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terça-feira, 21 de julho de 2026

A Sombra, um conto de Nildo Viana

 





Eu estava no meu quarto. Era meia-noite. Estava tudo muito escuro. Só existiam sombras. A sombra tomava conta de tudo. Não havia luz e não existia nenhum ponto claro. Eu comecei a pensar sobre a sombra e a escuridão. Naquele momento e naquele lugar só existia sombra. E eu só pensava em sombra, que me cercava por todos os lados. Até o meu pensamento não conseguia ultrapassar a sombra. A sombra tomou conta do meu pensamento.

Dormi. E a sombra estava no meu sonho. Tudo estava escuro. Mas tinha algo. Eu levantei da cama e tudo estava escuro, mas existia uma coisa ainda mais escura no escuro, uma sombra na sombra. Como é possível uma sombra na sombra? A sombra disse que era para eu parar de pensar. Sim, a sombra falou e foi isso que ela me disse:

“Pare de pensar. O pensamento nunca te ajudou em nada. Você passou a vida inteira pensando e o que isso lhe serviu? Você precisa agir e não pensar. O quarto é escuro? O que isso interessa? O que interessa não é o que você pensa, sabe, sonha. O que interessa é o que você faz. Veja a imagem mais escura que se forma na escuridão. Ver, sentir, agir. Está vendo. É um punhal. Veja uma sombra que se delineia noutra sombra e há um pulso segurando um punhal. Agora que já viu que tudo é sombra e que há uma “sombra na sombra”, você também está sentindo. O que está sentindo? Qual é o recado que lhe dá o pulso e o punhal. Qual é este recado? Entendeu o recado? Então agora deve agir!”.

Acordei assustado. Não consegui dormir mais. Foi um sonho muito forte, a voz da sombra era grave e agressiva, muito realista. Fiquei assustado com o seu realismo. Parecia que não era um sonho, que era algo que eu estava vivendo realmente. Acordei e fui cuidar da vida. Café da manhã, transporte, trabalho e as coisas da vida cotidiana. Sempre as mesmas coisas se repetindo eternamente e me fazendo uma espécie de robô pré-programado que não questiona e sempre faz tudo do mesmo jeito e sempre as mesmas coisas. Repetição e repetição da repetição, numa eterna repetição. Até que finalmente chega a noite. Eu sempre assisto TV e vejo as redes sociais virtuais depois do jantar, repetida e cotidianamente, todos os dias, ou, se preferirem, todas as noites. E sempre fico entediado com o dia e a noite. Não quero dormir. Eu nunca quero dormir. Eu sei que se eu for dormir, não farei nada que gostaria de fazer, embora eu também não o faça quando estou acordado. Só que se eu dormir, quando acordar, vou ter que fazer o que sempre faço.

Nessa noite, no entanto, foi diferente. Eu não queria dormir para não ter que reiniciar o ciclo da tortura cotidiana de mais um dia de trabalho e de outras repetições, que parecem pequenos trabalhos do lado do grande trabalho, que me consome oito horas por dia. Mas nesse dia eu não queria dormir também por estar com medo. Medo da sombra, medo do pesadelo. Eu fui dormir e deixei a luz do quarto acesa. Olhei para as paredes e o teto e quase não havia sombra, estava quase tudo iluminado ou pequenos trechos de sombra fraca por detrás de algum móvel. O meu costume é dormir em torno da meia-noite. A luz estava me incomodando. Deu meia-noite e não consegui dormir. De repente, olhei para o relógio-despertador que eu tenho no criado-mudo e eram duas horas da manhã. E aconteceu algo assustador. Olhei para a porta e ela estava escura. Fiquei com muito medo. A escuridão da porta foi se alastrando lentamente, e subitamente acabou a energia elétrica e ficou tudo escuro. Eu estava muito assustado e mais ainda quando ouvi a voz da sombra:

“Para de fugir de você mesmo! Para de fugir se refugiando em pensamentos e luzes artificiais. A luz verdadeira já se apagou dentro de você. Agora você é só sombra. Você é parte da sombra, da escuridão. A sombra não é um todo indiferenciado, pois existem tons no seu interior. Olhe para a parede, veja: um pulso e um punhal. Eis o que deve ver! Já viu, agora é preciso sentir! O que está sentindo? Qual é a mensagem do pulso e do punhal? Para que serve um punhal? Um punhal é uma arma de lâmina curta e pontiaguda, usada para defender ou atacar. É uma ferramenta de defesa pessoal. Veja que você pode usá-lo para se matar ou para matar outros. Veja o que você está sentindo e se está bem com esse sentimento. O punhal é usado no combate corpo a corpo. Ele também é símbolo de posição social e poder. Você não tem posição social e poder. Você é um Zé Ninguém. Prefere ser um Zé Ninguém ou um Khanjar? Você sente medo. O medo paralisa. O medo faz você fugir. Você foge da sombra e se refugia na luz. Você foge do medo e se refugia no pensamento. Você foge do cotidiano e se refugia na evasão e na ficção. Mas o medo não impede que a sombra continue se alastrando e tomando conta de você, dos últimos redutos no seu interior que ainda não estão sob o seu domínio. O pulso você tem. O punhal você tem. Já viu e já sentiu. Agora, deve agir!”.

Acordei assustado novamente. Naquele momento, eu acreditava que não era um sonho. Pensei que estava acordado e essas coisas estariam realmente acontecendo na vida real. A verdade é que eu dormi e sonhei que o quarto escureceu e a luz se apagou. Não consegui dormir mais e fui pesquisar para saber o que significavam esses sonhos terríveis. O que significa sombra? Para uns, a sombra simboliza o inconsciente, aspectos da personalidade ocultos (medos, desejos, impulsos). Para outros, a sombra simboliza o mal, ou a dualidade entre o bem e o mal, com a escuridão representando o mal. Ela também é associada com a morte ou a transformação, a passagem de um estado para outro. E continuei pesquisando e vendo outras possibilidades: ela pode simbolizar o desconhecido, o misterioso, o inexplicável, ou, ainda a “parte obscura da personalidade”. Descobri outros significados, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Só sabia que sentia medo de tais pesadelos. Precisaria procurar um psiquiatra ou psicólogo? Um psicanalista? Amanheceu e eu não tinha alternativa a não ser voltar para o círculo infernal da cotidianidade. Nesse momento eu pensei no que era pior: esses sonhos medonhos noturnos ou a realidade sombria diurna que eu tinha que suportar?

Quando se aproximou novamente a meia-noite, eu estava com muito medo de dormir. Lembrei da pesquisa que fiz e que relaciona a sombra com personalidade. Alguns diziam que é preciso enfrentar o medo, a sua parte obscura. Outros diziam para “integrar a sombra” e assim desenvolver uma “personalidade total”. A própria voz da sombra me dizia para enfrentar o medo, pois ele é paralisante! Resolvi então “encarar meu medo”. Apaguei as luzes e fui dormir, com medo, com os olhos fechados para não me defrontar com a escuridão. Depois de algum tempo, ouvi ruídos. Era como se alguém estivesse raspando uma faca na parede. Faca... um punhal! E a voz novamente se fez ecoar pelo quarto silencioso:

“Já viu e já sentiu. Agora deve agir! O que você quer fazer com o punhal? Você tem duas alternativas. Vou lhe ensinar como agir diante da primeira alternativa: pegue o punhal e coloque-o no rumo do seu peito e use toda a sua força para enterrá-lo no seu corpo. Isso sim é uma ação digna. Se nada vale a pena, então cumpra sua pena. A única pena que lhe resta não é a autopiedade ou a pena de si mesmo e sim a pena de morte! Essa é a alternativa dos covardes, dos medrosos, dos fracos! Vou lhe ensinar também como agir diante da segunda alternativa: pegue o punhal e procure as pessoas que te fazem mal. Vá atrás de uma por uma e enterre o punhal no coração deles! Sim, sem piedade! Sem titubear! Sem pensar duas vezes, ou melhor, sem pensar de forma nenhuma! Pulso, punhal, sangue, redenção! E não adianta tentar o auxílio de pensamentos ponderados! Não adianta pensar que nem todo mundo te faz mal! Ora, quem não te faz mal? O seu patrão que te explora e humilha? O seu colega de trabalho que fica competindo com você e zombando de ti pelas suas costas? O seu irmão invejoso que nem imagina a angústia que você vive e nem se importa com isso? O seu vizinho que joga o lixo dele no seu quintal? O Presidente da República que mente e ilude para se manter no poder e não busca resolver nada efetivamente? As celebridades que se enriquecem te vendendo falsa arte? As pessoas que fingem te amar? Ouça a música: “declare guerra a quem finge te amar!”. Mate! Mate todos! Mate tudo! Destruir o mundo imundo que te machuca! Agora escolha: vai se destruir ou vai destruir quem te destrói?”.

Acordei muito assustado! Aquilo parecia tão vivo, tão real! Eu fiquei pensativo. O que era pior? A luz diária que me massacrava todos os dias ou a sombra noturna que me atormentava todas as noites? A voz da sombra me deu duas alternativas. Uma delas me livrava de tudo isso. A outra me fazia fazer parte de tudo isso, mas como Khanjar, a ferramenta da destruição. Era preciso decidir entre três alternativas: continuar no círculo e ciclo vicioso da tortura cotidiana, morrer ou matar. Então eu aprendi o que a sombra me ensinava, mas ao contrário. Eu precisava unir o pensar e o sonhar, para depois agir.

Resolvi fazer diferente. Tomei meu café, pois disso eu gostava. Não fui trabalhar. Decidi me dedicar a algo que me agradasse, ao invés de algo que fosse uma imposição. Eu sei que teria consequências. Teria vantagens também. A tranquilidade seria bem maior. Eu gostava muito de desenhar histórias em quadrinhos quando era mais jovem, quando tinha 18 anos. Larguei os desenhos, a ficção, a aventura, o amor. Tudo isso em troca da sobrevivência um pouco mais confortável, emprego, segurança. Os sonhos juvenis foram substituídos por pesadelos adultos. Quando era jovem, tudo era mais tranquilo. Não precisava ter emprego, identidade, dinheiro, poder, status, imagem social. Bastava viver e pronto. Fazer o que precisa para sobreviver e fazer o que gosta. As relações com as pessoas, pelo menos algumas, eram mais verdadeiras, mais sinceras. O peso da segurança é muito maior do que uma pessoa pode suportar. Optei pela leveza da vida despreocupada.

Eu sabia que havia desafios nessa decisão. No fundo, seria a troca de uma luta por outra, mas eu agora sabia qual era a melhor luta. Voltei a desenhar histórias em quadrinhos. Vou ter que arrumar outro trabalho, vou ter que enfrentar as fofocas, vou diminuir minhas chances e oportunidades na vida de ganhar dinheiro, ter pessoas interesseiras próximas de mim, entre milhares de outras coisas. Mas o que me animava era saber que isso não era só uma questão minha. Essa sombra não assustava apenas a mim, pois a pesquisa que fiz na internet mostrou que milhões estão assim: entre a sombra e a luz, em duplo sentido, em dois momentos. O sentido real e concreto que atinge a todos e o sentido interno, dentro de nós mesmos. Então o que me anima é a possibilidade de encontrar outros como eu, um desafiador da sombra. Ela, no entanto, ainda me acompanha, mas ela não me dirige – como ela gostaria de fazer – pois agora sou eu que a direciono.

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Publicado originalmente em:

VIANA, Nildo. A Sombra. Poeticus, vol. 10, num. 14, 2026. Disponível em: https://redelp.net/index.php/poe/article/view/1752.





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