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sábado, 15 de janeiro de 2011

Engels e a Dialética


ENGELS E A DIALÉTICA



Nildo Viana



A dialética é um método ancorado numa teoria da história, da consciência e da realidade. Nada tem a ver com a ideologia das leis dos legisladores da realidade social e natural. O que diferencia uma da outra é que compreender a dialética como sendo composta por leis que se realizam (na história, na sociedade, na natureza, no pensamento) a desvincula da realidade social e da teoria da consciência exposta por Marx e outros, sendo uma concepção filosoficamente idealista. O idealismo, por sua vez, tem raízes sociais bem precisas. O idealismo é ideologia, falsa consciência sistemática, e pensa um "desenvolvimento autônomo das ideias", sendo que uma das grandes conquistas do materialismo histórico é provar que as ideias são constituídas socialmente.



Discutimos isto em outros lugares [1]. O que talvez não tenha sido devidamente aprofundado nestes textos foi o vínculo concreto entre bolchevismo e esta concepção de dialética com suas raízes sociais. Mas, voltando a Marx, é com a separação entre trabalho intelectual e manual que os especialistas no primeiro, os ideólogos, podem pensar a autonomia das ideias e o idealismo é sua forma mais clara e explícita desse processo. Neste sentido, são os detentores da produção cultural que produzem o idealismo, e, por conseguinte, se beneficiam dele. Hegel foi um grande filósofo idealista, apesar de ter produzido elementos interessantes sobre a dialética (devido seu vínculo com a revolução burguesa, daí a historicidade presente em sua concepção) e Marx apontou seu invólucro místico e nunca fez referências no sentido de adotar a versão místico-idealista de dialética de Hegel, o que Engels realizou após a morte de Marx. Assim, as divergências metodológicas revelam muito mais do que mera discussão metafísica sobre método.



O bolchevismo retoma Engels e esquece Marx por conveniência e derivado da base social do bolchevismo e seus interesses, tal como a supervaloração da ciência e dos intelectuais, o que justifica a direção burocrática sobre o proletariado. Para quem parte da perspectiva do proletariado isto é inadmissível, pois é necessário a autogestão das lutas pela classe operária e as concepções, inclusive as metodológicas, devem corresponder a esta necessidade. Pensar a dialética como método significa pensar que é um recurso heurístico, ferramenta intelectual, para se pensar a realidade, mas que não tem muito valor sem sua base fundamental, o conjunto de valores, sentimentos, etc., que permite um uso adequado e que vai além do método, pois ele não é um modelo que pode ser usado de forma "neutra" e "desinteressada" e por isso necessita da perspectiva do proletariado, da emancipação humana concreta, para que ganhe a criticidade e radicalidade necessária para superar o mundo das ideologias e aproximar o máximo da realidade concreta.



É por isso que vários autores defenderam a autonomia do marxismo, tal como Labriola, Lukács e Korsch. O marxismo não pode ser "completado" por nenhuma outra concepção, pois os demais métodos, etc., trazem em si valores, concepções, interesses, sentimentos, etc., antagônicos aos do proletariado. Eles podem ser assimilados pelo marxismo, mas não ser um "complemento".



Engels é marxista? Depende do que se entende por "marxista". Se marxista for aquele que segue o pensamento de Marx, então Engels – apesar de dizer que seguia tal pensador – não é marxista, pois diverge dele em vários sentidos (tal como se pode ver nas análises do Jovem Lukács, Sacristán, Rubel, etc.). Se por "marxista" se entende que expressa teoricamente o proletariado, então Engels – apesar de algumas obras que apontam para tal expressão, com ambigüidades que nunca superou totalmente – também não é marxista, pois não só sua dialética idealista-positivista, como suas concepções políticas e relação com social-democracia após morte de Marx deixa isso claro. Há uma divergência fundamental entre Marx e Engels e essa se manifesta no plano metodológico (já aludido), político, etc., e isso ficou mais forte depois da morte do primeiro, mas já existia em grau menor antes disso. Inclusive havia divergências explícitas, tal como no caso Tremáux, no qual Engels manifesta sua tendência de adequação acrítica às ciências naturais e elogio de Darwin e darwinismo enquanto que Marx apresentava uma posição crítica e mais ampla metodologicamente nesse caso. A raiz da divergência ocorre devido ao fato de que Marx tinha uma perspectiva proletária mais desenvolvida teoricamente (maior profundidade e desenvolvimento tanto no plano metodológico quanto teórico) e mais proximidade valorativa, afetiva, com o proletariado. Engels já tinha menor desenvolvimento teórico-metodológico e proximidade valorativo-afetiva com o proletariado. Porém, isso se aprofundou com a morte de Marx, pois ele teve que dar respostas políticas e práticas, por um lado, e intelectuais, por outro, em outro contexto e com grande proximidade com a social-democracia, primeira forma de pseudomarxismo, um reino de intelectuais e burocratas.



Nesse sentido, o "último Engels" não era um burocrata, pois não tinha essa condição de classe e sim capitalista (era filho de industrial e como herdeiro e depois proprietário), mas sua posição era expressão dessa nova fração da burocracia expressa na social-democracia, que, por sinal, possui muitas afinidades ideológicas com a classe burguesa. Porém, como já dizia Marx, a relação de um indivíduo como representante intelectual de uma classe determinada se manifesta na correspondência entre as ideias produzidas e os problemas e respostas que determinada classe apresenta. Nesse sentido, Engels produziu várias obras problemáticas e não conseguiu ser uma expressão teórica do proletariado, a não ser de forma muito limitada e cada vez mais se afasta dessa posição e se aproxima da ideologia da burocracia, o que possibilitará a apropriação de suas ideias pela social-democracia e depois pelo bolchevismo.




[1] Viana, Nildo. Escritos Metodológicos de Marx. Goiânia, Alternativa, 2007; Viana, Nildo. A Consciência da História. Ensaios sobre o Materialismo Histórico-Dialético. 2ª Edição, Rio de Janeiro, Achiamé, 2007.

2 comentários:

  1. O texto é muito bom, concordo em grande parte com ele. O último Engels já transitava para a social democracia reformista e tinha grandes problemas metodológicos, mas produziu grandes obras como a questão da autoridade, e a origem da família, propriedade privada e do Estado. Além disso, seu prefácio à guerra civil na França é ateh melhor que o livro de Marx, por isso não podemos descartá-lo, não podemos ignorar suas contribuições, embora devemos lê-lo criticamente.

    Chamar Engels de pseudomarxista é, por isso exagero. Ele segue as ideias de Marx tanto que quase todos as obras do autor são escritas em colaboração com Marx. Para descartá-lo seria necessário psicografar marx e descobrir quais pedaços, análises e contribuições são de um e quais são de outro. Ser marxista não é interpretar corretamente Marx, pois não há unanimidade das interpretações de Marx em nenhum autor, mesmo quanto aos concelhistas. Maurírico Tragtenberg, Pannekoek e Nildo Viana interpretam marx de forma diferente, chegando mesmo a estar em oposição. Por fim reafirmo que a leitura de Engels deve ser crítica e cautelosa e devemos perceber que não há unanimidade entre os dois fundadores do marxismo como revela o texto.

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  2. Gabriel, entendo sua argumentação, mas ela é equivocada em vários pontos. O texto de Engels sobre 'Autoridade" é horrível, umas das piores coisas que ele escreveu e muitos não sabem o contexto em que ele o produziu, a maioria pensa que ele o fez para combater os anarquistas e, na verdade, ele combatia dissidentes internos da socialdemocracia que já a criticavam e expunhas suas bases sociais não proletárias. O prefácio do Engels é bem limitado e não vejo como compará-lo com a análise de Marx. O texto sobre origem da família, que ele se inspirou nas anotações de Marx (...) é melhorzinho, mas nada de excepcional e com alguns problemas. Outro problema de sua análise é a concepção dogmática de marxismo... ser marxista para você é "seguir as ideias de Marx"... Oras, assim a coisa fica religiosa, se seguiu os escritos sagrados de Marx é marxista... A minha concepção de marxismo, que está no livrinho "o que é marxismo", é a de que ele é "expressão teórica do movimento revolucionário do proletariado" e Marx foi apenas o primeiro a manifestar teoricamente esse movimento e por isso o nome e a referência à Marx. A sua afirmação de que "quase todas as obras do autor são escritas em colaboração com Marx" é totalmente equivocada. Ele escreveu poucas obras com Marx e a maioria foi sem ele e, além desse fato, ele assinou livros com Marx que este produziu quase tudo. No caso da ideologia alemá, o próprio Engels reconhece em carta, ele só escreveu 6 páginas. Para analisá-lo (e não descartá-lo, e esse é um erro comum, ao fazer uma crítica a uma questão pontual ou a um autor, logo vem alguém querendo dizer que nada se aproveita no autor... ora, o texto sobre guerras camponesas do Engels é importante, assim como algumas outras contribuições... a questão é o dogmatismo: se não é marxista não serve para nada... o conceito (não é xingamento, como os dogmáticos podem pensar) de pseudomarxismo expressa apenas que algumas pessoas se dizem marxistas e não expressam teoricamente o proletariado, nada mais, nada menos... e por Marx ser o fundador de tal teoria então obviamente também não tem total concordância com ele). Para criticá-lo ou para considerar qualquer autor como pseudomarxista basta levar isso em consideração e mostrar a discordância com Marx tem esse papel e não é preciso psicografar este para ver as discordânicas, basta ler o autor em questão e comparar com o que escreveu Marx e pronto. A questão realmente não é de interpretação... e nem de relativismo... Agora, por curiosidade, qual é a oposição na interpretação de Marx entre os três autores citados?

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