domingo, 6 de novembro de 2016

DIREITA E ESQUERDA: DUAS FACES DA MESMA MOEDA


DIREITA E ESQUERDA: DUAS FACES DA MESMA MOEDA 

Nildo Viana

Direita e esquerda são termos amplamente utilizados por intelectuais, meios oligopolistas de comunicação, políticos profissionais, militantes, entre outros. O significado desses termos é confuso, especialmente o termo “esquerda”. É preciso superar a obscuridade terminológica e substituí-la pela clareza conceitual. A confusão terminológica nunca foi interesse daqueles que lutam por uma transformação radical e total da sociedade e sua existência e reprodução é interesse daqueles que buscam conservá-la. O esclarecimento conceitual, por sua vez, é apenas um momento da luta que prepara o momento seguinte, que é o posicionamento diante da realidade explicada conceitualmente. Esse é o nosso objetivo aqui.

A definição tradicional dos termos “direita” e “esquerda” remete ao caso da revolução francesa. No parlamento francês nesse período, duas alas disputavam o poder: aqueles que se posicionavam espacialmente à direita, os que queriam conservar intactas as relações sociais existentes, e aqueles que se posicionavam à esquerda, os que queriam mudanças. A direita era composta pelos representantes da nobreza e clero, classes decadentes, e a esquerda pelos representantes do “terceiro estado”, ou seja, pela burguesia, apoiada pelo campesinato e proletariado, as classes ascendentes.

Dessa divisão espacial surgiu a definição política da direita como representante da “elite”, dos “poderosos”, dos “conservadores” e a esquerda como representante do “povo”, dos “dominados”, dos adeptos das mudanças. O movimento socialista (incluindo diversas concepções, como lassallistas, marxistas, anarquistas, social-democratas, bolchevistas, etc.), em todas as suas tendências, acabou incorporando essa linguagem e a interpretou como sendo uma oposição entre classe dominante (burguesia) e classe operária (proletariado), ou, ainda, entre partidários do capitalismo e do “socialismo” (ou “comunismo”, “anarquia”, etc.), respectivamente.

Essas concepções se popularizaram e se tornaram hegemônicas. Nos meios políticos e intelectuais, a versão “socialista” se tornou hegemônica. A existência de diferenças e divisões, tanto na direita (liberais, democratas, fascistas, nazistas, etc.), quanto na esquerda (social-democratas, comunistas, anarquistas, etc.) e suas subdivisões, geraram, por sua vez, toda uma terminologia derivada (extrema-direita, extrema-esquerda, esquerdismo, etc.), bem como muitos direitistas, buscando disfarçar suas posições, criaram o “centro” e novas divisões (centro-direita, centro-esquerda, etc.). Assim, a esquerda (Lênin) denominou os radicais que se opunham a ele como sendo “esquerdistas” e parte da direita preferiu se chamar de “centro”, pois “direita” não é algo bem visto.

Com o passar do tempo, essa terminologia torna-se cada vez mais obscura, pois a direita raramente se assumia assim e a “esquerda” se dividia em diversas concepções que buscavam se afastar de outras (dependendo da tendência, queria se afastar do extremismo, do reformismo, do esquerdismo, do capitalismo estatal – vulgo “socialismo real”, etc.) e por isso foi gerando novos termos: “esquerda democrática”, “nova esquerda”, “esquerda revolucionária”, etc.

Mais recentemente, a partir da hegemonia neoliberal, a direita buscou ressignificar a distinção entre direita e esquerda visando valorar a primeira e desvalorar a segunda, o que permitiria assumir o que antes escondiam. A direita criou, através de algumas instituições (tal como o patético Instituto Von Mises), financiamento e intelectuais neoconservadores, duas novas formas de opor os dois termos da contenda. A primeira forma renovada consistia em opor defensores do “livre mercado” e defensores da “intervenção estatal”. A direita, nesse caso, é composta pelos partidários do livre mercado e seus opositores de esquerda seriam partidários do intervencionismo estatal. A segunda forma renovada consistia em opor os defensores da “liberdade”, representantes da direita, e os defensores da “igualdade”, representantes da esquerda.

Assim, a ideologia neoliberal busca confundir ainda mais as coisas que já são confusas através de abstrações metafísicas e oposições superficiais. Distinguir direita e esquerda por “mais ou menos mercado” ou “mais ou menos Estado” significa gerar uma oposição quantitativa, de grau, ao invés de qualitativa. A oposição metafísica entre liberdade (existem inúmeras concepções de liberdade, embora a concepção liberal privilegie a liberdade de mercado e a liberdade individual nesse contexto) e igualdade (que também possui inúmeras concepções a respeito, indo da igualdade formal até o igualitarismo) é uma falsa oposição, pois liberdade e igualdade se complementam ao invés de se opor, quando são verdadeiras e não apenas representações ilusórias visando ludibriar a população.

Todas essas concepções de direita e esquerda são problemáticas, limitadas, falsas. Elas não dão conta de explicar a realidade e as divisões políticas e usam termos que são categorias do pensamento (direita, esquerda, centro, são ferramentas intelectuais para se pensar o espaço e nossa localização nele e são termos relativos que mudam de acordo com a nossa localização no espaço) e não conceitos. Por isso são meras formas classificatórias que variam de acordo com o classificador, com suas concepções, valores, ideologias, etc.

O único sentido aceitável para a oposição entre direita e esquerda é o de classe. Nesse caso, a direita seria a posição política da burguesia e a esquerda a posição política do proletariado. No entanto, nem nessa formulação tal oposição é aceitável. O problema não reside apenas no fato do termo esquerda ser usado a torto e a direito, mas, principalmente, por trocar coisas reais, as posições políticas de determinadas classes sociais, por coisas metafóricas e imaginárias e, por isso, mais facilmente manipuláveis. Isso também significa trocar uma linguagem direta por uma indireta, sendo que não há obstáculo para usar a primeira. Ao invés de direita e esquerda, o verdadeiro antagonismo é entre burguesia e proletariado.

A oposição entre direita e esquerda tem sua origem no parlamento francês, demonstrando que são dois lados da mesma moeda. Direita e esquerda não são antagônicas, elas são opostas e sua oposição ocorre dentro da arena burguesa. A esquerda é uma farsa, é a parte eclética da mentalidade burguesa, aquele que elege o progresso como alvo principal. O seu discurso pode expressar a reivindicação de “redistribuição de renda”, mais democracia, etc., ou seja, reformas no capitalismo ao invés de transformação social radical e total. Por isso pode fazer discurso sobre igualdade e contra desigualdade (termo abstrato e que não expressa o processo de exploração que precisa ser abolido). Assim, a direita é composta pelo bloco dominante e a esquerda pelo bloco progressista. Ambas possuem posições burguesas, uma mais firme e conservadora, privilegiando a ordem e os interesses do capital, e outra mais flexível, que privilegia o “progresso” e tenta reunir ecleticamente burguesia e proletariado, concedendo migalhas, realizando cooptação, etc., quando está no poder e fazendo discurso supostamente revolucionário ou reformista quando tenta chegar ao poder (seja por via eleitoral, como a social-democracia, seja pela via insurrecional, como o bolchevismo).

Em síntese, direita e esquerda são termos problemáticos e abstratos que, no fundo, expressam duas posições burguesas, a do bloco dominante e a do bloco progressista. Setores deste último podem se tornar parte do bloco dominante (tal como os partidos socialistas e trabalhistas que conseguiram vitórias eleitorais e conquistaram governos na Europa e como o PT – Partido dos “Trabalhadores”, no caso brasileiro), mas isso é temporário e significa que assumem a posição conservadora com elementos de progressismo. A direita e a esquerda são duas posições no interior da sociedade burguesa e por isso não há antagonismo entre elas e sim oposição. O antagonismo ocorre entre os blocos dominante e progressista, por um lado, ou seja, a posição burguesa, e o bloco revolucionário, a posição proletária, por outro.

Por isso, o uso dos termos “direita” e “esquerda” expressa a luta cultural da burguesia para afastar a consciência da luta de classes e a posição revolucionária do proletariado da disputa política e em seu lugar colocar a oposição superficial entre duas forças políticas da burguesia, uma mais organicamente ligada a ela, e outra composta por suas classes auxiliares ou frações delas, que tenta conquistar o poder estatal e nunca a transformação social radical e total. Direita e esquerda são farinha do mesmo saco.

Assim, é fundamental superar essa obscuridade terminológica caracterizada pela divisão entre direita e esquerda e retomar a expressão real de relações sociais reais. A luta mais importante e fundamental não é entre forças políticas (o bloco dominante e o bloco progressista) que disputam o poder estatal burguês, seja para conservá-lo ou para reformá-lo. A luta fundamental é entre as classes sociais que expressam os interesses da conservação, por um lado, e as que expressam a necessidade da transformação, por outro. Ou seja, é a luta entre classe capitalista e classe operária. Esta luta se manifesta, também, na luta do bloco revolucionário (expressão política do proletariado e portador do projeto autogestionário) e a direita e a esquerda (bloco dominante e bloco progressista, respectivamente). A autogestão social significa a abolição tanto do capital (relações de produção capitalistas, cuja expressão jurídica é a propriedade privada dos meios de produção) quanto do Estado.

Por isso o bloco revolucionário é antagônico aos demais blocos sociais (dominante e progressista ou “direita” e “esquerda”) sob todas as formas que eles assumem suas oposições, pois eles não dizem o que realmente são e querem, aparecem sob representações cotidianas ilusórias ou ideologias. Ou seja, o bloco revolucionário é antagônico tanto aos mercantilistas (partidários do “livre mercado”) quanto aos estatistas (partidários do intervencionismo estatal ou da estatização), pois propõe abolir o mercado e o Estado, sendo antimercado e antiestatal. Da mesma forma, o bloco revolucionário, de caráter proletário, é antagônico tanto ao libertarianismo, libertarismo, etc., quando ao igualitarismo corporativista, estatista, etc., pois não existe liberdade e igualdade numa sociedade capitalista e numa sociedade autogerida eles são harmônicos. Igualdade sem liberdade não é igualdade, pois se alguém tem o poder de coibir a liberdade alheia, então há desigualdade. Liberdade sem igualdade não é liberdade, pois não há como ser livre entre desiguais em autoridade, poder, riqueza, etc., seria uma liberdade de poucos. Logo, essa oposição mostra apenas que os partidários da “liberdade” são farsantes que usam esse discurso para manter o seu poder, a desigualdade e a falta de liberdade. Mostra, também, que os partidários da “igualdade” são igualmente farsantes, pois não existe igualdade sem liberdade, sob coerção estatal ou imposição moral, seja ela qual for.

Da mesma forma, o bloco revolucionário é antagônico tanto ao capitalismo quanto a todas as formas de capitalismo reformado. Isso vale tanto para o “socialismo real” (na verdade, um capitalismo estatal), quanto para o “Estado de bem estar social” (um capitalismo com intervencionismo estatal e algumas concessões em políticas estatais). Isso vale também para qualquer projeto ainda não concretizado que se chame “socialismo”, que não passa do capitalismo com algumas alterações (tal como as propostas de “ecossocialismo”, “socialismo de mercado”, “federalismo de pequenos produtores” e outras fantasmagorias semelhantes).


Assim, é necessário entender que essa oposição entre direita e esquerda é uma forma de buscar a conservação do capitalismo, constituindo uma oposição dentro de um marco que nunca ultrapassam, que é o do capitalismo. As duas posições são discursos falaciosos que evitam o verdadeiro antagonismo ao buscar ofuscar a existência do proletariado e da alternativa expressa por ele e pelo bloco revolucionário, que é anticapitalista. Assim, a disputa de duas posições pró-capitalistas, com uma ou parte dela aparentando ser anticapitalista, evita o fortalecimento de uma verdadeira posição anticapitalista. As experiências históricas, desde o caso da URSS e leste europeu, além da China, Cuba, etc. e dos governos social-democratas (também “democratas”, “trabalhistas”, etc.) na Europa e resto do mundo comprovam isto, pois apenas reformaram o capitalismo e trocaram governantes ou grupos capitalistas, sem nunca abolir a exploração e a dominação. Estatizaram mais ou menos e nunca aboliram o Estado. Portanto, é tempo de superar a falsa oposição entre direita e esquerda e enterrar essa última no museu da história, pois é uma velharia tal qual a primeira.

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