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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A crise do pseudomarxismo


A crise do pseudomarxismo
Nildo Viana


"Desde o início do século 20 se fala  em  uma  “crise do marxismo”. Apesar disso, ele continua vivo, tanto que toneladas de tinta são gastas em textos sobre sua crise. Então, se o marxismo continua vivo, há sentido em se falar de uma crise? Mas, inversamente, poder-se-ia dizer que não existe nenhuma crise no marxismo e que ele está tão forte quanto antes?"


A Crise do Pseudomarxismo


Desde o início do século 20 se fala em uma “crise do marxismo”. Apesar disso, ele continua vivo, tanto que toneladas de tinta são gastas em textos sobre sua crise. Então, se o marxismo continua vivo, há sentido em se falar de uma crise? Mas, inversamente, poder-se-ia dizer que não existe nenhuma crise no marxismo e que ele está tão forte quanto antes?

Para respondermos a estas questões, precisamos, antes, definir os conceitos utilizados, ou seja, é preciso esclarecermos o que entendemos por “crise” e por “marxismo”. Gramsci define crise como sendo um período histórico em que o velho está em estado de perecimento e o novo ainda não pode surgir. Para ele, pensando em termos históricos, o velho é a estrutura econômica estabelecida e o novo é a nova estrutura que irá substituí-la e que se expressa, inicialmente, no plano da ideologia. Está é uma definição demasiadamente estreita, pois cria uma ligação indissolúvel entre “base” e “superestrutura” e por isto este “modelo” se torna inaplicável a certos aspectos da realidade.

A definição de crise fornecida por Habermas é muito mais ampla e útil. Para Habermas, uma crise ocorre quando um sistema encontra dificuldades em se reproduzir. Esta definição, porém, também possui limitações, pois, além da utilização da noção de “sistema”, que é problemática, a idéia de crise perde toda sua radicalidade e até mesmo sua utilidade, já que o marxismo e o capitalismo, entre outros exemplos, apresentam, como uma de suas características, o fato de possuírem dificuldades em realizar sua reprodução.

A definição de Habermas pode servir como ponto de partida para uma outra que consiga apreender o significado deste fenômeno. Sendo assim, sugerimos que o conceito de crise expressa uma situação onde um determinado ser (utilizamos esta categoria em substituição à noção de sistema utilizada por Habermas) encontra dificuldades cada vez maiores para se reproduzir. Portanto, aplicando esta definição de crise ao marxismo, podemos dizer que ele só pode entrar em crise quando suas dificuldades de reprodução se tornam maiores que as que lhe são comuns.

E isto vem ocorrendo atualmente com o marxismo? Para responder a esta questão é necessário anteriormente definir o que é o marxismo. A melhor definição do marxismo, a nosso ver, foi a fornecida por Karl Korsch: ele é uma expressão teórica do movimento operário. Portanto, só pode ser considerado marxismo a teoria que seja expressão do movimento operário e isto exclui, evidentemente, tanto o “marxismo” acadêmico quanto o “marxismo” dos partidos e dos regimes de capitalismo de estado da Rússia e leste europeu. Estes “marxismos” são, na verdade, formas de deformação do marxismo e são justamente estas ideologias pseudomarxistas que estão em crise e não o marxismo autêntico.

Essa idéia de crise do marxismo se reflete nas academias e nos partidos políticos porque, de fato, existe uma crise no pseudomarxismo produzido e reproduzido nestes lugares. Marx dizia que a “ideologia dominante é a ideologia da classe dominante” e, sendo assim, as idéias das classes exploradas são marginais. Isto significa que o marxismo autêntico é um marxismo marginal – ele fica à margem das academias, do estado e dos partidos políticos.

Como a classe trabalhadora não possui os “meios de produção espiritual” (Marx), existe uma dificuldade enorme para o marxismo autêntico se reproduzir. Nos momentos históricos em que a classe trabalhadora se autonomiza, desvencilhando-se de “sua” burocracia, e começa a generalizar a autogestão de suas lutas, o marxismo passa a ter uma penetração maior na sociedade e, por isso, a classe dominante e as suas classes auxiliares buscam deformá-lo para retirar-lhe sua eficácia política.

Essa deformação, entretanto, não é, na maioria dos casos, realizada intencionalmente, pois é produto do modo de vida, dos interesses e da visão de mundo daqueles que reinterpretam o marxismo, mudando o seu caráter de classe, o que significa deformá-lo. O marxismo marginal se reproduz através da obra de indivíduos e grupos políticos não-burocráticos que buscam desenvolver e atualizar a teoria produzida por Karl Marx.

O que faz, então, o “marxismo” acadêmico e o “marxismo” dos partidos políticos e dos países pseudo-socialistas entrar em crise? A discussão em torno da “crise do marxismo”, desde o início do século, gira em torno de duas explicações: a) a “crise do marxismo” é produto das “antinomias do pensamento de Marx”, que ora enfatiza a “estrutura”, ora o “sujeito” ou, então, ora dizia que a transformação social seria resultado do desenvolvimento das forças produtivas, ora colocava que ela é produto da luta operária; b) a “crise do marxismo”, para outros, é uma conseqüência da “crise do movimento operário”.

Desde Rosa Luxemburgo, em 1903, passando por Sorel, Korsch, Deutscher, até chegar a autores contemporâneos como André Gorz, Agnes Heller, Perry Anderson e E. Laclau, a análise da “crise do marxismo” oscila entre uma ou outra destas explicações. Mas, hoje, existe um outro motivo para a atual versão da crise: a derrocada dos regimes “socialistas” da Rússia e Leste Europeu e a vitória do neoliberalismo.

A crítica ao neoliberalismo e o questionamento ao seu “sucesso” já foram feitas muitas vezes e não cabe aqui retomarmos a questão da atual “crise do capitalismo”. Trataremos somente da questão da “crise do socialismo real”. Devemos ressaltar que a Rússia e o Leste Europeu nunca foram socialistas. O marxismo autêntico, pouco conhecido por ser marginal, tanto no interior da Rússia quanto no resto do mundo, sempre caracterizou a Rússia como um capitalismo de estado. Basta citar alguns nomes de representantes do marxismo marginal que defenderam tal tese: Amadeo Bordiga, Otto Rühle, Helmutt Wagner, A. Rosemberg, A. Cilliga, Anton Pannekoek Isto sem falar em pseudomarxistas (como Tony Cliff e Charles Bettelheim, um trotskista e outro maoísta) que, de forma diferente chegaram a mesma conclusão e só por ignorância se pode falar que a teoria do capitalismo de estado é uma “tese maoísta” (mesmo porque a China de Mao Tse-Tung também consiste num capitalismo de estado).

Se os partidos políticos que tinham a URSS como “modelo de socialismo” entram em crise, isto acaba se refletindo nas academias. Ocorre um desencadeamento simultâneo da crise do “marxismo” e “socialismo”. Acontece que a situação fica mais difícil para o “marxismo” acadêmico com o ataque que lhe é dirigido pela ideologia “pós-moderna” (na verdade, pré-moderna). Isto cria uma discussão acadêmica estéril que não leva a lugar algum e, no final das contas, nenhuma das duas ideologias se refere ao marxismo, seja para atacá-lo, seja para defendê-lo, e sim as deformações dele.

Portanto, essas são as razões da crise do pseudomarxismo. Este, com ou sem crise, vai continuar existindo, enquanto o marxismo autêntico existir (pois este é a causa geradora daquele) e esta existência, por sua vez, está garantida, na sua atual forma, enquanto houver a classe trabalhadora e suas lutas, ou seja, enquanto não se encerra a “pré-história da humanidade” e se inicia sua história ou, em outras palavras, até quando permanecer a dominação capitalista e não se instaurar a autogestão social.

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Artigo publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. A Crise do Pseudo-Marxismo. Jornal Opção, Goiânia, 1994, p. 14 - 14.

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sábado, 29 de janeiro de 2011

Octávio Ianni: Crise dos Paradigmas e Crise do Marxismo


OCTÁVIO IANNI:
CRISE DOS PARADIGMAS E CRISE DO MARXISMO *


NILDO VIANA

Octávio Ianni é um dos cientistas sociais que mais tem colaborado com o estudo do que vem sendo chamado de “crise dos paradigmas das ciências” e da “crise do marxismo”. Este é, sem dúvida, dois dos maiores debates das ciências sociais na atualidade. Por isso, eles devem ser objeto de uma ampla reflexão teórica e a contribuição de Ianni deve ser analisada à luz de outras concepções teóricas.

As teses de Ianni apontam para a seguinte causa da crise dos paradigmas: as mudanças históricas ocorridas não se apresentam tais como os seguidores do pensamento clássico - o marxismo, em especial - esperavam. Estes não analisaram de forma “inteligente” os desenvolvimentos do mundo contemporâneo e continuaram utilizando conceitos e interpretações criadas para analisar certo período histórico que já se transformou e por isso precisa de novas categorias e teorias para explicá-lo. Portanto, as ciências sociais se encontram diante de novas realidades, de novos objetos. Conceitos como Estado-Nação, Imperialismo, Dependência, Bloco de Poder, são, entre outros, questionados.

As mudanças históricas e, conseqüentemente, a necessidade de elaboração de novos conceitos são por demais evidentes para que possamos questioná-las. Entretanto, consideramos esta análise incompleta e a solução encontrada insatisfatória. As ciências sociais devem então analisar esta nova realidade social e explicá-la. Porém, considerar de que trata apenas de uma “nova realidade” e não observar as mudanças que isto provoca naqueles que buscam explicá-la é uma análise “objetivista”. Não podemos tratar as críticas efetuadas por Marx, Lukács, Korsch, entre outros, à separação metafísica entre “sujeito” e “objeto”. Aliás, até estes conceitos são questionáveis, mas não trataremos disto aqui. Qual é o objeto de estudo dos cientistas sociais? É a realidade social. Esta, entretanto, envolve o sujeito que busca conhecê-la, inclusive os cientistas sociais. A realidade social não é homogênea e os diversos componentes da sociedade a observam de acordo com o seu ponto de vista. Portanto, se o “objeto do conhecimento” é um só, os sujeitos são múltiplos. Se a sociedade se transforma, aqueles que buscam conhecê-la também se transformam. É por isso que numa mesma época surgem diferentes interpretações da sociedade. Na mesma época em que surgia a sociologia de Weber aparecia a psicanálise de Freud. Porém, a teoria da religião de Weber é completamente diferente da de Freud.

Em uma sociedade dividida em classes sociais antagônicas, a sua autoconsciência se manifesta de forma diferente dependendo de ponto de vista que se utiliza para analisá-la.

Portanto, o conhecimento da sociedade é muito mais dependente do ponto de vista da classe que se utiliza dele do que de uma “metodologia científica”. A classe social que tem interesse em revelar as contradições da sociedade capitalista é o proletariado e por isso qualquer análise que separe “sujeito” e “objeto” é ideológica.

Se a sociedade capitalista está se transformando, aqueles que buscam interpretá-la também estão mudando. As classes sociais estão se transformando (o campesinato, por exemplo, está se extinguindo na Europa Ocidental, como demonstrou Hobsbawm) e aqueles que representam seus pontos de vista também. Deparamos-nos com novos problemas e precisamos de novos conceitos e teorias para explicá-los. Nós, os cientistas sociais, estamos envolvidos nestas mudanças históricas, mas a abordagem de Octávio Ianni coloca apenas a mudança de “objetos”. Isto significa voltar ao velho e desgastado positivismo. Tornamo-nos, num passe de mágica, neutros e acima de contradições sociais? A própria ênfase colocada na mudança de objeto por Ianni já demonstra um ponto de vista e uma concepção teórica e política. Trata-se de uma reflexão acadêmica - que considera a academia como o observatório privilegiado para estudar a sociedade - que expressa o “ópio dos intelectuais”, lembrando ironicamente as palavras de Raymond Aron.

Além disso, as mudanças históricas não são tão grandes para colocar em questão conceitos como capitalismo, imperialismo, estado-nação, etc. Aliás, sem estes conceitos é impossível analisar a realidade contemporânea. Tais teses abrem caminha para a volta do irracionalismo. O imperialismo muda de forma, mas mantém o seu conteúdo. O estado-nação pode se transformar em “estado continental”, devido à formação dos blocos econômicos, mas continua sendo “estado”.

Deixemos de lado essas reflexões “metodológicas” e passemos para a análise histórico-concreta das causas da crise dos paradigmas nas ciências sociais. A nova configuração do capitalismo mundial representada pela rearticulação da divisão internacional do trabalho, formação de blocos econômicos, a crise do capitalismo de estado da URSS, Leste Europeu, avanço do neoliberalismo, etc., inaugura uma época de desvalorização progressiva das ciências sociais. A nova política do estado capitalista caracteriza-se pelo recuo na área da política social e do controle social, ou seja, no que poderíamos chamar de “ciências sociais aplicadas”. Essa desvalorização real e institucional é acompanhada por sua desvalorização ideológica, tal como demonstra as ideologias do “fim da história”, da “crise dos paradigmas”, da “pós-modernidade”, etc.

A partir dessas considerações, devemos colocar que o marxismo é o método que pode explicar o desenvolvimento histórico do capitalismo e suas perspectivas. Aqui cabe a pergunta: e a crise do marxismo? Na verdade, o “paradigma” que os ideólogos da crise visam é, essencialmente, o marxismo. Basta lermos Maffesoli, para entendermos isto. Octávio Ianni diz que não podemos confundir crise do marxismo e crise do leste europeu, pois o pensamento marxista continua fecundo, independentemente de sua aplicação por partidos políticos ou governos. Resta saber de qual “marxismo” se está falando. Tanto o “marxismo acadêmico - o marxismo mutilado e domesticado pela academia, portanto, despolitizado - quanto o “marxismo” ligado à formação e/ou consolidação do capitalismo de estado da URSS, China, Cuba, Albânia e Leste Europeu - o leninismo, stalinismo, maoísmo, etc., estão em crise.

As tentativas do “marxismo” em analisar as “novas realidades”, segundo Octávio Ianni, não tiveram a capacidade de absorvê-lo. O marxismo convive com um “impasse” gerado tanto pelo economicismo quanto pelo politicismo. Acontece que Ianni se esquece que, de um lado, caiu-se no politicismo e no economicismo, mas de outro lado, caiu-se no “culturalismo”, no “sociologismo”, ou em qualquer outro tipo de particularismo autônomo. Aliás, está e a impressão que temos ao ler o último livro de Ianni, A Sociedade Global, que cede aos encantos do “sociologismo” enquanto que a realidade econômica e política (as transformações do capitalismo mundial, as classes sociais na nova realidade mundial, etc.) são relegadas à vagas considerações secundárias. O marxismo como concepção política revolucionária sempre esteve marginalizado tanto nas acadêmicas quanto nos partidos políticos. Tanto em uns quanto em outros, o que existia era um marxismo adaptado e deformado por necessidades estranhas aos da classe social que ele busca representar: o proletariado. Daí conclui-se que o marxismo autêntico é o marxismo marginal, ou seja, aquele que esteve à margem das academias e dos partidos políticos. Logo, o que está em crise são as deformações do marxismo, pois o marxismo autêntico continua sobrevivendo nos subterrâneos da sociedade capitalista.

Disso tudo concluímos que a crise dos paradigmas é provocada não somente pela mudança de “objetos de estudos”, mas principalmente pelas mudanças históricas que criam “novos objetos” e novos interesses e necessidades no estudo da sociedade e, ainda, “novos sujeitos” - no caso, os cientistas sociais - para analisar estas novas realidades. Quanto à crise do marxismo, ela simplesmente não existe, pois o que está em crise são as deformações do marxismo. O marxismo autêntico continua não só vivo e atuante como também explicando as mudanças históricas e as ideologias contemporâneas, inclusive àquelas as quais Octávio Ianni sucumbiu.
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Artigo publicado originalmente como:
VIANA, Nildo. O Marxismo na Contra-Corrente da História. Jornal Diário da Manhã, Goiânia, p. 23 - 23, 13 dez. 1992.

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