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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

"Goiânia", música sobre a capital de Goiás



"Goiânia",

Edmilson Marques.

Composição: Edmilson Marques e Nildo Viana



"Goiânia"


Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Rever a Praça do Bandeirante

O herói com espada e espingarda

Que lavou o ouro com o sangue

dos índios que exterminou com sua gangue

 

Passar na Praça Cívica do monumento

Três raças e apenas uma classe

de trabalhadores buscando alento

O suor que gera alimento para outro estamento

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Quando estou em Luziânia

Quero voltar para Goiânia

Quando telefono para a Tânia

Sinto saudade de Goiânia.

 

Quanto estou com insônia

Fico pensando em Goiânia

Mas quando saio com a Sônia

Não converso sobre Goiânia

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Ir até o zoológico e o Mutirama

Onde o trabalhador esquece o drama

Da exploração e da vida cotidiana

E da trama que produz tanta grana

 

Vamos nos perder nas avenidas

Por onde passaram tantas vidas

Anhanguera, Goiás e Araguaia

Lugar de comércio, carros e tocaia

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

O bom e o mau gosto e desgosto

de braços dados, eternos aliados

Vendo o mendigo exposto

e o rico escondendo o rosto

 

E ver gente bonita, arte e rock

No shopping o dinheiro dá o toque

Mas o mercado não mata a vida

Que insiste em ser vivida

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

No Serra Dourada ver Goiás e Vila

O tigre e o grito da cidade

Uma bela fuga da realidade

Ver a dor e alegria que lá desfila

 

Terra de batalhas e guerras

Onde o pensamento se rebela

Inspiração para uma nova era

Que o mundo tanto espera

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

 

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!

Vamos Vânia

Vamos para Goiânia!




segunda-feira, 13 de abril de 2020

CAPITALISMO E PANDEMIA

Governo chinês está até "queimando" dinheiro para combater o ...

CAPITALISMO E PANDEMIA

Nildo Viana

A relação entre capitalismo e pandemia é complexa e envolve dois elementos fundamentais. O primeiro elemento é a produção capitalista de pandemias. O segundo elemento é o combate à pandemia no capitalismo. Derivado disso, temos um terceiro elemento, que são as consequências das pandemias na sociedade capitalista. Isso pode ser abordado de forma abstrata, num plano mais teórico, ou pode ser abordado no plano concreto do capitalismo contemporâneo. Abordamos, inicialmente, num plano mais abstrato e depois num plano mais concreto.

O primeiro elemento que é necessário destacar é que o capitalismo produz pandemias. Sem dúvida, antes do capitalismo existiram surtos, epidemias e algo próximo de pandemias[1]. Porém, o capitalismo gera uma mundialização antes inexistente e além disso cria uma divisão internacional do trabalho que gera uma interdependência entre os países e relações internacionais constantes. A ampla circulação de mercadorias é veloz e cria fluxos internacionais dos agentes responsáveis por sua materialização. O desenvolvimento tecnológico, que afeta meios de transportes, e a circulação de mercadorias torna o fluxo internacional de pessoas algo cada vez mais intenso. Por outro lado, as ações estatais e militares também movimentam pessoas internacionalmente, além dos eventos esportivos e artísticos, bem como educação e trabalho que geram mobilização internacional. As mudanças sociais mais recentes permitiram, por sua vez, maior acesso aos voos internacionais, bem como o uso de barcos, transporte terrestre, permitindo uma passagem de um país para outro sob forma mais ampla e rápida. O caso dos atuais enxames de gafanhotos que passam do mundo árabe para o continente africano é apenas um exemplo da possibilidade que o capitalismo permite de passagem de um problema de um país ou região para outro.

Nesse contexto, doenças virais são mais facilmente e mais rapidamente repassadas de um país para outro e quanto mais se desenvolve o capitalismo, isso é mais intenso. Claro que podemos tratar também da origem dos vírus e seus vínculos com o capitalismo. Diversos vírus podem emergir graças a mudanças ambientais e climáticas, provocadas pelo capitalismo. Os vírus também podem surgir através da sua fabricação pelos próprios seres humanos, seja para guerra biológica, seja por interesses farmacêuticos para lucrar com a cura posterior da doença fabricada.
Assim, o capitalismo é um produtor de pandemias, embora isso não apareça imediatamente na consciência das pessoas, pois o imediato é mais visível, enquanto que as mediações/determinações são menos perceptíveis. Um acontecimento é rapidamente perceptível em si, mas o seu processo de constituição, suas determinações, já não são acessadas pela consciência imediatamente, com raras exceções. Um vírus que surge na cidade X remete para a responsabilização desse local e não das condições sociais, ambientais e outras, que permitem sua emergência, bem como transmissão e disseminação.

O segundo elemento que devemos destacar é o combate às pandemias no capitalismo. O capitalismo tende a criar um alto grau de disseminação de doenças virais, devido aos elementos já aludidos, e isso é mais grave quando o modo de transmissão é mais amplo e o grau de transmissibilidade é mais elevado. No caso de alguns vírus, a pandemia pode demorar mais tempo do que no caso de outros, e assim o combate é mais fácil no primeiro caso. Quanto maior é a velocidade de transmissão, maior é sua disseminação. E, nesse caso, piores são as condições para seu combate.

No capitalismo, o combate à uma pandemia ocorre fundamentalmente através do aparato estatal e, secundariamente, através dos serviços de saúde (estatais e privados) e de iniciativas privadas, incluindo o capital farmacêutico, instituições de pesquisa, entre outras. Porém, o Estado não pode priorizar o combate à pandemia, pois está vinculado a outros interesses, pois ele expressa os interesses da classe capitalista. Esse combate só se torna prioridade quando ele aparece como ameaça ao capitalismo, seja no plano meramente econômico, seja no plano das reações populares diante do caos que pode se instalar. E isso é mais grave no atual estágio do capitalismo, comandado pelo regime de acumulação integral, no qual o estado é neoliberal e desestruturou sua coordenação da economia, reduzindo o intervencionismo estatal, privatizando empresas estatais, etc. Assim, o Estado capitalista tem uma capacidade limitada para enfrentar pandemias com alta transmissibilidade e disseminação.

Os serviços de saúde também não são capazes de enfrentar uma pandemia, pois eles funcionam de acordo com a lógica capitalista da oferta e da procura. Os serviços privados de saúde, incluindo planos de saúde, hospitais, clínicas, profissionais, etc., possuem uma oferta que é de acordo com a demanda existente, que é a daqueles que podem pagar ou possuem planos de saúde. A oferta dos serviços privados de saúde gira em torno da demanda efetiva e não da demanda potencial. Por exemplo, dos 100% das pessoas que possuem planos de saúde, podemos dizer que, hipoteticamente, apenas 10 ou 20% o usam simultaneamente. O capital sanitário garante uma oferta equivalente à essa demanda efetiva e não em relação à demanda potencial, que é de 100% dos usuários. A razão disso é óbvia: o capital sanitário visa o lucro e, portanto, gera a oferta relativa à demanda efetiva para poder lucrar e oferecer mais do que isso diminuiria a lucratividade. Ele tem capacidade para ampliar a oferta e pode aumentá-la um pouco, mas ela é limitada e a margem de aumento possível é relativamente pequena, especialmente em curto prazo. Logo, uma pandemia com alto grau de transmissibilidade e disseminação tende a aumentar drasticamente a demanda e isso ocorre sem a capacidade de aumento da oferta na mesma proporção, sendo geralmente muito inferior.

Os serviços estatais de saúde, por sua vez, não visam lucro. No entanto, eles possuem despesas, como a remuneração dos funcionários, instalações, materiais para atendimento, etc. Isso não é gratuito, embora os usuários não paguem diretamente por isso. Os serviços estatais de saúde conseguem seus recursos através das verbas que são repassadas pelo Estado, que transfere parte da renda estatal para eles. A renda estatal, por sua vez, tem sua origem na sociedade e, no fritar dos ovos, do mais-valor global produzido pelo proletariado no conjunto da sociedade e drenada sob a forma de impostos, taxas e outros meios. Porém, o aparato estatal tem inúmeras despesas, desde a burocracia estatal aos diversos aparatos estatais (educação, cultura, infraestrutura, etc.) e por isso os recursos cedidos para o setor de saúde dependem de várias determinações. No capitalismo contemporâneo, com a instauração do neoliberalismo, há a diretriz de diminuir os gastos estatais com políticas de assistência social, tal como saúde e educação. Independentemente disso, os serviços estatais de saúde apresentam uma oferta muito inferior à demanda efetiva, e, por conseguinte, é incapaz de atender a demanda potencial. Tendo em vista que os usuários desses serviços são geralmente indivíduos das classes inferiores, que possuem piores condições de vida, sanitárias, urbanas, o que gera uma maior tendência para problemas de saúde, bem como menor capacidade financeira de buscar serviços privados, a situação é calamitosa. Isso significa pessoas não atendidas e até morte por falta de atendimento dos serviços de saúde. Num momento de pandemia, na qual a demanda efetiva aumenta drasticamente, especialmente no caso já citado de alto grau de transmissibilidade e disseminação, os serviços estatais de saúde se tornam incapazes de atender esse aumento de demanda, bem como, com o passar do tempo, ela fica ainda mais restrita por causa dos gastos de recursos (como remédios, vacinas, etc.), a não ser que o Estado passe a repassar verbas extras para que mantenha um atendimento mínimo.

Sem dúvida, a ação estatal pode ser também preventiva e de contenção. É possível, por exemplo, fechar os aeroportos para evitar a entrada de pessoas contaminadas, bem como outras medidas. As medidas preventivas, quanto mais rápidas ocorrerem, podem ser mais eficazes. Porém, dificilmente um país consegue manter por muito tempo esse tipo de medida, tanto por necessidade econômica como por pressão social. Logo, a sua eficácia depende da velocidade da transmissão e disseminação, sendo mais eficaz se for realizada antecipadamente, o que é difícil devido à resistência de setores da sociedade, especialmente pelo perigo não ser percebido e assim ser um ato aparentemente sem justificativa ou por outras razões, como apego aos interesses imediatos, crenças irracionais, entre outras possibilidades. 

É claro que isso varia de acordo com a época e sociedade. No passado, com o Estado intervencionista, o controle estatal seria mais fácil. Hoje, com o Estado neoliberal, é mais difícil. Antes, a disseminação era um pouco mais lenta, agora é mais rápida. Além disso, os serviços estatais nos países capitalistas imperialistas, mesmo com seu enfraquecimento com a emergência do neoliberalismo, possuem muito mais recursos do que nos países de capitalismo subordinado, para citar apenas um exemplo. No entanto, apesar dessas diferenças, esse é o caso que, com variações de grau e intensidade, ocorre a nível mundial.

Por fim, temos as consequências de todo esse processo. A primeira consequência que podemos observar é quem é mais atingido pela pandemia. No início do processo, são indivíduos das classes superiores os mais atingidos. No atual caso do coronavírus, por exemplo, isso é perceptível, tal como se vê no caso da comitiva do Presidente Jair Bolsonaro ou a cantora Preta Gil, que estiveram entre os primeiros casos de contágio. Uma vez que o vírus chega no país, ele começa a ser transmitido localmente. Os indivíduos das classes superiores repassam o vírus para outros da mesma classe e também para indivíduos das classes inferiores, como trabalhadoras domésticas, funcionários de lojas e empresas, etc. Quando a transmissão se torna local, tende a se expandir para as classes inferiores. Essas, devido suas condições financeiras, ambientais, sanitárias, entre outras, são mais frágeis diante de uma pandemia. E isso é mais grave ainda no caso dos trabalhadores, pois grande parte deles não são dispensados ou não podem deixar de trabalhar. Logo, ficam mais expostos às doenças contagiosas.

As ações estatais visando conter o avanço da disseminação, tal como paralisação de trabalho e outras atividades sociais, bem com fechamento de comércio e serviços, tende a gerar problemas econômicos e quando chega ao ponto de atingir o abastecimento, pode gerar fome, revoltas e outros processos que são de difícil previsão, mas que pode incluir disseminação do vírus. Mesmo que isso não aconteça, o consumo e a produção tendem a ser atingidos, com maior ou menor gravidade dependendo da ação estatal e do contexto mais geral, o que tende a gerar, mesmo após o fim da pandemia, grave crise econômica e outras que podem lhe acompanhar.

Assim, a fome, o desemprego, a morte de infectados, são algumas das consequências mais a curto prazo de uma pandemia de altas proporções, e, a médio prazo, uma grave crise econômica que pode gerar muitos problemas sociais e atingir drasticamente as classes inferiores, aumentando a lumpemproletarização e o empobrecimento, bem como atingido as classes trabalhadoras com a necessidade de um maior grau de exploração para a retomada da acumulação capitalista.

Em síntese, o capitalismo incentiva a produção de pandemias e, ao mesmo tempo, não tem capacidade de contê-las quando elas são mais graves, o que pode ser intensificado por ações governamentais lentas ou incompetentes, ou, ainda, por existência de um aparato estatal de pouca força intervencionista, como é o caso do atual estado neoliberal.

Num nível mais abstrato de análise, essa é a situação. Passando para uma maior concreticidade, tal como o caso do coronavírus, temos uma situação bem específica e algumas consequências e tendenciais. Ainda não se sabe adequadamente (e de forma confiável) a origem desse vírus, bem como ainda não há uma explicação de suas características específicas (alto grau de transmissibilidade e disseminação, para além da questão social, tal como a mundialização e fluxo intenso de pessoas, mercadorias, etc.)[2]. Porém, a pandemia se concretizou e as ações estatais foram, em muitos casos, relativamente rápidas e fortes, o que foi surpreendente e que ocorria por acesso a informações que a maioria da população não possui (e inclusive algumas talvez ainda não reveladas). A princípio, as medidas estatais relativamente rápidas e voltadas para prevenção e contenção, tem como justificativa a incapacidade dos serviços de saúde de atender uma demanda crescente e inesperada, o que é verdade, mas não parece ser toda a verdade. De qualquer forma, a pandemia é uma realidade e as ações governamentais, que variam de país para país e mesmo numa mesma nação com o passar do tempo, foram relativamente rápidas e geralmente voltadas para a contenção. O coronavírus se apresentou como uma ameaça e por isso as medidas estatais foram tomadas.

Um elemento importante é que o coronavírus provocou ações não liberais de governos neoliberais. A intervenção estatal ampliada, o aumento dos gastos estatais, entre outras iniciativas, mostram uma ação estatal contra os ditames do neoliberalismo hegemônico. As chamadas medidas de contenção, no entanto, promovem várias críticas e isso tem sua razão de ser: são não liberais e, além disso, atingem o processo de produção e distribuição de mercadorias, que, em curto prazo, pode ser aceitável, mas sua extensão no tempo vai se tornando, para o capital, cada vez menos sustentável, bem como atinge os pequenos proprietários, trabalhadores autônomos, etc., e tende a gerar falências, desemprego, diminuição do consumo, etc. Essa é uma das razões para que muitos se coloquem contra as políticas de contenção via reclusão doméstica, ou “isolamento social”.

O dilema do capitalismo contemporâneo a partir da expansão do coronavírus é: ou se busca a contenção gerando uma grave crise econômica posterior ou não se contém e se gera uma grave crise sanitária imediatamente. A política de contenção adia a crise, embora com o passar do tempo se aproxima cada vez mais dela. Ela adia a crise sanitária, mas se aproxima da crise econômica se se prolongar muito. A política de não-contenção deixa a crise sanitária se instalar e tenta, através disso, deixar as consequências nefastas atingirem apenas os indivíduos do chamado “grupo de risco” e classes inferiores, tentando manter a “normalidade” do processo de produção e distribuição capitalistas. Assim tenta evitar a crise econômica[3]. Se a política de contenção conseguir um sucesso relativamente mais rápido, a crise econômica posterior poderá ser mais amena, mas não é isso que parece ocorrer, pois o coronavírus parece ser mais perigoso do que se pensa e o abandono das políticas de contenção podem significar o seu retorno[4], sendo necessário retomar tais políticas e numa situação ainda mais difícil.

No entanto, as consequências da pandemia no atual contexto do capitalismo contemporâneo apontam para algumas tendências principais. As ações governamentais já contrariam as diretrizes neoliberais e as consequências econômicas de tais medidas e da pandemia, tendem a gerar uma crise do regime de acumulação integral. Esse regime de acumulação já se encontrava em desestabilização e já apontava para uma tendência no sentido de entrar em crise. Contudo, a crise agora é uma tendência ainda mais poderosa e quase inevitável, pois os gastos estatais com as políticas adotadas vão gerar uma dívida pública superior, bem como ainda serão necessárias, quer se queira ou não, a sua continuidade, e a inflação, depois de sua contenção monetarista por um bom tempo, tende a voltar com força. Ao lado disso, o desemprego, falências, e outras consequências, que podem variar em magnitude de país para país, ocorrerá inevitavelmente, sendo que o que se pode especular é sobre sua intensidade e gravidade.

Assim, o cenário pós-epidemia aponta para uma forte tendência para a crise do regime de acumulação integral que, por sua vez, pode gerar uma crise do capitalismo. Se isso já estava no horizonte, agora se torna ainda mais provável e próximo. A passagem de uma crise do regime de acumulação para uma crise do capitalismo é tendencial, tal como ocorreu na crise do regime de acumulação conjugado no final dos anos 1960. Assim, as políticas estatais pós-pandemia poderão seguir o sentido de mais neoliberalismo, o que tende ao suicídio político de governos, ou uma retomada do intervencionismo estatal, seja sob a forma de um keynesianismo autoritário, ou outra forma estatizante e que combine intervencionismo estatal na economia para salvar empresas capitalistas e alto grau de repressão para evitar acirramento das lutas de classes[5].

Uma das tendências, portanto, é a crise do neoliberalismo. Essa forma estatal se mostra questionada pelas ações governamentais distintas das diretrizes do neoliberalismo durante as políticas de contenção do coronavírus, e o caos econômico que virá posteriormente demandará sua continuidade, sendo uma nova necessidade do capital e, por conseguinte, nova tarefa política e econômica da burguesia e do aparato estatal. Desta forma, os governos neoliberais ou liberal-conservantistas devem mudar suas políticas ou serem substituídos[6]. A ideologia neoliberal e as diversas concepções liberais deverão se enfraquecer. Assim, a tendência é um maior intervencionismo estatal na economia, bem como maior repressão social. Esse último aspecto deve ser fortalecido pela intensificação das lutas de classes. As greves selvagens que já emergiram apontam justamente para uma maior tendência de acirramento das lutas sociais e as consequências gerais na população, como aumento ainda maior do desemprego, dificuldades financeiras, crescimento da pobreza, tendem a generalizar o descontentamento social e manifestações, protestos, greves, etc.

Além do neoliberalismo, outros aspectos do regime de acumulação integral tendem a ser atingidos, como as relações de trabalho, no qual o capital tenderá aumentar a taxa de exploração (e o aumento do desemprego e oferta de força de trabalho podem contribuir com esse processo) e acirrar a busca de aumento de mais-valor absoluto, bem como as relações internacionais tendem a se alterar, não só por propostas nacionalistas que se fortalecerão (inclusive devido ao trauma e a uma certa paranoia que surgirão pós-pandemia), mas por medidas concretas no geral e tentativa de aumento da exploração internacional do bloco imperialista em relação ao bloco subordinado. O modo de produção capitalista será atingido pela situação pós-pandemia e a solução do capital é sempre aumentar a exploração, interna (do proletariado em cada país) e externa (dos países imperialistas sobre os países subordinados, o que significa aumento ainda maior da exploração dos trabalhadores destes últimos).

Outra tendência é a crise do paradigma subjetivista. O subjetivismo e seus derivados, como o individualismo, valoração do “sujeito” e da “subjetividade”, são correspondentes ao regime de acumulação integral e ao neoliberalismo. Uma situação na qual a estatização e intervencionismo estatal tendem a aumentar, suas bases sociais tendem a ser corroídas. A tendência ao estatismo significa uma tendência ao objetivismo e ao holismo, o que é oposto ao subjetivismo e individualismo. As concepções republicanas, nacionalistas, fascistas, social-democratas, entre outras, todas holistas, tendem a ganhar espaço e a alteração mais provável das políticas estatais também apontam para isso. A própria experiência gerada pela pandemia, apesar dos discursos imaginários e irrealistas de alguns, tende a corroer as bases sociais do subjetivismo, pois não somente as políticas de contenção significaram maior presença estatal e menos espaço para o individualismo e suas fantasmagorias, como também os discursos identitários e de grupos perdem o sentido diante da situação coletiva que atingiu a toda a população.

Assim, a tendência é o recuo das ideologias subjetivistas, incluindo a “política de identidades” e sua força nos movimentos sociais, e foco nas questões sociais, aumentando o espaço para os movimentos sociais populares e o movimento operário e de trabalhadores em geral[7]. Por mais que muitos insistam nos discursos subjetivistas, sobre identidades e “minorias”, que já se encontravam caminhando para o esgotamento, o seu espaço tende a se diluir drasticamente. Os setores que possuem uma percepção mais lenta das mutações culturais vão, com o passar do tempo, se adaptando às novas concepções hegemônicas, que, doravante, tendem a ser fundadas no objetivismo e holismo[8].

O mais provável é que a crise do regime de acumulação integral vai gerar um momento de transição, na qual alguns ainda vão insistir em saídas neoliberais e muitos vão buscar alternativas e o estatismo será a principal característica e o retorno ao keynesianismo e outras concepções semelhantes será a tendência mais forte. Em outras palavras, a classe dominante buscará uma saída e um novo regime de acumulação. As dificuldades nesse sentido são evidentes, inclusive por pressupor aumento ainda mais intenso da taxa de exploração. Sem dúvida, ainda restam como saída, nos países imperialistas, o fascismo e a guerra. Por outro lado, a tendência ao fortalecimento das lutas operárias e sociais em geral, é outro elemento que vai pesar na balança e promover uma tendência distinta e humanizadora, que é a transformação radical e total das relações sociais. O retorno da luta do proletariado e demais trabalhadores que tendem a se aglutinar ao seu redor, gera uma outra tendência que é transformar a crise do regime de acumulação em crise do capitalismo. A emergência de novas tentativas de revoluções proletárias pode ocorrer com o desdobramento dessas lutas. E, assim, do caos pode emergir uma nova sociedade. A tendência à barbárie convive com a tendência à autogestão generalizada, a sociedade autogerida.

Assim, no plano das tendências, o capitalismo pós-pandemia não será o mesmo, não só pela pandemia, mas principalmente por suas consequências econômicas. E as classes inferiores tendem a sofrer na pele as consequências e tentativas de recuperação do capitalismo pós-pandemia. O acirramento das lutas de classes e a radicalização da luta operária e das lutas sociais em geral é uma tendência poderosa, ao lado de outras. E novamente a possibilidade de transformação social radical e total se coloca no horizonte. E por isso devemos trabalhar no sentido de fortalecer essa tendência ao invés de cruzar os braços e não combater a outra tendência, um capitalismo ainda mais cruel, inclusive com tendência à regimes ditatoriais, empobrecimento populacional e guerras.

Referências

CLARKE, John. Coronavírus, clima e capital: a irracionalidade destrutiva do capitalismo. In: Mutatis Mutandis. Disponível em: https://revolucio2080.blogspot.com/2020/03/coronavirus-clima-e-capital.html

VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.


Notas:




[1] O surto ocorre quando a disseminação de uma doença atinge repentinamente determinada região, como um bairro ou uma cidade. Uma epidemia ocorre quando a quantidade de casos é extensa em atinge diversas regiões (cidades, estados, etc.). A pandemia, por sua vez, ocorre quando uma doença se espalha e avança por várias regiões, se generalizando, atingindo, tendencialmente ou concretamente, todos os países e continentes. Algumas doenças não podem gerar pandemia, pois para esta existir teria que haver condições ambientais similares em todos os lugares atingidos (o que, no nosso planeta, é algo que somente a ação humana poderia gerar, tais como uma guerra nuclear generalizada ou poluição generalizada) ou serem contagiosas, passando de ser humano para ser humano. As doenças contagiosas são diferentes e algumas tem maior facilidade e capacidade de contágio, gerando, portanto, uma maior potencialidade para a formação de pandemia. Assim, a dengue pode gerar epidemia, mas não pandemia, pois ela é transmitida por um mosquito e esse dificilmente consegue se instalar em todos os lugares, devido às diferenças climáticas, ambientais, etc. A gripe, em suas várias formas, por exemplo, tem potencial pandêmico maior, por serem contagiosas, e mais especialmente em suas formas mais agressivas.

[2] Sem dúvida, para as pessoas crédulas e que confiam nas informações oficiais e “autoridades científicas” (com suas divergências e distintos graus de confiabilidade), não parece haver nenhuma dúvida e tudo estar suficientemente explicado. Porém, o que aqui questionamos é a confiabilidade de tais informações e análises, por mais que venham de supostos cientistas, renomados ou reconhecidos, e instituições (como a OMS – Organização Mundial de Saúde), pois os interesses por detrás destas instituições e os limites do saber científico vulgar dificilmente poderia confiança nos seus discursos.

[3] As duas crises, sanitária e econômica, estão entrelaçadas, mas o foco de alguns é a primeira e a de outros é a segunda, sendo que uma tende a gerar a outra posteriormente.

[4] Isso pode ser visto em notícias que apontam para a preocupação com isso, embora haja questões complementares a serem analisadas (imunização, por exemplo): https://noticias.r7.com/saude/coronavirus-chegar-ao-pico-da-curva-de-contagio-nao-encerra-quarentena-dizem-especialistas-04042020

[5] Inclusive discursos higienistas e sanitaristas tendem a se fortalecer e justificar/legitimar ações estatais.

[6] No caso brasileiro, o governo Bolsonaro mostrou mais uma vez sua incompetência ao não aproveitar a oportunidade para desfazer a aliança do seu conservantismo com o neoliberalismo, tanto por pressão de setores do governo e do capital, quanto por falta de capacidade estratégica. As concessões ao neoliberalismo poderiam ter sido superadas se tivesse adotado, aproveitando a situação, uma forma estatizante, que é a mais adequada ao conservantismo. Isso significa que, no caso brasileiro, o governo Bolsonaro enfrentará dificuldades crescentes para se manter e isso se tornará mais grave pelo simples motivo que o próprio capital vai abandonar as diretrizes neoliberais por necessitar de apoio estatal, o que pode significar, inclusive, o fim de tal governo antes do término do mandato ou então uma mudança drástica em sua orientação.

[7] Sem dúvida, as classes inferiores são as que mais sofrerão com a pandemia e, principalmente, a situação pós-pandemia (CLARKE, 2020).

[8] Uma rápida análise da história do capitalismo demonstra justamente o revezamento entre tais posições: iluminismo (antes da revolução francesa), romantismo (pós-revolucão), positivismo (regime de acumulação intensivo), organicismo (nazifascismo e regime de acumulação bélico), reprodutivismo (regime de acumulação conjugado pós-Segunda Guerra Mundial), subjetivismo (regime de acumulação integral, pós-1980) (VIANA, 2019). Assim, o revezamento mostra a força de determinadas concepções (que se manifestam sob formas diferentes, mas seguem alguns elementos básicos e que se observa na sequencia iluminismo-positivismo-reprodutivismo e na sequencia romantismo-organicismo-subjetivismo, sendo que determinada característica assume mais força dependendo do paradigma hegemônico, e tendo em vista que o organicismo foi regional (o nazifascismo na Alemanha e Itália), apesar de ter semelhantes que não se tornaram hegemônicos em outros países. O caráter holista esteve presente em quase todos, mas o objetivismo foi típico do iluminismo, positivismo e reprodutivismo. Essas antinomias do pensamento burguês ajudam a explicar a recombinação dos elementos da episteme burguesa em cada regime de acumulação, de acordo com as necessidades do capital e as tarefas econômicas e políticas da burguesia, efetivadas via aparato estatal, gerando paradigmas hegemônicos que lhes são correspondentes.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Capital, Espaço e Desigualdade



Capital, Espaço e Desigualdade

Nildo Viana

Resumo: O presente trabalho trata do processo de constituição das desigualdades espaciais produzidas pelo desenvolvimento capitalista. O desenvolvimento capitalista realiza a destruição de modos de produção pré-capitalistas e neste contexto surgem modos de produção não-capitalistas subordinados ao capitalismo. Esta é a primeira forma histórica de desigualdade espacial, regional e nacional, sob o capitalismo. Mas, tão logo este consiga realizar o processo de universalização das relações de produção capitalistas, a constituição de desigualdades espaciais passam a ser os produtos da própria dinâmica capitalista. A tese apresentada para explicar as desigualdades regionais e nacionais, nesse contexto de consolidação do modo de produção capitalista em escala mundial e no interior das nações, reside no processo de reconversão capitalista e transferência de mais-valor, que levam ao processo de concentração e centralização de capital.
Unitermos: capital, espaço, desigualdade, reconversão capitalista, transferência de mais-valor.

Abstract: The present work deals with the constitution process of the space inaqualities produced by the capitalist development. The capitalist development carries through the destruction in production ways daily pay-capitalists and in this context ways appear of production not-capitalists subordinated to the capitalism. This is the first historical form of space, regional and national inequality, under the capitalism. But, so soon this obtains to carry through the process of generalization of the capitalist relations of production, the constitution of space inequalities starts to be the products of the proper capitalist dynamics. The presented thesis to explain the regional and national inequalities, in this context of consolidation in the way of capitalist production in world-wide scale and the interior of the nations, inhabits in the process of capitalist reconversion and transference of more-value, that take to the process of concentration and centralization of capital.
Key-words: capital, space, inequality, capitalist reconversion, transference of more-value.



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Revista Enfrentamento, num. 21, online!




Revista Enfrentamento, 21, online, discutindo a questão do Estado.

Abaixo a apresentação da Revista:

Os artigos reunidos no presente número da Revista Enfrentamento são dedicados à análise do estado e do seu devir durante o processo revolucionário. A perspectiva presente em todos os textos manifestam o ponto de vista proletário, ou seja, do proletariado como classe autodeterminada, revolucionária. Apontam, portanto, para o processo de transformação radical da sociedade capitalista. Este é solo sobre o qual todos os autores semeiam suas ideias.

De um ponto de vista proletário, a única proposta para a instituição estatal é sua completa abolição. A revolução proletária tem necessariamente que chegar a esta conclusão. Conclusão do processo histórico, porquanto teoricamente já está por demais sedimentada. A realidade está aquém da teoria. Isto quer dizer unicamente que conceber teoricamente a demolição do estado, compreender teoricamente seu processo de dissolução não implica em hipótese alguma que necessariamente ele será abolido. Sua abolição é tão somente uma tendência histórica, manifesta na luta revolucionária do proletariado. Enquanto tendência, não quer dizer em absoluto que necessariamente irá se confirmar. É a luta de classes que definirá tal destino. Como se vê, o ponto de vista de nossa Revista, logo, do Movimento Autogestionário, não se assemelha em nada às teses deterministas pseudomarxistas que veem uma revolução proletária inevitável, decretada teoricamente (melhor, ideologicamente), tal como se vê nas vulgatas sob influência stalinista e outras.

O caráter da revolução proletária está bem demonstrado no texto de Anton Pannekoek que Nildo Viana traduziu e nos disponibilizou para ser aqui publicado. A revolução dos trabalhadores é impulsionada pelo próprio modo de produção capitalista, suas contradições, crises e dificuldades. Contudo, é sobretudo uma criação política da classe operária (e demais classes desprivilegiadas que podem se aliar ao proletariado, tal como o campesinato, lumpemproletariado etc.). É exatamente este aspecto criativo das revoluções que temos que dar atenção. A grande contribuição de Pannekoek neste escrito, como em vários outros, é demonstrar o conteúdo da luta política, as formas da luta política do proletariado, seus inimigos de classe (partidos políticos, sindicatos, estado, capitalista etc.). A luta de classes do proletariado ou é anticapitalista ou não é nada, isto já dizia Marx no século XIX, “ou o proletariado é revolucionário ou não é nada”.

Assim, a luta da classe operária autodeterminada não é somente contra o estado, como alguns iniciantes ao estudo do anarquismo propagam, embora, sem a destruição da instituição estatal, tal revolução está abortada. O estado, seja por meio da repressão violenta, seja por meio da cooptação e absorção por meios democráticos ou não, foi ao longo do século XX um dos principais obstáculos para um desenvolvimento positivo das revoluções.

Assim, segundo conclui Nildo Viana em seu artigo aqui publicado, o estado é um aparato privado do capital, mediado pela burocracia. O estado não é o “público”, o “universal”, que paira acima das relações sociais. Nada disto, a instituição estatal é determinada pela acumulação de capital. Quando esta está em ascensão, o estado tem condições de expandir-se, realizar políticas determinadas que inclusive são benéficas para as classes desprivilegiadas. Contudo, quando se começa a perceber dificuldades de acumulação, tais determinações do modo de produção afetam profundamente a própria dinâmica do estado, uma superestrutura, “forma social” segundo expressão de Viana. Assim, a luta dos trabalhadores nunca deve ser direcionada para uma melhora do esstado, a não ser que a classe operária e demais classes queiram permanecer na penúria e em sua situação alienada (mesmo que melhorada nos momentos de ascensão). A solução definitiva só pode ocorrer na luta anticapitalista, ou seja, contra o modo de produção capitalista e suas formas sociais (estado, cultura, etc.). Logo, a solução definitiva e o único caminho possível para os trabalhadores é na luta contra o capital e contra seu aparato principal, o estado. Eis a conclusão de Nildo Viana.

O artigo de Matheus Almeida realiza discussão semelhante, contudo, enfocando a abordagem de Marx sobre o estado. Após demonstrar como a noção de estado em Marx se desenvolve ao longo da sua produção, explorando o caminho tortuoso deste conceito em tal obra, apresenta a natureza antiestatista das discussões políticas do autor de O Capital. Se Marx era um antiestatista, seus continuadores, nem tanto. Assim, Engels, em seus últimos anos de vida, Lassalle e os lassalianos, o Partido Social-Democrata e o bolchevismo (ilustrado aqui na obra de Lênin) expressam deformações do pensamento de Marx. Almeida demonstra sinteticamente o caminho seguido e o destino trilhado pelas concepções de Marx, desde sua elaboração inicial, até as deformações mais antagônicas ao seu antiestatismo. Este é o mérito do seu texto.

Gabriel Teles e Aline Ferreira complementam a discussão apresentando a raiz da tese de “fase de transição socialista”, apregoada por Lênin e toda a sequência posterior de pseudomarxistas. Ao explorarem criticamente tal tese, que é em si problemática, tendo em vista os interesses de classe que esconde, demonstram que o problema aumenta ainda mais quando é atribuída a Marx, que nunca defendeu nada semelhante. Os autores tiveram a capacidade de expor didaticamente o surgimento da tese do “período de transição”, os vínculos com a burocracia bolchevique que ela manifesta, as distinções com as teses de Marx e, principalmente, seu caráter antiproletário. Como já dissemos, a revolução proletária não consiste em conquistar o poder estatal, pelo contrário, consiste em aniquilá-lo.

O estudo de Lucas Maia demonstra como esta tese ainda vive nos dias de hoje. Mesmo após todas as experiências do século XX, inspiradas ou na URSS, com todas as críticas já sedimentadas sobre a tese das vanguardas, as críticas ao que fizeram os PCs ao longo do mundo etc., esta velha tese ainda teima em permanecer. Tais autores e tendências tem, pois, grande dificuldade em recusar o estado. Querem, de uma ou outra maneira, encontrar argumentos e justificativas para se apropriar de tal instituição, mesmo falando em nome do proletariado e da revolução. Isto, na verdade, só expressa os interesses de classe e demonstra que a contrarrevolução burocrática é ainda uma ameaça, um problema ao prosseguimento de uma possível revolução proletária no século XXI. Ao criticar o livro Conselhos e Democracia, de Luciano Cavini Martorano, Maia demonstra como este autor realiza um ecletismo entre autores de várias tendências do bolchevismo e os autores conselhistas. Este ecletismo expressa na verdade uma domesticação e amansamento das teses conselhistas. Ao invés de fazer avançar a teoria da revolução proletária para onde estes autores a deixaram, Martorano consegue recuá-la a concepções mais moderadas que o próprio bolchevismo. Assim, se se pode dizer, a grande contribuição do recente livro de Martorano é demonstrar que a velha tese da vanguarda embora ainda esteja recalcada e envergonhada, é ainda tendência que pode se manifestar como importante empecilho ao desenvolvimento da luta proletária.

Por último, o texto de Lisandro Braga, centrado no desenvolvimento da luta do movimento piqueteiro em Neuquén, na Argentina, traz importantes contribuições para se compreender o caráter repressivo do estado neoliberal. O texto apresenta pelo menos trêsgrandes contribuições: a) discutir as etapas, as formas, a radicalidade da luta piqueteira; b) apresentar a face violenta do estado neoliberal contra as manifestações populares, demonstrando que o dito estado mínimo neoliberal é máximo quando se trata de equipar seu aparato repressivo; c) demonstra o papel que o capital comunicacional desempenha em criminalizar a luta popular, além de justificar a repressão estatal.

Este número da Revista Enfrentamento, que colocamos à apreciação do público interessado, ao enfocar elementos do estado, fornece alguns aportes a todos aqueles que se empenham na luta contra o capital (classe capitalista) e contra o estado (burocracia) e a favor da auto-organização do proletariado em sua difícil tarefa de construir uma nova sociedade. Deixamos aqui, portanto, nosso singelo apoio à luta revolucionária.

Diante do capital e seu estado, somente o Enfrentamento é realista!!!

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domingo, 2 de abril de 2017

Universo Psíquico e Reprodução do Capital

Universo Psíquico e Reprodução do Capital


Nildo Viana

“O coração faz revoluções, a cabeça reformas; a cabeça põe as coisas em posição, o coração põe-nas em movimento. Mas só onde existe movimento, efervescência, paixão, sangue, sensibilidade, aí reside também o espírito.”

Ludwig Feuerbach

A sociedade capitalista se fundamenta na exploração e alienação de milhões de seres humanos. No entanto, tal sociedade vem se reproduzindo durante séculos. Sem dúvida, existem aqueles que resistem, lutam. As lutas operárias do século 19 e 20 demonstraram que existe um potencial revolucionário adormecido que em momentos de crise despertam. No entanto, a reprodução do capitalismo é o cotidiano, o permanente. Quais são os elementos que permitem a reprodução da dominação do capital? Existem vários elementos, mas aqui iremos destacar o universo psíquico, especialmente a mentalidade, como um dos mais importantes destes elementos. Obviamente que o conceito de mentalidade está relacionado com outros conceitos, tais como o de sociabilidade, pois aqui se trata de pensar a reprodução do capital a partir de uma análise marxista, assimilando a contribuição da psicanálise, o que nos leva a não isolar – o que seria um procedimento ideológico – os aspectos da realidade, que estão inseridos numa totalidade concreta. Assim, iremos analisar a relação entre universo psíquico e reprodução do capital a partir das contribuições de autores como Freud, Fromm, Marcuse, entre outros.
Freud e Marcuse fornecem elementos teóricos que nos ajudam a compreender o universo psíquico. O conceito freudiano de “aparelho mental” é fundamental:
“Ao longo dos vários estágios da teoria de Freud, o aparelho mental aparece-nos como uma união dinâmica de opostos: do inconsciente e das estruturas conscientes; dos processos primários e secundários; das forças herdadas, ‘constitucionalmente determinadas’, e das adquiridas; da realidade psicossomática e da externa. Essa construção dualista continua a prevalecer mesmo na posterior topologia tripartida do id, ego e superego; os elementos intermediários e ‘sobrepostos’ tendem para os dois pólos. encontram sua mais impressionante expressão nos dois princípios básicos que governam o aparelho mental: o princípio de prazer e o princípio de realidade” (Marcuse, 1988, p. 41-42).
Para Freud, a satisfação das necessidades humanas só pode ser realizada através do controle sobre a natureza. Este controle se realiza por intermédio do trabalho e isto faz com que toda civilização realize uma coerção ao trabalho e a repressão aos instintos. Segundo Freud, “expressando-o de modo sucinto, existem duas características humanas muito difundidas, responsáveis pelo fato de os regulamentos da civilização só poderem ser mantidos através de certo grau de coerção, a saber, que os homens não são espontaneamente amantes do trabalho e que os argumentos não têm valia alguma contra suas paixões” (Freud, 1978, p. 89).
Portanto, a dicotomia entre princípio de prazer e princípio de realidade surge devido às condições de produção e reprodução da vida material pressionar os indivíduos para que trabalhem e renunciem aos seus instintos. Posteriormente, Freud utiliza os conceitos de id, ego e superego para analisar o aparelho mental. No id residem os “instintos orgânicos” de um indivíduo, expressões do instinto de Eros e do instinto de destrutividade (Freud, 1978b, p. 239). No ego, realiza-se a percepção consciente e é dirigido por considerações de segurança. O ego realiza uma mediação entre o id e o mundo externo. Isto, entretanto, só ocorre até, aproximadamente, a idade de cinco anos, pois nesta época ocorre uma mudança:
“Uma parte do mundo externo foi, pelo menos parcialmente, abandonada como objeto e foi, por identificação, incluída no ego, tornando-se assim parte integrante do mundo interno. Esse novo agente psíquico continua a efetuar as funções que até então haviam sido desempenhadas pelas pessoas do mundo externo: ele observa o ego, dá-lhe ordens, julga-o e ameaça-o com punições, exatamente como os pais cujo lugar ocupou. Chamamos este agente de superego e nos damos conta dele, em suas funções judiciárias, como nossa consciência. É impressionante que o superego freqüentemente demonstre uma severidade para a qual nenhum modelo foi fornecido pelos pais reais, e, ademais, que chame o ego a prestar contas não apenas de suas ações, mas igualmente dos seus pensamentos e intenções não executadas, das quais o superego parece ter conhecimento” (Freud, 1978b, p. 245).
É esta introjeção da “razão” e da “racionalidade” submetida ao princípio de realidade que é denunciada por Marcuse:
“Sob o princípio de realidade, o ser humano desenvolve a função da razão: aprende a ‘examinar’ a realidade, a distinguir entre bom e mau, verdadeiro e falso, útil e prejudicial. O homem adquire as faculdades de atenção, memória e discernimento. Torna-se um sujeito consciente, pensante, equipado para uma racionalidade que lhe é imposta de fora. Apenas um modo de atividade mental é ‘separado’ da nova organização do aparelho mental e conserva-se livre do domínio do princípio de realidade: é a fantasia, que está ‘protegida das alterações culturais’ e mantém-se vinculada ao princípio de prazer. Em tudo o mais, o aparelho mental está efetivamente subordinado ao princípio de realidade” (Marcuse, 1988, p. 35)[1].
Portanto, a relação entre princípio de prazer e princípio de realidade é fundamental para se compreender o funcionamento do universo psíquico do indivíduo. Acontece que a teoria de Freud e o “complemento” de Marcuse apresentam alguns equívocos que devem ser colocados. Marcuse demonstrou que a concepção freudiana do princípio de realidade é conservadora. Freud, ao considerar eterna a luta pela existência, o que significa que o princípio de prazer e o princípio de realidade são inconciliáveis e que a repressão aos instintos é insuperável, acaba realizando uma racionalização da sociedade repressiva. Segundo Marcuse, o desenvolvimento tecnológico abre perspectivas para a superação da “luta pela existência” e para a plena satisfação das necessidades. Além disso, Marcuse busca “extrapolar” os conceitos freudianos e acrescenta os conceitos de “mais-repressão”, que são as restrições requeridas pela dominação social, e de “princípio de desempenho”, que é a forma histórica predominante do princípio de realidade na sociedade capitalista.
Marcuse avança em relação a Freud ao reconhecer o caráter histórico do princípio de realidade. No entanto, o seu conceito de “mais-repressão” é equivocado, pois a sua noção de uma “repressão básica” que seria necessária para se perpetuar a espécie humana é apenas citada, mas não é fundamentada. Que instintos essa repressão atinge? E, se estes instintos são reprimidos, eles não povoarão o inconsciente e assim se perpetuara’ o antagonismo entre princípio de prazer e princípio de realidade? Não existe algo como uma “repressão básica”, mas sim uma humanização de “instintos”, o que significa uma alteração apenas na forma de sua realização e não sua supressão ou repressão (ou mesmo “modificação”, como diz Marcuse). O conceito de “mais-repressão” só tem valor se for compreendido como uma “repressão excedente”, que é uma repressão intensiva, ou seja, superior à vivida pela maioria das pessoas numa determinada sociedade (Viana, 2002). 
A definição marcuseana do princípio de realidade na sociedade capitalista como “princípio de desempenho”, que é identificado com o “trabalho alienado”, é produto de uma confusão. O trabalho alienado não é um “princípio” e sim uma realidade, ou seja, é o próprio desempenho ou realidade e não um princípio introjetado pelo indivíduo em sua consciência.
A confusão de Marcuse tem como base sua aceitação acrítica da teoria freudiana. A civilização executaria o papel de coagir os seres humanos ao trabalho e realizar a repressão sexual. Em primeiro lugar, os seres humanos não são coagidos apenas ao trabalho; em segundo lugar, a repressão não é apenas da sexualidade; em terceiro lugar, nem todos os seres humanos são coagidos ao trabalho, pois em certas sociedades ou períodos históricos as mulheres e/ou os membros da classe dominante são poupados do trabalho social[2].
Por conseguinte, se negamos a definição marcuseana do princípio de realidade estabelecido pela sociedade capitalista (o princípio de desempenho), então devemos apresentar uma concepção alternativa do princípio repressivo de realidade da sociedade burguesa. Se o princípio de realidade é a introjeção no universo psíquico[3] do indivíduo de uma realidade, a nossa tarefa é descobrir que realidade é essa que é introjetada.
O modo de produção capitalista cria uma sociedade competitiva. Esta competição está presente entre os capitais individuais, que impulsiona a acumulação de capital, e entre os trabalhadores que lutam pelo emprego de sua força de trabalho. A competição se generaliza em toda a sociedade e ultrapassa os marcos da produção para chegar até as relações de distribuição e ao conjunto das relações sociais. Tal como colocou Fromm:
“o funcionamento econômico do mercado repousa sobre a competição de muitos indivíduos que querem vender suas mercadorias no mercado correspondente, assim como o seu trabalho ou os seus serviços no mercado de trabalho e de personalidade. Esta necessidade econômica de competição conduziu, especialmente na segunda metade do século 19, a uma atitude cada vez mais competitiva, caráctereologicamente falando. O indivíduo se sentia compelido pelo desejo de ultrapassar o seu competidor, com o que ficou totalmente invertida a atitude característica da época feudal, segundo a qual cada um tinha na ordem social o seu lugar tradicional com o qual devia contentar-se. Produziu-se, em oposição à estabilidade social do regime feudal, uma mobilidade social inaudita, na qual todos lutavam por conquistar os melhores lugares, embora fossem poucos os escolhidos para ocupá-los. nessa luta pelo sucesso ruíram as regras sociais e morais de solidariedade humana; a importância da vida consistia em ser o primeiro em uma corrida competitiva” (Fromm, 1976, p. 95).
A competição para ficar no cume da pirâmide social é revelada pela busca de status, luta por ascensão social, etc. Esta competição social está presente no conjunto das relações sociais capitalistas. Além disso, o modo de produção capitalista cria um processo de crescente mercantilização e burocratização das relações sociais. A mercantilização das relações sociais é produto da expansão da produção capitalista de mercadorias que se generaliza e invade todos os setores da vida social. Os meios de produção, os meios de consumo e a força de trabalho tornam-se, sob o capitalismo, mercadorias e com o desenvolvimento capitalista tudo passa a ser medido pelo seu valor de troca, inclusive as pessoas. Embora isto não ocorra diretamente, as pessoas passam a ser avaliadas não pelo que são e sim pelo que possuem. Simultaneamente, as pessoas interiorizam isto e passam a se avaliar pelo que possuem e não pelo que são (Fromm, 1987; Fromm, 1992b). Se as pessoas passam a ser avaliadas pelo que possuem, então o consumismo desenfreado será incentivado tanto pela competição social quanto pela compulsão automática pelo ter como satisfação substitutiva à repressão das potencialidades humanas realizadas pela sociedade capitalista.
A burocratização das relações sociais é provocada pelo desenvolvimento do modo de produção capitalista que aumenta a intervenção estatal, expande o setor de serviços, desenvolve a “sociedade civil organizada” e expande o domínio burocrático nas empresas privadas devido ao processo de oligopolização da economia. Portanto, a competição social, a mercantilização e a burocratização das relações sociais são os elementos constitutivos da sociabilidade capitalista. Por “sociabilidade” entendemos o conjunto das relações sociais que realizam, no nível do cotidiano, a reprodução das relações de produção dominantes. O modo de produção condiciona todas as outras esferas da vida social criando um verdadeiro “modo de vida” à sua imagem e é este último que denominamos como “sociabilidade"[4].
Este modo de vida, entretanto, não se implanta imediatamente com a ascensão do modo de produção capitalista. Aqueles que denunciaram a integração da classe operária no capitalismo devido ao aumento do seu nível de renda viram apenas um lado da questão. Na verdade, tal integração ocorreu graças à instauração de um modo de vida capitalista também no interior da classe operária.
O que explica isso é o desenvolvimento capitalista. Este é um desenvolvimento contraditório: ao mesmo tempo em que precisa “revolucionar” constantemente os meios de produção, ele necessita barrar este desenvolvimento. Isto é provocado pela composição orgânica do capital e, conseqüentemente, pela tendência à queda da taxa de lucro médio[5]. Mas o capitalismo, como demonstrou Marx, cria contra-tendências e busca evitar o seu colapso.
A partir das crises do capitalismo mundial que provocaram as duas guerras mundiais, a classe dominante buscou superar esta tendência através da intervenção estatal na produção/distribuição/circulação, da expansão transnacional e da expansão da produção de meios de consumo e do setor de serviços. É a partir da segunda guerra mundial que isto se generaliza na Europa Ocidental e interfere no modo de vida da classe operária. A burocratização das relações sociais já era uma realidade no início do século. O estado, as empresas privadas e as instituições civis já manifestavam o predomínio das relações burocráticas e foi isto que proporcionou o “desencantamento do mundo” e a teoria da burocracia de Max Weber. A classe operária também passava a conviver cada vez mais com o burocratismo nas relações sociais. Tanto nas empresas quanto em suas próprias organizações se instauravam relações sociais burocráticas[6]. Era absolutamente visível a burocratização de partidos e sindicatos. Robert Michels foi o primeiro grande crítico da burocratização das organizações operárias e avançou ao afirmar que os partidos políticos são “criadores de novas camadas pequeno-burguesas” (Michels, 1982). A burocracia partidária e os representantes partidários no parlamento e no governo se autonomizam e desligam-se da classe operária, tanto do ponto de vista material quanto do teórico, formando as bases sociais do reformismo (com todas as suas conseqüências: oportunismo, revisionismo de direita, eleitoralismo, etc.) dos partidos social-democratas, “socialistas” e “comunistas”.
A burocratização dos partidos políticos “ditos” operários é reforçada pela presença no seu interior da burocracia sindical. O marxismo, desde Engels, realizou uma critica radical aos sindicatos, mas alguns dos “auto-intitulados” marxistas não superaram certas ambigüidades[7]. O processo de burocratização dos sindicatos também vem se reforçando cada vez mais com o desenvolvimento capitalista.
Entretanto, a burocratização de partidos e sindicatos não foi suficiente para impedir o desencadeamento da luta operária. A Revolução Russa, a Revolução Húngara, a Revolução Italiana, a Revolução Alemã, entre outras, demonstraram que a luta de classes no inicio do século estava se radicalizando. A democracia representativa já era uma forma de dominação burguesa, mas ainda não tinha a “eficácia política” que possui hoje.
A classe dominante, a partir de então, busca fazer da democracia burguesa o principal ponto de apoio para sua dominação. O sistema parlamentar e o sistema eleitoral são organizados de tal forma que, através da democracia burguesa, não só fique impossibilitado o surgimento de “brechas revolucionárias” como passa a ser uma fonte de corrupção dos movimentos políticos de esquerda.
O grande feito do estado capitalista, a partir da segunda guerra mundial, é, além da intervenção no processo de produção/distribuição/circulação de mercadorias, a sua intervenção política nas instituições da sociedade civil. O estado cria novas instituições estatais e amplia as que já existiam (exército, polícia, escolas, hospitais, etc.) e busca controlar e regular o conjunto das instituições da sociedade civil através da legislação, das exigências para dotação de recursos e realização de convênios (o que também é realizado por instituições privadas fundadas por empresas monopolistas), etc. A chamada “sociedade civil organizada” tem como função realizar uma “mediação burocrática” entre sociedade e estado. Por isso, nada mais equivocado do que postular uma estratégia política socialista baseada na luta pela conquista dos “institutos democráticos” da sociedade civil, tal como preconizou Gramsci e seus adeptos. Se Gramsci escreveu suas teses numa época em que a “sociedade civil” ainda não era visivelmente uma “sociedade burocrática”, o mesmo não vale para os gramscianos que com base no pensamento de Gramsci justificam seu reformismo e capitulação diante das instituições burocráticas.
A mercantilização das relações sociais invade o modo de vida da classe trabalhadora a partir do fim da segunda guerra mundial. A produção capitalista se expande para além das fronteiras da Europa Ocidental (expansão transnacional), mas também invade lugares que antes eram ocupados pela produção pré-capitalista. Os investimentos na produção de meios de produção são, em parte, desviados para a produção de meios de consumo. A produção capitalista de meios de consumo surge visando atender principalmente o consumo da burguesia e só num segundo momento o das classes exploradas. A partir da segunda guerra mundial, produzem-se novos meios de consumo para a burguesia e também se começa a produzir meios de consumo para as massas trabalhadoras que antes tinham outra fonte. Segundo Granou:
“Praticamente, pode dizer-se que, até cerca da metade do séc. 20, os meios de subsistência das classes trabalhadoras provinham, para a quase totalidade, da agricultura e dos pequenos artífices, isto é, de setores de produção dominados pela pequena produção comercial” (Granou, 1975, p. 45).
O modo de vida capitalista cria relações mediadas pela mercadoria (e pela burocracia). A produção capitalista invade a agricultura, o setor de meios de consumo e busca incessantemente aumentar o consumo produzindo “necessidades fabricadas” (Gorz, 1968; Fromm, 1986). A produção de meios descartáveis e a obsolescência planejada de certos produtos são outros meios que o capital utiliza para combater a tendência à queda da taxa de lucro médio.
A expansão dos serviços sociais (tanto através das instituições estatais quanto particulares) reflete um duplo processo: de burocratização e de mercantilização das relações sociais. As instituições estatais, evidentemente, apresentam um menor grau de mercantilização e um maior grau de burocratização, enquanto que nas instituições privadas ocorre o fenômeno inverso. Os indivíduos, inclusive os da classe operária, para terem acesso ao serviço de saúde, de transporte, educação e aos lazeres, entre outros, devem passar pela mediação burocrática e mercantil instituída pela sociedade capitalista.
O papel do Estado passou por uma reformulação a partir dos anos 1980, com a emergência do regime de acumulação integral, caracterizado pelo neoliberalismo, toyotismo e neo-imperialismo (Viana, 2003; Viana, 2008). Porém, a diminuição da intervenção estatal não provocou uma diminuição da burocratização, mas tão-somente sua privatização, que se torna, em muitos casos, mais rígida e onde a vigilância e controle se tornam mais extensos. A mercantilização, por sua vez, se amplia cada vez mais e o novo regime de acumulação, resposta para a crise da acumulação que se inicia nos anos 1960, precisa ampliar as necessidades fabricadas e o mercado consumidor, radicalizando assim esta característica da sociabilidade capitalista.
Portanto, esta é a realidade que o universo psíquico de um indivíduo introjeta e reproduz nas suas elaborações mentais. É nesse plano histórico-concreto que podemos compreender a forma estabelecida pela sociedade capitalista do princípio repressivo de realidade. O princípio de realidade também pode ser chamado de mentalidade. O conceito de mentalidade facilita a percepção do caráter histórico do princípio de realidade. Podemos, assim, distinguir a mentalidade arcaica das sociedades simples da mentalidade feudal da idade média na Europa Ocidental. A forma dominante de mentalidade hoje é aquela que introjeta a sociabilidade capitalista e a reproduz nas elaborações mentais e pode ser chamada de mentalidade burguesa.
O conceito de mentalidade não só é mais apropriado do que o de “princípio de realidade”, mas também mais apropriado do que o conceito de “caráter social” de Erich Fromm. Embora o “princípio de realidade” não seja apresentado por Fromm como equivalente ao “caráter social”, isto é possível na medida em que tanto um como o outro desempenham o mesmo papel:
“Os membros da sociedade e/ou as várias classes ou grupos sociais dentro dela tem de se comportar de modo a funcionar no sentido exigido pelo sistema social. É função do caráter social modelar as energias dos membros da sociedade de modo que seu comportamento não seja questão de decisão consciente sobre a obediência ou não ao padrão social, e sim um desejo de agir tal como tem de agir, e ao mesmo tempo encontrem satisfação em agir de acordo com as exigências de sua determinada cultura (Fromm, 1979, p. 78)[8].
O processo de introjeção do princípio repressivo de realidade começa, como observou Freud, na infância[9]. Segundo E. Fromm:
“A estrutura da sociedade e a função do indivíduo nessa estrutura determinam o conteúdo do caráter social. A família, por outro lado, pode ser considerada como o agente psíquico da sociedade, a instituição que tem a função de transmitir as exigências da sociedade à criança em desenvolvimento. A família executa esta função de duas maneiras: 1) pela influência do caráter dos pais sobre a formação da criança; como o caráter da maioria dos pais é expressão do caráter social, transmitem dessa forma as características essenciais do caráter socialmente desejável à criança; 2) além do caráter dos pais, o método de preparo infantil habitual numa cultura também tem a função de modelar o caráter da criança numa direção socialmente desejável” (Fromm, 1979, p. 81).
O conteúdo da mentalidade é formado pelos valores, razão e sentimentos conscientes do indivíduo. Assim, a mentalidade refere-se aos processos conscientes e não inconscientes. Neste universo psíquico, a consciência (ou razão) e o inconsciente possuem um papel importante, mas os sentimentos e os valores são elementos fundamentais e determinantes da ação humana, sejam conscientes ou não-conscientes. A sociabilidade capitalista incentiva determinados sentimentos (ciúme, inveja, etc.) que expressam o tipo de ser humano que é constituído pela sociedade moderna. Ela também constitui determinados valores (ascensão social, riqueza, poder, etc.) que se tornam elementos determinantes nas ações humanas (Viana, 2007) e reforçam esta mesma sociabilidade.
Vimos até aqui como que o princípio repressivo de realidade age no universo psíquico do indivíduo. A mentalidade dominante possui a aparência de ser irremovível e intransponível por que não só introjeta a sociabilidade como é confirmada e exigida constantemente por essa mesma sociabilidade. A competição social, por exemplo, não só está presente na realidade cotidiana e na mentalidade dos indivíduos, como exige dele um comportamento competitivo, sob pena de ser considerado “preguiçoso”, “anormal”, “fracassado”, etc. Assim, A mentalidade burguesa afirma que o ser humano é tal como é – diga-se de passagem, tal como é na sociedade burguesa – e isto é confirmado por suas idéias (mentalidade, cultura, ideologia) e por sua prática (sociabilidade). Isto é exigido por esta mesma sociabilidade e mentalidade. Com isto se retira toda a historicidade da formação da mente humana. Por isso, a transformação da mentalidade em alguns indivíduos é praticamente impossível sem antes ocorrer (ou começar a ocorrer) uma transformação na sociabilidade. Somente em períodos de transformação radical das relações sociais estes indivíduos cedem ao “princípio de prazer”. Outros podem até mesmo aceitar superficialmente as teorias revolucionárias e no cotidiano reproduzir a mentalidade e a sociabilidade dominantes.
Se até aqui nos limitamos a ver a ação do princípio de realidade sobre o universo psíquico do indivíduo, é necessário observarmos a ação do “princípio de prazer”, pois é aí que reside a resistência, ou seja, um dos elementos de ruptura com a reprodução do capitalismo. Podemos, retomando Freud, dizer que o “id” obedece aos instintos sexuais e destrutivos, expressos pelo princípio de prazer. Entretanto, é necessário romper, assim como fez Reich, com a idéia de existência de um “instinto de morte” ou de “destrutividade”. Tal concepção é nitidamente conservadora, pois, neste caso, os “instintos” ganham uma justificativa para serem reprimidos. Segundo um “freudo-marxista”, a tese do instinto de morte de Freud “parece sustentar que a tendência a destruir é um componente natural da psicologia do homem, e se não for encaminhada para o exterior, levará à autodestruição. Se isso for certo, sem dúvida estará coerente com grande parte da história do homem, repleta de perseguições religiosas e políticas, de torturas e crueldades, e a presente ameaça de uma destruição nuclear. Mas seria erro pensar que a teoria freudiana leva inevitavelmente a uma visão pessimista da capacidade que tem o homem de dominar esses impulsos agressivos. O eu racional do homem, o produto da interação entre os impulsos do id de satisfação incondicional e as exigências do mundo exterior, oferece a esperança de que ele será’ capaz de dominar essas forças interiores destrutivas e dirigi-las para finalidades socialmente valiosas. O próprio Freud teve de criticar os psicanalistas que adotaram uma opinião demasiada desesperada das possibilidades de controle racional e assinalou que, por mais fraco que fosse o ego em relação às forças demoníacas dentro de nós, o crescimento do conhecimento e compreensão da psicologia humana proporcionou o melhor meio de libertar o ego de sua servidão aos propósitos do id. ‘Onde houve id, haverá’ ego’, escreveu ele” (Osborn, 1966, p. 47-48).
Esse postulado da existência de um “instinto de morte” leva, necessariamente, à defesa da necessidade de repressão. Freud, definitivamente, não era um revolucionário, mas o freudo-marxismo de Osborn e Marcuse apresenta-se como tal. Osborn defende claramente a necessidade de um princípio de realidade repressivo em relação ao instinto de destrutividade. O ego deve dominar o id. Neste caso, princípio de prazer e princípio de realidade são inconciliáveis. Osborn acaba justificando certa forma de repressão na nossa sociedade. Claro que tal repressão se refere ao instinto de morte. No entanto, se não existir nenhum “instinto de morte”, algo vai ser reprimido como se fosse este, e tal discurso poderá servir de pretexto para a repressão de outras manifestações humanas. Assim, uma greve operária, um assassinato, a guerra entre nações, o massacre de índios, o extermínio de menores abandonados e a violência contra a mulher podem ser “interpretados” como manifestação do “instinto de morte” e não como produto de certas relações sociais.
Marcuse é mais refinado teoricamente e afirma que o “instinto de morte” numa sociedade repressiva é muito mais destrutivo do que seria em outras condições históricas e sociais e que numa civilização não-repressiva seria transformado em algo inofensivo. Tal posição é parecida com a de Erich Fromm[10]. Para Fromm, necrofilia (amor à morte) é uma potencialidade humana secundária enquanto que a biofilia (amor à vida) é uma potencialidade humana primária. A primeira só desenvolve quando a segunda não o faz e isto só ocorre em determinadas condições sociais e históricas.
Acontece que tanto uma quanto outra análise justifica um certo quantum de repressão na nossa sociedade. Além disso, se formos analisar casos histórico-concretos, é impossível defender a existência de um “instinto de morte”. Segundo Freud, a repressão aos instintos trazem sérios problemas mentais (psicoses, neuroses, etc.) e quanto maior for a intensidade da repressão maior serão os efeitos psíquicos negativos. Se pegarmos como exemplos histórico-concretos os padres e as freiras, veremos que o “instinto de morte” não existe ou então não se manifesta. Neste último caso, onde se manifestam os efeitos psíquicos negativos? Aliás, tendo-se em vista que esta é uma hiper-repressão (pois há, neste caso, a simultânea repressão dos instintos sexuais), deveríamos chegar à conclusão que todos os padres e freiras são todos neuróticos...
Esta crítica é válida para Marcuse, mas não para Fromm, que não se limita a tese freudiana dos instintos. Fromm parte do conceito de “natureza humana” e daí postula a existência de diversas potencialidades humanas que vão além os “instintos sexuais” e do “instinto de morte”. Com isso, o exemplo citado perde validade, pois a repressão de certas potencialidades é parcialmente (afinal, mesmo neste caso, deveria ocorrer efeitos psíquicos negativos, mesmo que em menor grau) compensada pelo desenvolvimento de outras. Entretanto, se o amor à morte (necrofilia) é uma potencialidade humana, então não faz sentido qualificar as pessoas “necrófilas” de “doentias”. O que é natural, por definição, não é doentio e vice-versa. Só que Erich Fromm define Hitler como um “doente mental” em diversas oportunidades, por ser ele um sádico, um necrófilo (Fromm, 1981; Fromm, 1965; Fromm, 1986; Fromm, s/d). Portanto, existe uma incoerência teórica em Fromm e isto foi provocado por sua insistência em postular, indiretamente, a existência de um “instinto de morte”. Neste aspecto, Reich foi o freudo-marxista mais conseqüente[11].
Ao que se refere, pois, o princípio de prazer? Certamente não se refere aos “instintos orgânicos” teorizados por Freud. As noções de “instintos”, “pulsões”, “impulsos” devem ser substituídas pelo conceito de necessidades. Estas expressam potencialidades que precisam se realizar e se referem não só às necessidades orgânicas como também às necessidades especificamente humanas, como, por exemplo, a criatividade (Fromm, 1983; Lobrot, 1977; Viana, 2002). Estas necessidades são acompanhadas por outras que podem ser consideradas inautênticas (Viana, 2007). Por isso, estão presentes tanto no inconsciente quanto na consciência. As necessidades reprimidas povoam o inconsciente e as demais necessidades (autênticas e inautênticas) estão vivas e atuantes na consciência.
Portanto, o princípio de prazer não só comanda o inconsciente como influencia a consciência. O universo psíquico do indivíduo é, portanto, o palco do conflito entre princípio de prazer e princípio repressivo de realidade, devido ao fato de viver numa sociedade repressiva. É necessário acrescentar que as necessidades frustradas conscientes criam uma contradição no universo psíquico do indivíduo e ameaça o predomínio absoluto da mentalidade. Uma parte do princípio de prazer é consciente e cria um “conflito consciente ao nível da consciência”; outra parte é inconsciente e, conseqüentemente, seus efeitos são não-conscientes. Se ao nível da consciência também se manifesta o princípio de prazer, então não é só nas manifestações do inconsciente (na fantasia e na utopia, segundo Marcuse) que se realiza a crítica do mundo existente.
Devemos, então, tratar inicialmente do inconsciente e das suas tentativas de ascender até a consciência. Antes de tudo, deve-se colocar que existe um inconsciente individual e um inconsciente coletivo. Por inconsciente coletivo não entendemos nem a concepção metafísica de Jung nem a concepção conservadora da “história das mentalidades”[12]. Jung e P. Áries significam um retrocesso teórico em relação à Freud. Em ambos a base orgânica da teoria freudiana é abolida e substituída por uma teoria da “repetição gratuita”. Com isto abole-se o aspecto revolucionário da teoria freudiana. No caso de Áries, o inconsciente coletivo torna-se equivalente ao conceito de  mentalidade e esta  se caracteriza pela repetição automática e mecânica, ou seja, é algo tão manifesto que pode ser considerado uma “visão de mundo”; no caso de Jung, o inconsciente coletivo é reduzido a arquétipos autônomos e imutáveis   que se manifestam em todas as épocas e lugares.
O inconsciente individual se refere às potencialidades humanas reprimidas em um indivíduo e o inconsciente coletivo se refere às potencialidades humanas reprimidas em um conjunto de indivíduos (classe, sexo, etc.) ou a todos os indivíduos de  uma sociedade, já que  numa  sociedade repressiva nem mesmo os membros da classe dominante podem desenvolver todas as suas potencialidades[13]. O inconsciente coletivo, assim como o individual, se manifesta em sonhos, fantasias, etc. Estas formas de manifestações do inconsciente são formas de tentar ascender ao nível da consciência[14].
A outra parte do princípio de prazer chega até a consciência. Um conjunto de necessidades humanas (fome, sede, etc.) é imediatamente reconhecido através da consciência. Tanto a satisfação das necessidades como a consciência delas são diferentes em grupos sociais diferentes. A mais importante forma de consciência coletiva é, sem dúvida, a consciência de classe. A história da humanidade tem sido comandada pela dinâmica  da luta de classes. Toda classe dominante busca conservar as relações de  produção dominantes e assim manter o seu poder. As classes exploradas, por sua vez, buscam transformar as relações de produção e instaurar um novo modo de produção. A classe revolucionária realiza uma crítica da sociedade existente e, ao mesmo tempo, apresenta um projeto político  de  uma sociedade alternativa. Este projeto quando possui possibilidade de se transformar em realidade é uma utopia concreta. A consciência de classe de uma classe revolucionária quando se desenvolve a partir das lutas sociais é uma utopia concreta, no sentido blochiano do termo.
A classe revolucionária de nossa época é o proletariado. Entretanto, a sua consciência de classe se apresenta, num primeiro momento, como contraditória, ou seja, possui elementos de aceitação e ao mesmo tempo de negação da sociedade existente, e, num segundo momento, supera sua contradição através da luta de classes e se torna consciência revolucionária.
Mas existe um outro obstáculo, derivado da mentalidade burguesa, ao desenvolvimento da consciência de classe do proletariado, que é o chamado “realismo” (e seu derivado, o realismo político, que se opõe a todo “utopismo”). O que é o realismo? Segundo Fromm, “o ‘realista só vê os aspectos superficiais das coisas; vê o mundo manifesto, pode reproduzi-lo fotograficamente em sua mente e pode agir manipulando as pessoas e  as  coisas tal  como  aparecem  neste retrato” (Fromm, 1961, p. 86).  O realismo, assim, é a incapacidade mental de ultrapassar a aparência e atingir a essência, pois esta nos remete aos conflitos sociais e psíquicos do mundo contemporâneo e da necessidade de transformação social. Este é uma expressão racionalizada da mentalidade burguesa e nada mais que isto, sendo, pois, mais um elemento consciente que contribui para a reprodução do capital.




Referências Bibliográficas

Áries, P. História das Mentalidades. In: Le Goff, J. (org.) A História Nova. São Paulo, Martins Fontes, 1990.
Freud, S. Esboço de Psicanálise. In: Col. Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1978b.
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Marcuse, Herbert. Eros e Civilização – Uma Interpretação Filosófica do Pensamento de Freud. 8a edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1988.
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Viana, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo, Idéias e Letras, 2008.
Viana, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília, Thesaurus, 2007.




[1] Devemos acrescentar aqui que esta introjeção é a da racionalidade instrumental e dos valores burgueses que lhe acompanha.
[2] Outras teses de Marcuse são criticáveis, tais como: sua aceitação da ficção freudiana da horda primitiva, mesmo reservando-lhe mero “valor simbólico”, pois o amplo material historiográfico e etnográfico acumulado desde a época de Freud até os dias de hoje deveriam ter sido utilizados para confirmar, refutar ou aprofundar as teorias freudianas; a sua aceitação do “complexo de Édipo”, outra ficção freudiana, mesmo retirando-lhe a importância; a sua defesa das “perversões sexuais” (veja-se, sobre isto, uma crítica em Fromm, 1992b); a sua postulação, juntamente com Freud da existência de um instinto de morte” (veja-se uma crítica em: MacIntire, 1978); a sua abstração metafísica dos conceitos de “sociedade” e “indivíduo”, que deixa de lado as divisões sociais (classe, sexo, raça, etc.), e individuais; e, por fim, sua crítica equivocada ao “neo-freudismo” de E. Fromm, K. Horney e outros (veja uma crítica no meu ensaio Marcuse e a Crítica ao Neofreudismo).
[3] Não utilizamos o conceito freudiano de “aparelho psíquico” porque ele é produto de uma analogia que impõe limites à realidade que busca expressar.
[4] Vê-se, portanto, que o conceito de sociabilidade aqui exposto é totalmente antagônico ao do sociólogo “formalista” Georg Simmel. Este elabora o conceito de sociabilidade tendo como “modelo” as reuniões da classe burguesa e por isso pode postular sua “autonomia”, seu caráter “lúdico” e sua “artificialidade” (apud. Moraes Filho, 1983).
[5] A composição orgânica do capital se caracteriza pelo dispêndio cada vez maior que o capitalista é constrangido a realizar com os meios de produção, devido ao valor incorporado neles pela força de trabalho, enquanto que o aumento de mais-valor relativo proporcionado pela força de trabalho se torna proporcionalmente menor em relação a este dispêndio, o que leva à queda da taxa de lucro médio. Este processo vai ser um dos elementos que irá influenciar as lutas de classes e as sucessivas mudanças nos regimes de acumulação (Viana, 2003; Viana, 2008).
[6] “É interessante observar que o espírito burocrático penetrou não só a administração dos negócios e do governo, mas também os sindicatos e os grandes partidos socialistas democráticos da Inglaterra, Alemanha e França (Fromm, 1976, p. 130)
[7] Veja-se, por exemplo, o caso de Trótski: para ele, a burocracia sindical é reacionária e contra-revolucionária, e os sindicatos, “neutros”, social-democratas, “comunistas”, e “anarquistas”, se degeneraram devido ao seu vínculo com o poder estatal. Mesmo assim, segundo ele, deve-se continuar atuando neles, só que “discretamente” para evitar a perseguição da burocracia sindical (cf.: Trotski, 1978).
[8] Fromm faz algumas considerações sobre o caráter social que são válidas e, portanto aplicáveis ao conceito de mentalidade: existem diferenças de mentalidade de acordo com a classe social, a formação cultural, as características de cada indivíduo, etc. (cf. a tipologia de caráter social em Fromm, 1961).
[9]“A primeira razão porque os homens servem de bom grado é que nascem servos e são criados como tais” (La Boetie, 1987, p. 25).
[10] “Proponho um desenvolvimento da teoria de Freud na seguinte direção: a contradição entre Eros e a destruição, entre a afinidade com a vida e a afinidade com a morte é, de fato, a contradição mais fundamental no homem”; “o instinto de vida (...) constitui a potencialidade primária do homem; o de morte uma potencialidade secundária” (Fromm, 1965, p. 54-55).
[11] Para uma crítica mais aprofundada da tese do “instinto de morte” e uma contextualização histórica de seu surgimento, cf. Viana (2002).
[12]“Nossa psicologia sabe que o inconsciente pessoal nada mais é do que uma camada superposta que se assenta em uma base de natureza inteiramente diversa. Esta base é o que chamamos inconsciente coletivo. A razão desta denominação está na circunstancia de que, ao contrário do inconsciente pessoal e de seus conteúdos meramente pessoais, as imagens do inconsciente mais profundo são de natureza nitidamente mitológica. Isto significa que estas imagens coincidem, quanto à forma e ao conteúdo, com as representações primitivas universais que se encontram na raiz dos mitos. Elas não são mais de natureza pessoal, mas são puramente suprapessoais e, conseqüentemente, comuns a todos os homens. Por isso é possível constatar sua presença nos mitos e nas fábulas de qualquer povo e de qualquer época, bem como em indivíduos que não têm o menor conhecimento consciente de mitologia” (Jung, 1986, p. 97); “Mas o que é o inconsciente coletivo? Sem dúvida, seria melhor dizer não-consciente coletivo: comum a toda uma sociedade em determinado momento. Não-consciente: mal percebido, ou totalmente percebido pelos contemporâneos, porque, é óbvio, faz parte dos dados imutáveis da natureza, idéias recebidas ou idéias no ar, lugares comuns, códigos de conveniência e de moral, conformismos ou proibições, expressões admitidas, impostas ou excluídas dos sentimentos e dos fantasmas” (Áries, 1990, p. 174).
[13] Tal concepção é semelhante à de Fromm (1992) sobre o “inconsciente social”, porém também possui algumas diferenças, principalmente sobre o caráter do que é reprimido.  Para uma análise crítica de Fromm e de Jung a respeito do inconsciente coletivo: Viana (2002).
[14] Para uma análise mais aprofundada da concepção junguiana, abordando seus aspectos aceitáveis e inaceitáveis, bem como para uma análise mais detalhada do inconsciente coletivo, cf. Viana, (2002).

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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta, 2008.

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