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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Luta de Classes e Universo Cultural


Luta de Classes e Universo Cultural

Nildo Viana

Certa vez o psicanalista alemão Wilhelm Reich afirmou que a grande questão para a luta pela transformação social e criação de um novo mundo – livre da exploração e alienação e baseado na igualdade e liberdade – é responder por qual motivo os trabalhadores e oprimidos em geral não se rebelam e fazem uma revolução. Por qual motivo uma pessoa faminta não rouba a comida que matará sua fome? Ou seja, a questão, ao contrário da que é colocada normalmente em nossa sociedade, não é explicar porque algumas pessoas famintas roubam e sim por qual motivo outras no mesmo estado não fazem a mesma coisa.
Segundo ele:
“Se dois homens A e B têm fome, um pode resignar-se, não roubar, mendigar ou ficar esfomeado; o outro pode procurar alimento pelos seus próprios meios. Uma vasta camada do proletariado vive segundo os princípios de B. Chama-se lumpemproletariado. Não partilhamos da admiração romântica pelo mundo dos malfeitores mas é preciso esclarecer o assunto. Qual dos dois tipos de homens acima citados tem mais elementos de consciência de classe? Roubar não é ainda um índice de consciência de classe; mas uma breve análise mostra – mesmo se isto choca o nosso sentido de moral – que o que não se adapta às leis e rouba quando tem fome, exprimindo assim a sua vontade de viver, é possuidor de uma maior capacidade de revolta do que o que se entrega docilmente ao matadouro do capitalismo. Mantemos a tese de que o problema fundamental de uma boa psicologia não é saber porque rouba o esfomeado mas, ao contrário, porque é que não rouba[1]”.
Reich acrescenta que roubar não é ainda consciência de classe mas coloca que é um tijolo com a qual, junto com outros tijolos e elementos (vidros, janelas etc.) se constrói uma casa, isto é, é um elemento que permite a formação da consciência de classe. A questão fundamental seria, então, explicar por qual motivo os trabalhadores, oprimidos, descontentes não realizam atos de negação da sociedade existente. Por qual motivo o esfomeado não rouba? Os trabalhadores não tomam conta das fábricas? O desabrigado não toma conta dos lotes baldios ou das grandes propriedades territoriais? São questões que nos remetem ao motivo dos explorados, dominados, oprimidos etc. não terem feito uma revolução, a transformação social radical abolindo a exploração, dominação, opressão. Sem dúvida a resposta é complexa. Podemos falar do aparato repressivo do Estado, o exército e a polícia como fator importante para a não realização da revolução. No entanto, este aparato só entra em ação quando o confronto é aberto, quando todos os outros meios que a classe dominante e o governo utilizam para manter a passividade da população já não funcionam mais. Hoje, apenas uma minoria radical entra em confronto direto com o aparato repressivo do estado capitalista e não por propor a revolução social mas sim por questões pontuais (protestos, manifestações, lutas pela moradia, luta pela terra, ou seja, tijolos que são elementos para construir a casa mas ainda não é a casa).
Existe algo anterior à força repressiva que é um forte obstáculo ao processo revolucionário. Aqui lembramos o filósofo Rousseau. Segundo ele, o que importa, para explicar a origem das desigualdades, é indicar, “no progresso das coisas, o momento em que, o direito sucedendo à violência, a natureza submeteu-se à lei; de explicar por que encadeamento de prodígios pôde o forte decidir-se a servir ao fraco, e o povo a comprar um repouso imaginário ao preço de uma felicidade real[2].
Portanto, Rousseau explica a origem das desigualdades a partir do momento em que surgiu a supremacia do direito sobre a violência. Isto se encontra de acordo com o que colocamos anteriormente: a força repressiva é sustentáculo da desigualdade, da exploração, da dominação, da opressão, mas só é utilizada no momento em que falham os outros sustentáculos destas relações. Rousseau assim coloca a origem da propriedade privada e, por conseguinte, da desigualdade:
“O primeiro que, tendo cercado um terreno, arriscou-se a dizer: “isso é meu’, e encontrou pessoas bastantes simples para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, mortes, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: Fugi às palavras deste impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos pertencem a todos, e que a terra não é de ninguém. Entretanto parece que as coisas já haviam chegado ao ponto de não mais poder continuar como estavam; pois essa idéia de propriedade, dependendo de muitas idéias anteriores que não puderam nascer senão sucessivamente, não se formou repentinamente no espírito humano. Foi preciso fazer muitos progressos, adquirir muita indústria e saber transmiti-los e aumentá-los de geração em geração, antes de se atingir esse último estágio do estado de natureza”[3].
Rousseau, apesar de sua contextualização histórica-social deixar muito a desejar, coloca um elemento fundamental para nossa discussão. A questão do consentimento. Ou seja, a repressão estatal só atua quando se rompe o consentimento da população, a força só entra em ação quando as palavras não funcionam mais. Aqui entramos na questão cultural e no papel da cultura para a reprodução da exploração, da desigualdade, da opressão. Por que os explorados, oprimidos, esfomeados, não se rebelam? Basta uma rápida olhada no mundo contemporâneo para ver milhões de indivíduos passando fome ou outros milhões em estado de miséria, milhões de trabalhadores explorados, milhões de desempregados, milhões de indivíduos oprimidos devido à cor da pele, a religião, a etnia etc. A grande questão reside no que foi colocado por Reich: por qual motivo não se rebelam? E Rousseau nos afirma que a origem da desigualdade se encontra na cultura, no consentimento. Sem dúvida, a cultura exerce um papel fundamental na reprodução da sociedade existente e em todos os males gerados por ela. De que forma a cultura contribui com a reprodução do capitalismo? O universo cultural na sociedade capitalista é muito amplo e possui vários aspectos. Iremos destacar os principais:
A)   A Axiologia
B)    A Ideologia;
C)    As Representações Cotidianas Ilusórias.
Iremos discutir cada um destes itens. A axiologia é uma determinada configuração dos valores dominantes em determinada sociedade[4]. A axiologia na sociedade capitalista moderna aponta para determinados valores, tais como a competição, o culto à autoridade, a luta pela ascensão social e status, o desejo de consumo e posses etc. A sociedade capitalista produz uma estruturação de valores que são inculcados nos indivíduos desde sua infância. A competição é uma parte constitutiva do processo de socialização, tanto familiar quanto escolar. Nós vivemos num mundo competitivo e a competição acaba formando valores introjetados pelos indivíduos. Todos querem “ser o melhor”, o melhor aluno (o que tira “as melhores notas”), o melhor jogador de futebol, o torcedor do melhor time e assim por diante. A competição que se encontra na sociedade (na escola, na busca de posições através de concursos, na disputa por uma vaga na escola ou universidade ou por um emprego no mercado de trabalho), no mundo dos esportes, nas igrejas, nas instituições em geral. A competição é tão grande que se encontra até mesmo nas relações amorosas entre homens e mulheres[5], nas quais os homens competem pelas mulheres (segundo, geralmente, os valores dominantes, que valoram a beleza, em especial) e as mulheres competem pelos homens (também segundo os mesmos valores, o que leva a preferência pelos homens poderosos e ricos). Esta sociedade competitiva irá criar indivíduos competitivos e é por isso que diversos pesquisadores irão colocar a existência de uma “personalidade competidora”, de um “caráter competitivo”. A ascensão social, a riqueza e o status são elementos fundamentais na cultura capitalista contemporânea.
Como isto interfere na formação da mentalidade dos indivíduos explorados e oprimidos? Isto gera, no interior dos grupos sociais oprimidos e das classes exploradas, o individualismo e a competição. Aliás, o mesmo se vê nos grupos políticos – tanto os falsamente de esquerda, tais como os partidos políticos, quanto os que realmente buscam a emancipação humana, embora neste último caso isto ocorra geralmente de forma minimizada. Muitos tentam superar sua situação indesejável de exploração e opressão através de uma solução individual, buscando realizar a ascensão social, adquirir o poder ou riqueza. Aqui temos uma negação de uma situação – de exploração e opressão – simultaneamente com sua reafirmação – a solução individual que reforça os valores burgueses e leva os indivíduos a quererem a conservação da sociedade capitalista na ilusão de que poderão realizar tais valores. Eles também irão incentivar a formação de determinados sentimentos, como os do ciúme e inveja, entre outros, que dificultarão o processo de engajamento na luta pela transformação social.
Os valores são mobilizadores, eles fazem as pessoas agirem, escolherem, decidirem. O aspecto mais importante do universo cultural reside justamente nos valores. E existem, para os indivíduos, valores fundamentais que estão acima na sua escala de valores e estes são mais eficazes do que os outros. Estes valores são constituídos socialmente e reproduzem a sociabilidade existente, capitalista. Tal como colocou Reich:
“A existência e as condições de existência dos homens, refletem-se, incrustam-se e reproduzem-se na sua estrutura mental, à qual dão forma. É só através desta estrutura mental que este processo objetivo nos é acessível, que podemos entravá-lo, favorecê-lo ou dominá-lo. Só por intermédio da cabeça do homem, da sua vontade de trabalho, da sua procura da alegria de viver, em resumo, de sua existência psíquica, que nós criamos, consumimos, transformamos o mundo. Foi tudo isto que esqueceram há muito os ‘marxistas’ que degeneraram em economicistas”[6].
Esta referência ao marxismo é importante, pois muitos consideram que para Marx as idéias não passavam de mero epifenômeno, de coisa sem importância e influência no curso real dos acontecimentos e das lutas sociais, o que é um equívoco, pois para ele as idéias se transformam em “forças materiais” quando são desenvolvidas pelos explorados e oprimidos. Segundo Marx:
“Se alguém acredita possuir 100 táleres*, se essa não é para ele apenas uma representação arbitrária, subjetiva, se ele acredita nela, então os 100 táleres imaginados têm para ele o mesmo valor que 100 táleres reais. Por exemplo, ele contrairá dívidas em função desse seu dado imaginário, o qual terá uma ação efetiva: foi assim, de resto, que toda a humanidade contraiu dívidas contando com seus deuses”[7].
A força do imaginário, tal como Marx colocou, é ativa e mobilizadora. Uma idéia é, independentemente de ser verdadeira ou falsa, mobilizadora, ativa. Assim, os valores geram uma visão imaginária de sua realização que mobiliza conservadoramente grande parte da população.
Tendo sua base nos valores dominantes e servindo para reproduzi-los, temos a ideologia. A ideologia surge com a divisão entre trabalho intelectual e manual e se desenvolve em formas cada vez mais complexas. A ideologia na sociedade capitalista se manifesta sob a forma de ciência, filosofia, teologia. Ela é uma sistematização da falsa consciência, ou seja, é um pensamento complexo, sistemático, que dá forma a um conteúdo falso. Daí a valoração da linguagem técnica, do formalismo, da metodologia, da tradição e erudição etc. A filosofia, a ciência e a teologia são as principais formas deste pensamento sistemático e falso. Ora, a ideologia está intimamente ligada à divisão social do trabalho e são os especialistas na produção de idéias, os ideólogos, que irão produzir e reproduzir a ideologia. Os ideólogos irão, na sociedade capitalista, se subdividir em diversas especializações (o economista, o psicólogo, o filósofo, o matemático, o físico, o biólogo) e terão um status social e um reconhecimento de sua capacidade e formação especializada. A sociedade capitalista é marcada por uma crescente especialização e por criação de técnicos e especialistas em quase tudo. E tais especialistas acabam assumindo a forma de autoridade e isto propicia o que podemos denominar “culto á autoridade”. Algumas pessoas se julgam incapazes de tomar decisões sem consultar um especialista (médico, dentista, psicólogo e cada vez mais, arquitetos, agentes de turismo e coisas do gênero).
Os ideólogos, no entanto, estão a serviço do poder. Existem, entre os especialistas (cientistas, filósofos, teólogos) algumas exceções, mas a maioria está a serviço da reprodução do capitalismo, inclusive alguns com discurso supostamente progressista. A razão disto se encontra no fato de que eles constituem classes sociais auxiliares da burguesia, e devido a isto recebem privilégios (salariais, principalmente) de sua posição e devido seu papel de falsificação da realidade social e também na elaboração de técnicas de controle social e amortecimento dos conflitos sociais. Um psiquiatra, por exemplo, que realiza psicocirurgia ou indica uma droga para evitar a depressão está tão-somente representando os interesses daqueles que fazem a psicocirurgia e da indústria farmacêutica e apresentando um paliativo para um problema psíquico que tem sua origem nas relações sociais e no conjunto das insatisfações geradas por elas. Um psicólogo terapeuta realiza o mesmo papel, ou seja, representa seus próprios interesses – pois recebe dinheiro pelo tratamento terapêutico – e os da classe dominante, ao produzir mais um indivíduo enquadrado e adaptado (bem ou mal...) à sociedade existente. O urbanista que elabora um projeto urbano contribui com a organização do espaço urbano capitalista, um espaço dividido e voltado para a reprodução das relações de exploração e dominação. Em outras palavras, os ideólogos não apenas legitimam a sociedade capitalista como atuam no sentido de reproduzi-la através de sua prática profissional, da criação de técnicas e tecnologias e assim por diante.
Devido ao culto à autoridade e pela desvaloração do saber popular, cria-se nos grupos oprimidos e classes exploradas uma valoração da ideologia e um sentimento de incapacidade de alcançar “tão relevante” saber, que é o científico, filosófico, teológico. Assim, o discurso dos especialistas, dos cientistas e outros ideólogos, assumem a aparência de verdade inquestionável (como muitos dizem ingenuamente: “isto já foi comprovado pela ciência”...). A popularização da ideologia, o que traz sua desfiguração e simplificação, reforça, pois, o conservadorismo da população. As revistas de vulgarização científica, os meios de comunicação de massas (rádio, televisão, jornais, revistas semanais) e o ensino escolar cumprem este papel. Assim, a ideologia, apesar de sua produção estar restrita no círculo dos ideólogos, possui uma eficácia política que é uma força que garante o consentimento e a conservação da sociedade burguesa.
Por fim, temos as representações cotidianas ilusórias, o reino do imaginário popular. O saber popular, chamado pelos ideólogos de “senso comum”, é formado pelo conjunto das representações cotidianas que os indivíduos possuem da natureza e das relações sociais. Estas representações cotidianas, que se expressam no dia-a-dia da população, podem ser falsas ou verdadeiras. Para algumas ideologias, elas são necessariamente e sempre falsas, o que é uma inversão da realidade. As representações cotidianas – que são as representações não apenas produzidas pelos indivíduos das classes exploradas e grupos oprimidos mas por todos os indivíduos desta sociedade, inclusive os cientistas que não pensam “cientificamente” sobre tudo e a todo o momento – são predominantemente falsas, especialmente nos setores privilegiados da sociedade. Na realidade concreta, existe nos indivíduos uma mescla de representações cotidianas falsas e verdadeiras, que expressa a contraditoriedade da consciência de classe já discutida por Reich e Gramsci[8]. As representações cotidianas ilusórias reforçam o imobilismo, os valores dominantes e assim por diante, também servindo para a reprodução do capitalismo. Elas nascem, em primeiro lugar, das próprias relações sociais existentes, que são “naturalizadas” e “universalizadas”. Quem já não ouviu a frase “a desigualdade existirá para sempre”. Ora, as pessoas que nascem numa sociedade caracterizada pela desigualdade, vivem e envelhecem nesta sociedade, tendem a pensar que isto é “natural” e “universal”: assim é, assim sempre será. Tal opinião fica mais forte ainda quando algum cientista vem para afirmar que existe na natureza uma “luta pela sobrevivência”, onde há uma “seleção natural dos mais aptos” e só estes sobrevivem (tal como afirmou Darwin, o ideólogo da evolução) ou então que a fome é produto do crescimento populacional, que cresce em proporção muito maior do que a produção de alimentos (tese do economista Malthus, ideólogo do século 19 que tem adeptos até hoje e inspirador de Darwin). Assim, as representações cotidianas também são mobilizadoras, e as que são ilusórias mobilizam no sentido de conservação da sociedade existente.
No entanto, até agora apenas observamos o papel conservador da cultura na luta de classes. Isto é fundamental para percebermos a força das idéias no processo de conservação da sociedade capitalista e da necessidade de buscar realizar uma intensa luta cultural visando diminuir a eficácia política da cultura burguesa e aumentar a força do projeto revolucionário. As classes exploradas e grupos oprimidos trazem em si um conjunto de idéias, valores, representações que realizam uma crítica da sociedade capitalista. É preciso, pois, reforçar isto. Os grupos políticos revolucionários também produzem um amplo material crítico e revolucionário, bem como alguns intelectuais dissidentes e movimentos sociais. Ora, o que é preciso é reforçar todo este processo de constituição de uma cultura libertária, ampliando-a quantitativamente e qualitativamente, bem como realizar uma articulação entre as diversas produções culturais libertárias. A criação de meios de comunicação alternativos e de intervenção nos meios de comunicação existentes é outra forma de encaminhar esta luta cultural, pois além da produção de uma cultura libertária, é preciso sua divulgação, para proporcionar sua ampliação, produzindo novos produtores.
Assim, a produção cultural libertária deve se expandir e articular e se realizar sob os mais variados meios (jornais, revistas, livros, CDs, apresentações públicas etc.) e sob as mais variadas formas (teatro, música, teoria etc.). Isto, ao lado da atuação militante nos movimentos sociais e luta pela auto-organização das classes exploradas e grupos oprimidos e da articulação dos movimentos revolucionários, abre espaço para se contribuir com o processo de transformação social, que hoje vem sendo reforçado pela tendência de crise e instabilidade do capitalismo, fornecendo condições sociais de crescimento do descontentamento popular e adesão ao projeto de transformação social. A luta cultural é um ponto fundamental para a luta pela transformação social. A cultura libertária, assim como a cultura burguesa, também é mobilizadora e, portanto, deve ser considerado elemento fundamental da luta revolucionária.
Artigo publicado originalmente em: Letralivre. Rio de Janeiro, Ano 11, n. 45, 2006.




[1] Reich, Wilhelm. O Que é a Consciência de Classe? Lisboa, Textos Exemplares, 1976, p. 23.
[2] Rousseau, Jean-Jacques. Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Brasília/São Paulo, Edunb/Ática, 1989, p. 49.
[3] Rousseau, J-J. ob. cit., p. 84.
[4] Cf. Viana, N. A Questão dos Valores. Revista Cultura & Liberdade. Ano 02, Número 02, Abril de 2002.
[5] Sobre isso: Alberoni, F. O Erotismo. São Paulo, Círculo do Livro.
[6] Reich, W. ob. cit., p. 19.
* Moeda alemã da época (século 19).
[7] Cit. Por: Lukács, George. Ontologia do Ser Social. Os Princípios Ontológicos Fundamentais de Marx. São Paulo, Lech, 1979, p. 13.
[8] Reich, W. Ob. cit.; Gramsci, A. Concepção Dialética da História. 7a edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1988.

Marx e a Luta Cultural


MARX E A LUTA CULTURAL
Nildo Viana*

Marx não utilizou o termo “luta cultural” e poucas vezes usou o termo “cultura”. Apesar disso é possível perceber em sua obra elementos importantes que permitem pensar em luta cultural, tanto através de suas análises da práxis revolucionária quanto de sua prática teórica concreta que expressa uma luta cultural. Nesse sentido, vamos apresentar uma breve análise do que podemos extrair da obra de Marx que pode ser entendido como luta cultural ou reflexão sobre a mesma.

Marx e a reflexão sobre a luta cultural

A falsa interpretação de Marx como “economicista” é um obstáculo para entender seu pensamento e concepção política. Isso, mais especificamente, oblitera a sua posição diante da questão da consciência e do seu papel na luta de classes. Sem dúvida, para Marx, o social é o elemento determinante no plano real e, por conseguinte, no plano metodológico, no qual se enfatiza o peso das relações sociais concretas ao invés das representações sobre elas. “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência” (MARX, 1983, p. 25). Ou, segundo ele, “Assim como não se julga um indivíduo pela ideia que ele faz de si próprio, não se poderá julgar uma tal época de transformação pela mesma consciência de si [...]”(MARX, 1983, p. 25).

Esse pressuposto metodológico é apenas expressão do processo histórico real. No entanto, existe o mundo das representações, da cultura, que é um momento do real e interfere no mesmo[1]. Explicar a consciência pelo social não significa pensar que ela não existe ou que não interfira no processo real e histórico. Segundo o próprio Marx: “A arma da crítica não pode, evidentemente, substituir a crítica das armas, a força material deve ser derrotado pela força material; mas também a teoria se converte em força material tão logo se apodera das massas” (MARX, 2008, p. 103).

Aqui temos um elemento da luta cultural (a produção e divulgação da teoria para as classes desprivilegiadas) e uma proposição que mostra a necessidade da luta cultural. O papel da cultura, das ideias, representações, no processo da luta de classes é apresentado por Marx em diversas ocasiões. O que interessa colocar aqui é a divisão que ele realiza no processo de autoeducação do proletariado, por um lado, e na luta cultural realizada pelos revolucionários, por outro. Segundo ele:

Em geral, as colisões da velha sociedade favorecem de diversas maneiras o desenvolvimento do proletariado. A burguesia vive em luta contínua: no início contra a aristocracia; depois, contra as partes da própria burguesia cujos interesses entram em conflito com os progressos da indústria; e sempre contra a burguesia dos países estrangeiros. Em todas essas lutas, vê-se obrigada a apelar para o proletariado, a solicitar seu auxílio e a arrastá-lo assim para o movimento político. A burguesia mesma, portanto, fornece ao proletariado os elementos de sua própria educação, isto é, armas contra si mesma (MARX e ENGELS, 1988, p. 75).

Essa autoeducação, como colocam algumas traduções, do proletariado é beneficiada pela luta de classes e pelo reforço que indivíduos de outras classes oferecem ao se associar à luta proletária[2]. Isso ocorre através da crítica, da teoria e de “elementos de cultura” que esses indivíduos, geralmente intelectuais, podem oferecer ao proletariado. A crítica não é algo autossuficiente, ela tem uma finalidade externa a ela mesma. Marx explicitou o papel da crítica da seguinte forma: “a crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas para que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva” (MARX, 1978, p. 106). A crítica tem o papel de contribuir para superar as ilusões e permitir a ação transformadora, a luta revolucionária.

A teoria, por sua vez, é fundamental, pois ela é precondição para a crítica. “a exigência de abandonar as ilusões sobre sua condição é a exigência de abandonar uma condição que necessita de ilusões” (MARX, 1978, p. 106) e isso significa a necessidade de explicar essa “condição que necessita de ilusões”. O papel da teoria é “averiguar a verdade daquilo que nos circunda” e desmascarar as ilusões e “tornar a opressão real ainda mais opressiva, acrescentando àquela a consciência da opressão”, ela deve ser radical, isto é, ir à “raiz dos problemas”. E ela só pode ser realizar se for expressão de necessidades radicais. A teoria deve ser expressão de tais necessidades radicais, que se materializa no proletariado, pois ele é uma classe social na qual se manifesta a possibilidade de emancipação humana. Ao discutir a possibilidade de tal emancipação, Marx diz que ela reside

Na formação de uma classe com cadeias radicais, de uma classe da sociedade burguesa que não é uma classe da sociedade burguesa; de um estado que é a dissolução de todos os estados; de uma esfera que possui um caráter universal por seus sofrimentos universais e que não reclama nenhum direito especial para si, porque não se comete contra ela nenhuma violência especial, senão a violência pura e simples; que já não pode apelar a um título histórico, mas simplesmente ao título humano; que não se encontra em nenhuma espécie de contraposição particular com as consequências, senão numa contraposição universal com as premissas do Estado alemão; de uma esfera, finalmente, que não pode emancipar-se sem se emancipar de todas as demais esferas da sociedade e, simultaneamente, de emancipar todas elas; que é, numa palavra, a perda total do homem e que, por conseguinte, só pode atingir seu objetivo mediante a recuperação total do homem. Essa dissolução da sociedade como uma classe especial é o proletariado (MARX, 1978, p. 125).

Nesse sentido, a teoria deve ser expressão do proletariado e o objetivo dela é realizar a transformação radical do conjunto das relações sociais, da totalidade. A teoria encontra no proletariado suas armas materiais e o proletariado encontra na teoria suas armas intelectuais. Assim, “como a mesma rapidez que o raio do pensamento penetra a fundo neste puro solo popular” ocorrerá a emancipação humana. A teoria é o cérebro dessa emancipação e o proletariado o seu coração. A teoria só pode ser abolida com a extinção do proletariado e este só poderá ser extinto realizando a teoria[3]. Nesse sentido, há uma inseparabilidade entre teoria e proletariado. O proletariado é condição de possibilidade da teoria e é graças a ele que emerge os indivíduos reais e concretos que a produzem, os representantes teóricos do proletariado[4].

O objetivo da teoria é a transformação radical da realidade e o limite da filosofia é não ter essa finalidade, pois o que importa não é apenas interpretar a realidade e sim transformá-la. Mas como a teoria faz isso? Superando as ilusões, ou seja, expressando a realidade tal como ela é e mostrando que ela é produtora de fantasias e diversas formas de ilusões. Assim, a crítica supera as ilusões e a teoria mostra sua base real, o fundamento material tanto das ilusões quanto da emancipação humana, cuja potencialidade se encontra no proletariado. Os teóricos do proletariado tem a missão, portanto, de criticar as ilusões, expressar a realidade social e levar isso até a classe operária. Esse é um processo concreto que ocorre na luta de classes, pois “um fenómeno inevitável, fundado no curso do desenvolvimento, que pessoas das classes até aqui dominantes se juntem ao proletariado que luta e lhe tragam elementos de cultura” (MARX, 2014). Obviamente que devem ser elementos de cultura reais, e não criações fantasiosas, preconceitos burgueses, ecletismo utilizando ideias trazidas das universidades, etc.

Essas são as reflexões de Marx sobre o que denominamos luta cultural, no caso proletariado. Ele também aborda a luta cultural da burguesia, cujo processo é o oposto. A luta cultural burguesa é realizada através da produção de ideologias (MARX e ENGELS, 1991), ou seja, sistemas de pensamento ilusórios, realizada pelos ideólogos, sendo que alguns são produtores ativos de ideologias e outros, a maioria, são apenas reprodutores passivos das mesmas. Esse sistema de pensamento ilusório serve para legitimar, justificar e naturalizar as relações sociais da sociedade capitalista. Esse é o caso de filósofos, cientistas e outros. Marx focaliza em diversas obras o papel desses ideólogos e suas ideologias. Assim, se a teoria visa à transformação radical das relações sociais, a ideologia visa sua conservação. As ideologias, ao serem reproduzidas pelos ideólogos passivos, atingem a população e assim, ao serem aceitas, amortecem as lutas de classes, provocando adesão à sociedade capitalista. Quando estes ideólogos se dizem aliados do proletariado, ao invés de elementos de cultura, o que levam são preconceitos e concepções ecléticas que nada contribuem com a luta operária. Se a teoria supera as ilusões, mostra suas bases reais e expressa como a sociedade cria tal necessidade de criações ilusórias, criticando tanto as representações e ideologias quanto a realidade que as geram, a ideologia, por sua vez, produz e reforça as ilusões. A teoria está vinculada e expressa os interesses de classe do proletariado, enquanto que as ideologias são expressões dos interesses de classe da burguesia ou de outras classes conservadoras.

A Luta Cultural de Marx

Além do que ele disse sobre o que denominamos luta cultural, Marx a efetivou concretamente. Nesse sentido, é um complemento para entender sua posição diante dessa questão sua prática concreta. A luta cultural de Marx pode ser vista através de sua crítica das ilusões, especialmente das ideologias; sua produção teórica, extremamente ampla; o processo de levar “elementos de cultura” para o proletariado. Realizaremos uma breve exposição sobre estes três aspectos para demonstrar a efetivação de luta cultural por parte de Marx.

A obra de Marx é essencialmente crítica. Em seus primeiros escritos, aborda a questão da crítica da religião e posteriormente a crítica da filosofia alemã e, posteriormente, a crítica das ideologias científicas e pseudossocialistas. A sua análise da religião aponta para mostrar que ela é um produto terreno e que sua autoilusão de ser expressão do além apenas esconde suas origens no aquém. Ele mostra as origens sociais da religião, bem como explica que é da miséria real que surge a necessidade da ilusão religiosa. Mas logo ele passa da crítica da religião para a crítica das ideologias. Em obras como A Ideologia Alemã, A Sagrada Família, entre outras, ele se dedica à crítica da filosofia alemã com seu caráter ideológico. No entanto, ele acaba passando para a crítica de outras ideologias, tal como a dos economistas ingleses e socialistas franceses. As suas críticas a Malthus e os “economistas vulgares”, bem como aos ecléticos e mesmo aos clássicos (Adam Smith e David Ricardo) se manifesta em O Capital, Grundrisse, Teorias da Mais-Valia, etc. Da mesma forma, ele realiza a crítica do socialismo francês e do pseudossocialismo em geral, tal como se vê no Manifesto Comunista, A Miséria da Filosofia, entre outras obras. Em vários momentos ele avança na crítica de outras concepções, e em cartas e outros lugares, até de aspectos das ciências naturais, como no caso de Darwin (VIANA, 2009).

A teoria produzida por Marx é extremamente ampla e é inseparável de sua crítica. O primeiro elemento de sua produção teórica é sua teoria da alienação e da história. A teoria da alienação apresentada nos Manuscritos de Paris (também chamados “econômico-filosóficos” ou “de 1844") é o momento de constituição das bases concretas do seu humanismo e do comunismo. O trabalho alienado é o fundamento da revolução proletária, a desumanização é apresentada como a chave para emancipação humana, pois esta é negação daquela. A teoria da história é apresentada em A Ideologia Alemã, embora em diversas obras ele volte a essa questão, tal como na Contribuição à Crítica da Economia Política, entre outras. Através da elaboração dos conceitos de modo de produção, classes sociais, lutas de classes, entre outros, ele busca expressar o movimento histórico, fundado, a partir de certo momento histórico devido ao desenvolvimento das forças produtivas, na luta de classes. Ele desenvolve também uma teoria do capitalismo, que pode ser vista em diversas obras, embora de forma mais estruturada em O Capital. Nessa obra ele explica o segredo da exploração capitalista e sua essência, a produção de mais-valor, bem como suas consequências e desdobramentos, como a acumulação de capital e processo tendencial de sua superação. Da mesma forma e indissoluvelmente ligado a isso, apresenta uma teoria da revolução proletária, não só analisando o proletariado como classe social como também avançando no sentido de analisar suas lutas, sua potencialidade revolucionária, suas experiências, suas tendências. Ainda esboça elementos, baseando-se nas experiências históricas e no vislumbre racional proporcionado pela teoria (VIANA, 2014), da sociedade comunista, tal como em A Guerra Civil na França e Crítica ao Programa de Gotha, principalmente.

Os elementos de cultura que é parte da práxis dos teóricos do proletariado e Marx realizou isso também. O que muitos não sabem é que os livretos Salário, Preço e Lucro e Trabalho Assalariado e Capital, são a expressão escrita de palestras que Marx ministrou para operários. Ele sempre buscou levar a teoria para o movimento operário, tanto através da produção em si e sua publicação como livros, mas também através de documentos, cartas, conversas, palestras, incluindo as circulares na AIT – Associação Internacional dos Trabalhadores. Dois momentos especiais se destacam nesse processo, que é a redação do Manifesto Comunista e de sua análise da Comuna de Paris, contida em A Guerra Civil na França. No Manifesto Comunista, ele sintetiza elementos de sua teoria da história, de suas análises do capitalismo e da luta de classes nessa sociedade, bem como critica os pseudossocialismos e apresenta o papel dos comunistas e elementos programáticos para a luta revolucionária.  Em A Guerra Civil na França, apresenta uma análise da Comuna de Paris, de seus obstáculos e problemas e de sua importância histórica para o movimento operário revolucionário, obra divulgada para o proletariado e que poderia servir de inspiração para novas lutas. Aliás, O Capital, era para ter sido produzido em fascículos, pois a intenção de Marx é que ele fosse lido por proletários.

Nesse sentido, as ações concretas de Marx mostram uma intensa luta cultural, aliada com um trabalho organizativo e outras ações, no sentido de fortalecer a luta proletária e a formação da associação da classe na luta contra a burguesia e constituição da “livre associação dos produtores”, o comunismo.

De Marx a Nós: A Luta Cultural Hoje

Estamos em outra época, sendo que a essência do capitalismo - produção do mais-valor e acumulação de capital – continua a mesma, mas sua forma mudou. Houve um amplo desenvolvimento tecnológico, a geopolítica mundial foi alterada, a mercantilização e burocratização das relações sociais se intensificaram, o Estado assume nova forma, entre diversas outras questões. Marx produziu sua obra durante o regime de acumulação extensivo e passagem para o intensivo. Nesse sentido, os regimes de acumulação posteriores (conjugado e integral) não foram vividos e analisados por ele, a não ser em seus elementos tendenciais. A luta operária de sua época ocorria num contexto determinado e hoje as condições são bem diferentes. Os partidos e sindicatos supostamente “operários” são aparelhos burocráticos que nada tem a ver com o movimento revolucionário do proletariado, sendo mais um obstáculo. Da mesma forma, os meios oligopolistas de comunicação ganharam um espaço muito maior e, no regime de acumulação integral, a internet e redes sociais ganham espaço.

O capitalismo encontra cada vez mais dificuldades em se reproduzir. Isso faz parte de sua história, mas quanto mais se desenvolve e demonstra capacidade de superar as crises e sobreviver, mais encontra dificuldades mais amplas e profundas. As experiências revolucionárias depois da Comuna de Paris trouxeram questões inexistentes no tempo de Marx, tal como a ameaça da contrarrevolução burocrática. Após o regime de acumulação intensivo, uma imensa classe burocrática emerge e sua parte mais radicalizada, presente em partidos e sindicatos menores, se torna ávida pelo poder e para isso se diz “representante do proletariado”. Isso gera mais um obstáculo para a luta proletária: além de combater o capital e seu aparelho, o estado capitalista, tem também que se livrar de suas falsas “vanguardas” e daqueles que dizem estar do seu lado.

Essas e outras mudanças complexifica as lutas de classes, principalmente com a emergência de novas ideologias e supostas concepções críticas que no fundo apenas cria uma divisão e isolamento de setores da sociedade ao invés de levar a uma unificação que seria o fortalecimento da luta pela transformação social. Essas lutas isoladas de grupos isolados, permeados por ideologias como a do “gênero”, “libertação animal”, entre outras, acabam sendo reforço da hegemonia burguesa nos movimentos sociais e lutas cotidianas, dificultando uma ascensão das lutas proletárias e revolucionárias.

A luta cultural assume, portanto, novas tarefas. Por um lado, é preciso combater o enfraquecimento interno do marxismo (autêntico e não suas deformações burocráticas expressas no leninismo e socialdemocracia), no sentido de buscar se aliar com ideologias burguesas para não perder espaço. Apesar da preocupação de não perder espaços e criar divergências desnecessárias ser legítima, pois é preciso unir forças e muitos estão aderindo a ideologias e concepções equivocadas por falta de aprofundamento teórico, informações, etc., isso é uma faca de dois gumes, pois reforça o que tem que ser combatido.

O enfraquecimento interno é aquele no qual os próprios defensores de uma concepção se rendem a ideias dos adversários, se submetem aos modismos, introjetam outras concepções graças à vitimização de grupos, ou seja, é um processo de origem externa que gera um enfraquecimento interno, seja por pressão social, seja por falta de formação teórica e senso crítico mais desenvolvido. Às vezes isso se revela no temor de entrar em embate e isso ser impopular. No entanto, um revolucionário é, a não ser na época da revolução, impopular por natureza.

No entanto, essa é apenas uma das novas questões contemporâneas que atingem a luta cultural hoje. As tarefas são muito mais numerosas. É preciso levar “elementos de cultura” para o proletariado e demais setores da sociedade potencialmente revolucionários, e isto através de livros, revistas, jornais, panfletos, conversas, uso de meios de comunicação, internet, etc. No entanto, para que sejam realmente “elementos de cultura” é necessário não apenas “informações” ou palavras de ordem, mas que tenha um caráter formativo, fornecendo ferramentas intelectuais para interpretar e atuar nas lutas de classes.

Da mesma forma, para poder prosseguir na luta cultural e colaborar com a autoformação intelectual da população e dos militantes, é necessário a produção teórica e crítica das ideologias e representações cotidianas ilusórias. A produção teórica deve ser incentivada e realizada, no sentido de colaborar com a compreensão das relações sociais concretas, do capitalismo, de seus mecanismos de reprodução, das contradições existentes, tendências e potencialidades. Essa é a base para a crítica das ideologias, que não só exercem o papel de influenciar indivíduos e intelectuais, inclusive com potencial contestador, como, através destes e sob outras formas, os movimentos sociais e lutas sociais. Por isso a crítica das diversas ideologias, sob variadas formas e graus de desenvolvimento, deve ser realizada. Por outro lado, a crítica do imaginário, das representações cotidianas ilusórias produzidas pela própria população, é outro elemento necessário, pois ele é outro obstáculo, inclusive para o avanço da autoeducação do proletariado. É preciso avançar no sentido de difundir representações cotidianas verdadeiras e sua passagem para formas mais amplas e desenvolvidas de pensamento.

Da mesma forma, a luta contra os valores dominantes e mentalidade burguesa é outro elemento que deve ocorrer, apesar dos obstáculos mais fortes nesse caso. A crítica da axiologia, dos valores dominantes em suas diversas configurações, é um elemento que deve ser um dos focos da luta cultural. Por outro lado, o reconhecimento e discussão sobre axionomia, os valores autênticos, é necessário, ser cair no humanismo abstrato, entendendo que parte deles podem ser materializados hoje, mas parte não, e por isso é preciso de uma ética libertária e domínio teórico[5]. A relação entre teoria e ética libertária é fundamental para não cair no sentimentalismo, moralismo e/ou humanismo abstrato. A materialização da axionomia no conjunto das relações sociais pressupõe a superação da sociedade capitalista e isso se faz através da luta de classes e por isso apenas parcialmente ele se concretiza hoje. Os carrascos não podem ser tratados com solidariedade, apesar deste ser um valor autêntico, pois a recíproca não é verdadeira.

Assim, os elementos apontados por Marx continuam válidos e precisam ser aprofundados. Obviamente que um ou outro indivíduo pode focalizar em formas de luta cultural específica, apesar do ideal ser atuar em todos. No entanto, se uma pessoa colabora fazendo poesias, ou seja, realizando a luta cultural via produção artística, desde que na perspectiva do proletariado, então é algo a apoiar. Incentivar a ir além disso é algo possível e desejável, mas isso depende da singularidade psíquica do indivíduo, sua história de vida, condições sociais, etc., e por isso o que deve ser exigido é que o conteúdo de sua produção artística seja revolucionário, pois se não for não contribui com a luta.

Da mesma forma que Marx, em certo momento, foi para a biblioteca de Londres e disse que assim contribuiria melhor com a luta de classes, é preciso reconhecer as necessidades, limites, contextos, que cercam os indivíduos e que a liberdade na luta é fundamental pela luta pela liberdade, desde que o objetivo final esteja presente, que haja coerência entre a produção cultural e luta pela autogestão social. A ida de Marx para a biblioteca de Londres estava intimamente relacionada com a produção de sua obra O Capital, uma das mais importantes produções teóricas já feitas e de fundamental importância para a luta proletária.

Para o caso de formas mais organizadas e coletivas de luta, é necessário refletir criticamente e elaborar programas de ação voltados para a luta cultural. Assim, processos de produção e publicação teóricas, mecanismos de elaboração e divulgação de críticas, constituição de processos de divulgação e propaganda revolucionária, bem como articulação disso tudo com atuação nos movimentos sociais, nos movimentos grevistas, lutas de classes em geral.

Em síntese, a luta cultural é um dos principais elementos da práxis revolucionária. E ela não está separada de todos os processos de luta existentes na sociedade. O que os praticistas não percebem é que toda luta tem um elemento cultural envolvido. Num movimento grevista, as reivindicações e as ações são permeadas por concepções, representações, etc., no sentido de que as necessidades, informações, posições, são produtos de interpretações e reflexões. O mesmo vale para manifestações e protestos, trabalhos em bairros, etc. Nenhuma ação humana é desvinculada de consciência e esta é uma das determinações desse processo. Um operário com mentalidade burguesa pode ser favorável à greve para aumentar o seu salário, mas será contra ela quando houver perigo de demissão. A sua posição está intimamente ligada às suas concepções, valores, etc. Da mesma forma, no mesmo movimento, um operário revolucionário pode defender a greve, mas faltar-lhe argumentos, informações, etc., por não ter elementos de cultura suficientes para entrar no embate cultural estabelecido. Um terceiro operário pode ser em certo momento contra a greve, porque seu partido oferece essa diretriz e argumentos para tal, talvez por motivos eleitorais ou de alianças políticas ou mesmo vínculo com sindicato e/ou governo. Tal operário, pode, ao mesmo tempo, ser honesto e fazer isso por acreditar nos seus camaradas de partido e faltar-lhe informações e elementos de cultura para entender as reais motivações por trás da posição do seu partido.

Um militante que se limita a ir e apoiar, sem criticar, sem levar elementos de cultura, informações, ferramentas intelectuais, no fundo colabora muito pouco ou, em certos casos, acaba reforçando a hegemonia burguesa no mesmo. Ele, tal como o último exemplo de operário, pode também ser honesto e acreditar que isso é o que todos devem fazer, mas acaba contribuindo para que as forças conservadoras, mesmo as disfarçadas de reformistas ou até “revolucionárias”, acabem tendo supremacia no processo de luta.

Assim, a luta cultural é um elemento fundamental da luta de classes, tanto na articulação imediata com as lutas operárias e sociais em geral quanto indireta, no mundo da cultura. E o esclarecimento de sua importância e de seu papel estratégico na luta pela transformação radical do conjunto das relações sociais, abolindo o capitalismo e instaurando a autogestão social, é parte dessa mesma luta cultural, bem como sua divulgação significa levar elementos de cultura para a população em geral e para o proletariado em particular. Em síntese, a luta cultural perpassa toda a sociedade e a consciência de sua necessidade é um de seus momentos. Isso significa, no fundo, dar prosseguimento ao que Marx e outros realizaram, mas de forma mais refletida e consciente, no sentido de estar devidamente pensada e inserida numa estratégia revolucionária.

Referências

KORSCH, Karl. Marxismo e Filosofia. Porto, Afrontamento, 1977.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã (Feuerbach). São Paulo, Hucitec, 1991.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis: Vozes, 1988.

MARX, Karl. A Miséria da Filosofia. 2ª Edição, São Paulo, Global, 1989.

MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 2ª Edição, São Paulo, Martins Fontes, 1983.

MARX, Karl. Escritos de Juventud sobre el Derecho. Barcelona: Anthropos, 2008.

MARX, Karl. Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. In: A Questão Judaica. São Paulo: Moraes, 1978.

MARX, Karl. O Manifesto dos Três de Zurique. Revista Marxismo e Autogestão. Vol. 01, num. 02, jul./dez. 2014.

VIANA, Nildo. Darwin Nu. Revista Espaço Acadêmico. Ano 8, nº 95, abril de 2009.

VIANA, Nildo. Karl Marx – A Crítica Desapiedada do Existente. Florianópolis: Bookess, 2014.



* Professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás.

[1] Korsch (1977) já havia colocando, em sua luta cultural contra o pseudomarxismo, que as ideias fazem parte da realidade e por isso interferem e é também uma de suas determinações.

[2] Segundo Marx, “frações inteiras da classe dominante são lançadas no proletariado”, “também elas fornecem ao proletariado uma massa de elementos de educação”. Nos períodos mais decisivos da luta de classes, “uma pequena parte da classe dominante se desliga dela e se junta à classe revolucionária”, “especialmente uma parte dos ideólogos burgueses que conseguiram alcançar uma compreensão teórica do movimento histórico em seu conjunto” (MARX e ENGELS, 1988, p. 75). Hoje diríamos, uma parte da classe intelectual. De qualquer forma, o que Marx chama aqui de “elementos de educação”, é o que posteriormente ele chamará de “elementos de cultura”, tal como veremos adiante.

[3] Marx realiza essa discussão no contexto das lutas culturais na Alemanha e por isso aborda a emancipação dos alemães, que é parcial, devendo ser emancipação humana, e, nesse contexto, sua linguagem ainda não é a do materialismo histórico-dialético, tal como desenvolverá posteriormente, por isso ele usa, por exemplo, as palavras “filosofia” e “teoria” indistintamente. Em obras posteriores, na qual irá efetivar a crítica da filosofia, então abandonará o uso desse termo como sendo expressão de sua posição.

[4] Segundo Marx, cada classe social produz seus representantes intelectuais e literários, que são aqueles que expressam intelectualmente seus interesses de classe. “assim como os economistas são os representantes científicos da classe burguesa, os socialistas e os comunistas são os teóricos da classe proletária” (MARX, 1989, p. 118).

[5] Os valores autênticos podem, inclusive, ser integrados em discursos axiológicos e ideológicos. Basta ver o uso de Durkheim do termo “solidariedade”, um valor autêntico, num contexto discursivo ideológico e axiológico, no qual integra e desfigura seu real significado.

terça-feira, 20 de junho de 2017

AS DESVENTURAS DO FEMINISMO


AS DESVENTURAS DO FEMINISMO
Nildo Viana

A sociedade brasileira acompanha o desenrolar dos fatos políticos e cotidianos. A burocracia e seu show pirotécnico em suas mais variadas formas de manifestação (impeachment, discurso do golpe, prisão de burocratas e empresários, descoberta de corrupção, troca de ministros, lutas interburocráticas, “escola sem partido”, etc.) e a ascensão do feminismo em diversas vertentes (liberal, radical, etc.) são uma parte dessa paisagem rocambolesca. A irrealidade da vida contemporânea é acompanhada pela realidade virtual, na qual o virtual substitui o real. A diferença entre real e virtual se torna irreal no imaginário dominante. Dos anos 1960 e da reivindicação da “imaginação no poder” até a atualidade e o “poder do imaginário”, temos uma sensível perda de senso de realidade. A realidade desapareceu no imaginário e em breve o imaginário deve desaparecer na realidade. Numa época na qual as pessoas pensam que sua vontade é que determina a realidade e decide o futuro, a realidade ameaça contrariar a vontade das pessoas e decidir o seu futuro.

O burocratismo é um desses elementos. O neoliberalismo neopopulista do PT – Partido dos “Trabalhadores” – ao se apossar do aparato estatal, quis se tornar vitalício e acender vela para dois deuses: o que manda, a classe capitalista, e o que foi eleito pela maioria dos que votam, os trabalhadores. Os burocratas e intelectuais progressistas, que aumentaram quantitativamente com o apoio dos burocratas conservadores oportunistas e ávidos por cargos e dinheiro, tanto os antigos (das velhas organizações sindicais e partidárias decrépitas) quanto os novos (os que aderiram às ONGs e formas semelhantes, bem como aos financiamentos de governo e fundações internacionais) se distanciaram ainda mais da verdade e da realidade.

O novo feminismo aparece nesse contexto, mostrando sua convergência cultural com a nova hegemonia burguesa. O novo paradigma subjetivista, que engloba o pós-estruturalismo, pós-vanguardismo, ideologia neoliberal e todos seus derivados e vertentes, é a base do novo feminismo. Na sociedade brasileira, a sua presença se relaciona com o neoliberalismo neopopulista que se apossou do aparato estatal a partir do governo Lula e durou até o governo Dilma, mas possuem versões distintas e distantes do mesmo, tanto à direita quanto à esquerda.

Rainha deposta, rei posto. A rainha Dilma foi deposta e novo rei vem como uma nova rainha que é “bela, recatada e do lar”, em plena era do feminismo. A repercussão desse acontecimento serve para inserirmos a discussão do “novo feminismo”. A primeira dama é mulher, mas hoje não basta ser mulher para receber a solidariedade feminina (ou melhor, feminista). Tem que ser feminista! A primeira dama não só não é feminista como foi descrita, para escândalo de feministas e “feministos”, como bela (que absurdo!), recatada (que ultrajante!) e “do lar” (que humilhante!). O moralismo progressista une moral e progresso, e a moral é sempre uma ordem, mesmo que seja coisa de positivista. A moral do progresso não é um progresso da moral. O progresso capitalista é sempre algo imoral fantasiado de moral, tanto faz o “gênero” da moral. A moral progressista é superficial, pois não pode ser essencial. Se fosse, mostraria a sua verdadeira face, que é apenas a outra face da mesma moeda. O progressismo é a forma mais esclarecida do conservadorismo. Misoginia e misandria são coisas raras, mas quando um avança, o outro acompanha. Um completa o outro, como o côncavo e o convexo, o masculino e o feminino. E a maioria fica na plateia assistindo o show patético que se desenrola no palco, não sabendo se ri ou se chora, pois não sabe se é comédia ou tragédia.

O reino das mulheres, segundo algumas poucas delas, desabou. A rainha amazona com seu coração valente foi substituída por um rei cavalheiro que não é um “príncipe valente” e nem um “valente príncipe”. Nada mudou para as mulheres durante o reinado feminino, pois não era o sexo que reinava, já que não é atributo seu. A sucessão da realeza não é sexual e sim familiar, da mesma forma que a sucessão presidencial não é sexual e sim burocrática. O problema é que a burocracia escolhida pelo voto foi deposta pela burocracia escolhida por outros votos e pela que é escolhida pelo mérito. Apesar do mérito duvidoso de uma e da escolha duvidosa da outra, é assim que ocorre a sucessão real, com muitas dúvidas e poucas escolhas e méritos. O reinado feminino é o reinado de algumas e por isso não tem o apoio de todas, pois uma coisa é o sexo e outra coisa é a classe social. O sexo feminino foi contemplado com alguns cargos, discursos, para uma minoria tão minoritária que não conseguiu apoio da maioria tão majoritária e agora a minoria busca freneticamente o apoio da maioria, pois assim os cargos e discursos poderão reaparecer. Em nome da mulher imaginária, que é só mulher, desaparece a mulher real, que é um ser humano. Em lugar da luta real, aparece a luta imaginária. Em lugar da luta pela emancipação humana, aparece a luta pela emancipação da mulher burocrática que quer cargos e das que querem deixar de ser silenciadas silenciando os silenciadores e tornando-se silenciadoras. Esse círculo silencioso e vicioso, pouco virtuoso, reaparecerá na conclusão desse texto.

E se alguns achavam que havia limites para a burocratização, agora podem se espantar com a burocratização da mulher! Não a burocratização real, mas a mental, pois agora a luta de algumas mulheres não ultrapassa o nível de uma luta burocrática. Cargos, leis, moral, controle, repressão! Isso ao invés de cooperação, revolução, ética, autonomia, liberdade! A politização do cotidiano é o cotidiano da despolitização. O político agora é entendido como a competição capitalista pelo dinheiro e poder e suas vantagens competitivas no lar e não apenas no mundo mercantil e burocrático. Ao invés do mundo mercantil e burocrático ser destruído pelo mundo humano e das relações desinteressadas, agora o interesse invadiu tudo e assim o mundo cotidiano foi invadido pelo mundo mercantil e burocrático. O cálculo mercantil já havia invadido as casas, mas agora ele se fez consciente e absoluto. O valor de troca e a troca de valores é o que comanda a vida cotidiana, reproduzindo de forma mais intensa as relações de produção e relações de distribuição capitalistas.

Isso é comum desde que existe capitalismo, mas o fato novo é que agora, o último reduto da “fraternidade” se tornou espaço do utilitarismo, hedonismo, da competição. As famílias vivem para o “prazer sem sentimento” dos hedonistas ou então a “utilidade sem sentimento” dos utilitaristas. A outra possibilidade é a família voltada para a competição não-consciente promovida pela mentalidade competitiva[1]. De qualquer forma, os sentimentos foram expulsos, a não ser aqueles que são úteis para disfarçar interesses ocultos. Interesses ocultos e sentimentos expulsos, o par perfeito.

Os sentimentos, outrora, representavam o feminino. Tinha até um “hemisfério cerebral” para comprovar isso, ou Jung e dezenas de autores para afirmar que o reino das mulheres é o do sentimento e o dos homens é o da razão. Isso é falso se afirmado como sendo “universal” e quando se oculta que é o capitalismo que realiza a ampliação da separação entre razão e sentimentos de forma tão drástica. Agora, ao invés de homens limitados pela razão e mulheres limitadas pelos sentimentos, temos a intelectualização das mulheres e a limitação racionalista dos seres humanos em geral. Os sentimentos continuam existindo e atuando. Uns são autênticos e outros são farsas. Uns são fundamentais para a humanização, outros são apenas úteis para a permanência da sociedade desumanizada. Os sentimentos destrutivos reaparecem com mais vigor disfarçados pela razoabilização[2]. Os sentimentos explícitos aparecem, por sua vez, sob a forma de sentimentalismo seletivo e oportunista. O sentimentalismo sem sentimentos é o complemento do racionalismo sem razão. A razão e os sentimentos são separados ainda mais intensamente no capitalismo contemporâneo com a ascensão do irracionalismo (que não deixa de ser “racionalista”) e do sentimentalismo (que não deixa de ser insensível). O irracionalismo é a razão dos oportunistas e o sentimentalismo é a seletividade sentimental dos manipuladores insensíveis (ou o sentimento seletivo dos destituídos de sentimentos simpáticos, devido ao seu processo de desumanização, muitas vezes iniciado na infância).

Assim, a suposta politização do cotidiano significou a interiorização do mundo burocrático, mercantil e competitivo nas relações familiares, na sexualidade, na cotidianidade, mentalidade, na personalidade. Comicamente, uma mulher se dizendo feminista afirma que proibiu o filho de doze anos de sentir prazer com o próprio corpo por estar usando a “imagem de uma mulher sem a permissão dela”[3]. Do “poder do imaginário” à “prisão da imaginação”! A destruição da psicanálise, que começou com o estruturalismo (a psicanálise coisificada e coisificante de Lacan) e terminou com a renovação hegemônica contemporânea através do pós-estruturalismo (a psicanálise esquizofrênica e esquizofrenizante de Deleuze e Guattari) e a sua recusa pelo pseudomarxismo é um elemento que contribui para a incompreensão do risco explosivo que ronda a sociedade contemporânea. Antes era o fantasma do comunismo, agora é o ódio fantasmático. A repressão cada vez maior, o controle cada vez mais intenso, ao lado da mera e falsa liberação individual e sexual, apenas choca o ovo da serpente. Voltaremos a isto em outro texto, para não sair muito do assunto principal.

A politização do cotidiano prometeu transformar o purgatório em paraíso, mas o transformou em inferno. O paraíso foi esquecido como utopia e por isso o que resta é a burocracia (estatal ou civil), a mercadoria e a competição invadindo os lares e as mentes. A mente das mulheres das classes privilegiadas é cada vez mais burocrática, o que tem como causa social a maior presença feminina em cargos burocráticos e a expansão de ideologias derivadas disso[4]. A questão agora é o poder, é quem manda, quem controla. A solução para tudo é o controle, a vigilância. Todo controle e vigilância mostra a existência de conflitos, bem como da moral e do poder de quem controla e vigia. E, nesse mundo de competição pelo poder, se deixa de lado quem realmente controla, que é quem explora. A exploração não existe sem dominação e a dominação só existe por causa da exploração. Esqueçam a exploração e só verão dominação. Os exploradores agradecem e a luta pelo poder dilacera o resto.

As mulheres têm duas opções: ou se libertam totalmente ou apenas trocam de prisão. A prisão feminina é uma prisão que só tem mulheres e não deixa de ser prisão por causa disso[5]. As grades limitam o ser humano quando ele mesmo se limita inventando grades inexistentes. Quando um ser humano diz “eu sou apenas isso”, se limitou, se prendeu, criou uma prisão mental que limita sua ação e desenvolvimento real. Quando um ser humano se liberta de sua prisão mental, pode dizer: “eu sou um ser onilateral e exijo desenvolvimento integral”! Infelizmente, não é essa posição que predomina. Ao invés de pensar “meu corpo, minhas regras”, poderia pensar “minha mente, minha prisão”[6]. Quando esse ser humano descobrir que as regras são produzidas pela mente, então as prisões interiores poderão ser abolidas. Para isso é preciso sair de si mesmo e desenvolver a consciência, o saber. O saber só se desenvolve se tiver livre de interesses, valores, sentimentos mesquinhos e se for acompanhado da percepção da totalidade que é a sociedade.

É preciso abolir suas regras interiores (mentais) para abolir as regras exteriores, sociais. A abolição da prisão interior é condição para abolição da prisão exterior. E a prisão exterior é que gera a prisão interior, a mente individual é criada pela mentalidade coletiva que expressa relações sociais e interesses bem reais, inclusive daqueles que financiam a produção cultural, especialmente o grande capital, o aparato estatal e o capital comunicacional. Um corpo livre pressupõe uma mente livre. Uma mente livre pressupõe uma sociedade livre. Uma mente livre é algo raro e mesmo a mais livre das mentes é constituída socialmente e padece dos males sociais existentes. O desequilíbrio psíquico (neurose, psicose, etc.) não brota do corpo ou do cérebro e sim da sociedade. As mentes das feministas são produtos sociais e históricos tanto quanto a dos demais seres humanos. Ao invés de se ensimesmar em suas concepções, seria mais emancipador se as feministas estudassem as suas origens, suas fontes. Assim, elas saberiam que suas ideias não brotaram como cogumelos das lindas cabeças femininas e sim da sociedade, servindo a determinados interesses e tendo bases ideológicas bastante concretas.

De onde vêm as palavras que usamos? De onde surgiu o termo “desconstrução”? Se não se sabe disso, então é possível uma pessoa pensar que pensa por si mesma, mas pensa metade com sua cabeça e a outra metade com a cabeça dos outros. Quando se tem consciência e clareza de onde vêm as ideias que se adota, então mesmo que venha da cabeça dos outros, nós pensamos com nossa própria cabeça. Quando se desconhece isso ou não compreende essas ideias, seu significado e o interesse por detrás delas, então se pensa parcialmente com a cabeça dos outros. No teatro da consciência, a assimilação – comandada por valores e sentimentos humanistas – deve ser “protagonista”, para usar termo da moda, e a acomodação deve ser “coadjuvante” (VIANA, 2000)[7]. A assimilação de ideias num sentido positivo pressupõe um indivíduo autoconsciente de si mesmo e um mínimo de equilíbrio psíquico, bem como esforço intelectual no sentido de se aproximar da verdade e compreensão da realidade, o que pressupõe valores, sentimentos e concepções humanistas. Essas qualidades estão em falta no mercado e na sociedade capitalista, mas resistem perifericamente, na mente de alguns indivíduos ou em setores da sociedade.

O senso crítico sobre o pensamento próprio e alheio e a reflexão sobre as próprias ideias e sua comparação com a realidade é algo necessário e um antídoto para as fantasias imaginárias, muitas vezes próximas da psicose, mesmo que essa seja coletiva. O pensamento crítico se opõe ao pensamento imaginário, apesar de muitas vezes o pensamento imaginário aparecer como “crítico”. Nesse caso torna-se pensamento pseudocrítico, pois marcado pelo maniqueísmo e processos semelhantes. A percepção dos sentimentos e valores que incentiva a pseudocrítica mostra que é produto da infelicidade geradora de sentimentos antipáticos (destrutivos) e/ou de valores dominantes geradores de competição, inveja, ambição. É por isso que o humanismo é um antídoto e ele só existe em consonância com valores e sentimentos distintos. Para determinados indivíduos, com certas experiências traumáticas ou “vida malograda”, o humanismo pode surgir e existir ao entender o processo social que gerou ambos os processos que lhes atingiram. A linguagem não é neutra e seu uso tem efeitos concretos. Não poderemos desenvolver isso aqui, mas a compreensão da linguagem é parte fundamental de um pensamento crítico. A linguagem não deve dominar o ser humano, é o ser humano que deve dominar a linguagem[8].

A ideologia pós-estruturalista gera o termo “desconstrução” e depois disso não é raro ver militantes, jornalistas da Rede Globo e até “marxistas” repetindo a mesma palavra. As palavras são armas e seu significado revelam sentidos que se inserem numa ideologia que tem efeitos sociais e políticos. Os signos e os significados são constituídos socialmente e tem formas de constituição que são também gerados pela sociedade. Claro que os signos e significados dos discursos ideológicos não são constituídos pela sociedade em sua totalidade e sim pelos ideólogos. O léxico dominante é o léxico da classe dominante. O dominado que pensa com o léxico dominante querendo romper com a dominação está limitado pela dominação mental. Se um indivíduo usa o construto “fato”, se submete ao seu fetichismo, a não ser que transforme o seu sentido inserindo-o numa outra forma de pensar e tornando-o um conceito. Se um indivíduo usa um conjunto de palavras, cuja origem desconhece, cujo significado não é claro, mas que tem uma fonte ideológica, ele reproduz, mesmo que parcialmente, esta ideologia.

O novo feminismo, forjado pela nova hegemonia burguesa (gerador da ideologia do gênero, ideologia neoliberal, pós-estruturalismo, etc.), correspondente ao regime de acumulação integral, é um empobrecimento da luta das mulheres. Isso é perceptível tanto na “problematização”, palavra que algumas não cansam de repetir, quanto na “solução”. E podemos deixar de lado o feminismo radical e as propostas de “extermínio do sexo masculino” e olhar apenas para o feminismo mais generoso. Este gênero de feminismo afirma que o problema reside nas relações entre os sexos e a solução é a igualdade entre os sexos (não usamos o construto “gênero”, uma criação ideológica que apenas gera mais confusão do que esclarecimento)[9]. Aqui temos a politização despolitizada do cotidiano. A totalidade que é a sociedade desaparece e em seu lugar aparece o grande problema: as relações entre os sexos[10]. Isso, muitas vezes, vem acompanhada por uma unidade/homogeneidade ilusória entre os homens e também entre as mulheres. É uma reprodução das representações cotidianas ilusórias (“senso comum” ou imaginário) que afirmam que “todos os homens são iguais” ou “todas as mulheres são iguais”.

Os homens são diferentes, bem como as mulheres. Os homens possuem uma diferença fundamental: a de classe social, que gera antagonismo entre eles. Além disso, possuem diferenças de raça, cultura, processo histórico de vida, entre milhares de outras. As mulheres não escapam disso. Os homens possuem um corpo igual, embora não tão igual assim (no interior da semelhança há a diferença), e as mulheres da mesma forma. A diferença de personalidade é muito mais importante e marcante. As mulheres são constituídas socialmente, assim como os homens, inclusive em seu ethos sexual[11]. O modo de ser feminino e o modo de ser masculino são constituídos socialmente. No entanto, não é uma questão de “gênero” e nem é uma mera “construção cultural”, que vaga no espaço como as nuvens. Esse processo é social e está ligado ao modo de produção, à divisão social do trabalho, aos interesses e divisões de classes, às necessidades sociais e corporais, às diferenças corporais, às mutações culturais e psíquicas, aos processos históricos concretos até chegar aos casos individuais concretos. É por isso que existem indivíduos do sexo masculino que são incapazes da matar uma mosca, bem como indivíduos do sexo feminino que são capazes de matar um homem ou uma mulher por vingança. No nível mais concreto da individualidade, as coisas são muito mais complexas e as diferenças muito maiores.

A solução também é problemática. Um problema equivocado gera uma solução equivocada. Um problema que não identifica o real problema gera uma solução que nada soluciona ou soluciona imaginariamente um problema irreal. As feministas mais generosas clamam: “igualdade entre os sexos”! Isso parece justo e pareceria até “crueldade” recusar o apoio a tal proposta. No entanto, o falso problema gerou a falsa solução. A questão não é “igualdade entre os sexos”. O que se pretende com isso? Somar o fardo da miséria masculina ao fardo da pobreza feminina? As mulheres já não sofrem o bastante sendo mulheres e ainda querem que sofram como os homens? Pobres mulheres, querem que sofram como os homens! Juntar o sofrimento feminino com o sofrimento masculino nos indivíduos do sexo feminino é a sua fórmula de libertação?

Muitas mulheres (e alguns homens de discurso fácil e prática difícil) devem estar sem entender o que se quer dizer aqui. Algumas (e alguns) gritarão: machista! Se querer a libertação da mulher é ser machista, então esse texto é totalmente e assumidamente “machista”. O que propomos é a libertação total da mulher, enquanto mulher e ser humano, e não pseudolibertação parcial, migalhas acompanhadas de novos problemas. A libertação da mulher só pode ser a libertação humana, ou seja, como ser humano integral e não apenas como mulher. A “libertação” de um ser humano que é adesão a uma unilateralidade é autoflagelação.

A mulher é oprimida pela sociedade capitalista que transforma tudo em mercadoria e assim declara que o indivíduo, de ambos os sexos, para sobreviver necessita possuir dinheiro[12]. A dependência do pai e do marido não ocorre da mesma forma como nas sociedades classistas pré-capitalistas e sim através do dinheiro[13]. O vil metal torna vil a relação familiar e a vida mental. A solução feminista é: trabalho alienado para as mulheres! Sejam exploradas e dominadas no trabalho assalariado, mas sejam “independentes”! Essa é a “liberdade” da igualdade entre os sexos!

Para as mulheres das classes privilegiadas, não é o trabalho fabril ou os demais trabalhos subalternos ou mesmo a prostituição e sim um trabalho mais digno, com mais status e melhores salários. As mulheres não podem se tornar todas burguesas, nem burocratas, nem intelectuais. As mulheres das classes privilegiadas terão trabalhos privilegiados e as mulheres das classes desprivilegiadas trabalhos desprivilegiados. O mesmo vale para os homens, mas isso não importa para as feministas. A solução é a seguinte: as mulheres, seres limitados, devem acrescentar a limitação masculina em sua lista de limitações[14]. Dessa forma, ganham independência financeira e passam a sofrer por realizar um trabalho que mesmo sendo o menos incômodo é unilateral e não permite o desenvolvimento integral do indivíduo, independente do sexo.

A mulher pode se libertar sem haver a libertação humana? A resposta é não, pois tal libertação seria tão parcial que não libertaria efetivamente, apenas trocaria uma miséria por outra, ou acrescentaria mais pobreza na pobreza. A mulher, assim como o homem, só pode se libertar quando puder desenvolver o conjunto das suas potencialidades, que inclui não apenas as necessidades corporais (compartilhadas com os animais e que é a única reivindicação de certos setores da sociedade...), como a alimentação, a sexualidade, a habitação, etc., e sim as necessidades psíquicas e especificamente humanas, como a socialidade, que significaria a realização sentimental (afetiva) e integral com os demais seres humanos através de relações sociais não mediadas pelo mundo mercantil, burocrático e competitivo, e a práxis, o desenvolvimento autoconsciente e teleológico das energias físicas e psíquicas, possibilitando o desenvolvimento intelectual (criatividade, consciência, etc.), compondo uma personalidade que signifique a autorrealização humana.

Para conseguir isso é preciso abandonar as lutas especificamente femininas e ficar esperando o “admirável mundo novo”, a utopia, se realizar? Claro que não! É necessário manter as lutas femininas (e também as masculinas) contra a violência sexual, contra a violência doméstica, contra o tratamento desigual no plano salarial e profissional, etc. O que se questiona aqui é como se faz isso (e também algumas propostas e reivindicações, meros produtos culturais passageiros e sem sentido, que é um derivado das mesmas fontes ideológicas de certas tendências feministas ou então torná-la “a luta”).

O problema – e o que se recusa aqui – é isolar e absolutizar as lutas femininas. Isso leva a identificar a causa dos males femininos nos indivíduos do sexo masculino em geral, bem como ver apenas os “defeitos” masculinos e não os femininos (a reprodução da sociedade também é realizada pelas mulheres em todas as instâncias, inclusive na própria relação entre os sexos e os ethos sexuais criam limitações e problemas, bem como méritos, em ambos os sexos). O que se questiona aqui é, fundamentalmente, o isolamento das lutas femininas (gerado por diversos motivos, sendo a hegemonia burguesa a principal responsável por isso), o que gera não somente conflitos e maniqueísmos desnecessários (ANDERSON, 2016)[15] em alguns casos mais drásticos, como também adesões a governos, ideologias, propostas, que ao invés de contribuírem com a emancipação da mulher, acabam servindo para reprodução da sua opressão.

O isolamento das lutas femininas significa o apoio à sociedade capitalista e tudo que ela significa, para mulheres e homens. Um bilhão de seres humanos (mulheres, homens, crianças) estão passando fome, ou seja, sem a satisfação da mais básica necessidade corporal, a alimentação. Isso diz muito sobre essa sociedade do desperdício e do consumismo e revela sua racionalidade: o cálculo mercantil. O “silenciamento”, para usar termo agradável aos ouvidos “feministas” sobre essa situação que atingem milhões de mulheres, revela o isolamento da luta e o reducionismo ideológico. Esse isolamento que promove, simultaneamente, um abandono da utopia e da meta de libertação humana total e o afastamento da luta de classes, ou seja, da luta proletária, essencial para a constituição de uma nova sociedade, são apenas consequências desse processo. A luta especificamente feminina é importante, bem como as lutas das classes desprivilegiadas, mas o seu isolamento faz perder o senso de realidade e até sua importância, pois acaba se tornando elemento de reprodução da situação que gera o que ela combate. A mulher que morre de fome não é isolacionista e a feminista isolacionista não morre de fome.

A burocratização cada vez mais intensa da sociedade caminha lado a lado com a mercantilização. Além do controle, do poder, dos cargos, temos o problema do dinheiro, da mercadoria, do lucro. E para conquistar isso, temos a velha tradição capitalista: competição. Esses são os três pilares da sociabilidade capitalista e que são introjetados na mente dos indivíduos, homens e mulheres. Seres competitivos, burocráticos e mercantis. Nesse contexto, o sexo (em duplo sentido) é usado na competição e explica, em diversos casos, as razões da opressão. Da mesma forma, a mercantilização de tudo, inclusive do corpo e da mente, é outra fonte de opressão. A mercantilização do corpo é visível na prostituição e venda de órgãos. A mercantilização da mente é invisível, mas pode ser vista nos comportamentos oportunistas, nas produções culturais ideológicas, nas vantagens competitivas de determinadas ideias, na conveniência de determinadas concepções e discursos.

A mercantilização do corpo feminino é deplorável. Para ocorrer, é preciso de oferta e procura. A oferta pode ser provocada por necessidade ou ambição, a procura pode ser provocada por insatisfação, miséria sexual ou cultural, desequilíbrio psíquico. A mercantilização da mente feminina, quando uma mulher vende suas ideias para ter espaço, status, acesso a cargos, sucesso, fama, é algo igualmente deplorável, mesmo porque aqui há menos necessidade e mais ambição. Na prostituição corporal, temos a miséria financeira da mulher e a miséria sexual do homem. Essa relação também pode ser inversa, em alguns casos. Na prostituição mental, temos a miséria ética de mulheres e homens e a riqueza financeira de outras mulheres e homens. A miséria ética é bem pior que a miséria financeira.

Em síntese, pensar o novo feminismo é pensar a guerra de sexos no lugar da luta de classes (REED, 1980), o culturalismo, o moralismo (via mudanças comportamentais e/ou legais). A proliferação de construtos e noções equivocadas (vivência, lugar de fala, protagonismo, empoderamento, desconstrução) que compõem o discurso oportunista é o triste complemento desse quadro que é emoldurado pelas ideologias hegemônicas. O reducionismo culturalista é o coroamento disso tudo. A cultura se transforma numa entidade metafísica, não é mais constituída social e historicamente no fantástico mundo ideológico. Por isso, o feminismo se perdeu no meio do caminho e agora anda em círculos. E pelo visto vai continuar andando em círculo e nunca sairá da floresta do capitalismo e nem conseguirá se libertar dos “espíritos” que a povoam e que geram seu pensamento circular. Pensamento circular gera ação circular e ação circular gera pensamento circular. É preciso sair do círculo para lutar efetivamente e realmente pela libertação. Dentro do círculo só existe reprodução. É preciso destruir o círculo para efetivar a libertação. O círculo mental que isola as relações entre os sexos deve ser rompido para que as pessoas descubram que existe vida fora do círculo, pois isto é condição para que o círculo real seja abolido.

Referências


ANDERSON, S., 2016. Machismo ou Sexismo?. Coletivo 8 de Março, pp. http://coletivooitodemarco.blogspot.com.br/2016/03/machismo-ou-sexismo.html.
JUNG, C. G., 1978. O Eu e o Inconsciente.. Petrópolis: Vozes.
PAGLIA, C., 2016. Crítica ao Feminismo Narcisista. Blog Coletivo 8 de Março, Issue http://coletivooitodemarco.blogspot.com.br/2016/06/critica-ao-feminismo-narcisista.html.
REED, E., 1980. Sexo Contra Sexo ou Classe Contra Classe?. São Paulo: Versus.
RUCK, R., 2016. A Razoabilização como Principal Mecanismo de Defesa. Sociologia em Rede, 06(06). Disponível em: http://redelp.net/revistas/index.php/rsr/article/view/464/422 
VIANA, N., 2000. Práxis, Alienação e Consciência. In:: A Filosofia e Sua Sombra. Goiânia: Edições Germinal.
VIANA, N., 2006. Gênero e Ideologia. In:: N. VIANA, ed. A Questão da Mulher. Trabalho, Violência e Opressão. Rio de Janeiro: Ciência Moderna.
VIANA, N., 2010. Emancipação Feminina e Emancipação Humana. Revista Espaço Acadêmico, 09(107), http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/9767/5466.





[1] Isso não é generalizado. Em outros lares, pode haver “sentimento sem prazer” ou sem utilidade, ou pode haver sentimento e prazer, entre inúmeras outras possibilidades. A hegemonia não significa homogeneidade. As famílias proletárias e das classes desprivilegiadas, por exemplo, estão distantes dos novos modelos das classes privilegiadas. O processo de coisificação é mais forte nas classes privilegiadas, tanto em suas tendências mais conservadoras quanto em suas tendências mais progressistas. A recente polarização entre partidários e adversários do impeachment, bem como entre PT e adversários mostra que a coisificação gera monstros, ódio, maniqueísmos, irracionalismos, cuspes, incivilidade, tapa na cara e muitas outras maravilhas que a sociedade burguesa pode nos oferecer em épocas de desestabilização. E esse espetáculo circense pode ser acompanhado pelos meios oligopolistas de comunicação, que transmite ao vivo o processo de desumanização, sob as suas mais variadas formas e como se tudo estivesse indo muito bem.

[2] Termo utilizado por (RUCK, 2016), ou “racionalização”, no sentido que o psicanalista Ernest Jones forneceu ao termo e depois foi retomado por Sigmund Freud e, principalmente, Anna Freud.

[4]O problema hoje é que as mulheres, educadas e ambiciosas, querem entrar no novo mundo burguês do trabalho em escritórios, que são parte do legado da Revolução Industrial. Então temos um novo mundo em que homens e mulheres trabalham lado a lado nos escritórios, em que a divisão do trabalho entre homens e mulheres não existe. Portanto, ambos têm de mudar suas personalidades para se encaixar nessa realidade porque ambos são uma unidade de trabalho, são a mesma coisa” (PAGLIA, 2016). Embora não seja possível concordar com a totalidade da entrevista de Camille Paglia, pelo menos nesse aspecto ela se aproxima da realidade, ao mostrar a inserção das mulheres no trabalho burocrático e a sua mutação mental (“educadas” – ou seja, intelectualizadas – e “ambiciosas”, se aproximando ainda mais da mentalidade burguesa com seu caráter competitivo, mercantil e burocrático) que, no entanto, se aplica mais às mulheres das classes privilegiadas.

[5] Imaginemos o extermínio de todos os homens e a constituição de uma “sociedade de mulheres”, cuja forma de reprodução fosse a clonagem. Se se mantiver as relações de produção capitalistas, haverá quem explora e quem é explorado, haverá aparato estatal, controle, repressão. Haverá quem manda e quem obedece. Trabalhadoras e empregadoras domésticas. Trabalhos superiores e inferiores, bem como diferenças salariais. No fundo, o mundo será o mesmo, a diferença é entre classes. Um mundo sem homens, desde que seja capitalista, é um mundo de exploração, dominação, competição, mercantilização, burocratização, conflitos, lutas, miséria, infelicidade, fome, insatisfação, desequilíbrios psíquicos. Claro que, numa sociedade capitalista real, as diferenças sexuais geram diferenças sociais e as mulheres sofrem com o processo real de opressão, especialmente as das classes desprivilegiadas. No entanto, é preciso diferenciar essas camadas de problemas e saber o que gera o quê e não responsabilizar os homens por causa do seu sexo, sendo que a fonte disso são as relações sociais concretas e o processo histórico que geram situações e formas culturais que são determinadas e não determinantes.

[6] O corpo como propriedade ou mercadoria é apenas uma versão liberal e canhestra do corpo da mulher. O corpo não existe separado da mente (razão, sentimentos, inconsciente, valores, etc.) e a mente não existe fora da sociedade, assim como os corpos reais de indivíduos de carne e osso só existem em contatos, diretos ou indiretos, com os corpos dos outros e em espaços físicos e relações sociais específicas, que é algo muito mais importante. A corpolatria e o fetichismo do corpo são uma forma de isolar o corpo da totalidade da realidade. Uma mulher dançar nua em seu quarto ou residência tem um significado, mas fazer isso numa boate em troca de dinheiro tem outro, bem como na praça pública ofendendo a moral, os costumes, os valores, de outros. O neoindividualismo aponta para o desrespeito aos outros e ao escândalo como forma de luta e para a inadmissibilidade do “controle dos corpos”. No fundo, é apenas uma concepção hipócrita, pois com o pretexto de não ter seu corpo controlado quer controlar o corpo dos outros, pois o corpo faz o que a mente manda e o que alguns “corpos” andam fazendo, inclusive atacando as crenças alheias, é atacar os corpos alheios. Assim, a luta “corpo a corpo” é apenas a máscara das lutas ideológicas que ficam no reino das ideologias e nada mudam na realidade concreta e não resolvem os problemas sociais realmente existentes.


[8] O uso não-consciente da linguagem é expressão do domínio da linguagem (com seus significados, vínculos com ideologias e raízes/efeitos sociais “desconhecidos” e geralmente contrários aos interesses dos próprios utilizadores da mesma) sobre o ser humano, enquanto que o uso consciente e crítico mostra o domínio do ser humano sobre a linguagem.

[9] Várias críticas já foram endereçadas ao mesmo. Apresentamos uma crítica em Viana (2006), disponível em: http://informecritica.blogspot.com.br/2014/11/genero-e-ideologia.html.

[10] Existem concepções distintas, pois para algumas esse é o problema central, para outras é um dos principais problemas, etc. No entanto, mesmo para quem não considera o único ou principal problema, ao se limitar a ele, mesmo falando da existência de outros, acaba seguindo a mesma lógica de pensamento.

[11] O conceito de ethos sexual (VIANA, 2010) é semelhante ao de “papel sexual”, sem os limites ideológicos deste.

[12] Isso também atinge o homem, mas devido à divisão social do trabalho e relação distinta com o mercado de trabalho, o desemprego é menor, proporcionalmente falando, apesar das mudanças existentes. Sem dúvida, isso também tem relação com o corpo feminino e seus efeitos sobre o trabalho, num contexto em que este é realizado para o lucro dos capitalistas e que isso gera criação de diferenças de tratamento que facilitar uma maior exploração das mulheres.

[13] Isso atinge a sexualidade, mas não é nosso foco, embora seja parte do problema.

[14] E não deixa de ser curioso que o que se assimila do ethos sexual masculino seja geralmente o pior que os indivíduos do sexo masculino desenvolveram após um longo processo histórico, como agressividade, insensibilidade, etc. e deixando de lado o que é mais humano e enriquecedor, como a razão humanista (que difere da razão instrumental), determinação, o desenvolvimento da reflexão crítica e da cultura em geral, etc. A oposição entre sentimentos e razão, ideologicamente concentrada no feminino e masculino, respectivamente, e que ganhou efetividade parcial com o processo histórico e social, gera um problema na resistência ao capital, o gerador desse processo, pois é necessário uma síntese desses elementos nos indivíduos concretos, independente do sexo, e por isso Jung, através de seu pensamento metafísico, queria reunir o animus e a anima (JUNG, 1978). Outro efeito disso é a luta pela libertação humana ficar restrita. Sentimento sem razão e razão sem sentimento são duas formas de cegueira. Nem a cegueira do amor, nem a cegueira da razão. Hegel já dizia: “não basta amar, é preciso saber amar”.

[15] Parte do ódio e geração de maniqueísmo tem base real, tal como homens embrutecidos pela sociedade embrutecida que embrutecem as mulheres. O embrutecimento é um fenômeno social e não é generalizado e por isso homogeneizar os homens por causa de experiências individuais é um equívoco. A violência sexual é a mais traumática e o sinal mais patente da miséria humana e de uma sociedade embrutecida e embrutecedora. As suas consequências psíquicas são graves e em muitos casos não superadas. Por isso, a luta contra a violência sexual é uma das mais importantes, mas não apenas a visível que aparece na TV e sim na que ocorre no mundo real fora das telas, da atenção tecnocomunicacional (meios oligopolistas de comunicação) e da escandalização das classes privilegiadas, bastante dispostas a fazerem micromanifestações contra uma suposta “cultura do estupro” ao invés de combater as raízes sociais do estupro. Aqueles que combatem fantasmas não saem do mundo fantasmático e só reproduzem fantasmagorias. É preciso, seja para abolir o fenômeno que se combate ou pelo menos para minimizá-lo, ir à raiz do problema, atacar as causas e não os efeitos. É menos cômodo e mais eficaz, embora seja incômodo e ineficaz para os interesses pessoais.