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domingo, 7 de novembro de 2010

Ser, Ter ou Aparecer?


SER, TER OU APARECER?



Nildo Viana*


O que as pessoas mais valorizam em suas vidas? Cada indivíduo possui sua escala de valores, porém existem valores que são dominantes em determinada sociedade e determinada época. Na sociedade escravista da Idade Antiga ou na sociedade feudal, da Idade Média, valores radicalmente diferentes dos nossos eram dominantes, isto sem falar nas sociedades indígenas. Assim, os indivíduos formam seus valores no processo das relações sociais e por isso eles são constituídos socialmente. O que resta saber é quais são os valores dominantes na nossa sociedade, sociedade capitalista, em seu estágio atual.

O valor dominante hoje é o ter e o aparecer. As pessoas não se preocupam fundamentalmente com o que são e sim com o que possuem e o que aparentam. O ter é fundamentalmente propriedades, posses, mercadorias, dinheiro, status, poder, etc. Ter um carro do ano, ter uma roupa de grife, ter uma mesa sofisticada, etc., é mais importante do que ser uma pessoa que trabalha com o que gosta, pois, se fizesse, não poderia ter o que tem. É preciso o trabalho que dá mais dinheiro e pode deixar o indivíduo ter. Porém, o ter é vazio, a única satisfação real é a percepção que os outros têm da pessoa. Como no livro de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, nunca se pergunta se a pessoa é feliz, etc., e sim o que ela tem, qual seu status na sociedade. Aqueles que não têm, querem parecer que tem. Assim, a sociedade moderna é marcada pelo reino do ter e das aparências.

Na sociedade moderna tudo vira mercadoria, tudo passa a ser objeto de compra e venda. Ao comprar a mercadoria, a pessoa passa a tê-la, a possuí-la. Antes do capitalismo, na sociedade feudal, assim como nas sociedades indígenas, as pessoas produzem não mercadorias e sim valores de uso, produtos para satisfazer suas necessidades. Na nossa sociedade, não se produz para consumir e sim para trocar, vender, e assim adquirir dinheiro e também comprar. O capitalismo se sustenta através da exploração do trabalhador, que produz o suficiente para pagar o seu salário e custos de produção e cria um mais-valor, um excedente, que é apropriado pelo capitalista. Este só realiza o processo de produção devido a isso, a esse excedente que vai lhe permitir o lucro. Com o passar do tempo, tudo vai sendo transformado em mercadoria, até o corpo humano.

Essa situação tem solução? Sim, porém, isto depende do indivíduo e da sociedade em seu conjunto. O indivíduo pode lutar contra si mesmo e superar os valores dominantes do ter e do aparecer, passar a valorizar não a competição, o sucesso, a riqueza, e sim as pessoas, as atividades prazerosas, o desenvolvimento de suas potencialidades físicas e mentais, o que, sem dúvida, é extremamente difícil nessa sociedade, que produz inúmeros obstáculos para tal. Assim, este mesmo indivíduo deve buscar também e fundamentalmente a transformação social para romper com estes obstáculos e com as bases desta sociedade produtivista e consumista. Ajudar a constituição de uma nova sociedade, fundada na igualdade e liberdade, a autogestão social, é o caminho para superar as bases da supervalorização do ter e do aparecer e revalorização do ser.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Sociedade Consumista


A Sociedade Consumista


Nildo Viana



O consumo na sociedade moderna significa, fundamentalmente, compra de mercadorias. O consumo não é um “dado”, é um fenômeno social e histórico. Ele é produto de um longo processo histórico que marca a passagem do feudalismo para o capitalismo. No feudalismo, a produção de bens materiais é produção de valores de uso, voltados para auto-subsistência. No capitalismo, a produção de mercadorias se generaliza, transformando tudo em mercadoria, objetos de consumo. Ocorre, assim, a separação entre trabalhador e meios de produção e entre unidade de produção e de consumo. A emergência da produção de mais-valia proporciona lucro e é a razão de ser para a produção de mercadorias. Isso gera a dinâmica da reprodução ampliada do capital: a produção gera lucro, que é reinvestido e gera mais lucro, sucessivamente, o que cria o processo de concentração e centralização do capital, gerando os oligopólios que depois se tornam transnacionais. O capitalismo se torna mundial e transforma tudo em mercadoria.

Essa reprodução ampliada do capital vai gerar a necessidade da reprodução ampliada do mercado consumidor. Isso ocorre através da transformação de indivíduos não-consumidores em consumidores ou da elevação do consumo individual. Esse processo se intensifica cada vez mais e por isso alguns sociólogos vão cunhar o termo “sociedade de consumo” a partir do pós-Segunda Guerra Mundial. Estratégias de produção de “necessidades fabricadas”, obsolescência planejada das mercadorias, modas, publicidade, são algumas das formas de aumentar o consumo individual. O constrangimento ao consumo se revela até em mercadorias que tornam necessário a aquisição de mercadorias complementares (é o caso do computador e até do hamster: ração-gaiola-remédio-etc.). O consumo vital – de bens necessários para a vida – vai ser reforçado pelo “consumo conspícuo” (Veblen), o consumo de bens supérfluos, em busca de ostentação, status.

Marx afirmou que “a produção cria o consumo” e é por isso que a sociedade produtivista vai gerar o homo consumens (Fromm) e a sociedade consumista, bem como outros problemas derivados (destruição ambiental, lixo). Emerge, assim, o consumismo compulsivo – produto da pressão social, da publicidade, da valoração do ter ao invés do ser, etc.,– e o impulsivo – gerado pela insatisfação com uma sociedade fundada na futilidade e vazio, provocando a busca descontrolada e obsessiva do consumo, como forma de “satisfação substituta” (Freud).

Assim, o consumo compulsivo e impulsivo não satisfaz as necessidades humanas e se torna um fim em si mesmo e por isso o par produtivismo-consumismo deve ser superado e uma nova forma de sociedade deve ocupar o seu lugar, substituindo a busca do lucro pela satisfação das necessidades humanas autênticas.

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Artigo publicado originalmente no Jornal da UFG, Ano V, num. 37, Junho de 2010.

Disponível em: http://www.ufg.br/uploads/files/Jornal_UFG_37_low.pdf

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