Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A Concepção Junguiana de Inconsciente Coletivo



A Concepção Junguiana de Inconsciente Coletivo*

Nildo Viana




Carl Gustav Jung foi o primeiro psicanalista a desenvolver uma concepção sistemática de inconsciente coletivo. Sem dúvida, Freud em alguns momentos fornece elementos que podem servir para uma concepção do inconsciente coletivo, tal como veremos adiante, mas coube a Jung o reconhecimento de sua existência e a elaboração de uma concepção sistemática a seu respeito. Por isso começaremos nossa análise com a contribuição de Jung.
A obra de Jung surge a partir da fundação da psicanálise por Freud. Freud foi, paulatinamente, construindo a psicanálise a partir de seu afastamento da medicina e das descobertas que proporcionaram a sua elaboração teórica. A concepção de Freud é complexa e inclui inúmeros elementos que vão se desenvolvendo e dando corpo à psicanálise. As suas teses sobre os instintos (ou “pulsões”), da repressão e do inconsciente formam a base da concepção freudiana. No entanto, Freud buscará compreender o “aparelho psíquico” a partir de dois componentes (consciência e inconsciente) e, posteriormente, três (id, ego e superego), entre outras alterações que ele provocou em sua concepção original (a ideia de existência de um “instinto de morte” é outro exemplo, pois ela só foi sustentada por ele na última fase de seu pensamento).
O grande mérito de Freud foi a descoberta do inconsciente. Freud considerava que a mente humana, ou “aparelho psíquico”, não era composto apenas pela consciência, pois possuía uma camada profunda que ele denominou inconsciente (em sua concepção tripartite do aparelho psíquico – id, ego e superego – os dois últimos elementos são conscientes e, portanto, a mudança na concepção não desmente nossa exposição).
A origem do inconsciente se encontra na repressão dos instintos. Para Freud, o ser humano possui dois conjuntos de instintos: os sexuais e os de sobrevivência (mais tarde acrescentaria o instinto de morte), embora focalizasse sua concepção principalmente nos instintos sexuais. Para ele, a civilização, para garantir sua sobrevivência, deve coagir os seres humanos ao trabalho e isto pressupõe a repressão dos instintos (sexuais). Esta repressão dos desejos sexuais, que se inicia durante a infância, é externa, realizada principalmente pelos pais. Com o passar do tempo, esta repressão é introjetada, ou seja, o próprio indivíduo, através de sua consciência moral (“superego”) se “reprime”, realizando o recalcamento, ou seja, apaga de sua consciência tais desejos.
Os desejos reprimidos, no entanto, não deixam de existir, mas tão-somente de serem conscientes. Eles ficam “escondidos” na mente humana, no inconsciente. O inconsciente, por sua vez, sempre busca se manifestar. Ele se manifesta quando a consciência fica enfraquecida, tal como durante os sonhos ou nas fantasias, mas também em outros momentos, como nos atos falhos, chistes, etc. (FREUD, 1978).
Freud vai desenvolver sua concepção de problemas psíquicos a partir desta elaboração. A neurose, por exemplo, seria produto da frustração produzida pelo recalcamento. Desta forma, a civilização e suas necessidades produzem a repressão, o recalcamento e o inconsciente (FREUD, 1978b).
Nasce, assim, a psicanálise e em torno de Freud se agruparam diversos pesquisadores, dando origem à primeira Sociedade Psicanalítica. No entanto, pouco depois da constituição da psicanálise apareceram as divergências. A concepção freudiana começou a ser questionada e substituída por concepções rivais, embora o freudismo ortodoxo continue forte até os dias atuais. A primeira grande concepção alternativa foi a de Alfred Adler. Adler discordava da centralidade fornecida por Freud aos instintos sexuais e em seu lugar iria colocar a “vontade de poder” e daí derivar um conjunto de teses, sendo que algumas se tornaram populares, tal como a do “complexo de inferioridade”, embora sua concepção tenha se tornado marginal na história posterior da psicanálise. O questionamento do “pansexualismo” de Freud realizado por Adler seria apenas o primeiro de uma série, gerando algumas dissidências, incluindo a de Jung.
A obra de Jung também é bastante complexa e nasce a partir das contribuições de Freud e Adler, que ele julga importantes, mas “unilaterais”. Jung era extremamente conservador, ao contrário de Adler, que se autodeclarava socialista. O conservadorismo de Jung era maior do que o de Freud e está relacionado com o fato de que o último tinha como preocupação fundamental a resolução de problemas individuais enquanto que o primeiro dedicava especial atenção aos problemas sociais. Daí sua consideração pela obra de Adler, que se dedicou a explicar o indivíduo pelo social.
Jung discorda de várias teses de Freud, tal como a universalidade do incesto e a primazia do “erótico-sexual”. Segundo ele, os instintos sexuais não formam a totalidade da natureza humana, embora seja um de seus aspectos principais. O erro de Freud, para ele, se encontra na sua visão “unilateral” e “exclusivista” oriunda de sua teoria sexual. Adler substituiu os instintos sexuais pelo princípio de poder, apresentando, segundo Jung, uma concepção tão unilateral e exclusivista quanto a de Freud. Jung diz que esta tese também possui um momento de verdade, tal como a de Freud, mas que elas são inconciliáveis. É preciso, segundo Jung, partir de um ponto de vista superior a elas para poder unificá-las. Para Jung, “ambas contêm verdades fundamentais” e “uma não exclui a outra”, sendo “certas, porém unilaterais” (1989, p. 33).
Jung explicará a diferença entre Freud e Adler por uma “diferença de temperamento”. Trata-se de uma diferença entre “dois tipos de espírito humano”, o tipo introvertido (Adler) e o extrovertido (Freud), tal como se encontra em sua tipologia psicológica[1]. Assim, segundo Jung, o problema é que estas duas teorias são verdadeiras, mas se aplicam apenas a casos especiais e transformá-las em “teoria global da essência” é que é o grande erro. É a partir desta “ruptura” com Freud e Adler, e ao mesmo tempo da conservação de algumas de suas teses, consideradas de “uso tópico”, que Jung elaborará sua própria concepção.
A concepção de Jung tem como momento inicial a libido. Para Freud a libido é energia sexual, concepção considerada por Jung como sendo restrita. Segundo Nise da Silveira,
enquanto Freud atribui à libido significação exclusivamente sexual, Jung denomina libido à energia psíquica tomada num sentido amplo. Energia psíquica e libido são sinônimos. Libido é apetite, é instinto permanente de vida que se manifesta pela fome, sede, sexualidade, agressividade, necessidades e interesses os mais diversos. Tudo isso está compreendido no conceito de libido (SILVEIRA, 1981, p. 41).
A energia psíquica, portanto, possui diversas manifestações. Para Jung, a mente humana é um
sistema energético relativamente fechado, possuidor de um potencial que permanece o mesmo em quantidade através de suas múltiplas manifestações, durando toda a vida de cada indivíduo. Isto vale dizer que, se a energia psíquica abandona um de seus investimentos virá reaparecer sob outra forma. No sistema psíquico a quantidade de energia é constante, varia apenas sua distribuição (SILVEIRA, 1981, p. 44).
A libido, diz Jung, “já possui seu objeto no inconsciente”, e o seu rumo não pode ser decidido pela nossa vontade, seguindo seu fluxo. Assim, a libido, seguindo seu curso natural, encontra “o caminho para o objeto que lhe é destinado”, o que só não ocorre por interferência da vontade ou por elementos externos.
Jung vai relacionar sua concepção de libido com a questão do inconsciente. Para ele, o inconsciente possui duas camadas, uma pessoal (individual) e outra coletiva.
A camada pessoal termina com as recordações infantis mais remotas; o inconsciente coletivo, porém, contém o tempo pré-infantil, isto é, os restos da vida dos antepassados. As imagens das recordações do inconsciente coletivo são imagens não preenchidas, por serem formas não vividas pessoalmente pelo indivíduo. Quando, porém, a regressão da energia psíquica ultrapassa o próprio tempo da primeira infância, penetrando nas pegadas ou na herança da vida ancestral, aí despertam os quadros mitológicos: os arquétipos (JUNG, 1989, p. 69).
Para Jung, tal como colocamos anteriormente, a libido já possui seu objeto no inconsciente (pessoal). Mas além desse inconsciente pessoal, existem “as imagens primordiais”, isto é,
a aptidão hereditária da ação humana de ser como era nos primórdios. Essa hereditariedade explica o fenômeno, no fundo surpreendente, de alguns temas e motivos de lendas se repetirem no mundo inteiro e em formas idênticas, além de explicar porque os nossos doentes mentais podem reproduzir exatamente as mesmas imagens e associações dos textos antigos (JUNG, 1989, p. 57).
Jung esclarece que tais imagens não são hereditárias. O que é realmente hereditário é a capacidade de tê-las. Jung denomina estas imagens universais e originárias como “arquétipos”. Esta camada mais profunda do inconsciente, o inconsciente coletivo, não chega à tona facilmente. Somente através de um processo de “regressão” é que ele surge na mente individual. O que provoca tal “regressão”? Ela é produto da repressão[2]. Para ele, a cultura ocidental racional nega o irracional. No entanto, “o homem não é apenas racional, não pode e nunca vai sê-lo” (JUNG, 1989, p. 64). “O irracional não deve e não pode ser extirpado. Os deuses não podem e não devem morrer” (JUNG, 1989, p. 64).
Assim, Jung encontra no racionalismo da cultura ocidental a chave para explicar a regressão. Se lembrarmos que para ele a libido é um conjunto múltiplo de necessidades, então o desenvolvimento unilateral do ser humano provoca a regressão. Segundo Jung, existe um impulso ou complexo que concentra em si a maior parte da energia psíquica e obriga o eu a ficar sob seu comando.
Habitualmente, é tão intensa a força de atração exercida por este foco de energia sobre o eu que este se identifica com ele, passando a acreditar que fora e além dele não existe outro desejo ou necessidade. É assim que se forma uma mania, monomania, possessão ou uma tremenda unilateralidade que compromete gravemente o equilíbrio psicológico. O poder de concentrar toda a capacidade num ponto só é sem dúvida algumas o segredo de certos êxitos, razão porque a civilização se esforça ao máximo em cultivar especializações (JUNG, 1989, p. 64).
Para Jung, o ser humano tem o direito de considerar sua razão “bela e perfeita”, mas ela é apenas uma das “funções espirituais possíveis”, sendo uma ilha rodeada por todos os lados pelo irracional. A religião é uma expressão irracional que faz parte da totalidade psíquica humana. “O conceito de Deus é simplesmente uma função psicológica necessária, de natureza irracional, que absolutamente nada tem a ver com a questão da existência de Deus” (JUNG, 1989, p. 63). Assim, ele diz: “estou plenamente convencido da extraordinária importância do dogma e dos ritos, pelo menos enquanto métodos de higiene” (JUNG, 1987, p. 49).
Assim, a “receita de Jung” é aceitar as funções psíquicas irracionais da mente e, visando evitar a regressão, devemos nos entregar à “experiência religiosa”. Mas por qual motivo Jung quer evitar a regressão ao inconsciente coletivo? O que ele busca evitar é que a libido retire seu objeto dos conteúdos do inconsciente coletivo. As imagens primordiais contidas no inconsciente coletivo
contém não só o que há de mais belo e grandioso no pensamento e sentimento humanos, mas também as piores infâmias e os atos mais diabólicos que a humanidade foi capaz de cometer. Graças a sua energia específica (pois comportam-se como centros autônomos carregados de energia) exercem um efeito fascinante e comovente sobre o consciente e, consequentemente, podem provocar grandes alterações no sujeito. Isso é constatado nas conversões religiosas, em influências por sugestão, e, muito especialmente, na eclosão de certas formas de esquizofrenia (JUNG, 1989, p. 62).
Consideramos que estes elementos são suficientes para compreender a concepção junguiana de inconsciente coletivo e por isso deixaremos de lado outros termos e teses relacionados. Realizaremos, a partir de agora, uma avaliação crítica de sua concepção para, posteriormente, retomar os elementos que contribuem para a elaboração de uma teoria do inconsciente coletivo na perspectiva do materialismo histórico.
A preocupação fundamental expressa nos textos de Jung é com a irrupção do lado obscuro da mente humana. Sua grande preocupação é com as “piores infâmias e os atos mais diabólicos que a humanidade pôde cometer”. De onde surgiu tal preocupação? Como está explícito em suas obras, sua origem se revela na ocorrência da Primeira Guerra Mundial (reforçada pela Segunda Guerra Mundial) e no temor do fascismo e do bolchevismo.
A base da preocupação junguiana com a guerra e os fanatismos políticos, no entanto, reside em outro lugar. Sem dúvida, a questão das guerras mundiais e da ascensão do nazifascismo produziram uma preocupação em diversos pesquisadores sobre como tal barbarismo pode ocorrer. Contudo, a resposta específica fornecida por cada pesquisador e o grau de importância fornecido a estes fenômenos decorrem da mentalidade de cada um deles. Erich Fromm e Theodor Adorno, para citar apenas dois exemplos, desenvolveram outras teses e assumiram outras posições sobre tal fenômeno.
Sem dúvida, a posição de Jung foi o resultado de um complexo entrelaçamento de determinações. A primeira e fundamental reside no conservadorismo de Jung, já aludido anteriormente. Embora ele consiga identificar alguns problemas da “civilização ocidental” (sociedade capitalista), o seu conservadorismo não lhe permite descobrir o processo de constituição das relações sociais fundadas no antagonismo de classes. Isto se vê, por exemplo, na sua afirmação ingênua de que a especialização é incentivada pela civilização porque é “o segredo de certos êxitos”. O processo de desenvolvimento social fundado no processo de produção da vida material produz a divisão social do trabalho e, no capitalismo, isto se amplia numa escala extremamente elevada. A especialização de Jung na psicanálise e seu desconhecimento e desconsideração do marxismo, da sociologia, etc., possibilitam sua explicação unilateral da força da especialização na sociedade capitalista. A unilateralidade intelectual é um problema que Jung não percebeu, bem como o fato dela ser um produto de uma subespecialização.
Mas além desta determinação, podemos dizer que a sua experiência psíquica e seu envolvimento na primeira guerra mundial contribuiu com isto. Ele “serviu durante a primeira guerra mundial como comandante do campo de prisioneiros de Chateau D’Oex” (SILVEIRA, 1981, p. 18). Se a guerra impressiona pessoas distantes dela, o seu efeito é muito maior naqueles que a presenciam, provocando, em muitos casos, processos traumáticos. Foi neste período que ele teve “intensas experiências interiores”, “sonhos impressionantes”, “visões”. Assim,
pareceu-lhe que a melhor solução seria esforçar-se por decifrar-lhes o sentido, mantendo a consciência sempre vigilante e não perdendo o contato com a realidade exterior (SILVEIRA, 1981, p. 17).
Percebemos que Jung se encontrou numa encruzilhada, no qual corria o risco de “perder o contato com a realidade exterior”, o que significa que ele passou por uma forte experiência de conflitos psíquicos que poderiam ter desembocado em uma neurose. No entanto, ele arranjou forças para superar tais conflitos e o risco que correu lhe proporcionou um medo intenso de “cair nas trevas”. A solução que ele deu foi considerar este “lado sombrio” como um não-eu, tal como ele concebe o inconsciente coletivo.
Assim, este medo intenso que Jung tinha de si mesmo foi projetado para fora, para o inconsciente coletivo. É por isso que ele fornece esta receita para as demais pessoas e também concebe à religião um papel tão importante, pois ela pode canalizar a energia psíquica e impedir que “o mal” venha à tona. O medo de si mesmo é transferido para a humanidade e é por isso que as guerras mundiais, o fascismo e o bolchevismo se tornam suas grandes preocupações. O seu conservadorismo pessoal e o conservadorismo social se reforçam reciprocamente.
Até aqui explicamos a gênese da concepção junguiana do inconsciente coletivo. Mas ainda resta a tarefa de realizar a sua crítica. Jung critica Freud e Adler por produzirem “teorias redutivas” com pretensão de globalidade e não percebe que ele produz uma concepção reducionista com igual pretensão globalizante. O reducionismo se encontra em sua explicação unilateral dos fenômenos se fundamentando apenas nas forças psíquicas, deixando de lado toda a complexa totalidade e as múltiplas determinações dos fenômenos. É o que se vê, por exemplo, na sua interpretação do nazismo, considerado por ele um “fenômeno patológico”, uma “irrupção do inconsciente coletivo”. Segundo Silveira, para Jung,
Wotan havia tomado posse da alma do povo alemão. E que é Wotan? É o Deus pagão dos germânicos, um Deus das tempestades e da efervescência, desencadeia paixões e apetites combativos’. Num ensaio publicado em 1936, Jung traça o paralelo entre Wotan redivivo e o fenômeno nazista. Wotan é uma personificação de forças psíquicas – corresponde a ‘uma qualidade, um caráter fundamental da alma alemã, um ‘fator psíquico de natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura’. Os fatores econômicos e políticos pareceram a Jung insuficientes para explicar todos os espantosos fenômenos que estavam ocorrendo na Alemanha. Wotan reativado no fundo do inconsciente. Waton invasor, seria a explicação mais pertinente (SILVEIRA, 1981, p. 23).
O reducionismo de Jung não é nem um pouco melhor do que o de Freud e Adler. Isto se torna mais perceptível quando notamos que o seu fundamento é metafísico. Por qual motivo “Wotan foi reativado”? Isto só pode ser explicado pelo complexo processo social ocorrido na sociedade alemã (a derrota na primeira guerra mundial, as tentativas de revolução socialista, as dificuldades de reprodução da acumulação capitalista, a fome etc.). No entanto, Jung desconsidera o processo social e se refugia em “arquétipos” imutáveis e universais.
As “provas” que ele apresenta para a existência de tais arquétipos não provam nada, pois os mitos, contos de fada, lendas, etc. por mais que possuam semelhanças, não significa que expressam “imagens primordiais”, além do fato de que grande parte das semelhanças são produtos da interpretação de Jung. Da mesma forma que um matemático pode encontrar “elementos matemáticos” na base de toda construção humana (ciência, arte etc.), um maniqueísta pode ver a “luta do bem contra o mal” em tudo que existe, um darwinista pode ver a “luta pela existência” e a “sobrevivência dos mais aptos” em todas as esferas da vida, um pseudomarxista pode ver “causa econômica” em tudo que existe, Jung pode encontrar o inconsciente coletivo em todas as manifestações culturais. Contudo, todas estas concepções são reducionistas e produtos de mentes engenhosas, mas que não passam de modelos mentais, nos quais a realidade é encaixada à força, e servem muito mais para ocultá-la do que para revelá-la.
Desta forma, Jung apresenta uma concepção igualmente reducionista, tal como acusava em Freud e Adler. No entanto, existem alguns “momentos de verdade” na concepção junguiana (da mesma forma que ele afirmou existir nas concepções de Freud e Adler). Essa breve análise da concepção junguiana do inconsciente coletivo é importante para adiante podermos resgatarmos os seus momentos de verdade.



[1] Jung dedica uma de suas principais obras ao problema dos tipos psicológicos (JUNG, 1976).
[2] “Como é sabido, o processo cultural consiste na repressão progressiva do que há de animal no homem; é um processo de domesticação que não pode ser levado a efeito sem que se insurja a natureza animal, sedenta de liberdade” (JUNG, 1989, p. 11). Ele acrescenta que hoje sabe-se que não é só a natureza instintiva que é atingida pela coerção cultural mas também “novas ideias”, as paixões políticas e a religião.

* VIANA, Nildo. A Concepção Junguiana de Inconsciente Coletivo. In: VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. 2ª edição, Revista e Ampliada. Florianópolis, Bookess, 2015.


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Conservadorismo em Foco (documentário)

Contribua com a realização deste documentário:
https://www.vakinha.com.br/vaquinha/conservadorismo-em-foco-documentario

Cover 25498440 1298660883572547 8795710918884468162 n

Conservadorismo em Foco (documentário)


As faces do nosso tempo são cruas. Mostram-se desnudas, violentas. Os extremos estão à mostra. Há quem se agarre em mentiras ou dopam-se, inutilizando sua própria existência. O fascismo é real, corrói a sociedade e infelizmente dá sentido a ela. O fascismo é a prática do poder. O conservadorismo, de uma forma geral, é o conjunto de valores, que se manifestam na filosofia, cultura, economia e na política e que tem como função primordial garantir os interesses da classe dominante. O conservadorismo se manifesta, portanto, de diferentes formas dependendo do contexto histórico. Recentemente novas organizações da direita vêm disputando diariamente principalmente na internet as orientações das políticas de Estado e dos interesses da classe dominante de forma intransigente. A comunicação no campo da esquerda tem um caráter estratégico nas lutas. Cumpre papel importante não se resumindo a meramente informar o outro, mas contribuir para a emancipação intelectual. A comunicação revolucionária não tem nada a ver com o espetáculo midiático. Demos início a este filme em novembro de 2017 e para finalizar precisamos da sua contribuição. Este é um filme que será disponibilizado gratuitamente na internet.


$contribua

sábado, 14 de abril de 2018

A Dupla Prisão de Lula




A Dupla Prisão de Lula

Nildo Viana

Lula, ex-presidente do Brasil, foi preso no dia 07 de abril de 2018. Esta, no entanto, foi a sua segunda prisão no século 21. Vamos tratar destas duas prisões de Lula e explicar como a primeira gerou a segunda.
A primeira prisão de Lula começou quando ele deixou de ser um operário para adentrar na disputa sindical. Ele começou sua carreira política nas disputas burocráticas e chegou a se tornar um burocrata sindical e teve uma ascensão na carreira através da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e PT (Partido dos Trabalhadores), passando da burocracia sindical para a burocracia partidária. O primeiro presidente do PT foi deputado federal e concorreu várias vezes à presidência da república, perdendo por três vezes consecutivas. Conseguiu sua vitória nas eleições de 2002 e foi reeleito nas eleições seguintes. Em 2010, Dilma Roussef foi eleita presidente e reeleita em 2014, o que significou a manutenção do PT no governo.
A primeira prisão de Lula foi a burocracia. Lula deixou de ser um operário para se tornar um prisioneiro da burocracia. Apesar dos operários estarem presos no processo de exploração a que estão submetidos, essa é uma prisão involuntária e da qual o indivíduo não é responsável. Aqui nos interessa apenas a prisão quando o indivíduo é responsável por ela, seja de forma voluntária ou involuntária. Lula se tornou burocrata voluntariamente e foi responsável pela sua primeira prisão. Afinal, “a burocracia é um círculo ao qual nada pode escapar” (MARX, 1976, p. 72-73). Um burocrata é um indivíduo que visa efetivar o controle e reproduzir as relações sociais existentes nas instituições (Estado, universidades, partido, sindicato, igreja, escolas, hospitais) e se manter no poder. Não é demais lembrar que “burocracia é poder” (MOTTA, 1985).
Nesse sentido, o mais correto seria dizer que os burocratas prendem os demais ao invés de serem prisioneiros. Sem dúvida, isso é verdade. No entanto, os burocratas são prisioneiros da burocracia como forma organizacional e mentalmente. A burocracia como forma organizacional é hierárquica, marcada não apenas pelo conflitos com aqueles submetidos ao seu controle e direção, mas também por disputas interburocráticas: os burocratas inferiores querem se tornar superiores, o que se manifesta na disputa por cargos, os burocratas superiores disputam a diretoria, a presidência, etc., ou seja, cargos melhores e que oferecem mais poder.
Um burocrata tem uma determinada mentalidade. Surge, assim, uma mentalidade burocrática. Como todos nascemos e vivemos em organizações burocráticas (escola, igreja, partidos, sindicatos) ou nos relacionamos e dependemos de tais organizações (estado e seus aparatos, por exemplo), é comum o desenvolvimento de uma certa mentalidade burocrática em todos os indivíduos, o que se manifesta através da naturalização da existência de “chefes”, “líderes”, “dirigentes”. Porém, os burocratas geram uma forma de mentalidade burocrática mais intensa e específica, gerando o que se chamou “personalidade burocrática” (MERTON, 1970). O indivíduo se torna, nesses casos, mentalmente prisioneiro de sua mentalidade burocrática. A ânsia pelo poder se torna o leitmotiv (motivo condutor) de sua existência e ação. O burocrata vive para a burocracia e sua mente está presa nas malhas burocráticas.
Lula, em que pese sua pouca bagagem cultural, se tornou um grande burocrata. Ele não frequentou instituições de ensino superior, mas passou pela dura escola das disputas sindicais desde o final dos anos 1960, da atividade de burocrata sindical, das disputas partidárias (internas e externas), até chegar às disputas burocráticas mais amplas do aparato estatal, ao se tornar presidente. E as artimanhas burocráticas são infinitas e cada vez mais complexas. E para conquistar e manter o poder, vale tudo. As mentiras são uma das armas usadas nesse vale tudo de disputa pelo poder[1].
“O poder corrompe”, diz acertadamente o ditado popular. O que não diz o ditado popular é que o poder é viciante e gera cegueira. O caráter viciante do poder foi expresso por Lula. Os intelectuais do partido, com sua formação livresca e gramsciana, queriam primeiro conquistar a hegemonia na sociedade civil para depois chegar ao poder estatal. Lula era um pragmático e ansioso pelo poder. Isso demoraria “vinte ou trinta anos” e Lula queria o poder imediatamente: “mas eu não vou viver mais trinta anos e eu quero chegar ao poder logo”[2].
Quando foi presidente, ficou viciado totalmente e não queria largar o vício e foi reeleito e depois, quando não podia realizar tal proeza novamente, colocou alguém no seu lugar. Esse alguém foi Dilma Roussef, uma péssima escolha, mas que tinha lógica para quem queria se manter no poder. Colocar alguém mais competente ou mais esperto era um risco de perder o poder no interior do partido e também perder espaço político. Dilma não era ameaça, pois mesmo com o poder nas mãos, não saberia mantê-lo a não ser quando as coisas estivessem fáceis e tendo apoio. O problema é que as coisas ficaram difíceis e os apoios diminuíram drasticamente. O refrão de uma música revela o que se passava na cabeça de Lula: “poder, poder, poder, poder até não mais poder”[3].
O problema é que o poder pode gerar cegueira também. As artimanhas burocráticas de Lula mostraram isso, a começar pela escolha de Dilma Roussef. Por outro lado, ele soube se juntar com a burguesia e a alta burocracia e fazer seu jogo. O mensalão é prova disso. Ele se sentiu em casa. No entanto, ficou cego, pensando que reinaria eternamente. Os burocratas petistas também. E precisavam manter o governo, pois isso significava milhares de cargos no governo e financiamento de outras burocracias fora do governo (ONGs, sindicatos, etc.) e diminuição drástica de recursos[4]. A burguesia suportou Lula enquanto ele foi útil e ela até ria com as gafes do petista, apesar delas mostrarem uma determinada imagem do país, inclusive no exterior, que não era de seu agrado. Mas um bom serviçal é suportado em sua simploriedade desde que continue servindo bem.
A cegueira de Lula também se manifestou ao pensar que teria entrado definitivamente para o seleto grupo da alta burocracia e isso lhe dava passe livre com a burguesia, da qual realmente se aproximou. O problema é que ele estava cego para coisas mais amplas do que as disputas interburocráticas e que interferem na governabilidade: a acumulação de capital. Esta estava num ritmo crescente, que se iniciou antes de seu governo e continuou até mais ou menos 2012, e depois começou a diminuir. Nesse contexto, a presidente, do mesmo partido, era um problema e os interesses do PT (e sua pressão sobre ela) era outro. As medidas impopulares que precisavam ser tomadas para diminuir o impacto da desaceleração do ritmo de acumulação de capital não foram tomadas e outras ações não ocorreram, o que fez piorar a situação. Isso ocorreu a expulsão do PT do banquete da burguesia. O impeachment se concretizou. A cegueira de Lula e dos petistas em relação ao poder não os deixaram ver que acima do poder está o capital, ou seja, o poder financeiro.
Essa primeira prisão de Lula não se rompeu com o impeachment. A cegueira continuou e a ânsia de voltar ao poder através das eleições presidenciais de 2018. O PT e Lula esqueceram das lições do passado, das derrotas eleitorais anteriores, e pensaram que voltariam com facilidade para o lugar que agora consideram sua “propriedade”. No entanto, o contexto é outro. A burguesia não pretende se iludir novamente com o PT e sua derrota eleitoral seria previsível, caso conseguisse ser candidato, o que é cada vez mais difícil. O mais curioso é que a cegueira petista parece ser contagiosa, pois o bloco progressista, em sua quase totalidade, está seguindo o PT cegamente. O discurso da “ameaça fascista”, entre outros elementos, parecem ser convincentes para os progressistas de quase todos os partidos. Ao invés de enxergarem que o barco está furado e que vai afundar e lançarem uma alternativa eleitoral, preferem afundar junto e reconhecer o estado moribundo do bloco progressista. O estado lastimável do bloco progressista é perceptível ao ver sua ação de mitificação e transformação de um burocrata oportunista em mártir e herói[5]. A queda moral do PT levou junto com ele quase todos do bloco progressista, com raras e heroicas exceções. E assim eles fortalecem o bloco dominante conservador e o conservadorismo em geral.
Essa primeira prisão acabou gerando a segunda prisão, a do dia 07 de abril de 2018. Os petistas e maioria dos progressistas ainda esperam uma possibilidade de candidatura, uma vitória eleitoral e um presente do Papai Noel. A esperança é a última que morre, mas nesse caso, inevitavelmente deverá morrer em 2018. A morte da velha esperança ilusória, por sua vez, pode abrir caminho para uma nova esperança, que apontaria para uma total e radical transformação social.

Referências
MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Lisboa: Presença, 1978.

MERTON, Robert. Sociologia: Teoria e Estrutura. São Paulo, Mestre Jou, 1970.

MOTTA, Fernando Prestes. O Que é Burocracia. São Paulo, Brasiliense, 1985.




[4] Para os ingênuos que acreditam nos discursos ao invés de analisarem as relações sociais concretas, basta ver uma notícia de 2016 para ver o efeito financeiro no próprio PT das mutações políticas para entender o que está em jogo: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/23/politica/1456182587_487647.html
[5] Sobre o caráter e oportunismo de Lula, o sociólogo Francisco de Oliveira (que foi do PT e PSOL), nesse aspecto mais lúcido que os demais progressistas, já avisava aos desavisados há muito tempo atrás. Veja: https://www.youtube.com/watch?v=AP3lk_coK7A&feature=youtu.be





Lula Segundo Francisco de Oliveira



O sociólogo Francisco de Oliveira, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, 02/07/2012. Na Entrevista, Francisco de Oliveira (também conhecido como Chico de Oliveira), afirma que Lula é mau caráter e oportunista, bem como responde outras questões sobre o petista. Francisco de Oliveira foi do Partido dos Trabalhadores e do PSOL, bem como autor das obras O Ornitorrinco e A economia brasileira: crítica à razão dualista, entre outras. Veja um trecho da entrevista em que aborda o caso de Lula abaixo:





Veja também:



Lula, estatísticas e discurso político:



A estratégia eleitoral de Lula