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quinta-feira, 9 de julho de 2026

REGIME DE ACUMULAÇÃO INTEGRAL E CONTRADIÇÕES DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO

 


REGIME DE ACUMULAÇÃO INTEGRAL E CONTRADIÇÕES DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO

Resumo geral da Mesa Redonda

O capitalismo é um modo de produção que difere de outros pela velocidade de suas mutações, entre outros aspectos. Muitas teses buscam explicar o desenvolvimento capitalista e compreender o seu estágio contemporâneo. Assim, para entender as novas dinâmicas da acumulação capitalista, julgamos que a teoria dos regimes de acumulação oferece uma base teórica fundamental. Vários autores (Escola da Regulação, David Harvey, Rabah Benakouche, Nildo Viana, Lisandro Braga, entre outros) apresentaram distintas concepções sobre o conceito de regime de acumulação. O painel que propomos visa, a partir de uma determinada teoria dos regimes de acumulação (Almeida, 2020; Viana, 2009; Viana, 2019; Viana, 2003; Braga, 2009; Braga, 2013; Orio, 2020) analisar o regime de acumulação integral e sua dinâmica. O regime de acumulação integral emerge após a crise dos anos 1960 e 1970 em alguns países, como Inglaterra e Estados Unidos, através da mutação da forma estatal, reestruturação produtiva e mudanças nas relações internacionais. Porém, assim como o modo de produção capitalista não é estático, os regimes de acumulação também não são estagnados. Assim, entender a dinâmica do regime de acumulação integral e suas manifestações mais contemporâneas são fundamentais para entender o capitalismo contemporâneo. O mundo capitalista se encontra hoje num novo momento de desestabilização e com contradições cada vez mais graves (poderíamos citar, a título de exemplo, o desenvolvimento tecnológico e seu impacto na sociedade – indo desde os produtos mercantis tecnológicos, como smartphones, até a chamada “Inteligência artificial”), as guerras atuais e anunciadas, a nova competição interimperialista, etc. Isso traz diversas interfaces que o painel buscará abordar. Um dos elementos é o processo de ofensiva comercial norte-americana como parte da competição interimperialista. Da mesma forma, a hipermercantilização das relações sociais é outro elemento que está vinculado ao processo de evolução e dinâmica do regime de acumulação integral. As formas sociais (“superestrutura”), por sua vez, são fundamentais para explicar essa dinâmica, tal como o caso do neoliberalismo e da religião. Esses elementos mais específicos contribuem com a compreensão do processo mais geral que é a desestabilização do regime de acumulação integral e as tendências que emergem no horizonte (guerra, fascismo, revolução proletária).

REGIME DE ACUMULAÇÃO INTEGRAL E CONTRADIÇÕES DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO

terça-feira/21/07/2026 | Manhã — 09h - 12h | Sala: IE 133

 

09:00 – Regime de Acumulação Integral e Hipermercantilização

Nildo Viana

09:30 – Ofensiva comercial e poder de império dos EUA

Diego Marques

10:00 – A concepção marxista do neoliberalismo: o caso brasileiro

Rubens Vinicius da Silva

10:30 – As mutações da religião durante o regime de acumulação integral

Leonardo Proto

11:00 - DEBATE

O HM Rio 2026 acontecerá no Campus Praia Vermelha da UFRJ, com atividades distribuídas entre o Instituto de Economia (Palácio Universitário), a Escola de Serviço Social (ESS) e o Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH).

https://www.historicalmaterialism.org/event/historical-materialism-rio-2026/

sábado, 11 de maio de 2019

Acumulação Capitalista e Golpe de 1964




Acumulação Capitalista e Golpe de 1964


Nildo Viana*


A história do golpe de 1964 possui vários aspectos que são abordados sob os mais variados pontos de vista. A questão da relação entre acumulação capitalista e golpe de 64 já recebeu alguns estudos, mas sob perspectivas que deixam de lado o essencial, isto é, o processo de luta de classes a nível nacional e internacional. É desta perspectiva que iremos analisar o fenômeno do golpe de 64 no presente artigo.
Para isto iremos discutir o desenvolvimento capitalista e os regimes de acumulação que estão na sua base e as lutas de classes que se desenvolvem a nível nacional e internacional. Após isto poderemos apresentar nossa hipótese de que foram as lutas dos trabalhadores no contexto de crise internacional de um regime de acumulação e busca de aumento da taxa de exploração que promoveu o golpe de estado de 1964.
Regimes de Acumulação e Luta de Classes
Para compreender a relação entre acumulação capitalista e golpe de 64 é necessário compreender a dinâmica do capitalismo mundial do pós-Segunda Guerra Mundial e a inserção do Brasil neste contexto. A periodização do capitalismo proposta por Benakouche (1980) fundada nos regimes de acumulação é uma contribuição fundamental neste caso. Este autor considera que as fases do capitalismo são marcadas por diferentes regimes de acumulação:
A mudança de formas é uma das características do modo de produção capitalista. De fato, os modos e as formas da acumulação do capital e, portanto, os modos de extração da mais-valia e a as formas que assumem as relações sociais (inclusive as relações salariais) mudam em função de evolução do capitalismo. E, se os modos e formas de acumulação de capital mudam com o tempo, seus elementos de articulação, tais como os modos de extração da mais-valia, as formas das relações sociais, as formas da estrutura de produção ou a hierarquização do sistema produtivo nacional, os modos e as formas de organização do processo de trabalho, o nível e o tipo de desenvolvimento das forças produtivas, as formas do Estado, a estrutura social ou os modos e as formas da luta de classes, os tipos e as formas de dominação nas relações econômicas internacionais... evoluem ou mudam em função do grau atingido pelo desenvolvimento do capitalismo (Benakouche, 1980, p. 24).
A periodização do autor se funda nos regimes de acumulação, que são produtos da internacionalização dos ciclos do capital. Concordamos com a ideia de que o capitalismo atravessa várias fases que caracterizam diferentes regimes de acumulação. No entanto, não consideramos este processo como sendo caracterizado por uma evolução linear e sim sob uma dupla articulação entre o que podemos denominar desenvolvimento espontâneo do capitalismo, por um lado, e luta operária, por outro. No primeiro caso temos o movimento do capital, isto é, a ação do capital, expressando o predomínio do trabalho morto sobre o trabalho vivo; no segundo caso, temos o movimento operário, isto é, a ação do trabalho vivo contra o trabalho morto. A concepção fetichista da ciência econômica enxerga apenas o primeiro momento, isto é, o trabalho morto, o desenvolvimento espontâneo do capital, deixado ao seu bel-prazer. Na verdade, isto pode ser expresso como uma luta de classes, embora nesta luta haja o predomínio do capital, o que reforça a concepção fetichista que não ultrapassa a aparência do fenômeno.
Assim, o desenvolvimento capitalista é marcado pela ação do capital e pela luta operária com a primazia da primeira na maior parte do tempo, mas sempre tendo a resistência proletária e as irrupções revolucionárias que abalam tal desenvolvimento. Assim, existe uma tendência do desenvolvimento capitalista, que é espontânea, desde que se pense na ação do capital sem a irrupção do movimento operário indo além das lutas cotidianas. Estas teses são importantes para compreendermos que as mudanças de regimes de acumulação não são apenas produtos da concentração e centralização do capital, mas também da luta operária. A passagem de um regime de acumulação para outro é produto das lutas de classes, o que faz com que não seja um produto de mera ação do capital e tem como consequência a percepção das mutações do capitalismo enquanto estratégias do capital para manter sua reprodução e da ação proletária no sentido de impedir a sua voracidade exploradora, num primeiro momento, e buscar sua abolição, num segundo momento.
A partir destas considerações gerais podemos partir para uma análise do desenvolvimento capitalista. A conceituação dos regimes de acumulação se torna necessária. Para nós, um regime de acumulação se caracteriza por uma determinada forma de organização do processo de trabalho – uma determinada estratégia do capital para extrair mais-valor; uma determinada configuração estatal – que define a ação do Estado e sua forma de organização; e uma determinada articulação das relações internacionais, isto é, determinado modo de exploração capitalista internacional.
Partindo desta definição inicial, podemos seguir a periodização de Samir Amin (1977) e Rabah Benakouche para expor as fases do capitalismo. A fase de surgimento é marcada pela acumulação primitiva de capital que vai fornecendo as bases da acumulação capitalista propriamente dita. Com o processo histórico surge a fase de consolidação e expansão, que vai da revolução industrial até a metade do século 19, formando o regime de acumulação extensivo, fundado na extração de mais-valor absoluto como elemento central da acumulação capitalista. Este regime de acumulação é marcado por uma alta taxa de exploração e entra em declínio com as lutas operárias que provocam a diminuição da jornada de trabalho, o uso indiscriminado de trabalho infantil e feminino e culmina com a Comuna de Paris.
A reação do capital assume a forma de reorganização do processo de trabalho, com a implantação do taylorismo e a busca em aumentar a extração de mais-valor relativo. Este período logo é abalado com as tentativas de revolução no início do século 20 (Rússia em 1905 e 1917; Alemanha no final da década de 10 e início da década de 20; na Hungria em 1919; na Itália em 1914; etc.) e culmina com as Guerras Mundiais.
A fase seguinte é constituída após a Segunda Guerra Mundial, com a hegemonia norte-americana e com o fordismo assumindo o papel de utilizar a tecnologia para aumentar a extração de mais-valor relativo combinado com o aumento da exploração internacional, através da expansão transnacional. Este novo regime de acumulação, conjugado (predominantemente intensivo nos países imperialistas e extensivo nos países de capitalismo subordinado) começa a entrar em crise nos anos 60 e vai buscando se reproduzir mas acaba cedendo espaço para o atual regime de acumulação, o integral. O regime de acumulação integral se funda na reestruturação produtiva, no neoliberalismo e no neoimperialismo, no qual se busca aumentar a exploração tanto a nível nacional e internacional, tanto no que se refere ao mais-valor absoluto quanto ao mais-valor relativo.
Estes regimes de acumulação significaram não apenas determinada organização do processo de trabalho, mas também determinadas formas estatais e de relações internacionais. Por exemplo, o Estado liberal era a forma estatal do regime de acumulação extensivo; o regime de acumulação intensivo, por sua vez, possuía como forma estatal o Estado liberal-democrático, enquanto que o regime de acumulação conjugado o Estado integracionista (do “bem-estar social”, “intervencionista”) e o integral, o neoliberal. Também ocorrem mudanças culturais, sociais, entre outras, que acompanham as mutações dos regimes de acumulação. Mas devido aos objetivos do presente trabalho iremos deixar de lado os detalhes componentes de cada regime de acumulação e focalizar apenas naquele que tem importância crucial para nossa análise do golpe de 64, o regime de acumulação conjugado.
A Crise do Regime de Acumulação Conjugado
O regime de acumulação conjugado marca uma nova etapa da exploração internacional. O resultado das lutas operárias nos países imperialistas do início do século 20 marcou um recuo da classe capitalista no processo de exploração interna, compensada pelo aumento da exploração externa. O fordismo marca uma tentativa de aumento de extração de mais-valor relativo através do uso da tecnologia visando aumentar a produtividade. No entanto, o uso da tecnologia avançada também significa custos mais altos e assim os ganhos não foram tão elevados. Além disso, devido ao aumento da composição orgânica do capital (cada vez se utiliza mais tecnologia, forças produtivas, e cada vez menos força de trabalho, que é geradora de mais-valor) e a consequente tendência declinante da taxa de lucro, se cria a estratégia de desviar a acumulação de capital para a produção de bens de consumo em detrimento de meios de produção.
Sem dúvida, a expansão tecnológica foi extremamente elevada, mas isto foi proporcionado pela expansão da produção de bens de consumo – que aumenta o mercado consumidor de bens de produção – e caso o investimento não tivesse sido prioritariamente desviado para a produção de bens de consumo, a composição orgânica do capital seria mais elevada e a taxa de lucro teria caído muito mais rapidamente. A expansão da produção de bens de consumo também traz a necessidade de ampliação do mercado consumidor, o que provoca a integração de camadas cada vez mais amplas do proletariado no círculo do consumo. Isto gera o que alguns denominaram “sociedade de consumo”. O Estado integracionista visa não só amortecer os conflitos de classes com a sua política de bem estar social e cooptação da burocracia sindical como também desviar os investimentos para setores de consumo e serviços. Isto tudo não seria suficiente para a reprodução do capitalismo nos países imperialistas e por isso assume papel fundamental a exploração internacional. O processo de descolonização era acompanhado pela expansão transnacional como ponto forte da exploração internacional.
Neste contexto histórico, temos no capitalismo subordinado uma forma de acumulação capitalista diferenciada. Este é o caso do Brasil, que possuía uma acumulação capitalista subordinada. Nos países imperialistas, além da exploração internacional, temos o predomínio do capital nacional. No capitalismo subordinado, temos a chamada “tríplice aliança”, isto é, o capital estatal, o capital nacional e o capital transnacional (Gorender, 1988). A diferença entre a acumulação capitalista dos países imperialistas e a dos países subordinados se encontra na transferência de mais-valor que aumenta o processo de acumulação em uns e diminui em outros. Tanto o Estado quanto o capital nacional são aliados subordinados do capitalismo imperialista e, por conseguinte, do capital transnacional. Assim, a acumulação capitalista subordinada é mais lenta do que a acumulação dos países imperialistas, pois no primeiro caso temos uma parte da acumulação transferida para o exterior e no segundo uma incrementação devido à transferência de mais-valor para o interior.
Esta situação faz do regime de acumulação no capitalismo subordinado um elemento propulsor da acumulação imperialista e ao mesmo tempo faz com que o processo global de acumulação capitalista nos países subordinados seja deficitário e mais lento do que nos países imperialistas. Após a Segunda Guerra Mundial, a implantação do regime de acumulação conjugado nos países imperialistas se fez com alterações também nos países subordinados. No Brasil, mais especificamente, ocorreu um processo de reconversão capitalista, denominado por alguns autores como “modelo de substituição de importações”, marcada por uma expansão industrial e também pela forma subordinada de integracionismo, o populismo. O populismo brasileiro desde Vargas marca uma certa concessão ao movimento operário com a CLT e outros elementos, além dos ideológicos e culturais.
O desenvolvimentismo foi o complemento do populismo e o Governo Juscelino Kubitschek cumpriu um papel simultaneamente de incentivo ao capital transnacional e de expansão industrial. Este processo marcava a inserção do Brasil na divisão internacional do trabalho sob a forma do desenvolvimento subordinado, mantendo seu papel na engrenagem do capitalismo mundial. O que foi denominado “modelo de substituição de importações” não é nada mais do que expressão da constante reconversão capitalista que reproduz a subordinação mundial dos países de capitalismo retardatário caracterizada por sua modernização e reprodução da exploração internacional.
          “As medidas adotadas em 1955 pelo governo de Juscelino Kubitschek redundaram de fato na anulação das limitações que se impunham à penetração do capital estrangeiro no Brasil. Com base nos decretos governamentais e na Instrução no 113, a Superintendência da Moeda e do Crédito – SUMOC – concedeu às companhias estrangeiras o direito de levarem ao Brasil equipamento obsoleto. O governo brasileiro assumia o compromisso de considerar novo esse equipamento, tomá-lo na qualidade de investimento direto em divisas, como valor declarado pela empresa investidora estrangeira, que dava direito a quaisquer vantagens: à isenção do imposto alfandegário para a entrada no país, dos impostos federais e locais durante vários anos, a uma taxa especial e vantajosa para a troca do cruzeiro por dólar para efeitos de remessa de lucro para o exterior e assim por diante” (Michin, 1973, p.75).
A reconversão capitalista expressa a modernização subordinada, na qual se reproduz a relação de exploração internacional através de irradiação de mudanças dos países imperialistas para os países subordinados de forma retardatária e reproduzindo a subordinação. Isto se vê no exemplo clássico da Índia, que produzia e vendia algodão para a Inglaterra e comprava tecidos desta e, posteriormente, passa a produzir e vender tecidos e comprar máquinas para realizar esta produção e assim sucessivamente (Emanuel; 1981; Dowbor, 1987; Viana, 2000).
O populismo assumia a posição de forma subordinada de integração da classe operária. No entanto, a integração da classe operária e outros setores sociais no caso brasileiro sempre foi débil, pois aqui o processo de extração de mais-valor era mais intenso devido à transferência de mais-valor para o exterior. Além disso, as relações de produção não-capitalistas ainda existiam e tinham que se inserir na nova dinâmica do país no interior do capitalismo mundial. Assim, se desencadeia um acirramento das lutas de classes, que gera o golpe de 1964, caracterizado pela a ascensão das lutas sociais, por um lado, e pela crise do regime de acumulação conjugado, por outro.
A crise do regime de acumulação conjugado ocorre exemplarmente na grande potência imperialista mundial, os Estados Unidos, embora atinja todo o bloco imperialista. A balança comercial norte-americana apresenta, entre 1950 e 1957 um déficit de 16 bilhões de dólares. Esta situação irá se agravar a partir de 1958 (Granou, 1974). Inicia-se a tendência mundial de aumento dos preços e da inflação a partir dos anos 60 (Benakouche, 1981).
Certamente que este processo todo é apenas uma antecâmara do que virá a partir da segunda metade da década de 60 e na década de 70 (Mandel, 1990; Benakouche, 1981; Granou, 1974). No entanto, esta crise marca a necessidade do aumento da exploração internacional que já começa a ser gerado neste momento e se intensifica com a formação da Comissão Trilateral e culmina com a implantação do regime de acumulação integral a partir dos anos 80. Este processo inicial de crise dos Estados Unidos, bem como de todo o mundo capitalista, terá uma grande importância no desenvolvimento da sociedade brasileira e será a determinação fundamental do golpe de 1964, como colocaremos adiante.
As Lutas Sociais no Brasil e a Acumulação Subordinada
As lutas dos trabalhadores no Brasil marcam um questionamento do Estado populista já no final dos anos 50. O desenvolvimentismo do Governo Kubitschek com a expansão da infraestrutura e a atração de capital estrangeiro marcou um processo de desenvolvimento capitalista fundado no crescimento do capital transnacional e no aumento da exploração da força de trabalho, ao lado de várias outras mutações que significavam um avanço do capitalismo no país. A expansão capitalista promove uma politização das lutas pela terra, pois as relações de produção não-capitalistas são destruídas devido à valorização das terras. Esta valorização ocorreu devido à construção de rodovias (Martins, 1986; Dowbor, 1987) e também graças à valorização do açúcar, que depois da desvalorização e arrendamento a foreiros, acabou tendo uma revalorização que gerou a expulsão dos foreiros. Esta valorização das terras proporcionou vários movimentos contestadores no campo, tal como as revoltas e ligas camponesas da segunda metade da década de 50 (Martins, 1986). O movimento estudantil também começa a se agitar e dar mostras de uma mobilização maior do que a de períodos precedentes (Poerner, 1979).
O movimento operário também atravessou um período de mobilização crescente. O movimento grevista cresce a partir do final dos anos 50 e continuam no início da década seguinte (Castro, 1980).
“A escalada inflacionária leva à uma escalada das greves. Ano após ano os recordes de horas perdidas são batidos. Em 1958, destaca-se a paralisação por 7 dias da marinha mercante em todo o país, com a participação de centenas de milhares de marítimos. Malgrado a ilegalidade da greve, JK acabou concedendo à maioria das reivindicações. Nos transportes urbanos, a greve dos carris do Rio de Janeiro, apoiada por fortes e violentas manifestações estudantis, também termina vitoriosa” (Castro, 1980, p. 69).
Ainda em 1958, o movimento operário arranca 53% de aumento salarial do governo JK mas tal aumento foi corroído pela inflação que em 10 meses chegou a 80%.
“Em 1959 não somente as greves se intensificaram, como a desesperação pela contínua erosão dos salários provocou a multiplicação de manifestações de rua com choques violentos com as forças policiais. Protestos contra a alta dos preços seguiam-se frequentemente de pilhagens de armazéns. Em vários casos as forças policiais utilizaram armas de fogo ou baionetas para reprimir os manifestantes, provocando ferimentos e a mote de dezenas destes” (Castro, 1980, p. 70).
O ano seguinte foi marcado pela continuidade da luta operária. Em 1959 houve 954 greves e em 1960, 01 milhão e meio de trabalhadores aderiram ao movimento grevista e a greve geral da cidade de Santos foi o momento mais forte deste processo de lutas. No final de 1960 aumentaram os confrontos entre o governo e os trabalhadores do setor ferroviário, marítimo e portuário. Esta ampla mobilização continua e em 1962 várias greves são desencadeadas pelos aeroviários e estivadores, juntamente com diversas greves parciais, o que leva o Governo Goulart a ceder aumentos salariais. Em outubro deste ano, 700 mil trabalhadores entram em greve em São Paulo e conseguem aumentos salariais (Castro, 1980). Assim, o movimento operário, bem como o movimento estudantil e dos trabalhadores rurais, realizam uma ascensão em suas lutas que dificultava a concretização dos interesses da classe capitalista que era aumentar a taxa de exploração.
Todo este processo de ascensão das lutas sociais fazia com que as forças políticas institucionais conservadoras ficassem temerosas e as populistas buscassem intensificar sua proximidade com a população, radicalizando na medida do possível o seu discurso. A história do salário mínimo dos operários (o que exclui outros setores sociais) aponta para uma lógica de aumento da exploração revezada com diminuição dependendo da força de pressão dos trabalhadores:
“Pode-se perceber claramente três fases no comportamento do salário-mínimo real: a primeira, entre os anos 1944 e 1951, reduz pela metade o poder aquisitivo do salário; a segunda, entre os anos 1952 e 1957, mostra recuperações e declínios alternando-se na medida do poder político dos trabalhadores: é a fase do segundo Governo Vargas, que se prolonga até o primeiro ano do Governo Kubitschek; a terceira, iniciando-se no ano de 1958, é marcada pela deterioração do salário-mínimo real, numa tendência que se agrava pós-anos 64, com apenas um ano de reação, em 1961, que coincide com o início do Governo Goulart” (Oliveira, 1987, p. 51-52).
Assim, temos uma alta taxa de exploração – o que na verdade é algo constante na história brasileira, pois a exploração visa sustentar não somente a acumulação interna como também realizar transferência de mais-valor – que possui altos e baixos no interior dela. É necessário ressaltar isto para não se cair na ilusão da estatística que utiliza a comparação de um dado período com outro sem apresentar o que significa o período que é ponto de partida, isto é, que ele já tem embutido dentro de si uma alta taxa de exploração. No entanto, alguns autores (Moraes, 1991) questionam a segunda fase apontada por Oliveira, colocando que os níveis salariais são mais elevados do que ele apresenta. Sendo assim, ou como coloca Oliveira (revezamento entre altos e baixos dependendo das lutas dos trabalhadores) temos uma taxa de exploração que não cresce linearmente e nem intensamente e ainda encontra obstáculos (tal como no caso de 1961, citado por Oliveira).
A partir de 1961 há uma expansão do processo inflacionário e do déficit estatal e assim começam as dificuldades no processo de acumulação capitalista subordinada no Brasil. Antes de continuar seria interessante caracterizar esta acumulação subordinada, tendo em vista que alguns autores buscaram dar resposta a esta questão. Para alguns autores, o grande problema da acumulação capitalista no Brasil residia no problema da realização, pois o processo de acumulação tornaria necessário uma “terceira demanda”.
Esta é a posição de Tavares (1973), Salama (apud Moraes, 1991), entre outros. Esta terceira demanda seria constituída pelas camadas médias, consumidora de bens de consumo duráveis. Esta tese parte de uma incompreensão da dinâmica da acumulação capitalista, isolando um setor de consumo e tornando ele o centro da reprodução do capital. Na verdade, houve uma expansão da produção de bens duráveis e o grande mercado consumidor destes bens era as classes auxiliares da burguesia (“classes médias”) que também aumentou quantitativamente. Porém, parte deste processo de acumulação era revertida para os países imperialistas e esta expansão proporcionava a expansão (mesmo que em menor medida) de outros setores. A tese complementar presente em Tavares é a de que o grande problema ao lado da demanda foi o do financiamento.
“A inexistência de um volume adequado de investimentos, capaz de assegurar a manutenção de uma alta taxa de expansão econômica, não se relaciona estritamente com limitações da capacidade produtiva (...), mas sim com problemas relacionados com a estrutura de demanda e com o financiamento” (Tavares, 1973, p. 168).
Assim, nesta tese o problema da demanda é complementado pelo problema da incapacidade de financiamento. O problema da demanda, segundo Tavares (e José Serra, que foi coautor do capítulo no qual a autora aborda esta problemática) é derivado do alto grau de concentração de renda eu diminuía a capacidade aquisitiva dos “grupos médios”. A solução seria mudar a composição da demanda em favor das “camadas médias” e altas, beneficiadas com a redistribuição da renda pessoal. Assim, ocorreria um processo de “compressão, até mesmo absoluta, das remunerações à massa de trabalhadores menos qualificados” (Tavares, 1973, p. 169).
Neste contexto, o financiamento de novos investimentos privados se torna comprometido. A relação excedente-salários comprometia este processo já que a escalada inflacionária do período anterior proporcionava um amortecimento das “tensões salários-lucros” e taxa ilusória de lucros que proporcionou novos investimentos, mas que acabou perdendo sua funcionalidade.
“Com o descontrole de seus mecanismos de propagação, a inflação se acelerou, perdendo sua funcionalidade; nem as altas taxas de crescimento poderiam diminuí-la. A maior solidariedade dos preços relativos impedia uma transferência intersetorial dos custos, desmistificava os lucros ilusórios, estrangulava financeiramente as empresas. O acelerado ritmo do aumento dos preços levou à intensificação das pressões trabalhistas, enquanto os salários seguiam de perto os preços, limitando, assim, as possibilidades de redistribuição forçada” (Tavares, 1973, p. 169).
O investimento estatal, por sua vez, estava comprometido pela relação gastos-carga fiscal. Assim, o problema da demanda é reforçado pelo problema do investimento público e privado, formando as causas da crise do início da década de 60.
Esta tese apresenta vários problemas. A questão da demanda ganha a importância que lhe é atribuída por Tavares devido ao fato da autora setorializar e autonomizar os elementos componentes da produção. O setor de produção de bem duráveis é isolado e autonomizado na abordagem de Tavares, ao contrário do que ocorre na realidade concreta. Podemos dizer que o capital transnacional era o principal (mas não único) produtor de bens duráveis e que as classes auxiliares da burguesia eram o seu principal mercado consumidor, tal como na tese de Tavares. No entanto, o consumo de bens duráveis também é realizado pela classe dominante (inclusive com um poder aquisitivo muito mais elevado) e, em menor grau, por alguns setores das classes exploradas em melhores condições financeiras (e isto é mais facilmente compreendido se recordarmos que os diferentes tipos de bens duráveis com diferentes preços, alguns mais acessíveis do que outros). Além disso, para comprovar o problema da demanda seria necessário demonstrar uma diminuição quantitativa das classes auxiliares ou então de seu nível de renda, o que a autora não fez. A relação salarial, no entanto, aponta para uma distribuição de renda favorável às classes auxiliares em detrimento do proletariado:
“A relação entre os salários médios dos burocratas e o dos operários é de 1,18 em 1949 e 2,23 em 1969, para o total da indústria de transformação. Da mesma maneira, a taxa de crescimento do salário médio dos burocratas supera em mais de duas vezes e meia a dos operários em 1949-58 e em quase quatro vezes no período 1958-69 (o índice do valor absoluto do salário médio dos operários passa de 100 em 1949, à 136 em 1969, enquanto que o dos burocratas passa do índice 105 para 320, no mesmo período)” (Moraes, 1991, p. 36).
Além disso, faz parte da dinâmica do desenvolvimento capitalista o processo de burocratização crescente e, por conseguinte, aumento quantitativo das classes auxiliares da burguesia. Como a autora não apresentou nenhuma informação sobre a diminuição quantitativa destas classes, então não existe nenhuma comprovação para o chamado “problema da demanda”.
O processo inflacionário, por sua vez, ao contrário do que diz Tavares, não beneficia os trabalhadores e cria taxas ilusórias de lucro, pois isto só ocorreria se fosse comprovado que os aumentos dos preços fossem inferiores aos aumentos salariais e as informações apresentadas por outros autores apontam justamente para o contrário (Oliveira, 1987). Assim, o suposto problema de demanda se revela uma hipótese não comprovada e que possui muitas informações que lhe contradiz.
O problema do financiamento privado, por conseguinte, é inexistente, pois as taxas de lucro do período não eram “ilusórias” e sim bastante reais. O financiamento estatal derivado da relação custos-carga fiscal também não recebeu nenhuma comprovação e mesmo que os investimentos estatais tenham diminuído no período posterior ao Governo Kubitschek, seria necessário demonstrar que tal diminuição foi significativa e, ainda, que tal diminuição teria efeitos poderosos para o processo de acumulação.
O problema geral da acumulação capitalista subordinada é a convivência de uma alta taxa de exploração e a transferência de mais-valor, o que proporciona uma acumulação mundial elevada acompanhada de uma acumulação nacional limitada, já que parte da acumulação é enviada para os países imperialistas. A principal limitação é a dificuldade em aumentar a já intensa taxa de exploração e não problema de demanda e financiamento, embora estes elementos possam contribuir com as dificuldades da reprodução da acumulação em determinados contextos.
Uma outra tese explica a crise a partir das lutas dos trabalhadores. A crise do início da década de 60 não foi de realização, pois havia um aumento da taxa de exploração e assim um setor era marginalizado no consumo (os setores mais empobrecidos e os trabalhadores, e isto atingia certos bens de consumo, não-duráveis, como vestuário, alimentação, calçados, etc.) que era acompanhado por um crescimento da “classe média”, consumidora de bens duráveis (Oliveira, 1987). O que gerou esta crise foi o rompimento com o pacto populista e luta dos trabalhadores:
“A luta que se desencadeia e que passa ao primeiro plano político se dá no coração das relações de produção. Pensar que, nestas condições, poder-se-iam manter os horizontes do cálculo econômico, as projeções de investimentos e a capacidade do Estado de atuar mediando o conflito e mantendo o clima institucional estável, é voltar ao economicismo: a inversão cai não porque não pudesse realizar-se economicamente mas sim por que não poderia realizar-se institucionalmente” (Oliveira, 1987, p. 63).
Sem dúvida, a luta dos trabalhadores foi fundamental para o desencadeamento do golpe de 64 e das dificuldades de reprodução do capitalismo brasileiro no início da década de 60. Porém, esta abordagem esquece a especificidade da acumulação capitalista no Brasil, que reside em seu caráter subordinado. A luta dos trabalhadores, sem dúvida, dificultava a intensificação da taxa de exploração e ao mesmo tempo assustava os setores mais conservadores.
No entanto, isto não é suficiente para explicar o golpe de 1964. A dificuldade na acumulação capitalista brasileira do início da década de 60 está ligada, por um lado, ao seu caráter subordinado e, por outro, à luta dos trabalhadores. A acumulação subordinada exige uma superexploração dos trabalhadores e esta se intensificaria naturalmente se não houvesse resistência. Mas como esta última existe e naquele contexto histórico estava se tornando mais forte, então o processo de acumulação se encontra diante de uma dificuldade em prosseguir.
A grande questão é que neste período histórico não apenas a acumulação subordinada no Brasil atravessava dificuldades, pois o mesmo processo estava presente nos Estados Unidos, como vimos anteriormente, e nos demais países. Esta crise do regime de acumulação conjugado trazia a necessidade de aumento da exploração em escala mundial no interior deste mesmo regime de acumulação. Isto significava buscar aumentar o processo de exploração sem criar grandes alterações no regime de acumulação[1].
Assim, as lutas dos trabalhadores criavam um obstáculo ao processo de intensificação da exploração necessária para a acumulação subordinada brasileira e também norte-americana. Assim, os setores conservadores (EUA, capital transnacional, burguesia brasileira, classes auxiliares da burguesia) se uniram para combater esta resistência e possibilitar uma intensificação ainda mais forte do processo de exploração, tal como efetivamente ocorreu nos anos posteriores ao golpe de 1964, bem como a exploração internacional, que gerou, na década de 70, a Comissão Trilateral, cuja grande preocupação era com o controle internacional (Asmann, 1979), sendo uma tentativa de solução da crise do regime de acumulação ainda no seu interior e ao mesmo tempo já anunciando elementos que seriam desenvolvidos no regime de acumulação posterior, sendo, pois, expressão de um período de transição. A ampla participação dos norte-americanos no desencadeamento do golpe de 64 não era realizado sem razão, pois era uma necessidade do capitalismo norte-americano em crise e que precisava aumentar a exploração internacional para compensar suas dificuldades de reprodução.
Desta forma, o golpe de 1964 foi produto da ofensiva capitalista realizada pelas potências imperialistas (principalmente os EUA) e, com o apoio da burguesia brasileira e outros setores, consegue produzir um amplo aparato repressivo e ao mesmo tempo desalojar do governo setores populistas e reformistas que tinham dificuldades em atacar diretamente os trabalhadores e aumentar o processo de exploração.
Assim, o discurso segundo o qual o golpe foi realizado para evitar a formação de uma “república sindicalista”, para combater o comunismo ou a corrupção, não passa de pretexto visando justificar e legitimar um processo intensivo de repressão que vem para possibilitar um processo igualmente intensivo de exploração, permitindo aumentar o processo de acumulação capitalista no Brasil para sustentar as necessidades da burguesia brasileira e a transferência de mais-valor para sustentar as necessidades dos países imperialistas, principalmente dos Estados Unidos. Em síntese, é a ascensão da luta operária e outros setores sociais que promoveu a necessidade de transição da democracia burguesa para a ditadura, pois somente esta possibilitaria a ampliação da taxa de exploração naquele contexto, o que era uma necessidade vital do capital neste período.
Bibliografia
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Viana, Nildo. Capital, Espaço e Desigualdade. Boletim Goiano de Geografia/UFG. Vol. 20, no 1/2, Dez. 2000.





* Professor da Universidade Estadual de Goiás; Doutor em Sociologia/UnB.
[1] No caso brasileiro, significou a passagem do regime de acumulação intensivo subordinado para o conjugado subordinado.
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VIANA, Nildo. Acumulação Capitalista e Golpe de 1964. Revista História & Luta de Classes, Rio de Janeiro, v. 01, n.01, p. 19-27, 2005.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O Tripalium no Capitalismo Contemporâneo

Prefácio ao livro: SANTOS, Cleito P. Trabalho, Tecnologia, controle e Disciplina no
Capitalismo Contemporâneo. Rio de Janeiro: Rizoma, 2014.


O Tripalium no Capitalismo Contemporâneo


Nildo Viana

Nada mais oportuno do que o presente livro de Cleito Pereira dos Santos. Sua discussão sobre trabalho no capitalismo contemporâneo, sob a lógica do controle e disciplina, é de uma atualidade indiscutível. Sem dúvida, aqueles que pregam o fim dos empregos, fim do trabalho, fim do Estado-Nação, entre tantos outros fins, podem questionar isso. Porém, até que ponto as ideologias do fim não esgotaram sua retórica repetitiva? Ao que tudo indica, o único fim que presenciamos é o da “ideologia dos fins”. Assim, a atualidade da presente publicação é um dos seus méritos.

A abordagem que o autor oferece do tema da vigilância e controle do trabalho assume grande importância. A dinâmica da acumulação capitalista é marcada por uma crescente necessidade de aumento de extração de mais-valor, de aumento da exploração do trabalhador. A tendência declinante da taxa de lucro juntamente com a resistência dos trabalhadores promove a necessidade por parte do capital de buscar aumentar a exploração e para isso lança mão de diversos recursos. Isso se torna mais intenso com o processo de desenvolvimento capitalista e adquire um caráter muito mais poderoso no atual regime de acumulação. A dinâmica do capital coloca em evidência a necessidade de “exploração sem limites”, como já dizia Bourdieu. Aumentar a extração de mais-valor relativo e absoluto, controlar e vigiar cada vez mais o trabalhador, promover o interesse e envolvimento do trabalho como o processo de produção, são algumas das ações que os agentes do capital executam hoje. Ao lado disso, sem dúvida, ideologias legitimadoras são produzidas e reproduzidas. Neste processo todo, o uso da tecnologia ganha um papel importante e acaba sendo um forte ponto de apoio para um desses elementos apontados acima, o controle e a vigilância, que são analisadas em suas relações na presente obra. A abordagem do papel da tecnologia nesse processo de controle e vigilância é um elemento importante e que merece maior atenção, o que é realizado por Cleito Pereira dos Santos.

Assim, o processo de desenvolvimento capitalista necessita aumentar a exploração e para isso usa determinada forma de organização do trabalho e recursos tecnológicos, administrativos, com determinados objetivos mediadores do objetivo final. O toyotismo, abordado por Cleito Pereira dos Santos após uma análise do taylorismo e fordismo, se encontra num conjunto de relações sociais que apontam para uma unidade no regime de acumulação, tendo no neoliberalismo e neo-imperialismo (ou “globalização”) seus elementos complementares e indissociavelmente ligados. Essa nova fase do capitalismo que tem no toyotismo um de seus elementos fundamentais gera uma necessidade mais ampla de controle, vigilância e os recursos tecnológicos e administrativos, bem como novas ideologias associadas são produzidas e utilizadas. Uma análise minuciosa é realizada sobre estes aspectos de controle e vigilância, mostrando tais vínculos com o processo de acumulação de capital.
No atual contexto, a luta em torno do mais-valor expressou um fortalecimento da burguesia em detrimento dos trabalhadores, inclusive na Europa Ocidental, o bastião do Estado integracionista voltado para amplas políticas sociais, visando o “bem estar social”, segundo sua auto-imagem ideológica. No entanto, neste edifício existem rachaduras, novas lutas, resistência, mais fortes em alguns lugares e momentos, mais frágeis em outros, mas que persistem e tendem ao acirramento. As ideologias produzidas para controlar essa tendência à resistência, desde as ideologias centrais e próprias ligadas ao toyotismo, até as complementares e que buscam generalizar para outras esferas o domínio sobre os investimentos e desejos dos trabalhadores, tal como a ideologia da inteligência emocional, são oriundas da própria resistência, da luta cotidiana e além dela, mostrando os limites e a presença inevitável da luta de classes. E é nessa resistência, tanto na esfera da produção quanto nas demais esferas da vida social, que se produz o embrião da possibilidade de transformação social, proporcionando um mundo radicalmente diferente no qual o trabalho deixe de ser alienado e volte a ser práxis, manifestação da natureza humana ao invés de sua negação.

Assim, a presente obra discute não somente uma questão extremamente atual como de caráter fundamental para a reprodução da sociedade moderna, lembrando que todo o processo de reprodução do capital traz em si a sua negação. Por conseguinte, o presente livro trata de uma temática atual e importante e, embora se possa discordar de alguns aspectos, afirmações e referências, constitui numa leitura importante para apreender as mudanças sociais contemporâneas, especialmente no que se refere ao processo de controle e vigilância do trabalho no capitalismo contemporâneo.

O que Cleito Pereira dos Santos revela, no final das contas, é que o trabalho no capitalismo contemporâneo é um tripalium, no sentido de ser um instrumento de tortura. O trabalhador foge do trabalho como o diabo foge da cruz, já dizia Marx. O trabalhador aparece com um Cristo que carrega uma cruz todos os dias durante uma jornada de trabalho cada vez mais desgastante. Só que agora a cruz está mais pesada e assim é necessário vigiar e controlar mais ainda, é necessário criar ideologias, incentivos emocionais, pseudestesia de felicidade através do consumo, para que a máquina torturante do capital continue transformando sangue humano em capital. O capital se mostra um vampiro ávido por cada vez mais sangue e não se controla e nem se preocupa com os seres humanos. O capital é o carrasco que controla o tripalium e o trabalhador é o torturado. Torturado feliz? Apenas aparentemente e uma das grandes vantagens do método dialético está justamente em mostrar que a aparência difere da essência. Os que se iludem com a aparência vêm na miséria apenas a miséria e não a negação da miséria. A negação não é visível na superfície e sim no subterrâneo de uma sociedade degradante e a percepção disso significa a possibilidade de ver o novo, a utopia concreta tal como definida por Ernst Bloch.

Cleito Pereira dos Santos contribui para refletirmos sobre esta realidade e a reflexão é um elemento fundamental para a desnaturalização de uma sociedade torturante. A reflexão hoje é necessária e deve incentivar uma ampliação e aprofundamento, contribuindo para a ultrapassagem da imanência e chegar à transcendência, observando que esta sociedade com seu sistema de controle e vigilância é um produto histórico e social, tão provisório quanto foi a sociedade feudal e escravista. A grande questão é o que virá depois, um novo tipo de torturado, um pouco diferente do escravo, do servo e do operário? Ou indivíduos livremente associados numa sociedade sem exploração e dominação? A reprodução ou a abolição da tortura? Isso vai depender das lutas sociais e das escolhas de cada indivíduo e do que irá prevalecer. O leitor após ler esta obra pode refletir sobre isso e fazer a sua escolha: reproduzir ou transformar, escravidão ou liberdade. Não há nada mais a dizer, resta apenas ler o livro, refletir, escolher, agir.

Nildo Viana
Goiânia, 18/10/2009

domingo, 29 de janeiro de 2017

O GOVERNO TEMER E O PROBLEMA DA ACUMULAÇÃO DE CAPITAL


O GOVERNO TEMER E O PROBLEMA DA ACUMULAÇÃO DE CAPITAL

Nildo Viana

O Governo Temer tomou posse há alguns meses e não conseguiu resolver o problema das dificuldades do processo de acumulação de capital. Essas dificuldades se esboçaram a partir de 2012 e se intensificaram nos anos seguintes, sendo que se aprofundaram nos anos seguintes. O seu agravamento se iniciou em 2014 e foi reforçado com a inoperância, incompetência e neopopulismo do Governo Dilma. Havia uma expectativa, por certos setores da sociedade, que estes problemas, oriundos da burocracia governamental, seriam removidos e uma nova equipe e política estatal promoveria o chamado retorno do “crescimento econômico”. No entanto, não foi isso que ocorreu efetivamente.

A desestabilização do regime de acumulação integral no Brasil, durante o governo Dilma, se prolonga até hoje. Alguns denominam essa situação como “crise”, mas é apenas uma desestabilização. Um regime de acumulação somente entra em crise quando isso ocorre em escala mundial. Os regimes de acumulação são adotados mundialmente, mesmo tendo um centro irradiador para o resto do mundo. Nos casos nacionais, o que pode ocorrer é uma crise no regime de acumulação, o que pode provocar, em âmbito nacional, sua reconfiguração parcial. Sem dúvida, a desestabilização pode ocorrer em escala mundial, mas, nesse caso, é um prenúncio da crise do regime de acumulação. A desestabilização do regime de acumulação integral, no caso brasileiro, acompanha um ciclo que pode desembocar numa crise e esta é a tendência mais forte no momento. A crise nacional, por sua vez, reforça a desestabilização mundial e, dependendo da importância do país derivada de sua posição na divisão internacional do trabalho e da situação de outros países, pode provocar uma crise no regime de acumulação integral. O caso de Portugal, Espanha e Grécia, por exemplo, não foi suficiente para desencadear tal crise.

A desestabilização, por sua vez, pode ser revertida, ou, mais exatamente, minimizada. A desestabilização pode constituir altos e baixos, subciclos que se sucedem, até ser superada, o que em certas situações é algo raro, ou aprofundada até gerar uma crise. Assim, tanto os otimistas, que são aqueles que pensam que a desestabilização caminha inelutavelmente para a crise, quanto os pessimistas, que são aqueles que pensam que um certo momento de ampliação da acumulação significa sua superação, se enganam. O equívoco dos pessimistas se revela na ideia de que a estabilização não pode ser superada, sendo que, apesar de ser difícil, isso pode ocorrer (é mais difícil no caso de crise e quase impossível no caso de crise mundial) e não perceber que ela tem altos e baixos. O equívoco dos otimistas está em tomar um subciclo ascensional e temporário como se fosse a superação da desestabilização. Enquanto que no caso dos regimes de acumulação a tendência geral é de ascensão e queda, embora a duração desse processo seja de difícil previsão e depende de diversas determinações que podem complexificar a situação (sem falar das peculiaridades nacionais), o processo de desestabilização e crise é mais complexo e em curto prazo, bem como um conjunto de determinações pode promover mudanças que, sendo menos impactantes, atuam mais sobre sua dinâmica.

A desestabilização pode conter vários subciclos e estes podem ser de desaceleração e aceleração de acumulação de capital. Essa é, inclusive, uma tendência, pois toda desaceleração cria alguns elementos que possibilitam uma aceleração posterior, obviamente que não no mesmo grau que num momento de ascensão e consolidação de um regime de acumulação. O que ocorre, no entanto, é que estes subciclos são passageiros e dentro de uma dinâmica geral de desestabilização. Os dois gráficos abaixo apontam para a compreensão desse fenômeno, um apontando apenas a tendência geral de um regime de acumulação e outro apontando uma das tendências dos subciclos da desestabilização (sendo que este último ocorre de forma imperceptível observando apenas o primeiro):




 
 



O quadro mostra a dinâmica geral de um regime de acumulação e o caso específico do processo de desestabilização enquanto parte do ciclo de dissolução de um regime de acumulação e sua dinâmica temporal e tendencial, que é a de subciclos (que podem ser vários e com duração maior ou menor). Assim, ao olhar para a história de um regime de acumulação em âmbito mundial, veremos a dinâmica acima, mas se olharmos apenas o seu ciclo de dissolução, poderemos ver a dinâmica mais específica da desestabilização, com altos e baixos, o que permite o surgimento de uma corrente de opinião otimista. Uns observam apenas a tendência geral e caem no pessimismo, outros, ansiosos pela superação da situação, tendem ao otimismo ao enxergar qualquer breve recuperação. No plano da análise política e conjuntural, ambas são problemáticas e dificultam a compreensão e ação diante dessa situação.

Obviamente, aqueles que apostaram no governo Temer como solução para a desestabilização não analisam a situação nestes termos e por isso esperavam uma rápida e eficaz solução com a mera troca de governo. Isso é ilusório. No entanto, um governo competente e corajoso poderia ter avançado mais, não no sentido de retomar a situação de estabilidade, mas no sentido de enfraquecer e interromper o processo de desestabilização. O governo Temer, até agora, se mostrou frágil, tanto por sua incompetência e inoperância (em parte por se manter preso ao neoliberalismo, que limita a criatividade e a adoção de certas políticas que seriam eficazes nesse contexto), quanto pela situação política (lava-jato, impeachment incompleto, interesses político-partidários e eleitorais, etc.).

O problema foi se agravando e após a concretização do impeachment, o governo Temer, reforçado pelos resultados eleitorais de 2016, resolveu tomar as medidas necessárias de acordo com a continuidade das políticas neoliberais. Assim, várias reformas inflexíveis típicas do neoliberalismo discricionário foram arquitetadas e enviadas para o congresso nacional. A PEC 241/55 foi parte do primeiro ato da peça chamada neoliberalismo discricionário[1].

O neoliberalismo discricionário conseguirá reverter o processo de desestabilização? Se ele for adotado em conjunto e ao lado de uma política pecuniária (financeira, industrial, etc.) tem condições de criar um subciclo de aceleração da acumulação de capital. Isso não significa um retorno ao período de ascensão da acumulação de capital e sim uma situação melhor do que a que existe atualmente, ou seja, um subciclo ascensional.

Durante o governo Dilma, o que existia era, principalmente, uma crise financeira, concomitantemente com o início da desaceleração da acumulação de capital. Se a primeira tivesse sido combatida e revertida, a segunda teria sido adiada por um certo tempo. A crise financeira, no entanto, acabou agilizando e intensificando a crise pecuniária (“econômica” ou “de acumulação”). O mundo das finanças atinge o mundo da produção. A categoria da totalidade ou a compreensão da dinâmica da sociedade (e acumulação) capitalista são fundamentais para entender que tudo está relacionado e que cada elemento do todo age sobre os outros. Isso seria suficiente para entender que o mundo das finanças e o mundo da produção não são “mundos separados”. A crise financeira atinge o processo de produção por diminuir a capacidade de investimentos, realocação de recursos, o poder aquisitivo da população e por gerar, em certos setores da sociedade, desemprego, o que, por sua vez, diminui ainda mais o mercado consumidor. Assim, a diminuição, mesmo que relativa, do consumo, investimento, etc., atinge o capital produtivo e o próprio aparato estatal, que, por sua vez, diminui sua capacidade de intervenção e/ou aumenta a dívida pública.

Porém, a acumulação de capital é caracterizada por ciclos e subciclos. O processo acima descrito, quando gera uma crise pecuniária, promove o aumento do desemprego, redução do mercado consumidor, etc. Esse processo após algum tempo, permite aumentar a taxa de exploração (o desemprego predispõe os trabalhadores a venderem sua força de trabalho por um preço mais baixo, aumentando a taxa de mais-valor, o que pode ser visto na história do capitalismo no caso de empresas em que ocorreram acordos coletivos para redução salarial para não perder o vínculo empregatício), realocação do consumo para o setor produtivo e mais ainda para certos setores deste (na época das vacas magras, o consumo de bens necessários e materiais cresce proporcionalmente em relação aos bens supérfluos e bens culturais e coletivos). Assim, a desestabilização passa por altos e baixos, subciclos de desaceleração e aceleração da acumulação de capital.

Esse desenvolvimento cíclico da acumulação de capital possui múltiplas determinações  e o tempo de duração de cada subciclo também. Uma das determinações desse processo é o aparato estatal, que é o regularizador do processo de reprodução do capitalismo e que atua sobre diversos aspectos que atingem diretamente o regime de acumulação. Assim, o governo pode contribuir com a permanência ou superação de um subciclo (de forma mais decisiva do que no caso de um ciclo), o seu tempo de duração, etc.

É nesse contexto que o governo Temer se encontra. A expectativa de que ele resolvesse imediatamente o problema da desestabilização era ilusória. No entanto, ele, sem dúvida, poderia ter contribuído com o processo de passagem de um subciclo de desaceleração para um de aceleração (relativa). Isso não ocorreu, pelo menos de forma mais ágil e eficaz. A iniciativa em torno do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) foi a única mais eficaz em curto prazo. As políticas de austeridade, como a PEC 241/55, são limitadas e longas (visando o longo prazo), bem como tem efeitos indesejáveis. Em longo prazo elas tendem a surtir o efeito de acelerar a acumulação de capital, mas também tende a aumentar os conflitos sociais e reemergência de lutas operárias radicalizadas. Se elas conseguiram uma nova estabilização relativa, a tendência é que o fim desta seja muito mais brutal (e num contexto muito pior para a maioria da população e acompanhada com um processo tendencial de desestabilização mundial). Logo, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, como diz o ditado popular e que revela o dilema do capitalismo brasileiro contemporâneo.

O governo Temer tende a se encerrar com um fracasso em curto prazo e talvez com um relativo “sucesso” a médio e longo prazo e, nesse caso, se houver frutos para se colher, a coleta será feita por outro governo (tal como o governo Lula foi beneficiado pelos governos anteriores, apesar de que os frutos do futuro sejam escassos). Evidentemente, qualquer previsão do futuro é mera hipótese que, numa análise dialética, é fundada em tendências mais gerais, que podem ser contrariadas por acontecimentos destoantes da tendência geral. Por exemplo, se nas eleições presidenciais de 2018 for eleito um governo demasiado incompetente e/ou irresponsável, as políticas de austeridade do governo Temer podem ter seus resultados desmanchados como castelos de areia atingidos por um redemoinho. A crise pode substituir a desestabilização e assim se constituir uma situação revolucionária.

Os progressistas, com seu habitual otimismo (com ações governistas) e incompreensão da dinâmica capitalista, podem dizer que isto é “determinismo” e que um bom governo (o deles) pode trazer de volta a “bonança” (que nunca foi para o conjunto da população). Se isso fosse verdade, o governo Dilma e inúmeros outros governos em diversos países (de partidos denominados “trabalhistas”, “social-democratas” ou “socialistas”) teriam evitado crises, desestabilização, etc., e nunca o fizeram. Teriam também ganhado eleições após eleições, o que nunca ocorreu. Eles sempre abrem as portas para os conservadores após decepcionarem a população.

Outros poderão colocar a necessidade dos trabalhadores se organizarem para defender os seus direitos, etc. Assim, segundo estes, os trabalhadores não sofrerão as consequências da desaceleração da acumulação de capital (o que eles chamam de “crise”). Essa é uma posição tragicômica. É trágica pelo simples motivo de que a resistência dos trabalhadores contribui com a desaceleração da acumulação de capital, ou seja, desestabilização e crise, que vai atingir, posteriormente e com mais força, os próprios trabalhadores. Por isso, além de trágica, essa solução é cômica, pois não soluciona nada.

Isso significa não entender que os interesses fundamentais da burguesia, bem como das classes privilegiadas em geral, e os interesses imediatos do proletariado, e das classes desprivilegiadas em geral, no que se refere à acumulação de capital, são os mesmos. O antagonismo reside nos interesses fundamentais das duas classes fundamentais, pois no plano dos interesses imediatos, eles coincidem. A desaceleração da acumulação de capital prejudica a todos, tanto a classe capitalista quanto as classes trabalhadoras, incluindo a classe proletária. Ela gera desemprego, inflação, redução dos recursos estatais, etc. Logo, se o pensamento se move dentro da dinâmica da acumulação capitalista (não busca a superação do capitalismo), não há saída para os trabalhadores. Nesse caso, eles devem pagar a conta, se submetendo aos ditames do capital e aceitar a alienação, o empobrecimento relativo, o desemprego, o aumento da exploração, etc. Se o proletariado fica ao nível dos seus interesses imediatos, deve apoiar a classe capitalista e o aumento de sua própria exploração. Nesse contexto, pode no máximo pressionar o governo para o impacto ser menor, o que seria possível com um subciclo ascensional, que, por sua vez, tende a ter curta duração.

Portanto, é necessário que as classes trabalhadoras em geral e o principalmente o proletariado, em particular, compreendam que, no capitalismo, sempre perderão e jamais ganharão e que uma real solução está muito além de governos e reformas, está além o capitalismo. A libertação dos trabalhadores só é possível com a abolição do capitalismo.






[1] O neoliberalismo discricionário é aquele que surge no momento de desestabilização do regime de acumulação integral, tentando manter o mesmo através de mais políticas neoliberais, agora de caráter ainda mais inflexível (políticas de austeridade, autocracia governamental, etc.) e que pode, dependendo do contexto, buscar uma reconfiguração parcial do regime de acumulação integral.

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