AS REPRESENTAÇÕES COTIDIANAS E AS CORRENTES
DE OPINIÃO
A teoria das representações cotidianas aponta para uma
distinção fundamental entre convicção e opinião
.
Essa distinção gera inúmeras outras questões derivadas, tal como o aprofundamento
da análise desses dois elementos que são componentes das representações
cotidianas. O nosso objetivo aqui é contribuir com a análise da formação das
opiniões, inclusive devido sua importância na sociedade contemporânea, fundada
num processo no qual as opiniões são mobilizadoras e muitas vezes se
transformam em convicções, ganhando um significado ainda mais relevante.
Conceito e Formas de Opinião
O nosso ponto de partida necessário consiste em apresentar o
conceito de opinião. O filósofo Platão (1974) opunha a doxa ao logos, ou seja,
opinião e razão. Essa oposição serve para colocar um elemento presente nas
opiniões: elas não possuem um embasamento racional mais profundo. No entanto,
há algo mais no mundo das opiniões que Platão não percebeu. Sem dúvida, a razão
é pouco desenvolvida no mundo das opiniões, mas existe algo mais além disso.
As opiniões são superficiais, não revelam os elementos mais
profundos da mente dos indivíduos. Essa superficialidade mostra sua diferença
em relação às convicções, que possuem uma fundamentação que as tornam muito
mais arraigadas. O caráter infundado das opiniões mostra sua fragilidade. No
entanto, há algo mais no mundo das opiniões que Platão não percebeu. As
convicções podem ser fundadas na razão, mas também em crenças, valores,
sentimentos, interesses. As convicções fundamentadas racionalmente são as mais
sólidas no plano racional e em correspondência com a realidade, mas as fundadas
em crenças, valores, sentimentos, interesses, são mais fortes ainda, mesmo em
desacordo com a realidade. A falta de fundamento no mundo das opiniões não é
apenas racional, como se afirma nas concepções racionalistas. As opiniões não possuem
uma base racional, sentimental, valorativa, etc. Ou seja, as convicções são
embasadas, seja na razão ou em crenças, valores, sentimentos, etc., e as
opiniões não possuem tal embasamento.
O que são as opiniões? Um conjunto de ideias (bem como
afirmações e posições) expresso pelos indivíduos sem maior coerência, rigor, fundamentação,
sendo geralmente substituíveis com relativa facilidade. No entanto, isso não
deve ser concebido como sendo algo totalmente desvinculado das convicções dos
indivíduos. A relação das opiniões com as convicções pode ser direta
(derivação) ou indireta (casualidade). É importante, nesse contexto, entender o
conceito de convicção. A convicção é um conjunto de ideias que expressam a
mentalidade de um indivíduo ou grupo, sendo algo sólido, possuindo uma base
racional, sentimental, valorativa, etc.
As
opiniões são infundadas e por isso mais maleáveis, fluidas. As convicções são
fundamentadas e por isso mais sólidas e menos maleáveis
.
Um mesmo indivíduo possui diversas convicções e opiniões. No
caso das convicções, elas são coerentes e estruturadas, enquanto que as
opiniões podem ser coerentes ou contraditórias, entre si e/ou com as
convicções. As pesquisas de opinião “pública” revelam isso. Uma pesquisa de
popularidade pode colocar o presidente de um determinado país com uma
popularidade de 70% e alguns meses depois 10%. As convicções não mudaram e sim
as opiniões. Dos 70% de apoiadores, a maior parte o faz por opinião. Uma parte
apoia por convicção (concepção política, vínculo partidário, interesses
pessoais, etc.). Essa parte que apoia por convicção é mais fiel e permanente,
dificilmente mudaria de posição (desde que não acontecesse nada que atingisse o
vínculo de sua convicção com o presidente em questão). A parte dos apoiadores
por opinião é muito mais maleável e pode alterar suas posições com relativa
facilidade (embora hajam diferenças e não funcione da mesma forma com todos,
como mostraremos a seguir). É por isso que as pesquisas eleitorais possuem uma
grande dificuldade de prever reviravoltas, pois elas descobrem as tendências de
voto que são opiniões e não convicções e por isso, alguns acontecimentos e
processos sociais podem provocar mudanças drásticas no quadro eleitoral.
As opiniões assumem algumas formas diferenciadas. A forma
mais comum é a opinião momentânea.
Ela emerge num determinado momento e rapidamente pode ser substituída. É o caso
de um indivíduo que a partir de um conjunto limitado de informações toma
posição a respeito de uma questão polêmica e ao se defrontar com outra pessoa
com opinião contrária, mas mais informada e com mais argumentos, acaba mudando
de opinião.
A segunda forma é a
opinião
simulada. Essa emerge em contextos de forte pressão ou repressão, bem como
de efervescência social ou, ainda, devido interesses e oportunismo. Em uma
determinada instituição, por exemplo, há uma votação sobre algo que parece ser
consensual e um ou outro indivíduo com pouca coragem de se manifestar, acaba
sendo coagido a votar a favor do que não concorda intimamente
.
A terceira forma é a opinião
resistente. Essa se assemelha à convicção, mas isso é apenas aparente. As
opiniões resistentes são infundadas, mas sua maleabilidade é menor, sem deixar
de existir. A razão disso está na força da hegemonia ou cultura sobre os
indivíduos ou em casos de pessoas que não admitem errar e assim sustentam uma
opinião mesmo sem conseguir argumentar ou se convencer de sua veracidade. A
opinião resistente também pode existir por causa de seu vínculo mais forte com
as convicções dos indivíduos, apesar de não fazer parte delas, ao parecer
coerente com elas. Outra razão para a existência de opiniões resistentes é o
seu vínculo com interesses pessoais ou outros (funcionando como espécie de
racionalização – no sentido freudiano do termo – para determinadas posições
assumidas).
Enquanto as formas momentânea e simulada são extremamente
maleáveis, a forma resistente já possui uma maleabilidade menor, mas é tão
infundada quanto as demais. Na mente dos indivíduos, bem como nos grupos e na
sociedade como um todo, coexistem todas as formas de opinião.
As Correntes de Opinião
A dinâmica das opiniões pode ser explicada a partir de alguns
conceitos fundamentais, tais como os de correntes
de opinião e forças formadoras de opinião. Sem dúvida, outros conceitos
fundamentais são necessários, tanto complementares (como hegemonia, blocos
sociais, classes sociais, etc.) quanto internos da dinâmica de produção e
reprodução das opiniões (como estratificação da opinião, zonas de influência,
opiniões vigentes, etc.). No entanto, devido questão de espaço, focalizaremos
apenas as correntes e forças formadoras de opinião, os demais ficando para
outra oportunidade ou sendo apenas mencionados. Esses conceitos ajudam a
entender a dinâmica das opiniões e sua mutação, sendo fundamental para a
análise das alterações no mundo das opiniões.
As forças formadoras de opinião não são apenas indivíduos,
como supõe a concepção individualista por detrás da ideia de “formadores de
opinião”. Isso também remete à ideia de “opinião pública”. A ideia de
“formadores de opinião”, muito repetida e pouco refletida
, remete
geralmente aos jornalistas, mas também a artistas e celebridades, bem como professores
e políticos e, em menor grau, cientistas. O problema dessa análise é que deixa
de lado a questão de quem “forma os formadores”, para parafrasear Marx a
respeito dos educadores (MARX, 1991). A formação dos formadores é apenas um
aspecto da questão
.
O outro aspecto é qual é a capacidade de expressão livre de pensamento
(convicções, opiniões, teorias, ideologias, etc.) e em que instituições e
condições estão tais “formadores de opinião”. A ideia de “formadores de
opinião” é uma abstração e sua única utilidade é identificar um setor influente
no processo de produção das correntes de opinião.
Por isso é importante, antes de analisar as forças
formadoras de opinião, entender as correntes de opinião. Obviamente que isso
difere da concepção de “opinião pública”. A ideia de uma opinião pública remete
a concepções homogeneizadoras que se fundamentam em ideia de “coletivo” (no
sentido holista, ou seja, abstrato, e homogêneo), de “maioria”, de “público”, “unidade”,
que são problemáticos. Mesmo as concepções que ultrapassam uma concepção
monolítica de opinião pública, ainda permanecem no reino das abstrações
metafísicas
.
Nesse sentido, a posição do sociólogo Pierre Bourdieu, segundo a qual a
“opinião pública” não existe, nos parece mais adequada:
Em suma, o que eu quis dizer foi que a opinião pública não existe, pelo
menos na forma que lhe atribuem os que têm interesse em afirmar sua existência.
Disse que por um lado haviam opiniões constituídas, mobilizadas, grupos de
pressão mobilizados em torno de um sistema de interesses explicitamente
formulados; e por outro lado, disposições que, por definição, não constituem
opinião, se por esta palavra compreendermos, como fiz ao longo dessa análise,
alguma coisa que pode ser formulada num discurso com uma certa propensão à
coerência. Esta definição da opinião não é a minha opinião sobre a opinião. É
simplesmente uma explicitação da definição revelada através das próprias
pesquisas de opinião, ao pedirem às pessoas para tomarem posição sobre opiniões
formuladas, e ao produzirem, através de simples agregação estatística as
opiniões assim produzidas, este artefato que é a opinião pública. O que digo é
apenas que a opinião pública na acepção que é implicitamente admitida pelos que
fazem pesquisas de opinião ou utilizam seus resultados, esta opinião não existe
(BOURDIEU, 1983, p. 182).
Assim, ao invés de “opinião pública”, temos
correntes de opinião e ao invés de
“formadores de opinião”, temos
forças
formadoras de opinião. A conclusão lógica disso é que precisamos analisar
os conceitos de correntes de opinião e forças formadoras de opinião. As
correntes de opinião
são dinâmicas: elas surgem, se espalham e perecem. As correntes de opinião são
relativas a acontecimentos, processos sociais e políticos, questões polêmicas,
produções culturais e ideológicas
,
demandas sociais. Elas influenciam a formação de opiniões momentâneas, simuladas
e resistentes em determinada conjuntura e por isso são conjunturais.
Durante o processo eleitoral isso é bastante visível: quando
há a ascensão de alguns candidatos de forma inesperada, bem como sua queda
também tende a ocorrer (inclusive pelos ataques dos adversários que temem tal
crescimento), o que ocorre é o surgimento de uma corrente de opinião e sua diminuição
em favor de outra corrente. Nesse caso, uma corrente de opinião surge, se
espalha, mas a reação gera uma corrente de opinião contrária que lhe retira a
força inicial e, dependendo da situação concreta, pode sobrepujá-la. Também
podem coexistir correntes de opinião semelhantes que se distinguem por questões
secundárias, mas que geram polêmicas e lutas por causa de interesses opostos
que fazem sobrevalorar os aspectos secundários.
Em cada sociedade, época e conjuntura existem certas
correntes de opinião que podem ser assim divididas: predominantes, vigentes,
marginais. As correntes predominantes de opinião são as que dominam em
determinado momento; as vigentes são fortes e presentes, mas são secundárias e
menos influentes que as anteriores e podem ser divergentes delas ou variações com
diferenças secundárias; as marginais são, como diz o nome, minoritárias e
geralmente em antagonismo ou pelo menos oposição em relação às demais,
especialmente as predominantes.
Em cada momento da sociedade capitalista, marcada por um
determinado regime de acumulação, ocorre uma renovação hegemônica (a hegemonia
burguesa permanece, mas assume outra forma, tal como na passagem da vigência
integracionista para a neoliberal) se produz mudanças em elementos da
mentalidade (convicções) que, fatalmente, gera mutações nas opiniões, gerando
correntes predominantes de opinião mais duradouras sobre a própria sociedade e
época, convivendo com outras mais breves e facilmente substituíveis. Assim, as
correntes de opinião são dinâmicas e volúveis, mas isso varia de grau
dependendo de um conjunto de determinações.
As Forças Formadoras de Opinião
Porém, não se deve pensar que as correntes de opinião caem
do céu ou são produtos de indivíduos. Sem dúvida, elas surgem a partir de
indivíduos, mas essa expressão imediata deve ser compreendida através do seu
complexo processo de formação, que vai além do individual. Assim, se alguns
atribuem aos “formadores de opinião” um papel relevante, outros já apontam para
a indústria cultural, os intelectuais e os movimentos sociais (TUZZO, 2005) ou
os intelectuais, jornais, governos, etc. (MARÍAS, 1955)
apenas apontam para o mundo das aparências. A questão é bem mais complexa.
Devido ao curto espaço que temos aqui, vamos apenas apresentar uma análise
introdutória das forças formadoras de opinião.
O processo de constituição de correntes de opinião não
ocorre no vazio. Existem bases reais (sociais) que determinam esse processo. Entre
essas bases sociais podemos destacar as mentalidades (especialmente a
mentalidade dominante, burguesa, locus
das convicções), a hegemonia, o modo de produção capitalista e suas mutações
(especialmente os regimes de acumulação), a sociabilidade dominante, as formas
sociais (culturais, políticas, jurídicas). Nesse amplo contexto, é que podemos
observar um conjunto de necessidades e interesses (de indivíduos, grupos,
classes sociais), bem como convicções (mentalidade) e cultura em geral, ao lado
de uma sociabilidade e vida cotidiana que caracterizam cada etapa da sociedade
capitalista, expressa nos sucessivos regimes de acumulação que se desenvolveram
historicamente.
É neste amplo contexto que determinadas opiniões podem
florescer ou perecer, possuem base social ampla ou restrita, possuem produtores
e reprodutores. Assim, é possível, nessa complexidade de determinações,
observar algumas forças formadoras de opinião (e de correntes de opinião). As
principais forças formadoras de opinião na contemporaneidade são o capital
comunicacional
,
a classe intelectual, o aparato estatal, as instituições de ensino, organizações
da sociedade civil (igreja e partidos, por exemplo), a internet
.
O capital comunicacional (“indústria cultural”) gera correntes de opinião e pode
ser decisivo em processos políticos e sociais. O exemplo mais claro desse
processo são a propaganda ideologêmica e os chavões elaborados pelo capital
comunicacional e que acabam constituindo correntes de opinião que se espalham
pela sociedade (VIANA, 2013b)
.
A manipulação da comoção com atos violentos, quando estes são apresentado sob
certas formas, pode gerar uma corrente de opinião favorável à pena de morte ou
redução da maioridade pena, por exemplo.
A classe intelectual atua no interior de empresas e
instituições, estatais ou privadas, e por isso sua autonomia não é tão grande
quando se pensa. Os jornalistas, por exemplo, possuem uma margem de liberdade
limitada. A classe intelectual geralmente está subordinada ao capital
(especialmente o comunicacional), ao aparato estatal (incluindo suas
instituições de ensino e de cultura em geral), bem como possui seus próprios
interesses, o que a predispõe mais ao conformismo, especialmente para garantir
seus interesses pessoais, mas também de classe. O aparato estatal através do
seu poder de financiamento e regularização (legislação), suas instituições de
ensino e seu aparato comunicacional e cultural, também tem forte influência na
formação das correntes de opinião. As organizações da sociedade civil são as
mais diversificadas e com capacidade diferenciada de influência no processo de
formação de opinião. A internet é mais recente e mais frágil, mas tem papel
tanto na reprodução das outras forças formadoras de opinião, quanto no sentido
de permitir um espaço para concepções alternativas e correntes marginais de
opinião. Sem dúvida, no interior dessas forças formadoras de opinião, não
existe consenso ou homogeneidade, pois o pequeno capital comunicacional
funciona de forma diferenciada, sendo que no grande capital comunicacional
existem intelectuais dissidentes e a ânsia pelo lucro possibilita opiniões
divergentes. Da mesma forma, na classe intelectual existem distintas posturas
intelectuais (além das frações de classe, como artistas, cientistas, filósofos,
etc.), com pesos diferentes, e esse processo se manifesta também no aparato
estatal, organizações da sociedade civil e internet.
No entanto, esse é o aspecto formal, pois nada diz sobre os
conteúdos das correntes de opinião. Para entender os conteúdos e as distintas
correntes de opinião, é necessário entender o vínculo das classes sociais e
seus derivados (partidos, grupos, meios de comunicação, etc.) e seus
interesses, concepções, valores, etc. O conceito de blocos sociais acaba sendo de importância fundamental para entender
a dinâmica da formação do conteúdo das correntes de opinião. Os blocos sociais
são compostos por classes sociais, frações de classes, forças políticas
(partidos, grupos, etc.), organizações, indivíduos. Eles giram em torno das
classes sociais mais fortes, especialmente a burguesia e o proletariado, mas
também as classes auxiliares da burguesia (devido suas condições sociais e
maior influência na sociedade). Por isso podemos distinguir três blocos
sociais: o dominante, o reformista e o revolucionário.
O bloco dominante é composto geralmente pela classe
dominante, pela burocracia estatal, por parte das classes auxiliares, além de
apoios em outros setores da sociedade
.
Existem divergências e disputas internas, mas há também uma unidade de
interesses que permite a existência do bloco
.
O bloco reformista é composto geralmente pelas classes auxiliares da burguesia
(burocracia e intelectualidade), podendo ter maior ou menor apoio de setores
das classes desprivilegiadas, sendo que também possui divergências internas. O
bloco revolucionário é composto geralmente pelas classes desprivilegiadas e por
indivíduos oriundos de algumas das classes auxiliares (especialmente
intelectuais e jovens). Cada bloco tem um conjunto de forças políticas que os
expressam (partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais, grupos
políticos, associações, meios de comunicação, etc.). No caso do bloco
revolucionário isso ocorre em alguns casos (não possuem partidos, sindicatos,
movimentos sociais, etc., restando apenas organizações de base, grupos
políticos, tendências no interior dos movimentos sociais, etc.). O bloco
dominante tende a gerar correntes predominantes de opinião, assim como às
vezes, o bloco reformista
.
O bloco reformista garante a formação de correntes vigentes de opinião e o
bloco revolucionário gera correntes marginais.
Assim, a formação das correntes de opinião está intimamente ligada
às concepções políticas (no sentido amplo do termo, ou seja, de classe), o que
é evidente em relação aos problemas sociais. Por exemplo, no debate atual sobre
“terceirização” e “redução da maioridade penal”, há a posição do bloco
dominante a favor e a dos blocos reformista e revolucionário contra (como raras
exceções, oriundas de idiossincrasias, falta de formação teórica, etc.). No
entanto, no campo da moral e outras questões, já não há mais tal evidência,
pois o capital abre mão de muita coisa para permanecer no poder, especialmente
as secundárias que não dizem respeito à questão da exploração, o bloco
revolucionário, principalmente devido ao contingente jovem que está em sua base
(além de limites teóricos), tende a encampar as novidades por seu suposto
caráter progressista, tal como o bloco reformista. Em poucas palavras, o campo
da moral é “negociável” pelo bloco dominante e no bloco reformista e é
“confuso” no bloco revolucionário e por isso não há a visibilidade de posições
claras como no que se refere à algumas questões sociais que envolvem
diretamente as classes sociais. O conteúdo das correntes de opinião é, direta
ou indiretamente, político.
As forças formadoras de opinião são identificadas pelos
indivíduos (intelectuais, incluindo artistas, cientistas, jornalistas, etc.) e
veículos (meios de comunicação, tal como jornais, televisão, etc.), geralmente
condenados e responsabilizados, mas por detrás deles há algo mais, existem os
blocos sociais e estes expressam uma ou outra classe social. Assim, a análise
das forças formadoras de opinião nos permite perceber a luta de classes e as
classes sociais por detrás da formação das correntes de opinião, através de um
conjunto de mediações que tornam quase invisível sua determinação fundamental,
principalmente para os empiricistas e reprodutores das ideologias dominantes.
Considerações finais
O mundo das opiniões é aparentemente simples, mas possui uma
complexidade muitas vezes oculta. Aqui não foi possível abordar todos os
elementos necessários para entender esse complexo fenômeno, pois precisaria
discutir outros processos relacionados e derivados, inclusive a relação com as
convicções (e como determinadas opiniões podem gerar convicções), entre
inúmeras outras. Como uma abordagem introdutória e parcial, no interior de uma
teoria das representações cotidianas, o artigo cumpriu o seu papel. Outras
contribuições poderão ajudar a avançar no projeto de compreender o mundo das
opiniões, sua dinâmica e características, e seu significado no interior das
representações cotidianas, incluindo sua importância nas lutas sociais e
mobilização da população, bem como no processo de pesquisa que muitas vezes não
tem acesso às convicções e consegue acesso apenas às opiniões. Este é apenas
mais um passo de um programa de pesquisa sobre as representações cotidianas.
Referências
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VIANA, Nildo. Senso
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2008.
Alguns percebem, sem maiores reflexões, esse
processo: “Assim sendo, faz-se necessário que as instituições que
formam os formadores de opinião, tais
como universidades, comecem desde cedo a cultivar o senso ético, o amor à
verdade e a reflexão sobre a felicidade, como nos ensinou Teilhard de Chardin”
(HELOANI, 2005, p. 167). O autor revela senso crítico e ao mesmo tempo certa
ingenuidade. Sem dúvida, compromisso com a verdade, ética, etc., são
necessários e devem ser cultivadas, mas isto não é questão apenas de
consciência e sim de interesses (que estão acima das consciências) e de poder,
e quem detém o poder não possui interesse na verdade e por isso é uma luta que
se deve tratar dentro de tais “instituições”, que não são abstrações e sim
palco de relações sociais concretas, de disputas, etc. O mérito do autor é
notar, sem desenvolver, a questão da formação dos formadores.