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terça-feira, 20 de junho de 2017

AS DESVENTURAS DO FEMINISMO


AS DESVENTURAS DO FEMINISMO
Nildo Viana

A sociedade brasileira acompanha o desenrolar dos fatos políticos e cotidianos. A burocracia e seu show pirotécnico em suas mais variadas formas de manifestação (impeachment, discurso do golpe, prisão de burocratas e empresários, descoberta de corrupção, troca de ministros, lutas interburocráticas, “escola sem partido”, etc.) e a ascensão do feminismo em diversas vertentes (liberal, radical, etc.) são uma parte dessa paisagem rocambolesca. A irrealidade da vida contemporânea é acompanhada pela realidade virtual, na qual o virtual substitui o real. A diferença entre real e virtual se torna irreal no imaginário dominante. Dos anos 1960 e da reivindicação da “imaginação no poder” até a atualidade e o “poder do imaginário”, temos uma sensível perda de senso de realidade. A realidade desapareceu no imaginário e em breve o imaginário deve desaparecer na realidade. Numa época na qual as pessoas pensam que sua vontade é que determina a realidade e decide o futuro, a realidade ameaça contrariar a vontade das pessoas e decidir o seu futuro.

O burocratismo é um desses elementos. O neoliberalismo neopopulista do PT – Partido dos “Trabalhadores” – ao se apossar do aparato estatal, quis se tornar vitalício e acender vela para dois deuses: o que manda, a classe capitalista, e o que foi eleito pela maioria dos que votam, os trabalhadores. Os burocratas e intelectuais progressistas, que aumentaram quantitativamente com o apoio dos burocratas conservadores oportunistas e ávidos por cargos e dinheiro, tanto os antigos (das velhas organizações sindicais e partidárias decrépitas) quanto os novos (os que aderiram às ONGs e formas semelhantes, bem como aos financiamentos de governo e fundações internacionais) se distanciaram ainda mais da verdade e da realidade.

O novo feminismo aparece nesse contexto, mostrando sua convergência cultural com a nova hegemonia burguesa. O novo paradigma subjetivista, que engloba o pós-estruturalismo, pós-vanguardismo, ideologia neoliberal e todos seus derivados e vertentes, é a base do novo feminismo. Na sociedade brasileira, a sua presença se relaciona com o neoliberalismo neopopulista que se apossou do aparato estatal a partir do governo Lula e durou até o governo Dilma, mas possuem versões distintas e distantes do mesmo, tanto à direita quanto à esquerda.

Rainha deposta, rei posto. A rainha Dilma foi deposta e novo rei vem como uma nova rainha que é “bela, recatada e do lar”, em plena era do feminismo. A repercussão desse acontecimento serve para inserirmos a discussão do “novo feminismo”. A primeira dama é mulher, mas hoje não basta ser mulher para receber a solidariedade feminina (ou melhor, feminista). Tem que ser feminista! A primeira dama não só não é feminista como foi descrita, para escândalo de feministas e “feministos”, como bela (que absurdo!), recatada (que ultrajante!) e “do lar” (que humilhante!). O moralismo progressista une moral e progresso, e a moral é sempre uma ordem, mesmo que seja coisa de positivista. A moral do progresso não é um progresso da moral. O progresso capitalista é sempre algo imoral fantasiado de moral, tanto faz o “gênero” da moral. A moral progressista é superficial, pois não pode ser essencial. Se fosse, mostraria a sua verdadeira face, que é apenas a outra face da mesma moeda. O progressismo é a forma mais esclarecida do conservadorismo. Misoginia e misandria são coisas raras, mas quando um avança, o outro acompanha. Um completa o outro, como o côncavo e o convexo, o masculino e o feminino. E a maioria fica na plateia assistindo o show patético que se desenrola no palco, não sabendo se ri ou se chora, pois não sabe se é comédia ou tragédia.

O reino das mulheres, segundo algumas poucas delas, desabou. A rainha amazona com seu coração valente foi substituída por um rei cavalheiro que não é um “príncipe valente” e nem um “valente príncipe”. Nada mudou para as mulheres durante o reinado feminino, pois não era o sexo que reinava, já que não é atributo seu. A sucessão da realeza não é sexual e sim familiar, da mesma forma que a sucessão presidencial não é sexual e sim burocrática. O problema é que a burocracia escolhida pelo voto foi deposta pela burocracia escolhida por outros votos e pela que é escolhida pelo mérito. Apesar do mérito duvidoso de uma e da escolha duvidosa da outra, é assim que ocorre a sucessão real, com muitas dúvidas e poucas escolhas e méritos. O reinado feminino é o reinado de algumas e por isso não tem o apoio de todas, pois uma coisa é o sexo e outra coisa é a classe social. O sexo feminino foi contemplado com alguns cargos, discursos, para uma minoria tão minoritária que não conseguiu apoio da maioria tão majoritária e agora a minoria busca freneticamente o apoio da maioria, pois assim os cargos e discursos poderão reaparecer. Em nome da mulher imaginária, que é só mulher, desaparece a mulher real, que é um ser humano. Em lugar da luta real, aparece a luta imaginária. Em lugar da luta pela emancipação humana, aparece a luta pela emancipação da mulher burocrática que quer cargos e das que querem deixar de ser silenciadas silenciando os silenciadores e tornando-se silenciadoras. Esse círculo silencioso e vicioso, pouco virtuoso, reaparecerá na conclusão desse texto.

E se alguns achavam que havia limites para a burocratização, agora podem se espantar com a burocratização da mulher! Não a burocratização real, mas a mental, pois agora a luta de algumas mulheres não ultrapassa o nível de uma luta burocrática. Cargos, leis, moral, controle, repressão! Isso ao invés de cooperação, revolução, ética, autonomia, liberdade! A politização do cotidiano é o cotidiano da despolitização. O político agora é entendido como a competição capitalista pelo dinheiro e poder e suas vantagens competitivas no lar e não apenas no mundo mercantil e burocrático. Ao invés do mundo mercantil e burocrático ser destruído pelo mundo humano e das relações desinteressadas, agora o interesse invadiu tudo e assim o mundo cotidiano foi invadido pelo mundo mercantil e burocrático. O cálculo mercantil já havia invadido as casas, mas agora ele se fez consciente e absoluto. O valor de troca e a troca de valores é o que comanda a vida cotidiana, reproduzindo de forma mais intensa as relações de produção e relações de distribuição capitalistas.

Isso é comum desde que existe capitalismo, mas o fato novo é que agora, o último reduto da “fraternidade” se tornou espaço do utilitarismo, hedonismo, da competição. As famílias vivem para o “prazer sem sentimento” dos hedonistas ou então a “utilidade sem sentimento” dos utilitaristas. A outra possibilidade é a família voltada para a competição não-consciente promovida pela mentalidade competitiva[1]. De qualquer forma, os sentimentos foram expulsos, a não ser aqueles que são úteis para disfarçar interesses ocultos. Interesses ocultos e sentimentos expulsos, o par perfeito.

Os sentimentos, outrora, representavam o feminino. Tinha até um “hemisfério cerebral” para comprovar isso, ou Jung e dezenas de autores para afirmar que o reino das mulheres é o do sentimento e o dos homens é o da razão. Isso é falso se afirmado como sendo “universal” e quando se oculta que é o capitalismo que realiza a ampliação da separação entre razão e sentimentos de forma tão drástica. Agora, ao invés de homens limitados pela razão e mulheres limitadas pelos sentimentos, temos a intelectualização das mulheres e a limitação racionalista dos seres humanos em geral. Os sentimentos continuam existindo e atuando. Uns são autênticos e outros são farsas. Uns são fundamentais para a humanização, outros são apenas úteis para a permanência da sociedade desumanizada. Os sentimentos destrutivos reaparecem com mais vigor disfarçados pela razoabilização[2]. Os sentimentos explícitos aparecem, por sua vez, sob a forma de sentimentalismo seletivo e oportunista. O sentimentalismo sem sentimentos é o complemento do racionalismo sem razão. A razão e os sentimentos são separados ainda mais intensamente no capitalismo contemporâneo com a ascensão do irracionalismo (que não deixa de ser “racionalista”) e do sentimentalismo (que não deixa de ser insensível). O irracionalismo é a razão dos oportunistas e o sentimentalismo é a seletividade sentimental dos manipuladores insensíveis (ou o sentimento seletivo dos destituídos de sentimentos simpáticos, devido ao seu processo de desumanização, muitas vezes iniciado na infância).

Assim, a suposta politização do cotidiano significou a interiorização do mundo burocrático, mercantil e competitivo nas relações familiares, na sexualidade, na cotidianidade, mentalidade, na personalidade. Comicamente, uma mulher se dizendo feminista afirma que proibiu o filho de doze anos de sentir prazer com o próprio corpo por estar usando a “imagem de uma mulher sem a permissão dela”[3]. Do “poder do imaginário” à “prisão da imaginação”! A destruição da psicanálise, que começou com o estruturalismo (a psicanálise coisificada e coisificante de Lacan) e terminou com a renovação hegemônica contemporânea através do pós-estruturalismo (a psicanálise esquizofrênica e esquizofrenizante de Deleuze e Guattari) e a sua recusa pelo pseudomarxismo é um elemento que contribui para a incompreensão do risco explosivo que ronda a sociedade contemporânea. Antes era o fantasma do comunismo, agora é o ódio fantasmático. A repressão cada vez maior, o controle cada vez mais intenso, ao lado da mera e falsa liberação individual e sexual, apenas choca o ovo da serpente. Voltaremos a isto em outro texto, para não sair muito do assunto principal.

A politização do cotidiano prometeu transformar o purgatório em paraíso, mas o transformou em inferno. O paraíso foi esquecido como utopia e por isso o que resta é a burocracia (estatal ou civil), a mercadoria e a competição invadindo os lares e as mentes. A mente das mulheres das classes privilegiadas é cada vez mais burocrática, o que tem como causa social a maior presença feminina em cargos burocráticos e a expansão de ideologias derivadas disso[4]. A questão agora é o poder, é quem manda, quem controla. A solução para tudo é o controle, a vigilância. Todo controle e vigilância mostra a existência de conflitos, bem como da moral e do poder de quem controla e vigia. E, nesse mundo de competição pelo poder, se deixa de lado quem realmente controla, que é quem explora. A exploração não existe sem dominação e a dominação só existe por causa da exploração. Esqueçam a exploração e só verão dominação. Os exploradores agradecem e a luta pelo poder dilacera o resto.

As mulheres têm duas opções: ou se libertam totalmente ou apenas trocam de prisão. A prisão feminina é uma prisão que só tem mulheres e não deixa de ser prisão por causa disso[5]. As grades limitam o ser humano quando ele mesmo se limita inventando grades inexistentes. Quando um ser humano diz “eu sou apenas isso”, se limitou, se prendeu, criou uma prisão mental que limita sua ação e desenvolvimento real. Quando um ser humano se liberta de sua prisão mental, pode dizer: “eu sou um ser onilateral e exijo desenvolvimento integral”! Infelizmente, não é essa posição que predomina. Ao invés de pensar “meu corpo, minhas regras”, poderia pensar “minha mente, minha prisão”[6]. Quando esse ser humano descobrir que as regras são produzidas pela mente, então as prisões interiores poderão ser abolidas. Para isso é preciso sair de si mesmo e desenvolver a consciência, o saber. O saber só se desenvolve se tiver livre de interesses, valores, sentimentos mesquinhos e se for acompanhado da percepção da totalidade que é a sociedade.

É preciso abolir suas regras interiores (mentais) para abolir as regras exteriores, sociais. A abolição da prisão interior é condição para abolição da prisão exterior. E a prisão exterior é que gera a prisão interior, a mente individual é criada pela mentalidade coletiva que expressa relações sociais e interesses bem reais, inclusive daqueles que financiam a produção cultural, especialmente o grande capital, o aparato estatal e o capital comunicacional. Um corpo livre pressupõe uma mente livre. Uma mente livre pressupõe uma sociedade livre. Uma mente livre é algo raro e mesmo a mais livre das mentes é constituída socialmente e padece dos males sociais existentes. O desequilíbrio psíquico (neurose, psicose, etc.) não brota do corpo ou do cérebro e sim da sociedade. As mentes das feministas são produtos sociais e históricos tanto quanto a dos demais seres humanos. Ao invés de se ensimesmar em suas concepções, seria mais emancipador se as feministas estudassem as suas origens, suas fontes. Assim, elas saberiam que suas ideias não brotaram como cogumelos das lindas cabeças femininas e sim da sociedade, servindo a determinados interesses e tendo bases ideológicas bastante concretas.

De onde vêm as palavras que usamos? De onde surgiu o termo “desconstrução”? Se não se sabe disso, então é possível uma pessoa pensar que pensa por si mesma, mas pensa metade com sua cabeça e a outra metade com a cabeça dos outros. Quando se tem consciência e clareza de onde vêm as ideias que se adota, então mesmo que venha da cabeça dos outros, nós pensamos com nossa própria cabeça. Quando se desconhece isso ou não compreende essas ideias, seu significado e o interesse por detrás delas, então se pensa parcialmente com a cabeça dos outros. No teatro da consciência, a assimilação – comandada por valores e sentimentos humanistas – deve ser “protagonista”, para usar termo da moda, e a acomodação deve ser “coadjuvante” (VIANA, 2000)[7]. A assimilação de ideias num sentido positivo pressupõe um indivíduo autoconsciente de si mesmo e um mínimo de equilíbrio psíquico, bem como esforço intelectual no sentido de se aproximar da verdade e compreensão da realidade, o que pressupõe valores, sentimentos e concepções humanistas. Essas qualidades estão em falta no mercado e na sociedade capitalista, mas resistem perifericamente, na mente de alguns indivíduos ou em setores da sociedade.

O senso crítico sobre o pensamento próprio e alheio e a reflexão sobre as próprias ideias e sua comparação com a realidade é algo necessário e um antídoto para as fantasias imaginárias, muitas vezes próximas da psicose, mesmo que essa seja coletiva. O pensamento crítico se opõe ao pensamento imaginário, apesar de muitas vezes o pensamento imaginário aparecer como “crítico”. Nesse caso torna-se pensamento pseudocrítico, pois marcado pelo maniqueísmo e processos semelhantes. A percepção dos sentimentos e valores que incentiva a pseudocrítica mostra que é produto da infelicidade geradora de sentimentos antipáticos (destrutivos) e/ou de valores dominantes geradores de competição, inveja, ambição. É por isso que o humanismo é um antídoto e ele só existe em consonância com valores e sentimentos distintos. Para determinados indivíduos, com certas experiências traumáticas ou “vida malograda”, o humanismo pode surgir e existir ao entender o processo social que gerou ambos os processos que lhes atingiram. A linguagem não é neutra e seu uso tem efeitos concretos. Não poderemos desenvolver isso aqui, mas a compreensão da linguagem é parte fundamental de um pensamento crítico. A linguagem não deve dominar o ser humano, é o ser humano que deve dominar a linguagem[8].

A ideologia pós-estruturalista gera o termo “desconstrução” e depois disso não é raro ver militantes, jornalistas da Rede Globo e até “marxistas” repetindo a mesma palavra. As palavras são armas e seu significado revelam sentidos que se inserem numa ideologia que tem efeitos sociais e políticos. Os signos e os significados são constituídos socialmente e tem formas de constituição que são também gerados pela sociedade. Claro que os signos e significados dos discursos ideológicos não são constituídos pela sociedade em sua totalidade e sim pelos ideólogos. O léxico dominante é o léxico da classe dominante. O dominado que pensa com o léxico dominante querendo romper com a dominação está limitado pela dominação mental. Se um indivíduo usa o construto “fato”, se submete ao seu fetichismo, a não ser que transforme o seu sentido inserindo-o numa outra forma de pensar e tornando-o um conceito. Se um indivíduo usa um conjunto de palavras, cuja origem desconhece, cujo significado não é claro, mas que tem uma fonte ideológica, ele reproduz, mesmo que parcialmente, esta ideologia.

O novo feminismo, forjado pela nova hegemonia burguesa (gerador da ideologia do gênero, ideologia neoliberal, pós-estruturalismo, etc.), correspondente ao regime de acumulação integral, é um empobrecimento da luta das mulheres. Isso é perceptível tanto na “problematização”, palavra que algumas não cansam de repetir, quanto na “solução”. E podemos deixar de lado o feminismo radical e as propostas de “extermínio do sexo masculino” e olhar apenas para o feminismo mais generoso. Este gênero de feminismo afirma que o problema reside nas relações entre os sexos e a solução é a igualdade entre os sexos (não usamos o construto “gênero”, uma criação ideológica que apenas gera mais confusão do que esclarecimento)[9]. Aqui temos a politização despolitizada do cotidiano. A totalidade que é a sociedade desaparece e em seu lugar aparece o grande problema: as relações entre os sexos[10]. Isso, muitas vezes, vem acompanhada por uma unidade/homogeneidade ilusória entre os homens e também entre as mulheres. É uma reprodução das representações cotidianas ilusórias (“senso comum” ou imaginário) que afirmam que “todos os homens são iguais” ou “todas as mulheres são iguais”.

Os homens são diferentes, bem como as mulheres. Os homens possuem uma diferença fundamental: a de classe social, que gera antagonismo entre eles. Além disso, possuem diferenças de raça, cultura, processo histórico de vida, entre milhares de outras. As mulheres não escapam disso. Os homens possuem um corpo igual, embora não tão igual assim (no interior da semelhança há a diferença), e as mulheres da mesma forma. A diferença de personalidade é muito mais importante e marcante. As mulheres são constituídas socialmente, assim como os homens, inclusive em seu ethos sexual[11]. O modo de ser feminino e o modo de ser masculino são constituídos socialmente. No entanto, não é uma questão de “gênero” e nem é uma mera “construção cultural”, que vaga no espaço como as nuvens. Esse processo é social e está ligado ao modo de produção, à divisão social do trabalho, aos interesses e divisões de classes, às necessidades sociais e corporais, às diferenças corporais, às mutações culturais e psíquicas, aos processos históricos concretos até chegar aos casos individuais concretos. É por isso que existem indivíduos do sexo masculino que são incapazes da matar uma mosca, bem como indivíduos do sexo feminino que são capazes de matar um homem ou uma mulher por vingança. No nível mais concreto da individualidade, as coisas são muito mais complexas e as diferenças muito maiores.

A solução também é problemática. Um problema equivocado gera uma solução equivocada. Um problema que não identifica o real problema gera uma solução que nada soluciona ou soluciona imaginariamente um problema irreal. As feministas mais generosas clamam: “igualdade entre os sexos”! Isso parece justo e pareceria até “crueldade” recusar o apoio a tal proposta. No entanto, o falso problema gerou a falsa solução. A questão não é “igualdade entre os sexos”. O que se pretende com isso? Somar o fardo da miséria masculina ao fardo da pobreza feminina? As mulheres já não sofrem o bastante sendo mulheres e ainda querem que sofram como os homens? Pobres mulheres, querem que sofram como os homens! Juntar o sofrimento feminino com o sofrimento masculino nos indivíduos do sexo feminino é a sua fórmula de libertação?

Muitas mulheres (e alguns homens de discurso fácil e prática difícil) devem estar sem entender o que se quer dizer aqui. Algumas (e alguns) gritarão: machista! Se querer a libertação da mulher é ser machista, então esse texto é totalmente e assumidamente “machista”. O que propomos é a libertação total da mulher, enquanto mulher e ser humano, e não pseudolibertação parcial, migalhas acompanhadas de novos problemas. A libertação da mulher só pode ser a libertação humana, ou seja, como ser humano integral e não apenas como mulher. A “libertação” de um ser humano que é adesão a uma unilateralidade é autoflagelação.

A mulher é oprimida pela sociedade capitalista que transforma tudo em mercadoria e assim declara que o indivíduo, de ambos os sexos, para sobreviver necessita possuir dinheiro[12]. A dependência do pai e do marido não ocorre da mesma forma como nas sociedades classistas pré-capitalistas e sim através do dinheiro[13]. O vil metal torna vil a relação familiar e a vida mental. A solução feminista é: trabalho alienado para as mulheres! Sejam exploradas e dominadas no trabalho assalariado, mas sejam “independentes”! Essa é a “liberdade” da igualdade entre os sexos!

Para as mulheres das classes privilegiadas, não é o trabalho fabril ou os demais trabalhos subalternos ou mesmo a prostituição e sim um trabalho mais digno, com mais status e melhores salários. As mulheres não podem se tornar todas burguesas, nem burocratas, nem intelectuais. As mulheres das classes privilegiadas terão trabalhos privilegiados e as mulheres das classes desprivilegiadas trabalhos desprivilegiados. O mesmo vale para os homens, mas isso não importa para as feministas. A solução é a seguinte: as mulheres, seres limitados, devem acrescentar a limitação masculina em sua lista de limitações[14]. Dessa forma, ganham independência financeira e passam a sofrer por realizar um trabalho que mesmo sendo o menos incômodo é unilateral e não permite o desenvolvimento integral do indivíduo, independente do sexo.

A mulher pode se libertar sem haver a libertação humana? A resposta é não, pois tal libertação seria tão parcial que não libertaria efetivamente, apenas trocaria uma miséria por outra, ou acrescentaria mais pobreza na pobreza. A mulher, assim como o homem, só pode se libertar quando puder desenvolver o conjunto das suas potencialidades, que inclui não apenas as necessidades corporais (compartilhadas com os animais e que é a única reivindicação de certos setores da sociedade...), como a alimentação, a sexualidade, a habitação, etc., e sim as necessidades psíquicas e especificamente humanas, como a socialidade, que significaria a realização sentimental (afetiva) e integral com os demais seres humanos através de relações sociais não mediadas pelo mundo mercantil, burocrático e competitivo, e a práxis, o desenvolvimento autoconsciente e teleológico das energias físicas e psíquicas, possibilitando o desenvolvimento intelectual (criatividade, consciência, etc.), compondo uma personalidade que signifique a autorrealização humana.

Para conseguir isso é preciso abandonar as lutas especificamente femininas e ficar esperando o “admirável mundo novo”, a utopia, se realizar? Claro que não! É necessário manter as lutas femininas (e também as masculinas) contra a violência sexual, contra a violência doméstica, contra o tratamento desigual no plano salarial e profissional, etc. O que se questiona aqui é como se faz isso (e também algumas propostas e reivindicações, meros produtos culturais passageiros e sem sentido, que é um derivado das mesmas fontes ideológicas de certas tendências feministas ou então torná-la “a luta”).

O problema – e o que se recusa aqui – é isolar e absolutizar as lutas femininas. Isso leva a identificar a causa dos males femininos nos indivíduos do sexo masculino em geral, bem como ver apenas os “defeitos” masculinos e não os femininos (a reprodução da sociedade também é realizada pelas mulheres em todas as instâncias, inclusive na própria relação entre os sexos e os ethos sexuais criam limitações e problemas, bem como méritos, em ambos os sexos). O que se questiona aqui é, fundamentalmente, o isolamento das lutas femininas (gerado por diversos motivos, sendo a hegemonia burguesa a principal responsável por isso), o que gera não somente conflitos e maniqueísmos desnecessários (ANDERSON, 2016)[15] em alguns casos mais drásticos, como também adesões a governos, ideologias, propostas, que ao invés de contribuírem com a emancipação da mulher, acabam servindo para reprodução da sua opressão.

O isolamento das lutas femininas significa o apoio à sociedade capitalista e tudo que ela significa, para mulheres e homens. Um bilhão de seres humanos (mulheres, homens, crianças) estão passando fome, ou seja, sem a satisfação da mais básica necessidade corporal, a alimentação. Isso diz muito sobre essa sociedade do desperdício e do consumismo e revela sua racionalidade: o cálculo mercantil. O “silenciamento”, para usar termo agradável aos ouvidos “feministas” sobre essa situação que atingem milhões de mulheres, revela o isolamento da luta e o reducionismo ideológico. Esse isolamento que promove, simultaneamente, um abandono da utopia e da meta de libertação humana total e o afastamento da luta de classes, ou seja, da luta proletária, essencial para a constituição de uma nova sociedade, são apenas consequências desse processo. A luta especificamente feminina é importante, bem como as lutas das classes desprivilegiadas, mas o seu isolamento faz perder o senso de realidade e até sua importância, pois acaba se tornando elemento de reprodução da situação que gera o que ela combate. A mulher que morre de fome não é isolacionista e a feminista isolacionista não morre de fome.

A burocratização cada vez mais intensa da sociedade caminha lado a lado com a mercantilização. Além do controle, do poder, dos cargos, temos o problema do dinheiro, da mercadoria, do lucro. E para conquistar isso, temos a velha tradição capitalista: competição. Esses são os três pilares da sociabilidade capitalista e que são introjetados na mente dos indivíduos, homens e mulheres. Seres competitivos, burocráticos e mercantis. Nesse contexto, o sexo (em duplo sentido) é usado na competição e explica, em diversos casos, as razões da opressão. Da mesma forma, a mercantilização de tudo, inclusive do corpo e da mente, é outra fonte de opressão. A mercantilização do corpo é visível na prostituição e venda de órgãos. A mercantilização da mente é invisível, mas pode ser vista nos comportamentos oportunistas, nas produções culturais ideológicas, nas vantagens competitivas de determinadas ideias, na conveniência de determinadas concepções e discursos.

A mercantilização do corpo feminino é deplorável. Para ocorrer, é preciso de oferta e procura. A oferta pode ser provocada por necessidade ou ambição, a procura pode ser provocada por insatisfação, miséria sexual ou cultural, desequilíbrio psíquico. A mercantilização da mente feminina, quando uma mulher vende suas ideias para ter espaço, status, acesso a cargos, sucesso, fama, é algo igualmente deplorável, mesmo porque aqui há menos necessidade e mais ambição. Na prostituição corporal, temos a miséria financeira da mulher e a miséria sexual do homem. Essa relação também pode ser inversa, em alguns casos. Na prostituição mental, temos a miséria ética de mulheres e homens e a riqueza financeira de outras mulheres e homens. A miséria ética é bem pior que a miséria financeira.

Em síntese, pensar o novo feminismo é pensar a guerra de sexos no lugar da luta de classes (REED, 1980), o culturalismo, o moralismo (via mudanças comportamentais e/ou legais). A proliferação de construtos e noções equivocadas (vivência, lugar de fala, protagonismo, empoderamento, desconstrução) que compõem o discurso oportunista é o triste complemento desse quadro que é emoldurado pelas ideologias hegemônicas. O reducionismo culturalista é o coroamento disso tudo. A cultura se transforma numa entidade metafísica, não é mais constituída social e historicamente no fantástico mundo ideológico. Por isso, o feminismo se perdeu no meio do caminho e agora anda em círculos. E pelo visto vai continuar andando em círculo e nunca sairá da floresta do capitalismo e nem conseguirá se libertar dos “espíritos” que a povoam e que geram seu pensamento circular. Pensamento circular gera ação circular e ação circular gera pensamento circular. É preciso sair do círculo para lutar efetivamente e realmente pela libertação. Dentro do círculo só existe reprodução. É preciso destruir o círculo para efetivar a libertação. O círculo mental que isola as relações entre os sexos deve ser rompido para que as pessoas descubram que existe vida fora do círculo, pois isto é condição para que o círculo real seja abolido.

Referências


ANDERSON, S., 2016. Machismo ou Sexismo?. Coletivo 8 de Março, pp. http://coletivooitodemarco.blogspot.com.br/2016/03/machismo-ou-sexismo.html.
JUNG, C. G., 1978. O Eu e o Inconsciente.. Petrópolis: Vozes.
PAGLIA, C., 2016. Crítica ao Feminismo Narcisista. Blog Coletivo 8 de Março, Issue http://coletivooitodemarco.blogspot.com.br/2016/06/critica-ao-feminismo-narcisista.html.
REED, E., 1980. Sexo Contra Sexo ou Classe Contra Classe?. São Paulo: Versus.
RUCK, R., 2016. A Razoabilização como Principal Mecanismo de Defesa. Sociologia em Rede, 06(06). Disponível em: http://redelp.net/revistas/index.php/rsr/article/view/464/422 
VIANA, N., 2000. Práxis, Alienação e Consciência. In:: A Filosofia e Sua Sombra. Goiânia: Edições Germinal.
VIANA, N., 2006. Gênero e Ideologia. In:: N. VIANA, ed. A Questão da Mulher. Trabalho, Violência e Opressão. Rio de Janeiro: Ciência Moderna.
VIANA, N., 2010. Emancipação Feminina e Emancipação Humana. Revista Espaço Acadêmico, 09(107), http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/9767/5466.





[1] Isso não é generalizado. Em outros lares, pode haver “sentimento sem prazer” ou sem utilidade, ou pode haver sentimento e prazer, entre inúmeras outras possibilidades. A hegemonia não significa homogeneidade. As famílias proletárias e das classes desprivilegiadas, por exemplo, estão distantes dos novos modelos das classes privilegiadas. O processo de coisificação é mais forte nas classes privilegiadas, tanto em suas tendências mais conservadoras quanto em suas tendências mais progressistas. A recente polarização entre partidários e adversários do impeachment, bem como entre PT e adversários mostra que a coisificação gera monstros, ódio, maniqueísmos, irracionalismos, cuspes, incivilidade, tapa na cara e muitas outras maravilhas que a sociedade burguesa pode nos oferecer em épocas de desestabilização. E esse espetáculo circense pode ser acompanhado pelos meios oligopolistas de comunicação, que transmite ao vivo o processo de desumanização, sob as suas mais variadas formas e como se tudo estivesse indo muito bem.

[2] Termo utilizado por (RUCK, 2016), ou “racionalização”, no sentido que o psicanalista Ernest Jones forneceu ao termo e depois foi retomado por Sigmund Freud e, principalmente, Anna Freud.

[4]O problema hoje é que as mulheres, educadas e ambiciosas, querem entrar no novo mundo burguês do trabalho em escritórios, que são parte do legado da Revolução Industrial. Então temos um novo mundo em que homens e mulheres trabalham lado a lado nos escritórios, em que a divisão do trabalho entre homens e mulheres não existe. Portanto, ambos têm de mudar suas personalidades para se encaixar nessa realidade porque ambos são uma unidade de trabalho, são a mesma coisa” (PAGLIA, 2016). Embora não seja possível concordar com a totalidade da entrevista de Camille Paglia, pelo menos nesse aspecto ela se aproxima da realidade, ao mostrar a inserção das mulheres no trabalho burocrático e a sua mutação mental (“educadas” – ou seja, intelectualizadas – e “ambiciosas”, se aproximando ainda mais da mentalidade burguesa com seu caráter competitivo, mercantil e burocrático) que, no entanto, se aplica mais às mulheres das classes privilegiadas.

[5] Imaginemos o extermínio de todos os homens e a constituição de uma “sociedade de mulheres”, cuja forma de reprodução fosse a clonagem. Se se mantiver as relações de produção capitalistas, haverá quem explora e quem é explorado, haverá aparato estatal, controle, repressão. Haverá quem manda e quem obedece. Trabalhadoras e empregadoras domésticas. Trabalhos superiores e inferiores, bem como diferenças salariais. No fundo, o mundo será o mesmo, a diferença é entre classes. Um mundo sem homens, desde que seja capitalista, é um mundo de exploração, dominação, competição, mercantilização, burocratização, conflitos, lutas, miséria, infelicidade, fome, insatisfação, desequilíbrios psíquicos. Claro que, numa sociedade capitalista real, as diferenças sexuais geram diferenças sociais e as mulheres sofrem com o processo real de opressão, especialmente as das classes desprivilegiadas. No entanto, é preciso diferenciar essas camadas de problemas e saber o que gera o quê e não responsabilizar os homens por causa do seu sexo, sendo que a fonte disso são as relações sociais concretas e o processo histórico que geram situações e formas culturais que são determinadas e não determinantes.

[6] O corpo como propriedade ou mercadoria é apenas uma versão liberal e canhestra do corpo da mulher. O corpo não existe separado da mente (razão, sentimentos, inconsciente, valores, etc.) e a mente não existe fora da sociedade, assim como os corpos reais de indivíduos de carne e osso só existem em contatos, diretos ou indiretos, com os corpos dos outros e em espaços físicos e relações sociais específicas, que é algo muito mais importante. A corpolatria e o fetichismo do corpo são uma forma de isolar o corpo da totalidade da realidade. Uma mulher dançar nua em seu quarto ou residência tem um significado, mas fazer isso numa boate em troca de dinheiro tem outro, bem como na praça pública ofendendo a moral, os costumes, os valores, de outros. O neoindividualismo aponta para o desrespeito aos outros e ao escândalo como forma de luta e para a inadmissibilidade do “controle dos corpos”. No fundo, é apenas uma concepção hipócrita, pois com o pretexto de não ter seu corpo controlado quer controlar o corpo dos outros, pois o corpo faz o que a mente manda e o que alguns “corpos” andam fazendo, inclusive atacando as crenças alheias, é atacar os corpos alheios. Assim, a luta “corpo a corpo” é apenas a máscara das lutas ideológicas que ficam no reino das ideologias e nada mudam na realidade concreta e não resolvem os problemas sociais realmente existentes.


[8] O uso não-consciente da linguagem é expressão do domínio da linguagem (com seus significados, vínculos com ideologias e raízes/efeitos sociais “desconhecidos” e geralmente contrários aos interesses dos próprios utilizadores da mesma) sobre o ser humano, enquanto que o uso consciente e crítico mostra o domínio do ser humano sobre a linguagem.

[9] Várias críticas já foram endereçadas ao mesmo. Apresentamos uma crítica em Viana (2006), disponível em: http://informecritica.blogspot.com.br/2014/11/genero-e-ideologia.html.

[10] Existem concepções distintas, pois para algumas esse é o problema central, para outras é um dos principais problemas, etc. No entanto, mesmo para quem não considera o único ou principal problema, ao se limitar a ele, mesmo falando da existência de outros, acaba seguindo a mesma lógica de pensamento.

[11] O conceito de ethos sexual (VIANA, 2010) é semelhante ao de “papel sexual”, sem os limites ideológicos deste.

[12] Isso também atinge o homem, mas devido à divisão social do trabalho e relação distinta com o mercado de trabalho, o desemprego é menor, proporcionalmente falando, apesar das mudanças existentes. Sem dúvida, isso também tem relação com o corpo feminino e seus efeitos sobre o trabalho, num contexto em que este é realizado para o lucro dos capitalistas e que isso gera criação de diferenças de tratamento que facilitar uma maior exploração das mulheres.

[13] Isso atinge a sexualidade, mas não é nosso foco, embora seja parte do problema.

[14] E não deixa de ser curioso que o que se assimila do ethos sexual masculino seja geralmente o pior que os indivíduos do sexo masculino desenvolveram após um longo processo histórico, como agressividade, insensibilidade, etc. e deixando de lado o que é mais humano e enriquecedor, como a razão humanista (que difere da razão instrumental), determinação, o desenvolvimento da reflexão crítica e da cultura em geral, etc. A oposição entre sentimentos e razão, ideologicamente concentrada no feminino e masculino, respectivamente, e que ganhou efetividade parcial com o processo histórico e social, gera um problema na resistência ao capital, o gerador desse processo, pois é necessário uma síntese desses elementos nos indivíduos concretos, independente do sexo, e por isso Jung, através de seu pensamento metafísico, queria reunir o animus e a anima (JUNG, 1978). Outro efeito disso é a luta pela libertação humana ficar restrita. Sentimento sem razão e razão sem sentimento são duas formas de cegueira. Nem a cegueira do amor, nem a cegueira da razão. Hegel já dizia: “não basta amar, é preciso saber amar”.

[15] Parte do ódio e geração de maniqueísmo tem base real, tal como homens embrutecidos pela sociedade embrutecida que embrutecem as mulheres. O embrutecimento é um fenômeno social e não é generalizado e por isso homogeneizar os homens por causa de experiências individuais é um equívoco. A violência sexual é a mais traumática e o sinal mais patente da miséria humana e de uma sociedade embrutecida e embrutecedora. As suas consequências psíquicas são graves e em muitos casos não superadas. Por isso, a luta contra a violência sexual é uma das mais importantes, mas não apenas a visível que aparece na TV e sim na que ocorre no mundo real fora das telas, da atenção tecnocomunicacional (meios oligopolistas de comunicação) e da escandalização das classes privilegiadas, bastante dispostas a fazerem micromanifestações contra uma suposta “cultura do estupro” ao invés de combater as raízes sociais do estupro. Aqueles que combatem fantasmas não saem do mundo fantasmático e só reproduzem fantasmagorias. É preciso, seja para abolir o fenômeno que se combate ou pelo menos para minimizá-lo, ir à raiz do problema, atacar as causas e não os efeitos. É menos cômodo e mais eficaz, embora seja incômodo e ineficaz para os interesses pessoais.

terça-feira, 8 de março de 2011

Por que existe um dia da mulher?


Por que existe um dia da mulher?

Nildo Viana


Dia 8 de março, Dia da Mulher. As pessoas geralmente não se perguntam por qual motivo existem determinadas datas comemorativas. Por qual motivo existe um dia da mulher? E a mesma pergunta deveria ser feita sobre outras datas, tanto as festivas quanto as demais. O Dia da Mulher, segundo alguns, é uma homenagem às operárias tecelãs que morreram carbonizadas em Nova York em 1857, como resultado da repressão à sua manifestação.

Porém, este acontecimento histórico deixa de ser, para muitos, uma data simbólica das lutas femininas e se transforma em apenas mais um dia formal de comemoração, tal como o Dia da Árvore e o Dia do Índio. A destruição das sociedades indígenas e o desmatamento, no entanto, continuam, assim como a opressão das crianças e das mulheres continua, apesar de existir “um dia” de homenagem a estes segmentos sociais.

No entanto, o Dia da Mulher vai perdendo cada vez mais o seu significado original e hoje vem sendo mercantilizado, como é o Dia da Criança, o Natal, entre outros exemplos. O costume de dar flores começa a se alastrar, bem como já criaram “cestas para o Dia da Mulher”.

O Dia da Mulher é um dia no qual se faz discurso sobre o sexo feminino, as feministas e os políticos fazem referência à sua luta e importância, os meios de comunicação fazem reportagens e passam mensagens, o comércio busca vender produtos voltados para esta data. Mas nada de substancial muda na condição feminina.

Existe o Dia da Mulher pela razão de que existe um problema da mulher, a questão feminina, mesmo que este seja escamoteado. É a opressão da mulher – e sua luta contra ela, como no caso das tecelãs norte-americanas – que faz existir o Dia da Mulher. A opressão da mulher se manifesta no cotidiano, no trabalho, na esfera doméstica, nos atos de violência, nas condições de vida, na cultura, no mercado.

Mas as mulheres não deveriam ter apenas um dia, e sim todos os dias, assim como as crianças, os índios, bem como todos os explorados e oprimidos. Enquanto houver opressão da mulher, haverá o Dia da Mulher. E por isso esse dia deveria ser um dia de luta contra essa opressão e de todas as outras formas de exploração. Esta luta sendo vencedora significaria o fim da opressão e, por conseguinte, o fim do Dia da Mulher e assim todos os dias seriam das mulheres – e dos homens – e não apenas um dia.

____________________
Artigo Publicado originalmente no Jornal Diário da Manhã, edição 6702, http://www.dm.com.br/impresso.php?id=128556.

VIANA, Nildo. Por Que Existe um Dia da Mulher? Diário da Manhã, Goiânia-GO, v. 6701, p. 04 - 04, 12 mar. 2006.

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segunda-feira, 7 de março de 2011

A Opressão Feminina: Música e Vídeo como Crítica Social

A mulher e a dominação capitalista

A Opressão Feminina: Música e Vídeo como Crítica Social

A opressão feminina possui séculos, bem como a luta contra ela. A sua forma de manifestação na sociedade moderna é caracterizada por um vínculo entre opressão da mulher e capitalismo, ligando exploração do proletariado, luta de classes, ideologias, mercantilização e outros fenômenos correlatos. Uma grande produção bibliográfica já foi produzida sobre esta questão. Porém, além da produção intelectual, teórica ou ideológica, sobre este tema, a produção artística também discute a opressão feminina, sob variadas formas.

Uma dessas formas é a música e, atualmente, a produção de vídeos para o Youtube, também podem assumir um papel importante na luta cultural contra a opressão feminina e outras formas de opressão e exploração. Por isso colocamos abaixo a letra da música "Ela" e, posteriormente, um pequeno vídeo sobre opressão feminina.

A letra da música aponta para o processo de consciência da opressão da mulher e, ao mesmo tempo, a necessidade de não tomá-la isoladamente, como algo que tem história própria, autônoma e independente, pois a opressão feminina é um produto histórico-social e relacionado com a totalidade da sociedade, intimamente relacionada com a sociedade de classes e com a exploração do trabalhador.

 
Ela

Letra: Nildo Viana
Melodia: Edmilson Marques
Quem é ela?
É um ser humano...
Oprimida, reprimida, inibida!
Ofendida, agredida, submetida!

Essa história teve um início
E por isso pode ter um fim
O objetivo é liberdade
Uma totalidade chamada felicidade

Mas no reino do dinheiro e do capital
Há pobres e ricas, aliadas e inimigas
Por isso existem as mulheres reformistas
Por isso o homem é a imagem do mal

Desde o nascimento
O que se faz com ela é doutrinamento
Para a beleza e a mesa
E não para a ação e o enfrentamento

Ela também reproduz o que combate
O homem induz e não aceita empate
Mas eles são diferentes e iguais
Mas elas também são desiguais

A sociedade impede o desenvolvimento
Do seu potencial
Isso provoca o retraimento
E dentro de si gera o mal

Ilusão, destruição e corrupção
Por dentro e por fora
A sombra cresce no seu interior
O que resta é a reprodução e a dor

O sofrimento dela
Gera o sofrimento dele
Alguns deles são responsáveis
Estão “bem” e são execráveis

Ela está presa na torre de um castelo
E não virá nenhum príncipe encantado
Para libertá-la, amá-la, dominá-la
Onde há príncipe, há reinado
Onde um reina, ela é escravizada.

Trocar de castelo é apenas troca
Mudar de posição nenhuma mudança provoca
Só individual e parcial, mesmo sendo rainha
A autolibertação é o que importa

A união entre ele e ela
Sem conflito, opressão e competição
Será possível quando surgir uma nova era
Quando houver transformação, revolução, sexual, social.

Ela é um mistério
Diz um homem sério
Mas não há segredo
O que existe é medo

De saber...
De enfrentar...
De agir...
De mudar...

Esta música pode ser ouvida clicando abaixo:
Ela (2010) - Edmilson Marques

Letra: Nildo Viana

Melodia: Edmilson Marques





Um vídeo sobre a mesma temática e tendo esta música como som de fundo, pode ser acessado abaixo:

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domingo, 6 de março de 2011

Emancipação Feminina e Emancipação Humana

 
Emancipação Feminina e Emancipação Humana

Nildo Viana*

Resumo: O presente artigo apresenta uma discussão sobre a relação entre emancipação feminina e emancipação humana. A partir de uma discussão sobre liberdades parciais e liberdade total, busca mostrar os vínculos da opressão feminina com a opressão masculina e várias outras formas de opressão, colocando a dependência recíproca entre a libertação da mulher e a libertação humana.

Palavras-Chave: Opressão, Mulher, Libertação, Ethos Feminino, Ethos Masculino, Totalidade.

Abstract: The article presents a quarrel on the relation between feminine emancipation and emancipation human being. From a quarrel on partial freedoms and total freedom, it searchs to mostrarwith the masculine oppression and several other forms of oppression, placing the reciprocal dependence enter the liberation of the woman and the liberation human being.

Words-Key: Oppression, Woman, Liberation, Feminine Ethos, Masculine Ethos, Totality.

A palavra emancipação é muito utilizada, bem como a ideia de emancipação feminina. Emancipação significa libertação E libertação significa “tornar livre”. Nesse sentido, pensar a emancipação feminina é pensar sua libertação e isso remete ao problema do que significa liberdade e qual falta de liberdade a mulher está encerrada. Esse será nosso ponto de partida analítico, que, a seguir, a relação indissolúvel entre libertação feminina e libertação humana.
A ideia de liberdade pode expressar duas coisas distintas. Erich Fromm, retomando Ernst Bloch, coloca que existe “liberdade de” e “liberdade para” (Fromm, 1981). Ele explicita que “liberdade de” é aquela forma de liberdade que significa estar livre de algo (como alguém que se livra da prisão) e “liberdade para” expressa a possibilidade de agir no sentido desejado. Em síntese, a “liberdade de” significa ausência de limites e imposições externas, tem caráter puramente relacional com coação externa que é suspensa e “liberdade para” expressa a possibilidade de agir de acordo com a própria determinação.

Pensar a libertação feminina em termos de apenas “liberdade de” é muito restrito. A mulher pode se livrar da escravidão, como o homem, tal como ocorreu na sociedade antiga, mas isto é insuficiente e não significa uma autêntica emancipação. Sem dúvida, a “liberdade de” é condição para a “liberdade para”, mas limitada e sem o complemento da outra forma de liberdade, continua sendo uma prisão. Isto ocorre pelo fato de que a “liberdade de” é sempre uma liberdade parcial se não for complementada pela “liberdade para” e assim vamos substituir estes termos por liberdade parcial e liberdade total. A “liberdade de” é parcial pelo mesmo motivo que alguém que cumpriu uma pena numa prisão e se livrou dela, ao sair, estará preso em várias outras “prisões”: o preconceito, a desconfiança, a falta de dinheiro, o desemprego, etc., e assim ele irá lutar contra todas estas outras “prisões” e se conseguir romper com algumas delas, ainda ficará preso em determinadas relações sociais, moral e legalmente “superiores”, mas em novas prisões: o trabalho alienado e a prisão da fábrica (ou loja, etc.) em substituição ao desemprego, para ficar em apenas um exemplo.

Somente uma libertação total poderia fazer deste indivíduo um ser humano onilateral e desenvolvido, e por isso é necessário a dimensão utópica da libertação humana, reconhecendo a necessidade de crítica da sociedade existente, uma prisão que encerra milhares de outras prisões, e proposta de uma sociedade alternativa, na qual ocorra a emancipação humana, a libertação total, em que se torna possível a “liberdade para”. A libertação total é manifestação plena da “liberdade para”, na qual a autodeterminação do indivíduo associado com outros indivíduos lhe permite o pleno desenvolvimento de suas potencialidades (Fromm, 1978; Fromm, 1983; Marx, 1983).

Voltando à questão feminina, a liberdade parcial é pré-condição para a libertação total. Assim, conquistas e lutas imediatas, processos de ampliação da liberdade parcial, são momentos necessários de uma luta, mas que só possuem um verdadeiro sentido se acompanhados por um vínculo indissolúvel com a emancipação humana. A opressão da mulher ocorre sob variadas formas e, na sociedade moderna, ocorre sob o signo da mercantilização e alienação (Viana, 2006a).

Porém, a discussão sobre a opressão feminina[1] sempre esbarra em obstáculos metodológicos e políticos. No que se refere ao problema do método – que é apenas outra face do problema político – é o isolamento da questão feminina e sua redução a uma mera relação entre mulher-homem, desvinculando das demais relações sociais (Viana, 2006b). Assim, até mesmo autores como Pierre Bourdieu (2003) acabam isolando as relações sociais entre os sexos e criando uma suposta “dominação masculina”, reproduzindo valores e concepções extremamente questionáveis (Viana, 2006c). O problema político associado a este problema metodológico é o de gerar um microrreformismo (Braga, 2009; Braga, 2010; Viana, 2009a), no qual a dimensão utópica é abolida e a proposta de transformação social (libertação humana) é esquecida e o objetivo passa a ser conquistar espaços dentro da sociedade existente. A libertação parcial da dependência financeira, por exemplo, é substituída pela nova opressão que é a da inserção no mercado de trabalho alienado. Sai da prisão da casa para a prisão da empresa. As duas são prisões e seria necessário romper com todas as prisões, e, nesse processo, criar uma sociedade sem prisões.

Obviamente que uma prisão pode ser mais confortável do que outra (a cela especial é “melhor” do que a cela comum e esta é “melhor” do que a solitária), porém, não deixa de ser prisão e nem produz, necessariamente, a libertação feminina, mas tão-somente mais conforto para algumas mulheres. Para que essa liberdade parcial fosse significativa além do interesse individual e grupal (o microrreformismo sempre está ligado ao processo de vantagens competitivas dentro da sociedade capitalista e isso vale para os mais variados grupos sociais) seria necessário o vínculo com a luta pela libertação humana.

Aqui entramos num ponto fundamental: é possível emancipação feminina sem emancipação humana? Ou seja, é possível a libertação feminina sem uma libertação geral da humanidade? Em nível geral, a emancipação humana pressupõe a realização da utopia, ou seja, a transformação social radical que engendra o que Marx denominou “livre associação dos produtores” ou “autogoverno dos produtores”, hoje o que chamamos autogestão social. Isto pressupõe a abolição do capitalismo, ou seja, da sociedade moderna em sua totalidade. A libertação de grupos sociais isolados sem uma alteração do conjunto das relações sociais significa tão-somente melhorias limitadas no interior de relações limitadas. É preciso uma concepção de totalidade para poder perceber que a libertação feminina passa pela libertação masculina e que ambas dependem de diversas outras formas de libertação. A opressão feminina está ligada ao processo da propriedade privada e tudo que deriva daí, e, na sociedade moderna, ao processo de mercantilização geral que ocorre no conjunto das relações sociais e outros aspectos da sociabilidade capitalista (Viana, 2009b). A opressão feminina, assim como todas as formas de opressão, só pode ser abolida com o processo geral de emancipação humana (Weil, 2001).

A suposta “dominação masculina”é mais uma produção de um inimigo imaginário do que uma identificação real do que consiste a opressão feminina e quais suas condições. Por detrás desta ideia há o maniqueismo e a incompreensão do conjunto das relações sociais. Geralmente falta a percepção do papel da mulher neste processo, pois são “metade-vítima”, “metade-cúmplice” (Beauvoir, 1980), e é uma concepção demasiada idílica da mulher não observar as suas ações concretas e reprodução das bases de sua própria opressão (e da opressão masculina) ou conseguir benefícios individuais ou grupais neste contexto (o que ocorre com frequência maior nos casos das mulheres das classes privilegiadas). Da mesma forma, não perceber que as mulheres estão divididas em classes sociais distintas, entre outras divisões sociais, que promovem várias diferenças, inclusive de interesses, convivendo com interesses comuns derivados da condição feminina. A diferença de classe promove diferença em grau de opressão (Peixoto, 2006; Pinheiro, 2006). Poucos percebem, por exemplo, que “a mulher no poder governamental apenas reforças as práticas excludentes estabelecidas pela classe dominante do sistema político” (Marques, 2006, p. 91). Assim, neste contexto maniqueista é que toda crítica a qualquer mulher, por ser integrada e reprodutora destas relações, aparece com o epiteto de “machismo”, com sentido totalmente pejorativo e contrário ao “feminismo”, como sentido totalmente positivo. Toda crítica a uma mulher particular ou à mulher integrada no processo social de reprodução da opressão (própria e alheia) é vista como “machismo”, o que é apenas uma nova manifestação do maniqueismo: o homem é apenas opressor, o mal, a mulher é apenas a oprimida, o bem, e por isso o primeiro é em tudo criticável e a segunda está acima da crítica. Isso produz um imaginário conveniente nas relações sociais concretas e nas disputas nem sempre nobres nas relações de trabalho e familiares.

O homem também é oprimido devido a configuração das relações sociais no capitalismo. Para entender isso é necessário entre a regularização do comportamento social dos dois sexos. Isto foi expresso, de determinada forma, na ideia de “papel social”:

"A vida social e cultura de toda sociedade tem suas formas baseadas em grande parte na diferenciação dos dois sexos, na disparidade de papéis atribuídos ao homem e à mulher. Em geral, atribui-se essa distinção a uma diferença natural, biológica, que teria determinado o papel fixado pela sociedade ao homem e à mulher. Parece, contudo, que é exatamente o contrário: precisamente pelo fato de quase todas as coletividades haverem baseado suas constantes de comportamento e suas instituições na diferença biológica que existe entre o homem e a mulher, a sociedade sancionou a referida diferença além dos limites biológicos, através de todos os meios de que dispõe, interdições e tabus rigorosos, a fim de situá-la fora do domínio das variações de comportamento. A crença numa 'diferença natural' dos sexos e do comportamento diferenciado do homem e da mulher é, também ela, do ponto de vista social e cultural, um modo especificamente moderno de fixar as bases de uma civilização e de uma coletividade. As diferenças biológicas reais que existem entre os dois sexos constituem um pretexto, bem mais que uma razão, para a diferenciação social dos papéis atribuídos ao homem e à mulher na vida da coletividade” (Schelsky, p. 11-12).


Schelsky retoma a contribuição de Mead (1988), apesar de algumas ressalvas, para mostrar a variação dos comportamentos dos dois sexos em diversas sociedades diferentes. Isso serve para demonstrar que a regularização do comportamento social dos dois sexos é marcado por uma imposição social e que delimita atividades, gestos, falas, etc., para ambos os sexos e não apenas para um deles. Esse processo de imposição é manifestação de uma violência. Porém, a violência é sempre uma relação social e se alguém impõe, então quem realiza a imposição? Aqui há duas soluções possíveis: a primeira é a concepção fetichista de sociedade: “o papel fixado ao homem e à mulher pela sociedade”; “A sociedade sancionou”, tal como se vê na citação de Schelsky. Porém, ele irá superar parcialmente esta concepção no decorrer de sua exposição, a qual voltaremos adiante. Outra possibilidade é colocar que tal imposição é realizada pelos homens em relação às mulheres, a suposta “dominação masculina” (Bourdieu, 2003).

A primeira posição, embora exista e consista em tomar a sociedade como uma “segunda natureza”, realizando um processo de naturalização das relações sociais (Bauman, 1977) não é suficiente para explicar o fenômeno da regularização do ethos[2] de cada sexo. Schelsky, ao dar continuidade em sua exposição, amplia a possibilidade de um melhor entendimento desse processo:


"A influência da classe dirigente de uma sociedade também se exerce muito frequentemente de modo decisivo, no sentido de que a delimitação dos papéis atribuídos ao homem e à mulher em seu meio próprio acaba por impor-se ao conjunto dessa sociedade como sendo 'natural' para o homem ou para a mulher. É certo, porém, que a característica do que é 'masculino' ou 'feminino' para a opinião da civilização ocidental, inclusive as diversas metafísicas referentes à sexualidade, sempre foi inicialmente imposta pela classe dirigente de acordo com sua evolução histórica em determinado momento. Assim, existe em toda civilização uma classe social que dá o tom quanto ao comportamento sexual aceito pelo conjunto da coletividade” (Schelsky, 1968, p. 21).


Aqui o que se vê é o papel proeminente da classe dominante sobre a regularização dos ethos sexuais. Porém, essa é apenas uma das determinações, pois junto com semelhanças subsistem diferenças e além da classe dominante, há a regularização estatal que pode reforçar ou metamorfosear esta influência da classe dominante e há o modo de produção e suas necessidades, que gera uma forma específica de determinação da regularização das relações sociais entre os sextos e os ethos sexuais correspondente a cada um. Na sociedade capitalista atual, essas determinações atuam de acordo com a dinâmica própria do processo de produção e reprodução capitalista, que vai gerar não só ethos sexuais determinados como também formas de resistência e de diferenciação no seu interior, o que significa que além dos ethos sexuais das mulheres e homens das classes privilegiadas, há um processo mais profundo de necessidades de reprodução do capitalismo que força, inclusive essas classes, a se adequarem a um processo de regularização.

Neste sentido, a ideia de que é o homem que exerce uma dominação masculina não se sustenta. Inclusive é algo que ofusca uma forma de opressão pouco refletida na sociedade moderna: a opressão masculina. A opressão feminina é bastante conhecida, porém, a masculina é ocultada, em parte devido ao próprio ethos sexual masculino, que passa a imagem de “forte”, “racional” (a oposição ideológica entre mulher, mais sentimental, e homem, mais racional), e, em parte, ao seu processo de opressão ser bem menos evidente e bem mais confortável do que a opressão feminina.

O ser humano, independentemente do sexo, tem um conjunto de potencialidades. O desenvolvimento destas potencialidades é uma necessidade para todos os seres humanos (Fromm, 1978; 1983; Marx, 1983). A regularização do ethos sexual é uma forma de opressão ao realizar um processo de repressão e coerção (Viana, 2006b), reprimindo ideias, comportamentos, gestos, sentimentos, etc., bem como coagindo a outros. Assim, a dependência da mulher é um processo de constituição do ethos feminino, que, no entanto, é complementado pela independência masculina e o processo de repressão no primeiro caso é complementado pelo processo de coerção no segundo (a mulher sendo dependente do marido, este é “responsável” por ela, e assim um é reprimido e outro é coagido e um sofre por não possuir autonomia e o outro sofre por obrigações diversas que é constrangido a cumprir)[3]. Assim, o ethos masculino é marcado predominantemente pela coerção e o feminino pela repressão, embora isso mude historicamente, o que efetivamente ocorreu, principalmente no caso do ethos feminino, que sofreu uma diminuição no processo de repressão, mas não no caso do ethos masculino, que sofreu mudança muito menos intensa.

A socialização feminina é bastante estudada e mostra-se a imposição de um ethos sexual (Belotti, 1985) e, curiosamente, a socialização masculina e a formação de outro ethos sexual imposto não é geralmente discutido. Assim, a socialização feminina tende a inibir a iniciativa, o que é uma forma de repressão, acompanhada com determinadas formas de coagir a determinados sentimentos, valores, gostos, habilidades. O mesmo ocorre com a socialização masculina. O que diferencia é que, além dos pontos comuns, a formação do ethos feminino desencadeia um conjunto de disposições, investimentos e catexia que difere do masculino e é marcado por um quantum de repressão maior. É possível colocar em forma de par a diferenciação do ethos feminino e masculino: feminilidade/masculinidade; beleza/inteligência (ou força); manifestação de sentimentos/repressão de sentimentos; inibição/iniciativa; emoção/razão, etc., embora sejam generalizações muitas vezes abusivas, subsiste alguns elementos de verdade em algumas destas distinções estabelecidas devido ao processo de socialização e não devido ao caso de ser algo natural. Porém, a expectativa em relação ao sexo masculino é interpretado tão-somente como sendo privilégio e nunca como cobrança e exigências que podem, dependendo de um conjunto de outras determinações, promover sérios problemas psíquicos, ansiedade, fracasso acompanhado de alcoolismo[4] e outras formas de fuga da realidade.

Neste sentido, a emancipação feminina só pode verdadeiramente ocorrer com a ocorrência da emancipação masculina e ambas só podem se realizar com o processo global de libertação humana. Nesse sentido, Marcuse oferece uma contribuição interessante recordada por Mattos:

"A emancipação da mulher não deve ser concebida apenas no sentido da igualdade de direitos, mas, antes de mais nada, como a afirmação de novos valores, novas exigências, nova satisfações, que o homem, nas atuais condições de produção, não pode ter. Essas exigências, essas 'qualidades femininas' são as que se opõem sempre mais ao sistema de produção existente (…). A mulher foi inserida cada vez mais no mundo da produção (…), sua situação piorou. As mulheres tiveram que sacrificar parte de suas faculdades ditas femininas para impor a igualdade de direitos” (Marcuse, apud Mattos, 1989, p. 134).

A conclusão a que se pode chegar é a de que a libertação humana só pode ocorrer com a emancipação feminina e masculina, e que estas dependem daquela. É por isso que o processo de transformação social significa uma radicalidade pouco compreendida pelas categorias e valores da sociedade moderna. Não se trata de fazer “revoluções parciais”, “revoluções políticas” e sim “revolução total”, a transformação total das relações sociais. As lutas femininas promoveram mudanças culturais e sociais que, em linhas gerais, permitiram melhores condições para o desencadeamento de novas lutas e mais profundas. Neste contexto, as lutas anteriores proporcionaram melhores condições para as lutas atuais. O grande problema para que estas lutas atuais se tornem efetivamente luta por emancipação feminina e humana é a necessidade de sair da imanência e conquistar a transcendência e perceber que o avanço da luta agora pressupõe um questionamento mais radical das bases sociais da opressão feminina e da necessidade de transformação social total.

R
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IANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. São Paulo, Escuta, 2009b.
WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espirito do Capitalismo. 5a edição, São Paulo, Pioneira, 1987.
WEIL, Simone. Opressão e Liberdade. Baurú: Edusc, 2001.


*    Professor da UFG – Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela UnB – Universidade de Brasília.

[1]    A opressão é uma relação social entre opressores e oprimidos, onde o opressor realiza a repressão (e, por conseguinte, coerção) do oprimido. A repressão é o impedimento de determinados comportamentos, ideias, etc., e a coerção é o constrangimento à efetivação de determinados comportamentos, ideias, etc. A opressão ocorre na sociedade de classes ligada indissoluvelmente ao processo social de reprodução social e ocorre de forma hierárquica, sendo que quanto mais baixo o “estrato”, maior o grau de opressão e que em relações internas se reproduz formas de opressão (Viana, 2006b).

[2]    Preferimos utilizar o termo “ethos” ao invés de “papel”, devido aos vínculos ideológicos deste último. Entenda-se por ethos um “modo de ser”, tal como de certa forma Max Weber (1987) utilizará o termo, cuja origem se encontra em Aristóteles e de forma um pouco diferente em Bourdieu (1983)..

[3]    Num plano concreto, a esposa que está presa em seu lar sofre uma opressão e o marido sofre a opressão do trabalho alienado. Sem dúvida, no mundo axiológico (valores dominantes), o trabalho alienado é “dignificado”, e o não-trabalho condenado, e isto possibilita a proeminência financeira do homem, nestes casos, o que lhe aumenta a pressão das responsabilidades e a possibilidade do autoritarismo (o que depende também da cultura, e a mutação cultural recente promove uma diminuição neste aspecto). Obviamente que aqui se trata de um casal das classes desprivilegiadas, pois nas classes privilegiadas pode existir a figura dos trabalhadores domésticos e, no caso das classes desprivilegiadas, o mesmo marido acima pode ser um motorista de uma família privilegiada, por exemplo, entre outras implicações. Isso demonstra que as relações são muito mais complexas do que aparentam à primeira vista.

[4]    O maior índice de alcoolismo em caso de homens não é gratuito, este e outros aspectos do ethos masculino produzem esta maior disposição.

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Artigo publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. Emancipação Feminina e Emancipação Humana. Revista Espaço Acadêmico (UEM), v. IX, p. 1-10, 2010.

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