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quinta-feira, 26 de março de 2026

COMO OS PAIS ESCOLHEM OS NOMES DOS FILHOS?

 



COMO OS PAIS ESCOLHEM OS NOMES DOS FILHOS?

 

Nildo Viana

 

A escolha dos nomes dos filhos revela processos sociais complexos que, à primeira vista, são imperceptíveis. Por qual motivos os pais escolhem determinados nomes para seus filhos? Esse é um elemento da vida cotidiana pouco refletido e, quando se pensa sobre ele, é sob forma mais opinativa do que com embasamento mais profundo. Não pretendemos apresentar uma pesquisa mais profunda sobre o tema, mas tão somente algumas considerações gerais com embasamento teórico e metódico implícito, para incentivar uma reflexão (e talvez pesquisas) sobre o processo de escolha do nome dos filhos.

A sociedade moderna é marcada por um processo cada vez mais amplo de abstratificação, o que é verificado mais facilmente com o uso de siglas, nomes estrangeiros, etc. Se uma pessoa for de ônibus de uma cidade para outra e observar as existentes entre elas, poderá perceber o nome dos bares, mercados e lojas comerciais em geral, nas pequenas cidades do interior (e em cidades médias ou mesmo periferia de cidades grandes), são mais personalizados, possuindo nomes de pessoas. É assim possível ver nomes como “Boteco do Chico”, “Bar da Lourdes”, “Mercado do Raimundo”. A relação entre o dono ou família (via nome do dono ou apelido, ou então via sobrenome familiar) e o comércio é perceptível.

O processo de modernização altera essa forma de nomeação. A modernização instaura o predomínio da abstratificação e dos nomes estrangeiros. O primeiro é derivado da expansão da episteme burguesa (Viana, 2018; Viana, 2019), que é uma infraestrutura do pensamento que gera um modo de pensar subjacente e hegemônico na sociedade capitalista, e sua reprodução até ao nível das representações cotidianas, gerando um processo crescente de abstratificação. Com o processo de modernização, até os setores mais tradicionais e não-capitalistas acabam sendo submetidos ao seu processo de abstratificação. As siglas são o caso mais explícito desse processo. Elas retiram a concreticidade das instituições, permitem o processo de eufemização, etc.

Os nomes estrangeiros são oriundos do domínio imperialista (com a exceção de proprietários que trazem nomes de seus países e vínculos com determinadas mercadorias com suas nações de origem, como nomes de restaurantes de comidas típicas de outros países) e por isso há o predomínio do idioma inglês na sociedade brasileira. Doravante, os nomes passam a ser “Nevada Beer”, “Classe A Grill”, “Texas Restaurante”, “The Liquor Store”, “The Blue Pub”[1]. O imperialismo gera uma dominação cultural internacional que provoca o predomínio do idioma inglês, mas, de acordo com a hierarquia do bloco imperialista, também gera a força de outros idiomas dos países imperialistas, como o francês, italiano, espanhol, etc., mas em menor grau. O uso de termos de outros idiomas, além da imposição idiomática, gera um processo de insciência do sentido para muitos, bem como a reprodução de uma hierarquia social, em certos casos, ou simplesmente aculturação acrítica, em outros casos.

Assim, a modernização traz um processo de abstratificação que se amplia cada vez mais. Alguns querem manter elementos de tradição e por isso misturam a tradição e o moderno, colocando, por exemplo, nomes de pessoas complementados por nomes em inglês ou adaptando-os a tal idioma, bem como refinamento do tradicional, com nomes que querem aparecer como uma grife, assim como outras estratégias mercantis e mercadotécnicas (“marketing”) em busca de um nicho de mercado específico.

O que tem isso a ver com a escolha dos nomes dos filhos? O caso dos nomes de estabelecimentos comerciais ajuda a entender o processo de escolha de nome dos filhos, embora este tenha especificidades. Os nomes dos filhos também se envolvem na passagem do tradicional para o moderno. Em algumas famílias, especialmente as mais extensas (que possuem muitos filhos), quando se passa um tempo considerável entre a data de nascimento dos mais velhos e dos mais novos, é possível notar que o nome dos que nasceram primeiro são os que predominavam na época e os nomes dos que nasceram por último já são mais modernizados. Os primeiros podiam se chamar Antônio, João, José, Francisco; os últimos Bruno, Thiago, Patrícia[2]. Os nomes de origem bíblica perdem espaço para nomes de origem de personagens de cinema e televisão, e, especialmente no caso brasileiro, de novelas. Sem dúvida, essa realidade vem se alterando com a diminuição da audiência de telenovelas.

Quando os pais escolhem os nomes dos filhos existem diversas determinações. Porém, existem diferenciações sociais nesse processo. Os pais que pertencem às classes sociais superiores tendem a escolher nomes mais discretos e considerados, por eles mesmos, como “elegantes”. Porém, existem variações (o foco aqui é o caso brasileiro, mas esse processo se reproduz, com diferenciações e especificidades, em todos os países, obviamente que com nomes do idioma nativo), dependendo da região, da classe social (burgueses, latifundiários, alta burocracia), etc. Em muitos casos o sobrenome da família e os nomes dos antecessores são valorados e um elemento presente na escolha dos nomes. Isso ocorre mais nos casos de famílias mais tradicionais e rurais, mas também em setores mais modernizados quando a família tem muita tradição, poder e riqueza.

Em um setor das classes superiores, especialmente na classe intelectual, os nomes podem ser portadores de determinados sentidos e valores (explícitos ou implícitos). Isso, no entanto, vai além da classe intelectual e atinge os meios intelectualizados em geral[3]. Assim, nomes de figuras históricas importantes (Alexandre, Júlio César e outros, vinculados aos imperadores romanos ou reis de diversas regiões)[4] são, muitas vezes, escolhidos por causa dos valores dos pais, como poder, status, etc. Já nos meios progressistas e nos meios revolucionários, que são parte dos meios intelectualizados, determinados nomes emergem, tais como os de intelectuais, líderes políticos, ativistas, militantes revolucionários. Existem ativistas e militantes que colocam nome nos filhos de representantes de sua corrente política, tal como “Durruti”[5], Marx (ou Karl Marx)[6], Lênin (ou “Lenine”)[7], Engels[8], etc. Um caso muito curioso, embora nesse caso vinculado ao conservadorismo. é o de um delegado de Goiânia que tinha como nome “Hitler Mussoline” (com “e” no final, não se sabe o motivo).

Existem também algumas famílias que definem o nome dos filhos pela mensagem repassada pelo nome. Nesse caso, muitos fazem uma pesquisa sobre o sentido dos nomes para realizar a escolha. Esses podem ser denominados “nomes-mensagens”. Assim, o nome Anita pode ser escolhido pelo suposto significado atribuído a tal nome que, hoje, pode ser encontrado em pesquisa na internet: “O nome Anita tem origem hebraica, derivado de Hannah, e significa “graciosa” ou “cheia de graça”. Funciona principalmente como um diminutivo carinhoso de Ana, popularizado em países de língua portuguesa e espanhola, carregando uma conotação de delicadeza, favor divino e, historicamente, força, como no caso de Anita Garibaldi”[9]. Ou seja, alguém que possui o nome “Anita” pode ser originado da mensagem que o nome passa. Porém, essa é apenas uma possibilidade, pois pode ser também por causa de uma cantora famosa com o mesmo nome (embora fosse “nome artístico”), a minissérie televisiva da Rede Globo no início dos anos 2000 chamada “Presença de Anita” (que dizem que influenciou a escolha da cantora) ou sua protagonista, ou vínculo com figuras históricas, como a citada acima, Anita Garibaldi, ou, ainda, por sua presença na bíblia, mas o que interessa aqui é o caso do nome-mensagem[10].


Porém, não é isso que ocorre nas classes sociais inferiores. Nas classes inferiores existem algumas formas predominantes de escolher o nome dos filhos. Uma delas é a escolha aleatória, que é quando os pais não possuem critérios e nem ideias a respeito de nomes. Há algum tempo atrás alguns compravam em bancas de revistas livretos com listas de nomes (ou até mesmo livros) para poder escolher. Hoje muitos apelam para listas disponíveis em sites e blogs da internet. Alguns desses livros (e sites) estabelecem relação dos nomes com horóscopo, pessoas famosas, sentido, etc.

Existe também a escolha influenciada pelos meios oligopolistas de comunicação, especialmente rádio, cinema e TV. Muitas vezes os nomes são escolhidos a partir de personagens de filmes, mas, no caso brasileiro, especialmente novelas. Assim, uma novela de sucesso tende a inspirar várias famílias a escolher os nomes dos protagonistas, mas também de outros personagens que são coadjuvantes. Por exemplo, a novela Selva de Pedra (a original, de 1972), tinha como principal personagem Simone, interpretada pela atriz Regina Duarte, que ficou famosa e conhecida nacionalmente, através dos meios oligopolistas de comunicação (revistas, jornais, etc.) como “namoradinha do Brasil”[11]. Esses nomes aparecem num Ranking dos 20 mais utilizados no Brasil nessa década, com Regina ficando em 14º lugar e Simone em 20º lugar[12]. Claro que existiram vários outros motivos para os pais escolherem tais nomes, mas um elemento que provavelmente contribuiu para alguns o escolherem foi esse. Existem os casos também de escolha do nome por causa do protagonista e de valores vinculados a ele. Esse é o caso da novela O Semideus, cujo protagonista era um capitalista (um industrial milionário) e cuja ostentação era comum nos anos 1970, chamado Hugo Leonardo, o que pode ter motivado a escolha desse nome[13].

Outra forma como o capital comunicacional influencia a escolha de nomes é através de pessoas famosas de outras áreas que são divulgadas por eles, como nome de presidentes, papas, artistas diversos. Nos anos 1990, muitos filhos foram batizados como “Fernando Henrique” (e aumentou efetivamente o uso desses dois nomes isolados), nome do então presidente da República (Fernando Henrique Cardoso) por dois mandatos consecutivos. Outra “fonte de inspiração” comum, no caso de nomes masculinos, são nomes de jogadores de futebol. Uma determinação menos influente é a derivada de algumas músicas que usam como título e/ou “tema” determinados nomes. O “tema”, na verdade, é uma determinada pessoa – real ou fictícia – ou relação com ela, e o nome, que pode ser inspirado em indivíduos reais ou não, é a forma de dar-lhe uma denominação, que pode carregar um significado ou não. Esse é o caso de músicas como “Andrea”, de Abílio Manuel[14], ou então Luísa, de Tom Jobim[15], e existem músicas que trazem nomes diversos, geralmente femininos, como Alice, Alexandra, Júlia[16], Maria[17], Clareana[18], etc., e, em menor grau, alguns masculinos, como Gabriel ou Patrick[19], ou, ainda, nomes religiosos[20]. A beleza e/ou o sucesso da música, sem dúvida, aumenta a influência.

Um setor das classes inferiores escolhe o nome dos filhos a partir de seus vínculos religiosos. Assim, muitos católicos e evangélicos escolhem nomes bíblicos: Jonas, José, Lucas, Maria, Paulo, Isaías, entre inúmeros outros. Alguns buscam nomes menos famosos retirados da bíblia. Mas não é só a bíblia que é fonte inspiradora de nomes, pois indivíduos reais como líderes religiosos e santos podem inspirar a escolha de nomes, como “Agostinho”, “Lutero”, entre outros. Outro processo comum é a escolha de nomes por vínculos afetivos, tal como o nome dos pais e parentes, o que faz proliferar os sobrenomes “Júnior”, “Filho”, “Neto” e, em casos mais raros, “Sobrinho”. Porém, amizades e pessoas admiradas também podem gerar escolha de nomes. Isso, no entanto, é diferente do caso de pessoas que escolhem nomes de reis e presidentes sem vínculo de admiração, mas é difícil diferenciar um caso de outro.

Contudo, especialmente, mas não unicamente, nas classes sociais inferiores existe uma tendência de escolher o nome pelas “modas” sucessivas que ocorrem. Em certo momento, determinados nomes se tornam bastante utilizados e por um efeito de “difusão social” acabam predominando como escolhas mais populares. Assim, se torna compreensível o que afirmamos anteriormente sobre famílias extensas nas quais existe uma diferença nos nomes devido à época de nascimentos dos filhos. Os mais novos tendem a ter nomes mais condizentes com os nomes mais populares no momento. Um professor percebe isso ao olhar sua lista de chamada e notar a existência de diversos alunos com o mesmo nome, tal como Mateus, Lucas, Thiago, etc. Mais recentemente, outros nomes entraram na moda (em parte por influência dos meios oligopolistas de comunicação) como Enzo, Gael, Valentina, etc. Isso é predominante nas classes inferiores, mas também ocorre em setores das classes superiores.

Isso vale não apenas para os nomes, mas também para alguns costumes de nomeação. Por exemplo, algumas famílias tinham como costume usar a mesma letra inicial no nome de todos os filhos (todos os nomes começam com a letra M, por exemplo). Claro que isso é para famílias mais extensas, pois no caso de dois filhos, pode ser mera coincidência. Outro hábito nas classes inferiores mais recentes, é o uso de nomes estrangeiros ou de determinadas letras, como Y e K ou repetição de consoantes. É assim que surge, por exemplo, “Karol com K” (tal como uma cantora que apareceu no programa televisivo Big Brother Brasil, Karol Conká, sendo provável que o nome artístico seja um efeito desse processo, pois seu nome verdadeiro é “Karoline”). Alguns colocam a existência de “misturas de nomes” e outras “produções criativas”. Nas redes sociais virtuais aparecem vídeos humorísticos sobre o uso de tais letras nos nomes, bem como outros – de humor – colocando o rótulo de “nomes de pobres”[21]. Criaram até um site gerador de “nome de pobres”[22]. O humor com tais nomes tem um elemento realmente burguês de busca de “distinção” – para recordar termo do sociólogo Pierre Bourdieu (2007) –, mas também ocorre por tentativa de “novos ricos” e “pseudorricos” se diferenciarem dos seus semelhantes (quando podem fazer isso).

Assim, o que se observa é um processo complexo na escolha dos nomes dos filhos, que varia de acordo com a época, sociedade[23], classe social, entre diversas outras determinações. Vários outros elementos poderiam ser acrescentados, como a questão do “nome artístico” ou “literário” (e semelhantes, como “nome político”, “nome futebolístico”, etc.), cognomes (apelidos, no Brasil), pseudônimos e, mais recentemente, nicknames (cognomes nas redes sociais virtuais ou “nomes de perfil virtual”)[24] e similares. Porém, deixaremos a questão dos nomes falsos, ficcionais e outras manifestações de lado, pois não se trata, nesse caso, de escolha de nomes dos filhos, que é o nosso tema aqui.

Sem dúvida, um outro elemento importante é o efeito da escolha dos nomes dos filhos. Até recentemente, e para muitos que não gostam e não mudaram de nome até hoje, mas havendo a possibilidade legal de fazê-lo (seja por desinformação, dispêndio de tempo e energia, comodismo, desinteresse, etc.), o nome atribuído pelos pais acompanha o indivíduo durante toda a sua vida. Uma das alternativas mais populares é o cognome. O próprio uso de cognomes mostra, em alguns casos, uma certa insatisfação com o nome. É difícil entender a escolha de certos nomes, que são considerados “feios” e alguns até mesmo “ridículos”. Um programa televisivo do final dos anos 1970, Fantástico, apresentou uma reportagem sobre tais nomes, e aparece o ator Lima Duarte, cujo nome real é Ariclenes, e diversos nomes diferentes e “estranhos”. Um outro programa mais recente apresentou diversos nomes estranhos como “Feio”, “Magro”, “Rihanna”, “Bife”, “Pastel”, “Disney”, entre outros[25]. Mas outros nomes mais estranhos aparecem: “Chevrolet da Silva”, “Alce Barbuda”, “Amado Amoroso”, “Amável Pinto”, “Restos Mortais de Catarina”, “Um Dois Três de Oliveira Quatro”, e uma extensa lista pode ser vista na internet[26].

No entanto, a veracidade dessas informações disponíveis na internet é duvidosa. No caso da reportagem do SBT, ele acerta em alguns nomes (Disney, Rihanna, por exemplo), mas erra nos demais. Magro, Feio, Pastel e Bife não são nomes e sim sobrenomes. Os sobrenomes são geralmente herdados e alguns são realmente estranhos, mas tem uma explicação em suas origens. Existem, por exemplo, vários sobrenomes que são nomes de animais: Coelho, Leão, Lobo, Carneiro, Falcão, Pinto, etc. No caso, a reportagem falhou ao confundir nome com sobrenome. No caso do site “Aventuras na História”, que apresenta nomes ainda mais estranhos, também não sabemos da veracidade. A Reportagem do SBT usou o censo do IBGE, mas não “percebeu” a diferenciação feita entre “nome” e “sobrenome”. Porém, mesmo usando os dados do IBGE, a fonte é a autodeclaração dos respondentes[27]. O site “Aventuras na História”, no entanto, afirma que a sua fonte é um levantamento da “Associação dos Notários e Registradores do Brasil”. Porém, ao verificar o link, realmente consta a mesma lista de nomes, mas não se afirma que foi um levantamento próprio, mas na página consta a informação de que “Em 2013, a consultoria proScore fez um levantamento a partir de 165 milhões de CPFs em que foram apresentados 1.169 nomes únicos no Brasil”[28]. E um motivo para desconfiar da veracidade é que os cartórios, desde 1973[29], podem se recusar a registrar nomes considerados demasiadamente exóticos. De qualquer forma, independentemente desses exemplos e lista, existem muitos nomes problemáticos registrados efetivamente.

Um nome problemático pode trazer transtornos para a vida do indivíduo. As crianças podem ser vítimas de zombaria e humilhação pública, e mesmo jovens e adultos podem sofrer com nomes “esquisitos”. A escolha de nomes tão estranhos pode possuir diversas determinações, tais como simploriedade dos pais, distúrbio psíquico, desconsideração com filhos indesejados, confusão no momento do registro, influências diversas, etc. Existe também a possibilidade de que um nome considerado “estranho” por muitos seja escolhido devido aos pais considerarem que ele é bonito (isso geralmente vale para casos menos unânimes, como se vê no caso relatado pelo ator Lima Duarte, que afirmou que sua mãe considerava “Ariclenes” um nome bonito)[30]. Isso mostra a responsabilidade dos pais na escolha dos nomes, pois é uma marca que geralmente acompanha a vida inteira do filho.

O impacto psíquico e social negativo disso foi diminuído com a Lei nº 14.382/2022, que alterou a Lei de Registros Públicos (6.015/1973), permitindo que maiores de 18 anos mudem o nome uma vez e alterem/incluam sobrenomes[31]. A Lei de Registros Públicos (Lei nº 6.015/1973), especificamente em seu artigo 55, já possibilitava a recusa do Cartório em registrar determinados nomes, considerados ridículos ou vexatórios. Ela foi mantida e atualizada pela Lei 14.382/2022, que acrescentou a possibilidade de haver a troca de nomes dentro de um prazo de 15 dias após o registro, caso haja arrependimento dos pais (em comum acordo). O reconhecimento legal do “nome social” também flexibiliza a aceitação da autodenominação, embora não seja uma mudança documental de nome.

Sem dúvida, além das diferenças idiossincráticas de gostos, que podem fazer com que certos nomes que para uns são bonitos sejam considerados feios para outros, existe uma relatividade nesses processos. Nomes considerados estranhos para uns, podem ser concebidos como belos para outros em classes, coletividades, épocas diferentes. Alguns nomes antigos, por exemplo, eram considerados belos e hoje as novas gerações podem considerar feios (e o contrário também é verdadeiro, ou seja, nomes que as gerações mais novas consideram bonitos podem ser considerados feios pelas mais antigas) e algum tempo depois podem resgatá-los. Da mesma forma, nomes que em certos idiomas seriam vistos com naturalidade, como Teófilo (Theophilus) na Grécia antiga, podem ser vistos com estranheza em outros. Embora existam poucos indivíduos com o nome “Aristóteles” no Brasil[32] e em outros países, eles existem e sua origem grega marca um certo estranhamento para muitos, mas, ao contrário de Teófilo, por ser mais conhecido e famoso por causa do filósofo grego, é menos estranhado.

Em síntese, a escolha dos nomes dos pais remete para um processo social complexo que envolve questões afetivas, valorativas, cognitivas, geradas social e historicamente, bem como influências diversas, tais como popularidade, meios oligopolistas de comunicação, classes sociais, costumes de nomeação, entre diversos outros. Assim, um fenômeno pouco refletido e discutido teoricamente revela que mesmo as coisas mais simples possuem complexidade. Isso reforça a concepção dialética de realidade (Viana, 2024), e dos seus elementos constitutivos, que também são complexos, sendo totalidades (que carregam em si outras totalidades e envoltas por outras mais amplas) históricas (são produtos históricos) e determinação fundamental aliada as outras múltiplas determinações. Isso também nos ajuda a compreender que quanto mais consciência temos das determinações sociais e históricas que nos atingem, maior grau de liberdade possuímos, o que não anula os limites existentes, mas possibilita maior autonomia em nossas decisões. A consciência disso também contribui para que os pais reflitam melhor na hora da decisão da escolha dos nomes de seus filhos.

 

Referências

 

BOURDIEU, Pierre. A Distinção. Porto Alegre: Zouk, 2007.

VIANA, Nildo. A Dialética Revolucionária. Goiânia: Edições Redelp, 2024.

VIANA, Nildo. A Teoria das Classes Sociais em Karl Marx. Lisboa: Chiado, 2018b.

VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.

VIANA, Nildo. O Modo de Pensar Burguês. Episteme Burguesa e Episteme Marxista. Curitiba: CRV, 2018a.

 

 



[1] Esses nomes existem efetivamente, assim como os anteriores, e podem ser encontrados em cidades como Anápolis (Goiás) e na capital de São Paulo.

[2] Alguns nomes, como Maria e João, mantêm popularidade – com ou sem alterações, como na formação de nomes compostos que “atualizam” o nome, por exemplo, nas diversas possibilidades de composição com o nome “Maria”, “José”, “João”, etc. –; outros ganham popularidade, depois a perdem e, finalmente, retomam destaque, enquanto alguns a perdem definitivamente.

[3] A classe intelectual é aquela composta por indivíduos que são especialistas no trabalho intelectual, como cientistas, artistas, técnicos, professores, etc. Não é possível aprofundar a discussão sobre essa classe aqui, mas isso pode ser vista na obra A Teoria das Classes Sociais em Karl Marx (Viana, 2018). Marx não identificou a classe intelectual, apesar de algumas observações isoladas, mas nessa obra, há uma parte de reflexão sobre o desenvolvimento das classes sociais após a época em que Marx escreveu e a identificação das mudanças na divisão de classes, incluindo a emergência da classe intelectual. Os “meios intelectualizados” englobam a classe intelectual, mas vai além no sentido de incluir todos os indivíduos com determinada escolaridade e bagagem cultural, tal como setores das demais classes superiores (burgueses, burocratas) e os estratos superiores das classes sociais inferiores. Uma família de burocratas na qual todos têm, por exemplo, diploma de curso superior e uma bagagem cultural mais elevada do que outros setores da sociedade, faz parte dos “meios intelectualizados”, mas não pertencem à classe intelectual e sim à classe burocrática (sobre essa classe, a mesma obra citada acima também realiza essa discussão e foi percebida, sem grande desenvolvimento, por Marx). Outro alerta é que não se deve pensar que as pessoas que fazem parte dos “meios intelectualizados” são “inteligentes”, pois aqui o que conta é o acesso a informações e bens culturais, e não reflexão e habilidades intelectuais. Alguns possuem os dois elementos, mas a relação não é necessária.

[4] Isso, obviamente, não significa que esses nomes (e outros que serão citados adiante) sempre são escolhidos por causa disso, pois muitos nem sequer fazem tal vínculo quando os escolhem.

[5] Visitei uma vez um anarquista em seu apartamento na cidade de Brasília e uma criança aparece na sala e o pai revela seu nome: Durruti. Buenaventura Durruti (1896–1936) foi um anarquista espanhol e líder miliciano durante a Guerra Civil Espanhola.

[6] O auge da escolha desse nome (embora, no caso do pensador alemão seja um sobrenome, o que também existe no Brasil) foi nos anos 1980/1990. Cf. https://censo2022.ibge.gov.br/nomes/nome/marx?tipo=nome&localidade=0

[7] Esse é o caso do cantor Lenine: “Lenine é filho de José Geraldo e Daisy Pimentel, e recebeu esse nome devido a uma homenagem que seu pai, comunista, queria fazer ao líder soviético Lênin, que foi responsável pela deflagração da Revolução Russa em 1917”  (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lenine_(cantor). Claro que a informação do Wikipedia sobre Lênin é equivocada, pois ele não foi “o responsável” pela revolução russa e sim o principal líder da contrarrevolução burocrática da revolução de outubro, pois a de fevereiro – quando emergiu os conselhos operários (sovietes), forma de auto-organização dos operários – ele não participou, pois estava exilado.

[8] Um antigo amigo, na época autogestionário, queria colocar Engels como nome de seu filho e sua esposa queria colocar Mateus, e disso derivou o nome composto: “Mateus Engels”. Uma pesquisa na internet, no entanto, revela que existem outras pessoas com o mesmo nome.

[10] Isso mostra, também, que o sentido do nome pode variar, pois a inspiração bíblica de Anita é oposta a da personagem ninfeta da minissérie televisiva. Um mesmo nome pode enviar diversas mensagens, inclusive opostas.

[13] Os dados do IBGE não abarcam nomes compostos, o que torna difícil verificar nesse caso.

[14] https://www.youtube.com/watch?v=BPfm1b-oRfo Ao escrever acessamos os comentários desse vídeo musical e o primeiro que aparece faz a seguinte afirmação: “Coloquei o nome de minha filha de Andréa porque quando eu tinha dez anos eu amava essa música. Eu falava que um dia teria uma filha e ela chamaria Andréa”.

[15] Essa música ficou mais conhecida por ter sido tema de abertura de novela: https://www.youtube.com/watch?v=EmjiSI3Fyic Nos comentários encontramos a seguinte afirmação: “Me chamo Luiza por causa dessa música! Com “Z”. Simples, mas não tão comum, com Z pra dar força, sou apaixonada pelo meu nome! Hoje eu e minha mãe choramos e nos abraçamos cantando essa música...”

[16] Alguns nomes possuem mais músicas dedicadas, como “Alice”: https://www.youtube.com/watch?v=7g8Uy1y9QGQ (outra versão: https://www.youtube.com/watch?v=B-d81r3vlBc) e https://www.youtube.com/watch?v=JfjM4SWgiaQ; Música com o nome Alexandra: https://www.youtube.com/watch?v=EbJqKIc_gi4; Júlia: https://www.youtube.com/watch?v=Ig2G2zzf49k; Existem algumas que não são homenagens e o nome pode não aparecer em tom elogioso, mas não é problema com o nome e sim uma escolha musical, que pode inclusive derivar da facilidade de rimar, como é o caso de “Flávia”: https://www.youtube.com/watch?v=CDKIjyU3oo8

[17] Como nome feminino mais popular, até os dias de hoje, então ganhou várias músicas com referências a ele. Um dos destaques é a música de Milton Nascimento, “Maria, Maria”: https://www.youtube.com/watch?v=ji0BILoWwN8; além das diversas músicas brasileiras que usam esse nome, é possível também ver em músicas estrangeiras, como no caso da música da banda de Rock, Blondie: https://www.youtube.com/watch?v=VoOG7LEyUJ0.

[18] https://www.youtube.com/watch?v=tMclSxEH1kU O canal que postou essa música de Joyce é voltado para músicas que possuem como títulos nomes femininos: https://www.youtube.com/@SONOMEDEMULHER

[19] Paula Toller homenageou seu filho Gabriel com a música “Oito Anos”: https://www.youtube.com/watch?v=ZEMkvm46MWw; no sentido romântico, é raro haver composições com nomes masculinos, o que se explica pelos ethos sexuais que geram a tendência masculina de produção romântica sobre mulheres amadas (reais ou ficcionais) em contraste com a tendência feminina. No caso masculino, com caráter romântico, uma música que poderia ser citada é “Patrick, Amor Mio”: https://www.youtube.com/watch?v=NhJRKUCsp50. Nomes masculinos também são trabalhados em músicas para se referir a amizades ou questões políticas, como se pode ver em “Pedro”, de Raul Seixas (https://www.youtube.com/watch?v=zjZoWU4PHJw); “Meu Amigo João” (https://www.youtube.com/watch?v=HYkRONPWUss) e “Meu Amigo Zé (https://www.youtube.com/watch?v=3B31nogS6GQ), ambas de Edmilson Marques ou em músicas humorísticas, entre outras possibilidades, jogadores de futebol (como “Fio Maravilha”, de Jorge Ben: https://www.youtube.com/watch?v=UKZKNPmJpd0).

[20] Rita Lee gravou “José”, figura religiosa: https://www.youtube.com/watch?v=2PRBBVFINfA. Sá, Rodrix e Guarabira usaram personagem bíblico como elemento metafórico em “Mestre Jonas” (https://www.youtube.com/watch?v=3Cb-MVDikMA). Esse é um uso aproximado ao realizado pela banda Rádio Táxi em sua música “Eva” (https://www.youtube.com/watch?v=J7N2KNXwtfA).

[23] Nesse caso, além das diferenças idiomáticas, existem também as diferenças culturais e religiosas, bem como em sociedades pré-capitalistas existiam determinações específicas. E isso se complica ainda mais se incluirmos a questão do sobrenome e sua produção histórica.

[24] É possível diferenciar “cognomes” (apelidos), como Zé e Chico para José e Francisco, de Nicknames, pois estes podem ser concebidos, no caso brasileiro, como nomes assumidos nas redes sociais virtuais, seja para esconder o nome real (sendo uma espécie de pseudônimo) ou pela impossibilidade de usar o mesmo “nome de usuário” por já terem outros o utilizando.

[26]  Um influenciador até pergunta se o filho (que não tem nome estranho) agradeceu seus pais pela escolha: https://www.instagram.com/reels/DQ65vCQEZ_C/

[27] Esse fato permite levantar a hipótese de que muitas respostas oferecidas são falsas. O humor do brasileiro é reconhecido mundialmente. Mesmo assim, alguns desses nomes, são reais, especialmente os “menos” estranhos. Inclusive existem vários nomes, especialmente mais antigos, que são considerados “feios”, mas muitas pessoas não concordam e consideram “bonitos”, havendo relatividade em muitos casos e que omitimos para não constranger ninguém. O único caso, nesse sentido, foi Ariclenes, cuja consideração sobre ser “feio” ou “bonito” não é unânime, e foi utilizado por existir informação a respeito, devido ao caso do ator Lima Duarte. No entanto, alguns desses nomes mais esquisitos foram identificados, segundo uma das fontes consultadas, em cartórios, o que apontaria para sua veracidade (https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/de-chevrolet-da-silva-colapso-cardiaco-50-nomes-curiosos-ja-registrados-no-brasil.phtml).

[31] Isso nem sempre significa que a mudança de nome será considerada, pelos demais, como adequada ou uma melhoria. Por exemplo, uma pessoa que se chamava Ivalda trocou seu nome para “Rica”, o que revela valores (cf. https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/brasil/feio-magro-e-bife-nomes-estranhos-fizeram-34-mil-brasileiros-mudarem-o-registro-desde-2022). Para alguns, foi uma melhoria, para outros, piorou. Outros já podem achar que a troca nem melhorou nem piorou. Isso depende da popularidade do nome, sua recepção social, etc. e a escolha do novo nome depende do indivíduo que escolhe, com sua personalidade (o que inclui seus valores fundamentais), situação social e psíquica, etc.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

BAJULAÇÃO E VANTAGENS COMPETITIVAS

 


BAJULAÇÃO E VANTAGENS COMPETITIVAS

Nildo Viana*

Odeio fantoches/Capachos do chefe/Cupinchas do patrão

Odeio essa raça/De gente, costa-quente/Gente falsa/Serpente/Que se arrasta pelo chão

Cara fraco/Inseguro/Eu já acho feio/Puxa-saco/Já tô cheio/Eu, eu odeio/Dedo-duro

Guilherme Arantes

 O problema da bajulação não é novo. Ele surge com a divisão social de classes e com a emergência de interesses pessoais de indivíduos ambiciosos. Na sociedade capitalista, a bajulação se torna um fenômeno bem mais amplo e reproduzido em várias instâncias da sociedade com uma frequência superior do que ocorreu em sociedades pré-capitalistas. Isso tudo tem a ver com a competição e com sua relação com a mentalidade competitiva e busca de vantagens pessoais nesse processo. Vamos discutir brevemente discutir suas fontes e algumas de suas manifestações na sociedade moderna.

A figura do bajulador não é nova na história. Desde que surgiram as sociedades de classes, com suas divisões, hierarquias, interesses, existem os bajuladores. Plutarco, em Como Distinguir o Bajulador do Amigo, entre outros, já tratava disso na sociedade escravista antiga. Porém, o que acontece é que há uma intensificação da bajulação e o aumento quantitativo dos bajuladores na sociedade capitalista. Sem dúvida, existem alguns bajuladores exagerados e, portanto, são facilmente identificados, mas existem alguns bem mais sutis e de difícil percepção para quem está desatento, pouco informado, etc.

Qual elemento da nossa sociedade gera esse aumento quantitativo dos bajuladores e a intensificação da bajulação? Antes de responder essa questão, é importante deixar claro o significado dos termos “bajulação” e “bajulador”. A bajulação é uma relação social no qual um indivíduo (ou mais) enaltece sob forma simulada e exagerada determinado indivíduo, conjunto de pessoas ou instituição, visando algum interesse pessoal[1]. Enaltecer significa superestimar qualidades, comportamentos, ideias, etc. de indivíduos, grupos, instituições. A bajulação é o ato de bajular, ou enaltecer, que se distingue do elogio.

O elogio é um reconhecimento de qualidade, obras, ações, que é sincero por parte de quem o faz e que, portanto, tende a ser mais próximo da realidade do elogiado ou pelo menos da percepção que tem o elogiador. Nesse sentido, a bajulação é exagerada e insincera e seu objetivo é algum interesse pessoal e o elogio é um reconhecimento que pode ser ilusório (o que significa engano e não mentira ou insinceridade) ou verdadeiro, mas sincero e sem interesses como sua motivação.

Assim, há a diferença entre a sinceridade do elogio e insinceridade da bajulação. Além disso, o elogio, por ser sincero, não visa, necessariamente, algum retorno pessoal (pode ser produto de admiração, de apoio moral ou sentimental, etc.). Em alguns casos pode buscar retorno pessoal ou ser produto de pressões sociais. Nesse sentido, é possível distinguir o elogio formal, realizado por civilidade, etiqueta, ou pressão, que pode não ser sincero e o retorno pessoal emerge, mas em questões menores. Esse, no entanto, é difícil de identificar se é sincero ou não. Uma pessoa convidada para almoçar na casa de outra pode, por etiqueta e pressão social, elogiar a comida e, nesse caso, não se sabe se o elogiador realmente gostou ou se apenas executou certa regra comportamental aprendida socialmente.

A bajulação, por sua vez, visa vantagens pessoais. Logo, a motivação é diferente nos dois casos[2]. Uma outra diferença é que a bajulação tende a enaltecer, ou seja, superestimar as supostas qualidades do bajulado ou então inventá-las. A insinceridade do bajulador reside não apenas no fato de destacar e aumentar supostas qualidades do bajulado, mas, também, em apresentar isso como sendo algo sincero e verdadeiro. Sem dúvida, em alguns casos, a bajulação pode coincidir com reais qualidades do bajulado, embora isso seja raro, pois o bajulador precisa se destacar e aumentar, inventar, para mostrar sua dedicação maior e assim conseguir a vantagem pessoal que almeja. Se alguém chega num jogador de futebol mediano e diz que ele é “excepcional” e “será o novo Pelé”, está sendo insincero. No futuro, no entanto, isso poderá se concretizar, pois uma coisa é a percepção do bajulador (“ele não passa de um jogador mediano, mas para ele me ajudar eu preciso exagerar”) e outra é a realidade (o jogador pode realmente ter grande potencial e no futuro se tornar um craque do futebol próximo de Pelé).

A figura do bajulador surge dos interesses pessoais numa sociedade dividida em classes ou outras divisões que promovem uma hierarquia social que gera diversas pessoas buscando elevar sua situação na sociedade. Isso se intensifica e amplia no capitalismo. A sociedade moderna gera determinadas relações sociais que são formas de reprodução da sociabilidade capitalista. Essa tem como elementos fundamentais a burocratização, a mercantilização e a competição. E disso derivam determinados relacionamentos pessoais e sociais[3]. O relacionamento pessoal é interpessoal, ou seja, entre dois indivíduos. O relacionamento social é entre vários indivíduos ou entre um indivíduo e vários outros indivíduos.

A sociabilidade capitalista gera um processo de emergência de uma grande quantidade de bajuladores e sob forma intensiva. Isso ocorre pelo fato de que a burocratização cria uma hierarquia funcional nas organizações burocráticas (Estado, instituições, universidades, partidos, sindicatos, etc.) e uma disputa por espaços e cargos superiores no seu interior. O aparato estatal, a mais complexa organização burocrática da sociedade capitalista, é marcada por uma forte competição por cargos superiores, indo desde o vereador ou assessor parlamentar até o presidente da república, passando por deputados estaduais e federais (e seus assessores), senadores, secretários de governo, ministros, etc. Em uma universidade, há o reitor, os pró-reitores, os secretários e encarregados de secretarias especializadas, gráficas, etc., os diretores de faculdades, chefes de departamento, etc. Assim, a burocratização cria uma hierarquia funcional e alguns indivíduos adotam uma mentalidade burguesa e buscam a ascensão funcional e social.

A mercantilização é outro aspecto da sociabilidade capitalista e é o processo no qual tudo é transformado em mercadoria ou mercancia[4] e, assim, a necessidade de dinheiro e a busca, por parte de outros, de “muito dinheiro”, se torna comum e tudo que significa mercadoria, mercancia, propriedade, dinheiro, é valorado. O dinheiro, como “meio de troca universal” (Marx, 1988), se torna um meio para satisfazer as necessidades humanas e todo um conjunto de desejos fabricados pela sociedade. Se a burocratização gera a valoração do poder, a mercantilização gera a valoração do ter e da riqueza. Assim, na sociedade em geral, a busca pelo dinheiro e pela riqueza se torna algo comum e banal.

O terceiro elemento da sociabilidade capitalista que se vincula aos dois anteriores é a competição social (Viana, 2008). Para conseguir os mais altos cargos ou a riqueza é preciso competir. Porém, a competição é algo que está no conjunto das relações sociais. Segundo a psicanalista Karen Horney:

O princípio econômico da competição afeta as relações humanas de diversos modos: é a causa das lutas entre os indivíduos; estimula os indivíduos a superar os outros; e faz com que a vantagem de um, seja a desvantagem de outro. Como sabemos, a competição não apenas domina as nossas relações sociais, as nossas amizades, as nossas relações sexuais e as relações que se dão dentro da família. Contamina, assim, com os germes da rivalidade destrutiva, do menosprezo, da suspeita e da inveja todas as relações humanas. A existência de grandes desigualdades de fortuna, de possibilidade de educação, de recreação, conservação e recuperação da saúde constitui outro grupo de fatores repleto de hostilidades potenciais. Ainda, outro fator é constituído pela possibilidade que um indivíduo, ou grupo, tem para explorar outro (1966, p. 142).

A competição acaba se torna algo reproduzido na vida cotidiana e invadindo, assim como a burocratização e a mercantilização, o conjunto das relações sociais.  Um casal interesseiro que convida outro para jantar em sua casa no intuito de conseguir um aumento salarial, emprego, etc., estão competindo, buscando dinheiro ou cargos. Esse processo não é “natural”, é algo que não existiu nas sociedades tribais e que emergiu na sociedade de classes, mas que somente na sociedade capitalista se generalizou ao ponto de se tornar a forma de sociabilidade dominante.

E é nessa sociedade que ocorre o processo de socialização e ressocialização que é competitivo. A escola é uma organização burocrática, mercantil e competitiva. Aqui nos interessa o seu aspecto competitivo, pois é esse que estará mais presente no processo de ensino-aprendizagem e nas relações escolares em geral. A escola pode intensificar ou amenizar a competição dependendo dos processos, do tipo de escola, da classe social atendida, etc. Contudo, a competição entre os estudantes para se destacar é muitas vezes incentivada pela instituição escolar e pelos professores e raramente a solidariedade recebe incentivo. A competição para entrar em determinadas instituições escolares, especialmente as universidades, é apenas outro exemplo. A família, por sua vez, reproduz a competição no seu próprio interior, com graus variados (dependendo da classe social, mentalidade predominante dos pais, valores, condições de vida, formação cultural, etc.), pois os pais são formados pela e para uma sociedade competitiva e assim, involuntariamente ou não (nesse caso depende do seu grau de competitividade), mais ou menos, vão repassar isso para os filhos. Esses, por sua vez, receberão dos pais, da escola, etc., e assim vão reproduzir e reforçar a competição social.

E isso tudo gera a introjeção da mentalidade burguesa nas mentes individuais. A mentalidade burguesa é aquela que é adequada para reproduzir a sociedade atual e a si mesmo no seu interior. Um indivíduo que se recusa a usar o dinheiro, ter relações com organizações burocráticas ou competir é considerado louco e termina na miséria e marginalização. Então ele é constrangido a se inserir nessas relações, mas devido ao processo de socialização e cultural, acaba reproduzindo isso em sua mente. É uma mentalidade mercantil, burocrática e competitiva. A mentalidade mercantil é aquela que supervalora o dinheiro, o ter, a riqueza, ou equivalentes; a mentalidade burocrática é aquela que supervalora autoridade, cargos, poder, etc.; a mentalidade competitiva é aquela que supervalora a vitória nas competições, os lugares mais elevados nas hierarquias no interior da sociedade, etc. na busca de dinheiro, poder, fama, sucesso, etc.

A sociabilidade capitalista gera a mentalidade burguesa e essa reproduz e reforça aquela (Viana, 2008). Assim, os indivíduos com mentalidade burguesa, são mais adequados e tendem a ser dar melhor na sociabilidade capitalista, pois querem ganhar a qualquer custo e estão preocupados fundamentalmente com a vitória, o poder e a riqueza. A mentalidade burguesa é constituída pelos valores fundamentais (na escala de valores dos indivíduos é o que está acima), sentimentos mais profundos (que correspondem a tais valores e relações sociais, tal como ciúme, inveja, etc.) e concepções mais arraigadas (ideologemas justificativas, etc., como “a luta pela sobrevivência”, a “sobrevivência do mais apto”, “o ser humano é egoísta por natureza”, “empreendedorismo”, “empoderamento”, etc.). Nesse sentido, se forma um “círculo vicioso” que é, simultaneamente, um “ciclo vicioso”. A sociabilidade capitalista gera a mentalidade burguesa e a confirma e esta reproduz e reforça aquela. Além de grande parte da produção cultural, das ideologias, dos ideologemas, que apontam para a reprodução da mentalidade burguesa, os processos sociais reais como a burocratização, mercantilização e competição comprova sua suposta “veracidade”.

Sem dúvida, é preciso destacar que a mentalidade burguesa não atinge a todos com a mesma força e intensidade. Algumas classes sociais, especialmente as inferiores, precisará buscar solidariedade e outras formas de relações sociais, bem como não aterá acesso ao poder e à riqueza, nem mesmo ao consumo incentivado pelos meios oligopolistas de comunicação, gerando contradições nas mentes individuais e em certas coletividades. Porém, mesmo o mais revolucionário e anticapitalista dos indivíduos, não escapará totalmente de elementos da mentalidade burguesa, mas sua posição política tende a vinculá-los a outros valores, sentimentos e concepções[5]. Assim, aqueles que possuem uma mentalidade revolucionária tendem a sobrepujar, na sua mente, os elementos da mentalidade burguesa. Porém, não conseguem fazer isso totalmente e nem podem escapar da sociabilidade capitalista, pois mesmo sendo contra o dinheiro, precisará dele; mesmo combatendo a burocracia, terá que conviver com ela; e mesmo que não queira competir, será constrangido a fazê-lo em diversas oportunidades.

Por outro lado, existem alguns que se dizem “revolucionários”, mas, no fundo, são rebeldes ou revoltados. Os rebeldes, que foram bem descritos pelos psicanalista Erich Fromm (1986) em seu texto sobre “O Caráter Revolucionário[6], no fundo possuem uma mentalidade burguesa e almejam o mesmo que qualquer pessoa adaptada à sociedade capitalista, tais como consumo, poder, dinheiro, etc. A sua situação de perdedor da competição social é o que o faz rebelde e é por isso que tão logo é bem recebido pela burocracia ou autoridade que combatera, quando assume um cargo e adquire algum poder, quando ganha dinheiro ou riqueza, muda de lado e discurso. Alguns ainda poderão manter discursos e resquícios, outros podem abandonar totalmente como “sonhos juvenis”. O revoltado, por sua vez, já é aquele que também possui elementos da mentalidade burguesa e por isso desenvolve o ódio e a destrutividade em relação à classe capitalista e semelhantes. Alguns revoltados podem ser sinceros e não ter uma grande influência da mentalidade burguesa, mas é movido pelo ódio ou rancor e desejo de vingança em relação a algo que sofreu. Porém, o ódio e outros sentimentos antipáticos tendem a aproximá-los da mentalidade burguesa, mesmo que contraditoriamente.

Um outro adendo é necessário. Na mente individual das pessoas adaptadas ao capitalismo, a mentalidade burguesa é poderosa, mas também possui contradições. A razão disso é que ela entra em contradição com a natureza humana, com as necessidades mais profundas dos seres humanos, suas necessidades psíquicas. O ser humano necessita de socialidade, solidariedade, amor, desenvolver suas capacidades e potencialidades, etc., e isso entra em contradição com a mentalidade burguesa. Aquelas pessoas mais coisificadas sufocarão tais necessidades e tentarão se satisfazer com necessidades sociais artificiais e substitutas. Assim, um capitalista de mentalidade burguesa buscará “comprar” amor que não consegue despertar, bem como amizades, admiração, etc. Porém, no fundo ele saberá de que são relações geralmente superficiais, mesmo que justifique isso com os ideologemas do ser humano “egoísta por natureza”. Em outras pessoas, as contradições tendem a ser mais fortes, o que depende de seu processo histórico de vida, pertencimento de classe, etc.

Alguns indivíduos, no interior desse processo, acabam gerando um elemento derivado da competição social que é a bajulação. A bajulação é uma estratégia de competição, no qual, através da superestimação das qualidades de indivíduos, grupos e instituições, se busca vantagens pessoais e competitivas. O bajulador do amigo que pode lhe ceder algum benefício; o empregado que quer aumento salarial ou novo cargo; o aluno que quer boa nota; são apenas alguns dos milhares de exemplos que poderiam ser citados. Na sociedade moderna isso é antigo e foi retratado muitas vezes em obras de arte, tal como no conto O Homem Superior, de Machado de Assis.

O bajulador é alguém dominado pela mentalidade burguesa e que usa, intencionalmente, a bajulação visando algum retorno pessoal. Porém, o bajulador necessita do bajulado. O bajulado pode ser alguém que quer e aceita a bajulação, ou alguém que a suporta, ou, ainda, alguém que não a percebe. Quem está, como o bajulador, dominado pela mentalidade burguesa, quer a bajulação, pois assim ele consegue satisfazer parcialmente seu desejo de sucesso, fama, etc. O bajulador e o “bajulado contente” são produtos da sociedade capitalista, que reproduzem sua sociabilidade e mentalidade.

Nesse sentido, o bajulador é alguém integrado na sociedade capitalista e que conhece o jogo e suas regras. Ele é um jogador que segue as regras para vencer a competição social. O objetivo é vencer a competição a qualquer custo, usando mentira ou qualquer outro procedimento desonesto. Assim como Clemente Soares, personagem de Machado de Assis, o seu objetivo é a ascensão social.

Assim, a sociabilidade capitalista e a mentalidade burguesa explicam o bajulador, bem como o aumento quantitativo de bajuladores e a intensificação da bajulação. O bajulador é um indivíduo dessa sociedade e que a reproduz e reforça com a bajulação. Para conseguir uma melhor posição na sociedade, o bajulador acaba declarando sua concordância com ela e assim o interesse pessoal coincide com os interesses de classe da burguesia.

A burocratização e mercantilização crescente da sociedade moderna promove o aumento quantitativo de instituições (organizações burocráticas) com suas hierarquias e conflitos internos. Uma instituição, para existir e sustentar sua burocracia e demais despesas, precisa de dinheiro. Quanto maior a instituição, mais mercantilizada e burocratizada ela é. A proliferação e ampliação de organizações burocráticas é um produto do desenvolvimento capitalista. Esse processo pode ser explicado pelas “ondas de burocratização” e “ondas de mercantilização”. A burocratização inicial foi do aparato estatal e das empresas capitalistas, na época da revolução industrial e revoluções burguesas. Depois houve a burocratização da sociedade civil, com a emergência de partidos e sindicatos, entre outras instituições. Depois ela chega ao lazer e acaba constrangendo os indivíduos a viver em organizações burocráticas[7].

Esse processo também ocorreu com a mercantilização. A produção capitalista de mercadorias invade cada vez mais espaços de produção não-capitalistas e vai substituindo a produção artesã, camponesa, etc., pela forma capitalista. E com seu desenvolvimento vai gerando novas mercadorias e mercancias, tais como, mais recentemente, a tecnologia e a cultura. Assim, quanto mais se amplia a mercantilização e a burocratização, mais aumenta o número de bajuladores.

Esse processo tem efeitos culturais determinados. A própria produção da cultura passa a ser perpassada pela competição, burocratização e mercantilização. Os indivíduos, na sociedade capitalista, que são especialistas no trabalho intelectual, são reprodutores da competição social ao invés da colaboração e cooperação. A proliferação de concepções diferentes não é apenas “divergência de concepção”, mas geralmente disputa por espaços e busca de retorno pessoal (poder ou dinheiro). Isso, no entanto, não significa que toda polêmica intelectual seja apenas competição, pois existem exceções, desde reais divergências intelectuais (que podem ser, simultaneamente, valorativas, políticas, etc.), passando por questões idiossincráticas e mal-entendidos, até chegar às manifestações culturais da luta de classes, no qual as discordâncias giram em torno de distintas perspectivas de classe.

As relações de poder numa universidade, por exemplo, definem quais produtos culturais serão produzidos e como isso é realizado e reproduzido no seu interior. Sem dúvida, nesse meio o que predomina não é a busca da verdade – que seria o suposto objetivo da ciência e da filosofia – e sim a satisfação de interesses bastante mesquinhos. O intelectual competitivo vai usar de todos os subterfúgios ao seu alcance para vencer a competição nos meios intelectuais e acadêmicos. Para vencer a competição intelectual, eles vão buscar agradar e ampliar o seu público e seus superiores e por isso vão produzir ideias aceitáveis e que estão de acordo com os modismos e concepções hegemônicas. Hoje, esses intelectuais aderem ao subjetivismo e sua linguagem[8]. A palavra “subjetividade”, que a maioria dos intelectuais que a usam nem sabem defini-la, é, por exemplo, um chavão que abre portas e fornece a impressão de “atualidade”. Sem dúvida, isso não vale para todos que usam tal terminologia, pois acaba sendo uma imposição social do paradigma hegemônico, mas uma grande parte, especialmente nos meios progressistas, possui consciência dos seus problemas e continuam a utilizando por oportunismo.

E esse processo vale não apenas para os intelectuais hegemônicos, mas também para os dissidentes[9]. Bourdieu denomina os hegemônicos como “dominantes” e os dissidentes como “dominados”, que em sua competição geram “estratégias opostas”, pois os dominantes usam a estratégia de conservação e os dissidentes a estratégia de subversão. E por isso os “dominados” (dissidentes) elaboram um pensamento mais crítico. Essa competição é mais complexa do que pensa Bourdieu e envolve mais agentes do que pensa (os intelectuais venais, ambíguos, engajados, amadores).

Mas Bourdieu não só aborda a competição nos meios científicos como é, ele mesmo, um bom exemplo disso. Bourdieu foi hegemônico e suas críticas eram moderadas e quando o subjetivismo se tornou hegemônico também na sociologia, ele passou a realizar a crítica do multiculturalismo e outras tendências subjetivistas, bem como ao neoliberalismo e se aproximar de outros setores da sociedade (desempregados, por exemplo). Ele conhecia o jogo e suas regras e quando a correlação de forças mudou, ele também mudou e buscou novos aliados e novo público.

A competição intelectual aparentemente é uma disputa por ideias, mas em grande parte dos casos é busca de espaço e sucesso. Claro que nem tudo gira em torno da competição, pois, ao contrário do que pensa Bourdieu, existe também luta de classes e seus reflexos nos meios acadêmicos e intelectuais. Porém, o que predomina é a competição social. É nesse contexto que os bajuladores emergem. Ao bajular os intelectuais hegemônicos, eles avançam em suas pretensões competitivas e disputa por espaço. Em alguns meios, a bajulação se torna tão explícita e patética que acaba sendo exaltada publicamente. Certa vez, numa disciplina de pós-graduação, o professor responsável disse: “quem não puxa-saco, puxa carroça” (ou seja, “quem não bajula é burro”). Dos vinte alunos, apenas três não riram[10]. Um, o maior bajulador da turma, riu histericamente e bateu a mão na mesa várias vezes[11]. Em alguns contextos, como cursos cujo mercado de trabalho é predominantemente o ensino universitário, a bajulação atinge um alto grau, pois as opções de emprego são poucas para além do próprio lugar de estudo. A bajulação acaba se tornando um meio de sobrevivência acadêmica. Porém, nesse caso, a tarefa é ingrata, pois são muitos bajuladores e eles devem competir entre si, pois não há espaço para todos. Nesses lugares, se instaura uma verdadeira disputa de quem bajula mais e melhor.

Por fim, é importante distinguir os vários tipos de bajuladores. Alguns são bajuladores ocasionais ou quando estão dominados por grande necessidade, tal como precisar de um trabalho específico que é necessário por falta de dinheiro. Outros são bajuladores direcionados para indivíduos que poderão lhe proporcionar vantagens pessoais e competitivas. Presidentes, governadores e prefeitos, por exemplo, tendem a ter muitos bajuladores. Existem bajuladores que podem ter mais de um alvo de bajulação e alguns até bajulam competidores opostos, visando ganhar com a vitória de qualquer um deles. Da mesma forma, existem os bajuladores mais ardilosos, que podem enaltecer todo um departamento acadêmico para aumentar sua possibilidade de aprovação em concurso para professor posteriormente. Existem indivíduos, como o já citado Clemente Soares, que usam a “bajulação sistemática”, sendo o seu modo de competir e de ser. O bajulador integral que, no entanto, como Clemente Soares, com sua falsidade, demonstrará muita ingratidão com aqueles que ele bajulou, mas agora não são mais úteis.

Diversos outros elementos sobre a bajulação e os bajuladores poderiam ser desenvolvidos. Sem dúvida, a bajulação é um produto social e histórico. Porém, ela está envolvida com processos sociais e psíquicos. Esses aspectos não poderão ser desenvolvidos aqui, mas situam o problema da bajulação no plano idiossincrático, o que remete para o indivíduo e seu universo psíquico. Por exemplo, um bajulador que é uma pessoa muito insegura e usa esse recurso para aumentar suas chances de sucesso é diferente do que é narcisista e apenas faz o jogo para conseguir os resultados esperados. As variações e possibilidades são muitas e somente uma pesquisa aprofundada poderia permitir uma tipificação dos bajuladores.

Em síntese, a bajulação é um fenômeno das sociedades de classes e que se amplia e intensifica na sociedade capitalista. Ela perpassa a sociedade e possui grande força em algumas instituições e, mais ainda, em alguns setores de algumas delas. A sua força na sociedade moderna vem da sociabilidade capitalista e da mentalidade burguesa que tornam a burocracia, o dinheiro e a competição os eixos fundamentais da vida social e mental. A competição social pelo dinheiro, riqueza, cargos, poder, fama, sucesso, e outras coisas semelhantes são a base para a formação e reprodução de bajuladores e bajulados. A bajulação é uma forma de conseguir vantagens competitivas numa sociedade competitiva. Esse fenômeno social não será alterado na sociedade atual. Ele pode, no máximo, diminuir, mas não ser abolido. Porém, a probabilidade de diminuir é pequena e só poderia ocorrer com mudanças sociais e culturais amplas, o que não desponta hoje no horizonte. A solução definitiva é, como em tudo o mais, uma transformação social radical e total, ou seja, a superação da sociedade capitalista que produz e reproduz esse fenômeno. Por isso, o elemento fundamental é esclarecer e compreender o fenômeno e sua relação com a totalidade da sociedade e, a partir disso, lutar pela transformação social.

Referências

BOURDIEU, Pierre. O Campo Científico. In: ORTIZ, Renato. (org.). Bourdieu. São Paulo: Ática, 1994.

FROMM, Erich. O Caráter Revolucionário. In: O Dogma de Cristo. 5a Edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

HORNEY, Karen. Novos Rumos da Psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

MARX, Karl. O Capital. 3ª edição, Vol. 01, São Paulo: Nova Cultural, 1988.

PLUTARCO. Como Distinguir o Bajulador do Amigo. São Paulo: Edipro, 2015.

VIANA, Nildo. A Mercantilização das Relações Sociais. Modo de Produção Capitalista e Formas Sociais Burguesas. Curitiba: Appris, 2018.

VIANA, Nildo. As Esferas Sociais. A Constituição Capitalista da Divisão do Trabalho Intelectual. Rio de Janeiro: Rizoma, 2015.

VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.

VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta, 2008.

WEBER, Max. Sobre a Universidade. São Paulo: Cortez, 1989.

 

 

 



* Professor da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia; Autor de vários livros, entre os quais “As Esferas Sociais – A Constituição Capitalista da Divisão do Trabalho Intelectual”; “Teses sobre os Sentimentos”; “Análise Dialética do Discurso”; “O Capitalismo na Era da Acumulação Integral”; “A Mercantilização das Relações Sociais”; “Universo Psíquico e Reprodução do Capital”; “Psicologia Social e Afetividade: Emoções, Sentimentos e Sociedade”; “Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico”.

[1] No presente texto, o “interesse pessoal” aparece apenas no seu sentido negativo, ou seja, como busca de vantagem em detrimento de outros, vinculado à competição social. Existem alguns interesses pessoais que escapam disso, mas não serão aqui abordados.

[2] “Os piolhos afastam-se dos que estão mortos e abandonam seu corpo, quando se extingue o sangue do qual eles se alimentam, enquanto não é completamente possível ver os bajuladores aproximarem-se dos assuntos áridos e que lhes são indiferentes, mas se voltam para os gloriosos e poderosos e se engrandecem com eles, porém, rapidamente correm quando se encontram nas mudanças dessas situações” (Plutarco, 2015, p. 26).

[3] O relacionamento é uma forma delimitada e estável de relação social.

[4] Sobre o conceito de mercancia, bem como o processo de mercantilização das relações sociais, cf. Viana (2018).

[5] Isso significa que existe uma certa contradição na mente individual de um revolucionário, na qual predomina a mentalidade revolucionária, mas elementos da mentalidade burguesa persistem em existir e isso gera contradições psíquicas para o indivíduo. O processo histórico de vida do indivíduo, suas condições de vida, etc., pode tornar essas contradições mais fracas ou mais fortes e isso pode variar durante a sua vida. Por exemplo, uma pessoa que sofreu violência dos pais durante a infância tende a ser mais agressiva e isso é transposto para sua mente em geral e ações, pensamento e decisões na luta política. Outra contradição na mente do indivíduo revolucionário é derivada da necessidade de defender valores axionômicos, sentimentos simpáticos, etc., tal como a solidariedade, mas se defrontar com relações sociais e uma sociedade competitiva e saber que uma transformação social radical e total só pode ocorrer através da luta de classes e de uma revolução social, que traz, em si, conflitos, violência, etc., inclusive sendo vítima, muitas vezes, de perseguição e atos de violência. Assim, mesmo defendendo, por exemplo, a solidariedade, não pode exercê-la totalmente ou generalizá-la, pois em certas relações, nas quais é perseguido ou boicotado, não tem como fazer isso, bem como na luta revolucionária não pode ser solidário com aqueles que lhes são antagônicos.

[6] Esse texto está disponível nesse link: https://redelp.net/index.php/rma/article/view/939

[7] A burocratização ocorre através de dois processos sociais: o aumento de cargos ou organizações burocráticas – e como já dizia Max Weber (1979), se referindo às universidades, um departamento sempre quer gerar outro departamento – e a intensificação do controle, pois a função da classe burocrática, que é quem comanda as organizações burocráticas, é exercer a dominação, seja interna ou externa, tendo no Estado a organização burocrática que controla todas as outras e a sociedade em geral.

[8] Alguns aderem mudando suas concepções passadas, tal como muitos que reproduziam o paradigma reprodutivistas e suas teses de sistema, reprodução, função, etc. e depois passam para uma mistura ou adesão ao paradigma subjetivista e suas concepções de sujeito e subjetividade (Viana, 2019).

[9] Os intelectuais podem ser divididos em hegemônicos, dissidentes, ambíguos, engajados, venais e amadores (Viana, 2015). Marx já identificava alguns deles, usando outros termos, como “clássicos, ecléticos e vulgares”, que correspondem aos hegemônicos, dissidentes e venais em nosso léxico. Os ambíguos são os intelectuais que ficam entre duas instituições (igreja e universidade, ou partido e universidade) e os amadores são aqueles que não são da classe social dos intelectuais, mas se aproximam dela mais culturalmente, através da produção cultural. Isso ocorre tanto no âmbito da ciência quanto da arte, por exemplo. Na concepção de Bourdieu, existem apenas os “dominantes e dominados” no “campo”, embora em algumas obras apareçam três posições ao invés de apenas duas.

[10] Isso significa que apenas três discordaram, ou tiveram coragem suficiente para não aderir ao riso geral, enquanto dezessete concordaram ou cederam ao contexto e reproduziram o que se esperava de todos. Sem dúvida, a piada não foi gratuita e tinha um indivíduo como alvo, que foi um dos três que não riram e o objetivo é dizer que tal pessoa era “burra”. Essa é apenas mais uma proeza do capitalismo, no qual o que é ético se torna motivo de zombaria.

[11] Esse acontecimento real mostra o incentivo do próprio professor para a bajulação. Contudo, nem sempre a bajulação gera resultados e nem sempre é suficiente bajular. O principal bajulador citado acabou sendo, posteriormente, humilhado diante de um dos poucos alunos não bajuladores, pois sua subserviência e posição lhe predispunha para tal e o seu destino foi a marginalidade intelectual e não conseguir o acesso ao cargo de professor universitário que ele queria.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Análise Dialética do Discurso - Novo livro de Nildo Viana


 Análise Dialética do Discurso - de Nildo Viana


A análise dialética do discurso é uma obra que apresenta uma nova forma de pensar e trabalhar o discurso. No primeiro tomo e volume de sua obra, Nildo Viana desenvolve uma teoria do discurso. Para tanto, discute linguagem, pensamento, conceito de discurso, elementos constitutivos do discurso, suas formas simples e complexas (protótipos e gêneros discursivos), a questão da circunstância e constituição social do discurso, além de um capítulo breve sobre “discurso falado”. O autor efetiva uma análise crítica, totalizante e complexa do fenômeno discursivo. Além disso, trata-se de uma obra pioneira que apresenta um processo explicativo do discurso que não se encontra em outras concepções, oferecendo esclarecimentos cruciais para aqueles que almejam compreender as diversas manifestações discursivas. É uma obra fundamental para quem quer uma base teórica e analítica dos discursos, para linguistas, sociólogos, filósofos, cientistas políticos, entre diversos outros.

Título: Análise Dialética do Discurso
Autor: Nildo Viana
Editora: Ragnatela
Tomo: 01 (teoria)
Volume: 01 (linguagem e discurso)
Subtítulo: Teoria, Linguagem e Discurso.
Edição: 01
Ano: 2026
Páginas: 562
ISBN: 978-65-84983-52-6
ISBN EBOOK: não.


TEXTO DA ORELHA
O método dialético é uma ferramenta poderosa para analisar a realidade. Nildo Viana, autor de A Dialética Revolucionária, utiliza os recursos heurísticos e o processo analítico dialético para elaborar uma teoria do discurso. A presente obra destrincha o verdadeiro significado do discurso, seus elementos constitutivos, sua constituição social e diversos outros elementos e aspectos que promovem um avanço da consciência sobre o discurso em geral e sobre as mais variadas manifestações discursivas existentes.

SOBRE O AUTOR:

NILDO VIANA é sociólogo, filósofo, Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Professor da Universidade Federal de Goiás (UFG). Também é autor de diversos livros, entre os quais A Dialética Revolucionária; A Consciência da História; Escritos Metodológicos de Marx; A Pesquisa em Representações Cotidianas; A Elaboração do Projeto de Pesquisa; Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas; O Modo de Pensar Burguês; A Questão da Causalidade nas Ciências Sociais; Individualismo e Holismo nas Ciências Humanas; Cinema e Mensagem; Memória e Sociedade; entre diversas outras.

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Individualismo e Holismo nas Ciências Humanas

 Individualismo e Holismo nas Ciências Humanas - Nildo Viana




Como decifrar a complexa teia da dinâmica social, da história, da sociedade e da cultura? Qual seria a abordagem mais apropriada para a compreensão dos fenômenos sociais, que constituem o cerne das ciências humanas? Para alguns pensadores, a resposta reside em analisar “a partir do indivíduo”, enquanto outros defendem que a análise deve partir do “todo”. Desde seu surgimento, as ciências humanas têm se bifurcado entre aqueles que optam pela primeira perspectiva, os adeptos do “individualismo metodológico”, e aqueles que se inclinam para a segunda, defensores do “holismo metodológico”. Desde a década de 1990, um intenso debate tem se estabelecido entre “individualistas” e “holistas”, um diálogo que persiste até os dias atuais. Em determinadas épocas, a concepção holista prevalece, enquanto em outras, a abordagem individualista se destaca. Nildo Viana revisita esse debate desde suas raízes, delineando as características de cada uma dessas concepções e empreendendo uma crítica incisiva de ambas, revelando seus vínculos ideológicos e valorativos, bem como suas limitações metódicas. Todo esse exame é realizado através de uma perspectiva dialética, que propõe uma abordagem metódica alternativa, capaz de transcender tanto o individualismo quanto o holismo.


Título: Individualismo e Holismo nas Ciências Humanas
Autores: Nildo Viana
Editora: Ragnatela
Coleção: Chaves de Metodologia, 05
Edição: 01
Ano: 2025
Páginas: 122
ISBN: 978-65-84983-50-2


Texto da orelha:

O individualismo metodológico se apresenta como a abordagem mais eficaz para elucidar a realidade social? Ou, por outro lado, seria o holismo metodológico a perspectiva mais apropriada? Nildo Viana empreende uma análise crítica e concisa dessas duas correntes de pensamento, propondo uma concepção alternativa que transcende as limitações impostas tanto pelo individualismo quanto pelo holismo. Ambas as abordagens, o holismo e o individualismo metódicos, geram interpretações ideológicas acerca do indivíduo e da sociedade. Como podemos, então, superar essa antinomia entre indivíduo e sociedade, e, consequentemente, entre individualismo e holismo? Viana argumenta que essa superação é possível através da dialética marxista.


Sobre o autor:

NILDO VIANA é sociólogo, filósofo, Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Professor da Universidade Federal de Goiás (UFG). Também é autor de diversos livros, entre os quais A Dialética Revolucionária; A Consciência da História; Escritos Metodológicos de Marx; A Pesquisa em Representações Cotidianas; A Elaboração do Projeto de Pesquisa; Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas; A Questão da Causalidade nas Ciências Sociais.


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