domingo, 19 de fevereiro de 2017

ETHOS SEXUAIS E SOCIEDADE


ETHOS SEXUAIS E SOCIEDADE
Nildo Viana

Contemporaneamente, reina uma grande confusão em torno da questão do masculino e feminino. Essa confusão tem a ver com determinadas mudanças sociais e com a emergência da ideologia do gênero e sua matriz paradigmática, o subjetivismo. O processo de mudanças sociais e comportamentais, por um lado, e a mutação ideológica, por outro, acabam promovendo um obscurecimento das relações sociais reais.

Os intelectuais, das mais variadas áreas da divisão social do trabalho intelectual ou do “saber” teriam a responsabilidade de elevar o nível da discussão trazendo contribuições para a superação dessa verdadeira balbúrdia em torno da questão dos ethos sexuais[1]. No entanto, submetidos ao mercado, à pressão da corrente predominante de opinião (“opinião pública”) nos meios intelectualizados, aos processos sociais de constituição de hegemonia cultural (política cultural, capital comunicacional, fundações, partidos políticos, etc.) acabam caindo em modismos, descompromisso com a verdade, etc. O intelectual que possui compromisso com a verdade não busca agradar ao “grande público” ou ao “público intelectualizado” e sim dizer o que considera verdade, doa a quem doer. Essa é a função do intelectual no sentido ético e compromissado, o que, sem dúvida, se diferencia da maioria dos intelectuais em carne e osso, que exercem sua profissão visando interesses pessoais e de classe (e suas subdivisões), muito mais que o compromisso com a verdade.

Nesse sentido, o nosso objetivo aqui é contribuir com o esclarecimento da relação entre “ethos sexuais” e sociedade, visando superar a confusão reinante e a hegemonia da ideologia de gênero nos meios intelectualizados[2]. O masculino e o feminino, de acordo com a ideologia de gênero, seriam “construções culturais” e se diferenciaram do “sexo biológico”, e isso justificaria a escolha do indivíduo, que poderia, independente do sexo, escolher ser “masculino” ou “feminino”. Essa tese, curiosa e contraditória, inverte a realidade ao abandonar a totalidade da realidade e gerar um reducionismo culturalista. Por isso torna-se necessário aprofundar tal reflexão sobre os ethos sexuais e a sociedade.

O masculino e o feminino são constituídos socialmente (e não culturalmente, como quer a ideologia do gênero) e esse processo não é arbitrário, tal como alguns concebem. O ser humano é um ser biopsíquicossocial e a constituição dos ethos sexuais tem uma base que é orgânica, psíquica e social. Apenas no mundo invertido da ideologia o aspecto orgânico (“biológico”) poderia ser desconsiderado. Uma das determinações dos ethos sexuais é o organismo e sua especificidade no caso de homem e mulheres. O sexo masculino é diferente do feminino e a questão é como essas diferenças, que são naturais, são interpretadas e tratadas socialmente. Somente no mundo fantasmagórico da ideologia é que o corpo poderia ser desconsiderado na discussão sobre os ethos sexuais[3]. Se não existissem diferenças orgânicas, não existiriam as noções de masculino e feminino. A diferença orgânica gera diferenças sociais (e, de forma derivada, culturais) e psíquicas. No entanto, as relações sociais entre homens e mulheres interferem nesse processo e em cada sociedade, com suas especificidades, vai realizar esse processo de forma peculiar e ele pode ser mais ou menos rígido, relacionado com processos de opressão ou não, o que ocorre geralmente nas sociedades divididas em classes sociais. O excesso de rigidez e distinção nos ethos sexuais e outros processos sociais e culturais correlatos estão ligados a relações sociais concretas.

Nesse contexto, os ethos sexuais são perpassados por processos psíquicos que reforçam sua existência e permanência e se relacionam com outros processos psíquicos mais amplos. A base dessa formação psíquica está ligada tanto a corporeidade quanto às relações sociais concretas. Logo, esse processo é complexo, perpassado por questões históricas, sociais, psíquicas, etc. e a sua compreensão não pode ser efetivada através da ideologia do gênero[4]. E o apelo ao complemento de outra ideologia, a da identidade, muito menos tem força explicativa, o que faz, como toda produção ideológica, é inverter a realidade. A identidade é constituída social e historicamente e é uma autoimagem, muitas vezes ilusória[5] e, embora isso seja uma obviedade para a concepção marxista[6], e a sua naturalização é um procedimento ideológico ligado a interesses de reprodução dessa sociedade. A concepção hegemônica de identidade cria sua naturalização e até essencialização[7] e assim algo que deveria ser explicado aparece magicamente como sendo a explicação e, comicamente, em certas abordagens simplificadoras, cai do céu de paraquedas sem ter paraquedista e aeronave, como num passe de mágica. A identidade individual, que não deve ser confundida com outros processos e nem pode ser descontextualizada e separada da base teórica que lhe explica e fornece o seu sentido, é constituída socialmente e não é uma “essência”, da mesma forma que tende a ser ilusória. A juventude, por exemplo, é constituída socialmente, o que significa que esse grupo social e as relações sociais concretas que o materializa, é um produto social e caracterizado por relações sociais específicas. Uma vez existindo esse grupo social – e é nesse contexto que abordamos a questão da identidade, bem diferente da ideologia da identidade – ele acaba gerando uma autoimagem que, por sinal, também é constituída socialmente, pelo capital comunicacional, legislação, ideologias (discursos científicos), etc. (VIANA, 2015).

Assim, a chamada “identidade de gênero” é uma criação ideológica fundada em dois construtos equivocados que em nada contribuem para a compreensão de relações sociais reais. Se se quer saber por qual motivo um indivíduo do sexo masculino desenvolve um ethos sexual feminino, não é através desses construtos que se pode descobrir isso, pois a suposta explicação derivada de seu uso seria mera extensão ideológica (naturalizante e essencialista) ou então apenas palavreado vazio. Esse processo pode ser explicado pela força da hegemonia burguesa que promove determinadas ideologias e gera sua reprodução simplificadora nos meios intelectualizados e tenta chegar ao conjunto da população, através de termos-chave[8], como “gênero”, “identidade”, “desconstrução”, etc.

E como se poderia compreender essa discrepância entre sexo e ethos sexual? Isso remete ao processo de análise da história de vida do indivíduo no qual isso se manifesta. O marxismo e a psicanálise[9] oferecem a base analítica desse processo. A compreensão dessa discrepância remete a necessidade de análise do processo histórico de vida do indivíduo, sua socialização (que inclui relações familiares e outras relações sociais da pessoa em questão), sua formação psíquica, etc. Assim, há vários processos envolvidos (incluindo a sexualidade), e os traumas, a repressão sexual, a violência sexual, a relação com o pai e a mãe (e os processos de identificação estabelecidos nessa relação), entre diversos outros elementos que metodologicamente a dialética denomina “múltiplas determinações” e que a psicanálise explorou diversos aspectos. No entanto, também não adianta remeter ao processo de socialização se este é apenas um termo esvaziado e substituído por “identidade”, termo usado num sentido ideológico. Pior ainda os usos oportunistas do conceito de socialização, que pode ser apenas “repressão” quando se quer defender algo supostamente reprimido e que perde a negatividade no momento em que trata desse algo, já não sendo mais “repressão”. O uso de dois pesos e duas medidas só ocorre no reino da ideologia, que deve evitar a verdade a qualquer custo vinculado aos interesses que expressa.

Logo, não são as “palavras mágicas” identidade e gênero que podem explicar tal fenômeno. Aliás, a contradição é demasiadamente visível nessas expressões ideológicas, pois ao mesmo tempo colocam que gênero é uma “construção cultural” acabam essencializando a “identidade de gênero”, como se essa suposta identidade surgisse do nada e não fosse uma “construção cultural”. Assim, não é difícil ver os defensores dessa ideologia afirmarem que “gênero é uma construção cultural” e ao mesmo tempo naturalizar e essencializar a “identidade de gênero”. Essa contradição apenas revela o limite de toda ideologia: ela nunca pode chegar à verdade e para evitar esta muitas vezes nem pode levar até as últimas consequências suas próprias teses. A criação de falsos problemas e falsas soluções é bem comum no reino das ideologias. As questões reais e concretas são substituídas por palavreado vazio e pseudoexplicações.

Em síntese, a compreensão dos ethos sexuais e da constituição de um modo de ser masculino e feminino, nos seus variados aspectos (tanto positivos quanto negativos) só é possível superando as ideologias hegemônicas, especialmente a de gênero e a de identidade, e inserindo esses fenômenos na sociedade e na história, bem como observando as diversas determinações e relações existentes, com destaque, nesse caso, para a formação psíquica. No caso da sociedade capitalista, isso traz a necessidade de análise dessa sociedade, o seu processo específico de formação social do indivíduo e dos ethos sexuais, bem como o desenvolvimento psíquico no seu interior. Fora disso, o que temos são formulações imaginárias e ideológicas que, devido à força da hegemonia, são pressões poderosas que fazem os incautos ou seguidores de modismos ideológicos, reproduzirem afirmações absurdas e sem fundamentação na realidade concreta. Por isso a crítica da ideologia do gênero e da ideologia da identidade é necessária e significa remover mais um obstáculo para compreender o significado e dinâmica dos ethos sexuais e assim contribuir com a transformação social.

Referências

KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. 4ª edição, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

RUCK, Richard. A Razoabilização como Principal Mecanismo de Defesa. Revista Sociologia em Rede, vol. 6 num. 6, 2016. Disponível em: http://redelp.net/revistas/index.php/rsr/article/view/464/422

VIANA, Nildo. Emancipação Feminina e Emancipação Humana. Revista Espaço Acadêmico. Num. 107, abril de 2010. Disponível em: http://ojs.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/viewFile/9767/5466

VIANA, Nildo. Espontaneidade e Liberdade. Revista Posição. Ano 2, Vol. 2, num. 6, abr./jun. 2015. Disponível em: http://redelp.net/revistas/index.php/rpo/article/view/2viana6/222

VIANA, Nildo. Gênero e Ideologia. In: VIANA, N. (org.). A Questão da Mulher. Opressão, Trabalho, Violência. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2006b.  Disponível em: http://informecritica.blogspot.com.br/2014/11/genero-e-ideologia.html

VIANA, Nildo. Imaginário e ideologia. As ilusões nas representações cotidianas e no pensamento complexo. Revista Espaço Livre. Ano 7, num. 15, 2013. Disponível em: http://informecritica.blogspot.com.br/2015/01/imaginario-e-ideologia-as-ilusoes-nas.html

VIANA, Nildo. Juventude e Sociedade. Ensaios sobre a Condição Juvenil. São Paulo: Giostri, 2015.

VIANA, Nildo. Método Dialético e Questão da Mulher. In: VIANA, N. (org.). A Questão da Mulher. Opressão, Trabalho, Violência. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2006b. Disponível em: http://informecritica.blogspot.com.br/2014/12/metodo-dialetico-e-questao-da-mulher.html  

VIANA, Nildo. Naturalização e Desnaturalização: O Dilema da Negação Prático-crítica. Revista Espaço Livre. Vol. 8, num. 15, jan. jun./2013. Disponível em: http://redelp.net/revistas/index.php/rel/article/viewFile/51/46

YOUNG, Jock. A Sociedade Excludente. Exclusão Social, Criminalidade e Diferença na Modernidade Recente. Rio de Janeiro: Revan, 2002.





[1] O termo “ethos sexuais” foi definido em artigo publicado anteriormente (VIANA, 2010) e significa um modo de ser de cada sexo, que é constituído socialmente (e não apenas “culturalmente” e muito menos “arbitrariamente”, pois é um processo que possui múltiplas determinações, e entre elas a corporeidade). Assim, há um modo de ser masculino e um modo de ser feminino e ambos são produtos sociais e históricos, ligados ao conjunto das relações sociais (incluindo, nas sociedades complexas, as classes sociais, interesses, etc., e tendo como principal força regularizadora a classe dominante com seus aparatos, especialmente o estatal).

[2] Entenda-se por “meios intelectualizados” os setores da sociedade composta por uma parte significativa das classes sociais privilegiadas que possuem maior acesso a informações, produções intelectuais, etc., incluindo os indivíduos da classe intelectual e setores da burguesia, burocracia, etc. Isso quer dizer que “meios intelectualizados” não quer dizer que se trata de “pessoas inteligentes” e sim de indivíduos em situação social determinada que possui acesso a determinadas produções intelectuais, o que significa que foram submetidos ao processo de intelectualização e isso gera “razoabilização” (RUCK, 2016) e submissão à ideologia, doutrinas, etc., que, geralmente são formas de pensamento ilusório. Por conseguinte, a expressão não conota nenhum sentido positivo ou superior, apenas um processo social que esconde os limites intelectuais de uma sociedade decadente marcada pela mercantilização, burocratização e competição social. A utilização do termo tem o objetivo de distinguir entre esse setor da sociedade e o chamado “grande público”, a maioria da população que é composta majoritariamente pelas classes sociais desprivilegiadas.

[3] Não deixa de ser curioso como supostos marxistas caem no mesmo erro. Ao invés de analisarem a realidade e os fenômenos como totalidade, geram falsas totalizações ou se prendem a princípios abstratos: “A falsa totalização e sintetização manifesta-se no método [sic] do princípio abstrato [leia-se “modelo” - NV] que despreza a riqueza do real, isto é, levar em conta apenas aqueles fatos que estão de acordo com o princípio abstrato [modelo - NV]. O princípio abstrato, erigido em totalidade, é totalidade vazia, que trata a riqueza do real como “resíduo” irracional e incompreensível. O método [sic] do ‘princípio abstrato’ deforma a imagem total da realidade (acontecimentos históricos, obras de arte) e ao mesmo tempo se mostra destituído de sensibilidade em face dos particulares. Está a par dos fatos particulares, registra-os mas não os compreende, porque não entende o seu significado. Não revela o sentido objetivo [real] dos fatos [acontecimentos] (particulares) mas o obscurece. Assim fazendo rompe a integridade do fenômeno em causa porque o cinde em duas esferas independentes: uma parte que convém ao princípio [modelo - NV] e que por ele é explicada; e uma outra parte que contradiz o princípio [modelo - NV] e que, portanto, permanece na sombra (sem explicação e compreensão racional), como ‘resíduo’ não explicado e inexplicável do fenômeno” (KOSIK, 1986, p. 49). O problema metodológico é essencial para compreender questões correlatas e mostra a diferença entre a perspectiva marxista e a perspectiva ideológica do gênero (VIANA, 2006a; VIANA, 2006b).

[4] É necessário ressaltar que o problema não é a palavra gênero e sim a ideologia do gênero (VIANA, 2006). A ideologia, no sentido marxista, é um “sistema de pensamento ilusório” e retirar um construto do sistema construtal em que foi constituído é algo destituído de sentido se o objetivo é analisar a concepção originária do mesmo. Quando se faz a crítica da ideologia do gênero (e não “de” gênero, como colocam os opositores religiosos dessa concepção com sua pouca profundidade analítica) não é a uma mera palavra, que isolada nada significa, e sim a uma concepção que é um todo e fora desse todo o termo é destituído de importância. Logo, se alguns ingênuos “críticos críticos” (que querem criticar a crítica da ideologia do gênero), pensam que refutam a análise crítica da ideologia do gênero retirando o termo do seu contexto ideológico, apenas mostram que não entenderam nem a posição defendida nem a sua crítica.

[5] Por isso não tem nenhum sentido considerar que “identidade” tem algo a ver com “positividade” ou “autonomia”. Aliás, a própria “autonomia” é constituída social e historicamente e não significa algo positivo em si. Isso já foi abordado em outro momento (2015) e basta um exemplo clássico para explicar isso: um psicopata pode ser espontâneo e autônomo, o que não tem nada de positivo. No nebuloso mundo da ideologia e do paradigma subjetivista reinante, a reificação da linguagem é fonte de justificativa ideológica e reprodução da sociedade atual e suas ideologias e necessidades de reprodução, tal como o hedonismo, o neoindividualismo, o narcisismo, ligados ao que Erich Fromm denominou Homo Consumens e ao processo de liberação individual de indivíduos problemáticos e numa sociedade que gera milhares de desequilíbrios psíquicos. Dê a liberdade para um monstro e ele fará monstruosidades. A apologia da liberdade individual no interior da sociedade capitalista é anti-humanista e desumanizante. A verdadeira e autêntica liberdade individual só pode surgir numa sociedade humanizada. Numa sociedade desumanizada, a liberdade individual abstrata e absolutizada é mais um problema do que uma solução.

[6] O materialismo histórico se distingue das ideologias burguesas por colocar a necessidade de analisar as relações sociais concretas e não as representações derivadas delas para compreender e explicar a realidade. Isso é ainda mais importante na sociedade moderna, uma sociedade na qual o imaginário e a ideologia são hegemônicos (VIANA, 2013).

[7] Uma crítica a esse processo pode ser visto em Young (2002) e Viana (2013).

[8] Um termo-chave é uma palavra que é deslocada da ideologia da qual ela surgiu e é difundida e popularizada reforçando a hegemonia existente. Muitas vezes ele aparece como uma palavra mágica, cuja pronúncia resolveria as coisas magicamente ou fariam coisas aparecerem do nada. O construto globalização é um termo-chave, onde se “explicava” tudo (sem explicar nada) com o apelo para tal palavra, mal compreendida e que os seus utilizadores, em sua maioria, nem sequer sabiam defini-la.

[9] Claro que não se trata do marxismo e da psicanálise domesticados e submetidos à hegemonia burguesa. A psicanálise é essencial para compreender processos psíquicos individuais e a sociedade contemporânea, mas ela vem sendo deformada e domesticada, perdendo o seu potencial crítico e capacidade explicativa, e isso tem a ver também com a perda da coragem dos psicanalistas de dizerem a verdade ao invés de enfeitar a prisão do desequilíbrio psíquico, generalizada na contemporaneidade em grau elevado.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

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sábado, 11 de fevereiro de 2017

A Esquerda Dissidente e a Revolução Russa (1900-1923)

Gavril Miasnikov,, do "Grupo Operário"


A Esquerda Dissidente e a Revolução Russa
(1900-1923)
Nildo Viana*
O movimento socialista dissidente na Rússia antes e durante a revolução bolchevique é pouco conhecido. Esta ala dissidente, composta por aqueles que tinham posições divergentes das concepções dominantes nos principais partidos e organizações políticas de esquerda na Rússia, teve uma parte que atuou no interior do bolchevismo, outra parte esteve temporariamente no seu interior e se afastou, enquanto que alguns nunca participaram em tais organizações[1]. No entanto, a esquerda dissidente teve um papel fundamental na história das lutas de classes na Rússia antes e pós-revolucionária.
A esquerda marxista dissidente antes da Revolução Russa teve como grandes representantes, na Rússia, Parvus, Trotsky e Makhaïsky. Durante o processo da Revolução de 1917 (Revolução de Fevereiro e Revolução de Outubro), ela foi representada por Alexandra Kollontai, Schiliapnikov e outros integrantes da Oposição Operária, bem como os representantes dos grupos “Comunistas de Esquerda” e “Centralismo Democrático”. Esta era uma dissidência que surgiu no interior do próprio Partido Bolchevique. No entanto, externamente, havia a atuação intelectual e prática de Makhaïsky, que, ao contrário de Trotsky, não se aliou ao bolchevismo. Já no final do período, surgem novas tendências, tal como o “Grupo Operário” de Miasnikov e também “Verdade Operária”, este último animado por Bogdanov e outros dissidentes. O nosso propósito é apresentar, resumidamente, algumas das principais concepções políticas desta esquerda dissidente, englobando todos estes grupos e indivíduos.
Parvus e o “Jovem Trotsky”:
Crítica da Social-Democracia e Bolchevismo
Aleksander Helphand, mais conhecido pelo seu pseudônimo Parvus, foi uma figura de primeira grandeza intelectual no movimento socialista do final do século 19 e início do século posterior. As disputas e divergências no meio das tendências que atuam junto ao movimento operário e camponês eram enormes e isto provocava a polêmica e os embates teóricos. As diversas tendências, tal como o populismo russo, o chamado “marxismo legal”, e outras correntes, foram sendo substituídas pelo menchevismo, bolchevismo, socialismo revolucionário, e outras, além de posições individuais que não se enquadravam em nenhuma delas. Este é o caso de Parvus. Ele se opôs tanto ao menchevismo (o equivalente russo, um pouco mais à esquerda em certo período, da social-democracia) quanto ao bolchevismo. Para ele, o menchevismo era um “oportunismo claro” e o bolchevismo um “oportunismo inverso” (Salvadori, 1985).
Mas Parvus se destacou por seu pioneirismo intelectual, ao fazer previsões (tal como a da Primeira Guerra Mundial) e assumir posições que mais tarde seriam desenvolvidas por outras correntes. Podemos dizer que Parvus se adiantou ao momento histórico e esboçou posições que posteriormente seriam defendidas por Rosa Luxemburgo e pelos comunistas conselhistas (Pannekoek, Gorter, Rühle, Korsch), além da teoria da revolução permanente, desenvolvida por Trotsky. No entanto, enquanto Rosa Luxemburgo e os conselhistas elaboraram suas teses após a luta operária dizer o caminho da revolução, Parvus antes já predizia a forma de emancipação proletária. Ele desenvolveu o que o marxista alemão Ernst Bloch chamou de “consciência antecipadora”, mas realizando uma antecipação visionária.
Parvus se dedicou com especial atenção ao problema da tática revolucionária do movimento operário e à estratégia da greve de massas. Ele comentou a deformação social-democrata da Introdução de Engels ao livro de Marx, As Lutas de Classes na França, chamando-as de má interpretação. Engels estava certo, afirma Parvus, ao pensar que a “revolução de barricadas” estava ultrapassada, pois as mudanças na organização urbana e nas forças repressivas tornavam tal estratégia inviável. No entanto, isto não é motivo para se pensar que a revolução em si se tornou inviável. A nova estratégia do movimento operário é a greve de massas (Parvus, 1978).
“A greve geral não é nenhuma panacéia. Isolada das interações políticas carece de efetividade e pode levar à derrota da classe operária. Porém, não se trata disso e sim de greve de massas com fins políticos, do que a Bélgica nos dá o exemplo. Dissemos premeditadamente “greve de massas”, pois neste caso não tem nenhuma importância que toda a classe trabalhadora do país sem exceções faça a greve. A greve de massas política se diferencia das outras no sentido de que sua finalidade não é a obtenção de melhores condições de trabalho mas a consecução de certas modificações políticas, e que, portanto, não se dirige contra um capitalista individual mas contra o governo” (Parvus, 1978, p. 48).
A greve de massas não tem os inconvenientes das barricadas e atinge em cheio o processo de produção capitalista. Mas a greve revolucionária não é uma greve econômica e sim uma greve política, ou seja, não se trata de atacar um capitalista individual em sua empresa e sim atacar o estado capitalista. A greve de massas política vai corroer as forças do estado e promover a formação dos conselhos operários, o “embrião da democracia operária”, ou seja, do socialismo. Parvus irá, depois da Revolução Russa de 1905, um dos poucos intelectuais da esquerda e perceber o caráter revolucionário dos conselhos operários. Segundo ele, esta revolução gerou uma novidade histórica radical, o soviete, que, para ele, era o germe de uma nova forma de organização estatal.
Para Parvus, a Rússia era um país atrasado que convivia com lutas políticas avançadas e a greve geral era a forma nova assumida pela revolução operária. Devido ao atraso russo, seria necessário articular objetivos imediatos e objetivos revolucionários para distinguir a fase burguesa da futura revolução russa, da fase posterior, que a suplantaria. O novo regime político a ser criado seria a democracia operária e não um estado burguês. O proletariado, neste processo, cria suas próprias organizações, que superam as organizações burguesas (Salvadori, 1985).
Este é o caso dos conselhos operários, os sovietes, que possuem, para Parvus, um caráter simultaneamente destrutivo e construtivo. Os conselhos operários seriam a base real sob o qual se ergueria a democracia operária, sendo elemento de organização permanente do proletariado, articulando partido e greve geral, formando os três elementos que Parvus via no processo revolucionário proletário. O soviete, neste sentido, seria o germe do novo poder proletário, exercendo o papel de garantir a hegemonia política do proletariado sobre outros setores da sociedade, tal como os soldados e camponeses (Salvadori, 1985).
Aqui se retoma temas abordados posteriormente por Rosa Luxemburgo e pelo esquerdismo ocidental. A greve de massas, preconizada por Parvus, com a Revolução Russa de 1905, passou a ser debatida e defendida ardentemente por Rosa Luxemburgo (Luxemburgo, 1979; Guérin, 1969), embora ela já o fizesse anteriormente, desde as greves na Bélgica (Luxemburgo, 1978). No meio do debate várias figuras se apresentaram, tal como Kautsky em polêmica com Rosa Luxemburgo, bem como o social-democrata belga E. Valdeverde, também polemizando com Rosa Luxemburgo, bem como Mehring, Parvus, Bernstein, Pannekoek, e diversos outros[2].
De um lado, a ala esquerda da social-democracia, representada por Parvus, Rosa Luxemburgo, Pannekoek, e, de outro, a ala reformista, representada por diversos nomes, entre os quais, Bernstein, Kautsky, Valdeverde. Nesta época histórica, os socialistas radicais atuavam junto com os social-democratas nos mesmos partidos, mas entravam em conflito e polêmicas constantemente, sendo que os primeiros constituíam a ala esquerda dos partidos social-democratas. Parvus escrevia artigos para diversas revistas social-democratas, entre elas a Neue Zeit, dirigida por Kautsky, mais tarde exerceria influência sobre o “jovem Trotsky”[3], no qual criticava a tendência dominante da social-democracia mundial. O silenciamento posterior sobre sua obra foi possível justamente devido a isso, pois ele não agradava às tendências dominantes e não tinha conseguido muita repercussão, o que permitia “fazer de conta” que ele não existiu. Aliás, o mesmo ocorreu com Trotsky, sendo que no seu caso até ele mesmo “esqueceu” do seu passado[4].
Este Trotsky pouco conhecido, se destacou pela sua polêmica feroz com Lênin. Ele, tal como Rosa Luxemburgo, criticou o vanguardismo e centralismo de Lênin. Sua crítica fundamental pode ser denominada teoria do substitucionismo. O substitucionismo se caracteriza pela substituição da classe operária pelo partido, tal como preconizado por Lênin. Em dois textos pouco conhecidos, As Nossas Tarefas Políticas e Relatório da Delegação Siberiana, Trotsky irá refutar Lênin, acusando-o de jacobinismo e substitucionismo (Guérin, 1969; Knei-Paz, 1985; Trotsky, 1976; Deutscher, 1968). Em outros textos também irá dar continuidade às críticas (Trotsky, 1989), mas estes dois tomam o leninismo como foco.
Segundo ele, as teses de Lênin eram produto do atraso russo, o que produzia o seu “messianismo político” e “jacobinismo”. A concepção de Lênin era substitucionista por provocar a substituição da classe operária pela organização do partido, da organização do partido pelo partido, do partido por seu comitê central, e deste por um “ditador único” (Guérin, 1969; Howe, 1981; Knei-Paz, 1985; Deutscher, 1968).
“O ‘estado de sítio’ sobre o qual Lênin insistiu com tanta energia exige um ‘poder forte’. A prática da desconfiança organizada exige uma mão de ferro. O sistema de Terror é coroado por um Robespierre. O camarada Lênin passou mentalmente em revista os membros do Partido e chegou à conclusão que essa mão de ferro só podia ser ele” (Trotsky, 1976, p. 109)[5].
Daí sua teoria da vanguarda e do centralismo democrático e sua “lógica burocrática” em substituição à “lógica do movimento de classe”. Este substitucionismo, no qual o partido substitui a classe, provocaria não uma ditadura do proletariado e sim uma ditadura sobre o proletariado, tal como Trotsky pode constatar nos Urais, onde discípulos de Lênin afirmaram isto em um relatório, afirmando textualmente que não se trata de uma “ditadura do proletariado”, mas “sobre o proletariado”:
“Dir-se-á que isto é, simplesmente, uma demonstração de inépcia por parte de um grupo local. Mas não chama a atenção que esta inépcia coincida, ponto por ponto, com as críticas que os mencheviques formularam a Lênin? Por acaso não se recorda que muito tempo antes da aparição do documento dos Urais e delegação da Sibéria havia proclamado a hegemonia de um único indivíduo no seio do partido? Será que Lênin o ignorava, para quem se prepara o papel de protagonista no sistema de ‘boulangismo’ dos Urais? Protesta ele contra tal documento? Nada disso, ele se cala... O manifesto dos Urais não é uma brincadeira, mas o sintoma de um perigo já antigo que ameaça o partido. É preciso, ao contrário, felicitar os camaradas dos Urais por ter levado sua lógica até o fim” (Trotsky apud. Guérin, 1969, p. 92).
Lênin e o bolchevismo, assim, eram uma ameaça concreta ao processo da revolução proletária.
“A dificuldade consiste em que os bolcheviques só visualizam a luta de classes do proletariado até o momento do triunfo da revolução, depois do qual a enxergam como temporariamente dissolvida a coalizão ‘democrática” para tornar a reaparecer em sua forma pura – desta vez como uma luta discreta pelo socialismo – só depois do estabelecimento definitivo de um sistema republicano. Enquanto os mencheviques, partindo da noção abstrata de que ‘nossa revolução é uma revolução burguesa’, chegam à idéia de que o proletariado deve adaptar todas as suas táticas ao comportamento da burguesia liberal, como o objetivo de assegurar a essa burguesia a transferência do poder estatal, os bolcheviques partem de uma noção igualmente abstrata – ‘ditadura democrática, não ditadura socialista’ – e chegam à idéia de um proletariado de posse do poder estatal que se impõe a si mesmo uma limitação democrática burguesa. É verdade que a diferença entre eles nessa questão é muito considerável: enquanto os aspectos anti-revolucionários do menchevismo já se tornaram plenamente evidentes, os do bolchevismo só se tornarão uma séria ameaça em caso de vitória” (Trotsky, 1989, p. 317).
Trotsky colocaria que Lênin, ao substituir a luta de classes por “querelas de facção” (Figuéres, 1971) e colocar os intelectuais como superiores à classe operária, criando uma “teocracia ortodoxa” (Howe, 1981; Deutscher, 1968) abria caminho para a contra-revolução. Assim, Trotsky, antes de se tornar ele mesmo um bolchevique, realizou uma previsão sombria sobre o resultado da vitória do bolchevismo.
Makhäisky e a Contra-Revolução Intelectual
Makhäisky assume um papel singular no processo revolucionário russo. Ele, ao contrário dos demais representantes da esquerda dissidente, nunca se aliou ao bolchevismo ou à social-democracia. Makhäisky começou efetuando uma forte crítica à social-democracia e, posteriormente, ao bolchevismo. Sua crítica à social-democracia e ao bolchevismo possui o mesmo caráter. Segundo Makhaïsky, as duas ideologias expressam os interesses da intelligentsia. Sua obra vai girar principalmente em torno desta nova classe social. Em 1900 publica O Socialismo de Estado e em 1905 publica O Trabalhador Intelectual e exerce certa influência entre círculos operários russos até 1907, quando a perseguição czarista o faz ir para outros países, só retornando em 1917, devido ao processo revolucionário. Neste período, ele passa a editar, na Rússia, a revista Revolução Operária, que logo é fechada pela burocracia bolchevista.
Sua tese sobre a intelligentsia se inspira no economista socialista Rodbertus, amplamente criticado por Marx e Engels e hoje jogado ao esquecimento. Makhäisky reconhece que o socialismo de Rodbertus também é um socialismo de estado e, portanto, também é uma ideologia da intelligentsia. No entanto, ele apresenta alguns elementos para se compreender a intelectualidade na sociedade moderna com seu conceito de renda nacional. A renda nacional é o produto nacional em sua totalidade e esta é a “riqueza primária”. Desta riqueza primária, que é a soma de mais-valia produzida, vem a renda de todos os grupos sociais que não são capitalistas nem proletários, principalmente a intelligentsia.
A riqueza secundária é adquirida por esta seja através de salários pagos pelos capitalistas ou pelo estado. A intelligentsia busca aumentar os seus salários cada vez mais, adquirindo para si uma maior parte da renda nacional. É isto que possibilita o aumento da produção cultural, artística etc. nos países mais desenvolvidos. Quanto maior a riqueza secundária, afirma Rodbertus, maior é a produção cultural, intelectual, artística etc. Assim, a intelligentsia seria beneficiária do modo de produção capitalista. O seu ideal de socialismo, por conseguinte, nas suas frações mais combativas, seria o “socialismo de estado”. Makhäisky utiliza esta abordagem para explicar tanto a social-democracia quanto o bolchevismo, antes de ambos chegarem ao poder, isto é, antes da social-democracia alemã chegar ao poder do estado no capitalismo privado e do bolchevismo chegar ao poder do estado no capitalismo estatal.
Em 1905 Makhaïsky havia escrito:
“Somente pela supressão dos capitalistas privados, a classe operária moderna, os escravos contemporâneos, não deixam de serem escravos, condenados a um trabalho manual durante toda a vida; conseqüentemente, a mais-valia nacional criada por eles não desaparece, mas passa pelas mãos do Estado democrático, como fundo de manutenção para a existência parasitária de todos os extorsionários, de toda a sociedade burguesa. Esta última, depois da supressão dos capitalistas, continua a ser uma sociedade dominante, tal como anteriormente era a dos dirigentes e governantes cultos, a sociedade dos ‘colarinhos brancos’; ela fica com a posse do lucro nacional, que se partilha da mesma forma que antigamente: ‘honorários’ dos ‘trabalhadores intelectuais’; pois graças à propriedade e ao modo de vida familiar, este sistema se conserva e reproduz de geração em geração” (Makhaïsky, 1981a, p. 97).
Esta posição de Makhaïsky será mantida em vários escritos posteriores. Assim, após o que Makhäisky denominou “golpe de estado de outubro”, a sua crítica ao bolchevismo continua. O bolchevismo revela a velha tendência da social-democracia em “alimentar os operários com fábulas e não com pão”. O bolchevismo busca subjugar os problemas econômicos aos políticos e assim ludibriar o proletariado. A contra-revolução intelectual ocorrida na Rússia significa apenas que a intelligentsia que realizou greves e boicotes ao domínio bolchevique porque queria se unificar com a intelligentsia bolchevique, o que ocorreu no final das contas.
“A Revolução de Outubro mostrou muito bem que o inimigo da revolução operária e o defensor do regime de pilhagem não é apenas o capitalista possuidor das fábricas, mas também o intelectual, que detém conhecimentos trocáveis por um salário privilegiado. A intelligentsia saciada com a fartura, defendendo sua posição dominante, não quis tolerar a dominação dos operários; recusou assumir a direção técnica sem a qual os operários não podem organizar a produção” (Makhaïsky, 1981b, p. 165).
A análise de Makhäisky foi a mais profunda do socialismo radical russo. Makhaïsky fez uma análise da social-democracia e seus desdobramentos, apresentando o seu caráter de classe, isto é, demonstrando que ela é, sob suas variadas formas, uma ideologia da intelligentsia e que, por isso, realizaria, tal como posteriormente ele viu na revolução bolchevique, mas havia anunciado antes, uma contra-revolução intelectual. Assim sua teoria de que a intelligentsia é uma classe social privilegiada que retira seus rendimentos da renda nacional, isto é, do produto da exploração da classe operária, permite perceber suas ideologias políticas e seu papel na revolução proletária, que é, segundo Makhaïsky, contra-revolucionário.
Os “Comunistas de Esquerda”:
Contra o Capitalismo de Estado
No ano de 1918, em oposição à política econômica de Lênin, surge o grupo dos “Comunistas de Esquerda”, que formaram uma tendência no interior do Partido Bolchevique. Alguns de seus representantes foram Osinsky, Radek, Bukhárin, Preobajensky, Obolensky e Smirnov.
É através do periódico Kommunist (Comunista) que os representantes desta tendência irão manifestar suas teses. A sua divergência com a liderança do partido foi iniciada com a implementação da “disciplina do trabalho”, que, segundo eles expuseram em seu jornal Kommunist, que teve apenas quatro números produzidos, iria “subjugar o proletariado” e ceder a gestão aos “especialistas”. Eles acusaram Lênin de fomentar a introdução de um capitalismo de estado na Rússia e propuseram em substituição o controle operário. Os comunistas de esquerda exigiram a gestão operária partindo da base.
Osinsky defende a autonomia proletária como essência do socialismo. Ele define o capitalismo como um regime de subordinação do proletariado através da extração de mais-valor, tal como estava ocorrendo e tendia se aprofundar na Rússia, e o socialismo como a autogestão operária (gestão operária da produção).
Osinsky desenvolveu estas teses nos dois primeiros números de Kommunist, em um artigo que foi dividido em duas partes. Trata-se de uma obra fundamental para entender a posição dos comunistas de esquerda, embora Osinsky fosse o mais sólido representante teórico desta posição, bem como o mais radical. A sua obra Sobre a Construção do Socialismo é um documento fundamental para se compreender o processo da revolução russa e a burocratização crescente não como resultado inesperado do processo, pois já percebido e denunciado no interior do próprio Partido Bolchevique.
Osinsky critica o acordo de paz com a Alemanha, a política econômica de Lênin, a valorização da intelligentsia, que antes boicotava o proletariado, a implantação do taylorismo nas fábricas, entre vários outros pontos. Segundo Osinsky:
“Sem dúvida, todas essas novas tendências aparecem, de modo surpreendente, justamente no momento da assinatura do acordo de paz, com esse retrocesso ante o capital mundial, que era aceito como fundamento da paz imposta, com essas amplas concessões ao imperialismo estrangeiro que emanam dela. A guerra foi realizada não só para a conquista do país, do território, mas também para levar a estes territórios os tentáculos econômicos do capital. Os imperialistas abrem as portas para essa paz-conquista para obter proveito da economia do país vencido. E inclusive, apesar disto, este novo período orgânico ‘socialista’, segundo o camarada Lênin mesmo, termina com a aliança e o estabelecimento de relações com o capital estrangeiro, do qual quer obter dinheiro, engenheiros, armas, experts militares e talvez também apoios militares. Envolve-se com a construção de um exército próprio, a que chama de ‘exército vermelho’, o qual, sem dúvida, está em um estreito (demasiado estreito e perigoso) colaboracionismo com oficiais czaristas e generais” (Osinsky, 1971, p. 83).
Osinsky também questiona a idéia do truste estatal, ou, em outras palavras, a estatização e a confusão entre este processo e a instauração do socialismo[6]. O papel da intelligentsia não deve ser menosprezado, segundo ele, mas não se pode – nem é necessário – integrar toda esta camada social no novo regime. Uma parte da intelligentsia é inútil para o novo regime. Uma parte, que é justamente a mais próxima do proletariado, é possível de se conquistar para o socialismo. Porém, isto não pode ser feito da forma burguesa. Osinsky ironiza a proposta de Lênin e do setor majoritário do partido bolchevique: “Portanto, devemos deixar trabalhar para nós a intelligentsia que nos sabotava anteriormente. Por dinheiro, ela servia ao capital. Por dinheiro também vamos comprá-la para nós” (Osinsky, 1971, p. 82).
Não se trata, segundo Osinsky, de utilizar toda a intelligentsia e nem de comprá-la. Uma parte da intelligentsia é mais próxima do proletariado e esta é justamente a mais útil para o processo de transformação social e ela, devido sua própria inserção neste processo, não precisa ser “comprada”. A idéia de usar os capitães da indústria para construir o socialismo é tão falha quanto utilizar a organização do truste estatal para tal construção.
Da mesma forma, os trabalhadores, que são os produtores de riquezas, não devem estar submetidos ao mesmo processo de trabalho da sociedade capitalista, não devem sofrer exploração, não devem ser mera massa de manobra, “marionetes mortas”.
“Nosso ponto de partida não é o trabalho material passivo, sob a direção dos antigos servidores do capital, nem a organização do ‘socialismo’ engendrado por ele, segundo os métodos da organização do truste, mas a construção  ativa do socialismo, através dos trabalhadores sob a colaboração técnica da intelligentsia, e a luta do proletariado pelo socialismo e contra os inimigos de fora e de dentro (segundo as circunstâncias na de forma de uma defesa ativa ou de ataque)” (Osinsky, 1971, p. 85).
Osinsky recorda Marx e a teoria da exploração capitalista, a questão da mais-valia, para demonstrar que existem duas estratégias capitalistas de evitar a luta operária. A primeira é a transformação do proletário em possuidor da mercadoria força de trabalho que recebe em troca um salário. A ilusão salarial é a primeira estratégia, pois oculta o processo de exploração. A segunda estratégia é a organização do trabalho – tal como o taylorismo – e os incentivos materiais, tal como o salário por peças. Estas propostas são retomadas pelo setor majoritário do Partido Bolchevique. Isto se concretiza num grande truste estatal.
Osinsky cita o exemplo das empresas de construção de vagões e locomotivas. Todos os serviços ligados a tal construção passam a ser propriedade estatal, formando uma única empresa, isto é, um truste, porém estatal. Ele funciona como uma sociedade anônima, por ações, no qual os acionistas se tornam credores e o Estado é aquele que irá pagar.
“Como é construída a direção de um truste semelhante? Não há nenhuma dúvida de que antes de tudo se tratará de uma organização absolutamente organizada. Se concentrará em um centro, em um núcleo, no qual se compõe dos representantes do Estado, dos ‘senhores capitães da indústria’ (estes são também os representantes dos credores, dos possuidores de ações) e dos representantes dos sindicatos. A iniciativa total na organização e direção da empresa dependerá dos ‘organizadores do truste’: nós não queremos ensiná-los e levá-los aos trabalhos costumeiros, mas aprender com eles. Naturalmente, em cada fábrica particular a direção será autocrática e centralista desde baixo. Os diretores serão escolhidos a dedo pelo centro, ao lado dos quais talvez os ‘arcanjos’, como disse o camarada Krylenko, os comissários de controle, terão o lugar que merecem. Seu poder não será limitado pela intromissão dos trabalhadores das fábricas em questão: os comitês de trabalhadores terão no melhor dos casos o direito a queixar-se sobre o centro sobre as medidas dos diretores e comissários de controle. O controle dos trabalhadores em sua forma orgânica não são mais necessários: o controle pode ser realizado a partir do centro. Ali terão seu lugar tanto os representantes da força proletária e camponesa como os das mais altas camadas sindicais em uma mesa redonda. Eles se deixam ensinar, certamente e antes de  tudo, pelos senhores capitalistas; porém, isto não é grave, pois os alunos podem controlar seus mestres” (Osinsky, 1971, p. 88-89).
Isto irá repercutir na organização do trabalho. A partir deste momento, “nada de assembléias e resolução de conflitos”. A palavra de ordem passa a ser: “trabalho!” Ninguém além do centro deve se preocupar com a organização da produção. Daí o salário por peças e o taylorismo devem ser implantados. O efeito negativo do sistema salarial sobre a consciência de classe do proletariado é reforçado pela implantação do sistema Taylor. Caso os trabalhadores aceitem isso, não irá significar nada mais do que o fortalecimento da burguesia destronada e da intelligentsia.
A organização dos serviços estatais sob a forma de truste, com a conseqüente emissão de ações, centralização burocrática, a faixa de sociedade anônima, beneficiará o capital estrangeiro, seja o bom ou o mau, isto é, seja o americano ou o alemão.
“A força absoluta do alto estado maior, que em torno de 50 por 100 se encontra na mão dos negociantes de patentes, se transformará pouco a pouco na força do estado maior do capital. Se tivermos em conta as outras circunstâncias simultâneas com uma tal linha política, se compreenderá que todo o sistema pode evidenciar uma etapa para a ressurreição do capitalismo de estado na Rússia, que não podia desenvolver-ser sobre o solo putrefato da autocracia czarista (...) e que agora pode ressuscitar sobre o solo desinfetado pela atual servidão (ao capital estrangeiro)” (Osinsky, 1971, p. 94-95).
Assim, Osinsky encerra a primeira parte do seu texto colocando o perigo do capitalismo de estado e colocando a necessidade de um outro caminho, visando fortalecer a força ativa do proletariado. Na segunda parte, Osinsky não só volta a condenar a posição do Partido Bolchevique como propõe novas relações com a intelligentsia, que deve servir a toda a sociedade, bem nova forma de encaminhar as medidas necessárias para a construção do socialismo. Um dos pontos mais importantes é a construção de instituições similares ao conselho operário de Kharkov. O sistema de sovietes de economia popular deve ter seu fundamento numa total socialização da produção.
A direção das fábricas socializadas devem se organizar por alguns princípios, a saber: a) a classe operária possui a maioria definitiva da direção, não apenas em relação aos capitalistas mas também em relação a todo o resto; b) os trabalhadores das fábricas não podem ter a maioria da direção, já que o proprietário é a totalidade do proletariado, através da divisão da direção entre os trabalhadores da fábrica e os representantes dos sovietes de economia popular do distrito, ou governo, dos sovietes de trabalhadores e sindicatos; c) os técnicos e os empregados em geral devem possuir autonomia em suas funções executivas (ou seja, não incluindo funções legislativas e diretivas).
Assim, Osinsky não só realiza a crítica da política leninista como aponta para uma saída: a autonomia proletária. A sua abordagem realiza uma análise completa da política bolchevique, relacionando todos os pontos, desde a política externa à organização do trabalho, passando pelas ideologias, o papel da intelligentsia, as organizações operárias. É uma das poucas análises de conjunto da política bolchevique. Porém, a crítica de Osinsky foi, apesar disso, limitada. Esta limitação será percebida e superada pelo Grupo Operário, do qual trataremos adiante.
Os Centralistas Democráticos:
Contra a Burocracia
O conflito entre a direção partidária comanda por Lênin e os comunistas de esquerda se radicaliza durante o 1º Congresso dos Conselhos Econômicos, ocorrido em maio/junho de 1918. Lênin defende a “gestão por um só homem” e acusa os adversários de “infantilismo esquerdista” e de “mentalidade pequeno-burguesa”. Osinsky e Smirnov, entre outros, defendem a administração operária não só por cima mas também pela base e para isso tinham um amplo apoio dos delegados de província. Depois de vários conflitos, os comunistas de esquerda conseguiram aprovar uma resolução em uma subcomissão do Congresso segundo a qual dois terços dos representantes dos conselhos de administração das empresas industriais fossem eleitos pelos trabalhadores. Lênin conseguiu reverter a decisão (“estúpida”, segundo ele), diminuindo para um terço os representantes eleitos (Solidarity, 1977).
“Houve então uma cisão entre os comunistas ‘de esquerda’: Radek encontrava-se pronto a entender-se com os leninistas. Estava pronto a aceitar o princípio da ‘gestão por um só homem’, em troca dos decretos de nacionalização de 1918, que inauguravam o período do Comunismo de Guerra e que, na sua opinião, garantiam a base proletária do regime. Bukharin também abandonou Osinsky” (Solidarity, 1977, p. 100)
Radek e Bukhárin, aderindo ao leninismo e suas concepções burocráticas, abandonaram a tendência dos comunistas de esquerda, que simplesmente deixou de existir. Isto, ao lado da implantação da política do “comunismo de guerra” em 1919 e da centralização crescente que lhe acompanha, fez com que Osinsky e mais alguns remanescentes deste grupo buscasse formar uma nova oposição. Esta tinha o nome de “Centralismo Democrático” e contava com Sapronov, Smirnov, Bubnov, entre outros.
Os “Centralistas Democráticos”, também chamados “decemistas” (de DC, letras iniciais da tendência), continuaram a árdua luta contra o bolchevismo, mas não conseguiram grandes sucessos. A crítica dos centralistas democráticos, o que justifica seu nome, é ao centralismo burocrático de Lênin e dos demais líderes bolcheviques[7]. Neste contexto, propondo a descentralização, apresentam suas concepções nas “Teses Sobre a Direção Colegial e a Direção Individual”, na IX plenária do partido em 1920, e no jornal Pravda, em 1921, do texto coletivo intitulado As Futuras Tarefas do Partido.
Nas Teses eles questionam as posições extremas entre a “decisão colegial e decisão individual”. Nenhum dos dois sistemas pode ser considerado válido em qualquer circunstância, pois ambos possuem vantagens e desvantagens. Porém, os decemistas defendem a direção colegial no caso concreto da Rússia:
“Do ponto de vista sociopolítico a direção colegial possui algumas vantagens que a constituem no mais importante principio da construção organizativa soviética, e fomentam no atual período de trabalho militante sua perseverança e consolidação. A direção colegial é o grau mais alto da escola de direção estatal. Somente ela ensina a resolução de perguntas específicas em relação com os interesses da totalidade. O trabalho colegial é igualmente também o melhor método para recuperar os antigos especialistas burgueses por meio de um trabalho conjunto no novo estilo de camaradagem e para imbuí-los de psicologia proletária, é também o melhor método para controlar aos especialistas burgueses enquanto este não tiverem superado seus velhos costumes e psicologia anterior. Finalmente, e isto é o mais importante, somente a direção colegial preserva aos funcionários responsáveis de alienar-se em trabalhos especializados de visão estreita. Nesta ou naquela forma, nesta ou naquela medida, a direção colegial proporciona os fundamentos necessários para o sucesso do sistema do centralismo democrático, assim como as melhores armas contra a ressurreição da mentalidade estreita do especialista e a irremovível burocracia do aparato dos sovietes. O sucesso e o fortalecimento da direção colegial é a garantia do êxito em nossa luta econômica, que só pode realizar-se em conexão dos métodos militares com a iniciativa criadora dos trabalhadores conscientes” (Osinsky, Sapronov e Maximovsky, 1971, p.115-116).
No texto As Futuras Tarefas do Partido, os decemistas declaram a existência de uma crise no partido e a necessidade de superá-la. Eles identificam vários elementos que caracterizariam a crise do partido bolchevique, entre as quais o declínio da vida geral do partido; a paralisação dos órgãos coletivos internos; a ampliação da mentalidade burocrática orientada para interesses de grupos, principalmente nas elites do partido; a entrada de numerosas pessoas estranhas à classe proletária no partido; a concessão de privilégios para diversas classes que assumem formas intoleráveis; o aumento do descontentamento dos simples membros do partido, gerando ações contrárias ao próprio partido. Como solução, os decemistas propõem várias medidas, todas apontando para uma reformulação da organização partidária, da forma de tratamento dos setores privilegiados e para a democracia proletária.
Oposição Operária:
Autonomia Operária e Burocratismo
Alexandra Kollontai é o nome mais conhecido da esquerda dissidente russa. Mas isto se deve ao fato dela ter dedicado grande parte de sua obra à “questão da mulher” (Kollontai, 1982a; Kollontai, 1982b; Kollontai, 1982c), o que não entrava em conflito direto com o bolchevismo. Poucos, no entanto, conhecem sua obra política de crítica ao bolchevismo e sua ação concreta durante o período crítico da revolução russa.  Em seu texto A Oposição Operária, ela apresenta uma forte crítica aos caminhos da revolução russa devido ao bolchevismo. Porém, outros representantes de destaque pertenciam a este grupo, principalmente Schiliapnikov. A tomada de poder pelos bolcheviques em 1917 não realizou as promessas do socialismo e a formação do grupo Oposição Operária em 1920-1921 foi expressão do crescente descontentamento do proletariado russo.
Alexandra Kollontai e a Oposição Operária realizam, tal como os demais grupos (não custa lembrar que quando a Oposição Operária surgiu ainda existia o grupo Centralismo Democrático) uma crítica da burocracia e das concepções organizativas de Lênin e Trotsky. Um dos pontos criticados é a tese leninista de gestão individual:
“O princípio da ‘direção de um só homem é um produto da concepção individualista da classe burguesa. A ‘direção de um só homem’ corresponde, como princípio, à vontade livre, ilimitada e isolada de um só homem desligado da coletividade. Esta concepção reflete-se em todos os aspectos da atividade humana, começando pela nomeação dum soberano à cabeça do Estado e acabando no diretor todo-poderoso da fábrica. Eis a suprema sabedoria do pensamento burguês. A burguesia não acredita no poder de um órgão coletivo. Para ela, as massas não são mais do que um rebanho fácil de chicotear e de encaminhar para onde ela quer” (Kollontai, 1977, p. 30-31).
O ponto de vista de Kollontai é oposto:
“A classe operária e os seus porta-vozes, pelo contrário, têm consciência de que as novas aspirações comunistas só podem ser realizadas pelo esforço coletivo dos próprios trabalhadores. Quanto mais as massas desenvolverem a capacidade de exprimir uma vontade coletiva e um pensamento comum, mais rápida e mais completa será a realização das aspirações da classe operária: porque então será criada uma nova indústria comunista, homogênea, unificada e bem preparada. Só os que estão ligados à produção podem introduzir nela inovações que a animem” (Kollontai, 1977, p. 31).
Kollontai destacava a divergência em relação ao partido por parte da Oposição Operária, que se manifestava na posição bolchevista de “desconfiança” em relação à classe operária e ao papel atribuído aos “diretores”. Os sindicatos, na concepção bolchevista, teriam apenas o papel de “educador”, de “escola”[8]. Assim, a divergência reside em quem será responsável pela construção do comunismo, o Conselho Superior de Economia Nacional e seus organismos burocráticos ou os sindicatos da indústria. Obviamente, as lideranças bolcheviques tomavam partido da burocracia enquanto que a Oposição Operária defendia a primazia dos sindicatos (baseados nos comitês de fábrica) no processo de formação do comunismo.
Em seu texto, Alexandra Kollontai dedica um capítulo fundamental intitulado “Sobre a Burocracia e a Atividade Autônoma das Massas”. Ela faz a pergunta: “burocracia ou atividade autônoma das massas?” Esta oposição manifesta a questão da possibilidade da classe operária realizar o processo de autogestão social, e revela o obstáculo da burocracia.
“Na Rússia soviética qualquer criança sabe que o problema vital é o de preparar largas massas operárias, camponesas e outras para a reconstrução da economia no estado proletário e o de modificar as condições de vida em conformidade com essa reconstrução. A tarefa é clara: despertar a iniciativa e atividade autônoma das massas. Mas o que é que se faz para encorajar e desenvolver esta iniciativa? Absolutamente nada. Pelo contrário. Em todas as reuniões incitam-se os operários, homens e mulheres, a ‘criar uma nova vida, a construir e a ajudar as autoridades soviéticas’. Mas, logo que as massas ou grupos de operários isolados tomam este incitamento a sério e tentam aplicá-lo na vida real, surgem certas instituições burocráticas que, sentindo-se ignoradas, se apressam a cortar pela raiz os esforços destes iniciadores demasiado zelosos” (Kollontai, 1977, p. 76).
Alexandra Kollontai opõe, em seguida, a atividade autônoma das massas ao sistema burocrático. Esta é uma repetição da discussão anterior sobre os sindicatos. Ela revela que a constituição do comunismo deve ser obra dos próprios produtores e que a discussão sobre burocracia na esfera do Partido Bolchevique é superficial, apelando para a discussão sobre “papelada” enquanto que o fundamental da burocracia são as decisões tomadas pelas instituições centrais. As decisões são apenas “transmitidas” à base. Mas para eliminar a burocracia nas instituições soviética é preciso aboli-la no interior do próprio Partido Bolchevique.
“Para escorraçar a burocracia que encontrou abrigo nas instituições soviéticas, devemos em primeiro lugar desembarcar-nos ela no interior do próprio partido. É aí que se trava a luta imediata. Logo que o Partido reconheça a atividade autônoma das massas como base de nosso Estado – não em teoria, mas na prática – as instituições soviéticas tornar-se-ão então, automaticamente, instituições com vida, destinadas a pôr em execução o programa comunista. Deixarão de ser as instituições das papeladas, os laboratórios de decretos natimortos, em que tão rapidamente degeneraram” (Kollontai, 1977, p. 80).
Alexandra Kollontai e a Oposição Operária apresentam diversas medidas visando barrar o processo de crescente burocratização e o domínio da burocracia e resgatar a atividade autônoma das massas, inclusive propondo o afastamento das instituições soviéticas de elementos não-operários, tais como os especialistas e representantes das “classes médias”.
Schiliapnikov também ressaltou o papel fundamental dos sindicatos no processo de construção do comunismo e apresentou uma proposta piramidal no qual os sindicatos e suas células, os comitês de trabalhadores, organizariam de forma planificada e organizada o processo de produção, além de outras propostas, tais como a gratuidade de habitação, alimentação, acesso ao teatro, etc. (Schiliapnikov, 1971).
A oposição operária iria desaparecer com a decisão do setor majoritário do Partido Bolchevique em abolir as frações, tal como os Centralistas Democráticos. De sua ala esquerda, entretanto, surgiria um coletivo ainda mais radical, o Grupo Operário, que, juntamente com outro grupo, o Verdade Operária, manteria a posição dissidente viva na Rússia.
“Verdade Operária”:
Bolchevismo e Capitalismo de Estado
A proibição das frações dentro do Partido Bolchevique, em 1921, decretou o fim da Oposição Operária e do Centralismo Democrático, sendo que este já estava praticamente destruído antes disso. O massacre de Kronstadt, a rebelião dos marinheiros que exigiam “mais sovietes” e “menos partido”, marcou um radical enfraquecimento da oposição (Arvon, 1984). Um pouco antes disso, surgiram dois outros grupos. Um era chamado “Grupo Operário”, cujo principal representante era Miasnikov; o outro era chamado “Verdade Operária”, que surgiu em 1921, cujo principal representante foi Bogdanov[9]. A principal diferença entre estes e os demais grupos de oposição ao bolchevismo reside no fato deles terem se formado fora do Partido Bolchevique, embora uma parte de seus integrantes tenham passado por este partido, tal como seus principais representantes, Miasnikov e Bogdanov, respectivamente.
O grupo Verdade Operária iniciam sua análise do processo de luta de classes na Rússia através de uma reflexão sobre o desenvolvimento do capitalismo. A tese exposta por este grupo é a de que a economia internacional e as relações de classes no interior dos países explicam a evolução da Rússia. A guerra interrompeu as relações econômicas entre os países, que passou a ter que retirar do seu próprio interior as condições para uma existência autônoma. Isto trouxe a necessidade de regulação e organização a partir da lógica da guerra, criando um “capitalismo de guerra”. Isto nada tem a ver com o socialismo e sim com o capitalismo de Estado, já que a repartição do produto nacional permanece a mesma.
Neste contexto, a burguesia privada perdia a capacidade de dirigir a produção, enquanto que o proletariado não estava preparado para organizar a produção sob novas bases. É devido a isto que os técnicos avançavam cada vez mais como substituto da burguesia na direção do processo produtivo. A intelligentsia se torna a nova força dirigente do processo de produção.
Foi isto que aconteceu durante a Guerra Mundial e nos pós-guerra. Na Rússia, o mesmo se sucedia, sendo que a nova burguesia estatal foi o resultado da fusão dos bolcheviques com os capitalistas comerciais da Nova Política Econômica. A burocracia dos sovietes, dos sindicatos e do partido, junto com os organizadores do capitalismo de Estado (burocracia estatal), possuem um elevado nível de renda em contraposição aos trabalhadores, criando um abismo entre partido comunista e classe operária. O partido comunista se tornou um “partido da intelligentsia”. A burocracia sindical, por sua vez, com seu oportunismo realiza uma mediação e amortecimento das lutas de classes e assim favorece a manutenção do capitalismo de Estado.
O grupo Verdade Operária propõe, por conseguinte, a formação de um Partido dos Trabalhadores Russos. Tal partido deveria encaminhar um conjunto de propostas sobre política internacional (aliança com os países de capital avançado, tal como EUA e Alemanha e se posicionar contra a França, qualificada de “reacionária”), liberdade interna (de imprensa, reunião, etc.), política cultural (luta contra as tendências autoritárias e pequeno-burguesas, trabalho cultural, etc.).
A relação com os demais partidos socialistas é pautada pela crítica, tanto ao menchevismo quanto aos social-revolucionários. Isto também ocorre no que se refere ao grupo Oposição Operária, que se limitava a propor coisas já superadas, como o comunismo de guerra e acabou assumindo um papel reacionário[10].
Grupo Operário:
Sovietes contra Burocracia
Gavril Miasnikov tinha origem operária e era militante do partido bolchevique desde 1905. Com o processo da revolução russa, participou dos debates, se aliando, inicialmente, aos “Comunistas de Esquerda” e, posteriormente, atuou conjuntamente com os Centralistas Democráticos e a Oposição Operária (Avrich, 1984).  Miasnikov se manifestou várias vezes contra a política leninista, tanto no que se refere ao acordo do tratado de Brest-Litovski quanto à questão da liberdade de imprensa. Miasnikov foi um dos primeiros a problematizar o papel dos sindicatos e sua relação com os sovietes. Em 1920, ele escrevia que os sindicatos não tinham nenhum papel relevante no processo da revolução russa e da organização da nova sociedade. Os Sovietes cumpriam o papel de órgão revolucionário, bem como de organização do trabalho. Os sindicatos sobreviveram devido ao costume da classe operária de considerá-los representantes dos trabalhadores e para não criar desconfiança nos demais países. Porém, o papel dos sindicatos e sovietes se confundiam e os últimos são os mais adequados para organizar a produção e reorganização social (Miasnikov, 1971).
Miasnikov foi ameaçado de expulsão, até que depois de várias ameaças, isto ocorre em fevereiro de 1922. Em 1923 funda uma oposição clandestina, chamado Grupo Operário do Partido Comunista da Rússia. Apesar da referência, o referido grupo não tinha nenhuma ligação com o PC russo. O Grupo Operário reivindicava ser a voz autêntica do proletariado. O grupo contava com um grande número de operários e alguns ex-militantes bolcheviques e da Oposição Operária. Assim, além de Miasnikov, haviam outros integrantes atuantes como Kuznetsov, Moiseev, Treyozhnye, Tyiunov, entre outros.
Em 1923 lançam o Manifesto do Grupo Operário. Neste, há a defesa da autogestão dos trabalhadores, a remoção dos especialistas burgueses, a liberdade de imprensa, a eleição direta dos sovietes nas fábricas. Um dos elementos fundamentais do Manifesto residia na defesa da autonomia proletária e na crítica da burocracia e da intelligentsia. A política econômica bolchevique também é criticada: os autores do Manifesto perguntam: a NEP – Nova Política Econômica – não teria se transformado em Nova Exploração do Proletariado? Esta política teria beneficiado, na verdade, o fortalecimento da burguesia e proliferação de burocratas e da corrupção.
A NEP era um símbolo da deterioração do ideal socialista e da revolução. A abolição da propriedade privada não aboliu as demais características do capitalismo: sistema salarial, diferença de renda e status, autoridade hierárquica, burocratismo. Miasnikov via a NEP como um recuo do socialismo, recuo iniciado no período da guerra civil (Avrich, 1984). As raízes deste processo teriam surgido no 9º Congresso do Partido Comunista Russo, quando se decidiu pela “gestão individual” e pela utilização dos técnicos especializados. Lênin e o Partido Bolchevique privaram os trabalhadores russos da conquista fundamental, a organização da produção pela classe operária, e em seu lugar instituiu uma direção burocrática. A produção deveria voltar a ser gerida pelo proletariado, bem como os burocratas e a intelligentsia, preocupada apenas com seus privilégios, deveriam ser afastados. O reino de hipocrisia dominava a sociedade russa devido ao domínio burocrático-intelectual estabelecido. Uma nova classe social usurpava o lugar que pertencia aos trabalhadores, a burocracia.
A única solução para a degeneração da revolução seria a restauração da democracia proletária. Somente a iniciativa proletária poderia mudar o rumo do processo social, pois a liderança bolchevique era incapaz de tal tarefa. Os trabalhadores em cada empresa e local de trabalho, deveriam retomar o controle do processo revolucionário. Lênin não tinha confiança nas ações da classe operária e se refugiou em soluções administrativas, pregando reformas burocráticas da burocracia. A ditadura do partido único só poderia ser combatida através da ação do proletariado.
A política externa deveria mudar de direção e a Internacional Comunista deveria abandonar sua política de frente única. Seria necessário romper com as idéias de reformas parciais, aliança com socialistas moderados, e busca de ganhos econômicos limitados. Era preciso ir direto ao combate ao capitalismo, para não enfraquecer a esperança e animo do proletariado. A revolução social nos países avançados deveria ocorrer agora e não num futuro distante e esta deveria ser a política da Internacional Comunista. O Manifesto faz observações sobre a necessidade de unificar a esquerda revolucionária e cita o Partido Comunista Operário da Alemanha (KAPD) – a dissidência do Partido Comunista Alemão (KPD), pró-soviético – e Partido Operário Comunista da Holanda, ambos anti-bolcheviques e que optaram pelo “comunismo de conselhos” ao invés do “comunismo de partido”, como as referências do processo revolucionário mundial. O contato entre Miasnikov e KAPD irá preocupar a direção bolchevique. Pouco depois, o primeiro iria para o exílio e a prisão, e o segundo será expulso da Internacional Comunista.
O Manifesto do Grupo Operário teve repercussão. O grupo era formado por uns 300 indivíduos em Moscou, onde possuía maior força, a maioria operários, e contava com alguns militantes antigos e novos forjados na nova situação e em outras cidades. As greves nos centros industriais em 1923 estiveram, de certa forma, ligado ao Grupo Operário, que foi o animador de algumas delas. Leon Trotsky denunciaria o Manifesto do Grupo Operário como sendo makhaiskismo, revelando a influência de Makhaïsky e da tese do “socialismo de estado”, no qual a classe operária é explorada pela intelligentsia. Zinoviev diria que toda crítica ao partido, mesmo de esquerda, seria, doravante, menchevismo. Miasnikov foi preso em maio de 1923. Depois conseguiu sair do país e foi para Berlim, onde se encontrou com os integrantes do KAPD e com o apoio destes publicou o Manifesto na Europa. O Grupo Operário conseguiu manter suas atividades através de outros militantes, entre eles Makh e Kuznetsov. Alguns foram ameaçados e vários outros expulsos do partido, entre eles Moiseev, Tyiunov, Berzina, Demidov, Kotov, e Shokhanov. Miasnikov volta para a Rússia no final de 1923, com a garantia de Zinoviev e Kritinsky que nada lhe aconteceria. Apesar da garantia, foi preso por Dzerzhinsky tão logo pisou em solo russo. O grupo foi silenciado a partir de então.
A repressão se tornava cada vez mais forte, já antes da morte de Lênin. Miasnikov faria protestos na prisão, greve de fome, crítica e comparação das ações bolchevistas com as fascistas, até conseguir fugir em 1928. Mais tarde, na Europa, encontraria Trotsky, agora exilado e na oposição à Stálin, e apesar de algumas concordâncias, não entraram em acordo, pois, para Miasnikov, a idéia trotskista do “Estado Operário com deformações burocráticas” era insustentável, pois o que existia na Rússia era um Capitalismo de Estado dominado por uma elite burocrática[11].
Esquerda Dissidente e Luta de Classes na Rússia
Os diversos grupos e indivíduos dissidentes que existiram na Rússia, desde o início do século e das lutas operárias radicais de 1905 até a morte de Lênin, sempre abordaram alguns temas recorrentes, tais como a intelligentsia, o bolchevismo, o capitalismo de estado, a burocracia.
Sem dúvida, é possível distinguir entre os dissidentes pré-revolucionários e os pós-revolucionários. Os dissidentes pré-revolucionários criticam as tendências dominantes, a social-democracia e o bolchevismo, criticavam o burocratismo no partido e os perigos que representava. Este foi o caso de Parvus e o jovem Trotsky.
Os dissidentes pós-revolucionários, por sua vez, criticavam a gestão das fábricas (a gestão individual preconizada por Lênin e Trotsky), o burocratismo, a direção bolchevique, a intelligentsia, e as características capitalistas do regime, colocando a tendência ao capitalismo de Estado. Este é o caso dos Comunistas de Esquerda, Centralismo Democrático e Oposição Operária. Já o Grupo Operário e Verdade Operária, devido ao período de seu surgimento, no qual houve um aprofundamento da burocratização e ficava mais claro o caráter do regime, a análise da sociedade russa já era mais clara, reconhecendo o caráter capitalista estatal e a impossibilidade da direção bolchevique realizar as mudanças necessárias.
A única exceção foi Makhaïsky que, antes da revolução bolchevique já havia anunciado o processo contra-revolucionário e o denunciou depois de estabelecido. A diferença fundamental era que de todos eles o único que não tinha nenhuma ligação com o Partido Bolchevique era Makhaïsky. Assim, nunca se iludiu com a idéia de que o partido poderia resolver os problemas dos quais era a própria causa.
As críticas dos Comunistas de Esquerda, dos Centralistas Democráticos e da Oposição Operária eram, geralmente, lançadas ao partido, e pedindo deste a solução, tal como a liberdade de imprensa, ou a mudança da política econômica, externa ou de gestão das fábricas. Embora as críticas tenham se radicalizado com o passar do tempo (as exigências e críticas dos Comunistas de Esquerda foram radicalizados pelos grupos posteriores, os decemistas e a Oposição Operária, e, mais ainda, pelo Grupo Operário e Verdade Operária), elas nunca ultrapassaram certos limites.
A história da esquerda dissidente também é curiosa. Parvus abandonaria sua concepção radical e se tornaria integrante do governo social-democrata na Alemanha; Trotsky abandonaria seu radicalismo anti-bolchevique e se tornaria um leninista; Bukhárin, Radek e outros integrantes do grupo Comunistas de Esquerda abandonariam a oposição e se tornariam defensores da direção partidária; muitos outros abandonariam a luta e se tornariam burocratas estatais. Muitos outros resistiriam e seriam presos, exilados ou assassinados. A linha divisória ocorre entre os que abandonam suas teses críticas e os que as aprofundam. No entanto, existe uma linha divisória mais importante.
Os Comunistas de Esquerda realizavam uma crítica mais moderada ao bolchevismo e ao regime, isto pelo motivo de que a situação ainda se agravaria e a percepção de alguns aspectos não estava clara, bem como pelos integrantes do grupo. Não havia unidade entre os representantes desta tendência, e existiam os mais moderados, como Bukhárin e Radek, e os mais radicais, como Osinsky. A cisão do grupo foi provocada justamente por esta diferença interna diante do confronto com a direção bolchevique.
Os decemistas possuíam uma maior radicalidade, tanto por seus componentes quanto pela evolução dos acontecimentos. Porém, eles lutaram contra o bolchevismo no campo dele, na esfera partidária, uma das instituições da nova dominação de classe, ao invés de se aliar ao movimento operário. No entanto, também  não havia unidade no interior deste grupo:
“Uns continuavam a pensar que Lênin, depois de outubro, mesmo cometendo alguns erros, tinha tido uma posição justa e que a linha só se tinha começado a desviar com Stálin; os outros julgavam que já no tempo de Lênin com a instauração da NEP,  a estrutura democrático-burguesa da revolução se tinha sobreposto à estrutura socialista e que o próprio Lênin não sabia o que fazia. Os terceiros declaravam que apesar de todas as proclamações, a estrutura socialista da revolução tinha sido sempre mais fraca que a estrutura pequeno-burguesa. A revisão do leninismo assentava desde aí não só sobre o capitalismo de Estado mas também na ditadura do partido. Ao princípio, quando Lênin em 1920 defende a tese do partido único e da sua ditadura, o grupo decemista tinha-lhe dado a sua aprovação, e imediatamente se separaram da Oposição Operária que logo a seguir tinha virado contra.” (Ciliga, 1975, p. 15-16).
Segundo Ciliga, após a prisão, muitos decemistas radicalizaram seu posicionamento. Para Jacques Kosman, a forma que Lênin trabalhou a organização da indústria a colocava inteiramente nas mãos da burocracia. Os decemistas foram contra a proposta do Grupo Operário segundo a qual os operários deveriam ter a liberdade de escolher o seu partido. Para Damidov, o proletariado é homogêneo e por isso seus interesses somente através de um único partido seus interesses podem ser representados, e esta proposta seria “menchevista”. Porém, na ala radical dos decemistas, Smirnov afirmava:
“Nunca houve revolução proletária na Rússia, nem ditadura do proletariado. Houve, apenas, uma ‘revolução popular’ na base, e, no topo, uma ditadura burocrática. Lênin nunca foi um ideólogo do proletariado. Do princípio ao fim, não passou de um ideólogo da intelligentsia” (Smirnov, apud. Ciliga, 1975, p. 20).
Smirnov defendia a tese de que o mundo se dirigia a uma nova formação social, o capitalismo de Estado, tal como ocorria na Rússia, na Turquia, na Itália Fascista e na Alemanha Nazista. Segundo ele, “o comunismo é um fascismo extremista, o fascismo é um comunismo moderado”. Ciliga coloca que a perspectiva do socialismo fica de lado neste tipo de abordagem. Smirnov foi expulso do grupo.
A limitação das primeiras oposições no interior do bolchevismo, representada tanto pelos Comunistas de Esquerda quanto pelos Centralistas Democráticos, estava em sua filiação ao partido bolchevique.
“O grupo do Centralismo Democrático encontrava-se numa situação difícil quando se punha em causa Lênin. Diferindo dos trotskistas, este grupo tinha as suas origens na velha guarda bolchevique. Assim, tanto nas suas concepções gerais como no seu enunciado, ele era ‘leninista’. Na sua origem, representa a oposição do aparelho local, a oposição de Sua Magestade” contra o centro. Em nome do ‘centralismo democrático’ opunha-se ao centralismo burocrático do comitê central de Lênin. Sem querer reconhecê-lo, opunha ao leninismo do período decadente da revolução, o Lênin do período ascendente. Criticava a política prática de Lênin apoiando-se nos princípios leninistas de O Estado e a Revolução. Mas por mais profunda que tenha sido esta obra de 1917 de Lênin, ela não dava todavia respostas imediatas aos novos problemas provocados pelo evoluir da Revolução. Finalmente, o grupo ficou no impasse durante 10 anos (1919-1929), quer capitulando perante um ultimato de Lênin, quer apoiando os trotskistas na sua luta contra Stálin. A sua orientação mais papista do que o papa foi estéril” (Ciliga, 1975, p. 11).
Assim, estes dois grupos, apesar de seus representantes mais radicais (Osinsky, Smirnov), realizaram uma luta que não assumiu a radicalidade necessária, isto é, de chamar o proletariado para a ação revolucionária. Embora defendessem, especialmente os mais radicais, a iniciativa operária e a democracia proletária, o faziam através do partido bolchevique e não junto à própria classe operária.
A Oposição Operária realizou um trabalho um pouco mais radical, contestando mais diretamente Lênin e Trotsky e defendendo a iniciativa das massas com certa ligação com indivíduos proletários. Porém, a sua defesa dos sindicatos era problemática. O decemista Schapiro já alertava que a Oposição Operária “não representava os interesses do proletariado mas os da burocracia sindical”. Neste sentido, a passagem da direção das fábricas para os sindicatos significaria tão-somente a substituição do domínio da burocracia do partido para a burocracia sindical (Ciliga, 1975).
Apesar disso, é preciso esclarecer que também na Oposição Operária não havia unidade e que os sindicatos eram bastante fracos na Rússia. Porém, sem dúvida a Oposição Operária realizou uma crítica à direção bolchevique e colocou o processo de burocratização crescente, fornecendo informações sobre a situação que mostram que o caminho de Stálin já havia sido preparado pelo próprio bolchevismo[12]. Mas não se pode esquecer que a Oposição operária fazia uma crítica apenas à direção bolchevique e não ao bolchevismo enquanto ideologia e prática[13]. Apesar disso, Schiliapnikov, um dos mais radicais componentes da Oposição Operária, anunciava que havia uma dualidade de poderes na Rússia, o poder dos burocratas e o poder proletário, e seria necessária uma decisão radical: o socialismo ou o capitalismo de Estado (Ciliga, 1975).
O grupo Verdade Operária avançava no sentido de caracterizar o regime russo como um capitalismo de Estado, mas se equivocava, como Smirnov, em não ver as diferenças entre o bolchevismo e o fascismo, bem como defender a tese problemática da incapacidade da classe capitalista de gerir o capital aumentava a importância crescente da burocracia. Esta tese iria desembocar em concepção análoga a de Smirnov, e posteriormente o ex-trotskista James Burnham, de uma tendência ao capitalismo de Estado em nível mundial. Esta concepção acaba deixando de lado a questão fundamental do desenvolvimento capitalista e se ilude com uma visão empiricista do processo histórico do capitalismo. O Verdade Operária também avançou no sentido de não fazer apelos ao Partido Bolchevique, mas se mostrou limitado ao não ultrapassar a ideologia de um “partido dos trabalhadores”.
O Grupo Operário, formado por militantes que alguns chamavam miasnikovistas, foi o grupo que mais avançou na análise da revolução bolchevique e das propostas políticas. O seu mérito  não só estava em buscar a liberdade e autonomia proletária de forma mais ampla, como buscar se fundamentar nos conselhos operários e não nos sindicatos, como também numa crítica e oposição mais radical em relação ao bolchevismo. A caracterização da Rússia como capitalismo de Estado e a busca de incentivar as lutas diretas do proletariado, bem como a defesa de seu direito de depor qualquer partido, inclusive os intitulados “comunistas”, também são fundamentais. A percepção da formação de uma nova classe dominante e privilegiada, a crítica da burocracia, é outro mérito deste grupo. O seu maior defeito, na época de seu surgimento, foi se colocar como sendo ligado ao Partido Comunista (ligação meramente fictícia, já que era um grupo clandestino, não reconhecido e combatido pelo partido), mas depois vai, paulatinamente, se afastando desta posição.
A obra de Makhaïsky assume uma radicalidade e capacidade de síntese maior do que a de todas as demais tendências. Makhaïsky discutiu todos os problemas que mais tarde os grupos dissidentes iriam colocar: a intelligentsia, o papel do Estado, a insuficiência da abolição da propriedade privada individual, a necessidade da própria classe operária comandar o processo revolucionário, etc. Porém, o grande mérito de Makhaïsky foi ter, pioneiramente, ter observado que a luta de classes no capitalismo envolve além da burguesia e do proletariado uma terceira classe, a intelligentsia. Desde suas primeiras obras, no final do século 19, ele denunciava esta nova classe privilegiada que tinha altos rendimentos e servia ao capital e que criava suas próprias ideologias, a social-democracia e, em seus setores mais radicais, como notará em 1917, cria também uma tendência que busca substituir a burguesia enquanto classe dominante, o bolchevismo.
Assim, a obra de Makhaïsky significou um alerta para o proletariado da ameaça da “terceira classe”, a intelligentsia, para o processo revolucionário. A implantação do capitalismo de Estado na Rússia não foi produto de acasos ou, como alguns colocam, da falta de desenvolvimento das forças produtivas ou, ainda, devido à guerra civil e desorganização do processo de produção. Sem dúvida, estes acontecimentos também influenciaram os rumos da sociedade russa, mas não determinaram a formação do capitalismo de Estado, pois outras alternativas seriam possíveis, tal como o capitalismo privado e o comunismo. A grande questão é que a luta de classes colocam as tendências históricas nas mãos de determinadas classes. O bolchevismo, desde sua origem, tal como já alertava Makhaïsky, expressava não os interesses do proletariado e sim da burocracia. As origens da burocratização da sociedade russa estavam presentes na ideologia e prática do Partido Bolchevique. Makhaïsky é, devido a ter sido o primeiro a perceber isto de forma mais adequada e cristalina, o maior teórico da contra-revolução burocrática na Rússia. Também devido a isso superou todas as tendências oposicionistas existentes, do ponto de vista teórico. Porém, a sua influência acabou sendo pequena e assim não armou os militantes de uma compreensão clara do processo contra-revolucionário, o que fortaleceu a tendência de implantação do capitalismo de Estado, chamado de “socialismo de Estado” por Makhaïsky.
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Publicado originalmente em: MACIEL, David; MAIA, Cláudio; LEMOS, A. H. (orgs.). A Revolução Russa – Processos, Personagens e Influências. Goiânia: Cepec, 2007.




* Professor da UEG – Universidade Estadual de Goiás e Doutor em Sociologia/UnB. Autor de Escritos Metodológicos de Marx (Goiânia, Alternativa, 2007); Estado, Democracia e Cidadania (Rio de Janeiro, Achiamé, 2003); O Fim do Marxismo e outros Ensaios (São Paulo, Giz Editorial, 2007), entre outros.
[1] Não abordaremos aqui o anarquismo, que se enquadraria entre os que nunca participaram do bolchevismo e organizações semelhantes, mas tão-somente os representantes da esquerda dissidente marxista. Há um extenso material sobre a participação anarquista na Revolução Russa (Guérin, 2007; Lehning, 2004; Machnó, 1988; Archinov, 1976; Skirda, 2001; Woodcock, 1984). Na Europa, os socialistas radicais que formavam a ala esquerda da social-democracia européia era a tendência mais próxima politicamente destas correntes do socialismo russo, tal como Rosa Luxemburgo na Alemanha e Anton Pannekoek, na Holanda.
[2] Estes textos foram publicados em língua espanhola (Parvus, 1978; Luxemburgo, 1978).
[3] Deutscher, apesar do seu livro extremamente problemático e carregado de equívocos, aborda a influência de Parvus sobre Trotsky, mostrando a admiração deste pela formação intelectual do primeiro. “Não é fácil, porém, definir as proporções exatas de sua influência sobre Trotski. Até hoje, os detratores deste atribuem a autoria exclusiva da teoria da ‘revolução permanente’, a marca peculiar do trotskismo, a Parvus, e insinuam que Trotski a copiou ou plagiou ou que uma teoria vinda de uma fonte tão contaminada deveria ser inútil. O próprio Trotski jamais negou sua dívida para com Parvus, embora o calor com que admitisse variasse com a época e as circunstâncias. O que ambos escreveram no auge de sua associação revela quantas das idéias e opiniões formuladas primeiramente por Parvus deixaram marca profunda em Trotski, e quantas este repetira durante sua vida, em forma não muito diferente daquela em que seu amigo mais velho as apresentara” (Deutscher, 1968, p. 115).
[4] Anweiler, depois de citar uma frase de Trotsky pregando o domínio do partido e que a última palavra deveria pertencer ao comitê central do partido, em 1920, afirma: “Trotsky havia esquecido seus ataques anteriores contra tais frases de Lênin” (Anweiler, 1971, p. 54).
[5] “Num pós-escrito, Trotski acrescentava, zombeteiramente, que não pretendera comparar Lênin com Robespierre: o líder bolchevique era uma simples paródia do francês, ao qual se assemelhava tal como ‘uma farsa vulgar se assemelha à tragédia histórica’” (Deutscher, 1968, p. 97).
[6] Segundo Osinsky, isto é muito perigoso: “Antes de tudo, para aquele que pensa que a transição ao socialismo é uma simples estatização dos serviços, há que dizer que tal estatização, considerada em si mesma, como transição de uma indústria à propriedade estatal, não é, todavia, socialismo algum. Na Prússia, as ferrovias em sua totalidade passaram a mãos do Estado, porém, ninguém crê que semelhante medida signifique transição ao socialismo” (Osinsky, 1971, p. 90).
[7] “Os grupos comunistas de extrema-esquerda não temiam o confronto com o conjunto da experiência revolucionária na Rússia, contrariamente à oposição trotskista para a qual a época de Lênin permanecia sacrossanta. Mais ainda: desde 1919-21 todos esses grupos extremistas se tinham constituído em oposição mais ou menos nítida à política de Lênin” (Ciliga, 1977, p. 72). A posição de Lênin era antagônica à idéia defendida por estas oposições internas que preconizava a democracia proletária: “O partido tivera de controlar os sindicatos, afastar seus líderes recalcitrantes, vencer ou diminuir a resistência popular e impedir a livre formação da opinião dentro dos sovietes. Somente assim, pensava Lênin, podia ser salva a Revolução” (Deutscher, 1968, p. 543).
[8] “O problema é que Lênin, Trotsky, Bukharin e outros encaram as funções dos sindicatos não do ponto de vista do controle da produção ou da gestão das indústrias, mas simplesmente como escola de educação das massas. (...). ... os sindicatos não são apenas escolas para o comunismo, mas igualmente os seus criadores” (Kollontai, 1977, p. 59-60).
[9] Bogdanov também foi um bolchevique da velha guarda. Porém, entrou em conflito com Lênin no partido, o que rendeu as críticas deste em Materialismo e Empiriocriticismo (Lênin, 1990). A relação entre Bogdanov e Lênin continuou conflituosa no período em que Bogdanov defendia o Prolekult (Cultura Proletária). Um resumo das teses de Bogdanov pode ser visto em Scherrer (1984), embora não faça referência ao período de formação do Verdade Operária (Scherrer, 1984).
[10] O documento “Chamada do Grupo Verdade Operária ao Proletariado Revolucionário”, onde tais teses estão expostas, se encontram em Kool e Oberlander (1971).
[11] Para o Grupo Operário: “O socialismo só pode ser obra de livre criação dos trabalhadores. Enquanto que o que [o bolchevismo – NV] edificava, com o nome de socialismo, não era para eles, desde o princípio, senão um capitalismo burocrático de Estado” (Ciliga, 1975, p. 16).
[12] “Trotsky não quer compreender que os ‘desvios’ e defeitos contra os quais protesta não passam da conseqüência lógica e inevitável da totalidade do sistema que ele defende com ardor. Trotsky é, no fundo, o teórico de um regime que Stálin põe em prática” (Ciliga, 1977, p. 71); “Coletivamente, a única instância real de poder é o partido, e, já muito cedo, as cúpulas do partido. Os sovietes são reduzidos, logo após a tomada do poder, a instituições puramente decorativas” (Castoriadis, 1985, p. 237). Apesar de todos os seus equívocos, Castoriadis acerta no fato de que o processo de burocratização é concomitante à revolução bolchevique, tal como coloca Makhaïsky e os documentos recolhidos por Brinton mostram claramente a política bolchevique sobre os conselhos operários (Brinton, 1975).
[13] “Por parte da Oposição Operária se reproduzia não era outra coisa que a pergunta pela democracia proletária dentro do sistema de ditadura do proletariado, coisas idênticas segundo a teoria oficial bolchevique. A Oposição Operária queria realizar a auto-administração do proletariado com a participação dos sindicatos na direção do processo econômico. Porém, todavia, não pensava em uma democratização do Estado, isto é, dos sovietes, nem em evitar o monopólio do partido comunista. Porém, exigia dentro do partido uma mais ampla liberdade e abertura de discussão, conseqüente realização do princípio de eleição e exclusão do partido de todos os elementos não-proletários” (Anweiler, 1971, p. 63).