Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

BATMAN, UM SUPER-HERÓI SOMBRIO - Nildo Viana

 

BATMAN, UM SUPER-HERÓI SOMBRIO

 

Nildo Viana*

 

Os super-heróis são seres fantásticos produzidos pela imaginação humana em determinado contexto histórico e social. Desde os primeiros super-heróis, descendentes diretos dos heróis fantásticos das histórias em quadrinhos, até hoje, eles continuam a povoar a mente humana, as fantasias, o inconsciente, sendo fonte de inspiração para novas produções ficcionais. A primeira geração de super-heróis se destacou com Super-Homem, Batman, Mulher-Maravilha, Capitão América, Namor, Tocha Humana Original. As gerações posteriores assumiram novas características e mudaram de acordo com as mudanças históricas e sociais (Viana, 2020). Cada super-herói, no entanto, possui elementos específicos. Isso não é diferente no caso de Batman, um dos super-heróis mais bem-sucedidos, o que pode ser visto em sua longevidade, manutenção da publicação de suas revistas, adaptações cinematográficas, entre outras formas de se reconhecer o sucesso de um personagem.

Assim como todo super-herói que possui uma longa existência, Batman sofreu mutações durante sua história. Essas mudanças no personagem, no entanto, são comuns e possuem duas determinações fundamentais: as mudanças sociais e históricas e a alteração dos quadrinistas responsáveis pela elaboração de suas histórias. Para um pesquisador que realiza a análise de um determinado super-herói é necessário a percepção de sua historicidade ficcional. Esta é inseparável da historicidade real (social e histórica). Essas duas determinações e suas relações geram diversas dificuldades analíticas que merecem reflexão, pois muitas vezes há uma confusão entre elas e seus efeitos nas histórias em quadrinhos.

Porém, um super-herói, por mais que mude, mantém certos aspectos, a não ser em certas mudanças temporárias que são “desvios ficcionais”. Isso quer dizer que, apesar do conjunto das mutações, é possível descobrir um perfil ficcional de cada super-herói. Entenda-se, aqui, por perfil ficcional, o conjunto de características de determinado personagem.

O nosso objetivo, no presente texto, é apresentar o perfil ficcional de Batman. Essa é uma tarefa difícil tendo em vista a longevidade do personagem que já possui 85 anos e ter passado por tantas mudanças sócio-históricas e ter tantos quadrinistas responsáveis pela criação ficcional de suas histórias. É por esse motivo que iniciaremos com uma reflexão mais teórica sobre a questão da identificação do perfil ficcional de um personagem, especialmente um super-herói, como é o caso do Batman. Depois disso, abordaremos um momento crucial para a formação do perfil ficcional de qualquer super-herói, que é o processo de criação real do personagem e sua origem ficcional. Por fim, encerramos com uma caracterização do perfil ficcional de Batman.

A Questão do Perfil Ficcional

As histórias em quadrinhos criam mundos ficcionais complexos. Sem dúvida, existem complexidades diferentes em casos diferentes. A Turma da Mônica, por exemplo, é um universo ficcional mais simples do que o do Recruta Zero ou o de Mortadelo e Salaminho, bem como da Mafalda. Porém, esses últimos universos ficcionais são bem mais simples do que o da Marvel Comics ou o da DC Comics. Os universos ficcionais são, geralmente, povoados por vários personagens, assim como a sociedade é composta por inúmeros indivíduos. Quanto maior o número de personagens, mais complexa tende a ser o universo ficcional que eles habitam.

Da mesma forma que, na sociedade moderna, se busca compreender os indivíduos, é comum a busca pela compreensão dos personagens fictícios das histórias em quadrinhos, inclusive, em muitos casos, como se eles possuíssem personalidade e individualidade, ou seja, atribuindo a eles características dos seres humanos. No caso da sociedade capitalista, diversos recursos foram criados para buscar compreender os indivíduos, desde a imagem produzida sobre os indivíduos a partir das representações cotidianas e da autoimagem, ou “identidade”, criada por eles mesmos, até as análises psicológicas e psicanalíticas, passando pelas biografias, análises históricas e sociológicas, entre outras, e esse é um tema recorrente numa sociedade que gerou uma individualidade mais complexa, o individualismo moral e ideologias individualistas[1].

O personagem é equivalente a um indivíduo? Essa é uma questão que traz diversas outras. Sem dúvida, qualquer personagem tem elementos comuns com indivíduos reais, de carne e osso, pois assim é o seu criador, que não extrai sua imaginação do nada e sim da realidade, seja a própria (o seu universo psíquico), seja a do mundo circundante (incluindo outros personagens). Porém, além desse elemento insciente e espontâneo, há o elemento consciente e voluntário, que é quando o quadrinista (e a partir daqui o nosso foco são as histórias em quadrinhos, embora tais reflexões sirvam para outras formas de arte) busca intencionalmente atribuir personalidade e características próprias a cada personagem. E esse processo pode ser desde o mais básico ao mais complexo. Um personagem como o Cebolinha ou o Cascão, da Turma da Mônica, possuem, pelo menos até surgir sua versão “adolescente”, uma simplicidade por seu universo ficcional infantil e simples, bem como os personagens serem estereotipados[2].

É possível existirem personagens que mudam drasticamente (assim como indivíduos concretos, embora nesse caso seja mais raro e nunca seja total como pode ser no mundo ficcional) e outros que praticamente não mudam, para citar os dois extremos. Esse processo tem a ver com as mudanças sociais e históricas e com os quadrinistas responsáveis por sua historicidade ficcional. O que nos interessa aqui, no entanto, é como identificar o perfil ficcional de um personagem, tendo em vista a existência da historicidade real, que atinge qualquer ser fantástico das histórias em quadrinhos, e a sua historicidade ficcional.

O primeiro elemento é entender a relação entre perfil ficcional e historicidade. O perfil ficcional é criado por um quadrinista ou mais, sob determinada forma (mais simples ou mais complexa, mais indefinida ou mais definida, etc.) e vai se desenvolvendo. O desenvolvimento do perfil ficcional depende das mudanças sócio-históricas e da dinâmica do universo ficcional no qual ele está inserido. No primeiro caso, temos o impacto das mutações sociais e históricas sobre os quadrinistas e outros indivíduos (representantes do capital editorial, público, meios oligopolistas de comunicação, etc.) e seus efeitos na dinâmica criativa e reprodutiva dos personagens. Essa é a determinação fundamental do perfil ficcional e de suas mutações.

Porém, existe também a historicidade ficcional. Essa é determinada pela dinâmica do universo ficcional do personagem e pelas mudanças sociais e históricas. Um personagem que tem sua história contada desde a infância até a idade adulta, evidentemente, sofrerá alterações derivadas disso e de outras mudanças no plano ficcional (relações com outros personagens que também mudaram, novos personagens, novos desafios, etc.). Alguns exemplos podem ajudar a entender esses processos. Goku, personagem do universo de Dragon Ball, inicia sua história como criança e avança até a idade adulta, o que gera mudanças previsíveis em seu perfil ficcional e isso é reforçado por outras mudanças ficcionais, tal como o desenvolvimento do seu poder e o aparecimento de rivais cada vez mais poderosos. O Capitão América, personagem da Marvel Comics, por sua vez, entrou em crise e teve uma alteração de perfil ficcional breve nos anos 1970, no qual abandona o seu uniforme e nome, tornando-se Nomad. Quem lê as revistas nos quais o novo perfil ficcional emerge entende as motivações pessoais de Steve Rogers, mas não fica sabendo das motivações sociais e históricas dos quadrinistas que criaram tal história. Seria preciso relacionar com o escândalo de Watergate e o problema da corrupção que levou à renúncia de Richard Nixon em 1974 para entender que a crise do Capitão América era a transposição para o seu universo ficcional da crise política norte-americana (Viana, 2020).

Porém, nem Goku, nem o Capitão América se tornaram outros personagens, embora este último tenha ensaiado parcialmente isto. Existiram mudanças, mas também permanências. Tanto Goku quanto o Capitão América continuaram sendo heróis. Embora existam alguns casos de heróis que se transformam em vilões, bem como alguns que ficam entre ambos, isso não anula o que foi dito anteriormente. Namor, por exemplo, já apareceu com anti-herói, vilão e super-herói, mas nunca possuindo as motivações que os supervilões tradicionais possuem (luta pelo poder, riqueza, etc.) e sim para defender Atlântida, para provocar mudanças, para combater a destruição ambiental, etc. Isso significa que por mais que haja mudança num personagem, ela nunca é total, embora possa ser mais ou menos ampla dependendo do contexto social e histórico e dos quadrinistas responsáveis pela sua produção.

A historicidade ficcional é determinada pela historicidade real, seja as grandes mudanças sociais e históricas, que incluem as mudanças nacionais, sejam as mutações no capital editorial, no público consumidor, na moral dominante, na alteração de quadrinistas responsáveis pelo universo ficcional, entre diversas outras determinações[3]. Porém, a historicidade ficcional difere da historicidade real. A historicidade ficcional possui uma dinâmica interna, na qual a evolução pode ser cronológica ou não, pois a noção de tempo e mudança podem estar totalmente ausentes. A sua historicidade é constituída pela sequência de eventos ficcionais e isso pode ocorrer no tempo ou fora dele. Dependendo do universo ficcional, ele pode constituir uma temporalidade própria (um personagem alienígena não usará o calendário gregoriano), mas também pode negá-la ou omiti-la, ou, ainda, se quiser garantir verossimilhança com a realidade, se adaptar a ela. A invenção de “diversas terras” no universo ficcional da DC Comics, por exemplo, pode resolver as discrepâncias entre a temporalidade ficcional e a real.

A sequência de eventos ficcionais assume várias formas e pode ter maior ou menor importância dependendo do universo ficcional. Podemos distinguir entre sequência linear, episódica, semiepisódica, serial e mista. Nas histórias em quadrinhos mais simples ou infantis ou nas que são muito curtas (tal como algumas tiras de jornais), ela simplesmente pode estar ausente. Esse é o caso das histórias em quadrinhos que podemos denominar “episódicas”, que são aquelas que não possuem uma sequência, seja temporal seja eventual, ou semiepisódicos, que são aqueles que possui uma sequência eventual geral, mas possuindo diversos episódios no seu interior que possuem “vida própria” (início, meio e fim)[4]. Ainda é possível uma sequência serial, no qual a historicidade ficcional é dividida por uma série de eventos ficcionais formando histórias próprias. Esse é o caso da série “Cavaleiro das Trevas”, de Batman, criada pelo quadrinista Frank Miller. Uma outra forma é a mista, na qual ocorrem mudanças ou revezamentos na historicidade ficcional durante a existência do universo ficcional.

A historicidade ficcional de universos ficcionais complexos e de longa duração, como os da DC Comics e da Marvel Comics, podem conter desvios ficcionais. Esses podem ocorrer devido às mudanças sociais e históricas, como, por exemplo, a substituição de uma determinada moral hegemônica por outra, a alteração dos quadrinistas responsáveis por determinadas produções, levando em conta as diferentes personalidades e concepções, bem como idiossincrasias. O Batman do seriado televisivo dos anos 1960 é um desvio ficcional, pois um conjunto de determinações promoveram alterações no personagem, sua ação, sua personalidade, ou seja, no seu perfil ficcional.

Esses elementos nos ajudam a entender a questão do perfil ficcional. O perfil ficcional pode ser encontrado na personalidade, no temperamento, nos valores, nas concepções, dos personagens, bem como em suas ações, características físicas, posições, etc. O Hulk, por exemplo, tem dupla personalidade: a do cientista inteligente e controlado Bruce Banner e a do monstro pouco inteligente e raivoso de pele verde. Para quem acompanhou a evolução do personagem, sabe que essas duas personalidades já se aproximaram, com Banner controlando o corpo de Hulk, entre outras mudanças. Para identificar o perfil ficcional de Hulk é fundamental entender o de Bruce Banner, pois este é o personagem que se transforma nele e busca controlá-lo, e o monstro verde sempre está do mesmo lado que ele nas lutas contra os supervilões. Se tirarmos a raiva, a desconfiança e a ingenuidade de Hulk, o que temos é Bruce Banner.

Os super-heróis que possuem identidade secreta, o que não é o caso de Hulk, possuem semelhanças de personalidade, ações, etc. Sem dúvida, intencionalmente eles podem mudar. Esse é o caso do Super-Homem, que para esconder sua identidade secreta transforma Clark Kent em um indivíduo tímido e desajeitado. Já no caso do Homem-Aranha, o super-herói fantasiado de aranha é apenas o Peter Parker mais forte e mais livre, realizando coisas que ele tinha dificuldade de fazer antes de ganhar seus superpoderes[5]. Nesse sentido, para entender o perfil ficcional de um super-herói é importante também entender o perfil ficcional do seu alter-ego, seja o indivíduo comum que esconde sua identidade secreta, seja qualquer outro que tenha outras atividades e relações[6]. Para aqueles que não possuem identidade secreta ou alter-ego, resta o seu passado antes de se tornar super-herói, como no caso do Surfista Prateado, ou então ele como unidade, como é o caso de Namor e muitos outros.

Essa breve reflexão sobre perfil ficcional nos permite prosseguir com nosso trajeto analítico de Batman. Qual é o perfil ficcional de Batman? As reflexões anteriores ajudarão a responder tal questão, sendo que é preciso apenas ressaltar, como já foi indicado parcialmente, que em cada caso concreto isso se manifesta sob forma diferente, o que requer análise da especificidade de cada personagem.

A Criação e a Origem de Batman

Quem é Batman? Essa é a questão-chave de nosso trabalho. Para dizer quem é Batman devemos descobrir seu perfil ficcional. E uma das mais importantes descobertas para chegar até ele é tratar da sua criação e da sua origem. A criação é o elemento extraficcional que remete para como o personagem surgiu, ou seja, como determinados quadrinistas o criaram. A origem é de ordem ficcional, pois remete para a explicação – no caso de super-heróis e, mais especificamente, daqueles que não nascem com superpoderes – de como eles surgem como super-heróis. Esses dois aspectos nos ajudarão a entender o perfil ficcional de Batman.

Batman foi criado por Bob Kane e Bill Finger em 1939[7]. A sua primeira aparição foi na revista Detective Comics, número 27. A inspiração (alguns insinuam plágio) é atribuída a vários heróis de revistas em quadrinhos existentes na época, tais como O Sombra, Zorro (capa e espada), Morcego Negro. O Zorro surgiu em 1919 e era um personagem que enfrentava os colonizadores e sua tirania, sendo filho de um fazendeiro, ou seja, membro da classe dominante. Ele antecipa (assim como outros heróis mascarados que surgiriam depois dele) os super-heróis com a ideia da identidade secreta e o uso da máscara[8]. Ele teve várias adaptações cinematográficas a partir do final dos anos 1930 e no início dos anos 1940, bem como até hoje continua recebendo produções ficcionais além das histórias em quadrinhos (filmes, séries, desenho animado, etc.).

O Morcego Negro era um vigilante noturno, criado em 1933 e renovado em 1939. Na sua primeira versão, ele não usava máscara, sendo apenas um nome utilizado por uma pessoa comum. Na segunda versão, ele é o promotor Anthony Quinn, que se tornou um vigilante mascarado depois de ter seu rosto desfigurado por ácido. Houve um processo recíproco entre as editoras que publicaram os dois personagens sob a acusação de plágio. Bob Kane negou o plágio e disse ter se inspirado no vilão do filme The Bat Whispers, de 1930, mas Bill Finger recordou que as luvas do Batman são uma cópia das luvas do Morcego Negro (parecidas com barbatanas).


No entanto, o vilão de The Bat Whispers teria muito pouco para inspirar a criação de Batman, pois é um indivíduo comum usando uma máscara e que anda inclinado como um corcunda, tendo sido, no referido filme, desarmado por pessoas comuns. Tirando a máscara e o clima de medo e a escuridão noturna, não há mais nada que lembre Batman.


Uma inspiração que se aproxima de um verdadeiro plágio, inclusive na primeira história de Batman (cujo nome nas primeiras histórias era Bat-Man) foi O Sombra. Esse personagem ganhou sua revista em quadrinhos em 1931, sendo que o nome já existia em programa de rádio no qual havia um narrador misterioso que apresentava aventuras policiais e de suspense, o que gerou a solicitação por revistas do Sombra por parte do público. Inclusive há uma história, intitulada “Parceiros do Perigo”, de 1936, que tem muitas semelhanças com a primeira história do Batman, “O Caso do Sindicato Químico” (1939).

Além de outros personagens, o conto de Edgar Allan Poe, O Corvo (2018), foi outra importante fonte de inspiração, inclusive para criar a personalidade de Batman. Voltaremos a este conto mais adiante, mas aqui podemos adiantar que o conto traz elementos de luto e perda do personagem e o próprio corvo e seu significado sombrio que serviram de inspiração para composição da personalidade e simbologia do futuro super-herói.

Porém, mais importante do que as inspirações (ou mesmo plágio, como afirmam alguns) são os processos sociais e históricos por detrás da criação do personagem. O primeiro elemento a se destacar é o sucesso crescente do gênero aventura, antecessor do gênero superaventura (Viana, 2024). O gênero aventura já exibia heróis musculosos com roupas colantes ou com supostos “poderes” (é o caso de Mandrake, o mágico, e Fantasma, sendo que este último seria supostamente “imortal”, o que não passava de um truque que esconde a herança de pai para filho), bem como o sucesso da ficção científica, tal como se observa na inspiração fornecida pelo filme Metrópolis, de Fritz Lang, para a criação do Super-Homem (e o nome da cidade fictícia deixa isso evidente).

Porém, Batman não herdou tudo isso, embora tenha ganho elementos de vários desses processos. Batman, ao contrário do Super-Homem, e talvez isso explique a ausência de superpoderes, se inspirava mais em obras ficcionais de suspense, ação policial e terror, tal como as revistas em quadrinhos Pulp, com papel de qualidade inferior. Nos anos 1930 proliferavam revistas em quadrinhos com o nome Detective (Starling Detective, Real Detective, etc.), de terror, entre outras.

A crise financeira de 1929 se prolongou pela década de 1930. Os seus efeitos culturais também. A sociedade norte-americana ficou abalada pela crise e suas consequências sociais, tal como o desemprego que teve uma longa duração. O impacto cultural emergiu através da música, literatura, etc. O clima cultural não era de otimismo. Nesse momento, apesar da existência de comédias musicais e dramas românticos, o cinema norte-americano viu o surgimento, com a Universal Pictures, do gênero de filmes de terror, bem como houve a ascensão dos filmes noir e os temas policiais e de gangster se tornaram comuns. A lei seca (1920-1933) também teve um impacto inicial nesse processo e os seus objetivos foram tragicamente transformados no seu oposto, gerando o aumento do mercado ilegal de bebidas alcoólicas, fortalecimento do crime organizado, aumento da corrupção policial e política, entre outras consequências. A literatura dos anos 1930 expressava temas como pobreza, desigualdade social, violência, e as artes, no geral, assumiu um realismo social, retratando as injustiças sociais e problemas da época, tal como se via nos filmes de Charles Chaplin, por exemplo.

No final dos anos 1930, esse processo de crise e clima cultural permaneciam e foram reforçados pela ascensão do nazifascismo e da Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, a violência, a vilania, a necessidade de jovens fortes para enfrentar a guerra, entre outros processos, incentivavam uma produção cultural específica, o que reforçou o gênero aventura e incentivou o surgimento do novo gênero, a superaventura. Batman surge nesse contexto, no qual as inspirações e influências culturais emergem diante de um ambiente cultural marcado por pessimismo, violência, medo de guerras, etc. Esses elementos estarão presente na origem e características do personagem.

A origem ficcional de Batman é apresentada pela primeira vez na Revista Detective Comics, número 33, de 1939, com roteiro de Bill Finger. Depois essa história é recontada, com alterações maiores ou menores, mas seguindo a ideia básica geral, em várias outras revistas deste super-herói, tal como em seu número 47 (1948), número 235 (1956), A Lenda não contada de Batman (1980), Batman Ano 01 – números 404-407 (1987), O Homem que Cai (1990), Batman Ano Zero – números 21-33 (2013). Outras revistas fazem referências a aspectos de sua origem e em Origens Secretas (1986), se apresenta a origem do Batman da Terra 2[9].

O elemento comum em todas essas versões é a razão de Bruce Wayne se tornar o Batman. O assassinato dos seus pais é o leitmotiv do surgimento do Homem-Morcego. A história mais comum é a de que Bruce na sua infância estava frequentando o cinema com seus pais e na saída encontram um assaltante que acaba assassinando o pai e a mãe do jovem personagem (a razão do assassinato é o mero assalto em sua versão original, mas posteriormente se acrescenta o envolvimento do assaltante com outros criminosos e interesses). Esse é o evento ficcional traumático que vai criar um impacto na personalidade e ação de Batman. Podemos dizer que essa é a base da formação do perfil ficcional de Batman. Isso pode ser percebido no juramento feito por Bruce Wayne:

Depois que os pais levaram tiros diante de seus olhos, o pequeno Bruce Wayne fez este juramento à luz de velas: “e juro, pelos espíritos dos meus pais, vingar suas mortes, dedicando o resto da minha vida à guerra contra todos os criminosos” (Weldon, 2017, np).

Em uma versão posterior o termo “vingança” é substituído por “justiça”, mas mantido em outras tantas versões. O que interessa é que Bruce Wayne não se torna um super-herói por “amor ao semelhante”, por “humanismo” ou por “generosidade”. O que o faz assumir a versão de justiceiro mascarado não foi um sentimento simpático e sim um sentimento antipático (bem como concepções associadas, especialmente a vingança):[10] o ódio. Assim, ele projeta o seu ódio em relação ao assassino do seu pai a todos os criminosos, ou, para usar expressão de Michel Lobrot (1978), efetiva uma “generalização afetiva”. Movido pelo ódio, a sua escolha em usar uma roupa de morcego e a opção por amedrontar os criminosos não é gratuita. Esse é o elemento fundamental de seu perfil ficcional. Sem dúvida, a escolha não foi do personagem, que, na verdade (e na realidade), nada escolhe, e sim dos seus criadores. O morcego e o traje foram criados pelos quadrinistas e eles queriam repassar uma imagem misteriosa e sombria de Batman.

No conto de Edgar Allan Poe, O Corvo, que foi uma das fontes de inspiração dos quadrinistas que criaram Batman, um homem é atormentado pela dor da perda de sua amada, Lenore. Em uma noite sombria, ele está sozinho em seu quarto, imerso em tristeza e saudade, e, nesse momento, ouve batidas na porta. Ele abre a porta e nada vê além da escuridão noturna. Corroído pelo sofrimento e na solidão noturna, aparece um corvo misterioso que entra voando pela janela e pousa em cima de um busto de Palas Atena. O homem começa a questionar o corvo sobre o seu nome e sobre o reencontro com Lenore no além-túmulo. O corvo, por sua vez, responde apenas com as palavras “nunca mais”. A repetição da frase “nunca mais” pelo corvo atormenta o protagonista, levando-o à beira da loucura. Ele interpreta as palavras do corvo como uma confirmação da perda irreparável de Lenore e como um sinal sombrio de que nunca mais encontrará paz ou consolo.

Assim, o conto O Corvo explora temas como luto, tristeza profunda, solidão e desespero diante da perda. A presença do corvo assume um significado simbólico de agonia eterna e desesperança. Sem dúvida, Bruce Wayne é semelhante ao protagonista de O Corvo. O seu sofrimento psíquico (luto, perda) é o elemento fundamental que molda a personalidade desse personagem e, além disso, há o corvo que adentra pela janela, tal como o morcego que aparece para Wayne quando ele pensa em assumir uma identidade secreta.

Aqui temos o evento ficcional (assassinato dos pais) e suas consequências sentimentais (emergência do sofrimento e do ódio), bem como a simbologia que emerge a partir disso. Sem dúvida, o conto O Corvo, de Edgar Allan Poe é importante para compor o personagem e sua simbologia, tal como se vê no pensamento de Bruce Wayne:

Criminosos são covardemente supersticiosos. Então, meu disfarce deve ser capaz de instilar o terror no coração dos criminosos. Uma criatura da noite... negra, terrível, um... [o bicho aparece na janela] Um morcego! É Isso, é um sinal! Eu devo me tornar um morcego! (Weldon, 2017, np).

Contudo, esse não é o seu único aspecto. Porém, esse é o elemento principal e que determina as ações, opções, do personagem. A origem ficcional de Batman é a chave para entender o seu perfil ficcional. Os demais aspectos serão trabalhados a seguir para mostrar de forma mais totalizante o seu perfil ficcional.

O Perfil Ficcional de Batman

Para entender o perfil ficcional de Batman é interessante compreender as características de Bruce Wayne e de seu alter-ego mascarado. A origem ficcional já mostra o elemento essencial de Bruce Wayne, que é seu sofrimento e ódio gerados pelo assassinato de seus pais, Thomas e Martha Wayne. Esse elemento é explorado exaustivamente, como se pode ver nas longas histórias que mostram seu treinamento para se tornar mais forte. Embora seja pouco crível no mundo real, pois o jovem filho de um capitalista e herdeiro de empresas, não precisaria buscar agir como um vigilante noturno para realizar sua vingança, pois poderia contratar detetives, pistoleiros e outros para fazer tal serviço. Isso revela uma necessidade ficcional, pois se decidisse agir como capitalista e contratar pessoas para fazerem a vingança para ele, não existiria o super-herói. Ao lado disso, ou derivado disso, há um elemento na composição do Batman que é não apenas querer vingar e combater os criminosos, mas também proteger os inocentes. Isso é ambíguo e nada claro, inclusive pelo fato de que os quadrinistas não são psicanalistas que criam um quadro mental completo e sim apenas os elementos necessários para o universo ficcional a partir de suas experiências, concepções e informações.

Bruce Wayne, além do evento fundacional, é um personagem que tem uma situação ficcional definida. Ele é apresentado como um bilionário, membro da alta sociedade de Gotham City, integrante da família Wayne, uma das mais ricas da cidade. Ele é o dono da Wayne Enterprises, uma empresa de tecnologia e indústria que é uma das mais importantes de Gotham City. Em outros termos, Bruce Wayne é um indivíduo da classe capitalista. Além disso, ele é um filantropo dedicado, usando sua fortuna e influência para melhorar a vida dos cidadãos de Gotham e combater as causas da criminalidade. Ele teria, supostamente, valores e princípios voltados para a solidariedade e fraternidade. Além das ações como empresário e filantropo, a adoção do órfão Dick Grayson seria outra manifestação de sua generosidade e tem um vínculo com o fato dele mesmo ter perdido seus pais durante sua infância.

Além da sua classe social e seus supostos valores e generosidade, Bruce Wayne é um indivíduo reservado, com poucos romances (o primeiro foi com uma personagem chamada Julie Madison que apareceu na quinta história desse super-herói, em 1939, em Detective Comics, número 31), embora tenha tido outros como Batman (incluindo Mulher-Gato e Mulher-Maravilha) e depois outras apareceriam (Linda Page, Vicki Vale, Silver St. Cloud, etc.). A discrição do personagem pode ser explicada por causa de sua identidade secreta, o que é comum no caso dos super-heróis. Inclusive existem aqueles que se apresentam publicamente como atrapalhados para não ser relacionados com o seu alter-ego (Super-Homem), embora nem todos façam isso (Homem de Ferro).

Bruce Wayne não é um personagem muito explorado em sua vida cotidiana e privada, o que é comum no caso dos super-heróis e semelhantes, pois o que interessa é o agente da história. Porém, ele revela muito do perfil ficcional de Batman. O capitalista generoso e discreto é uma face do personagem que esconde a outra face, a do filho vingativo. A generosidade e filantropia em vários indivíduos da classe capitalista é apenas uma forma de reforçar a marca de sua empresa, pois isso não apenas aparece como algo voltado para o bem público, como ainda pode abater em impostos, lavar dinheiro de origem duvidosa, influenciar socialmente, entre outros processos. Sem dúvida, no plano da mente do indivíduo capitalista, também pode servir para retirar o “peso da consciência”. No caso específico de Bruce Wayne, esses aspectos não são explorados e explicitados, e, assim, o que se apresenta ficcionalmente é apenas os eventos ficcionais, tal como no caso da filantropia, mas não é explicitado sua motivação real no personagem.

Batman, o super-herói mascarado que surge para combater o crime, já é apresentado ficcionalmente[11] como sendo extraordinariamente inteligente, habilidoso em diversas áreas do saber, extremamente disciplinado, corajoso e determinado. Ele também é apresentado ficcionalmente como um excelente “detetive” (investigador), estrategista e lutador. Além disso, ele é apresentado como um grande líder e protetor de Gotham City[12]. Batman usa sua inteligência, habilidades de combate e tecnologia de ponta para combater os criminosos e vilões que ameaçam a segurança de Gotham City. Ele também conta, dependendo da história e versão, com a ajuda de seu mordomo Alfred e de seus parceiros, especialmente Robin e Batgirl.

Porém, o leitmotiv da vingança é o elemento fundamental de seu perfil ficcional. O ódio gera a busca de vingança e o caráter relativamente violento do personagem. Porém, a história ficcional de Batman sofre alterações e seu perfil ficcional pode parecer ambíguo ou pouco compreensível. Porém, se retirarmos os desvios ficcionais, fica mais fácil entender o perfil ficcional predominante e, portanto, característico, de Batman. A primeira versão do personagem era bem diferente de algumas versões posteriores. Ela já mostrava o seu caráter sombrio[13]. Ele, consumido pelo ódio e desejo de vingança, jurou combater o crime de forma implacável. Na sua primeira versão (a de Bob Kane e Bill Finger), ele era um vigilante sombrio, muitas vezes usando práticas questionáveis para combater o crime. Nos primeiros anos de publicação, Batman não hesitava em matar os criminosos que enfrentava, algo que foi suavizado ao longo do tempo por razões extraficcionais que apresentaremos adiante.



A primeira história de Batman foi escrita por Finger e desenhada por Kane, introduzindo o mundo a um personagem que se tornaria um dos mais duradouros e influentes das histórias em quadrinhos e indo além delas. Ao longo dos anos, o Batman evoluiu, passando por diversas interpretações nos quadrinhos, filmes, séries e animações. É nesse contexto que surgem os desvios ficcionais. Sem dúvida, já em 1940, com o surgimento de Robin, o ajudante mirim, há um abrandamento da violência nas histórias desse personagem, embora, o surgimento do vilão Curinga acaba reintroduzindo em proporções menores, o aspecto violento.

O primeiro desvio ficcional foi a cinessérie Batman, de 1943 (e em outra, em 1949), pois promoveu alterações e inovações que não eram próprias do personagem (e algumas seriam posteriormente adotadas nas suas histórias em quadrinhos). Porém, o desvio ficcional nas histórias em quadrinhos ocorre posteriormente. É a partir de 1947 que Batman se afasta de forma mais drástica do caráter violento do personagem. E isso se aprofundou no contexto histórico dos anos 1950. Essa foi a época do macarthismo e seu anticomunismo. Uma verdadeira perseguição política foi realizada nos Estados Unidos através do impulso promovido pelo senador Joseph McCarthy, especialmente, mas não unicamente no cinema (Viana, 2023). No clima da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, o macarthismo avançou e, no caso das histórias em quadrinhos, emergiu a obra do psiquiatra Fredric Wertham (1954), Sedução do Inocente, com mais de 400 páginas, tematizando a questão do impacto das produções culturais dos meios oligopolistas de comunicação sobre crianças e adolescentes. Essa obra acusava as histórias em quadrinhos de corromper jovens e crianças com seu caráter violento e outros elementos negativos. Na obra, o autor insinua que Batman e Robin são homossexuais[14].

É nesse contexto que emerge o Comics Code Authority, criado em 1954 pela Comics Magazine Association of América (CMMA), sendo um código de autocensura seguido pela DC Comics e também pela Marvel Comics, entre outras empresas do capital editorial. O seu objetivo era censurar o abuso de violência, erotismo, etc., nas histórias em quadrinhos. No fundo, a obra de Wertham, bem como a campanha pedagógica ocorrida logo depois, tinha como base o moralismo conservantista que reinava naquele momento e sendo parte da cruzada “anticomunista”[15].

Isso promoveu alterações no universo ficcional da DC Comics e especialmente nas histórias de Batman. Logo surge a “batfamília” e outros indivíduos da família Wayne (Tia Agatha, que na série televisiva posterior se chamava Tia Harriet). Um duende de outra dimensão chamado Batmirim, ao lado de um Batcão, bem como Batwoman[16], emergem nas histórias em quadrinhos do Homem-Morcego. A força da ficção científica nesse período (e no cinema, principalmente) também se fez sentir e se reproduziu nas histórias desse período. Esse desvio ficcional ocorreu por razões extraficcionais, as mutações sociais e históricas que geraram, nos Estados Unidos, a supremacia do moralismo conservantista. Esse desvio ficcional dura até 1964. Porém, a série televisiva dos anos 1960 dá continuidade a ele, mas, no entanto, visava um público mais infantil e infanto-juvenil, bem como familiar, cujo acesso era aberto para quem tinha televisão, o que explica a sua semelhança com a fase dos anos 1950.

No início dos anos 1960, com um novo editor e com um novo desenhista (Julio Schwartz e Carmine Infantino), Batman começa a sofrer alterações que o reaproximavam, em alguns aspectos, do original, e que o afastavam da versão infantilizada do período anterior. Bob Kane ainda mantinha determinados direitos e isso fez com que os desenhistas anteriores voltassem, mas copiaram o estilo mais realista implantado por Infantino, que continuava fazendo as capas das revistas. A Batfamília desaparece sem justificativa. Essa fase dura até os anos 1970.

A partir dessa década, Batman se reaproxima ainda mais de suas origens no sentido do seu perfil ficcional. A equipe responsável por sua produção passa a ser composta principalmente por Dennis O’Neil e Neal Adams. As histórias ganham um caráter mais violento. Uma nova mudança, por sua vez, ocorre a partir da saga “Crise nas Infinitas Terras”. O quadrinista Frank Miller reconta a história de Batman em “Ano I” (lançada em 1987). Miller se torna o grande responsável pela nova configuração do personagem, que assume um caráter mais sombrio.

Porém, isso ocorre num momento diferente. As mudanças sociais e históricas novamente aparecem, pois é a época de emergência do neoliberalismo e, no caso dos Estados Unidos, do aumento da pobreza, violência, criminalidade, população carcerária[17]. É nesse período que Frank Miller vai trazer uma das obras mais emblemáticas de Batman, O Cavaleiro das Trevas, que depois foi adaptada para o cinema. Nesse período temos um Batman e o conjunto ficcional de suas obras marcado por mais violência do que em todas as épocas anteriores. Nesse período há a morte de Jason Todd (o segundo Robin), assassinado pelo Coringa, em Morte em Família (1988); bem como a Barbara Gordon, a Batgirl, é vítima desse vilão e fica paraplégica, em Piada Mortal (1988).

Mais recentemente, Batman se aproximou mais de Bruce Wayne. Na produção ficcional anterior desse personagem, Bruce Wayne, sem aparecer explicitamente na maioria das vezes, era quem financiava toda a tecnologia e aparatos tecnológicos de Batman. Porém, especialmente em Corporação Batman, o vínculo entre o capitalista e o super-herói se torna mais direto e evidente:

Ao assumir ter financiado as atividades do vigilante de Gotham por muitos anos, Bruce Wayne funda a Corporação Batman ao declarar em uma entrevista coletiva que “hoje a guerra do Batman contra o crime se torna global” [...]. Para isto, Batman passa a recrutar um conjunto de heróis pelo mundo oferecendo ajuda tecnológica e recursos (Rodrigues, 2021, p. 79-80).

O fato de Bruce Wayne ser um capitalista também traz outros aspectos para o personagem. Por ser um capitalista, está livre de determinados problemas e sua imagem social é, no universo ficcional, de um “cidadão exemplar”. Os seus inimigos, no entanto, são oriundos das classes inferiores (vinculada geralmente com a criminalidade), dos sanatórios, ou são representantes das classes superiores vinculados ao crime organizado ou com desequilíbrios psíquicos. Sem dúvida, não há como criar um universo ficcional sem esses elementos, pois os enredos do Batman ocorrem numa sociedade capitalista[18]. E essa é, além dos valores, concepções, sentimentos, interesses, dos quadrinistas e daqueles que os influenciam e pressionam (capital editorial, público, etc.), é uma das formas pelas quais a realidade capitalista se impõem no universo ficcional, por mais fantasioso e distante da vida real que se proponha a ser.

Um outro aspecto que define o perfil ficcional de Batman, é o seu universo ficcional como um todo e assim se pode deixar claro que os seus inimigos revelam muito sobre ele. Na primeira fase, Batman enfrentava criminosos e assassinos, a começar pela busca de vingança contra o responsável pela morte dos seus pais. Quando, pouco depois, surgem os primeiros vilões (que podem ser considerados supervilões, pois habitam o mundo dos super-heróis e alguns são portadores de capacidades sobre-humanas), como Coringa, Charada, Pinguim, Duas Caras, entre outros, se observa o caráter violento e desequilibrado da maioria deles. Ou seja, eles são tão sombrios quanto Batman, mas, na concepção burguesa repassada por este universo ficcional, eles representam o “mal” e devem ser combatidos pelo “bem”. Isso apenas reproduz o maniqueísmo comum na maioria das histórias em quadrinhos (Marny, 1970; Viana, 2024). No caso das histórias do Batman, esse maniqueísmo é amenizado posteriormente, mas, mesmo assim, os mocinhos e os bandidos, mesmo apresentando ambiguidades, processos de dúvida, erros, dilemas psíquicos, etc., são os mesmos.

A cidade de Gotham City e o Asilo Arkham são exemplares nesse processo. Uma cidade sombria com um hospício ainda mais sombrio. Sem dúvida, Gotham City apareceu um pouco depois, mas desde que surgiu, ou mesmo com sua antecessora, Nova York, era um lugar de criminalidade, corrupção e violência. O Asilo Arkham ultrapassa os limites do normal mesmo para um hospício.

Os vilões de Batman constituem uma verdadeira galeria de psicóticos e psicopatas que claramente se vinculam a um quadro de perturbações não só sociais, mas, mentais e psiquiátricas. Este vínculo é tão explícito que o local onde a grande maioria dos vilões de Batman fica encarcerada se chama Asilo Arkham (Braga; Perussi, 2013, p. 35-36).

Assim, além de Batman ser o “filho vingativo”, ele vive um mundo asfixiante de vilania e loucura, Gotham City, uma cidade problemática e cercada por crime e violência, que tem como centro de concentração de indivíduos perigosos um Asilo para “doentes mentais”. A própria relação de Batman com os supervilões é problemática, pois a origem de muitos deles se vinculam a este super-herói e suas ações (Braga; Perussi, 2013)[19]. Quando ele sai de Gotham City, as suas histórias, muitas vezes, ficam mais leves.

Assim, a ação do Batman não é a de alguém que busca uma transformação social que aboliria as bases da violência, criminalidade e produção e reprodução de supervilões. É a ação punitiva, semelhante a estatal. Bruce Wayne se ocupa da “filantropia” e iniciativas sociais, tal como o Estado realiza “políticas de assistência social” ao lado da ação repressiva e punitiva. Nesse sentido, Batman é um “segundo Estado capitalista”, que atua quando este é incapaz de efetivar suas ações eficazmente (e sua aliança com o aparato policial em muitas oportunidades, especialmente e simbolicamente no uso do batsinal, revela justamente isso) e que complementa isso como Bruce Wayne. Assim, em Gotham City, quando a hegemonia e as políticas de assistência social falham e quando o aparato repressivo não é suficiente para conter o caos (nunca a revolução, uma ilustre desconhecida do universo ficcional da DC Comics), o batsinal chama Batman, o último recurso para salvar o capitalismo, ou, nos termos do universo ficcional desse super-herói, a civilização.

Desta forma, Bruce Wayne/Batman é não apenas um capitalista, mas um protetor do capitalismo, um agente de conservação do mesmo. Claro que nesse universo ficcional seria difícil ser diferente para um personagem capitalista e parte desses elementos é compartilhada por quase todos os super-heróis, pois todos combatem “criminosos” que, geralmente, estão atentando contra a sagrada “propriedade privada”. Porém, Batman exerce essa função de forma mais explícita do que os demais super-heróis. Isso ocorre em parte por ser um capitalista, aspecto ausente em outros super-heróis, e em parte pelo próprio perfil ficcional do personagem. O seu caráter vingativo e sombrio o faz ser mais violento do que outros super-heróis, mas também sua origem e juramento e, ainda, os seus inimigos principais. Claro que, além disso, existem os quadrinistas com seus valores, concepções e sentimentos, e esse universo ficcional permite que o conservadorismo e violência de alguns deles possam se manifestar de forma mais livre e intensa. Em síntese, o perfil ficcional de Batman é propício para as manifestações ficcionais que reproduzem o capitalismo.

Considerações Finais

O nosso objetivo, no presente texto, foi abordar um dos mais famosos super-heróis e personagens das histórias em quadrinhos, Batman, apresentando o seu perfil ficcional. No fundo, apenas constatamos e aprofundamos aquilo que muitos já suspeitavam e outros manifestaram superficialmente, retirando os exageros de alguns e equívocos de outros. O mais interessante em toda a nossa análise do Batman, além das reflexões teóricas sobre perfil ficcional, é observar que esse super-herói se constitui sob uma forma sombria, revelando ódio e violência, o que é derivado de uma sociedade que produz esses elementos e os que são os seus causadores, tanto na realidade concreta quanto o universo ficcional que a reproduz e amplifica algumas de suas características. Esse perfil ficcional permite uma compreensão mais profunda de um dos super-heróis mais emblemáticos da superaventura e revela o seu caráter sombrio.

Referências

BRAGA, Amaro; PERRUSI. Artur. Representações da Loucura e da Vilania em Batman. 9ª Arte (São Paulo). Vol. 02, num. 01, 2013.

CHINEN, Nobu. Interpretando Wertham. Influência de Seduction of the Innocent nos Estudos de Quadrinhos no Brasil. São Paulo: Universidade de São Paulo, Anais eletrônicos das 2ªs Jornadas de histórias em Quadrinhos, 2013.

DURKHEIM, Émile. Da divisão de trabalho social. 3ª edição, São Paulo: Martins Fontes, 2008.

FROMM, Erich. O Medo à Liberdade. 6ª edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

LOBROT, Michel. A Favor ou Contra a Autoridade. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.

MARNY, Jacques. Sociologia das Histórias aos Quadradinhos. Porto: Civilização, 1970.]

MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 2ª edição, São Paulo: Martins Fontes, 1983.

POE, Edgar Allan. O corvo. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

RODRIGUES, Romir Oliveira. O Arco “Corporação Batman” e as novas Relações do Sistema do Capital. Imaginário! Vol. 21, num. 21, junho de 2021.

TILLEY, Carol. Os Leitores de Histórias em Quadrinhos no Meio das Mentiras de Fredric Wertham. 9ª Arte (São Paulo), vol. 8, n. 1, 2019. 

VIANA, Alice; VIANA, Nildo. A Formação Social da Identidade Pessoal. In: KLAUSS, Jaísa (org.). Processos psicossociais: explorando identidade, comunicação, gênero e relações humanas. São Paulo: ECD, 2024b

VIANA, Alice; VIANA, Nildo. O Conceito de Identidade Pessoal. In: ALMEIDA, Flávio; KLAUSS, Jaísa (orgs.). Psicologia: teorias e práticas em pesquisa. São Paulo: ECD, 2024a

VIANA, Nildo. Breve História dos Super-Heróis. In: REBLIN, Iuri; VIANA, Nildo (orgs.). Super-Heróis, Cultura e Sociedade. Coleção Comics 01. Goiânia: Edições Redelp, 2020.

VIANA, Nildo. Heróis e Super-Heróis no Mundo das Histórias em Quadrinhos. 2ª edição, Coleção Comics 02, Goiânia: Edições Redelp, 2024.

VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. Goiânia: Edições Germinal, 2002.

VIANA, Nildo. Quem são os invasores? A Crítica ao Marcarthismo em “Vampiros de Almas”. In: ANDRADE, Felipe (org.). Filme e Política. Coleção Filme e Mensagem. Goiânia: Ragnatela, 2023.

VIANA, Nildo. Teses Sobre os Sentimentos. Goiânia: Edições Enfrentamento, 2023.

WACQUANT, Löic. As Prisões da Miséria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

WELDON, Glen. A Cruzada Mascarada. Batman e o nascimento da Cultura Nerd. Rio de Janeiro: Pixel, 2017.

WERTHAM, Fredric. Seduction of the Innocent. The Influence of Comic Books on Today’s Youth. Nova York: Rinehart, 1954.

 



* Professor da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília.

[1] Não poderemos discutir aqui essas questões e por isso indicamos algumas obras a respeito dessas temáticas. Sobre a questão da “identidade pessoal”, é possível consultar dois textos que buscam esclarecer seu significado (Viana; Viana, 2024a; Viana; Viana, 2024b). A respeito da individuação, é possível consultar a contribuição de Fromm (19xx) e uma análise crítica sobre a concepção de Jung que ajuda a entender melhor essa questão numa perspectiva crítica (Viana, 2017). Sobre a questão da personalidade, cf. Viana e Viana (2024a). A questão do individualismo moral como produto da sociedade moderna foi abordada por Durkheim (2008), embora não seja possível concordar com o conjunto de sua abordagem. O individualismo moral é um conjunto de valores e princípios e a ideologia individualista é um sistema de pensamento ilusório que coloca a centralidade no indivíduo, que conta com concepções como o anarco-individualismo de Stirner e o liberalismo, entre outras.

[2] O estereótipo, nesse caso, significa um perfil simples e marcado por poucas características que são marcas repetitivas dos personagens, tal como a relação de Cascão com a água e a higiene.

[3] Não custa recordar Marx (1983) e a dialética: “o concreto é o resultado de suas múltiplas determinações”.

[4] Isso também vale para outros universos ficcionais para além das histórias em quadrinhos. As séries televisivas podem exemplificar isso. A série do Demolidor é marcada pela sequência linear; a série de Batman e Robin dos anos 1960 (e a do Incrível Hulk de 1978-1982) é semiepisódica; a série Sobrenatural (série televisiva norte-americana, criada por Eric Kripke) é mista, pois tem episódios isolados, seriais (as temporadas que giram em torno de uma ameaça específica), num plano linear. Uma série episódica é algo bem difícil de existir e talvez se encontre exemplos em algumas séries humorísticas na qual cada episódio tem seu início, meio e fim sem se vincular aos anteriores.

[5] Claro que aqui estamos nos baseando nos personagens das histórias em quadrinhos e não nas últimas adaptações cinematográficas, que transformaram o Homem-Aranha de jovem irônico e irreverente em ingênuo e infantil.

[6] É possível até pensar num paralelo entre o indivíduo comum e o super-herói com as pessoas reais e seus ethos sociais, tal como o indivíduo e seu comportamento na família e no trabalho, nos quais tem posições, ações, margens de liberdade, distintas, sendo um processo de amplificação drástica dessa diferenciação. Isso não faz tal indivíduo ser duas pessoas, mas uma pessoa só com formas de agir diferentes em contextos diferentes.

[7] Não vamos abordar aqui a questão da responsabilidade pela criação, pois o reconhecimento da coautoria de Bill Finger só ocorrerá nos anos 2000 depois de um processo jurídico. Ao que tudo indica, a produção de Batman foi uma coautoria na qual os dois colaboraram, entre outros, embora com pesos diferentes, o que não podemos discutir aqui.

[8] O Pimpinela Escarlate, de Emma Orczy, seria, segundo alguns, o primeiro personagem mascarado criado e teria inspirado o Zorro.

[9] O universo ficcional da DC Comics desenvolveu, para explicar as diversas mutações e incoerências de seus personagens ao longo do tempo (e incluir adaptações cinematográficas, desenhos animados e séries televisivas), a ideia da existência de diversas “Terras” (distintas “dimensões”) nas quais os personagens teriam versões e acontecimentos distintos (inclusive algumas bem bizarras, como vampiros, lobisomens, robôs, etc. e uma com a justa definição de “bizarra”). A principal é a Terra Zero, que é a linha principal das histórias da DC Comics.

[10] Sobre sentimentos simpáticos e antipáticos, cf. Viana (2023).

[11] Uma apresentação ficcional é uma imagem que o(s) quadrinista(s) passam de seus personagens, o que as histórias em quadrinhos podem confirmar ou não. Assim, um narrador pode dizer que o super-herói X é “o mais poderoso de todos” e o universo ficcional pode confirmar (se não tiver nenhum outro mais poderoso) ou negar (se existirem outros tão ou mais poderosos) isso. Sherlock Holmes, por exemplo, é apresentado ficcionalmente como sendo extremamente inteligente e isso é confirmado no seu universo ficcional através de suas deduções e descobertas (pouco verossímeis e realistas). Batman, no entanto, nem sempre confirma a dita apresentação, pois muitos eventos, versões e histórias desmentem isso. Claro que não no universo ficcional, no qual a compreensão do que seja, por exemplo “extremamente inteligente” é relativa e, fora dele, depende do que o leitor ou analista considera ser “muito” ou “pouco” inteligente. A apresentação ficcional é o que os quadrinistas explicitam sobre seus personagens (tais como suas qualidades) e nem sempre eles conseguem mostrar, em suas ações efetivas no universo ficcional, tais qualidades ou ser convincente para os analistas e leitores.

[12] Nas suas primeiras histórias, o ambiente urbano no qual ele atuava era Nova York, mas depois se criou a fictícia Gotham City, que se tornou um marco no universo ficcional de Batman.

[13] Sombrio, aqui, significa relativo às energias psíquicas destrutivas, que pode ser identificada no ódio e destrutividade (Viana, 2002).

[14] “Vários anos atrás, um psiquiatra da Califórnia apontou que as histórias do Batman são psicologicamente homossexuais. Nossas pesquisas confirmam isso inteiramente. Somente alguém que ignora os fundamentos da psiquiatria e da psicopatologia do sexo pode deixar de perceber a sutil atmosfera de homoerotismo que permeia as aventuras do maduro ‘Batman’ e de seu jovem amigo ‘Robin’” (Wertham, 1954, p. 189-190). Alguns acusam Wertham de falsificação (Tilley, 2019) e outros contextualizam sua recepção no Brasil (Chinen, 2013). Quanto à insinuação de que Batman e Robin seriam homossexuais, o que é reproduzido até por alguns quadrinistas, como Grant Morrinson em entrevista à Revista Playboy (Weldon, 2000), não tem o menor sentido, pois o perfil ficcional de Batman é heterossexual e apenas projeções ou estereótipos poderiam considerar o personagem dessa forma. Os argumentos de Wertham são sem fundamento real e não apresenta nada do que ele interpreta como tendo sentido homoerótico, tal como a roupa de Robin, e quanto ao afastamento de Bruce Wayne das mulheres (o que é relativo, como mostramos anteriormente), se deve ao universo ficcional, afinal como um justiceiro noturno que sai quase todas as noites para combater o crime teria uma relação estável com uma mulher ou casamento, a não ser que ela soubesse de sua identidade secreta. De qualquer forma, que um personagem seja homossexual isso deve ficar explícito em suas histórias ou então implícito, o que remete, em ambos os casos, para a intencionalidade dos seus criadores e reprodutores, o que não é o caso do Batman na época de Wertham e os demais casos, sob responsabilidade de outros quadrinistas, demandaria pesquisa. Seria necessário argumentos e informações muito mais amplos e profundos para confirmar tal “hipótese”. Obviamente que isso é destituído de importância, mas apenas revela o contexto histórico e explica a busca posterior em deixar mais explícito a heterossexualidade de Batman.

[15] A moral conservantista é uma das formas assumidas pela moral conservadora e que aponta como alguns de seus valores fundamentais a família, a propriedade, as tradições e geralmente, embora não unicamente, está vinculada com religiões mais conservadoras, o que significa que a religiosidade é outro valor importante para ela. O moralismo é um derivado da moral, que busca impor determinadas normas de conduta. O vínculo com o “comunismo” (na verdade, com a antiga União Soviética, um capitalismo estatal, e com as suas ideologias, especialmente o leninismo e o stalinismo), é resultado de sua posição de polarização em relação a ele e outros valores e concepções negados e que nem sempre tem vínculo com ele, mas faz parte da estratégia, já defendida por Hilter, de unir inimigos variados num mesmo grupo.

[16] O Batcão e a Batwoman surgem em 1955, o Batmirim em 1959. Não se deve confundir a Batwoman com a Batgirl, que só surge em 1961, sendo que reaparece numa segunda versão em 1967 (já como identidade secreta de Barbara Gordon).

[17] O aumento da população carcerária aumenta mundialmente, como demonstra Wacquant (2001). A política de “tolerância zero” é um dos elementos que ocorre nesse período e vai se refletir nas histórias em quadrinhos, tanto com os novos personagens que surgem nesse período (os personagens de American Flagg, Badger, etc.), quanto pela reorientação geral das histórias em quadrinhos. Outro sinal dessa mudança cultural promovida pela mudança social são os filmes de ação dos anos 1980, o que rendeu fama para Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger, Jean-Claude Van Damme, entre outros.

[18] Isso significa que discordamos de algumas interpretações que exageram ou confundem a realidade ficcional com a social. Dizer que Bruce Wayne não é taxado como louco por ser um justiceiro mascarado, é um exemplo dessa confusão, pois no universo ficcional aqueles que usam tal terminologia para classificar os supervilões não sabem de sua identidade secreta e nem dos problemas que ele possui, pois, para citar dois exemplos, o fato dele não casar é de pouca importância social e o sofrimento psíquico de Wayne é imperceptível para as demais pessoas no interior da ficcionalidade. Se a crítica recai sobre a constituição do personagem, ou seja, se é extraficcional, é preciso entender que diversos aspectos são exigências da ficcionalidade e do gênero da superaventura, sendo que, nesse universo ficcional, certos aspectos são comuns. Muitos equívocos interpretativos seriam evitados com a distinção entre realidade social e realidade ficcional.

[19] Isso, no entanto, não deve levar a interpretações problemáticas que o responsabilizam por toda a violência e loucura que ocorre na sua cidade. Isso é um produto do universo ficcional criado pelos quadrinistas e, se ele é responsável por uma parte desse mundo violento e destrutivo, também é produto desse mundo, tanto pelo assassinato dos seus pais (que de forma alguma ele poderia ser responsabilizado) quanto por sua situação de capitalista (e, por conseguinte, alvo de criminosos, no contexto desse universo ficcional), sem falar pelos problemas sociais e violência que o antecederam em Gotham City.

----------------------

Publicado originalmente em:

VIANA, Nildo.. Batman, Um Super-Herói Sombrio. In: Artur Rodrigo Itaqui Lopes Filho; Felipe Radünz Krüger; Mario Marcello Neto. (Org.). Batman e a História. Porto Alegre: Dokan, 2024, v. , p. 61-83.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Acompanham este blog: