segunda-feira, 9 de maio de 2011

A Formação da Sociologia Brasileira



A Formação da Sociologia Brasileira

Maria Angélica Peixoto
Nildo Viana

A sociologia no Brasil nasce com a herança cultural da Europa, berço de nascimento da ciência da sociedade. Devido a isto, é necessário entender o surgimento da sociologia na Europa para compreender o seu processo de constituição em nosso país. A sociologia, assim como qualquer outro produto cultural, é um fenômeno social e que possui determinações sociais. Iremos destacar as origens da sociologia na Europa e seu desenvolvimento para, posteriormente, analisar o seu processo de formação no Brasil.

Surgimento e Desenvolvimento da Sociologia na Europa

Podemos dizer que toda ciência possui um processo de constituição que pode ser dividido em formação, sistematização e consolidação. A fase formativa é aquela na qual surgem alguns dos seus termos e algumas teorias. É o que Augusto Comte denominou fase “pré-científica”, onde os alguns elementos aparecem de forma rudimentar e convivendo com outras visões, não-científicas. A fase de sistematização é a fase científica propriamente dita, na qual as bases teórico-metodológicas são construídas e o objeto de estudo delimitado. A fase de consolidação é a fase na qual a referida ciência se desenvolve, através da ampliação e expansão. Este processo ocorreu na Europa e também no Brasil, mas de forma diferenciada, como veremos a seguir.
A sociologia tem seu surgimento na Europa através de um longo processo histórico. O período de formação ocorreu no século 18, quando surgem as primeiras tentativas e pensadores buscando pensar a sociedade de forma científica, mas sem superar ainda a visão filosófica então predominante. Este é o período no qual surgem as obras de Herbert Spencer, Pierre-Joseph Proudhon e Augusto Comte. Este último cria a palavra sociologia, o que para muitos justifica apresentá-lo como “pai da sociologia”. No entanto, tanto Comte como Spencer, Proudhon e diversos outros pensadores da época, ainda não haviam conseguido sistematizar a sociologia como ciência e nem se livrar da influência da filosofia.
O período de sistematização, que marca o nascimento da nova ciência, data do século 19, que é quando surgem as grandes obras sociológicas e os pensadores considerados clássicos desta ciência. É neste período que Durkheim, Marx e Weber (este começa a produzir no final do século e início do século seguinte) lançam as bases teóricas e metodológicas da ciência da sociedade. Durkheim irá lançar as bases positivistas da sociologia e buscar construir o objeto de estudo da sociologia, o que ele denominou “fatos sociais”. Marx irá desenvolver o materialismo histórico e o método dialético, e erigir a sua teoria do capitalismo e da revolução proletária. Weber, por sua vez, era apresentar uma nova visão das bases metodológicas da sociologia e desenvolver diversos estudos sobre a sociedade moderna. Estes três pensadores sistematizaram a sociologia e lançaram as bases teórico-metodológicas da sociologia, sob formas diferentes, e seriam aqueles que iriam influenciar a produção sociológica posterior.
O período de consolidação ocorre no século 20, que é quando as bases lançadas pelos clássicos são aplicadas, desenvolvidas, mescladas e ocorre a institucionalização e reconhecimento da sociologia como ciência na comunidade científica e nas universidades.
No entanto, a história do surgimento e desenvolvimento da sociologia no Brasil ocorreu de forma diferente. Iremos discutir tal diferença e apresentar uma breve história da formação da sociologia brasileira a seguir.
Para compreender a defasagem do desenvolvimento da história da sociologia brasileira em relação ao caso europeu é preciso compreender o contexto histórico e social que engendrou a sociologia em ambos os casos. Por isso devemos, em primeiro lugar, analisar o contexto histórico que engendra a sociologia e depois analisar o caso brasileiro.
As pré-condições para o surgimento da sociologia são a formação do capitalismo e seu desenvolvimento, proporcionando novas lutas de classes (burguesia e proletariado), novos problemas sociais, e uma ampliação da racionalização e da divisão social do trabalho, o que faz emergir o que Bourdieu denomina “campo científico” e outros autores chamam “comunidade científica”, o desenvolvimento das ciências naturais e o progresso tecnológico e científico que traz legitimidade e status superior ao novo ramo do saber, a ciência. Assim se desenvolvem as ciências particulares, entre elas a sociologia, isto é, uma subdivisão no interior de um campo mais amplo. Inúmeros autores que trabalharam a história da sociologia colocam que ela é “filha da revolução”, ou seja, é produto das revoluções burguesas e da revolução industrial, que constituem os fenômenos sociais acima aludidos, consolidando o modo de produção capitalista.

Sociedade Brasileira e Formação da Sociologia

Iremos abordar, a partir de agora, o processo de modernização da sociedade brasileira. Tal processo de modernização é marcado pela expansão da sociedade capitalista. Este processo de modernização proporciona várias mudanças em uma determinada sociedade, tal como o processo de industrialização, elemento fundamental por instaurar novas relações de produção, urbanização, racionalização, entre outros.
Aqui temos os dois elementos que nos ajudam a compreender o processo de constituição da sociologia no Brasil: um desenvolvimento econômico incipiente ao lado do intercâmbio cultural com países mais desenvolvidos. Isto permite um desenvolvimento tardio da sociologia no Brasil, pois seu período pré-sociológico (até década de 30) se caracteriza pela importação cultural derivada de um intercâmbio com outras culturas que produziam uma sociologia mais sistematizada e institucionalizada. O seu caráter pré-sociológico é possível graças a este intercâmbio cultural que ocorria sem as bases materiais, o desenvolvimento capitalista, já que a sociologia como ciência surge a partir do aparecimento do capitalismo.
Assim, sua formação e institucionalização datam da consolidação do capitalismo tardio no Brasil, no qual a urbanização e industrialização se tornam predominantes em nosso país. A determinação fundamental da formação tardia da sociologia brasileira é a formação de um capitalismo retardatário em nosso país. Este capitalismo retardatário pressupõe um desenvolvimento capitalista avançado em outros países e de relações entre estas duas formas de capitalismo. Esta relação ocorre sob o signo da subordinação econômica que se reproduz sob a forma cultural e científica. Sendo assim, a formação tardia da sociologia brasileira é derivada desta situação do capitalismo em nosso país.
Assim, o estágio pré-científico da sociologia no Brasil (ou sua fase “pré-sociológica”, como colocam alguns autores) se realiza não através das primeiras tentativas de criação desta ciência e sim através da importação da produção sociológica européia e uso de termos (tal como o próprio termo sociologia) sem uma autêntica produção sociológica. Esta fase é possível devido ao intercâmbio cultural e subordinação científica, o que produz “idéias fora do lugar” e manifestações rudimentares, convivendo com formas mais desenvolvidas em outros países. A formação da sociologia brasileira, sua fase científica, ocorre com o desenvolvimento capitalista no Brasil, o processo de industrialização, proporcionando a base material para o seu desenvolvimento e sistematização.
No entanto, devemos alertar que este não é um caso específico do Brasil. Nos Estados Unidos o desenvolvimento da sociologia também foi posterior ao que ocorreu na Europa, mas ele ocorreu de forma mais acelerada devido ao processo de consolidação e expansão do capitalismo ter ocorrido de forma mais rápida. Assim, em geral, o surgimento da sociologia fora do continente europeu é posterior, pois é neste que o capitalismo surge inicialmente e se torna hegemônico. Nos países fora do continente europeu em que ocorre um rápido processo de industrialização também há um desenvolvimento da sociologia, embora peculiar e ligado às influências européias. No conjunto dos países considerados de desenvolvimento capitalista retardatário, que não é o caso apenas do Brasil, mas de toda a América Latina, África e diversos países em outras regiões do mundo, há também um desenvolvimento retardatário da sociologia (e das demais ciências humanas).
O capitalismo brasileiro surge de forma tardia em comparação com a Europa e alguns outros países. O sistema colonial produziu no Brasil uma sociedade escravista colonial, marcada pelo trabalho escravo como forma dominante de exploração do trabalho ligado ao sistema colonial, que drenava as riquezas aqui produzidas e as transferiam para a nação colonizadora. Assim, o escravismo colonial se diferenciava do escravismo antigo, já que ocorria no interior de uma divisão internacional do trabalho instituída pelo capitalismo mundial e sustentando o processo denominado “acumulação primitiva de capital”, que antecedeu ao processo de instituição da acumulação propriamente capitalista. Neste sentido, não havia a menor possibilidade do surgimento da sociologia durante o período escravista colonial, pois não havia em nosso país as condições necessárias para o seu surgimento e desenvolvimento.
O processo de abolição da escravidão e a formação do mercado de trabalho livre já convivem com os primeiros passos de industrialização no Brasil. As primeiras indústrias vão surgindo no Brasil no final do século 19. Este processo de industrialização vai seguindo uma linha evolutiva de acumulação que permite um desenvolvimento nacional em bases capitalistas. Este processo foi acompanhado por inúmeras mudanças sociais, políticas e culturais.
No Brasil ocorre uma industrialização tardia. Segundo Cardoso de Mello (1986), a industrialização brasileira se acelera a partir da crise de 1929, o que significa o aceleramento de um processo já em andamento. O início da industrialização no Brasil ocorre no final do século 19 mas seu processo de expansão data do início do século 20. É neste contexto que temos a industrialização brasileira de forma mais intensa e é, segundo Cardoso de Mello, a partir de 1929 que temos sua aceleração. A América Latina passa a constituir economias exportadoras a partir deste período, e é neste contexto que surgem as teses da “substituição de importações”. Neste contexto, temos o surgimento de “economias capitalistas exportadoras”, com o modo de produção capitalista tornando-se dominante na América Latina. A economia cafeeira paulista impulsiona a industrialização brasileira com o capital monetário acumulado, a transformação da força de trabalho em mercadoria, e a formação de um mercado consumidor interno. Este processo gera uma industrialização restringida que só se expande a partir de 1933, se estendendo até 1955. Neste momento, a acumulação capitalista brasileira se liberta da dependência da economia cafeeira.
Portanto, temos um processo de formação do capitalismo extremamente lento no Brasil. O capitalismo brasileiro dá os seus primeiros passos com o início da industrialização no final do século 19, vai se consolidando no decorrer do século 20 e somente se autonomiza do setor agrícola a partir de 1955. A lentidão deste processo decorre de sua industrialização tardia em relação aos demais países capitalistas avançados, o que o faz entrar na divisão internacional do trabalho de forma subordinada, pois o mercado mundial já estava dominado pelas grandes potências bem como as possibilidades de importação e exportação estavam dadas, sendo que a produção de bens de produção era pouco incentivada nos países de capitalismo retardatário, já que sua produção ocorria nos países centrais.
No caso do Brasil, temos um processo de formação cultural caracterizado pela importação de idéias estrangeiras bem como a falta de classes sociais relativamente independentes e por uma situação de concentração da produção capitalista em determinadas regiões (eixo Rio-São Paulo) convivendo com a manutenção de relações agrárias na maior parte do território brasileiro. A formação de instituições de ensino superior no Brasil, bem como de tradições científicas e da própria comunidade científica, foi muito posterior à ocorrida na Europa.
É a partir da década de 60 que o capitalismo brasileiro se encontra sintonizado com os elementos mais característicos do modo de produção capitalista e sua superestrutura, pelo menos na maior parte do país, apesar de ainda haver regiões mais voltadas para a produção agrária e dominadas por relações sociais tradicionais.
No caso brasileiro, temos apenas alguns esboços de influência cultural. O positivismo enquanto pensamento político se tornou influente nas terras brasileiras desde o período republicano. Mas o capitalismo tardio no Brasil começou a se consolidar já no início do século 20. É neste momento que o positivismo já citado e as idéias anarquistas, entre outras importadas da Europa, começaram a se fazer presentes. No plano científico havia um completo descompasso entre a produção européia (e já também a norte-americana) e a brasileira, pois no primeiro caso temos já a consolidação das ciências humanas, nos quais o pensamento clássico das principais ciências humanas já está produzido e os campos de pesquisa e institucionalização estão bastante avançados. É somente no período posterior à Revolução de 1930 que os primeiros sinais de produção sociológica seriam esboçados no Brasil. 

A Sociologia no Brasil

Após estas considerações sobre as condições sociais e históricas para o surgimento da sociologia no Brasil, passemos para a análise da produção sociológica no Brasil. A fase formativa (pré-científica ou pré-sociológica) vai do final do século 19 até a década de 30, que é o período que inicia a industrialização brasileira. A proclamação da república marca uma influência crescente das ideologias vindas da Europa e a hegemonia portuguesa é substituída pela inglesa, no plano econômico, e francesa, no plano cultural. O positivismo de Augusto Comte é a principal inspiração ideológica do republicanismo, especialmente sua obra Política Positiva. A bandeira brasileira foi a expressão mais visível desta inspiração, já que nela está impressa a máxima comteana: “Ordem e Progresso”.
É neste período que aparecem os primeiros esboços pré-científicos da sociologia. Isto ocorre através das obras de Oliveira Vianna, Silvio Romero, Florentino de Menezes, Paulo Egydio, entre outros. Data desta época o uso da palavra sociologia para qualificar os estudos publicados, tal como se vê nas obras de Paulo Egydio, Estudos de Sociologia Criminal; Florentino de Menezes, Estudo de Sociologia; e Silvio Romero, Ensaios de Literatura e Sociologia. No entanto, neste período não havia nenhuma elaboração teórica consistente ou aplicação empírica de forma sistemática. Esta fase vai até 1930.
A partir de 1930 temos uma nova fase da sociologia brasileira, que não pode ser comparada ao caso europeu, pois naquele contexto a fase formativa foi substituída pela fase de sistematização ou fase clássica. No entanto, como a sociologia já havia sido sistematizada na Europa, a fase seguinte no Brasil que sucede sua fase formativa é a de organização, na qual ocorre sua institucionalização e a produção européia passa a ser melhor assimilada e reproduzida em nosso pais. Isto ocorre como produto das mudanças sociais, tal como o avanço da industrialização brasileira, antes concentrada principalmente em São Paulo, a Revolução de 1930, a derrubada das oligarquias e a formação de um novo Estado Nacional, além de diversas outras mudanças que ocorreram no período.
Também ocorria neste período um amplo desenvolvimento institucional do ensino superior da comunidade científica no Brasil. Em 1934, é fundada a Universidade de São Paulo e a partir desta época a influência da produção científica européia se torna mais intensa nos novos pesquisadores, segundo Schwartzman. Isto ocorre principalmente através do intercambio internacional (publicação em revistas estrangeiras, viagens para especialização no exterior).
As mudanças na produção sociológica brasileira são visíveis. Ocorre, neste período, a criação da Escola Livre de Sociologia e Política, o primeiro passo de sua institucionalização. A formação ou ampliação de novas classes e instituições sociais expande a divisão social do trabalho e as especialidades. O desenvolvimento de instituições educacionais e empresariais cria novas demandas sociais e incentivam o ensino de sociologia, não somente para abordar tais mudanças e fornecer sua explicação mas também fazendo parte deste mesmo processo. Este processo de institucionalização da sociologia afeta a produção sociológica, pois provoca, Segundo Florestan Fernandes, a organização sob novas bases da produção sociológica e cria um mercado consumidor orgânico. Segundo Fernandes, o ensino universitário deu ao sociólogo uma carreira regulamentada academicamente e possibilitou a união entre ensino e pesquisa, criando padrões de trabalho intelectual. Assim, houve um salto de quantidade e qualidade.
Ao lado disso ocorreram outras mudanças, tal como a tradução de obras clássicas, a produção de livros didáticos de sociologia, fundação da Sociedade de Sociologia de São Paulo, a vinda de sociólogos europeus para lecionarem no Brasil (Roger Bastide, Jacques Lambert, Levi-Strauss, Pierre Mombeing, Horace Davis, A. Gross, P. A. Bastide, entre outros). Estes sociólogos estrangeiros influenciam a formação dos sociólogos brasileiros e incentivam o desenvolvimento do trabalho de campo, da pesquisa empírica. A produção sociológica também dá um salto de qualidade, comparando-se com o período anterior a 1930, com as obras de Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior. Alguns dos representantes da fase pré-sociológica continuavam produzindo suas obras, mas os novos sociólogos que estavam sendo formados já sentiam a influência dos estrangeiros e dos novos destaques brasileiros da sociologia, principalmente os professores universitários da Universidade de São Paulo, que integrou a Escola Livre de Sociologia e Política.
As obras de Fernando de Azevedo se incluem neste salto de qualidade da produção sociológica. Sua obra Princípios de Sociologia (1935) mostra um domínio da teoria sociológica e uma síntese pessoal, embora não muito original, da ciência sociológica. Outras obras deste autor, entre as quais, A Cultura Brasileira e Sociologia Educacional, também deram uma forte contribuição para a sociologia deste período. A obra de Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima), Preparação à Sociologia, voltada para discutir questões teóricas da sociologia, também contribuiu com a formação da sociologia brasileira. O pequeno ensaio de Arthur Ramos, As Ciências Sociais e os Problemas de Após-Guerra, de 1944, assume o papel de importante reflexão sobre os caminhos da sociologia na sociedade brasileira. Outros sociólogos da época, tal como Delgado de Carvalho, Carneiro Leão, Djacir Menezes, também apresentaram ao público obras introdutórias que ajudaram na formação de uma nova geração de sociólogos.
Após 1945, a sociologia brasileira entra na sua fase de consolidação. Esta fase é marcada pela sistematização da aplicação de referenciais teóricos oriundos da Europa e Estados Unidos e esboços de novos conceitos mais adequados à realidade brasileira são desenvolvidos. Também ocorre uma expansão do ensino de sociologia e do uso mais sistemático de técnicas de pesquisa. É neste período que surgem as obras de sociólogos como Florestan Fernandes, Luiz Aguiar Costa Pinto, Leôncio Martins Rodrigues, Juarez Brandão Lopes, Luiz Pereira, Octávio Guilherme Velho, entre outros. Alguns representantes da fase de organização, como Caio Prado Júnior e Gilberto Freyre continuam produzindo nesta época. Novos temas passam a ser abordados, tal como o processo da revolução brasileira, a industrialização e a classe operária, o subdesenvolvimento, etc. Entre as obras de destaque deste período, podemos citar: Campesinato e Capitalismo Autoritário, de Octávio Guilherme Velho; Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento, de Florestan Fernandes; A Revolução Brasileira, de Caio Prado Júnior; Industrialização e Atitudes Operárias, de Leôncio Martins Rodrigues. A partir deste período, a sociologia brasileira ganha maior autonomia, ultrapassando a mera importação de idéias. Esboçou-se, assim, novos conceitos e “tipologias nacionais”, tal como coloca Gomes (1994, p. 8).
O desenvolvimento da sociologia brasileira pós-45 pode ser explicado pelo desenvolvimento (intelectual e institucional) acumulativo da sociologia, pela institucionalização do período anterior, a vinda de sociólogos estrangeiros, pela formação de novos sociólogos mais profissionalizados e especializados e, principalmente, pelas mudanças sociais. Dentre estas mudanças, cabe destaque para o chamado “modelo de substituição de importações”, a ascensão do populismo, a ampliação da urbanização e industrialização, a expansão do sistema de ensino (institutos de pesquisa, consolidação da comunidade científica), crescimento da demanda por títulos universitários, aprofundamento da racionalização e a nova onda de desenvolvimento da sociologia norte-americana e européia no pós-guerra exerceram uma grande influência no desenvolvimento da sociologia brasileira.
Cabe destaque a obra de Guerreiro Ramos, A Redução Sociológica (1965), um marco do pensamento sociológico brasileiro, publicada em 1958. O grande mérito desta obra é ter, simultaneamente, criticado o colonialismo cultural existente no Brasil (inclusive Florestan Fernandes, uma de suas figuras mais proeminentes) e defendido idéias inovadoras. Guerreiro Ramos defendeu a necessidade de uma “consciência crítica da realidade nacional” em contraposição ao que denominou “sociologia enlatada” ou “sociologia consular”. A deficiência da sociologia no Brasil, segundo ele, era derivada da dependência da sociedade brasileira. Segundo ele, esta deficiência da sociologia brasileira se manifestava sob a forma de alienação, já que o sociólogo brasileiro reproduzia a sociologia estrangeira de forma mecânica, servil, e sem observar os seus pressupostos históricos, abrindo mão do senso crítico em troca do prestígio de exibir os nomes estrangeiros ao grande público.
A obra de Guerreiro Ramos teve repercussão, inclusive em outros países, tal como o México, e além de apresentar uma discussão inovadora sobre a sociologia e problematizar a sociologia brasileira, principalmente seu caráter subsidiário da sociologia estrangeira, acabou influenciando a produção sociológica brasileira e contribuindo com sua maior independência em relação aos cânones estrangeiros. Esta obra marca um processo de maturidade da sociologia brasileira, embora ainda permaneça, até os dias de hoje, sendo uma sociologia enlatada. A fase seguinte da sociologia brasileira é que ocorre a partir da segunda metade dos anos 60, mas já enquanto ciência consolidada e que, portanto, ultrapassa o seu período de formação, objetivo do presente artigo.
Assim, observamos que a sociologia brasileira surge de forma retardatária em relação aos grandes centros mundiais mas que se desenvolveu de forma relativamente rápida, principalmente a partir dos anos 30. Hoje a sociologia brasileira já tem condições de ser o que Guerreiro Ramos pioneiramente colocou como necessidade: uma “consciência crítica da realidade nacional”. Agora só faltam os agentes desse processo.

Bibliografia

Athayde, Tristão de. Preparação à Sociologia. Rio de Janeiro, Centro Dom Vital, 1931.
Azevedo, Fernando. Princípios de Sociologia. 9ª edição, São Paulo, Melhoramentos, 1964.
Bourdieu, Pierre. O Campo Científico. In: Cohn, Gabriel (org.). Bourdieu. Col. Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática, 1994.
Bourdieu, Pierre. Questões de Sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.
Cardoso de Mello, João Manuel. O Capitalismo Tardio. São Paulo, Brasiliense, 1986.
Costa Pinto, Luiz Aguiar. La Sociologia del Cambio y el Cambio de la Sociologia. Buenos Aires, Editorial Universitária, 1963.
Cuin, Charles-Henry e Gresle, François. História da Sociologia. São Paulo: Ensaio, 1994.
Fernandes, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil. Ensaio de Interpretação Sociológica. 3ª edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1987.
Fernandes, Florestan. A Sociologia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980.
Gomes, Cândido Alberto. A Educação em Perspectiva Sociológica. 3ª ed. São Paulo: Epu, 1994.
Ianni, Octávio. Sociologia e Sociedade no Brasil. São Paulo, Alfa-Omega, 1975.
Ramos, Arthur. As Ciências Sociais e os Problemas de Após-Guerra. Rio de Janeiro, Ceb, 1944.
Ramos, Guerreiro. A Redução Sociológica. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1965.
Schwartzman, Simon. Formação da Comunidade Científica no Brasil. São Paulo, Nacional, 1979.
Tavares, M. C. Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro. 2ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1973.
Viana, Nildo. Introdução à Sociologia. Belo Horizonte, Autêntica, 2005.

8 comentários:

  1. Olá (:
    Até onde sei , Filosofia e Sociologia se separam porque a Filosofia é exclusiva ao pensamento. Mas vcs citaram os grandes ícones desta ciência como pensadores . Então como diferenciar uma da outra ?
    Outra dúvida: se a Sociologia começou com o capitalismo, quer dizer que se nossa sociedade até hoje fosse uma sociedade sem classes essa ciência existiria, uma vez que não haveriam muitos fenômenos sociais a serem estudados? E eu não entendi porque não havia condições dessa ciência ter se desenvolvido em nosso país na época escravista...
    No entanto, dá pra entender por que esse país demorou a desenvolver as ciências humanas - o Brasil sempre importou tudo. Faz pouco tempo que começou a PENSAR EM PENSAR por conta própria. Acho que nos acostumamos a ter tudo importado, por isso a dificuldade de desenvolver ciências humanas neste país.
    Abraços.

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  2. Prezada Dilly,

    A diferença entre filosofia e ciência é uma questão bastante complexa. Discuti isso no livro A Filosofia e Sua Sombra e um pouco em Introdução à Sociologia. Assim, de forma simples, podemos colocar que a filosofia busca a prova racional e a ciência, incluindo a sociologia, a prova empírica. Não entendi o que quis dizer com dois ícones desta ciência (sociologia) serem citados como "pensadores", pois o termo "pensadores" não é exclusivo da filosofia, todos somos, de certa forma, pensadores. Além disso, no texto há referência aos precursores da sociologia (Comte, Spencer, etc.), que ainda estão sob influência da filosofia e por isso estão no meio do caminho entre sociologia e filosofia, que é o caso de indivíduos e não da ciência, que é sistematizada a partir de Durkheim e, depois, Weber. Quanto ao caso do Marx, ele não era sociólogo (e nem filósofo, a não ser por sua formação em filosofia), já que ele rompia com os parâmetros das duas e não se dizia nenhuma coisa nem outra. A essência do marxismo difere tanto da ciência (e, logo, da sociologia) quanto da filosofia. A questão é que Marx é considerado um clássico da sociologia (e também, embora de outra forma, na filosofia, história, etc.), por ter produzido uma teoria da sociedade e do capitalismo mais especificamente e influenciado gerações de sociólogos.

    A sociologia surge com o capitalismo, devido a um conjunto de condições históricas, entre elas o surgimento da ciência (na forma de ciências naturais, pois sem isso seria impossível pensar em ciência da sociedade), o processo de racionalização e declínio do pensamento teológico e religioso (o que alguns chamam de secularização), problemas sociais, etc. A ciência em geral é um produto do capitalismo e, portanto, em sociedades pré-capitalistas ela não existe (existe filosofia, teologia, etc.). No caso das sociedades sem classes, é preciso distinguir as pré-classistas (sociedades "primitivas" e "indígenas") e sociedades pós-classistas (o projeto autogestionário, comunista, de sociedade do futuro que teve apenas esboços). No primeiro caso, não havia condições e nem necessidade de ciência, bem como no segundo caso, porém, no passado havia o mito como forma de explicação da realidade natural e social, e na sociedade do futuro, autogerida, uma nova forma de pensamento, que podemos denominar "teoria", é desenvolvida para explicar a realidade social e natural.

    Grato pelas observações, abraços,

    Nildo.

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  3. Professor muito obrigada, seu texto e explicações mi auxiliarão e muito.

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  4. Professor muito obrigada, a suas explicações foram de grande ajuda, mi auxiliarão em duvidas que eu tinha referentes a Sociologia.

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  5. Obrigado imensamente professor. Utilizarei muito de suas explicações

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  6. alguém por favor quem foi afinal o verdadeiro responsável pela sociologia no Brasil?

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