A Busca de Solução e as soluções ilusórias
Nildo Viana
Qual seria a solução? Esta é a pergunta
que muitos fariam. No plano político, aceitar o conservantismo (ou o
neoliberalismo conservantista)[1]
e evitar o neoliberalismo progressista (ou sua versão neopopulista, da chamada
“esquerda”)[2]
para impedir conflitos? Adotar a concepção progressista e as ilusões do
antifascismo que apenas servem para suportar o insuportável? No plano moral,
abandonar o moralismo subjetivista e aceitar o moralismo conservador? Ou adotar
o moralismo subjetivista e reproduzir os seus problemas insolúveis e simples
condenar o moralismo conservador? No plano tecnológico, fechar a internet e as
redes sociais virtuais? Destruir a tecnointeligência (“inteligência
artificial”)? Sem dúvida, existem diversas outras pseudossoluções, mas essas
seriam levar ao extremo o que as concepções mais influentes atualmente
defendem.
A roda da história não anda para trás e,
portanto, apenas abandonar o que vem sendo feito não vai resolver os problemas
mais amplos que os geram: a acumulação de capital e a política cultural que
corresponde aos seus interesses, bem como o conjunto de contradições da
sociedade capitalista, ou então aderir às respostas conservadoras. No fundo, é
preciso combater o conservantismo, o neoliberalismo, o progressismo, o
subjetivismo, e todas as concepções semelhantes e próximas, bem como todos os
moralismos, tanto o subjetivista quanto o conservador, ou qualquer outro, pois
o moralismo é um problema em si mesmo, seja numa ou noutra forma.
O moralismo, em si, é um problema. Se
ele é “progressista”, seja objetivista (como o bolchevista) ou “subjetivista”
(como o que é hoje hegemônico), seja o conservador, seja o conservantista ou o
neoliberal, nada altera. O moralismo tem como problema básico a moral, normas
rígidas de comportamento, que não leva em consideração a realidade concreta.
Esse elemento essencial, desconsideração pela realidade concreta
(historicidade, totalidade, essencialidade), é que permite os diversos
problemas derivados das justificativas dos moralistas. É por isso que suas
normas de comportamento não conseguem captar as diferenças de relações em
classes sociais diferentes, em regiões diferentes, em coletividades diferentes,
bem como não só interpreta a partir de generalizações como buscar impor
comportamentos de forma generalizada.
E essa desconsideração sobre a realidade
concreta se manifesta na análise e nas relações estabelecidas. Por exemplo,
questões complexas como a formação de um padrão dominante de beleza feminina
pode ser reduzida, nas concepções mais simplistas, a uma “dominação masculina”.
Assim, o processo histórico concreto e os interesses reais (que remete para o
capital comunicacional e capital cosmético) se desvia para a culpabilização dos
homens. Do outro lado, o discurso masculinista sobre as “mulheres interesseiras”
é simplificador e gera generalizações que não conseguem dar conta do processo
real de constituição de determinado comportamento feminino em certos setores e
contextos, gerando uma suposta “essencialidade” feminina. A situação da mulher
no capitalismo, os valores dominantes, a relação entre processos psíquicos e
erotismo, entre outros aspectos, desaparecem da análise e isso permite a
essencialização – e culpabilização – das mulheres. Assim, a partir de
concepções equivocadas e simplificações de coisas complexas, se cria uma moral
que prega comportamentos rígidos e julga e condena com uma ampla facilidade,
independentemente dos contextos[3].
As soluções reais, por sua vez, são
consideradas “utópicas” e exigem sacrifícios que as pessoas voltadas para seus
interesses pessoais não estão dispostas a assumir. Porém, as contradições não
só continuam existindo, mas se ampliam. E, ao lado dos problemas culturais e
psíquicos, a acumulação capitalista se defrontam com problemas e a tendência
declinante da taxa de lucro. O regime de acumulação integral está com os seus
dias contados e o capital ainda não conseguiu elaborar uma estratégia de
transição para outro regime de acumulação, o que significa que a guerra é uma
opção, bem como um regime de acumulação temporário, o bélico, pode retornar com
nova roupagem. Isso traz um processo de precarização do trabalho e processos de
contradições sociais crescentes que podem – e devem – substituir as demandas
meramente culturais e semelhantes. O moralismo tende a ceder espaço para o
realismo.
Adotar uma posição conservantista e
eliminar a posição progressista para evitar conflitos é algo impossível e que
nada resolveria, pois a insatisfação e o outro lado não podem ser destruídos. O
movimento contrário também é impossível, apesar de alguns progressistas
acreditarem nisso. A base dessas polarizações são as contradições da sociedade
capitalista e enquanto elas existirem, os seus efeitos existirão.
A polarização moral e política tende a
continuar. A desestabilização do regime de acumulação integral e as guerras e
ascensão dos extremismos reforçam essa percepção, geram duas grandes tendências
após sua eclosão. A primeira tendência é a reemergência do proletariado e do
movimento revolucionário no processo político. Nesse caso, a polarização acaba
e reacionários e a maioria dos progressistas tendem a se unir contra o “inimigo
comum”, bem como perder um grande contingente em suas fileiras[4].
A segunda tendência é o reacionarismo (assumindo várias formas, dependendo do
contexto nacional, podendo ser os conservantistas, os fascistas, os nazistas,
etc.) e instauração de regimes autocráticos. Nesse contexto, as forças
políticas moderadas perdem espaço e a luta de classes ou guerras nacionais se
tornam o elemento fundamental. É possível pensar outras tendências, mas essas
são as mais prováveis e depende das lutas atuais e da ação das classes sociais,
e, secundariamente, de outros setores da sociedade.
As soluções capitalistas diante da crise
do regime de acumulação integral serão as recorrentes (guerra e extremismo) ou
então a instauração de um novo regime de acumulação. Contudo, este parece
distante, embora seja possível ver no horizonte um elemento de uma transição
silenciosa para um regime de acumulação tecno-oligopolista, esse processo é
tendencial, que possui contratendências. Porém, é possível soluções que não
sejam apenas voltadas para a reprodução do capitalismo e que apontem para a
libertação humana? É possível ultrapassar as soluções antiutópicas?
[1]
O “neoliberalismo conservantista” é aquele que em moral é conservantista, mas
em economia é neoliberal. É uma tendência realmente existente, mas a aliança de
certos neoliberais com conservantistas pode gerar uma versão temporária e por
oportunismo eleitoral. Esse foi o caso do presidente Jair Bolsonaro,
conservantista (e, portanto, estatista), que se aliou com o neoliberalismo para
ganhar as eleições e ofereceu como prova o seu ministro da economia, Paulo
Guedes, neoliberal.
[2]
O neoliberalismo neopopulista é aquele que não faz discurso neoliberal, mas
defende e executa políticas neoliberais, e se afirma como sendo de “esquerda” e
vinculado às pautas progressistas dos partidos de esquerda, tal como os
governos Lula e Dilma.
[3]
“O que interessa ao moralista é julgar e condenar aqueles que atentam contra a
moral. A preocupação fundamental é julgar e o parâmetro é o cânone abstrato da
moral. Uma vez identificado um ato condenável pelo moralista, se busca descobrir
a motivação, que é concebida, a priori, como sendo tão condenável quanto o
referido ato. Assim, o moralista passa a condenar determinado ato e também sua motivação.
A descoberta da motivação se dá através de uma espécie de projeção, no qual o
moralista faz conjecturas sobre por qual motivo ele faria o ato condenável em questão”
(Viana, 2015, p. 2).
[4]
Alguns progressistas podem optar pela tentativa de ser a “vanguarda” (os
bolchevistas ortodoxos, sejam leninistas, trotskistas e outros), e outros podem
assumir uma posição “esquerdista” (tal como fizeram alguns grupos maoístas e
trotskistas durante a rebelião estudantil de Maio de 1968). Em casos
individuais, alguns podem abandonar o progressismo e aderir a uma posição
proletária e revolucionária. Claro que aqui estamos tratando do posicionamento
dos setores hegemônicos em cada uma dessas posições, pois muitos podem romper
com essas concepções e assumir uma posição mais crítica ou mesmo revolucionária
(temporariamente ou não, dependendo do caso).
