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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

BAJULAÇÃO E VANTAGENS COMPETITIVAS

 


BAJULAÇÃO E VANTAGENS COMPETITIVAS

Nildo Viana*

 

 

Odeio fantoches/Capachos do chefe/Cupinchas do patrão

Odeio essa raça/De gente, costa-quente/Gente falsa/Serpente/Que se arrasta pelo chão

Cara fraco/Inseguro/Eu já acho feio/Puxa-saco/Já tô cheio/Eu, eu odeio/Dedo-duro

Guilherme Arantes

 

O problema da bajulação não é novo. Ele surge com a divisão social de classes e com a emergência de interesses pessoais de indivíduos ambiciosos. Na sociedade capitalista, a bajulação se torna um fenômeno bem mais amplo e reproduzido em várias instâncias da sociedade com uma frequência superior do que ocorreu em sociedades pré-capitalistas. Isso tudo tem a ver com a competição e com sua relação com a mentalidade competitiva e busca de vantagens pessoais nesse processo. Vamos discutir brevemente discutir suas fontes e algumas de suas manifestações na sociedade moderna.

A figura do bajulador não é nova na história. Desde que surgiram as sociedades de classes, com suas divisões, hierarquias, interesses, existem os bajuladores. Plutarco, em Como Distinguir o Bajulador do Amigo, entre outros, já tratava disso na sociedade escravista antiga. Porém, o que acontece é que há uma intensificação da bajulação e o aumento quantitativo dos bajuladores. Sem dúvida, existem alguns bajuladores exagerados e, portanto, são facilmente identificados, mas existem alguns bem mais sutis e de difícil percepção para quem está desatento, pouco informado, etc.

Qual elemento da nossa sociedade gera esse aumento quantitativo dos bajuladores e a intensificação da bajulação? Antes de responder essa questão, é importante deixar claro o significado dos termos “bajulação” e “bajulador”. A bajulação é uma relação social no qual um indivíduo (ou mais) enaltece sob forma simulada e exagerada determinado indivíduo, conjunto de pessoas ou instituição, visando algum interesse pessoal[1]. Enaltecer significa superestimar qualidades, comportamentos, ideias, etc. de indivíduos, grupos, instituições. A bajulação é o ato de bajular, ou enaltecer, que se distingue do elogio.

O elogio é um reconhecimento de qualidade, obras, ações, que é sincero por parte de quem o faz e que, portanto, tende a ser mais próximo da realidade do elogiado ou pelo menos da percepção que tem o elogiador. Nesse sentido, a bajulação é exagerada e insincera e seu objetivo é algum interesse pessoal e o elogio é um reconhecimento que pode ser ilusório (o que significa engano e não mentira ou insinceridade) ou verdadeiro, mas sincero e sem interesses como sua motivação.

Assim, há a diferença entre a sinceridade do elogio e insinceridade da bajulação. Além disso, o elogio, por ser sincero, não visa, necessariamente, algum retorno pessoal (pode ser produto de admiração, de apoio moral ou sentimental, etc.). Em alguns casos pode buscar retorno pessoal ou ser produto de pressões sociais. Nesse sentido, é possível distinguir o elogio formal, realizado por civilidade, etiqueta, ou pressão, que pode não ser sincero e o retorno pessoal emerge, mas em questões menores. Esse, no entanto, é difícil de identificar se é sincero ou não. Uma pessoa convidada para almoçar na casa de outra pode, por etiqueta e pressão social, elogiar a comida e, nesse caso, não se sabe se o elogiador realmente gostou ou se apenas executou certa regra comportamental aprendida socialmente.

A bajulação, por sua vez, visa vantagens pessoais. Logo, a motivação é diferente nos dois casos[2]. Uma outra diferença é que a bajulação tende a enaltecer, ou seja, superestimar as supostas qualidades do bajulado ou então inventá-las. A insinceridade do bajulador reside não apenas no fato de destacar e aumentar supostas qualidades do bajulado, mas, também, em apresentar isso como sendo algo sincero e verdadeiro. Sem dúvida, em alguns casos, a bajulação pode coincidir com reais qualidades do bajulado, embora isso seja raro, pois o bajulador precisa se destacar e aumentar, inventar, para mostrar sua dedicação maior e assim conseguir a vantagem pessoal que almeja. Se alguém chega num jogador de futebol mediano e diz que ele é “excepcional” e “será o novo Pelé”, está sendo insincero. No futuro, no entanto, isso poderá se concretizar, pois uma coisa é a percepção do bajulador (“ele não passa de um jogador mediano, mas para ele me ajudar eu preciso exagerar”) e outra é a realidade (o jogador pode realmente ter grande potencial e no futuro se tornar um craque do futebol próximo de Pelé).

A figura do bajulador surge dos interesses pessoais numa sociedade dividida em classes ou outras divisões que promovem uma hierarquia social que gera diversas pessoas buscando elevar sua situação na sociedade. Isso se intensifica e amplia no capitalismo. A sociedade moderna gera determinadas relações sociais que são formas de reprodução da sociabilidade capitalista. Essa tem como elementos fundamentais a burocratização, a mercantilização e a competição. E disso derivam determinados relacionamentos pessoais e sociais[3]. O relacionamento pessoal é interpessoal, ou seja, entre dois indivíduos. O relacionamento social é entre vários indivíduos ou entre um indivíduo e vários outros indivíduos.

A sociabilidade capitalista gera um processo de emergência de uma grande quantidade de bajuladores e sob forma intensiva. Isso ocorre pelo fato de que a burocratização cria uma hierarquia funcional nas organizações burocráticas (Estado, instituições, universidades, partidos, sindicatos, etc.) e uma disputa por espaços e cargos superiores no seu interior. O aparato estatal, a mais complexa organização burocrática da sociedade capitalista, é marcada por uma forte competição por cargos superiores, indo desde o vereador ou assessor parlamentar até o presidente da república, passando por deputados estaduais e federais (e seus assessores), senadores, secretários de governo, ministros, etc. Em uma universidade, há o reitor, os pró-reitores, os secretários e encarregados de secretarias especializadas, gráficas, etc., os diretores de faculdades, chefes de departamento, etc. Assim, a burocratização cria uma hierarquia funcional e alguns indivíduos adotam uma mentalidade burguesa e buscam a ascensão funcional e social.

A mercantilização é outro aspecto da sociabilidade capitalista e é o processo no qual tudo é transformado em mercadoria ou mercancia[4] e, assim, a necessidade de dinheiro e a busca, por parte de outros, de “muito dinheiro”, se torna comum e tudo que significa mercadoria, mercancia, propriedade, dinheiro, é valorado. O dinheiro, como “meio de troca universal” (Marx, 1988), se torna um meio para satisfazer as necessidades humanas e todo um conjunto de desejos fabricados pela sociedade. Se a burocratização gera a valoração do poder, a mercantilização gera a valoração do ter e da riqueza. Assim, na sociedade em geral, a busca pelo dinheiro e pela riqueza se torna algo comum e banal.

O terceiro elemento da sociabilidade capitalista que se vincula aos dois anteriores é a competição social (Viana, 2008). Para conseguir os mais altos cargos ou a riqueza é preciso competir. Porém, a competição é algo que está no conjunto das relações sociais. Segundo a psicanalista Karen Horney:

O princípio econômico da competição afeta as relações humanas de diversos modos: é a causa das lutas entre os indivíduos; estimula os indivíduos a superar os outros; e faz com que a vantagem de um, seja a desvantagem de outro. Como sabemos, a competição não apenas domina as nossas relações sociais, as nossas amizades, as nossas relações sexuais e as relações que se dão dentro da família. Contamina, assim, com os germes da rivalidade destrutiva, do menosprezo, da suspeita e da inveja todas as relações humanas. A existência de grandes desigualdades de fortuna, de possibilidade de educação, de recreação, conservação e recuperação da saúde constitui outro grupo de fatores repleto de hostilidades potenciais. Ainda, outro fator é constituído pela possibilidade que um indivíduo, ou grupo, tem para explorar outro (1966, p. 142).

A competição acaba se torna algo reproduzido na vida cotidiana e invadindo, assim como a burocratização e a mercantilização, o conjunto das relações sociais.  Um casal interesseiro que convida outro para jantar em sua casa no intuito de conseguir um aumento salarial, emprego, etc., estão competindo, buscando dinheiro ou cargos. Esse processo não é “natural”, é algo que não existiu nas sociedades tribais e que emergiu na sociedade de classes, mas que somente na sociedade capitalista se generalizou ao ponto de se tornar a forma de sociabilidade dominante.

E é nessa sociedade que ocorre o processo de socialização e ressocialização que é competitivo. A escola é uma organização burocrática, mercantil e competitiva. Aqui nos interessa o seu aspecto competitivo, pois é esse que estará mais presente no processo de ensino-aprendizagem e nas relações escolares em geral. A escola pode intensificar ou amenizar a competição dependendo dos processos, do tipo de escola, da classe social atendida, etc. Contudo, a competição entre os estudantes para se destacar é muitas vezes incentivada pela instituição escolar e pelos professores e raramente a solidariedade recebe incentivo. A competição para entrar em determinadas instituições escolares, especialmente as universidades, é apenas outro exemplo. A família, por sua vez, reproduz a competição no seu próprio interior, com graus variados (dependendo da classe social, mentalidade predominante dos pais, valores, condições de vida, formação cultural, etc.), pois os pais são formados pela e para uma sociedade competitiva e assim, involuntariamente ou não (nesse caso depende do seu grau de competitividade), mais ou menos, vão repassar isso para os filhos. Esses, por sua vez, receberão dos pais, da escola, etc., e assim vão reproduzir e reforçar a competição social.

E isso tudo gera a introjeção da mentalidade burguesa nas mentes individuais. A mentalidade burguesa é aquela que é adequada para reproduzir a sociedade atual e a si mesmo no seu interior. Um indivíduo que se recusa a usar o dinheiro, ter relações com organizações burocráticas ou competir é considerado louco e termina na miséria e marginalização. Então ele é constrangido a se inserir nessas relações, mas devido ao processo de socialização e cultural, acaba reproduzindo isso em sua mente. É uma mentalidade mercantil, burocrática e competitiva. A mentalidade mercantil é aquela que supervalora o dinheiro, o ter, a riqueza, ou equivalentes; a mentalidade burocrática é aquela que supervalora autoridade, cargos, poder, etc.; a mentalidade competitiva é aquela que supervalora a vitória nas competições, os lugares mais elevados nas hierarquias no interior da sociedade, etc. na busca de dinheiro, poder, fama, sucesso, etc.

A sociabilidade capitalista gera a mentalidade burguesa e essa reproduz e reforça aquela (Viana, 2008). Assim, os indivíduos com mentalidade burguesa, são mais adequados e tendem a ser dar melhor na sociabilidade capitalista, pois querem ganhar a qualquer custo e estão preocupados fundamentalmente com a vitória, o poder e a riqueza. A mentalidade burguesa é constituída pelos valores fundamentais (na escala de valores dos indivíduos é o que está acima), sentimentos mais profundos (que correspondem a tais valores e relações sociais, tal como ciúme, inveja, etc.) e concepções mais arraigadas (ideologemas justificativas, etc., como “a luta pela sobrevivência”, a “sobrevivência do mais apto”, “o ser humano é egoísta por natureza”, “empreendedorismo”, “empoderamento”, etc.). Nesse sentido, se forma um “círculo vicioso” que é, simultaneamente, um “ciclo vicioso”. A sociabilidade capitalista gera a mentalidade burguesa e a confirma e esta reproduz e reforça aquela. Além de grande parte da produção cultural, das ideologias, dos ideologemas, que apontam para a reprodução da mentalidade burguesa, os processos sociais reais como a burocratização, mercantilização e competição comprova sua suposta “veracidade”.

Sem dúvida, é preciso destacar que a mentalidade burguesa não atinge a todos com a mesma força e intensidade. Algumas classes sociais, especialmente as inferiores, precisará buscar solidariedade e outras formas de relações sociais, bem como não aterá acesso ao poder e à riqueza, nem mesmo ao consumo incentivado pelos meios oligopolistas de comunicação, gerando contradições nas mentes individuais e em certas coletividades. Porém, mesmo o mais revolucionário e anticapitalista dos indivíduos, não escapará totalmente de elementos da mentalidade burguesa, mas sua posição política tende a vinculá-los a outros valores, sentimentos e concepções[5]. Assim, aqueles que possuem uma mentalidade revolucionária tendem a sobrepujar, na sua mente, os elementos da mentalidade burguesa. Porém, não conseguem fazer isso totalmente e nem podem escapar da sociabilidade capitalista, pois mesmo sendo contra o dinheiro, precisará dele; mesmo combatendo a burocracia, terá que conviver com ela; e mesmo que não queira competir, será constrangido a fazê-lo em diversas oportunidades.

Por outro lado, existem alguns que se dizem “revolucionários”, mas, no fundo, são rebeldes ou revoltados. Os rebeldes, que foram bem descritos pelos psicanalista Erich Fromm (1986) em seu texto sobre “O Caráter Revolucionário[6], no fundo possuem uma mentalidade burguesa e almejam o mesmo que qualquer pessoa adaptada à sociedade capitalista, tais como consumo, poder, dinheiro, etc. A sua situação de perdedor da competição social é o que o faz rebelde e é por isso que tão logo é bem recebido pela burocracia ou autoridade que combatera, quando assume um cargo e adquire algum poder, quando ganha dinheiro ou riqueza, muda de lado e discurso. Alguns ainda poderão manter discursos e resquícios, outros podem abandonar totalmente como “sonhos juvenis”. O revoltado, por sua vez, já é aquele que também possui elementos da mentalidade burguesa e por isso desenvolve o ódio e a destrutividade em relação à classe capitalista e semelhantes. Alguns revoltados podem ser sinceros e não ter uma grande influência da mentalidade burguesa, mas é movido pelo ódio ou rancor e desejo de vingança em relação a algo que sofreu. Porém, o ódio e outros sentimentos antipáticos tendem a aproximá-los da mentalidade burguesa, mesmo que contraditoriamente.

Um outro adendo é necessário. Na mente individual das pessoas adaptadas ao capitalismo, a mentalidade burguesa é poderosa, mas também possui contradições. A razão disso é que ela entra em contradição com a natureza humana, com as necessidades mais profundas dos seres humanos, suas necessidades psíquicas. O ser humano necessita de socialidade, solidariedade, amor, desenvolver suas capacidades e potencialidades, etc., e isso entra em contradição com a mentalidade burguesa. Aquelas pessoas mais coisificadas sufocarão tais necessidades e tentarão se satisfazer com necessidades sociais artificiais e substitutas. Assim, um capitalista de mentalidade burguesa buscará “comprar” amor que não consegue despertar, bem como amizades, admiração, etc. Porém, no fundo ele saberá de que são relações geralmente superficiais, mesmo que justifique isso com os ideologemas do ser humano “egoísta por natureza”. Em outras pessoas, as contradições tendem a ser mais fortes, o que depende de seu processo histórico de vida, pertencimento de classe, etc.

Alguns indivíduos, no interior desse processo, acabam gerando um elemento derivado da competição social que é a bajulação. A bajulação é uma estratégia de competição, no qual, através da superestimação das qualidades de indivíduos, grupos e instituições, se busca vantagens pessoais e competitivas. O bajulador do amigo que pode lhe ceder algum benefício; o empregado que quer aumento salarial ou novo cargo; o aluno que quer boa nota; são apenas alguns dos milhares de exemplos que poderiam ser citados. Na sociedade moderna isso é antigo e foi retratado muitas vezes em obras de arte, tal como no conto O Homem Superior, de Machado de Assis.

O bajulador é alguém dominado pela mentalidade burguesa e que usa, intencionalmente, a bajulação visando algum retorno pessoal. Porém, o bajulador necessita do bajulado. O bajulado pode ser alguém que quer e aceita a bajulação, ou alguém que a suporta, ou, ainda, alguém que não a percebe. Quem está, como o bajulador, dominado pela mentalidade burguesa, quer a bajulação, pois assim ele consegue satisfazer parcialmente seu desejo de sucesso, fama, etc. O bajulador e o “bajulado contente” são produtos da sociedade capitalista, que reproduzem sua sociabilidade e mentalidade.

Nesse sentido, o bajulador é alguém integrado na sociedade capitalista e que conhece o jogo e suas regras. Ele é um jogador que segue as regras para vencer a competição social. O objetivo é vencer a competição a qualquer custo, usando mentira ou qualquer outro procedimento desonesto. Assim como Clemente Soares, personagem de Machado de Assis, o seu objetivo é a ascensão social.

Assim, a sociabilidade capitalista e a mentalidade burguesa explicam o bajulador, bem como o aumento quantitativo de bajuladores e a intensificação da bajulação. O bajulador é um indivíduo dessa sociedade e que a reproduz e reforça com a bajulação. Para conseguir uma melhor posição na sociedade, o bajulador acaba declarando sua concordância com ela e assim o interesse pessoal coincide com os interesses de classe da burguesia.

A burocratização e mercantilização crescente da sociedade moderna promove o aumento quantitativo de instituições (organizações burocráticas) com suas hierarquias e conflitos internos. Uma instituição, para existir e sustentar sua burocracia e demais despesas, precisa de dinheiro. Quanto maior a instituição, mais mercantilizada e burocratizada ela é. A proliferação e ampliação de organizações burocráticas é um produto do desenvolvimento capitalista. Esse processo pode ser explicado pelas “ondas de burocratização” e “ondas de mercantilização”. A burocratização inicial foi do aparato estatal e das empresas capitalistas, na época da revolução industrial e revoluções burguesas. Depois houve a burocratização da sociedade civil, com a emergência de partidos e sindicatos, entre outras instituições. Depois ela chega ao lazer e acaba constrangendo os indivíduos a viver em organizações burocráticas[7].

Esse processo também ocorreu com a mercantilização. A produção capitalista de mercadorias invade cada vez mais espaços de produção não-capitalistas e vai substituindo a produção artesã, camponesa, etc., pela forma capitalista. E com seu desenvolvimento vai gerando novas mercadorias e mercancias, tais como, mais recentemente, a tecnologia e a cultura. Assim, quanto mais se amplia a mercantilização e a burocratização, mais aumenta o número de bajuladores.

Esse processo tem efeitos culturais determinados. A própria produção da cultura passa a ser perpassada pela competição, burocratização e mercantilização. Os indivíduos, na sociedade capitalista, que são especialistas no trabalho intelectual, são reprodutores da competição social ao invés da colaboração e cooperação. A proliferação de concepções diferentes não é apenas “divergência de concepção”, mas geralmente disputa por espaços e busca de retorno pessoal (poder ou dinheiro). Isso, no entanto, não significa que toda polêmica intelectual seja apenas competição, pois existem exceções, desde reais divergências intelectuais (que podem ser, simultaneamente, valorativas, políticas, etc.), passando por questões idiossincráticas e mal-entendidos, até chegar às manifestações culturais da luta de classes, no qual as discordâncias giram em torno de distintas perspectivas de classe.

As relações de poder numa universidade, por exemplo, definem quais produtos culturais serão produzidos e como isso é realizado e reproduzido no seu interior. Sem dúvida, nesse meio o que predomina não é a busca da verdade – que seria o suposto objetivo da ciência e da filosofia – e sim a satisfação de interesses bastante mesquinhos. O intelectual competitivo vai usar de todos os subterfúgios ao seu alcance para vencer a competição nos meios intelectuais e acadêmicos. Para vencer a competição intelectual, eles vão buscar agradar e ampliar o seu público e seus superiores e por isso vão produzir ideias aceitáveis e que estão de acordo com os modismos e concepções hegemônicas. Hoje, esses intelectuais aderem ao subjetivismo e sua linguagem[8]. A palavra “subjetividade”, que a maioria dos intelectuais que a usam nem sabem defini-la, é, por exemplo, um chavão que abre portas e fornece a impressão de “atualidade”. Sem dúvida, isso não vale para todos que usam tal terminologia, pois acaba sendo uma imposição social do paradigma hegemônico, mas uma grande parte, especialmente nos meios progressistas, possui consciência dos seus problemas e continuam utilizado por oportunismo.

E esse processo vale não apenas para os intelectuais hegemônicos, mas também para os dissidentes[9]. Bourdieu denomina os hegemônicos como “dominantes” e os dissidentes como “dominados”, que em sua competição geram “estratégias opostas”, pois os dominantes usam a estratégia de conservação e os dissidentes a estratégia de subversão. E por isso os “dominados” (dissidentes) elaboram um pensamento mais crítico. Essa competição é mais complexa do que pensa Bourdieu e envolve mais agentes do que pensa (os intelectuais venais, ambíguos, engajados, amadores).

Mas Bourdieu não só aborda a competição nos meios científicos como é, ele mesmo, um bom exemplo disso. Bourdieu foi hegemônico e suas críticas eram moderadas e quando o subjetivismo se tornou hegemônico também na sociologia, ele passou a realizar a crítica do multiculturalismo e outras tendências subjetivistas, bem como ao neoliberalismo e se aproximar de outros setores da sociedade (desempregados, por exemplo). Ele conhecia o jogo e suas regras e quando a correlação de forças mudou, ele também mudou e buscou novos aliados e novo público.

A competição intelectual aparentemente é uma disputa por ideias, mas em grande parte dos casos é busca de espaço e sucesso. Claro que nem tudo gira em torno da competição, pois, ao contrário do que pensa Bourdieu, existe também luta de classes e seus reflexos nos meios acadêmicos e intelectuais. Porém, o que predomina é a competição social. É nesse contexto que os bajuladores emergem. Ao bajular os intelectuais hegemônicos, eles avançam em suas pretensões competitivas e disputa por espaço. Em alguns meios, a bajulação se torna tão explícita e patética que acaba sendo exaltada publicamente. Certa vez, numa disciplina de pós-graduação, o professor responsável disse: “quem não puxa-saco, puxa carroça” (ou seja, “quem não bajula é burro”). Dos vinte alunos, apenas três não riram[10]. Um, o maior bajulador da turma, riu histericamente e bateu a mão na mesa várias vezes[11]. Em alguns contextos, como cursos cujo mercado de trabalho é predominantemente o ensino universitário, a bajulação atinge um alto grau, pois as opções de emprego são poucas para além do próprio lugar de estudo. A bajulação acaba se tornando um meio de sobrevivência acadêmica. Porém, nesse caso, a tarefa é ingrata, pois são muitos bajuladores e eles devem competir entre si, pois não há espaço para todos. Nesses lugares, se instaura uma verdadeira disputa de quem bajula mais e melhor.

Por fim, é importante distinguir os vários tipos de bajuladores. Alguns são bajuladores ocasionais ou quando estão dominados por grande necessidade, tal como precisar de um trabalho específico que é necessário por falta de dinheiro. Outros são bajuladores direcionados para indivíduos que poderão lhe proporcionar vantagens pessoais e competitivas. Presidentes, governadores e prefeitos, por exemplo, tendem a ter muitos bajuladores. Existem bajuladores que podem ter mais de um alvo de bajulação e alguns até bajulam competidores opostos, visando ganhar com a vitória de qualquer um deles. Da mesma forma, existem os bajuladores mais ardilosos, que podem enaltecer todo um departamento acadêmico para aumentar sua possibilidade de aprovação em concurso para professor posteriormente. Existem indivíduos, como o já citado Clemente Soares, que usam a “bajulação sistemática”, sendo o seu modo de competir e de ser. O bajulador integral que, no entanto, como Clemente Soares, com sua falsidade, demonstrará muita ingratidão com aqueles que ele bajulou, mas agora não são mais úteis.

Diversos outros elementos sobre a bajulação e os bajuladores poderiam ser desenvolvidos. Sem dúvida, a bajulação é um produto social e histórico. Porém, ela está envolvida com processos sociais e psíquicos. Esses aspectos não poderão ser desenvolvidos aqui, mas situam o problema da bajulação no plano idiossincrático, o que remete para o indivíduo e seu universo psíquico. Por exemplo, um bajulador que é uma pessoa muito insegura e usa esse recurso para aumentar suas chances de sucesso é diferente do que é narcisista e apenas faz o jogo para conseguir os resultados esperados. As variações e possibilidades são muitas e somente uma pesquisa aprofundada poderia permitir uma tipificação dos bajuladores.

Em síntese, a bajulação é um fenômeno das sociedades de classes e que se amplia e intensifica na sociedade capitalista. Ela perpassa a sociedade e possui grande força em algumas instituições e, mais ainda, em alguns setores de algumas delas. A sua força na sociedade moderna vem da sociabilidade capitalista e da mentalidade burguesa que tornam a burocracia, o dinheiro e a competição os eixos fundamentais da vida social e mental. A competição social pelo dinheiro, riqueza, cargos, poder, fama, sucesso, e outras coisas semelhantes são a base para a formação e reprodução de bajuladores e bajulados. A bajulação é uma forma de conseguir vantagens competitivas numa sociedade competitiva. Esse fenômeno social não será alterado na sociedade atual. Ele pode, no máximo, diminuir, mas não ser abolido. Porém, a probabilidade de diminuir é pequena e só poderia ocorrer com mudanças sociais e culturais amplas, o que não desponta hoje no horizonte. A solução definitiva é, como em tudo o mais, uma transformação social radical e total, ou seja, a superação da sociedade capitalista que produz e reproduz esse fenômeno. Por isso, o elemento fundamental é esclarecer e compreender o fenômeno e sua relação com a totalidade da sociedade e, a partir disso, lutar pela transformação social.

Referências

BOURDIEU, Pierre. O Campo Científico. In: ORTIZ, Renato. (org.). Bourdieu. São Paulo: Ática, 1994.

FROMM, Erich. O Caráter Revolucionário. In: O Dogma de Cristo. 5a Edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

HORNEY, Karen. Novos Rumos da Psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

MARX, Karl. O Capital. 3ª edição, Vol. 01, São Paulo: Nova Cultural, 1988.

PLUTARCO. Como Distinguir o Bajulador do Amigo. São Paulo: Edipro, 2015.

VIANA, Nildo. A Mercantilização das Relações Sociais. Modo de Produção Capitalista e Formas Sociais Burguesas. Curitiba: Appris, 2018.

VIANA, Nildo. As Esferas Sociais. A Constituição Capitalista da Divisão do Trabalho Intelectual. Rio de Janeiro: Rizoma, 2015.

VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.

VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta, 2008.

WEBER, Max. Sobre a Universidade. São Paulo: Cortez, 1989.

 

 

 



* Professor da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia; Autor de vários livros, entre os quais “As Esferas Sociais – A Constituição Capitalista da Divisão do Trabalho Intelectual”; “Teses sobre os Sentimentos”; “Análise Dialética do Discurso”; “O Capitalismo na Era da Acumulação Integral”; “A Mercantilização das Relações Sociais”; “Universo Psíquico e Reprodução do Capital”; “Psicologia Social e Afetividade: Emoções, Sentimentos e Sociedade”; “Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico”.

[1] No presente texto, o “interesse pessoal” aparece apenas no seu sentido negativo, ou seja, como busca de vantagem em detrimento de outros, vinculado à competição social. Existem alguns interesses pessoais que escapam disso, mas não serão aqui abordados.

[2] “Os piolhos afastam-se dos que estão mortos e abandonam seu corpo, quando se extingue o sangue do qual eles se alimentam, enquanto não é completamente possível ver os bajuladores aproximarem-se dos assuntos áridos e que lhes são indiferentes, mas se voltam para os gloriosos e poderosos e se engrandecem com eles, porém, rapidamente correm quando se encontram nas mudanças dessas situações” (Plutarco, 2015, p. 26).

[3] O relacionamento é uma forma delimitada e estável de relação social.

[4] Sobre o conceito de mercancia, bem como o processo de mercantilização das relações sociais, cf. Viana (2018).

[5] Isso significa que existe uma certa contradição na mente individual de um revolucionário, na qual predomina a mentalidade revolucionária, mas elementos da mentalidade burguesa persistem em existir e isso gera contradições psíquicas para o indivíduo. O processo histórico de vida do indivíduo, suas condições de vida, etc., pode tornar essas contradições mais fracas ou mais fortes e isso pode variar durante a sua vida. Por exemplo, uma pessoa que sofreu violência dos pais durante a infância tende a ser mais agressiva e isso é transposto para sua mente em geral e ações, pensamento e decisões na luta política. Outra contradição na mente do indivíduo revolucionário é derivada da necessidade de defender valores axionômicos, sentimentos simpáticos, etc., tal como a solidariedade, mas se defrontar com relações sociais e uma sociedade competitiva e saber que uma transformação social radical e total só pode ocorrer através da luta de classes e de uma revolução social, que traz, em si, conflitos, violência, etc., inclusive sendo vítima, muitas vezes, de perseguição e atos de violência. Assim, mesmo defendendo, por exemplo, a solidariedade, não pode exercê-la totalmente ou generalizá-la, pois em certas relações, nas quais é perseguido ou boicotado, não tem como fazer isso, bem como na luta revolucionária não pode ser solidário com aqueles que lhes são antagônicos.

[6] Esse texto está disponível nesse link: https://redelp.net/index.php/rma/article/view/939

[7] A burocratização ocorre através de dois processos sociais: o aumento de cargos ou organizações burocráticas – e como já dizia Max Weber (1979), se referindo às universidades, um departamento sempre quer gerar outro departamento – e a intensificação do controle, pois a função da classe burocrática, que é quem comanda as organizações burocráticas, é exercer a dominação, seja interna ou externa, tendo no Estado a organização burocrática que controla todas as outras e a sociedade em geral.

[8] Alguns aderem mudando suas concepções passadas, tal como muitos que reproduziam o paradigma reprodutivistas e suas teses de sistema, reprodução, função, etc. e depois passam para uma mistura ou adesão ao paradigma subjetivista e suas concepções de sujeito e subjetividade (Viana, 2019).

[9] Os intelectuais podem ser divididos em hegemônicos, dissidentes, ambíguos, engajados, venais e amadores (Viana, 2015). Marx já identificava alguns deles, usando outros termos, como “clássicos, ecléticos e vulgares”, que correspondem aos hegemônicos, dissidentes e venais em nosso léxico. Os ambíguos são os intelectuais que ficam entre duas instituições (igreja e universidade, ou partido e universidade) e os amadores são aqueles que não são da classe social dos intelectuais, mas se aproximam dela mais culturalmente, através da produção cultural. Isso ocorre tanto no âmbito da ciência quanto da arte, por exemplo. Na concepção de Bourdieu, existem apenas os “dominantes e dominados” no “campo”, embora em algumas obras apareçam três posições ao invés de apenas duas.

[10] Isso significa que apenas três discordaram, ou tiveram coragem suficiente para não aderir ao riso geral, enquanto dezessete concordaram ou cederam ao contexto e reproduziram o que se esperava de todos. Sem dúvida, a piada não foi gratuita e tinha um indivíduo como alvo, que foi um dos três que não riram e o objetivo é dizer que tal pessoa era “burra”. Essa é apenas mais uma proeza do capitalismo, no qual o que é ético se torna motivo de zombaria.

[11] Esse acontecimento real mostra o incentivo do próprio professor para a bajulação. Contudo, nem sempre a bajulação gera resultados e nem sempre é suficiente bajular. O principal bajulador citado acabou sendo, posteriormente, humilhado diante de um dos poucos alunos não bajuladores, pois sua subserviência e posição lhe predispunha para tal e o seu destino foi a marginalidade intelectual e não conseguir o acesso ao cargo de professor universitário que ele queria.


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