A EDUCAÇÃO E A
CALAMIDADE NO COLÉGIO GOYASES
Nildo Viana*
A calamidade ocorrida no Colégio
Goyases, no Conjunto Riviera, em Goiânia, no dia 20 de outubro de 2017, quando um jovem baleou sete colegas, aponta
para graves problemas sociais e educacionais. A compreensão desse processo é
fundamental e sem ela não há como evitar sua repetição. Essa calamidade
ocorreu, no entanto, em uma escola. Isso tem implicações no processo
educacional e expressa outro problema grave na sociedade brasileira: a
insuficiência e o esfacelamento da educação, especialmente no Brasil, embora
seja algo mundial. É por isso que vamos refletir sobre esta calamidade no
Colégio Goyases.
A explicação da calamidade
ocorrida no Colégio Goyases remete para diversos problemas sociais, tais como a
sociabilidade competitiva, os valores dominantes, o narcisismo e
enfraquecimento da capacidade de frustração que vem atingindo parte da
sociedade, o processo cultural e educacional geral. Cabe destaque ao problema
educacional. A socialização é realizada na família, na escola, meios de
comunicação, etc. A socialização através da família tem como um de seus
principais elementos a educação sentimental. Isso é fundamental para não
desenvolver indivíduos incapazes de amar e respeitar os demais seres humanos. A
educação escolar, por sua vez, exerce a função de preparar o indivíduo para
viver em sociedade e desenvolver sua formação intelectual, de acordo com as
exigências sociais (que varia com época, etc.), mas que geralmente reproduz os
valores dominantes, a competição, etc.
O caso do Colégio Goyases é
marcado por diversas opiniões fundadas em especulações. Não há informação
suficiente. Menos ainda de fontes confiáveis e verificadas. O discurso de pais,
testemunhas, entre outros, são versões dos acontecimentos e não relatos
fidedignos dos mesmos. Por isso é provável, mas não uma certeza, que problemas
familiares e escolares estavam envolvidos no desencadeamento deste
acontecimento.
A lição que podemos tirar dessa
calamidade é que a escola é insuficiente para resolver tal problema, que remete
para mudanças sociais amplas, que, por sua vez, atingem a família e a escola. O
seu esfacelamento atual (falta de recursos, precarização, impacto da internet,
etc.) reforça isso. A escola pode e deve se engajar no enfrentamento pedagógico
das questões contemporâneas. Nesse sentido, é necessário que a escola se
prepare para repensar as relações internas e permitir o florescimento do
pensamento crítico. Uma das questões fundamentais hoje nas escolas é questionar
o individualismo, hedonismo, narcisismo, produtos do subjetivismo exacerbado na
contemporaneidade, bem como a competição, e apontar para sua superação. Uma
prática pedagógica que retome os valores do humanismo e da solidariedade é
fundamental no mundo contemporâneo. Esse deveria ser um compromisso da escola e
dos professores e uma das ações que pode contribuir para minimizar as
possibilidades de repetição dessa forma de calamidade.
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Publicado originalmente no Jornal Tribuna do Planalto, 29 de
outubro a 04 de novembro de 2017.