Nildo Viana
A rebelião estudantil do Maio de
1968 em Paris e na França em geral se tornou um acontecimento histórico
simbólico para as lutas de classes no capitalismo. Sem dúvida, foi um marco
histórico da luta de classes por não ter sido apenas uma rebelião estudantil,
pois foi também um momento de radicalização da luta operária. O movimento
estudantil abriu a possibilidade de uma revolução proletária, mas essa
possibilidade sucumbiu e não se concretizou. A compreensão desse fenômeno tem
uma importância fundamental para a teoria e desenvolvimento da consciência, bem
como para as futuras lutas que se anunciam com a tendência para emergência de
uma nova crise do capitalismo. E isso se torna ainda mais importante por
remeter a diversas outras questões relativas às lutas sociais e seu significado
na dinâmica revolucionária no interior do capitalismo, tal como a natureza do
movimento estudantil e da juventude, a relação entre esse movimento social e o
movimento operário, a questão da luta cultural, etc.
O nosso objetivo aqui é
focalizar a questão da luta cultural. Isso se relaciona com a necessidade de
compreender o significado da luta cultural no processo da luta de classes e sua
importância no processo revolucionário a partir de um caso concreto, que foi a
rebelião estudantil de maio de 1968 em Paris e seus desdobramentos na França[1]. A partir desse processo
analítico, pretendemos apontar alguns elementos que lancem luzes sobre este
acontecimento histórico e que também sirva para a compreensão de outros e que
isso produza um avanço da consciência no sentido de contribuir com as lutas
futuras.
Para tanto, vamos analisar a
rebelião estudantil no contexto histórico em que ela se realizou, mostrando
quais as suas determinações e o significado da luta cultural antes, durante e
depois do seu desencadeamento. Nesse momento, a percepção da importância da
luta cultural antes do maio de 1968, durante e depois ficará mais clara e tende
a contribuir com o processo de luta pela transformação radical e total das
relações sociais[2].
Revoluções Sociais e Lutas Culturais
Antes de tratar do caso concreto
da rebelião estudantil do maio de 1968, é importante analisar teoricamente a
relação entre revoluções sociais e lutas culturais. As revoluções burguesas
foram revoluções parciais, que começam no processo de produção, com o
surgimento, desenvolvimento e consolidação das relações de produção
capitalistas, a partir do século 16 (o desenvolvimento do mercado já começa a
se iniciar a partir do século 12) e se consolida com a Revolução Industrial,
depois passa para o plano cultural, no século 18, no qual o desenvolvimento das
ciências naturais e do iluminismo (incluindo o liberalismo) e, por fim, chega
às chamadas “revoluções burguesas”, ou seja, revoluções políticas. Assim, o
trajeto de constituição da dominação burguesa se inicia com a formação,
desenvolvimento e consolidação do modo de produção capitalista (o que alguns
chamariam “revolução econômica”), criação de uma cultura burguesa, cujo ápice
revolucionário foi no século 18 com o iluminismo (alguns denominariam “revolução
cultural”) e, por fim, uma vez que detinha o “poder pecuniário” (“econômico”) e
o poder cultural, restava o poder político, ou seja, a tomada do poder estatal[3], o que alguns denominariam
“revolução política”. É este geralmente o sentido burguês oferecido ao termo “revolução”,
reduzida apenas ao elemento “político institucional”, a apropriação do aparato
estatal.
Sem dúvida, juntamente com a
formação do modo de produção capitalista já vinha se constituindo elementos
culturais (no plano cultural, o maquiavelismo, o racionalismo de Descartes, o
empiricismo de Bacon, as ciências naturais, o protestantismo, a música
clássica, etc.) e políticos (aliança com a nobreza na constituição do estado
absolutista) que expressavam os interesses de classe da burguesia, mas de forma
incipiente ou incompleta. Assim, a burguesia demorou séculos para se tornar
classe dominante e fez isso através de revoluções parciais, mesmo porque sua
existência e dominação se fundamentam na divisão social do trabalho.
A revolução proletária nasce de
forma distinta. Ela é uma revolução total e não pode ser concebida de forma
parcial ou por etapas. O proletariado não pode desenvolver sua “forma de
propriedade” dentro do capitalismo, pois ele significa a abolição de todas as
expressões jurídicas denominadas “formas de propriedade”. Ao não poder possuir
o poder pecuniário antes do cultural e do político, ele não pode ir se
fortalecendo dentro do capitalismo para depois destruí-lo, como fez a
burguesia. Além disso, a revolução proletária tem uma finalidade e essa é a
abolição da divisão social do trabalho, da propriedade, das classes, das
relações de poder, etc.
Como é possível, então, a
revolução proletária? Através da luta. A palavra fundamental é justamente essa:
luta. Afinal, Karl Marx declarou “a
história das sociedades tem sido até hoje a história das lutas de classes”
(MARX e ENGELS, 1988). Ao contrário do que pensam diversos pseudomarxistas não
se trata de “luta de partidos”, nem de “prática pura”, nem de “consciência
socialista”. A simplificação do pensamento de Marx e sua adequação à episteme
burguesa é razão para equívocos políticos e teóricos. No caso do capitalismo, a
luta proletária se realiza no processo complexo de enfrentamento com outras
classes e não através de um desenvolvimento unilinear desta classe.
A luta proletária deve,
simultaneamente, esboçar a futura sociedade autogerida, e por isso pressupõe
alguns elementos. É uma luta que emerge espontaneamente, se desenvolve gerando
formas de auto-organização e consciência revolucionária, que devem atingir um
grau superior, quando esses elementos se unificam (organização e consciência)[4] e possibilitam a
consciência autogestionária e junto com ela a articulação e sua generalização
no conjunto da sociedade. Esse processo ocorre devido ao fato de que o processo
de auto-organização e consciência revolucionária não se desenvolve
simultaneamente em todo o proletariado. Em certos lugares, setores, há um maior
desenvolvimento da consciência revolucionária; em outros, da auto-organização;
em alguns, de ambos simultaneamente.
Mas é preciso unificar as lutas
e para isso é preciso avançar a consciência e superar o fetichismo da
auto-organização (não basta para o proletariado se organizar em uma fábrica ou
mesmo num conjunto de fábricas em uma cidade, é preciso que isso ocorra em todas
as fábricas em todas as empresas e serviços sociais, bem como união e
consciência revolucionária). Em outras palavras, é necessário que a consciência
revolucionária (que reconhece o antagonismo de classe, a exploração, a
necessidade de transformação social e constituição de uma nova sociedade) atinja
um nível mais elevado, chegando ao ponto de compreender as necessidades da luta
(organização, união e consciência) para a constituição de uma sociedade
autogerida. É nesse momento que a mera auto-organização aparece como
insuficiente[5].
É preciso ultrapassar esse momento da consciência para compreender que o
conjunto das formas de auto-organização (os conselhos de fábrica e demais organizações
autárquicas) precisam se articular e generalizar, pois somente assim será
possível a autogestão coletiva generalizada e a abolição do aparato estatal e
do capital.
É nesse contexto que a luta cultural adquire maior importância do que antes se imaginava. No interior da sociedade capitalista emerge a tendência concreta, real, de revolução proletária, encarnada no proletariado, mas convivendo com contratendências, especialmente a encarnada pela burguesia e suas classes auxiliares e todo o seu poderio financeiro, aparato estatal, organizações burocráticas, hegemonia cultural, etc. A simplificação mental da concepção de revolução do obreirismo, praticismo, autonomismo se esbarra justamente nesse problema. Além de ser uma concepção não-marxista (é um reducionismo típico da episteme burguesa, ao pensar que meramente através da espontaneidade – geralmente entendida de forma mística – ou da auto-organização é possível realizar a transformação social, abandonando a percepção da totalidade e das demais classes e suas lutas contra o proletariado) do processo histórico, é também uma prática política igualmente não-marxista.
A revolução proletária é total e
por isso, se avança em apenas um setor (seja a consciência, seja a organização)
não tem como ser vitoriosa. Embora possa emergir em certos lugares e setores da
sociedade através de diversas formas de auto-organização espontâneas e criação
de organizações autárquicas mais estruturadas, se isso não for acompanhada por
uma consciência revolucionária, poderá ser manipulada e apropriada por outras
classes e organizações. Se a consciência que anima tais organizações for burguesa,
burocrática, etc., também não significa um avanço para a luta. As organizações
autárquicas dominadas pelas concepções burguesas ou burocráticas devem ser
destruídas. A razão disso é que a forma pode ser um avanço, mas o conteúdo, que
é onde se estabelece os objetivos, alcance e possibilidades, é conservador.
Assim, se um conjunto de trabalhadores gera uma organização autárquica
influenciada pela ideologia neonazista, deve ser combatida e destruída. Se for
uma organização autárquica marcada pela influência de ideologias burguesas
(geralmente progressistas), devem ser criticadas e combatidas, não visando sua
destruição e sim sua transformação em organizações revolucionárias.
É nesse contexto que a luta
cultural mostra sua importância. A revolução proletária não é meramente “organizativa”,
pois autogestão pressupõe decisão coletiva, livre e consciente, que no contexto
da sociedade moderna tem como pressuposto a abolição do capitalismo e um
projeto autogestionário[6]. Se os militantes
revolucionários querem contribuir com a revolução proletária, então devem
entender que a principal forma de efetivar tal contribuição é através da luta
cultural, pois o movimento operário encontra maior dificuldade nesse aspecto,
devido às condições de vida do proletariado. É necessário reforçar tal luta
hoje para acelerar o processo e facilitar a passagem de classe determinada para
classe autodeterminada e ter percepção da necessidade de articulação e
generalização das organizações autárquicas, tornando-se autogeridas. Assim, no
processo complexo das lutas de classes, existem diversas tendências e
contratendências e cabe aos militantes revolucionários reforçarem a tendência
autogestionária e a principal forma de fazer isso é através da luta cultural. É
ela que pode colaborar com o fim da defasagem das lutas operárias que avançam
muitas vezes sem ser acompanhada com um igual desenvolvimento da consciência
revolucionária, o que permitiria sua unificação nas lutas concretas e
fortalecer a tendência de tornar a autogestão uma realidade concreta.
Em síntese, toda revolução
social foi acompanhada por uma revolução cultural. No caso da revolução proletária,
a defasagem da luta concreta com o desenvolvimento da consciência
revolucionária é um obstáculo. A superação dessa defasagem, necessária por ser
a revolução proletária uma revolução
total e seu projeto de sociedade pressupor um alto grau de consciência, ocorre
por duas vias: a própria luta operária (que é combatida não só praticamente,
mas também culturalmente, pela burguesia e suas classes auxiliares e a
superação da hegemonia burguesa não se faz totalmente de uma hora para outra) e
a luta cultural do bloco revolucionário, que traz elementos de cultura, teoria,
etc., que contribuem com o desenvolvimento da consciência revolucionária por
parte do proletariado. A luta cultural do bloco revolucionário interfere na
luta de classes no sentido de reforçar a autoformação do proletariado e, por
conseguinte, a tendência de efetivação da revolução proletária.
Reprodutivismo e Contestação
Para compreender a rebelião
estudantil de maio de 1968 é necessário entender a dinâmica da sociedade
francesa, inserida no contexto mundial, e também a questão cultural e situação
das universidades francesas. Mas, antes de analisar tais determinações, é necessário
entender um pouco a sociedade francesa anterior ao desencadeamento de tais
determinações. O nosso foco aqui será a questão cultural, mas está não pode ser
compreendida se for separada e isolada da totalidade das relações sociais e por
isso faremos breves observações sobre o contexto mais geral, envolvendo outras
questões.
O primeiro ponto a se destacar é
que a França vivia sob o capitalismo oligopolista transnacional, ou seja, era
comandada pelo regime de acumulação conjugado. A partir de 1945, esse regime de
acumulação, que marca uma nova fase na história do capitalismo, vai se formando
e se consolida, marcando uma época de estabilidade nos países de capitalismo
imperialista[7].
O fordismo, o estado integracionista (providencial ou de “bem estar social”) e
o imperialismo oligopolista transnacional garantiam a estabilidade política, o
aumento da renda e níveis salariais, crescimento do consumo, etc. É nesse
contexto que alguns sociólogos vão tematizar a chamada “sociedade de consumo”.
Nesse momento, é instituída uma
política cultural específica, gerando um novo paradigma hegemônico[8]. A partir de 1950, as
ideologias vinculadas ao novo paradigma se tornam hegemônicas, especialmente o
estruturalismo (uma ideologia de origem e predominância francesa). O novo
paradigma hegemônico, substituto e herdeiro do positivismo, é o reprodutivismo.
O paradigma reprodutivista apontava para uma determinada concepção de realidade
e sociedade que era fundamentado no holismo e no objetivismo e estes
justificariam e legitimariam uma concepção anistórica e reprodutivista. As
ideologias caudatárias desse paradigma foram numerosas, com destaque para o
funcionalismo, estruturalismo, “teoria dos sistemas”, etc.
Nesse contexto, poucos escapavam
do paradigma hegemônico e suas ideologias derivadas. Mesmo os críticos e
contestadores reproduziam uma concepção reprodutivista. Basta citar o exemplo
do estruturalismo de Althusser e seus colaboradores, um suposto “marxismo”
estruturalista, bem como os integrantes da Escola de Frankfurt (Adorno e as
ideias de “indústria cultural” e “sociedade administrada”, Marcuse e a “sociedade
unidimensional”, etc.).
No entanto, o reprodutivismo
trazia, em si, um elemento de mal estar. A ideia de que o “sistema”, a “estrutura”,
ou qualquer outro nome que era utilizado, dominam os indivíduos, que se
reproduz e que não pode ser transformado, apontava para uma insatisfação em
certos setores da sociedade, incluindo parte da juventude. Assim, a cultura
contestadora ganha espaço nos setores mais descontentes da sociedade,
especialmente parte da juventude[9]. A cultura contestadora,
na maior parte dos seus representantes, teria um caráter parcial e, portanto,
carregaria em si, elementos “narcotizantes” e elementos “contestadores”[10].
A Escola de Frankfurt trazia
elementos críticos, tal como a crítica da indústria cultural e razão
instrumental[11],
bem como o sociólogo Henri Lefebvre (1991)[12] trazia elementos de
crítica da vida cotidiana e o filósofo Jean-Paul Sartre era um dos mais
importantes opositores do paradigma hegemônico na perspectiva existencialista
que vai, cada vez mais, se aproximando do marxismo (autêntico). Outros
pensadores realizavam esse processo, mas cabe destaque, por sua radicalidade
maior, à Internacional Situacionista, que, através de Debord (1997) e outros
contestava a vida cotidiana na “sociedade do espetáculo”. Havia também André
Gorz e sua crítica do “modelo de consumo” e “valores capitalistas” (GORZ, 1968a),
“impasses do sindicalismo tradicional e crise da democracia representativa” e
sobre “autogestão”, em que pese seus limites nessa discussão (GORZ, 1968b). As
concepções revolucionárias (oriundas do comunismo de conselhos e outras
tendências chamadas “esquerdistas”, ou seja, antileninista e antirreformista)
também estavam presentes:
A teoria
esquerdista tinha encontrado um solo muito fértil no meio estudantil. existiam,
desde meados dos anos 60, pequenos grupos que se reclamavam deste ou daquele
aspecto do esquerdismo. Mas, sobretudo, a maioria das revistas “radicais”
circulavam nas universidades: Socialisme
ou Barbarie, Noir et Rouge, Pouvoir Noir, Internationale Situationniste, etc.
Esta última tinha mesmo discípulos mais ou menos confessos que faziam agitação “exemplar”,
sob nomes diferentes (“Enragés”, “Vandales”...), em várias cidades
universitárias (Paris, Nanterre, Estrasburgo, Bordéus, Nantes). Folhetos de
origem situacionista ou neoanarquista punham já em causa a estrutura burguesa
da universidade, a transmissão de uma cultura situada e datada, o burocratismo
e o autoritarismo do sistema. Os situacionistas tinham visado elaborar essa “teoria
prática” que permita ao mesmo tempo fazer a análise das alienações do mundo
moderno e contestar este na sua cotidianidade. O “escândalo” de Estrasburgo
havia servido, sob este aspecto, de repetição geral e de modelo do gênero
(GOMBIN, 1972, p. 170).
Nesse contexto, a luta cultural
da burguesia através de sua política cultural geradora do paradigma e
ideologias de caráter reprodutivista, convivia com uma cultura contestadora,
com seus limites e diferenças internas (com tendências mais moderadas e
reprodutivistas e outras mais radicais), que poderia ser assimilada pela
juventude contestadora, o que se efetivou concretamente, especialmente no Maio
de 1968. No entanto, a rebelião estudantil não foi produto da cultura
contestadora e por isso teremos que analisar as determinações desse fenômeno
para depois retornarmos para a questão da luta cultural.
Luta Estudantil e Projeto Autogestionário
A rebelião estudantil de Maio de
1968 foi produto de múltiplas determinações[13]. Sob forma subterrânea,
e, portanto, pouco visível, a desaceleração do ritmo de acumulação de capital
teve um forte impacto no processo de desencadeamento dessa rebelião. A
princípio isto não é visível. No entanto, há um processo de desaceleração do
ritmo de acumulação de capital a nível mundial, sendo que isso ocorre
inicialmente nos Estados Unidos e chega até a França:
As taxas
de lucro dos principais países capitalistas começam a decrescer no decorrer dos
anos 60. Na Grã-Bretanha, ela baixa ao longo de todos os anos 60 e até em 1975;
na Alemanha, ela estagna com um ligeiro declínio a partir de 1960 e baixa a
partir de 1968-1969 até 1975; na França, ela declina a partir de 1968-1969 e
cai de 1973 a I975; nos Estados Unidos, ela baixa a partir de 1965-1966, até 1974
(BEAUD, 1987, p. 322)[14].
Esse processo mundial atinge os
países antes mesmo deles sentirem a queda da taxa de lucro internamente. O caso
alemão, inglês e norte-americano impactou os demais países e, no caso
específico da França, a queda da taxa de lucro a partir de 1968 ampliou as
dificuldades da acumulação e teve um efeito de ampliação do mal estar e
insatisfação existente. O mal estar na sociedade capitalista do final da década
de 1960, uma sociedade que ampliou a mercantilização, burocratização,
competição e apresentava ideologias reprodutivistas que pregavam a
impossibilidade de mudanças sociais, foi expresso na contracultura, movimento
hippie, etc. E isso se fazia sentir com muita força nas universidades
francesas:
A rebelião
estudantil questionou a sociedade através de sua universidade. O movimento
adquiriu força em seu começo apenas porque os estudantes estavam insatisfeitos
com seus estudos e organização universitária e denunciaram a universidade
burguesa, o plano Fouchet e as ameaças de seleção para entrar nas faculdades
(TOURAINE, 1970, p. 57).
Touraine certamente está correto
em colocar em evidência o caráter monolítico das universidades francesas, bem
como a percepção dos estudantes sobre ela:
Para
alguns, a universidade é um sistema rígido, controlado diretamente por uma
administração centralizadora, presa da ordem e dos princípios, rotineira,
incapaz de definir objetivos e de adaptar seus meios a eles. Para outros, sua
resistência a uma necessária transformação não faz senão expressar seu papel a
serviço da burguesia, sua aceitação dos valores, das categorias, dos modos de
expressão da sociedade burguesa; e só se transforma na medida em que a própria
classe dirigente se transforma e se moderniza, porém, sob a condição de manter
a ordem cultural e social imposta por essa classe dirigente (TOURAINE, 1970, p.
58).
No entanto, ele se equivoca ao
pensar que isso foi suficiente para desencadear a rebelião estudantil. O
descontentamento com as instituições universitárias vinha de longa data[15] e não produziram nenhuma
rebelião. Touraine, ao isolar a universidade e os estudantes, mesmo que
reconhecendo a questão da “sociedade tecnocrática”, não consegue explicar
adequadamente o fenômeno. Para fazer isso é necessário entender a dinâmica da
acumulação capitalista e a queda da taxa de lucro e como isso afetou as
universidades francesas.
O V Plano, também conhecido como
Plano Fouchet-Airgram, vinha justamente para dar uma resposta às novas
necessidades do capital. O aumento de estudantes universitários no final da
década de 1960[16]
e queda da taxa de lucro trazia a necessidade de uma reforma universitária que
diminuísse os custos do ensino superior para o aparato estatal e a colocasse
mais diretamente a serviço do capital. Ora, são essas duas necessidades do
capital que estavam sendo contempladas como Plano Fouchet, pois precarizava e
aumentava o tecnicismo no interior das instituições universitárias. Essa
reforma técnico-burocrática trazia um processo de intensificação da
especialização, tecnificação e precarização das universidades[17]. A entrada de estudantes
não-pertencentes às classes superiores (ou alguns pertencentes aos seus
estratos inferiores) juntamente com a precarização gerava novo motivo para
insatisfação.
Quando o
recrutamento social dos estudantes se modificou de forma radical, a
insuficiência da infraestrutura material fez-se sentir-se de forma cruel. Os
estudantes, na sua maioria bolseiros [bolsistas – NV], para não dizer quase
todos, tinham necessidades de alojamento, de alimentação, de lazeres, e as
estruturas tradicionais da universidade burguesa não se mostravam absolutamente
capazes de as satisfazer. A insuficiência da infraestrutura técnica fez-se
igualmente sentir porque não foi adaptada à expansão universitária. Aí reside a
raiz de uma outra forma de alienação [sic] estudantil: a verdadeira “luta pela
vida” relacionando-se com a insuficiência de lugares nos laboratórios, nos
anfiteatros, nas salas de operações, a falta de livros nas bibliotecas. Em
suma, é uma carência crônica de recursos, uma insuficiência de meios que estão
com frequência, se não sempre, na origem das primeiras explosões estudantis
(MANDEL, 1979, p. 78).
Por conseguinte, a
desestabilização do regime de acumulação conjugado (com a queda da taxa de
lucro) foi a determinação fundamental da rebelião estudantil e seu impacto nas
universidades francesas foi a sua determinação imediata. Contudo, a cultura
contestadora foi um elemento fundamental nesse processo, pois sem ela, os estudantes
não teriam armas intelectuais para realizar sua contestação. Os indivíduos agem
a partir de suas necessidades e interesses, num quadro mental marcado por
valores e objetivos, bem como usando os elementos culturais que possuem acesso
como referencial para explicar sua situação e a realidade social. Para as
classes, grupos, indivíduos agirem, eles precisam ter consciência, elementos de
intepretação e explicação da realidade, para se mobilizar. Uma parte dos
estudantes encontrou esses elementos na cultura contestadora existente. A sua
ala mais radical a tomou como fonte de inspiração juntamente com outras
concepções veiculadas na época, oriundas da revolução cultural chinesa[18], por exemplo, e também
realizou o resgate de concepções revolucionárias anteriores (Marx, comunismo de
conselhos, anarquismo, etc.). Assim se formou a base intelectual da rebelião
estudantil de maio de 1968.
Porém, a tendência
revolucionária do maio de 1968 foi além e não somente resgatou Marx, o
comunismo de conselhos, elementos do situacionismo, etc., como também extraiu
da experiência iugoslava e certas produções intelectuais, a palavra autogestão,
dando-lhe um sentido mais radical do que no seu sentido “titoísta”[19] e de certos círculos
dentro da França[20].
Por isso é preciso entender as duas tendências que existiram no movimento
estudantil de 1968 na França. A tendência reformista abordava a questão da universidade
e não possuía um projeto revolucionário, muito menos autogestionário.
Os
professores universitários “progressistas”, os comunistas e uma quantidade de
estudantes veem a principal raiz da “crise” estudantil no atraso da Universidade
em relação às necessidades sociais atuais, no ensino bastante inadequado que é
fornecido, na atitude semifeudal de alguns professores, e na insuficiência
geral da oportunidade de empregos. Para eles, a Universidade está desadaptada
ao mundo moderno. O remédio para eles é a adaptação. Uma reforma modernizante
que arrancasse as teias de aranha, aumentasse o quadro de professores,
construísse melhores auditórios, quem sabe um costume mais liberal no campus e,
por fim, um emprego assegurado (BRINTON, 2003, p. 17).
Para os
rebeldes (o que incluía alguns, mas de forma alguma “todos” os “velhos”
revolucionários), esta preocupação em adaptar a Universidade à sociedade
moderna é uma piada. Para eles, é a própria sociedade moderna que deve ser
rejeitada. Eles consideram a vida burguesa trivial e medíocre, repressiva e
reprimida. Não possuem nenhum anseio (somente desprezo) pelas carreiras
administrativas e diretivas que ela reserva a eles. Eles não buscam se integrar
na sociedade adulta. Pelo contrário, estão procurando uma oportunidade para
contestar radicalmente sua adulteração. A força motriz da sua revolta é a sua
própria alienação, a falta de significado da vida no capitalismo burocrático
moderno. Não é certamente uma simples deterioração econômica dos seus padrões
de vida (BRINTON, 2003, p. 18).
Assim, a tendência revolucionária
do movimento estudantil, ao lado bloco revolucionário externo à universidade,
colocam em evidência a necessidade da revolução, enquanto que a tendência
reformista, aliada ao bloco progressista externo, apontava apenas para uma
reforma. A efervescência cultural foi mais forte na tendência revolucionária. A
luta cultural na sociedade francesa em geral é marcada por três posições que
expressam os três blocos sociais da sociedade capitalista: o bloco dominante,
expressão das forças conservadoras, a começar pelo aparato estatal, velhos
ideólogos e partidos assumidamente conservadores, meios oligopolistas de
comunicação, etc.; o bloco progressista, dividido internamente entre os mais
próximos do bloco dominante e aqueles que se aproximavam, moderadamente, da
contestação juvenil e um setor mais radical que era mais combativo e pensava em
“revolução” em molde leninista; e o bloco revolucionário, que anteriormente era
representado por pequenos grupos (alguns ambíguos como a Internacional
Situacionista) e indivíduos, que vai se fortalecer no meio estudantil.
A história das lutas estudantis
em Paris é marcada pelo predomínio inicial da tendência reformista do movimento
estudantil e sua substituição pela hegemonia da tendência revolucionária. Esse
processo foi assim descrito por Maurice Brinton:
Não é
acidental que a “revolução” tenha começado nas faculdades de Sociologia e Psicologia de
Nanterre. Os estudantes viram que
a sociologia que lhes era ensinada era um meio de controle e manipulação
da sociedade, e não um meio de compreendê-la de modo a
transformá-la. No decorrer, eles descobriram a sociologia revolucionária.
Rejeitaram o nicho reservado para eles na grande pirâmide da burocracia, o de “especialistas”
a serviço do poder tecnocrático, especialistas do “fator humano” na equação
industrial moderna. Descobriram também a importância da classe trabalhadora. O
impressionante é que, pelo menos entre os estudantes ativos, estes “sectários”
subitamente pareceram ter se tornado a maioria: seguramente esta é a melhor
definição de qualquer revolução (BRINTON, 2003, p. 18-19).
É nesse contexto que a hegemonia
passa da tendência reformista para a tendência revolucionária. A luta cultural
se realiza em diversos aspectos e não será possível descrever todo esse
processo multifacetário aqui. Vamos apenas sintetizar alguns elementos desse
processo. A luta cultural (que nem sempre é um processo consciente por parte de
todos os seus agentes) se dá tanto no interior das universidades, quanto no
conjunto da sociedade civil.
No interior das universidades,
há uma intensa luta cultural. A crítica do ensino (e seu conteúdo) vai se
desenvolvendo e radicalizando. Michel Thiollent, estudante em Paris, nessa
época, apresenta uma breve exposição desse processo que, embora não se possa
concordar com todas as suas afirmações e interpretações[21], é útil para entender
esse processo. Ele conta que a contestação do ensino já existia antes, tal como
no caso do impedimento de Abraham Moles de ministrar aula e se consolida no
Maio de 1968, quando isso ocorre mais frequentemente em relação aos professores
conservadores, como o economista François Perroux e o sociólogo Michel Crozier.
Outras formas de atuação aconteceram nesse momento:
Em várias
universidades, a contestação consistia em intervenções orais nos cursos
magistrais (dados em grandes anfiteatros) para mostrar que os professores de
economia e ciências sociais esqueciam os pressupostos de suas teorias e de suas
implicações com a luta de classes. Isso valia também nos cursos de estatística,
contabilidade nacional, metodologia de pesquisa, especialmente métodos quantitativos.
Era questionada a utilidade social de um conhecimento abstrato, separado da
prática, e sua recuperação pela burguesia. Argumentos típicos da contestação
eram verbalizados desta forma: “O que o senhor está dizendo dissimula as
relações de classes, ou só é útil para a burguesia ou os interesses
imperialistas”. Outra frase muito usada: “O que o senhor está explicando aí em
termos psicológicos, tecnológicos ou culturais é, na verdade, um problema
político ou ideológico”. Geralmente, esse tipo de crítica era sumária,
filosoficamente pobre, embora, algumas vezes, procedente, mas não dava conta
dos detalhes e de eventuais alternativas. Parecia uma condenação em bloco. Para
mudar qualquer coisa, era preciso, antes de tudo, derrubar o capitalismo. Para
qualquer explicação, era preciso recorrer a uma idealização da teoria marxista.
Reflexo dos anos 60, essa visão era uma resposta “revolucionária” à imposição
da ideologia modernizadora dominante. Todas as vias estavam bloqueadas, somente
a revolução podia resolver. Havia, nesse sentido, uma rejeição da maioria do
conhecimento oferecido pela universidade, que de fato parecia bastante obsoleto
e não conseguia satisfazer as expectativas do grande contingente de estudantes
do pós-guerra, especialmente na área de ciências sociais, de escassas
perspectivas profissionais (THIOLLENT, 1998, p. 70).
Outras ações culturais, como
cursos paralelos, leituras variadas, experiências de “autogestão pedagógica”,
etc.[22] Porém, esse processo não
se limitava a apenas estudos e contestação da universidade, sua forma de ensino
e seus conteúdos. Houve uma luta em torno dos meios oligopolistas de
comunicação, nas quais suas contradições internas emergiram, bem como ambos os
lados (bloco dominante e bloco revolucionário) buscaram atuar em relação a
eles. O capital comunicacional e o aparato comunicacional estatal acabaram
exercendo uma ação contraditória. As emissoras de rádio, ao noticiarem as
manifestações de ruas, acabaram reforçando e beneficiando a luta estudantil e
incentivaram os trabalhadores a entrar em greve, mesmo contra as burocracias
sindicais (THIOLLENT, 1998). O governo exigiu maior controle sobre a informação
pela ORTF (Office de Radiodiffusion Télévision Française/Agência de
Radiodifusão e Televisão Francesa), o que gerou, por sua vez, o
descontentamento e resistência de setores internos (com a denúncia de “falta de
objetividade” e informação em relação ao movimento estudantil)
Nos dias
seguintes, o governo pressionou o ORTF para que a informação fosse filtrada. O
pessoal desta organização reagiu sobre a questão da objetividade e
mobilizou-se. No início dos acontecimentos, alguns produtores de televisão
denunciaram a falta de objetividade e a falta de informação nos noticiários, no
que diz respeito ao movimento estudantil. No dia 17 de maio, várias categorias
de pessoal entraram em greve, protestando contra a censura e a favor da
objetividade da informação. No dia 21, o conjunto do pessoal, inclusive os
jornalistas, estava em greve. Certas emissoras e as estações de retransmissão
foram ocupadas pelo Exército a partir do dia 19 de maio [...] (THIOLLENT, 1998,
p. 74).
No mês de
junho, organizaram-se grupos de jornalistas “fura-greve” e delatores. Com o
término do movimento, após as eleições legislativas que deram a vitória ao
general De Gaulle, o fim da greve do ORTF foi decidido dia 25 de junho. Nas
semanas seguintes, vários jornalistas e outros profissionais foram demitidos. A
orientação do ORTF ficou marcada por uma crise profunda que se alastrou durante
vários anos. Nos anos 70, a política do governo se manifestou no desmembramento
da organização em várias companhias independentes e na privatização de alguns
canais de televisão (THIOLLENT, 1998, p. 74).
O movimento estudantil também
efetuou uma ampla luta cultural. Diversas formas de luta cultural foram
desenvolvidas. A formação intelectual de alguns estudantes não era erudita e
nem todos conheciam o conjunto da cultura contestadora da época, sendo que o
mais provável é que a maioria certamente não tinha leitura dos principais
representantes dessa. Sem dúvida, principalmente os mais radicais, tinha uma
maior bagagem cultural e leitura de Marx e outros autores (e, nesse aspecto,
sem dúvida, havia a leitura seletiva de cada grupo: maoístas liam Mão Tse-Tung;
trotskistas liam Leon Trotsky; simpatizantes do situacionismo, Guy Debord,
etc.). O grau de radicalidade, no entanto, apontava para Marx e autores
considerados “esquerdistas”[23]. No conflito social que
vai ocorrendo a partir das reivindicações e ações estudantis, novas e velhas
formas de luta são utilizadas pelos estudantes (e, posteriormente, pelo
proletariado e outros setores da sociedade). Barricadas, panfletos,
manifestações, fazem parte do repertório político das lutas operárias e foram
parte do repertório estudantil. Mas também surgiram novas formas de lutas, como
histórias em quadrinhos, cartazes, etc.
A
propaganda através de inscrições e desenhos em muros e paredes é uma parte
integrante da Paris revolucionária de Maio de 1968. Ela se tornou uma atividade
de massa, parte e parcela do método de auto-expressão da Revolução. Os muros do
Quartier Latin são os depositários de uma nova racionalidade, não mais
confinada nos livros, mas sim democraticamente exposta no nível da rua e
tornada disponível a todos. O trivial e o profundo, o tradicional e o exótico,
o convívio íntimo nessa nova fraternidade, quebrando rapidamente as rígidas
barreiras e divisões na cabeça das pessoas (BRINTON, 2003, p. 15).
A passagem acima parece um tanto
quanto otimista em relação ao processo de luta cultural, que perpassa também o
movimento estudantil. Voltaremos a isso adiante. No entanto, segundo Thiollent,
algumas formas de luta cultural se destacaram: a) panfletagem; b) slogans e pichações de muros; c)
cartazes; d) jornais; e) histórias em quadrinhos, f) fotografia; g) comunicação
oral. A panfletagem é uma forma antiga de luta política e cultural. “Milhões de
panfletos foram distribuídos nas universidades, nas fábricas, nas ruas, no
metrô, etc.” Eles eram produzidos por mimeografia ou impressão offset, o que
era realizados pelas organizações estudantis e utilizado o material das
universidade ocupadas. O objetivo era “denunciar as manobras do governo e em
chamar o povo a apoiar o movimento e participar” (THIOLLENT, 1998, p. 74).
Outra forma de luta cultural era
o uso de slogans e as já citadas
pichações de muros. Os lugares principais de pichações foram as universidades,
as ruas e os locais de manifestações. Os cartazes também foram amplamente
utilizados. Segundo Thiollent, eles “cobriram a cidade” e eram de três tipos:
Cartazes
feitos à mão, escritos com canetas de tipo hidrocor, cartazes serigráficos e
cartazes impressos por meios convencionais. Os cartazes feitos à mão lembravam
os dazibao então utilizados na China durante a Revolução Cultural. As
informações ficavam expostas em lugares “estratégicos”, nas ruas ou praças,
para facilitar pequenos agrupamentos e discussões. No que diz respeito aos
cartazes serigráficos, nota-se que tiveram o maior impacto. A serigrafia era
uma técnica pouco conhecida e foi amplamente utilizada por grupos de
estudantes, inclusive com auxílio de alunos de Belas Artes e artistas
independentes nos seus ateliers. Houve uma divulgação da técnica. Listas
do material necessário circularam nas universidades e comitês de ação. [...].
Finalmente, os cartazes convencionais, de maior custo, eram sobretudo
utilizados pelas organizações políticas e sindicais tradicionais. Por sua vez,
governo e partidos conservadores utilizaram outdoors.
Os jornais também não foram novidades
da luta cultural do maio de 1968. Porém, os comitês de base e de ação lançaram
diversos jornais, tanto nas universidades quanto nos bairros, alguns com maior
duração, outros com menos.
No começo
dos acontecimentos foram lançados os tablóides Action e L’enragé,
que divulgaram os apelos dos grupos de estudantes da linha de
frente. Desapareceram rapidamente. A atividade contra-informativa e
contracultural se manifestou nos bairros pelo lançamento de folhas volantes;
uma delas, na região sul de Paris, chamava-se L’antimite. Vale
salientar a existência de outras publicações que circularam mais tempo. É o
caso, em particular, dos Cahiers de Mai, revista que representa uma
interessante experiência de jornalismo militante, que funcionou com alguns
semiprofissionais. Sua orientação não era ditada por nenhuma organização
política constituída e pretendia refletir a vida dos comitês de ação, especialmente
nas empresas e bairros. A periodicidade, no começo irregular, tomou-se mensal.
Contrariamente a outros jornais, os Cahiers de Mai se destacaram por sua
legibilidade. A redação dos artigos era feita a partir da gravação da fala dos
trabalhadores, o que permitia um estilo vivo e concreto. Havia também desenhos
e caricaturas.
Uma nova forma de luta cultural
foi o uso de histórias em quadrinhos e cartuns. Elas foram usadas sob várias
formas. Os situacionistas, por exemplo, usavam quadrinhos americanos e trocavam
seu conteúdo, dando-lhe caráter crítico e subversivo. O cartunista Maurício
Siné, um dos fundadores do jornal L’Enragé[24],
que teve 12 números, ao lado de Jean-Jacques Pauvert, e também colaborou com Action, os cartuns como forma de crítica
social. Abaixo imagem produzida por Mauricio Siné para uma das edições de
L’Enragé:
A fotografia também foi
utilizada, mas, como alertou Thiollent, havia problemas no seu uso, pois servia
tanto para os objetivos do movimento estudantil quanto para seus adversários[25]. Cabe destaque para o que
Thiollent denominou “comunicação oral”. Esse processo, que pôde ser visto mais
moderadamente no Brasil durante as manifestações de junho de 2013, foi
caracterizado pelo debate público sobre as manifestações, os objetivos, a
situação do país, etc.[26] O documentário Noites Longas, Manhãs Breves[27] mostra isso. Um outro
elemento da comunicação oral é os “rumores” ou “boatos”, que acabam gerando ações
e conflitos no processo (na época se espalharam rumores sobre intervenção do
exército, desaparecimento do general De Gaulle, etc.) (THIOLLENT, 1998). A
comunicação oral assume importância fundamental, pois permite reflexões e
politização cotidiana da população que na sua vida ordinária se distancia tanto
da política institucional quanto das discussões sobre luta de classes. Os
rumores são problemáticos e a classe dominante, bem como suas classes
auxiliares, lançam mão constantemente deles para gerar conflitos, justificativa
para repressão, etc.
Aqui temos algumas expressões da
luta cultural. Enquanto o bloco dominante utilizava os meios oligopolistas de
comunicação, outdoors e outros
elementos cujo custo financeiro são mais elevados, processos mercantilizados e
burocratizados, o que não impedia a eclosão de contradições, o bloco
progressista utilizava de suas publicações (revistas e jornais) e cartazes
convencionais. O bloco revolucionário (e uma parte do bloco progressista, sua
ala extremista, temporariamente do lado dos estudantes e operários), usava esse
conjunto de formas de luta cultural. Não havia homogeneidade no Maio de 1968,
mesmo entre aqueles que supostamente apoiavam a luta estudantil e operária (da
qual trataremos adiante). Essa heterogeneidade aumentou com o suposto apoio da
CGT (Confederação Geral do Trabalho) e outras burocracias sindicais e
partidárias da ala moderada do bloco progressista[28].
A heterogeneidade é a forma
assumida da luta cultural derivada da luta de classes. A hegemonia burguesa
enfraquecida, a crise de legitimidade do Estado e da democracia, convivia com
uma efervescência cultural que também não era homogênea, pois no interior da
população, havia indivíduos e representantes de todas as classes sociais, bem
como pessoas ainda influenciadas pela hegemonia burguesa ou pelas organizações
burocráticas, mesmo pertencendo às classes inferiores. A luta de classes está
presente na sociedade civil e se espalha até pelos adeptos do movimento de maio
de 1968 (tanto o estudantil quanto o operário). No entanto, uma nova hegemonia
brotou no movimento estudantil e atingiu o movimento operário. A profusão de
cartazes, pichações e periódicos não mostra homogeneidade e sim
heterogeneidade:
“Contre la
fermentation groupusculaire” [contra a fermentação grupuscular] queixa-se uma
grande inscrição escalarte. E está realmente fora de compasso. Em todos os
lugares há uma profusão de cartazes e periódicos colados: Voix Ouvrière,
Avant-Garde e Révoltes (dos trotskistas), Servir le Peuple e Humanité Nouvelle
(dos devotos do líder Mao), Le Libertaire (dos anarquistas), Tribune Socialiste
(do PSU — Parti Socialiste Unifié, Partido Socialista Unificado). Até mesmo
estranhas edições de l’Humanité estão
coladas. É difícil lê-las, de tão cobertas que estão por comentários críticos
(BRINTON, 2018, p. 16).
Os comentários críticos mostram
que a manifestação é heterogênea, mas a recepção é hegemonicamente crítica
tanto do bloco dominante quanto do bloco progressista, representado, no caso,
pelo L’Humanité, jornal do PCF
(Partido Comunista Francês). No entanto, a luta cultural continua nas
interpretações do Maio de 1968 e isso se revela no ocultamento de sua
radicalidade e de sua íntima ligação com o movimento operário. A compreensão da
luta cultural nesse acontecimento histórico não poderia deixar de trazer a
questão da luta operária e do processo de fusão parcial do movimento estudantil
e movimento operário.
Movimento Estudantil e Movimento Operário: A Fusão Parcial
Vários ideólogos apresentam o
Maio de 1968 como um acontecimento meramente estudantil (e muitos interpretando
o “estudantil” como sendo meras questões relativas à universidade ou sobre
sexualidade ou temas “juvenis”, entre outras fantasmagorias) ou mesmo “cultural”
(alguns falam em “revolução cultural”, que seria meramente no plano da cultura
ou dos costumes/comportamento). A maioria oculta a radicalidade da luta
estudantil e, mais ainda, a presença do movimento operário e sua luta que
ultrapassa maio e entra no mês de junho. Alguns ocultam o seu real significado
e para isso desconsideram a luta operária. Essa promoveu maior radicalidade ao
movimento que se iniciou com os estudantes, pois não só traz a luta de classes
(e reivindicações proletárias) como significa um avanço organizativo e de
consciência do proletariado francês. Não é nosso objetivo abordar aqui
determinadas questões, como a relação entre movimento operário e movimento
estudantil em sua totalidade, ou o significado ou formas da luta operária, e
sim focalizar a questão cultural nesse processo[29].
A rebelião estudantil de maio
foi recebida pelo aparato estatal com violência e truculência. Isso provocou
uma indignação da população e dia 13 de maio, quando a burocracia sindical se
viu pressionada a convocar uma greve geral, mais de 200 mil pessoas
compareceram em manifestação. Antes disso, já existiam fortes lutas estudantis
e operárias, mas nesse momento ocorre duas novidades que merecem destaque: a) o
grau de radicalidade e b) as lutas isoladas de estudantes e trabalhadores
passam a ocorrer simultaneamente e, em alguns casos, em conjunto. Ele se tornou
um momento rico para o movimento operário francês, chegando a 10 milhões de
grevistas, formação de conselhos de fábricas (algumas chamadas “comissões
operárias”), ocupações de fábrica, etc. Os sindicatos se viram forçados a
apoiar o movimento estudantil (que alguns, inicialmente, combateram ou
desconsideraram), mas encontraram tanto a crítica dos estudantes e grupos
políticos quanto de operários.
O que nos interessa na presente
discussão, no entanto, é a luta cultural. Antes do maio de 1968 havia uma
cultura contestadora difusa e de variadas fontes, marcada por ambiguidades e
contradições, e que foi resgatada pelo movimento estudantil. O movimento
operário, no entanto, se encontrava mais distanciado dessa cultura
contestadora, pois o seu acesso e aquisição cultural ocorria, principalmente,
através da esquerda e suas ideologias social-democratas e “comunistas”
moderadas, das tradicionais organizações partidárias e sindicais. Além disso,
havia o capital comunicacional e a escolarização relativa que traziam outros
processos informativos e culturais. A bagagem cultural da maioria do
proletariado, nesse contexto e sociedade, apesar de se tratar de um capitalismo
imperialista e consumista, era relativamente pequena, de acordo com os próprios
interesses da classe dominante e do aparato estatal.
O momento da rebelião estudantil
proporcionou novos elementos de cultura, pois a radicalização de um setor do
movimento estudantil, bem como os grupos políticos, gerou uma maior
visibilidade das lutas estudantis e de ideias revolucionárias. A luta cultural,
que anteriormente apresentamos, usavam novos meios de comunicação e estes eram
mais acessíveis. As pichações, os cartazes, as histórias em quadrinhos, etc.,
trazem maior acessibilidade cultural e permite ampliar a politização da
sociedade, bem como um maior encontro entre lutas estudantis e lutas
proletárias.
Houve uma intensificação da
politização da sociedade francesa como um todo, um grau maior de reflexão sobre
a vida cotidiana e o conjunto das relações sociais, bem como setores que
avançaram mais nesse processo. No entanto, o movimento operário, tirando alguns
lugares e alguns setores, não teve a mesma radicalidade. O proletariado possuía
uma bagagem cultural limitada e ainda estava, por um lado, dominado pelo
espírito do reprodutivismo em sua versão positiva: o “bem-estar social”, o
consumo, etc. e, por outro, pela ideologia reformista. Em outras palavras,
estava sob influência cultural do bloco dominante e do bloco progressista, ou,
segundo terminologia de Bensaïd e Weber, pelo “neocapitalismo” e “reformismo”:
De fato, o
poder da ideologia dominante na França veio da contribuição de duas ideologias
aparentemente antagônicas. Reconhecendo a mesma legalidade, considerando a
mesma evidência, a ideologia neocapitalista e a ideologia reformista, longe de
serem excludentes, são complementares, solidárias e até cúmplices no caso
limite. Ambas se reconciliam na mesma comprovação (o estado de fato), recorrem
ao mesmo critério supremo (o senso comum, coisa que já era bem disseminada por
um longo tempo, inclusive entre as classes sociais) (BENSAID e WEBER, p.
129-130).
A hegemonia reprodutivista, sob
estas duas formas ideológicas e sua disseminação pela sociedade sob forma
simplificada (ideologemas, correntes de opinião, etc.) e os valores e
sentimentos associados, expressando o bloco dominante e o bloco progressista, dominava
a maioria esmagadora do proletariado. No entanto, esse domínio nunca é absoluto
e setores do proletariado, bem como adjacências e parte da juventude,
intelectualidade e organizações revolucionárias, destoavam dessa hegemonia,
apesar de ambiguidades e limites nesse processo. A força da hegemonia, no
movimento operário, tinha nos partidos de esquerda e na burocracia sindical os
seus pilares. No entanto, havia, também, por parte de setores do proletariado,
uma profunda desilusão com a burocracia partidária e sindical, apesar de que
isso se manifestava mais como apatia.
A rebelião estudantil gerou, por
sua vez, um processo de desvinculação do proletariado e da esquerda. Em
momentos de estabilidade, o bloco progressista (a esquerda), geralmente é a
força política mais próxima do proletariado, por causa do seu discurso, suas
organizações, sua proximidade social (os extratos inferiores da burocracia e da
intelectualidade são mais próximos das classes inferiores, tanto por renda como
por local de moradia, cultura, etc.), reivindicações e propostas políticas,
aparentemente defendendo os interesses dessa classe. Em momentos de
desestabilização, os setores mais extremistas do bloco progressista tendem a
conquistar mais espaço e influência. No caso francês, no entanto, isso não
ocorreu, tanto por certo descontentamento já existente por parte de setores do
proletariado e das classes inferiores em geral, quanto por ascensão da
tendência revolucionária do movimento estudantil e dos grupos revolucionários
que removeram tal influência temporariamente.
Nesse contexto, a explosão
estudantil gerou uma oposição entre estudantes e esquerda. O PCF, assim como a
burocracia sindical, tentou ignorar a luta estudantil. O Jornal L’Humanité,
publica artigo de George Marchais, futuro secretário do PCF e representante
francês do chamado “eurocomunismo”, intitulado “Os falsos revolucionários têm de ser desmascarados”. Mas, ao se
confrontar com a indignação geral da população e a pressão da base, a
burocracia sindical teve que entrar em ação. No dia 11 de maio os principais
sindicatos, CGT, CFDT e FEN[30], convocaram uma greve
geral para 13 de maio. Umas 200.000 pessoas manifestaram-se gritando palavras
de ordem tais como: “De Gaulle assassino!”. As greves se espalham pela França,
atingindo diversas cidades e empresas e ganhando destaque em algumas de suas
ocupações por sua radicalidade (ASTARIAN, 2008). A formação de “comissões
operárias”, além dos comitês de greve, as ocupações, entre outros processos,
mostram a ascensão do movimento operário francês. A burocracia sindical foi
constrangida, pela pressão das bases e dos acontecimentos, a mudar sua orientação.
No entanto, a burocracia sindical e partidária foi a reboque da luta estudantil
e das organizações revolucionárias.
As forças
inspiradoras não são os partidos reformistas, mas os grupúsculos[31] revolucionários. Estes
não “contestam” o sistema em tal ou qual aspecto, mas o recusa tal e como ele
é. Por isso concedem grande importância ao alcance ideológico das lutas atuais.
O valor político de uma determinada luta provém de sua incidência ideológica
tanto quanto de seus resultados concretos (BENSAID e WEBER, 1969, p. 129-130).
Os autores acima usam o termo
“ideologia” de forma problemática. No fundo, a preocupação dos grupos
revolucionários é com a questão cultural, ou seja, a força das ideias, valores,
concepções, no processo de luta política e o problema da consciência
revolucionária. O movimento estudantil, juntamente com os grupos
revolucionários[32],
assumiu a posição de detonador e incentivador das lutas sociais emergentes,
para além da estudantil. Enquanto “detonador”, o movimento estudantil passo a
deter certa influência na sociedade civil e o processo de efervescência
fortaleceu sua recepção favorável e dos grupos revolucionários. Isso
enfraqueceu a força das burocracias partidárias e sindicais e incentivou a
radicalização do movimento operário.
Essa crise da hegemonia burguesa
(e burocrática)[33]
expressa na luta estudantil, ocupação de universidades, formação de comissões
operárias, ocupações de fábricas, etc. foi acompanhada pela luta cultural
realizada por grupos revolucionários e estudantes. Essa luta gerou, no seu
momento de maior radicalidade, uma hegemonia proletária nos meios estudantis,
mas, no entanto, apesar de seu forte impacto, não gerou a mesma no conjunto da
sociedade civil. O que faltou para uma hegemonia proletária e passagem para um
movimento revolucionário foi a insuficiência da luta cultural, por mais
avançada que tenha sido. André Gorz considerou, em junho de 1968, que o limite
da luta foi a falta de uma organização revolucionária. Se tal organização
tivesse existido e influenciado os comitês de greve e de ações locais, poderia,
segundo Gorz, ter instalado centros de poder (contrapoder seria mais exato)
operário e popular antes da reação estatal, quebrando sua força antes de ter
que enfrentá-lo na luta final. Assim, poderia ter coordenado a apropriação pela
base de setores inteiros da produção, distribuição e administração. Desta
forma, poderia ter realizado a passagem da ocupação das fábricas paralisadas
para a sua ativação (ocupação ativa) e realizar a reorganização interna das
empresas ocupadas sob a forma de autogestão operária (GORZ, 1968c).
O equívoco de Gorz consiste em
considerar a necessidade de um partido revolucionário, devido influência
leninista (no plano ideológico, pois ele se afastava das burocracias
partidárias existentes efetivamente na França e isso é percebido pelo fato dele
indicar a falta de uma organização revolucionária). Na verdade, existiam vários
grupos revolucionários e a tendência revolucionária do movimento estudantil
(alguns estudantes eram integrantes de tais grupos, outros não). Eles formavam
um bloco revolucionário e realizaram uma luta cultural de grandes proporções.
No entanto, lhes faltava, como foi aludido anteriormente, maior formação e
coerência teórica para poder ter avançado no sentido de ter elaborado uma
estratégia revolucionária. Assim, o que ocorreu não foi a falta de “uma”
organização revolucionária e sim a falta de uma ou mais organizações
revolucionárias que tivessem uma estratégia revolucionária e/ou presença mais
forte na sociedade francesa. Obviamente, se o bloco revolucionário (que reúne
todos os grupos revolucionários, ou seja, os setores organizados e mais
conscientes que expressam a hegemonia proletária ou semiproletária) tivesse uma
estratégia revolucionária, então não seria necessária uma organização mais
forte, já que o conjunto de tais grupos são uma força considerável. Porém, o
bloco revolucionário é dividido devido diversos motivos (formação teórica
insuficiente, pouca experiência política, influência de ideologias,
idiossincrasias, apegos doutrinários, etc. dos indivíduos e grupos integrantes).
Em outro momento, Gorz aponta um elemento mais importante:
Esse
maximalismo objetivo do movimento dava à greve um significado objetivo
imediatamente insurrecional, porém levava consigo o germe de seu fracasso. A
greve geral insurrecional, quando não é substituída por uma ofensiva política
tendente a dar o golpe de misericórdia a um adversário debilitado e a produzir
organismos de coordenação e de poder operário [sic], com um programa e com
soluções políticas preparadas a priori, é mais rebelião primitiva que ação
revolucionária. Quando falta uma preparação desse tipo, o radicalismo da recusa
global imediata é o reverso da indeterminação dos objetivos, da ausência de
estratégia. Na medida que permanece como “instintivo”, ou seja, espontâneo e
não reflexivo, o movimento passa facilmente da reivindicação revolucionária
maximalista à reivindicação salarial de tipo puramente sindicalista; confia a
objetivos exclusivamente salariais a tarefa de expressar uma aspiração
revolucionária, e inversamente. Tal confusão não deve surpreender-nos: seja
maximalista ou puramente sindicalista, ou também as duas coisas
simultaneamente, o movimento permanece no plano das reivindicações imediatas
por falta de mediações que lhe permitam organizar sua ação no tempo e no espaço
por um objetivo consciente, em suma, gerar uma estratégia (GORZ, 1968d, p.
21-22).
Retirando alguns exageros de
Gorz, bem como pensar que as reivindicações moderadas se limitam apenas à
questão salarial, a sua análise é correta. Um movimento de radicalização não
pode subsistir indefinidamente sem um objetivo final e sem estratégia para
atingi-lo. Ao se prolongar, o movimento perde força e radicalidade. A
radicalidade deve ser impulsionada e num sentido revolucionário, trazendo a
necessidade de generalização tanto da formação intelectual no sentido da
consciência revolucionária e quanto da formação de organizações autárquicas,
bem como da necessidade do estabelecimento de um objetivo final (revolução e
autogestão) e de uma estratégia que aponte para sua concretização (articulação
das organizações autárquicas e generalização da autogestão, o que pressupõe
consciência revolucionária generalizada). Isso, no contexto do maio de 1968 na
França, apontaria para a necessidade do bloco revolucionário propagandear a
necessidade de abolição imediata do Estado e do capital e sua substituição pela
autogestão generalizada e, ao mesmo tempo, fortalecer e contribuir com a
efetivação disso em toda a sociedade, especialmente nas fábricas e empresas. No
entanto, o bloco revolucionário não conseguiu efetivar isso, em que pese alguns
grupos tenham avançado nesse processo, mas outros ainda ficaram presos em
ambiguidades, contradições, doutrinarismos, etc.
Esse processo expressou uma
fusão parcial entre bloco revolucionário e movimento operário. Essa fusão
parcial, e bem precária, foi promovida por um conjunto de determinações, tanto
os limites de vários setores do bloco revolucionário, como a força da hegemonia
burguesa e burocrática em vastos setores do proletariado francês (mesmo tendo
enfraquecido), entre outros processos. A derrota do movimento revolucionário
contou com várias determinações, mas a tendência para a concretização da
revolução proletária teve como um de seus principais obstáculos os limites
culturais do bloco revolucionário.
Após essa breve análise do
processo cultural envolvendo o movimento estudantil e o movimento operário,
resta analisar o que ocorreu depois do maio de 1968. A luta cultural não deixou
de existir, mas assumiu novas formas. Vamos tratar brevemente disso a partir de
agora.
A Herança Revolucionária: O Marxismo Autogestionário
O maio de 1968 deixou marcas na
sociedade francesa e em todo o mundo. Depois do susto que a burguesia teve no
final da década de 1910 e início da década de 1920, com as várias revoluções
proletárias inacabadas, ela havia se preparado e produzido uma situação de
estabilidade do capitalismo, especialmente após 1945, e pensava que a era das
revoluções já havia acabado. Essa tranquilidade vai se desfazer no final dos
anos 1960. Desde a segunda metade dessa década vai se fortalecendo uma cultura
contestadora e se constituindo formas de luta que se ampliam e radicalizam no
final desta década. As lutas operárias e estudantis assumem maior radicalidade
na Itália, Alemanha e França, mas são fortes e avançam em diversos países
simultaneamente. A burguesia, nesse contexto, teve um novo susto e fez de tudo
para esconjurar o fantasma da revolução proletária. Isso gerou uma herança
contrarrevolucionária derivada do Maio de 1968. Mas, inevitavelmente, o maio de
1968, mesmo após sua derrota, também permitiu uma reflexão mais ampla e
desenvolvida, que garantiu uma retomada do marxismo autêntico e crítica do
pseudomarxismo, gerando uma herança revolucionária.
Essa herança revolucionária
assumiu várias formas, algumas com ambiguidades e limites, outras mais
desenvolvidas e coerentes. A herança revolucionária mais importante,
consolidada teoricamente e politicamente, foi o que podemos denominar marxismo
autogestionário. Esse é a forma contemporânea, ou seja, existente no regime de
acumulação integral, do marxismo autêntico. A recusa do capitalismo estatal e
de sua expressão ideológica, o leninismo, é um dos elementos que caracterizam o
marxismo autogestionário. Essa recusa é realizada a partir de uma renovação
linguística que realiza a substituição do termo “comunismo” (deformado pelo
leninismo e pelos ideólogos conservadores, bem como confundido com os países e
partidos ditos “comunistas”) pelo conceito de autogestão.
É nesse contexto que emergem
obras fundamentais que retomam o marxismo autêntico e demonstram seu caráter
autogestionário. O marxismo autogestionário emerge na França e coube a Yvon
Bourdet ser o seu principal representante. Em 1970 ele publica La délivrance de Prométhée: pour une théorie
politique de l'autogestion; em 1974, Pour l'autogestion; em 1975, juntamente com Allain
Guillerm, L'Autogestion; em 1978, L'Espace de l'autogestion: le capital, la capitale[34].
Alguns outros passaram a tratar de autogestão, alguns sob forma ambígua, outros
de forma mais coerente com o marxismo. Esse foi o caso de Ratgeb (pseudônimo de
Raoul Vaneigen), Da Greve Selvagem à
Autogestão Generalizada (1974), e Claude Berger (1977) com sua obra de
comparação da concepção de socialismo em Marx e Lênin, mostrando seu
antagonismo, mesmo com o questionamento do termo “autogestão” por parte deste
(que advogava o uso da expressão “associação”, utilizado por Marx). Sob forma
mais ambígua e se dedicando mais à questão pedagógica, a ala mais marxista da
chamada “Análise Institucional”, especialmente com Lourau (1975) e Lapassade (1989),
trazem discussões interessantes sobre marxismo, autogestão pedagógica e crítica
da burocracia.
Essa nova expressão teórica do
movimento operário traz a contribuição fundamental de analisar as experiências
revolucionárias do proletariado e recusar o vanguardismo leninista e o
capitalismo estatal, bem como resgatar o marxismo autêntico, incluindo o
próprio Marx, livre das interpretações leninistas. A obra de síntese Autogestão: Uma Mudança Radical aponta
para uma análise crítica do leninismo e do capitalismo estatal, o verdadeiro
caráter da obra de Marx e de outros marxistas (Rosa Luxemburgo, Pannekoek,
etc.), superar as confusões em torno do termo “autogestão”, um histórico das
experiências autogestionárias, a questão da formação, a autogestão das lutas,
etc. Guillerm e Bourdet colocam o significado do termo autogestão para a luta
proletária:
Hoje,
muitos movimentos políticos e sindicatos de esquerda tentam abrir espaço em
seus programas a um conceito que percorre a história do movimento operário: a autogestão.
O menos que se pode dizer, porém, é que eles nem sempre sabem com exatidão de
onde vem, o que significa, nem o que realmente implica. A autogestão não é “uma
ideia vaga”, um “ideal”. Tem fontes profundas na história da humanidade, na ação
e no pensamento revolucionários do proletariado, embora a palavra autogestão
seja muito recente, pelo menos em francês. Do slogan “povo, salva-te a ti mesmo”, ao de “autogoverno dos
produtores associados”, do Enragé
Varlet a Karl Marx, o movimento proletário tem reivindicado o que a palavra
exprime: a gestão operária não somente
das empresas, mas de toda a sociedade. A palavra de ordem da autogestão
sintetiza, com efeito, os conceitos essenciais da luta do proletariado moderno
(GUILLERM e BOURDET, 1976, p. 210).
Em síntese, o marxismo
autogestionário, especialmente o expresso por Yvon Bourdet, vai apresentar uma
contribuição importante para se reler Marx sem as lentes leninistas e superar o
leninismo e a ideologia do capitalismo estatal como sendo “socialismo”. Essa
contribuição, por sua vez, vai ter impacto em outros países, tal como no
Brasil, através de Maurício Tragtenberg, por exemplo. O marxismo
autogestionário francês ofereceu uma contribuição importante para a luta
cultural e para preparar as novas lutas sociais, que, no entanto, teve um
impacto limitado por causa da luta cultural da burguesia e da burocracia.
A Herança Contrarrevolucionária: Subjetivismo e Pós-estruturalismo
A herança positiva do maio de
1968 foi o marxismo autogestionário, que expressou os anseios de transformação
social daquela época numa perspectiva marxista, proletária. A burguesia,
assustada com a ascensão das lutas operárias e estudantis, também reage e
efetiva sua luta cultural. Isso ocorre principalmente através de uma nova
política cultural que correspondia à nova estratégia do capital: realizar uma
contrarrevolução cultural preventiva.
Essa contrarrevolução cultural
preventiva, posteriormente, se desenvolveu e se articulou com a renovação
estatal e a emergência do neoliberalismo e a renovação produtiva com a
instauração da predominância do toyotismo como forma de organização do trabalho
e, ainda, com o hiperimperialismo que os acompanha. A nova política cultural
começa a ser gestada a partir dos anos 1970, mas só ganha contornos mais claros
a partir dos anos 1980, transformando o paradigma subjetivista em hegemônico[35], bem como a ideologia
pós-estruturalista e, no plano político, o chamado “neoliberalismo”, que depois
vai assumindo o nome de “liberalismo” sem o epiteto de “novo”.
Essa contrarrevolução cultural
preventiva buscava esconjurar o medo da burguesia do maio de 1968. E isso foi
feito sob várias formas. A mais comum foi a assimilação. Assim, se na rebelião
estudantil ocorreu um processo de crítica do cotidiano, da razão instrumental,
da burocracia, etc., coube a alguns ideólogos retomar essas questões, mas
realizar sua despolitização através de sua destotalização (VIANA, 2009). A
crítica da razão instrumental se tornou crítica da razão em geral, gerando o
relativismo, ceticismo, construcionismo, pragmatismo, irracionalismo e outras
mazelas intelectuais. O mesmo ocorreu com os outros temas.
Assim, algumas reivindicações
realizadas pelos estudantes parisienses são retomadas e deformadas. A crítica
do reprodutivismo, mesmo sem maior consciência do seu significado e sem usar
esse termo, da burocracia (e do vanguardismo) e da razão instrumental, faz
gerar um elogio do seu irmão gêmeo e contrário, o subjetivismo. O paradigma
subjetivista substitui o paradigma reprodutivista e cria ideologias nas quais o
“sujeito” (indivíduo, grupo, corpo, identidade, etc.) ganha primazia sobre as
relações sociais concretas. Assim, o neoindividualismo (neoliberalismo e outras
ideologias), o grupismo, o fetichismo do corpo, o identitarismo, etc., tornam
as formas ideológicas hegemônicas na sociedade capitalista contemporânea. Um
conjunto enorme de ideólogos (Foucault, Guattari, Deleuze, Derrida, para citar
somente os franceses) aparecem para gerar ideologias diversas, tais como o
pós-estruturalismo, multiculturalismo, ideologia do gênero, neoliberalismo,
etc. No caso francês, o pós-estruturalismo foi uma das principais ideologias e
se tornou hegemônica a partir dos anos 1980, época em que se espalhou pelo
mundo. Há uma convergência cultural em torno do paradigma subjetivista que
atinge as ideologias e doutrinas políticas, concepções filosóficas e
científicas, e produção artística.
Nesse contexto, a herança do
maio de 1968 é negada e alguns aspectos retomados para serem deformados. O
conteúdo revolucionário da luta operária e estudantil é transformado em meras
lutas especifistas, individualistas, microrreformistas, entre outras. O medo da
burguesia gerou uma política cultural visando constituir uma nova hegemonia e
através dela esconjurar o marxismo, decapitar a formação teórica dos militantes
revolucionários e dificultar a hegemonia proletária na sociedade civil. A
recusa da totalidade, do proletariado como classe revolucionária, etc.,
constituem um quase consenso entre as ideologias vigentes e é uma das formas
pelas quais busca se afastar a juventude e o movimento estudantil (os
principais detonadores do maio de 1968) da classe operária.
A classe capitalista conseguiu
efetivar isso, usando vários meios (o Estado e seus aparatos educacionais,
comunicacionais, etc., o capital comunicacional, educacional, etc., bem como
instituições e fundações internacionais e nacionais, etc.). Assim, vários
elementos, como financiamentos, maior possibilidade de sucesso, entre diversos,
geram um exército de ideólogos produtores e reprodutores do paradigma
subjetivista. A política cultural burguesa estabelece uma hegemonia poderosa
nas instituições de ensino, especialmente universidades, meios oligopolistas de
comunicação, etc. garantindo a reprodução do paradigma hegemônico e seus
produtos ideológicos.
A herança negativa do maio de
1968 (que é um dos sustentáculos da hegemonia burguesa atual) e a herança positiva
(expressa no marxismo autogestionário, que foi marginalizado, como não poderia
deixar de ser) coexistem na contemporaneidade e vivem em constante conflito. E
sempre que há uma radicalização da luta de classes a herança positiva tende a
se fortalecer e a herança negativa tende a se enfraquecer. Mas essa tendência
depende das lutas culturais anteriores ao processo de crises e radicalizações e
por isso que a luta cultural hoje é fundamental para se pensar a emancipação
humana amanhã.
Considerações finais
O trajeto do presente texto
consistiu em mostrar a luta cultural antes, durante e depois da rebelião
estudantil de maio de 1968 na França. O objetivo era mostrar a importância da
luta cultural para o processo revolucionário e para a vitória proletária e, por
conseguinte, para a libertação humana. A luta cultural é a primeira frente de
batalha a ser vencida para que haja um confronto entre as duas classes
fundamentais, pois enquanto a hegemonia burguesa for absoluta e envolver o
proletariado e seus aliados (classes inferiores, setores da juventude e
intelectualidade, militantes e grupos revolucionários), a reprodução da
sociedade capitalista estará garantida e luta será nos seus limites.
A luta cultural ocorre
cotidianamente e atinge o conjunto das relações sociais. A hegemonia burguesa
garante os mais variados discursos, ideologias, doutrinas, imaginários, sobre
todos os fenômenos sociais, toda produção cultural, todos os costumes e
comportamentos. Desde as ciências particulares (medicina, psicologia,
sexologia, economia, etc.) até as especulações filosóficas, desde o discurso
racional e científico até o discurso religioso, místico e autoajuda, desde o
subjetivismo hegemônico até o objetivismo marginalizado e subordinado ao seu
adversário subjetivista, a produção intelectual é reprodutora da sociedade
capitalista. Os indivíduos estão submetidos à hegemonia burguesa e suas mentes
reproduzem as ideias dominantes. Isso gera a dificuldade de conseguir
ultrapassar mentalmente determinados limites. E a polarização, disputa e
competição entre ideologias e doutrinas distintas, oferecem apenas uma ilusão
de liberdade de pensamento e de individualidade. Essas querelas ideológicas e
doutrinárias (conservadorismo versus progressismo, ideologia X versus Ideologia
Y) são apenas formas distintas de manifestação de um mesmo paradigma, ou, no
caso das exceções, de uma mesma episteme, a burguesa.
Por isso, a burguesia quis
esconjurar a rebelião estudantil de maio de 1968 e mostramos como ela fez isso.
Mas isso foi feito também com a própria reinterpretação do Maio de 1968. Por um
lado, o bloco progressista, sempre caudatário da hegemonia burguesa e servindo
aos seus interesses burocráticos, buscou atacar o movimento estudantil ou então
assimilá-lo. Diversos intelectuais do PCF atacaram a ideia de autogestão, o
movimento estudantil, etc. A acusação tipicamente leninista de “esquerdismo”
reaparece (NIETO, 1971), bem como outras formas. O Partido Socialista Francês,
por sua vez, buscou recuperar a ideia de autogestão e adaptá-la ao seu
reformismo, modernizando o seu discurso (ROSANVALLON, 1979). As
reinterpretações acadêmicas e políticas visavam “banalizar, simplificar,
domesticar, exorcizar” o maio de 1968 (ROSS, 2008). E não deixa de ser curioso
que historiadores pseudomarxistas colaborem com esse processo, tal como se vê
na redução que um deles faz do maio de 1968 a uma questão de “sexualidade” (HOBSBAWN,
1999).
Por fim, isso mostra a
necessidade de ampla luta cultural por parte do bloco revolucionário e do
proletariado, bem como de seus aliados, no sentido de corroer a hegemonia
burguesa e conquistar a hegemonia proletária em certos setores da sociedade.
Essa é uma tarefa difícil, longa, penosa, mas necessária. Ela vai desde a
necessidade de produção teórica sólida até a propaganda generalizada. Envolve
também a produção artística, a criação e reprodução de meios de comunicação
alternativos e uso dos meios existentes, etc. Para que isso tenha efeito, é necessária
uma ampla luta cultural no interior do próprio bloco revolucionário, pois
somente assim as influências da hegemonia burguesa, as ambiguidades e limites,
poderão ser superados e poderá haver maior articulação entre os indivíduos e
grupos revolucionários, gerando mais força e maior possibilidade de conquista
de hegemonia proletária em certos setores da sociedade. Por isso é necessário a
crítica das tendências semiproletárias no interior do bloco revolucionário, das
ambiguidades, da influência da hegemonia burguesa no seu interior, entre outras
ações.
Da mesma forma, os embates
envolvem também as interpretações e reinterpretações dos acontecimentos
históricos, especialmente as revoluções proletárias inacabadas e outros
momentos de radicalização do movimento operário. Esse é o caso do Maio de 1968
e o presente texto objetivou resgatar a radicalidade da luta operária e
estudantil nesse acontecimento histórico em sua relação com a luta cultural.
Nesse sentido, o presente texto faz parte dessa luta cultural, assim como todos
os textos que foram escritos sobre o maio de 1968, cada um de um lado da
barricada, mesmo para aqueles que pensam que estão apenas produzindo análises
“objetivas” e “neutras”. Só nos resta resgatar o maio de 1968 e sua importância
histórica para explicar o presente e torná-la, ao lado de outras experiências
históricas, uma fonte de inspiração e de lições para a luta pela libertação
humana.
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[1] É preciso ressaltar que o
Maio de 1968 e as lutas estudantis não se limitaram ao caso parisiense, pois
diversas outras cidades foram atingidas por lutas estudantis e lutas operárias
radicalizadas. Apesar da origem ter sido Paris e um dos lugares de maior
radicalidade e desenvolvimento, o maio de 1968 atingiu toda a França.
[2] Inclusive contribui para
compreendermos a reconfiguração do modo de produção capitalista e do paradigma
hegemônico que se estabelece após isto, bem como a herança positiva das lutas
estudantis e operárias dessa época ao lado da herança negativa expressa na
renovação hegemônica que ocorre nesse período.
[3] Veja uma análise mais
pormenorizadamente disso em: texto sobre revolução.
[4] Pannekoek alertou para
esse processo ao destacar a necessidade, para o proletariado, de organização e
consciência (1977).
[5] Esse é um dos grandes
problemas das revoluções proletárias inacabadas, tal como se viu no caso da
revolução portuguesa, etc. (VIANA, 2018).
[6] Entenda-se por projeto
autogestionário uma concepção clara do real significado da autogestão, que não
é mera “democracia direta” ou “gestão de fábricas”, “controle operário”, etc.
(GUILLERM e BOURDET, 1976; VIANA, 2014) e sim um projeto de nova sociedade que
só pode se concretizar com a generalização da autogestão. Esse significado,
como veremos adiante, é produto da luta cultural e foi esboçado antes do maio
de 1968, ganhando forma mais acabada nesse momento e nas produções teóricas
posteriores e recebendo diversas deformações posteriormente e faz parte da luta
em torno do signo (VIANA, 2013).
[7] Essa estabilidade teve
como uma de suas bases a exploração internacional a partir desse período,
através da exportação de capital transnacional para países de capitalismo
subordinado. Existe uma bibliografia a respeito do regime de acumulação
conjugado e mutações do capitalismo (VIANA, 2009; VIANA, 2015), embora seja uma
abordagem sintética no caso específico deste regime de acumulação.
[8] Sobre política cultural,
veja Viana (2018).
[9] A juventude tende à
rebeldia por sua própria condição juvenil (VIANA, 2015b; VIANA,) e é isso que
explica a maior ressonância da cultura contestadora nos meios juvenis.
[10] Sartriani (1986) ao opor
cultura hegemônica e cultura contestadora aponta para a existência destes dois
elementos no interior desta última, tal como ele percebe no folclore.
[11] Alguns afirmam que houve
pouca influência da Escola de Frankfurt no processo de rebelião estudantil de
Maio de 1968 (MATTOS, 1981; THIOLLENT, 1998). Thiollent, por exemplo, afirma
que: “As ideias dos pensadores relacionados com a Escola de Frankfurt não eram
conhecidas na França antes de 1968. Só se tornaram conhecidos, nesse ano, por
intermédio da imprensa e da tradução do Homem
unidimensional de Marcuse (1968). As principais obras de Horkheimer, Adorno
e Habermas foram traduzidas e publicadas a partir de 1970” (THIOLLENT, 1998, p.
72). A afirmação é exagerada. Sem dúvida, as poucas traduções de Adorno (ABENSOUR,
2005) na década de 1960 eram sobre música, mas não se pode resumir as
contribuições da Escola de Frankfurt a Adorno, bem como não se pode medir seu
impacto apenas por obras traduzidas. Adorno ministrou palestra em 1961 em
Paris, para um pequeno público, 10 pessoas segundo Kostas Axelos (ABENSOUR,
2005). No entanto, o próprio Axelos, em 1959, escreve artigo sobre Adorno e o
caracteriza com um marxista não-ortodoxo e aborda sua crítica da totalidade
(ABENSOUR, 2005). Marcuse, certamente, tinha uma influência maior, apesar de
alguns recusarem isso pelas poucas centenas de exemplares vendidos de sua obra
sobre o homem unidimensional. No entanto, é esquecido que ele teve, antes
disso, várias obras traduzidas para o francês, como Le marxisme soviétique [O Marxismo Soviético], publicado em 1958 e
reditado em 1963, e Éros et civilisation
[Eros e Civilização], publicado nos anos 1950 (há citações na internet de
edição de 1955 e 1958) e reeditado em 1963 (há citações encontradas na internet
de uma edição de 1966) e outra em 1968; La
fin de l'utopie [O Fim da Utopia], em 1968. Essa avaliação é também baseada
em informações equivocadas e Cohn-Bendit (1988) afirma que Eros e Civilização vendeu apenas 40 exemplares até o maio de 1968,
o que parece equivocado, pois uma pesquisa na internet mostra várias edições,
incluindo uma de 1968, que talvez seja a que ele se refere, o que quer dizer
que desconheci as demais edições). Da mesma forma, Erich Fromm teve obras
traduzidas antes de 1968, inclusive O
Medo à Liberdade (La Peur de la
liberté, Paris: Buchet-Chastel, 1963). Além disso, as teses dos
frankfurtianos podiam ser conhecidas por aqueles que leem outros idiomas e eram
reproduzidas por autores franceses e outros traduzidos. Marcuse, por exemplo,
era citado por Gorz (1968a), em sua obra publicada em 1964 na França, e,
novamente, em obra publicada em 1967 (GORZ, 1968b), bem como influenciou e
tinha oferecido um curso em 1962 na França (GOMBIN, 1972). Assim, não é
possível negar a influência da Escola de Frankfurt, mesmo reconhecendo que foi
relativamente pequena e outros influenciaram muito mais.
[12] Essa obra, A Vida Cotidiana no Mundo Moderno (1991),
foi publicada em 1968, mas ele já havia publicado a Crítica da Vida Cotidiana (volume 01 em 1947 e volume 02 em 1961),
apesar do conteúdo não ser o mesmo. Ele exerceu certa influência na chamada
Internacional Situacionista, que retoma e amplia a radicalidade da crítica da
cotidianidade, antes de 1968.
[13] Essa afirmação não quer
dizer que não foram lutas espontâneas como querem afirmar os leninistas ou
desavisados que não entendem o conceito de espontaneidade. Da mesma forma, não
quer dizer que foi algo que “caiu do céu”, surgindo do nada. Uma ação espontânea
significa que não foi dirigida por organizações burocráticas, o que não
significa dizer que não teve determinações (e que entre essas determinações
existiam aspectos culturais, grupos políticos, etc.).
[14] Cf. também Harvey (1992).
[15] Havia, na França, uma
“revolta [descontentamento] estudantil” anterior ao Maio de 1968, tal como
apontava, um ano antes, André Gorz, que citava as políticas educacionais e a
revolta derivada das “universidades superlotadas”, “ensino quase-industrial”, “professores
sobrecarregados”, “administração autoritária”, etc. (GORZ, 1968b). Thiollent
(1998) cita o fato de Abraham Moles ter sido impedido de dar aulas para mostrar
o clima existente anteriormente.
[16] “A explosão universitária
a que assistimos ainda hoje foi, pois, consequência de uma procura fortemente
acrescida de mão-de-obra intelectual” (MANDEL, 1979, p. 42).
[17] Ou, segundo linguagem
equivocada de Mandel, “superespecialização, instrumentalização e proletarização
do trabalho intelectual” (MANDEL, 1979, p. 44). A suposta pluriespecialização
foi questionada por alguns autores (TOURAINE, 1970).
[18] Os grupos maoístas que
surgiram nessa época tiveram o impacto da chamada “Revolução Cultural Chinesa”,
que foi muito mais uma reforma moral a serviço de parte da burguesia
burocrática chinesa em sua luta interburocrática com outra parte. No entanto, a
reforma moral acabou tendo momentos de radicalização e na Europa foi recebida
como algo bem mais radical do que efetivamente foi.
[19] O Marechal Tito, líder do
Partido Comunista da Iugoslávia, foi um dos responsáveis pelo uso do termo e
num sentido muito limitado, que não ultrapassava o nível do controle operário
(QUEIROZ, 1982; TRAGTENBERG, 1989).
[20] Era um termo pouco usado
na França e importado da Iugoslávia e que ganhou sentidos variados, mas tendo
como fonte de inspiração o caso iugoslavo, algumas tendências sociológicas,
grupos políticos e sindicais.
[21] A sua posição revela
certos limites e por isso sua interpretação também tem vários pontos
questionáveis e erros facilmente perceptíveis. Nesse último caso, está a sua
afirmação, repetida várias vezes, de que o situacionismo seria uma forma de
anarquismo, o que mostra sua predisposição mental que gera limites em sua
análise.
[22] “Paralelamente aos cursos
obrigatórios, muitos alunos organizavam grupos de estudo sobre O capital de Karl Marx. Também eram
lidas obras clássicas de Lênin, Mao e Gramsci (este último, sobretudo a partir
de 1969). Além dessas leituras, havia um acompanhamento da situação da guerra
no Vietnã e das lutas na América Latina e África. Eram organizados muitos meetings e apresentações de filmes
militantes, especialmente no Palais de Ia Mutualité (nesse mesmo local, um
grande evento foi organizado, com a participação de J-P. Sartre, em memória de
Marighela, em 1969). O “currículo” dos estudantes contestatários não se
limitava às matérias oferecidas nos programas oficiais” (THIOLLENT, 1998, p. 71).
[23] Cohn-Bendit, um dos mais
famosos ativistas do Maio de 1968, era considerado por muitos como anarquista,
mas ele afirmou que se aproximou mais do anarquismo por questão moral e por seu
anticomunismo (leia-se antibolchevismo) (COHN-BENDIT, 1988).
[24] Enragé, em idioma
português, é “raivoso”. O nome do jornal não se referia apenas aos estudantes
assim chamados, mas também a um anagrama de “general”: L’Enragé.
[25] “De um lado, as cenas de
violência policial contra os manifestantes desarmados, ou mesmo contra simples
curiosos, divulgadas em jornais, tiveram um impacto contrário às “forças da
ordem”. Por outro lado, cenas de barricadas, carros incendiados e outras depredações
– mesmo que fossem praticadas pela polícia – exerciam um impacto desfavorável,
contrário aos manifestantes. Além disso, as fotografias publicadas em jornais
eram instrumento de identificação utilizado pela polícia para perseguição. Por
essa razão, a fotografia não foi uma técnica comunicativa valorizada pelo
movimento” (THIOLLENT, 1998, p. 76).
[26] “Em particular sob forma
de discussão improvisada nas praças públicas, nas esquinas, nos anfiteatros,
nas assembleias gerais, nos teatros, nos locais de trabalho, em minicomícios na
porta das fábricas, com a participação de estudantes e trabalhadores. Jovens e
pessoas idosas, isoladas na cidade, pela primeira vez, podiam discutir os
problemas da vida em qualquer lugar improvisado” (THIOLLENT, 1998, p. 76).
[27] Documentário de William
Klein, de 1978, disponível em: youtube.bet
[28] “A novidade agora era que
os aparatos sindicais, em primeiríssimo lugar a CGT (Confederação Geral do
Trabalho) dirigida pelo stalinismo, tentaram intervir. Até este momento
ignoraram a mobilização estudantil. Um artigo famoso do secretário-geral do PCF
[Partido Comunista Francês], que apareceu em 3 de maio, repudiou o movimento
estudantil iniciado em Nanterre, com a desculpa de que, com suas “provocações”,
o fechamento da Universidade foi dirigido por “falsos revolucionários que devem
ser desmascarados, pois, objetivamente, eles estão servindo os interesses do
poder gaulista e dos grandes monopólios capitalistas” [Georges Marchais]. Mas o
impulso irresistível da demonstração dos primeiros dias de maio e sua grande
repercussão popular obrigou o PCF a adotar uma nova orientação: passou
repentinamente a denunciar a repressão e a proclamar solidariedade com os
estudantes mobilizados. No entanto, manteve o objetivo de buscar uma lacuna
para galgar espaço com a crescente mobilização na tentativa de quebrá-la por dentro”
(RIEZNICK et al. 2010, p. 46).
[29] Já existem análises sobre
tais processos e com interpretações bem distintas. Temos, desde a abordagem
trotskista de Alan Woods (2016), que considera Maio de 1968 como uma
“revolução” na qual os trabalhadores foram os protagonistas, passando por
alguns que reconhecem sua importância, até chegar aqueles que tratam da luta
operária como algo moderado e sem maior radicalidade, entendendo que isso seria
coisa dos estudantes ou grupos esquerdistas (ASTARIAN, 2008). Astarian,
baseando-se em Porhel (2000) e outros, afirma ter inexistido autogestão nas
fábricas. Sem dúvida, os valores e tendenciosidade interpretativa (e bases
ideológicas) se manifestam em quase todos os casos e análises marxistas
autênticas (e profundas) são raras, o que dificulta a compreensão do processo,
ao lado da falta de maiores informações sobre as relações sociais concretas.
Assim, o movimento operário francês durante o maio/junho de 1968 ainda requer
uma análise de conjunto e mais profunda numa perspectiva marxista. Aqui vamos
nos remeter a aspectos dessa questão, mas nosso foco é a luta cultural e não
exatamente as formas organizativas, como, por exemplo, se houve autogestão em
Brest ou se foi um “mito”, tal como coloca Porhel (2000) e outros aspectos da
luta operária nesse contexto.
[30] A CGT era (e continua
sendo) aparelho do PCF. A CFDT (Confederação Francesa do Trabalho), era
originalmente expressão do sindicalismo cristão e depois, a partir de 1960,
passa a aglutinar dissidentes da CGT e extremistas de esquerda. A FEN
(Federação de Educação Nacional), reunia sindicatos de professores.
[31] Traduzimos por
“grupúsculos”, apesar da palavra ser pouco usual no idioma português, sendo que
a tradução literal seria “grupelhos”. No entanto, “grupelhos” tem um sentido
geralmente pejorativo e por isso “grupúsculos” parece mais adequado ao sentido
usado pelos autores. Grupúsculos, para estes autores, significa que são grupos
pequenos, sem o sentido pejorativo, inclusive devido ao significado e
importância que os autores atribuem a eles.
[32] Grupos revolucionários
devem ser entendidos, aqui, como organizações revolucionárias.
[33] “A greve geral de maio
foi realizada igualmente contra o poder e contra os aparatos político-sindicais
da classe operária” (GORZ, p. 20). Gorz não consegue superar a hegemonia do
pensamento progressista, especialmente o leninismo. É por isso que afirma que
as burocracias partidárias e sindicais são aparatos “da classe operária”,
enquanto que isso é ilusório, pois mesmo os sindicatos, supostamente
representantes oficiais dos trabalhadores, são aparatos burocráticos com
interesses próprios e antagônicos aos daqueles que dizem representar.
[34] Isso sem falar em
inúmeros artigos e outras obras, como Qu'est-ce qui fait courir les militants?: analyse sociologique des
motivations et des comportements, de 1976. O único livro traduzido
para idioma português foi Autogestão, que recebeu o complemento no título: “uma
mudança radical”, em 1976 (GUILLERM e BOURDET, 1976). Antes do maio de 1968
Bourdet e outros pensadores já discutiam a questão da autogestão, publicando,
inclusive, a revista Autogestion, que depois se tornou Autogestion et
Socialisme (por causa da confusão das livrarias que colocavam a revista na
seção de administração). No entanto, mesmo tendo alguns elementos de
consciência antecipadora, a produção intelectual mais desenvolvida e complexa
sobre marxismo e autogestão ocorre após a rebelião estudantil de Maio de 1968.
[35] Sobre o conceito de
paradigma confira o livro O Modo de
Pensar Burguês e sobre a sucessão de paradigmas na sociedade capitalista e
o paradigma subjetivista, confira Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas, que em breve serão publicados.
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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. O Maio de 1968 e a Luta Cultural. In: BRAGA, Lisandro; VIANA, Nildo (Orgs.). Maio de 1968: Luta de Classes e Projeto Autogestionário. Curitiba: CRV, 2019.

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