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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Os Valores Natalinos são Axiológicos




nata


 Os valores natalinos são axiológicos


Nildo Viana


Natal é uma festa cristã realizada no dia 25 de dezembro, data em que se comemora o nascimento de Jesus Cristo. No entanto, é visível a mudança do significado do natal no decorrer da história. A sua origem está ligada a uma festa pagã que antecedeu o cristianismo e foi adaptada pelos valores e concepções cristãs, transformando-se com o passar do tempo. Após isto, ganhou um significado religioso e os símbolos pagãos, bem como a forma da festividade, mudaram.
O natal cristão foi, inicialmente, a partir do século, uma festa religiosa. Inspirado na mitologia babilônica, a figura de Papai Noel – inspirada em Nicolau, Bispo de Mira, século 05  – representava a solidariedade, já que era uma pessoa que presenteava três crianças de família pobre. Posteriormente, Papai Noel foi transformado em um indivíduo que dá presentes para crianças, que os pedem através de cartas. Já não se trata de solidariedade e de crianças pobres e sim do ato de exigir presentes (as crianças, da forma como são socializadas na atualidade) e oferecer presentes, inclusive os usando para disfarçar as dificuldades de afetividade, sendo um oferecimento de uma satisfação substituta a quem é presenteado. Muitos, inclusive, se não forem presenteados (e não só as crianças), pensam que não são amados (VIANA, 2002).
A religiosidade e seus valores acabam sendo substituídos por outros valores e interesses. O natal deixa de ser festa religiosa comemorativa para se tornar festa mundana consumista. Na sociedade capitalista, onde tudo é paulatinamente transformado em mercadoria, temos a mercantilização do natal. O significado mercantil do natal substitui o seu antigo significado religioso. O natal é transformado numa festa consumista, na qual a publicidade e o mercado buscam aumentar o consumo geral e isso é efetivado todos os anos, como comprovam as estatísticas. Ocorre a generalização da troca de presentes, compras de artigos natalinos e o Papai Noel passa a ser o maior símbolo desta festa em substituição à Jesus Cristo. As crianças nascem e são socializadas nesse contexto e por isso tendem a naturalizar, inclusive quando adultos, tal consumismo e percepção do natal.
Desta forma, há uma manipulação de sentimentos e produção de valores visando aumentar o mercado consumidor. Alguns setores específicos ganham mais com este processo e se criam costumes, desejos, fabricados para esta época, como a “ceia natal”, brinquedos, decoração, determinados alimentos (panetone, peru, castanhas, etc.). Isso produz uma euforia e falsa sensação de alegria em uns, insatisfação e conflitos para outros (os que não possuem dinheiro para consumir). Assim, o natal passa a ter um significado predominantemente mercantil na sociedade contemporânea e de nada adianta apelos para a recuperação de seu sentido religioso, pois estes só possuem ecos em círculos restritos, nos quais a religiosidade ainda é importante e se tornam matéria para produção de novas mercadorias e mais consumo (também símbolos natalinos, como presépios etc.) (VIANA, 2002).
Os valores dominantes de cada época tomam as manifestações culturais em geral. Os valores natalinos são apenas mais uma versão dos valores axiológicos, dominantes. Sem dúvida, a palavra “valores” é muito utilizada, mas poucos a definem e, por isso, falta clareza em seu uso em muitos casos. Nós entendemos que os valores são aquilo que é importante e significativo para os indivíduos e que existem valores autênticos, tais como a liberdade e a criatividade, e valores histórico-particularistas, ligados aos interesses da classe dominante, os valores axiológicos (VIANA, 2007). Os valores natalinos, em sua atual configuração, aparentemente são axionômicos (autênticos), pois pregam a solidariedade e fraternidade, tornando-os valores. Contudo, em uma análise mais profunda, no contexto da sociedade capitalista, o discurso da solidariedade e fraternidade apenas disfarça um mundo competitivo (no qual quem vai fazer mais compras e realizar o consumo dos bens mais caros e desejados ganha) e marcado por conflitos sociais diversos, tornando tais palavras a manifestação de pseudovalores, pois estão subordinados e apagados pelos valores dominantes. A existência de pseudovalores apenas mostra a hipocrisia reinante na sociedade moderna.
A solidariedade, ou fraternidade, é um valor axionômico, autêntico, pois o ser humano, enquanto ser social, tem a necessidade psíquica de associação com outros seres humanos, não somente no sentido de estar junto, mas também através de uma comunidade na qual haja relações sociais harmônicas. No período natalino, muitos afirmam a solidariedade como valor e alguns até buscam praticá-la, seja apenas no restrito círculo familiar, seja através da caridade, entre outras formas. No entanto, isso é apenas um dia por ano, cumprindo um papel de reforçar o resto do ano marcado pela competição e conflito. Ou seja, a sua manifestação ocorre no interior de determinadas relações, que são conflituosas e competitivas, e apenas uma vez ao ano, servindo para renovar as práticas comuns ao invés de realmente questioná-las e isso mostra que são subordinadas a outros valores, que são permanentes e dominantes, fazendo com que essa manifestação esporádica de solidariedade seja um reforço da axiologia.
A literatura, o cinema, bem como outras formas de arte, são veículos da reprodução destes pseudovalores. Claro que, na época ou para seus produtores, poderia ser realmente manifestação de seus valores, mas este não é o caso de grande parte das pessoas na atualidade. Desde o clássico “Conto de Natal” de Charles Dickens e suas diversas adaptações cinematográficas até os filmes de Frank Capra, especialmente “A Felicidade não se compra”, o dinheiro e a avareza são apresentados como desvalores ou como valores secundários diante da família, dos amigos, da solidariedade.
A superação dessa festividade mercantil e consumista pressupõe mudanças sociais radicais, nas quais o mundo da mercadoria seja substituído pelo mundo dos seres humanos e os valores axiológicos sejam substituídos por valores axionômicos.
Referências
DICKENS, Charles. Conto de Natal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2009.
VIANA, Nildo. O Significado do Natal. In: Capitalismo, Psicanálise e Cotidiano. Goiânia: Edições Germinal, 2002.
 VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília: Thesaurus, 2007.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Apresentação do livro Os Valores na Sociedade Moderna




APRESENTAÇÃO

Nildo Viana


A questão dos valores é um tema antigo mas marginal. Alguns pensadores desenvolveram análises sobre os valores, dando-lhes grande importância, embora, para muitos, não contivesse nenhuma relevância, o que, por si só, já demonstra diferenças de valores. Sociólogos, psicólogos e fi lósofos abordaram sob formas diferentes a questão dos valores. Abordaremos a questão dos valores numa perspectiva marxista, o que significa, entre outras coisas, que utilizaremos determinados valores como ponto de partida em nossa análise.
Vivemos num mundo valorativo, que é o mundo humano, e somente numa fantasiosa ideologia da neutralidade científica ou autonomia da arte é que se poderia pensar em estar "livre de valores". O ser humano é um ser valorativo. Esta é uma das teses que trabalharemos aqui. Mas, além desta tese, há a idéia complementar que os valores não são igualmente válidos. Não cedemos, em nenhum momento, ao canto de sereia do relativismo, um produto ideológico que surge de acordo com determinados interesses e valores. Existem valores universais e valores particularistas, valores autênticos e inautênticos. Logo, os valores não são equivalentes e por isso podemos e devemos optar por determinados valores em detrimento de outros. Os valores dominantes são justamente os particularistas e inautênticos, pois eles são os valores da classe dominante e/ou de suas classes auxiliares. Estes formam a axiologia e o seu par antagônico é a axionomia, conceitos que iremos desenvolver no presente livro.

O mundo em que vivemos é um mundo axiológico, conclusão lógica do que foi dito anteriormente, mas existe, marginalmente, um mundo axionômico. Este mundo axiológico se manifesta em todas as esferas da vida social, no âmbito da ciência, da arte, da política, do cotidiano, dos objetos de uso pessoal, de utensílios domésticos. Ele domina amplamente e por isso cria uma cultura asfixiante. Os valores são constituídos socialmente. A axiologia é formada socialmente. O mesmo vale para a axionomia. Na constituição dos valores intervém a consciência. Muitos conflitos de valores em determinados indivíduos são derivados da falta de percepção das raízes dos seus valores, do seu significado e de sua importância social. Os valores autênticos e universais são marginais, mas existem. Os valores dominantes, porém, são fetichistas, inumanos e desumanos. O indivíduo, ao adquirir consciência disso, poderá avançar e superar os seus valores inautênticos e particularistas. Assim, a consciência tem um papel importante na constituição de um mundo axionômico em oposição ao mundo axiológico dominante. O presente livro se insere numa tentativa de fortalecer a axionomia contra a axiologia. É isto que o justifica.

Seguimos o seguinte trajeto: iniciamos com a necessária definição do conceito de valores (capítulo 01) e dos conceitos de axiologia e axionomia (capítulo 02), para depois trabalharmos a relação entre valores, sentimentos e consciência (capítulo 03) e a formação social dos valores (capítulo 04). Após isto, começamos a analisar as manifestações da axiologia na sociedade moderna, principalmente na esfera da ciência e da técnica (capítulo 05), da arte, do brinquedo e dos objetos (capítulo 06), para discutir a categoria de qualidade e sua relação com os valores (capítulo 07), tomando a idéia de qualidade no âmbito das obras artísticas como principal parâmetro e concluímos com uma breve discussão sobre valores e hegemonia (capítulo 08). Este trajeto, por mais insufi ciente que seja, fornece uma visão geral da questão dos valores na sociedade moderna e aponta para o reconhecimento do caráter dominante da axiologia e da urgência do despertar da axionomia, cumprindo o seu papel e objetivo, mesmo que de forma breve.

VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília, Thesaurus, 2007.


 

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