quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Gramsci, Um Monstro Fabuloso


Gramsci, Um Monstro Fabuloso

(Notas Sobre Gramsci 01)






Nildo Viana



Muitos gramscianos usam o método Frankenstein de Gramsci para transformá-lo num “monstro fabuloso”. Esse método, que o próprio Gramsci relacionou com a “filologia” (Gramsci, 1987a), podendo, pois, ser chamado de “método filológico”, consiste em pegar pequenas frases ou afirmações e derivar delas toda uma discussão descontextualizada e sem necessidade de rigor analítico na análise da ideia do autor comentado, se apropriando inadequadamente de fragmentos do seu discurso e o resultado final é dar vida a um monstro onde havia apenas um pequeno pedaço de rabo de rato. Segundo Gramsci (1987), Cuvier reconstituía a partir de um pequeno osso um mastodonte, mas de um pedaço de rabo de rato se pode construir uma serpente marinha, erro ao qual ele não estava imune segundo suas próprias palavras: “Pode ocorrer, e antes é muito provável, que algumas de minhas apreciações sejam exageradas e até mesmo injustas. Cuvier costumava reconstruir um megatério ou um mastodonte partindo de um pedaço de ossinho, mas pode ocorrer também que com um pedaço de rabo de rato chegue-se, ao contrário, a uma serpente marinha” (Gramsci, 1987, p. 146). Em Buttigieg (2010), tradução de Luís Sérgio Henriques, aparece “monstro fabuloso”, ao contrário da tradução de Noenio Spínola de Gramsci acima citada (Gramsci, 1987) e também da versão espanhola traduzida por Manuel Sacristan (Gramsci, 1988b), onde aparece, respectivamente, “serpente marinha” ou “do mar”.



Este método se caracteriza, portanto, por pegar um pequeno fragmento da realidade (um pedaço do rabo de um rato, ou um trecho/frase de um livro) e a partir dele, usando a imaginação, se constrói uma realidade completa (um mastodonte ou uma ideologia), é um processo de redução e extrapolação. Exemplos disso serão desenvolvidos em outras notas e suas assertivas sobre o materialismo histórico são manifestações desse modo analítico (Viana, 2010). Obviamente que se pode retrucar dizendo que Gramsci admitiu produzir monstros fabulosos, mas apontou os perigos disto. Sem dúvida, e é evidente que Gramsci não produziu seu “método Frankenstein” de forma consciente e intencional, porém, não só algumas colocações suas sobre o método, como também suas análises de obras e autores, são manifestação desse procedimento analítico voltado para produzir “monstros fabulosos”.



Os gramscianos, usando este método Frankenstein, retiram dos escritos esparsos do mestre, um verdadeiro sistema que atribuem a ele e assim podem justificar suas práticas e ideias. Gramsci, um pensador sem grandes atributos, acaba se transformando num “clássico”, num “monstro fabuloso”. Assim, livros e mais livros são lançados sobre o “conceito de hegemonia em Gramsci”, ou sobre “Gramsci e o bloco histórico”, ou sobre a “concepção de Estado em Gramsci”, ou, ainda, sobre “Gramsci e a escola”, a “educação” ou os “intelectuais”. Basta pegar o exemplo de obras sobre “hegemonia”, o construto fundamental de Gramsci, que, no entanto, nunca recebeu tantas páginas pelo fundador do gramscismo quanto dos seus discípulos e não faremos uma lista, mas podemos citar, entre outros, aqueles autores que tematizaram em suas obras este aspecto do pensamento de Gramsci, tais como Gruppi (1991); Inocentini (1979) Santos (s/d), Dias (2000).



Sem dúvida, Gramsci escreveu uma grande quantidade de textos, porém, faltam sistematicidade e profundidade em tais escritos, bem como fundamentação, com raras exceções. As interpretações de Gramsci sobre Marx, Michels, Bukhárin, Maquiavel, Engels, padece de total falta de rigor e a criação imaginária substitui a leitura rigorosa e uma análise fidedigna aos escritos comentados. Um dia carrasco, outro dia vítima, eis o destino da obra de Gramsci.



Usado a torto e a direito, ou melhor, à “esquerda” e à direita, Gramsci é apenas mais um monstro produzido pela sociedade capitalista e pelos “intelectuais”, um dos temas prediletos do mesmo. E, claro, como ele bem previa, os intelectuais aglutinados no partido maquiavélico, o “moderno príncipe”, acabam gerando uma cultura que busca ser hegemônica, e assim atinge o círculo dos militantes pouco interessados em leituras e aprofundamentos, meros reprodutores e vulgarizadores de ideias gerais que não dominam mas que servem para justificar e legitimar suas práticas. Curiosamente, o destino de Gramsci é o mesmo que o de Lênin: ambos supervalorizam o intelectual, a vanguarda ou o “intelectual orgânico”, e ao invés dos seus escritos são seguidos por sua prática: “façam o que eu faço, não façam o que eu digo”. Assim, a vantagem dos intelectuais de partido seria seu “acesso à ciência burguesa” (Lênin, 1978) ou sua “capacidade centralizadora e disciplinadora” (Gramsci, 1988c) e, portanto, distintos das “massas”, dos “simplórios”, o que faz com que os militantes já se julguem acima dos “simplórios” e pertencentes à “casta dos intelectuais”, apesar de sua profunda inconsistência teórica e intelectual, sendo muitos apenas leitores de orelhas de livros, de comentaristas e vulgarizadores, tal como os “trotskistas que nunca leram Trotsky”.


Repetem com Lênin os adjetivos pejorativos, ou seja, retórica fácil para vencer debates, e com Gramsci, o método Frankenstein, a redução e extrapolação. Esses são os reprodutores dos ideólogos que criaram o monstro fabuloso chamado Gramsci e quanto mais os “grandes ideólogos” criam monstros, mais os vulgarizadores tratam de lhes dar ração e engordá-los e quanto maior eles ficam, mais impressionantes eles se tornam. Monstros fabulosos deixam “impressionistas” impressionados. Assim, Gramsci foi consumido pelo seu interesse pelos intelectuais e agora é consumido pelos interesses dos intelectuais, que o transformaram num monstro fabuloso já que os valoraram tanto. Gramsci valora os intelectuais e estes valoram aquele. São monstros fabulosos se reproduzindo.



Referências



BURRIGIEG, Joseph. O Método em Gramsci. Disponível em: http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=290 acessado em 07/09/2010.

DIAS, Edmundo. Gramsci em Turim. A Construção do Conceito de Hegemonia. São Paulo, Xamã, 2000.

GRAMSCI, Antonio. A Concepção Dialética da História. 6ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1988.

GRAMSCI, Antonio. Antologia. 11ª edição, Siglo Vienteuno, 1988b.

GRAMSCI, Antonio. Cartas do Cárcere. 3ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1987.

GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, A Política e o Estado Moderno. 6ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1988.

GRUPPI, Luciano. O Conceito de Hegemonia em Gramsci. 3ª edição, Rio de Janeiro: Graal, 1991.

INNOCENTINI, M. O Conceito de Hegemonia em Gramsci. São Paulo, Tecnos, 1979.

LÊNIN, W. Que Fazer? São Paulo, Hucitec, 1978.

SANTOS, João A. O Princípio de Hegemonia em Gramsci. Lisboa, Veja, s/d.

VIANA, Nildo. Introdução à Crítica da Ideologia Gramsciana. Mimeo. 2010.

4 comentários:

  1. Caraca!! Finalmente uma crítica de Gramci!! E de esquerda, parabéns!

    Se puder tocar em outros pontos seria demais!

    A qeuestão política, por exemplo.

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  2. Grato!

    Sobre a questão política, acabei de postar "O Maquiavelismo de Gramsci" e terão outras notas sobre Gramsci e leninismo, stalinismo, reformismo, etc.

    Abraços,

    Nildo.

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  3. Além do texto, as referencia citadas nos possibilitam um aprofundamento no conteúdo , nesse caso Gramsci, vlw

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