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quinta-feira, 16 de maio de 2019

PARA AONDE VAI O GOVERNO BOLSONARO?



PARA AONDE VAI O GOVERNO BOLSONARO?

Nildo Viana


A vitória surpreendente de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais do ano passado trouxe algumas expectativas. Por um lado, havia os simpatizantes e partidários de Bolsonaro, alguns até achando que ele iria “consertar o país”, bem como outros menos entusiasmados. Do outro lado, os adversários e antibolsonaristas, alguns crédulos e seguidores da propaganda petista, que pensavam que emergiria um governo fascista, enquanto que outros, menos dramáticos, previam um governo ruim e antiprogressista. Sem dúvida, o Governo Bolsonaro seria incapaz de “consertar o país”, bem como não é fascista (a não ser que se use arbitrariamente e amplamente esse termo).
Bolsonaro e seus aliados não podem consertar o país, pois este país “não tem conserto”, a não ser se houver uma revolução. E não há nenhum fascismo, pois o “nacionalismo” do governo é apenas discurso, não no capitalismo subordinado isso só pode ser fantasia, já que não há nenhuma base imperialista, entre outras diferenças em relação aos países que adotaram tal regime. Se as duas expectativas mais exageradas não se realizaram, uma delas se mostrou mais próxima da realidade: um governo ruim e antiprogressista. No entanto, isso não explica mais profundamente o que significa tal governo, bem como não nos ajuda a entendê-lo melhor e perceber suas tendências e para aonde vai. Por isso, a primeira pergunta para saber aonde vai o Governo Bolsonaro é entender como ele surgiu o que ele é.
A Gênese do Governo Bolsonaro
O discurso eleitoral do ano passado ainda não foi totalmente superado. Trata-se daquele discurso que afirma que Bolsonaro seria “fascista” e assim seria o seu governo. Por detrás dessa “explicação”, sem maior fundamentação a não ser uma definição ampla e elástica de fascismo, sem utilidade explicativa (pois ao ser utilizada caberia em inúmeros outros fenômenos e até em parte dos que o usam contra Bolsonaro), se revela um forte interesse eleitoral, visando manipular o medo de parte da população para retirar votos e apoios e transferi-los para o concorrente eleitoral mais forte no momento.
Como caracterizar, então, o Governo Bolsonaro? Existem poucas análises, bem como o governo teve pouco tempo de duração até agora, um pouco mais de quatro meses. Porém, desde que se tornou um forte candidato, a maioria das análises se centraram no indivíduo Jair Bolsonaro. Assim como “uma andorinha só não faz verão”, um indivíduo só não faz um governo. Sozinho, não consegue nem ser eleito[1]. Jair Bolsonaro não surgiu do nada, nem sua vitória eleitoral[2]. Para entender sua ascensão é preciso entender a evolução do reacionarismo no Brasil.
O reacionarismo sempre existiu na sociedade capitalista, mas em certos momentos históricos é extremamente marginalizado. E, se o nível intelectual dos seus defensores é baixo, então são também ridicularizados. No caso brasileiro mais recente, o reacionarismo ressurge através de setores religiosos (o setor conservantista da Igreja Católica e dos evangélicos) e de figuras risíveis como Olavo de Carvalho. O reacionarismo se fortaleceu com a emergência dos governos petistas. E isso nem tanto por suas políticas estatais, que não ultrapassou o nível do neoliberalismo neopopulista, e sim por sua política cultural. Essa política cultural, supostamente de “esquerda”, nasce e emerge a partir dos Estados Unidos (multiculturalismo, estudos culturais, etc.) e do novo paradigma hegemônico (o subjetivismo), bem como as ideologias hegemônicas (pós-estruturalismo, neoliberalismo). Isso foi reproduzido, divulgado e expandido a partir de organismos internacionais, como a UNESCO, e fundação internacionais (Ford, Rockfeller, etc.). É nesse contexto, e com apoio governamental, que se passa a divulgar (e cada vez mais se fortalecer e a se tornar autoritário) o moralismo progressista, trazendo elementos do politicamente correto, de ideologias como as do gênero, queer, etc. As agências governamentais passaram a incentivar a pesquisa sobre gênero, raça, etc., e na perspectiva hegemônica, o que era feito também pelas fundações internacionais, pois os editais de pesquisa da Fundação Ford, para tomar apenas um exemplo, apontava para essas “novas temáticas”. O neoliberalismo democrático (“progressista”) norte-americano, assim como outros setores da burguesia (incluindo os que lucram diretamente com isso), bem como parte da intelectualidade[3], aderiram ao novo discurso, bem como partidos e outras organizações políticas. Poucas vozes discordantes se manifestaram na esquerda[4] e, na sociedade brasileira, menos ainda.
A coincidência entre o novo moralismo progressista e subjetivista, proveniente fundamentalmente dos Estados Unidos e sua “esquerda” (que aqui seria “direita”, tal como o liberalismo progressista, o republicanismo, etc.)[5], que vai ter impacto também na Europa, e os governos petistas e sua adoção, promoveu a ideia equivocada de que ele seria de “esquerda”. O moralismo progressista subjetivista passa a dominar a esquerda brasileira, com raras exceções (alguns partidos pequenos e mais radicais). O bloco revolucionário (também confundido com a esquerda) também teve vários setores que aderiram ao moralismo progressista subjetivista. O despreparo (e falta de formação teórica) de vastos setores do bloco progressista e revolucionário permitiu essa aproximação, sem analisar suas fontes, bases, objetivos, etc.
Nesse contexto, os reacionários, passaram a identificar moralismo progressista subjetivista com esquerda e marxismo. A esquerda realmente adotou (não criou, apenas aderiu e depois reproduziu) o moralismo progressista em sua versão subjetivista, adequada ao paradigma hegemônico atualmente (o subjetivismo). O marxismo (autêntico, o que exclui o pseudomarxismo dos partidos políticos) não, pois ele é incompatível com a moral progressista (subjetivista ou objetivista), de caráter burguês ou semiburguês. O anarquismo, por sua vez, devido a sua falta de teoria e aprofundamento, se dividiu e resistiu parcialmente em alguns casos.
O que interessa, no entanto, é que os reacionários criaram a fórmula: moralismo progressista subjetivista (gênero, identidades, politicamente correto, etc.) = PT[6] (ou esquerda, “marxismo”, etc.). Assim, conseguiram mobilizar alguns setores da sociedade e conseguiram aumentar quantitativamente. No decorrer da história da sociedade brasileira, no contexto marcado pela desaceleração da acumulação de capital (diminuição do “crescimento econômico”) e processos políticos institucionais, tal como as denúncias de corrupção, isso foi crescendo. As manifestações populares de maio e, principalmente, junho de 2013, mostraram que a suposta força do governo era um castelo de areia, o que animou a oposição (partidária e outras), bem como abriu possibilidade de crescimento do bloco revolucionário e do reacionarismo (tendência que ocorre sempre em que há desestabilização e crise). Isso gerou a polarização política (petistas e antipetistas) e moral (moralismo conservador versus moralismo progressista). Porém, o governo petista beneficiou o crescimento do reacionarismo ao temer a autonomização do proletariado, bem como setores da sociedade se aglutinaram e acabaram se fortalecendo e até setores do capital começaram a migrar para o apoio à ala reacionária do bloco dominante. A não solução dos problemas econômicos pelo governo petista e a chamada “Operação Lava Jato” abriram caminho para o impeachment e a expulsão do PT do governo. A polarização foi reforçada por ambos os lados e isso serviu para enfraquecer o bloco revolucionário e autonomização dos trabalhadores.
O reacionarismo cresceu e se fortaleceu, mas ainda não o suficiente para pensar em chegar ao governo. Mas aumentou bastante o seu número, indo muito além dos religiosos mais conservadores. A derrota petista parecia consolidada e o caminho estava livre para o PDSB ou outro partido semelhante. Contudo, apesar da derrota petista vergonhosa nas eleições de 2016, alguns acontecimentos, como a incompetência do PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira), o erro estratégico do PDT (Partido Democrático Trabalhista), a facada no Bolsonaro, entre outros processos, permitiram a chegada ao segundo turno do PSL (Partido Social Liberal), partido cujo candidato era da ala reacionária do bloco dominante. O reavivamento eleitoral do PT, possível diante dos erros dos adversários (especialmente PSDB e PDT) e outros acontecimentos[7], permitiu que ele chegasse ao segundo turno e retomasse uma polarização com a candidatura de Bolsonaro. O único adversário que Bolsonaro ganharia no segundo turno seria o PT e este conseguiu a proeza de o colocá-lo na presidência, devido sua ânsia de poder (e de cargos burocráticos no aparato estatal).
O que ocorreu no processo eleitoral foi que uma minoria eleitoral barulhenta e insistente, diante das debilidades das demais candidaturas, da crise de legitimidade da democracia burguesa e seus partidos tradicionais, acabou crescendo e ganhando mais força, bem como certos acontecimentos específicos no jogo eleitoral e para além dele, tornando possível que um representante da ala reacionária do bloco dominante chegasse ao segundo turno. Como o adversário era o PT, com alto grau de rejeição da população por causa de seus governos (especialmente os de Dilma Roussef), o decréscimo do ritmo de acumulação de capital, as denúncias de corrupção, a incompetência administrativa para resolver os problemas (em parte devido ao seu neopopulismo, em parte por pouca competência mesmo), o vínculo com o moralismo progressista subjetivista, isso permitiu a Bolsonaro aglutinar votos e apoios que só surgiriam nesse contexto. O PT elegeu Bolsonaro e este manteve aquele vivo e o levou para o segundo turno. Os dois se ajudaram, mas apenas um venceu a eleição.
Qual Forma de Reacionarismo o Governo Bolsonaro representa?
Assim, tivemos a posse do novo governo. Bolsonaro é um indivíduo sem maior bagagem cultural (chegando, muitas vezes, a ser simplório), sem experiência administrativa, sem grande capacidade política-estratégica. No entanto, sabe manipular e conta com apoio de alguns auxiliares que ajudam em alguns aspectos. Antes de tomar posse, afirmou que sua equipe seria nomeada a partir de “critérios técnicos” e não “ideológicos”. O que aconteceu foi justamente o contrário: nunca uma equipe de governo foi tão incompetente e tão “ideológica” (tendenciosa e claramente conservantista). A incompetência pode ser vista não apenas na pouca bagagem cultural dos ministros e educação formal limitada, mas também pela simploriedade das decisões e ações. Até mesmo a política cultural que todos os governos anteriores realizaram sem declarar e sem criar polêmicas em sua execução, aparecem como estardalhaços[8]. Os ministros que empossados que possuem um mínimo de formação e competência, embora nem tanto assim, são Sérgio Moro e Paulo Guedes. Estes são exceções. Ao lado disso, o governo iniciou um processo de competição interna pelo poder, gerando disputa entre militares, “olavistas”, bolsonaristas, técnicos, entre outros menos fortes. A isso soma-se a competição externa no parlamento e na sociedade em geral, bem como os interesses partidários e a pressão social de setores da sociedade civil. A falta de quadros do partido, e do bolsonarismo como um todo (um grupo que tem Olavo de Carvalho, que dispensa comentários, como o maior intelectual e estrategista, mostra a sua própria miséria intelectual e política), o coloca com poucas possibilidades de realizar um governo minimamente competente. A única alternativa para partidos que não possuem quadros para garantir a governabilidade é se aliar com aqueles que possuem (ou pelo menos tem alguns nomes que poderiam compor e colaborar com o governo). A forma de sobrevivência garantida do governo Bolsonaro seria a aliança com o PSDB, que forneceria quadros, maior tranquilidade e respeitabilidade[9] para o governo, etc. No entanto, devido ao reacionarismo do novo governo, tal aliança não se concretizou.
Assim, uma questão importante para entender o novo governo é: qual sua concepção política? Colocamos, anteriormente, que o Bolsonaro e a maioria dos seus apoiadores são representantes da ala reacionária do bloco dominante[10]. No entanto, não se trata de nazismo e nem de fascismo, por mais que alguns adversários, com imprecisão conceitual e interesses eleitorais, afirmem isto. Bolsonaro representa um setor mais moderado do reacionarismo, que é o conservantismo. O conservantismo já esteve no poder no Brasil e é referência para Bolsonaro: o regime militar que se instaurou a partir do golpe de 1964. O conservantismo manifesta determinados valores e determinada moral, que apontam para o tradicionalismo. A TFP (Tradição, Família e Propriedade) é uma expressão do conservantismo[11]. Os valores pregados pelo conservantismo são a família, a propriedade, a tradição, a nação, a religião, a autoridade, o estado, etc. Embora a “nação” apareça, no fundo, através de um pseudonacionalismo, muito mais que um nacionalismo autêntico. Não é preciso dizer que, no conservantismo, há muita hipocrisia.
Porém, Bolsonaro é originalmente e fundamentalmente um conservantista, mas sabia, desde o início, da pouca possibilidade de chegar ao governo com essa posição e por isso buscou apoio de um outro setor da burguesia e o ministro liberal Paulo Guedes foi a sua grande jogada. Num momento de hegemonia do neoliberalismo, no qual os economistas e setores da burguesia não conseguem pensar além do liberalismo, essa foi uma jogada que serviu para fortalecer sua candidatura e foi estratégica para ganhar o segundo turno. Nesse sentido, o governo Bolsonaro é predominantemente conservantista no plano moral, educacional, cultural, mas é próximo do liberalismo no plano da política econômica. E isso não apenas devido a Paulo Guedes, como também graças à pressão de setores da burguesia, especialmente o capital transnacional. Assim, em que pese Bolsonaro e grande parte de sua equipe e apoiadores serem conservantistas, ele assume compromissos liberais. Dessa forma, a denominação mais adequada ao seu governo, pelo menos até agora, pois o compromisso pode se romper a qualquer momento, é liberal-conservantista. Assim, ele se aproxima do liberalismo nacional que foi hegemônico após as revoluções burguesas, que a partir do romantismo (e seu anti-intelectualismo), e apego às tradições, nação, etc. serviu para fortalecer a criação da identidade nacional e legitimar o capitalismo nascente e o Estado-Nação[12]. A diferença do liberal-conservantismo para o liberalismo nacional era que este possuía um nacionalismo mais coerente e autêntico, por ter emergido em países imperialistas.
E aqui temos uma diferença entre conservantismo bolsonarista e nazifascismo. O conservantismo bolsonarista apresenta um nacionalismo frágil e falso. Isso ocorre por emergir no capitalismo subordinado. A burguesia subordinada não tem força e nem coragem de desafiar o domínio imperialista, bem como também não tem interesse, pois ela fica abaixo na hierarquia mundial das burguesias e do capital, mas continua explorando, lucrando, enriquecendo. Quem perde é a maioria da população, especialmente o proletariado.
O liberal-conservantismo de Bolsonaro realiza uma fusão do neoliberalismo do capitalismo subordinado (livre mercado e subserviência aos países imperialistas, especialmente os Estados Unidos) com o conservantismo e assim se declara nacionalista, mas se subordina ao imperialismo. E basta ver as políticas do Governo Bolsonaro para perceber que o maior beneficiado, até agora, é o capital internacional. Alguns setores da burguesia brasileira foram, inclusive, prejudicados por causa destes “benefícios” ao capital estrangeiro. A política de Bolsonaro para a Amazônia e os povos indígenas não é por mero preconceito contra quilombolas e indígenas, e sim por causa da necessidade do capital, especialmente do transnacional (e os setores do capital nacional associado a ele, como fornecedores, distribuidores, etc.). A liberação de importação de armamentos, ligadas à sua política sobre armas, significa não somente aumentar o mercado consumidor dessa mercadoria e beneficiar o capital bélico, mas, ao mesmo tempo, beneficiar o seu setor internacional[13]. Não custa recordar que o capital bélico norte-americano é o maior do planeta e é a base da economia norte-americana. A política educacional que prejudica o ensino superior e a educação em geral não é apenas “maldade” ou “ignorância” do governo e sim por causa que isso beneficia o capital educacional (nacional e transnacional) e corrói a força de setores pró-petistas e outros inimigos do governo e/ou do conservantismo. A reforma trabalhista beneficia, igualmente, o capital em geral, mas como quem é hegemônico é o capital transnacional, então ele é o maior beneficiado. A política de saúde do Governo Bolsonaro beneficia o capital privado (internacional) em detrimento do serviço estatal[14].
O Futuro do Governo Bolsonaro
Em síntese, o governo Bolsonaro tem sido liberal-conservantista, e devido a essa influência liberal, é um setor do reacionarismo mais próximo da ala moderada e que, caso entre em crise, pode desembocar num conservantismo puro ou numa aliança mais forte com setores da ala moderada do bloco dominante. De qualquer forma, as suas políticas são decididamente em benefício do capital, especialmente o internacional e transnacional[15], e contra os trabalhadores. Porém, sua incompetência, suas dificuldades próprias (incluindo a dificuldade de estabelecer alianças), entre outros problemas, poderá decretar o seu fim antes do término do mandato. O medidor disso, no entanto, é a evolução econômica, que o governo tem influência, mas não é a única determinação. A situação internacional, os investimentos internacionais, a dinâmica da produção e distribuição, a taxa de exploração, o aumento de produtividade, o crescimento ou retraimento do mercado consumidor, a taxa de juros, entre outros processos, são fundamentais para que o ritmo de acumulação de capital aumente e assim o governo ganhe mais tranquilidade e estabilidade[16]. Porém, as políticas governamentais, que poderiam contribuir com esse processo, avançam timidamente e com problemas. A reforma da previdência, que segundo a ideologia neoliberal seria fundamental para resolver esse problema, é uma ilusão, uma panaceia, pois ela, mesmo que contribua parcialmente, é insuficiente sem uma política econômica mais ampla (industrial, salarial, monetária, etc.).
A saída do governo é a neoliberal: políticas de austeridade. Porém, estas, em que pese beneficiarem o aumento da exploração e, por conseguinte, a acumulação de capital (“crescimento econômico”), apresentam contradições (geram contração no mercado consumidor, geram aumento da luta dos trabalhadores e possíveis greves, etc.). Por isso, tais políticas, dependendo de outras determinações, podem surtir efeito relativo ou até mais amplo. Porém, o governo nem sequer consegue efetivar tais políticas com a rapidez e forma necessária para o capital. As reformas retrógradas encaminhadas a partir das políticas de austeridade são insuficientes, embora possam contribuir ao lado de outras determinações, mas são contraditórias e trazem problemas, e mais ainda com a morosidade e concessões devido a fraqueza da base de apoio do governo. Se as reformas retrógradas e políticas de austeridade não se efetivarem ou não ocorrerem da forma adequada e outras medidas não forem tomadas, o governo vai depender da sorte e de elementos fora do seu controle (tal como a situação internacional e outras já citadas e externas ao âmbito governamental).
Porém, mesmo que ele queira implementar uma política econômica nos moldes neoliberais (políticas de austeridade e reformas retrógradas), ele não age sozinho, vai depender dos outros setores do bloco dominante, da capacidade de ação do bloco progressista, bem como da luta e resistência dos trabalhadores e bloco revolucionário, que tendem a se fortalecer com tais políticas. E as demais determinações podem ajudar ou dificultar. Por isso é difícil prever o futuro do governo Bolsonaro, já que depende de múltiplas determinações (tanto internas, do governo, como externas e remetendo a um conjunto enorme de questões). O que é possível afirmar é que o governo Bolsonaro pode se manter aos trancos e barrancos durante um tempo e até chegar ao final do mandato, caso a situação econômica, o ritmo de acumulação de capital, não diminua. As outras duas possibilidades é: a) aumentando o ritmo de acumulação de capital, o governo consegue se estabilizar, tendo oposição apenas do bloco progressista e bloco revolucionário (sob formas e com objetivos distintos); b) decrescendo o ritmo de acumulação de capital, o governo tende a enfrentar problemas mais graves e até um novo impeachment pode ser possível, já que suas bases de apoio são frágeis e existem partidos e forças muito mais poderosas e confiáveis para o capital que podem se unir para o substituir. Essa última solução, no entanto, seria traumática e acabaria gerando radicalização de setores do reacionarismo, por um lado, bem como reforçaria a crise de legitimidade da democracia burguesa no Brasil, pois mais um impeachment significa um terceiro candidato (depois de Collor e Dilma) eleito pela população que é retirado do governo pelas forças políticas (mesmo com apoio popular, que nunca é total) em menos de trinta anos[17].
No fundo, o Governo Bolsonaro, devido às suas debilidades (incompetência, dificuldade de estabelecer alianças, disputa interna pelo poder, etc.) e outros problemas, se conseguir se salvar, será mais por causa de processos externos do que por suas próprias ações.
Considerações Finais:
Os Trabalhadores e o Governo Bolsonaro
Nesse contexto, o que podem fazer os trabalhadores, os maiores prejudicados com o novo governo? O caminho é a luta, mas não a reboque de outras forças políticas que apontam para seus interesses próprios e não os da população, e nem apenas para “resistir”, ou seja, uma luta meramente defensiva e que nada propõe a não ser se colocar contra as reformas retrógradas. Para os neopopulistas, basta isso e dizer que não existe problema algum. Porém, existem problemas reais no capitalismo brasileiro (e no capitalismo mundial também) e não tem como resolvê-los sem aumentar a exploração ou então realizar a transformação social. É preciso deixar bem claro isso: não tem como retomar “crescimento econômico” (a reprodução ampliada de capital)  sem aumentar a exploração ou expandir as relações de produção capitalistas e esta última opção é praticamente inexistente. Logo, os trabalhadores e revolucionários devem decidir se apoiam o aumento da exploração (e discute, junto com conservadores e progressistas, detalhes e questões formais sobre como isso pode ocorrer, se as reformas retrógradas são suficientes, etc.)[18] ou então lutam pela revolução proletária, pela autogestão social. O regime de acumulação integral entrou há algum tempo em sua fase de desestabilização e nenhuma grande recuperação (e ação nesse sentido) foi realizada e dificilmente a sua crise será evitada. Uma crise desse regime de acumulação tende a ser, simultaneamente, uma crise do capitalismo. Essa, uma vez ocorrendo, abre a possibilidade da guerra mundial imperialista ou a constituição de uma nova sociedade, a sociedade autogerida. Por conseguinte, as lutas por reivindicações imediatas perdem o sentido se não forem articuladas com lutas pela autogestão social.
E para isso ganhar efetividade é necessário a autonomização do proletariado e a hegemonia proletária no interior das classes trabalhadoras. Para isso se concretizar é necessária uma ampla luta cultural do bloco revolucionário (o que significa que alguns de seus setores abandonem suas ambiguidades e seu reboquismo em relação ao bloco progressista) e unir a crítica (ampla e fundamentada) e recusa das reformas retrógradas com reivindicações e exigências proletárias, tal como aumento do salário mínimo, garantia de aposentadoria para os trabalhadores de forma justa e digna, diminuição da jornada de trabalho, etc. A luta cultural a favor da formação de organizações autárquicas (formas de auto-organização dos trabalhadores, estudantes, jovens em geral, e outros setores da sociedade) e pela formação intelectual e política da população é outro elemento fundamental e isso se articula com a luta pela educação de qualidade e contra o anti-intelectualismo, irracionalismo, etc. na educação formal. Isso só pode ocorrer articulado com a crítica das organizações burocráticas (estado, partidos, escolas, sindicatos) que buscam controlar e ganhar espaço (e vantagens) com o controle sobre os trabalhadores, bem como a crítica das ideologias e educação escolar despolitizante, inclusive a progressista (afinada com a esquerda). A formação de comitês de luta popular pode ser uma primeira forma organizacional que poderá abrir espaço para a formação de outras formas de organizações autárquicas dos trabalhadores e outros setores da sociedade, sendo espaços de luta, união e formação/reflexão.
O combate cultural à polarização entre direita e esquerda, ou, no atual contexto, entre reacionários e progressistas (especialmente os petistas e populistas em geral) é fundamental nesse processo. É preciso mostrar que o que move ambos é a disputa pelo poder e o que fazem quando estão no governo é semelhante. Também é necessário combater a polarização entre moralismo conservador e progressista, pois são formas de manipulação da população com objetivos políticos (partidários, eleitorais, hegemônicos, etc.). No interior disso, é necessário a crítica do liberal-conservantismo e do conservantismo (que pode se livrar do liberalismo, bem como do progressismo e seu populismo, e assumir o monopólio do governo e a hegemonia na sociedade brasileira). Por conseguinte, avançar no sentido de compreender o conservantismo, o liberalismo e suas formas (especialmente o liberal-convervantismo, mas suas outras variantes também), suas raízes e interesses, torna-se cada vez mais importante, ao lado da já mais conhecida e facilmente identificável crítica ao progressismo. Porém, não se trata da crítica progressista e oportunista ao reacionarismo, que ataca o presidente como indivíduo ou fica apenas mostrando suas fraquezas intelectuais, e nunca aprofundando para mostrar os reais interesses, as raízes, os limites, e o contexto no qual ele acaba emergindo e se tornando governo (e a falta de alternativas institucionais). Ou então a crítica que diz não para as reformas e se coloca como opção, sem apresentar nenhum projeto ou programa alternativo. Trata-se de mostrar que as reformas retrógradas são uma panaceia, um remédio universal que, no fundo, nada vai curar.
Esse é o caso das últimas medidas governamentais a respeito das universidades. A contestação dos cortes de verbas para as universidades só deve ser feita com a criticidade necessária, pois realmente há um processo de desqualificação das ciências humanas e “humanidades” não apenas pelos conservantistas, mas pelos progressistas, com suas temáticas “exóticas”, superficiais e sem valor social, político e cultural, como suas tendências irracionalistas, anti-intelectualistas (que alguns acusam no atual governo e foram semeadores do mesmo), do uso tendencioso dos recursos financeiros e a falácia da neutralidade dos pareceres e julgamentos, entre outros processos amplamente conhecidos e que não são novos nas universidades[19]. A crítica das políticas governamentais, tal como a da política educacional, não deve servir de apoio para a manutenção dos problemas, do burocratismo, do produtivismo quantitavista e de baixa qualidade, entre inúmeros outros problemas, existentes nas universidades e nas escolas brasileiras, ou fazer de conta que não existem problemas no capitalismo brasileiro (o que traz a confortável e oportunista ideia de que basta trocar de governo para se resolver tudo). A crítica deve ser fundamentada e com compromisso com a verdade (inclusive no sentido de mostrar que os governos anteriores, o capital transnacional, determinados setores da sociedade, os parlamentares anteriores e atuais, etc., são responsáveis pelo caos atual), bem como ser radical e ir até a raiz. Assim se mostra as bases reais e sociais desse processo e que, portanto, a mera troca de governo não gera nenhuma grande alteração[20] e isso é perceptível pelo fato que não há nenhum projeto alternativo e o bloco progressista nem sequer tem quadros suficientes para governar, o que se conseguiria com alianças com aqueles considerados indesejáveis e neoliberais, tal como fez o PT.
Portanto, a luta é árdua, em várias frentes e com vários aspectos. Nesse contexto, é preciso fortalecer o bloco revolucionário, aglutinar forças e apontar para o futuro e esquecer o passado e as opções espaciais e presentistas (direita e esquerda). O fortalecimento do bloco revolucionário e a união dos trabalhadores, dois elementos que geralmente caminham juntos, embora possa haver um descompasso e um avançar mais rápido que o outro, são fundamentais para a superação da situação caótica que a sociedade brasileira se encontra e para evitar a catástrofe e o barbarismo que se desenham no horizonte do capitalismo mundial. Então é hora de lutar, pois a luta de hoje, sendo sedimentada, reforça a luta de amanhã e a tendência que queremos que seja vitoriosa.
Referências
BOURDIEU, Pierre; WACQUANT, Löic. Prefácio: Sobre  as  Armadilhas  da  Razão Imperialista. In: NOGUEIRA, Maria Alice; CATANI, Afrânio (orgs.). Escritos de Educação. 3ª edição, Petrópolis, Vozes, 1998.  

BRAGA, Lisandro. Terry Eagleton contra os Pós-Modernos: A Ironia de uma Crítica Corrosiva. In: MARQUES, Edmilson e BRAGA, Lisandro (orgs.). Intelectualidade e Luta de Classes. São Carlos: Pedro e João Editores, 2013.

EAGLETON, Terry. As Ilusões do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

VIANA, Nildo. Blocos Sociais e Luta de Classes. Espaço Livre, Vol. 10, n.º 10, jul./dez. 2015. Disponível em: http://informecritica.blogspot.com/2016/03/blocos-sociais-e-luta-de-classes.html

VIANA, Nildo. Estado e Acumulação de Capital. Revista Enfrentamento. Ano 12, Num. 21, jan/jun. 2017. Disponível em: http://informecritica.blogspot.com/2018/01/estado-e-acumulacao-de-capital.html

VIANA, Nildo. Gênero e Ideologia. In: VIANA, N. (org.). A Questão da Mulher. Opressão, Trabalho, Violência. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2006. http://informecritica.blogspot.com/2014/11/genero-e-ideologia.html


VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. A ser publicado.

WOOD, Elen. Democracia Contra Capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2004.

YOUNG, Jock. A Sociedade Excludente. Exclusão Social, Criminalidade e Diferença na Modernidade Recente. Rio de Janeiro: Revan, 2002.



[3] Terry Eagleton aborda isso em seu livro “As Ilusões do Pós-Modernismo” (1998). Veja comentário em Braga (2013).
[4] Elen Wood (2004) criticou a “política de identidades”; Eagleton (1998) criticou o “pós-modernismo”; Young (2002) criticou a essencialização das identidades; Bourdieu e Wacquant (1998) fez algumas críticas no caso da nova posição sobre a questão racial no Brasil (mostrando inclusive o financiamento disso) e a “novilíngua”, entre alguns outros. No Brasil, o que ocorreu foi uma adesão quase completa da esquerda e seus intelectuais, com raríssimas exceções. O mesmo vale para o bloco revolucionário. Nesse último caso, veja: Gênero e ideologia (VIANA, 2006), publicado em 2006, mas escrito em 1998.
[5] Deve-se entender que a linguagem teórica é distinta da linguagem partidária ou política. Nos Estados Unidos, os republicanos são a direita e os democratas a esquerda, mas estes últimos aqui no Brasil, antes da emergência dos governos petistas, seriam considerados “direita” de tão conservadores que são. Só que o Partido Republicano é composto por conservadores mais extremos e o Partido Democrata por conservadores menos extremos, tal como alguns setores do liberalismo e republicanismo. O termo “republicanismo” se refere a uma concepção política e não ao partido norte-americano, que nada tem de republicano, posição que é, nesse país, dos democratas. Os nomes dos partidos são enganosos. Se alguém acreditar neles, pode vir a pensar que o PCB (Partido “Comunista” Brasileiro) antigo era o que dizia seu nome, ou que seu novo nome, PPS (Partido Popular “Socialista”), significava que ele era “socialista”. Tanto não era que já mudou de nome de novo e já tirou o “socialista”. Até os reacionários do Partido Nazista colocaram “socialista” no nome do partido. Os nomes dos partidos não são equivalentes à posição política que eles realmente defendem. O nome tem a ver com interesses eleitorais, oportunismo, estratégia eleitoral, interpretações, etc. e não com a análise teórica. Somente os pesquisadores e intelectuais despreparados julgam os partidos pelos seus nomes.
[6] Partido dos Trabalhadores.
[7] O antipetismo reforçou o “petismo” e esse reforçou o bolsonarismo, o setor mais decididamente antipetista e ambos chegaram ao segundo turno. Assim, a polarização reforçou as duas candidaturas com maior rejeição e que inicialmente tinham pouca possibilidade de chegar ao segundo turno das eleições.
[8] Talvez um misto de incompetência e de intencionalidade, pois existe a possibilidade de fazerem  isso propositalmente para manter uma base de apoio por causa de questões morais e desviar a atenção das reformas retrógradas e outros elementos mais importantes da política governamental.
[9] Respeitabilidade intelectual, mas não moral, pois aí seria uma perda (as acusações de corrupção e outros elementos tornam o PSDB pouco respeitável nesse sentido), mas compensaria para o governo, pois a situação seria menos problemática e a manutenção do governo até o fim do mandato estaria garantida. O que ele perderia seria o apoio de uma pequena minoria de extremistas, mesmo que barulhentos, e ganharia um apoio quantitativamente maior, inclusive de setores importantes da sociedade, tal como alguns setores da burguesia.
[10] O bloco dominante (conservador, ou seja, que aglutina todas as forças do conservadorismo), como todos os blocos sociais, possui uma ala mais extremista e outra menos extremista. No caso do bloco dominante, temos a ala reacionária (mais extremista) composta pelo nazismo, fascismo, conservantismo, etc. e uma ala moderada, representada pelo liberalismo (em suas várias formas), republicanismo, etc. Há alguns setores que ficam entre essas duas alas, pendendo mais para um lado ou para outro. No bloco progressista, há também um setor mais extremista, o bolchevismo (o insurrecionalista e não seus derivados claramente reformistas) e outro mais moderado (trabalhismo, social-democracia, etc.). Há também setores que ficam entre o bloco dominante e o bloco progressista, como os liberais-democratas e alguns representantes do trabalhismo. No entanto, ainda falta uma análise mais profunda dessas divisões dos blocos sociais e, a nível geral, sobre as diversas tendências conservadoras e progressistas. Sobre blocos sociais, veja: Viana, 2015 (http://informecritica.blogspot.com/2016/03/blocos-sociais-e-luta-de-classes.html).
[11] Para quem pensa que a TFP se resume a apenas “marchas” (realizadas na década de 1960) ou que deixou de existir, basta consultar o site dela para saber que ainda existe: http://www.tfp.org.br/
[12] Sobre isso, cf. Viana, 2019.
[15] Entenda-se por capital internacional toda empresa capitalista estrangeira (que pode exportar ou importar, por exemplo) e por capital transnacional toda empresa capitalista estrangeira que atua em solo brasileiro.
[16] Sobre a relação entre Estado e Acumulação de Capital, cf. Viana, 2017 (http://informecritica.blogspot.com/2018/01/estado-e-acumulacao-de-capital.html).
[17] Isso fortaleceria em uns a ideia de que a população não sabe votar e em outros que não é ela que decide quem governa, sendo que as duas ideias possuem momentos de verdade, especialmente a última.
[18] E assim deixam de ser revolucionários.
[19] Assim, a subordinação cultural do Brasil aos países imperialistas, responsável inclusive por essas ideologias e pesquisas “exóticas” e superficiais, necessita ser avaliada e criticada (o que permite a crítica conservadora, tal como se vê nesse texto: https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/14549/sim-devemos-redimensionar-os-investimentos-feitos-em-filosofia-e-sociologia), bem como deve gerar projetos alternativos de educação e formação, pressão social para produção intelectual voltada para os problemas sociais, etc. Sem dúvida, a subordinação cultural é tão forte e convincente que inventa ideologias supostamente contrárias, tal como a “decolonialidade”, cuja base paradigmática é completamente subordinada aos países imperialistas.
[20] Basta ver que os petistas criticam os cortes de verbas das universidades federais pelo Governo Bolsonaro como se fosse mera decisão de um governo ruim e o governo estadual do PT na Bahia faz a mesma coisa, só que dizendo que é um “problema econômico”. Veja: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/05/universidades-estaduais-da-ba-enfrentam-cortes-sob-pt.shtml

domingo, 21 de outubro de 2018

BOLSONARO, HADDAD E O FUTURO DA SOCIEDADE BRASILEIRA


BOLSONARO, HADDAD E O FUTURO DA SOCIEDADE BRASILEIRA

Nildo Viana

A polarização eleitoral, relacionada com outras polarizações anteriores, apontam para um segundo turno das eleições presidenciais bastante acirrado discursivamente. De um lado, Jair Bolsonaro, de outro, Fernando Haddad. As escolhas eleitorais são realizadas, geralmente, a partir de interesses ou expectativas de futuro relacionadas ao presidente eleito. No entanto, existe uma dificuldade enorme nesse processo por parte da população, pois entre o discurso do candidato e sua prática efetiva posterior, há um abismo e muita confusão. Os ingênuos acreditam nas promessas irrealizáveis, os interessados (seja dos que serão beneficiados diretos – cargos, dinheiro, vantagens – seja dos que apenas pensam que serão beneficiados enquanto indivíduo, grupo, classe) defendem apaixonadamente os seus candidatos, os iludidos pelos discursos acreditam e votam naquele que, direta ou indiretamente, lhes convenceram.

A previsão do futuro é algo quase impossível. O que podemos analisar são tendências, pois não sabemos de todo o processo, de todas as outras tendências e determinações que vão se concretizar. No entanto, a partir de informações e reflexões sobre a realidade presente, podemos observar as tendências mais fortes, com suas possíveis variações, e é isto que apontamos no presente texto. Nada do que está escrito aqui vai, inevitavelmente, ocorrer, mas não só é possível ocorrer como é uma possibilidade tendencial. Quais são as expectativas para a sociedade brasileira no provável governo Bolsonaro ou governo Haddad?[1] Essa é a questão que tomamos como ponto de partida para apontar as tendências.

Um governo Bolsonaro pode ser analisado a partir do que o candidato e seus aliados dizem, a partir do que seu adversário coloca, ou, ainda, a partir da análise prospectiva das tendências existentes. Se o governo Bolsonaro for o que dizem os petistas, ele será um retrocesso e vai gerar mais violência, pobreza, sexismo, privatização, etc. e pode gerar uma ditadura ou até mesmo “fascismo”. Se o governo Haddad for o que dizem os bolsonaristas, ele será um retrocesso e vai gerar mais violência, pobreza, corrupção, burocratismo, etc. e pode gerar uma ditadura ou até mesmo “comunismo”. Para quem acredita em contos de fadas, essas duas versões seriam igualmente possíveis. Se o governo de Bolsonaro for o que diz o candidato, então o Brasil vai mudar, a família será respeitada, a violência será contida, a economia vai ser recuperada, haverá privatizações, bem como o Bolsa Família será mantido e terá até 13º e aumento, entre milhares de outras coisas. Se o governo Haddad for o que diz o candidato, a sociedade brasileira vai melhorar, milhões voltarão a ter emprego, a educação vai ser ampliada em todos os níveis, aqueles que ganham até 5 salários mínimos não pagarão mais impostos, a diversidade será respeitada, bem como será revogada a reforma trabalhista e as obras governamentais serão retomadas. Para quem acredita em Papai Noel, podem colocar suas meias dependuradas no dia 25 de dezembro, pois essas duas versões seriam realizáveis.

Esse é o discurso eleitoral e só acredita nele quem não tem senso crítico ou experiência de vida. Se bem que experiência de vida pode ser ludibriada pela fé, pelo desejo, pelos interesses. Em Goiás, muita gente acreditou nas “piscinas populares” prometidas pelo candidato a prefeito (1985) Daniel Antônio de Oliveira, que foi eleito e nunca cumpriu sua promessa, ou confiou na promessa de “metrô de superfície” pelo candidato a governador (1985) Henrique Santillo, que também foi eleito e igualmente não cumpriu a promessa. As promessas de Fernando Collor de Mello, Luís Inácio Lula da Silva, Dilma Roussef, entre milhares de outros, também não foram cumpridas. Collor disse que acabaria com a pobreza dos “descamisados e pés descalços” e com “os marajás” (corruptos) e acabou sofrendo impeachment por corrupção (...). Jânio Quadros, muito antes (1960), disse que ia “varrer a corrupção”. 

[Leia também: Discurso eleitoral e discurso governamental].

Se a experiência nem sempre é suficiente, a reflexão deveria ser. O discurso eleitoral é otimista, os candidatos resolvem todos os problemas (saúde, educação, segurança, emprego, etc.) e tudo é fácil de se resolver, basta escolher o candidato. Quem acompanhou os presidenciáveis em 2018 sabe que é tudo fácil de resolver: “dinheiro tem, ele está é mal distribuído” (Guilherme Boulos); “O Brasil vai se tornar uma grande nação mundial” (Cabo Daciolo); “o que o Brasil precisa é competência para trazer de volta o crescimento” (Henrique Meirelles), etc. O discurso eleitoral é sempre otimista e voluntarista (e mentiroso). Ninguém ganha eleição dizendo a verdade. Uma vez no governo, ele é substituído pelo discurso governamental, que, por sua vez, é realista e pessimista (“a crise internacional”; “a campanha oposicionista”, a “falta de recursos”, etc.).

Até aqui apenas apontamos o que o futuro governo não vai fazer: não vai fazer o que o adversário diz e nem vai fazer o que ele mesmo diz. Afinal, o que é mais provável que façam os dois presidenciáveis, caso sejam eleitos? A tendência não é nada boa e isso em ambos os casos. Isso, em parte por causa do contexto histórico e social, e, em parte, devido a quem são os candidatos que podem se tornar o futuro presidente.

Um governo Bolsonaro tende a ser autoritário e que efetivará políticas de austeridade. A tendência é realizar pouco do que foi prometido. Dentre as poucas coisas que tende a realizar, é valoração da família e das tradições, entrando em confronto com o bloco progressista e gerando algumas alterações na educação estatal e outros processos, o que deverá atingir os currais eleitorais petistas e reduzir drasticamente o financiamento de certos setores ligados ao PT. Poderá tentar concretizar outras iniciativas, como a questão do porte de armas, redução da maioridade penal, etc., que são propostas neoliberais. Assim, com contradições e obstáculos, é isso que pode se esperar em matéria de política governamental. No plano da política econômica, pelo menos no início, adotará políticas neoliberais através do Ministro da Fazenda, Paulo Guedes, que não resolverá as questões e dificilmente conseguirá retomar o ritmo de acumulação de capital (“crescimento econômico”). O maior feito de um governo Bolsonaro deve ser liquidar o petismo.

O seu governo, num primeiro momento, tende a gerar um certo otimismo e a “confiança” do capital transnacional e mercado. Bolsonaro, apesar de não ser o “candidato ideal” para o capital, consegue gerar mais confiança no capital transnacional e no mercado internacional (a queda do dólar e a cotação da bolsa de valores mostram isso). Deverá conseguir certo apoio parlamentar com as adesões oportunistas e aliciamento de partidos e indivíduos. Porém, num segundo momento, a tendência é de perda de popularidade crescente com o neoliberalismo discricionário por parte de setores cada vez mais amplos da população, aumento do número de greves, etc. Os seus pilares também tendem, a longo prazo, a se enfraquecer, pois o antipetismo perde sentido com o fim do petismo e o moralismo conservador perde seu apelo com o recuo da moral progressista e do imoralismo. Se não ocorrer uma aceleração da acumulação de capital, também os recursos tendem a minguar e a situação ficar difícil. Nessa situação, a oposição tende a crescer, tanto através da ala moderada do bloco dominante, quanto pelo que sobrar do bloco progressista, e, ainda, do bloco revolucionário e dos trabalhadores em geral.

Isso significa que a curto prazo um governo Bolsonaro tende a se manter relativamente estabilizado, mas a médio prazo tende a encontrar cada vez mais dificuldades e gerar uma desestabilização. Claro que isso vai depender, fundamentalmente, da acumulação de capital e da situação internacional (que, aliás, estão entrelaçadas), mas a tendência nesses aspectos também não são as melhores para o capital. Essa situação se materializando, também pode gerar um maior grau de repressão estatal no movimento operário e correntes oposicionistas e mais motivos para descontentamento. A longo prazo é difícil observar as tendências, pois depende do que se efetivará a curto e médio prazo. Logo, as perspectivas não são nada boas num governo Bolsonaro.

Um governo Haddad tende a ter algumas diferenças. Porém, se encontrará diante de um dilema. Terá que decidir se efetivará políticas neopopulistas e tentar efetivar algumas das promessas ou adotará o neoliberalismo discricionário e abandonará quase todas suas promessas de campanha. Pouco do que foi prometido poderá ser efetivado. O pouco que poderia ser realizado seria a manutenção, sob forma precária, da política de identidades e coisas semelhantes. A retomada de obras públicas, a diminuição de impostos, as políticas de desenvolvimento educacional, entre outras, depende dos recursos estatais que hoje estão em falta. A revogação da reforma trabalhista e da PEC de teto de gastos é difícil e traria forte oposição da burguesia, comprometendo a governabilidade, bem como o aumento de gastos estatais (que tende a ocorrer pelas próprias necessidades do petismo e seu caráter burocrático e neopopulista) tendem a aumentar os problemas e as dificuldades financeiras. A oposição será forte de todos os lados (da mesma forma que Bolsonaro, enfrentará a oposição da direita moderada, que ele tentará aliciar, bem como do bloco revolucionário e de grande parte da população, tanto trabalhadores quanto adeptos do bolsonarismo que deverá se consolidar como opção política após a sua suposta derrota e com força parlamentar). Tende a ter apoio de certos setores da burguesia e do bloco dominante, como já tem no período eleitoral, e do bloco progressista, em sua ala mais moderada (PSOL, PCdoB, PSB, etc.)[2]. Disso também resulta um caráter mais repressivo do aparato estatal para tentar manter a governabilidade.

Porém, e este é o problema do petismo e o que gerou o impeachment de Dilma Roussef, o PT é o reino da burocracia partidária e sindical e de outras associadas (ONGs, etc.)[3], bem como de setores da intelectualidade. Por isso ele tende a ter gastos que outros governos poderiam evitar e por isso ele dificilmente executa certas políticas, pois fazendo isso perde votos e em 2020 haverão eleições municipais e em 2022 novas eleições presidenciais. Assim, um novo dilema se coloca: aderir ao neoliberalismo discricionário e perder popularidade e eleições, o que significa ganhar cargos agora e perdê-los logo a seguir ou manter o neoliberalismo neopopulista e assim evitar as políticas de austeridade e aumentar os gastos estatais, gerando maiores problemas e dificuldades, bem como perdendo apoios de setores da burguesia. A insistência no neoliberalismo neopopulista significaria uma situação caótica e conflituosa desde o início do governo e que pode gerar dificuldades crescentes de governabilidade. É claro que isso vai depender, em parte, do ritmo da acumulação de capital e da dinâmica do capitalismo mundial e outras determinações, mas a tendência nesse caso também não é para gerar otimismo.

Um governo Haddad já tende a iniciar com dificuldades, pois tem pouco apoio e o capital transnacional e mercado mundial devem gerar impacto negativo desde o resultado das eleições, em caso de vitória petista (bolsa de valores, dólar). Assim, se no  caso de Bolsonaro a tendência é de um certo alívio no início por causa do otimismo e recepção favorável do capital internacional e maioria da burguesia brasileira, nesse caso a tendência é a oposta. E o bolsonarismo será uma oposição constante e agora fortalecido, inclusive podendo gerar, como já foi anunciado, um novo partido em torno de Bolsonaro. Da mesma forma, outros setores deverão fazer oposição desde o início. E se a situação inicial for desfavorável, a tendência é um governo que já nasce com o anúncio de sua morte.

Enfim, um governo Haddad tende a iniciar com enormes dificuldades e se isto se concretiza, a situação nacional deve piorar, gerando um processo de acirramento de conflitos e fortalecendo ainda mais o antipetismo, que inclusive perderá parte de sua base eleitoral, desiludida. Assim, a curto prazo seria crise governamental e outras crises, acirramento de conflitos, etc. A médio prazo e mais ainda a longo prazo, o caos e soluções imprevisíveis poderiam ocorrer. Por outro lado, se a situação for mais favorável, e a decisão for por uma política econômica pragmática, o governo poderá se sustentar razoavelmente e, caso haja uma retomada do ritmo de acumulação de capital, poderá ganhar fôlego. Essa, no entanto, é uma tendência pouco provável e somente com muito otimismo se poderia esperar isso.

Assim, a tendência inicial de um governo Haddad seria de instabilidade e conflitos crescentes no início e que podem se acirrar a não ser que abandone o neopopulismo e abandone as poucas promessas realizáveis e/ou a situação internacional e da acumulação de capital apontem para uma evolução positiva, o que não é o mais provável no momento. Caso essa tendência inicial de instabilidade se mantenha, o caos e soluções mais drásticas podem surgir. Caso ela não se mantenha, poderá haver algum fôlego para o governo, mas com forte oposição, dificuldades, crises. De qualquer forma, a volta da “era de ouro” do tempo das vacas gordas não voltará, pois agora é a época das vacas magras.

Resta discutir a questão da ameaça fascista e comunista que os candidatos acusam ser possível com a vitória do outro. Bolsonaro não é fascista e Haddad não é comunista. Isso é apenas discurso eleitoral e que convence apenas os mais despolitizados e que não possuem maior formação e informação, bem como aos adeptos apaixonados que abandonam a racionalidade ou, ainda, aqueles que tem seus sentimentos de medo e/ou ódio manipulados por campanhas eleitorais. Um governo Bolsonaro tende a ser autoritário e, dependendo do contexto (que é o mais provável) um governo Haddad também. Sem dúvida, o alvo da repressão que tende a existir nos dois casos apontam para alguns que são comuns e outros que são seletivos. Num governo Bolsonaro, setores progressistas, adeptos do imoralismo e moral progressista, trabalhadores em geral, bloco revolucionário e setores do bloco progressista, tendem a sofrer maior grau de repressão, mas geralmente em casos de manifestações, ações determinadas, espaços institucionais. O grau de repressão depende da ação e reação de ambos os lados e do contexto mais amplo. Num governo Haddad, setores reacionários, trabalhadores em geral, bloco revolucionário e a ala extremista do bloco progressista tendem a sofrer maior repressão em caso de manifestações, determinadas ações e espaços institucionais. Sem dúvida, poderão haver surpresas dependendo de ações inesperadas, efeitos internacionais, dinâmica da acumulação, decisões políticas, etc. Por isso trata-se de tendência geral e mais provável.

A síntese geral é a de que, independente de quem ganhe (por serem essas duas opções concretas com suas características específicas), a tendência geral é o país continuar em situação de instabilidade, crises, conflitos. O que fazer nessa situação? Para aqueles que pertencem ao bloco revolucionário, que lutam pela transformação radical e total das relações sociais, não se trata de escolher o “menos ruim”, pois ambos são ruins, e nada mudarão na situação do país. E o trágico é que não só não mudarão nada como tendem a piorar tudo. A ação de quem pertence ao bloco revolucionário é manter a sua coerência e lutar pela transformação social e, imediatamente, buscar fortalecer as organizações autárquicas (formas de auto-organização) dos trabalhadores, a autoeducação e politização da população, avançar na busca de uma unidade de ação visando combater os retrocessos que tendem a vir, tanto no plano econômico quanto político em ambos os casos. Esse fortalecimento é fundamental para gerar uma correlação de forças na sociedade civil que seja favorável aos trabalhadores e que impeça que as políticas estatais sejam ainda mais penosas e, ao mesmo tempo, criar condições para avançar além da luta defensiva para evitar mais pobreza, desemprego, repressão, etc., e assim poder passar para uma luta ofensiva pela constituição de uma nova sociedade, a sociedade autogerida.




[1] Nesse processo analítico, existem diversas outras possibilidades, especialmente quando se aponta para um período mais longo. Assim, um governo Haddad tem algumas tendências que são mais prováveis imediatamente, mas a intervenção de elementos não previsíveis (desde a internacionais quanto a ações do indivíduo presidente ou seus aliados), podem gerar mudanças tendenciais. Um golpe de Estado, por exemplo, pode ser uma tendência hipotética, mas julgamos que não imediatamente e por isso não é apresentada, mas dependendo da evolução da conjuntura, pode se tornar uma possibilidade tendencial e até efetivamente ocorrer.
[2] A tendência do PDT será de buscar se tornar uma oposição durante os quatro anos de governo (seja de Bolsonaro ou do PT), pois já aponta para lançar a candidatura de Ciro Gomes novamente e o ressentimento contra o PT e a sua exclusão do segundo turno por causa da polarização tende a produzir a sua tentativa de se apresentar como “terceira via” desde o início do ano que vem.
[3] O PT é um partido hegemonizado pela burocracia partidária, parlamentar, sindical e, quando no governo, pela burocracia governamental, que se articula através da cooptação diversos outros setores da burocracia civil e certos setores da intelectualidade. Quando esteve no governo financiou diversas iniciativas, incluindo blogs, meios de comunicação, etc., obviamente, todos pró-PT. Sobre isso, veja: https://informecritica.blogspot.com/2018/01/o-pobre-de-direita-e-miseria-do.html 

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