Por Nildo Viana
A reflexão realizada até aqui deixou entrever a
existência de determinadas formas de discurso: discurso escrito e discurso
falado, bem como formas de discurso escrito e discurso falado. As formas podem
ser simples (protótipos discursivos) ou complexas (gêneros discursivos). O
leitor atento, no entanto, percebeu o uso de diversos termos para nos
referirmos a manifestações discursivas específicas: discurso redundante,
discurso retórico, discurso prolífico, discurso prolixo, discurso dialogal,
discurso apócrifo, discurso coletivo, etc. Uma infinidade de manifestações
discursivas emergiu na presente obra. Essas diversas manifestações do discurso
não seriam “formas de discurso”?
Aqui entramos numa questão metódica
fundamental. Não será possível, aqui, desenvolver isso, mas é necessário uma
breve explicação e indicação bibliográfica para aprofundamento. As formas do
discurso são processos reais, concretos, que apreendemos em nossa consciência
através das categorias dialéticas de forma e substância (ou “conteúdo”). Essas
categorias foram discutidas na obra A Dialética Revolucionária (Viana,
2024a). Toda forma é a forma de uma substância, como disse Marx e enfatizou
Korsch (2026). Assim, as formas de discurso são manifestações formais de uma
substância específica que é o discurso. Esse é o processo dialético de análise
em geral e que vale, obviamente, para a análise do discurso.
Porém, uma substância, um ser, tal como uma
parte da realidade, é algo complexo (e aqui emerge outra categoria da
dialética), pois além de sua essência, possui um conjunto de outros aspectos.
Para entender um determinado ente (um ser específico), um fenômeno, eu tenho
que entender sua substância, sua essência, e suas formas históricas e concretas
de manifestação. Note-se que aqui estou no âmbito do que é essencial e suas
formas de manifestação. Um ser, no entanto, em seu processo concreto de
existência, possui muitos outros aspectos. A essência do discurso foi
apresentada em seu conceito. Esse conceito, no entanto, não abarca a totalidade
do discurso, apenas o que é essencial. As formas de discurso, por sua vez, apresentam
essa essência em suas formas existenciais.
Dito isto, fica claro que se o discurso é ou
não redundante, se é sério ou cômico, entre diversos outros aspectos que
poderíamos enfatizar (e, em certos contextos, o fizemos), não é uma
manifestação formal dele. É um aspecto dele. E a discussão sobre os aspectos
(Viana, 2024) não poderá ser retomada aqui, mas é possível dizer que eles são
características inessenciais do ente ou fenômeno em questão. A reflexão sobre
as formas de violência ajuda a entender isso. Muitos classificam tais formas
pelas suas vítimas (violência contra a mulher, contra a criança, contra os
imigrantes, etc.) ou pelo lugar no qual ela ocorre (violência urbana, violência
rural, violência doméstica, etc.). Outros usam outros critérios para
classificar as formas de violência. Contudo, não se trata de formas de
violência e sim de aspectos selecionados pelo classificador. O mesmo vale para
“formas de discurso”, no qual se usar o termo “forma” equivocadamente (da
perspectiva dialética). Contudo, o uso da expressão “formas”, quando o objetivo
é classificar a violência em suas formas de manifestação, é equivocado, mas há
o uso irrefletido que não remete exatamente para essa ideia mais específica.
Nesse sentido, quando se afirma que está tratando das formas de violência e
cita a “violência econômica”, “a violência pedagógica”, “a violência juvenil”,
“a violência revolucionária” (Barreiro, 1978)[1],
se comete um equívoco.
A questão que emerge a partir disso é: então
como entender essas outras maneiras de se referir a outras manifestações
discursivas? Quando selecionamos um aspecto do fenômeno e o distinguimos de
outros aspectos ou comparamos ou relacionamos com outros fenômenos a partir
disso, estamos tratando de tipos e não de formas. Essa é a origem das
“tipologias”. Sem dúvida, a maioria das tipologias são sistemas
classificatórios abstratificados e aleatórios. E elas são mais problemáticas
quando se apresentam como “formas”. Os tipos ideias weberianos, por exemplo,
são limitados, pois não captam a essência do fenômeno, assim como a tipologia
durkheimiana (Weber, 2004; Durkheim, 1974).
Assim, discurso individual e discurso coletivo
se referem a tipos de discurso. Não são formas de discurso, mas sim uma
tipificação na qual se destaca o aspecto do caráter individual ou coletivo da
produção discursiva. Podemos fazer inúmeras tipificações a partir de diversos
aspectos dos seres, tal como no caso do discurso. Assim, quando Max Pagès
(1993) distingue, equivocadamente, entre “discurso subjetivo” e “discurso
objetivo”[2],
está realizando uma tipificação que enfatiza um aspecto do discurso. Ao
contrário das tipologias e seu aspecto abstratificante ou arbitrário, a
tipificação é um processo consciente que encontra em determinados entes ou
fenômenos aspectos que podem gerar tipos, o que é útil para a pesquisa e a
compreensão da realidade.
Nesse sentido, as formas de discurso são
aquelas que foram trabalhadas ou citadas enquanto tais no presente capítulos e
todas as demais referências a outros discursos estão se referindo a tipos de
discurso.
[1] Diversos autores que
realizam tal processo poderiam ser citados, contudo, não é nosso objetivo
abordar essa questão, razão pela qual nos restringimos a apenas esse autor. Nós
mesmos não tínhamos consciência desse processo quando abordamos pela primeira vez
o fenômeno da violência (Viana, 1999), pois foi o desenvolvimento de nossas
reflexões sobre a realidade e sobre a dialética que permitiram a percepção
disso.
[2] Realizamos uma crítica
dessa concepção e apresentamos termos distintos: discurso idiossincrático (ao
invés de “subjetivo”) e “discurso consensual” (ao invés de “objetivo”) (Viana,
2016).
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O presente texto é um apêndice que está no livro "Análise Dialética do Discurso":
VIANA, Nildo. Análise Dialética do Discurso. Teoria, Linguagem, e Discurso. Tomo 01, Vol. 01, Goiânia: Ragnatela, 2026.
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