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sexta-feira, 6 de novembro de 2026

A BUSCA DE SOLUÇÃO E AS SOLUÇÕES ILUSÓRIAS - NILDO VIANA

 


A Busca de Solução e as soluções ilusórias


Nildo Viana


Qual seria a solução? Esta é a pergunta que muitos fariam. No plano político, aceitar o conservantismo (ou o neoliberalismo conservantista)[1] e evitar o neoliberalismo progressista (ou sua versão neopopulista, da chamada “esquerda”)[2] para impedir conflitos? Adotar a concepção progressista e as ilusões do antifascismo que apenas servem para suportar o insuportável? No plano moral, abandonar o moralismo subjetivista e aceitar o moralismo conservador? Ou adotar o moralismo subjetivista e reproduzir os seus problemas insolúveis e simples condenar o moralismo conservador? No plano tecnológico, fechar a internet e as redes sociais virtuais? Destruir a tecnointeligência (“inteligência artificial”)? Sem dúvida, existem diversas outras pseudossoluções, mas essas seriam levar ao extremo o que as concepções mais influentes atualmente defendem.

A roda da história não anda para trás e, portanto, apenas abandonar o que vem sendo feito não vai resolver os problemas mais amplos que os geram: a acumulação de capital e a política cultural que corresponde aos seus interesses, bem como o conjunto de contradições da sociedade capitalista, ou então aderir às respostas conservadoras. No fundo, é preciso combater o conservantismo, o neoliberalismo, o progressismo, o subjetivismo, e todas as concepções semelhantes e próximas, bem como todos os moralismos, tanto o subjetivista quanto o conservador, ou qualquer outro, pois o moralismo é um problema em si mesmo, seja numa ou noutra forma.

O moralismo, em si, é um problema. Se ele é “progressista”, seja objetivista (como o bolchevista) ou “subjetivista” (como o que é hoje hegemônico), seja o conservador, seja o conservantista ou o neoliberal, nada altera. O moralismo tem como problema básico a moral, normas rígidas de comportamento, que não leva em consideração a realidade concreta. Esse elemento essencial, desconsideração pela realidade concreta (historicidade, totalidade, essencialidade), é que permite os diversos problemas derivados das justificativas dos moralistas. É por isso que suas normas de comportamento não conseguem captar as diferenças de relações em classes sociais diferentes, em regiões diferentes, em coletividades diferentes, bem como não só interpreta a partir de generalizações como buscar impor comportamentos de forma generalizada.

E essa desconsideração sobre a realidade concreta se manifesta na análise e nas relações estabelecidas. Por exemplo, questões complexas como a formação de um padrão dominante de beleza feminina pode ser reduzida, nas concepções mais simplistas, a uma “dominação masculina”. Assim, o processo histórico concreto e os interesses reais (que remete para o capital comunicacional e capital cosmético) se desvia para a culpabilização dos homens. Do outro lado, o discurso masculinista sobre as “mulheres interesseiras” é simplificador e gera generalizações que não conseguem dar conta do processo real de constituição de determinado comportamento feminino em certos setores e contextos, gerando uma suposta “essencialidade” feminina. A situação da mulher no capitalismo, os valores dominantes, a relação entre processos psíquicos e erotismo, entre outros aspectos, desaparecem da análise e isso permite a essencialização – e culpabilização – das mulheres. Assim, a partir de concepções equivocadas e simplificações de coisas complexas, se cria uma moral que prega comportamentos rígidos e julga e condena com uma ampla facilidade, independentemente dos contextos[3].

As soluções reais, por sua vez, são consideradas “utópicas” e exigem sacrifícios que as pessoas voltadas para seus interesses pessoais não estão dispostas a assumir. Porém, as contradições não só continuam existindo, mas se ampliam. E, ao lado dos problemas culturais e psíquicos, a acumulação capitalista se defrontam com problemas e a tendência declinante da taxa de lucro. O regime de acumulação integral está com os seus dias contados e o capital ainda não conseguiu elaborar uma estratégia de transição para outro regime de acumulação, o que significa que a guerra é uma opção, bem como um regime de acumulação temporário, o bélico, pode retornar com nova roupagem. Isso traz um processo de precarização do trabalho e processos de contradições sociais crescentes que podem – e devem – substituir as demandas meramente culturais e semelhantes. O moralismo tende a ceder espaço para o realismo.

Adotar uma posição conservantista e eliminar a posição progressista para evitar conflitos é algo impossível e que nada resolveria, pois a insatisfação e o outro lado não podem ser destruídos. O movimento contrário também é impossível, apesar de alguns progressistas acreditarem nisso. A base dessas polarizações são as contradições da sociedade capitalista e enquanto elas existirem, os seus efeitos existirão.

A polarização moral e política tende a continuar. A desestabilização do regime de acumulação integral e as guerras e ascensão dos extremismos reforçam essa percepção, geram duas grandes tendências após sua eclosão. A primeira tendência é a reemergência do proletariado e do movimento revolucionário no processo político. Nesse caso, a polarização acaba e reacionários e a maioria dos progressistas tendem a se unir contra o “inimigo comum”, bem como perder um grande contingente em suas fileiras[4]. A segunda tendência é o reacionarismo (assumindo várias formas, dependendo do contexto nacional, podendo ser os conservantistas, os fascistas, os nazistas, etc.) e instauração de regimes autocráticos. Nesse contexto, as forças políticas moderadas perdem espaço e a luta de classes ou guerras nacionais se tornam o elemento fundamental. É possível pensar outras tendências, mas essas são as mais prováveis e depende das lutas atuais e da ação das classes sociais, e, secundariamente, de outros setores da sociedade.

As soluções capitalistas diante da crise do regime de acumulação integral serão as recorrentes (guerra e extremismo) ou então a instauração de um novo regime de acumulação. Contudo, este parece distante, embora seja possível ver no horizonte um elemento de uma transição silenciosa para um regime de acumulação tecno-oligopolista, esse processo é tendencial, que possui contratendências. Porém, é possível soluções que não sejam apenas voltadas para a reprodução do capitalismo e que apontem para a libertação humana? É possível ultrapassar as soluções antiutópicas?



[1] O “neoliberalismo conservantista” é aquele que em moral é conservantista, mas em economia é neoliberal. É uma tendência realmente existente, mas a aliança de certos neoliberais com conservantistas pode gerar uma versão temporária e por oportunismo eleitoral. Esse foi o caso do presidente Jair Bolsonaro, conservantista (e, portanto, estatista), que se aliou com o neoliberalismo para ganhar as eleições e ofereceu como prova o seu ministro da economia, Paulo Guedes, neoliberal.

[2] O neoliberalismo neopopulista é aquele que não faz discurso neoliberal, mas defende e executa políticas neoliberais, e se afirma como sendo de “esquerda” e vinculado às pautas progressistas dos partidos de esquerda, tal como os governos Lula e Dilma.

[3] “O que interessa ao moralista é julgar e condenar aqueles que atentam contra a moral. A preocupação fundamental é julgar e o parâmetro é o cânone abstrato da moral. Uma vez identificado um ato condenável pelo moralista, se busca descobrir a motivação, que é concebida, a priori, como sendo tão condenável quanto o referido ato. Assim, o moralista passa a condenar determinado ato e também sua motivação. A descoberta da motivação se dá através de uma espécie de projeção, no qual o moralista faz conjecturas sobre por qual motivo ele faria o ato condenável em questão” (Viana, 2015, p. 2).

[4] Alguns progressistas podem optar pela tentativa de ser a “vanguarda” (os bolchevistas ortodoxos, sejam leninistas, trotskistas e outros), e outros podem assumir uma posição “esquerdista” (tal como fizeram alguns grupos maoístas e trotskistas durante a rebelião estudantil de Maio de 1968). Em casos individuais, alguns podem abandonar o progressismo e aderir a uma posição proletária e revolucionária. Claro que aqui estamos tratando do posicionamento dos setores hegemônicos em cada uma dessas posições, pois muitos podem romper com essas concepções e assumir uma posição mais crítica ou mesmo revolucionária (temporariamente ou não, dependendo do caso).


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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

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