O
FETICHISMO DO DISCURSO*
Nildo Viana**
É curioso como alguns
autores analisam certos discursos. É possível ver afirmações como “o discurso
diz isso”, “o discurso diz aquilo”, “o discurso mostra isso ou aquilo”. Essas
afirmações são até admissíveis, se não fossem acompanhadas por uma total ausência
do “autor do discurso”. Em algumas abordagens, e não apenas na estruturalista,
o discurso parece que tem “vida própria”. Dançam com suas próprias pernas, como
as mesas, na ironia de Marx (1988)***.
Quando Marx abordou o
“fetichismo da mercadoria”, ele mostrou como, na consciência dos indivíduos
proletários, a mercadoria não é percebida como produto do trabalho humano, de
seu próprio trabalho associado com o de diversos outros operários. Ela apareceria,
para eles, como algo “dado”, dotado de autonomia e que teria se
“autoproduzido”. O criador não se reconhece como produtor de sua criatura. O
operário produz a mercadoria, mas não percebe isso. Pelo contrário, muitas
vezes pensa que ele depende da mercadoria. Na sociedade capitalista, que
aparenta ser uma “imensa coleção de mercadorias”, elas, na consciência dos
operários, parecem viver por si mesmas e dominá-los. O operário precisa delas,
vive para elas, e elas são seus meios de sobrevivência que estão acima dele.
O fetichismo da
mercadoria tem semelhança com o fetichismo do discurso. Os autores do discurso,
tal como os que fazem o discurso fetichista sobre o próprio discurso, o
analisam como se ele tivesse “vida própria”, como se não fosse produto deles e
de outros autores. O autor desaparece. O autor dos discursos analisados
desaparece, mas essa magia fetichista também vale para o autor da análise do
discurso, que elabora “outro discurso”. Essa dupla desaparição, do autor do
discurso analisado e do autor analista do discurso, mostra o fetichismo do
discurso. E até mesmo quando o discurso é atribuído a alguém, o autor
desaparece. Quando Lacan trata do “discurso do capitalista”, não aparece nenhum
capitalista, curiosamente.
A superação do
fetichismo do discurso pressupõe o fim de uma sociedade produtora de
fetichismos. Contudo,
cabe a nós superarmos o fetichismo no nosso próprio discurso e na análise do
discurso alheio. Isso nada tem a ver com a concepção subjetivista, seja a que o
considera um “sujeito livre”, seja a que o considera um “sujeito construído” e
que deveria ser “desconstruído” (não se sabe como faria essa proeza, no sentido
racional, pois no ideológico é aderindo à ideologia subjetivista, outra
“construção” que aparenta não ser construída). A “ideologia do sujeito”
transforma o autor em um “sujeito (no sentido negativo do termo, como
assujeitado) da ideologia”.
A superação do
fetichismo do discurso, numa sociedade fetichista, é algo extremamente difícil,
pois até aquilo que se apresenta como antifetichista não passa de um fetichismo
travestido do seu oposto. Mas a análise crítica e dialética do próprio discurso,
o que pressupõe um mesmo processo analítico em relação ao seu autor, e do
discurso alheio, é fundamental para efetivar esse processo.
O autor do presente discurso sabe que é o seu autor e
analisa ambos e, da mesma forma, quando analisa o discurso ideológico de Lacan
e outros, realiza o mesmo processo e assim busca evitar o fetichismo do
discurso e o fetichismo do autor do discurso. Isso não abole o fetichismo do
discurso realizado por outros, mas é parte da luta pela sua abolição, porquanto
isso contribui com sua superação intelectual e parcial, que é parte da luta
mais ampla por sua superação prática e total.
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* Esse é um trecho do livro Análise Dialética do Discurso (VIANA, Nildo. Análise Dialética do Discurso. Teoria, Linguagem e Discurso. Tomo 01: teoria; Volume 01: Linguagem e Discurso. Goiânia: Ragnatela, 2026). O texto foi escrito para essa obra para ser alvo de análise no referido livro.
** Professor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG - Universidade Federal de Goiás.
*** MARX, Karl. O Capital. 3a edição, vol. 01, São Paulo: Nova Cultural, 1988.

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