem negativo, pois depende de quais sentimentos, emoções, etc. se trata. Porém, uma sensitividade pautada em determinados sentimentos (antipáticos) e outros processos psíquicos problemáticos, predominando de forma absoluta na mente humana, torna-se prejudicial para o indivíduo e para a sociedade.

[3]   Trata-se, aqui, de psicanálise social, e não o freudismo ortodoxo ou as ideologias psicanalíticas de Lacan, Klein e outros. Além de Freud, é possível citar Fromm, Adler, Jung, Schneider, entre outros, bem como a “sociologia psicanalítica” de Mannheim e Roger Bastide, que poderiam ser aqui utilizadas. No entanto, a sociopsicanálise assimila elementos dessas abordagens, especialmente o freudo-marxismo, a partir do marxismo e na sequência de nossas obras sobre psicanálise e temas correlatos.

[5]  A expressão popular “fezinha” (fezinha é diminutivo de fé) é usada quando uma pessoa vai apostar numa casa lotérica.

[6] Cf. http://www.youtube.com/watch?v=DEeNSkXn5mY&list=RDDEe-NSkXn5mY#t=27

[7] Cf. http://www.youtube.com/watch?v=ZJA_LkP0lBE.

[9] Algumas pessoas de esquerda ainda não entenderam que o projeto autogestionário não está buscando carro, casa, comida, distribuição de renda, salários elevados e sim abolição da pobreza em geral, relações sociais radicalmente diferentes, abolição do salariato, do Estado, do capital. As discussões mesquinhas sobre desenvolvimento econômico, salário, privilégios, renda, migalhas, entre outras, são “projetos” do capital e para o capital, visando se reproduzir. Um mundo novo é o que está contido no projeto autogestionário, o resto é ilusão e mediocridade, tanto faz qual o governo que reproduzirá isso.

[10] Sobre alienação, cf.: VIANA, Nildo. Karl Marx: a Crítica Desapiedada do Existente. Curitiba: Prismas, 2017.

[11] Luta e não “campanha”, pois quem faz campanha são os políticos profissionais e partidos políticos. Embora isso não nos faça, como alguns, condenar aqueles que usam tal terminologia (“campanha pelo voto nulo”) como se isso fosse fundamental e motivo para divisionismo, pois apenas sugerimos a mudança e usamos outra linguagem e se houvesse menos “sectarismo” e “dogmatismo”, muitos poderiam alterar, sendo que poucos fazem isso e outros avançam mas fazem questão de fazer de conta que não sabem a fonte de tal alerta e criticam os que chamaram atenção para o fato e inventam críticas infundadas para manter sua luta por espaço ao invés de buscar a solidariedade revolucionária, compromisso com a verdade e reconhecimento da luta dos demais.


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Publicado em: PEIXOTO, Maria Angélica (org.). Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano. Goiânia: Edições Enfrentamento, 2020.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O Fenômeno Bolsonaro



O Fenômeno Bolsonaro
Nildo Viana

O fenômeno Bolsonaro é um produto histórico e social que mostra um determinado indivíduo que expressa determinadas posições, interesses e segmentos da sociedade num contexto social e histórico específico. O fato desse indivíduo ter se destacado remete a inúmeras determinações, incluindo a unidade perdida do bloco dominante diante do processo eleitoral.

Hoje muitos estão assustados com o resultado das eleições do primeiro turno para presidente e com a ascensão eleitoral de Jair Bolsonaro. Sem dúvida, a sua ida para o segundo turno foi uma surpresa e foi resultado de múltiplas determinações. Mas, afinal de contas, quem é Bolsonaro? Como ele conseguiu esse resultado? Qual é o significado e as consequências disso? Hoje, devido ao alvoroço que a esquerda faz em relação a Bolsonaro, torna-se necessário explicar este fenômeno político-eleitoral.

Bolsonaro é um indivíduo comum. Por mais que seus adoradores queiram fazer dele alguém “forte”, “corajoso”, “incorruptível”, ele é um ser humano e, como tal, cheio de defeitos e, como indivíduo específico, com bem mais defeitos que muitos outros. Mas os seres humanos não são todos iguais, embora possuam uma base biológica, social e psíquica comum, eles também possuem milhares de diferenças. Essas diferenças são geradas pelo processo histórico de vida dos indivíduos, da época, da classe social, das relações familiares e profissionais, entre milhares de outras. Assim, os indivíduos nascem e vão constituindo seus valores, sentimentos, concepções, acabam formando uma personalidade (singularidade psíquica) e vão consolidando ou mudando isso. Existem pessoas que conseguem mudar radicalmente (para melhor ou para pior) e outros que mudam parcialmente ou superficialmente. Logo, Bolsonaro é um ser humano como qualquer outro.

Gandhi, Hitler, Papa Francisco, Ronald Reagan, Airton Senna, Neymar, Zé Ninguém são todos seres humanos. A história deles, inserida na história mais ampla da sociedade e sua posição no seu interior, gerou as inúmeras diferenças entre eles. Airton Senna era simpático, Neymar é antipático; Gandhi era pacifista e Hitler era belicista. Os exemplos e as diferenças poderiam se multiplicar e ganhar novas dimensões se a comparação envolvesse mais elementos e se aprofundássemos a discussão sobre estas características isoladas. E Bolsonaro? Foi um produto do processo histórico de vida dele que o tornou uma pessoa agressiva, conservador, militarista, etc. A sua formação intelectual é limitada e por isso ele tenta explicar o mundo a partir desta formação, aliada ao treinamento militar e sua história de vida. Existem milhares de pessoas iguais a Bolsonaro por aí, talvez milhões. Assim como existem milhares de pessoas iguais a Haddad por aí, talvez milhões. Haddad tem uma formação intelectual mais ampla, embora também limitada. Ele também é problemático, pois se não destila agressividade, destila falsidade e oportunismo. A expressão facial de Bolsonaro é a da agressividade e a de Haddad é a da falsidade. São dois seres humanos com suas próprias características e isso não tem grande importância, a não ser pelo fato de que um dos dois será o futuro presidente do país. Mas é uma ilusão eleitoral achar que o indivíduo, no caso o presidente, irá governar ao seu bel prazer. Trataremos disso em outra oportunidade.

Bolsonaro ganhou espaço político. Como ele conseguiu isso? Não é um político dos mais astutos (embora tenha certa esperteza), não é alguém com grande bagagem cultural (isso não é critério para político bem sucedido, mas ajuda nas decisões, estratégias, discursos, etc.), não é representante direto de algum grupo, classe ou fração de classe, etc. Ele conseguiu espaço político ao expressar ideias e valores de parte da população. A brecha foi aberta no problema moral. Ele saiu como um porta-voz do moralismo conservador, que sempre existiu, mas que se fortaleceu, se aprofundou e se tornou mais mobilizador com o avanço do moralismo progressista e do imoralismo, que foram imediatamente associados à esquerda e que, no Brasil, teve no PT o seu principal patrocinador. Ao lado de Bolsonaro, outros defenderam o moralismo conservador, mas ele encarnou de forma mais explícita e forte os valores da família, da tradição, da religião, etc., que alguns representantes do moralismo progressista e do imoralismo atacaram e, em alguns casos, ridicularizaram.

O espaço político conquistado por Bolsonaro acabou tornando-o o principal representante do reacionarismo, uma ala mais extrema do conservadorismo. A crise de legitimidade iniciada em 2013 com as manifestações populares e que foi se aprofundando, tal como no quase empate das eleições de 2014, com os escândalos de corrupção, e que foram reforçados pela crise financeira e polarização entre moralismo conservador e moralismo progressista e da polarização entre petistas e antipetistas, além da inoperância do governo de Dilma Roussef, culminou com o impeachment. O caminho para a superação dessa situação estava dado e as eleições de 2016 apontavam para o fim da polarização eleitoral entre PT e PSDB, bem como as demais polarizações. Porém, a resistência petista, que não tinha base junto aos trabalhadores, passou a usar setores de movimentos sociais e o moralismo progressista como elementos para alcançar uma recuperação, o que fracassou no início (a não ser em certos setores da sociedade, especialmente nos meios intelectualizados). É nesse contexto que um dos mais enérgicos defensores do reacionarismo se torna um líder e passa a ter adeptos e a aglutinar todos os diversos outros setores reacionários e alguns outros desiludidos ou temerosos de um retorno petista.

É assim que emerge Bolsonaro como candidato forte à presidência. Um vácuo de liderança política foi criado, pois com a crise de legitimidade da democracia e do aparato estatal, a corrupção e as prisões de políticos tradicionais, e a falta de energia e força dos partidos conservadores mais tradicionais (PSDB, DEM, etc.) fez com que ele emergisse com um número expressivo de intenção de votos. A unidade do bloco dominante para derrubar Dilma Roussef se desfez e isso permitiu que um dos seus representantes, que não era preferido da classe dominante, se destacasse e ganhasse espaço. Lula, por sua vez, ressuscitou com um bom número de intenção de votos nesse contexto de falta de definições e fortes candidatos no início do processo. No entanto, nenhum dos dois tinha realmente força e tendência para chegar ao segundo turno e a forte rejeição que os acompanhavam mostrava isto. Mas os resultados de algumas pesquisas eleitorais acabaram dando algum fôlego para ambos e logo vieram alguns intelectuais de esquerda falar da “nova polarização”, agora entre Bolsonaro e Lula[1]. Cada vez mais os petistas se preocuparam com Bolsonaro e o atacaram, cada vez mais ele virou manchete e passou a ter espaço. Assim, os petistas fizeram outro favor para Bolsonaro: o colocaram em evidência e como principal adversário. Isso serviu para divulgar o candidato e aglutinar em torno dele parte dos antipetistas. A prisão de Lula já retirava um concorrente do processo, mas Bolsonaro já havia crescido nas intenções de voto e a não candidatura petista, que tinha intenção de votos, mas que todos sabiam que não seria o candidato, fez pessoas migrarem seu sua intenção de voto progressista para outros candidatos (especialmente Ciro Gomes) e a pesquisa passou a ser duas: uma com Lula e outra sem Lula. As pesquisas sem Lula, nesse contexto, apontavam Bolsonaro em primeiro lugar. Isso gerou novos ataques petistas e mais divulgação e espaço ainda para o candidato do PSL. O medo de Bolsonaro crescia nos setores progressistas. Isso também promovia, nos setores conservadores, certa aglutinação em torno de tal candidato. A facada recebida por Bolsonaro intensificou esse processo e o novo candidato petista, Fernando Haddad, que estava com poucas intenções de voto, acaba crescendo cada vez mais. Ciro Gomes não decolava e nem os demais (Alckmin, Marina, etc., sendo que o primeiro estagnou e a segunda foi perdendo espaço) e assim não concentrou a maioria das intenções de votos progressistas. Emerge novamente a polarização, que beneficia os dois lados polarizados. A tendência, na reta final, acaba sendo um segundo turno entre ambos.

Claro que no meio disso houve os tropeços dos demais partidos que ajudaram a formar esse quadro. O PSDB escolhe um candidato com pouca desenvoltura eleitoral, especialmente no contexto atual, e faz uma campanha fraca e sem nenhuma percepção do quadro formado. Quando percebem isso, é tarde e não conseguem reverter, inclusive por não ter realizado a alteração necessária. Eles queriam retirar votos de Bolsonaro atacando ele, o que é normal em outras conjunturas, mas não nessa. Eles pensaram apenas em termos partidários e deveriam ter visto em termos de blocos sociais, o bloco dominante e o bloco progressista (a divisão entre direita e esquerda) e que o ataque a um candidato do primeiro por outro, não conseguia aglutinar e conquistar votos. Ao ver que isso não surtia resultado, devia ter usado outra estratégia e atacar o PT, pois assim poderia atrair eleitores de Bolsonaro e enfraquecer outro adversário que estava crescendo e cujo eleitorado, em sua maioria, jamais optaria pelo PSDB. Outros partidos, situações, etc., entraram no jogo eleitoral e ajudaram nesse processo.

Assim, Bolsonaro passou de candidato forte a favorito, liderando no primeiro turno e também nas pesquisas sobre o segundo turno. A força veio da falta de alternativas que expressam o bloco dominante e suas disputas internas e fraqueza dos partidos mais moderados. O período definido para lançar candidaturas, muito próximo das eleições, e a demora em lançar os nomes por diversos partidos, ao lado da antecipação e destaque eleitoral de Bolsonaro, permitiu ele concentrar um grande número de eleitores e com a fraqueza (discursiva) e falta de unidade do bloco dominante (ou pelo menos de seus setores mais moderados) e falta de estratégia eleitoral de partidos que poderiam ser alternativas a ele, acabaram possibilitando sua consolidação e crescimento. A estratégia petista acabou beneficiando Bolsonaro, pois ao atacá-lo e centralizar seus esforços no antibolsonarismo, acabou reforçando o bolsonarismo. Esse é um processo de retroalimentação entre antipetismo e antibolsonarismo. Os dois acabam se fortalecendo ao combater um ao outro, o que significa a exclusão dos demais.

Quando os demais candidatos se atentaram para isso, já era tarde. Além disso, não foram estratégicos o suficiente para conseguir superar a polarização. Alckmin, por exemplo, deveria ter atacado Haddad, pois poderia enfraquecer um pouco esse e se tornar uma alternativa a Bolsonaro (ao atacar este da mesma forma, gerou desconfiança e indefinição sobre “de que lado” ele estava e quais políticas e posições morais ele assumiria por parte daqueles que poderiam votar nele). Ciro Gomes, por sua vez, que concorria com Haddad para conseguir chegar ao segundo turno, focalizou Bolsonaro e fez críticas ao PT, mas deveria, também, ter centrado suas forças no concorrente direto pela segunda vaga de forma tão intensa e forte quando no candidato do PSL. Afinal, nesse momento da disputa eleitoral, os três partidos (PT, PDT, PSDB) estavam disputando entre si para saber quem iria para o segundo turno com Bolsonaro. Desses três, Bolsonaro só seria favorito contra o PT. Isso foi colocado na campanha de Alckmin, mas o erro foi partir da ideia de que os antipetistas e o eleitorado de Bolsonaro realizam “escolhas racionais” e não trabalhou as questões morais, emocionais, etc. que são a força principal deste candidato e de parte do antipetismo e que, portanto, o ataque simultâneo aos dois polos da polarização não renderia muito sucesso eleitoral.

A análise acima apenas buscou, num nível maior de concreção, analisar o fenômeno eleitoral Bolsonaro. Para a análise ser mais rica e desenvolvida, seria necessário entrar vários outros elementos na análise (a questão das classes e dos blocos sociais, da acumulação de capital, do PT, etc., mas isso já foi feito em outros dois textos: Antipetismo e Anticomunismo: A Gênese do Discurso Reacionário e Os Pobres de Direita e a Miséria dosIntelectuais de Esquerda, que podem ser lidos por quem deseja aprofundamento).

A tendência atual é que Bolsonaro seja eleito presidente. O que significaria isso? Em primeiro lugar, significaria que ele teria que realizar uma política de conciliação, unindo o seu estatismo com elementos de neoliberalismo, pela força da pressão e que ele, visando agradar setores do capital, já apontou com a escolha de Paulo Guedes como Ministro da Fazenda. Em segundo lugar, uma política mais decidida contra o moralismo progressista e contra o setor oposicionista representado pelo PT, tanto no plano institucional (as instituições estatais nas quais esse partido tem força) e contra o progressismo em geral. Em terceiro lugar, um acirramento das contradições e conflitos, pois a oposição ao novo governo partirá tanto do bloco progressista quanto do bloco revolucionário e, ao mesmo tempo, aumentando a insatisfação de diversos setores da sociedade, entre esses, aqueles que ficaram politicamente ausentes das lutas políticas e eleitorais dos últimos anos: os trabalhadores. A pressão dos trabalhadores deverá ser crucial para possíveis zigue-zagues do novo governo – e se não houver uma retomada do ritmo de acumulação de capital (“crescimento econômico”), a situação pode ficar explosiva, pois o capital vai pressionar pelas reformas retrógradas e as classes trabalhadoras tendem a reagir. Em síntese, fortes turbulências tendem a ocorrer num governo Bolsonaro. A questão é que o mesmo tenderia a ocorrer num Governo Haddad. Ambos os governos tendem a levar o país ao acirramento das lutas e problemas, embora sob formas diferentes. E ambos terão o seu arqui-inimigo na fileira de frente no combate, obscurecendo e complexificando as contradições, apesar de que, no caso do PT na oposição, tende a haver um enfraquecimento drástico e deixar de ter tanto importância.

Por fim, resta esclarecer que não se trata de apenas um indivíduo e sim um candidato, com as forças que o apoiam, com as articulações eleitorais, partidárias, políticas, com as pressões do capital e de outros setores, bem como com a composição do governo e as alianças instituídas. Isso tudo ocorre num plano mais amplo, que é a situação social, financeira, etc. do país (e que também remente ao contexto internacional), a força dos blocos e classes sociais, etc. Por isso, a simplificação do discurso eleitoral que deduz de indivíduos as políticas e o destino do país é equivocada e não consegue fornecer um quadro explicativo mais amplo. E é justamente essa concepção estreita que fez com que Bolsonaro conseguisse chegar ao segundo turno e se tornar favorito para ganhar as eleições e que foi reproduzido pelos demais partidos e pelos principais articuladores do bloco dominante e do bloco progressista. O futuro tende a ser de novos conflitos e novas crises, mas não é votando que se evita fenômenos como esse e sim no desenvolvimento intelectual e organizacional da população, o que não é interesse do bloco dominante e do bloco progressista e por isso eles foram surpreendidos e agora vão ter que pagar pela despolitização geral que incentivaram.





[1] As pesquisas eleitorais acabam influenciando parte do eleitorado, bem como os discursos e análises de intelectuais possuem efeito nos meios intelectualizados que, por sua vez, acabam reproduzindo tais discursos e reforçam, involuntariamente, o que afirmam. Assim, o discurso sobre uma suposta polarização reforça a tendência para efetivação da polarização.

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