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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Formas e tipos de discurso - Nildo Viana

 


Formas e tipos de discurso


Por Nildo Viana


A reflexão realizada até aqui deixou entrever a existência de determinadas formas de discurso: discurso escrito e discurso falado, bem como formas de discurso escrito e discurso falado. As formas podem ser simples (protótipos discursivos) ou complexas (gêneros discursivos). O leitor atento, no entanto, percebeu o uso de diversos termos para nos referirmos a manifestações discursivas específicas: discurso redundante, discurso retórico, discurso prolífico, discurso prolixo, discurso dialogal, discurso apócrifo, discurso coletivo, etc. Uma infinidade de manifestações discursivas emergiu na presente obra. Essas diversas manifestações do discurso não seriam “formas de discurso”?

Aqui entramos numa questão metódica fundamental. Não será possível, aqui, desenvolver isso, mas é necessário uma breve explicação e indicação bibliográfica para aprofundamento. As formas do discurso são processos reais, concretos, que apreendemos em nossa consciência através das categorias dialéticas de forma e substância (ou “conteúdo”). Essas categorias foram discutidas na obra A Dialética Revolucionária (Viana, 2024a). Toda forma é a forma de uma substância, como disse Marx e enfatizou Korsch (2026). Assim, as formas de discurso são manifestações formais de uma substância específica que é o discurso. Esse é o processo dialético de análise em geral e que vale, obviamente, para a análise do discurso.

Porém, uma substância, um ser, tal como uma parte da realidade, é algo complexo (e aqui emerge outra categoria da dialética), pois além de sua essência, possui um conjunto de outros aspectos. Para entender um determinado ente (um ser específico), um fenômeno, eu tenho que entender sua substância, sua essência, e suas formas históricas e concretas de manifestação. Note-se que aqui estou no âmbito do que é essencial e suas formas de manifestação. Um ser, no entanto, em seu processo concreto de existência, possui muitos outros aspectos. A essência do discurso foi apresentada em seu conceito. Esse conceito, no entanto, não abarca a totalidade do discurso, apenas o que é essencial. As formas de discurso, por sua vez, apresentam essa essência em suas formas existenciais.

Dito isto, fica claro que se o discurso é ou não redundante, se é sério ou cômico, entre diversos outros aspectos que poderíamos enfatizar (e, em certos contextos, o fizemos), não é uma manifestação formal dele. É um aspecto dele. E a discussão sobre os aspectos (Viana, 2024) não poderá ser retomada aqui, mas é possível dizer que eles são características inessenciais do ente ou fenômeno em questão. A reflexão sobre as formas de violência ajuda a entender isso. Muitos classificam tais formas pelas suas vítimas (violência contra a mulher, contra a criança, contra os imigrantes, etc.) ou pelo lugar no qual ela ocorre (violência urbana, violência rural, violência doméstica, etc.). Outros usam outros critérios para classificar as formas de violência. Contudo, não se trata de formas de violência e sim de aspectos selecionados pelo classificador. O mesmo vale para “formas de discurso”, no qual se usar o termo “forma” equivocadamente (da perspectiva dialética). Contudo, o uso da expressão “formas”, quando o objetivo é classificar a violência em suas formas de manifestação, é equivocado, mas há o uso irrefletido que não remete exatamente para essa ideia mais específica. Nesse sentido, quando se afirma que está tratando das formas de violência e cita a “violência econômica”, “a violência pedagógica”, “a violência juvenil”, “a violência revolucionária” (Barreiro, 1978)[1], se comete um equívoco.

A questão que emerge a partir disso é: então como entender essas outras maneiras de se referir a outras manifestações discursivas? Quando selecionamos um aspecto do fenômeno e o distinguimos de outros aspectos ou comparamos ou relacionamos com outros fenômenos a partir disso, estamos tratando de tipos e não de formas. Essa é a origem das “tipologias”. Sem dúvida, a maioria das tipologias são sistemas classificatórios abstratificados e aleatórios. E elas são mais problemáticas quando se apresentam como “formas”. Os tipos ideias weberianos, por exemplo, são limitados, pois não captam a essência do fenômeno, assim como a tipologia durkheimiana (Weber, 2004; Durkheim, 1974).

Assim, discurso individual e discurso coletivo se referem a tipos de discurso. Não são formas de discurso, mas sim uma tipificação na qual se destaca o aspecto do caráter individual ou coletivo da produção discursiva. Podemos fazer inúmeras tipificações a partir de diversos aspectos dos seres, tal como no caso do discurso. Assim, quando Max Pagès (1993) distingue, equivocadamente, entre “discurso subjetivo” e “discurso objetivo”[2], está realizando uma tipificação que enfatiza um aspecto do discurso. Ao contrário das tipologias e seu aspecto abstratificante ou arbitrário, a tipificação é um processo consciente que encontra em determinados entes ou fenômenos aspectos que podem gerar tipos, o que é útil para a pesquisa e a compreensão da realidade.

Nesse sentido, as formas de discurso são aquelas que foram trabalhadas ou citadas enquanto tais no presente capítulos e todas as demais referências a outros discursos estão se referindo a tipos de discurso.

 



[1] Diversos autores que realizam tal processo poderiam ser citados, contudo, não é nosso objetivo abordar essa questão, razão pela qual nos restringimos a apenas esse autor. Nós mesmos não tínhamos consciência desse processo quando abordamos pela primeira vez o fenômeno da violência (Viana, 1999), pois foi o desenvolvimento de nossas reflexões sobre a realidade e sobre a dialética que permitiram a percepção disso.

[2] Realizamos uma crítica dessa concepção e apresentamos termos distintos: discurso idiossincrático (ao invés de “subjetivo”) e “discurso consensual” (ao invés de “objetivo”) (Viana, 2016).

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O presente texto é um apêndice que está no livro "Análise Dialética do Discurso":

VIANA, Nildo. Análise Dialética do Discurso. Teoria, Linguagem, e Discurso. Tomo 01, Vol. 01, Goiânia: Ragnatela, 2026.

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