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SOBRE O DISCURSO
RETÓRICO
Nildo Viana*
O discurso retórico é bastante utilizado na época atual,
principalmente nos meios acadêmicos, mas também na Internet,
meios de comunicação, conversas cotidianas. Trata-se de uma forma
de discurso que não visa a verdade
e sim a vitória a qualquer custo. Por isso, geralmente (mas não unicamente), não se fundamenta na honestidade intelectual, mas os ardis desonestos para
ganhar um debate. A maioria dos casos de uso de discurso retórico, o que se busca não é libertação humana e sim a reprodução do poder. Muitos,
no entanto, usam o discurso retórico por questões de crenças,
narcisismo, etc. Essas motivações variadas do discurso retórico se concretizam
no seu objetivo: vencer a qualquer custo.
Já nos defrontamos muitas vezes com discurso retórico em nossa experiência acadêmica, política e cotidiana. A estratégia que utilizamos,
muitas vezes, foi a de desmontar a retórica e expor suas fraquezas intrínsecas,
formais, às vezes, somar a isso a discussão sobre o tema em questão no sentido de mostrar seus limites. O presente texto visa alertar os leitores, debatedores,
estudantes, professores e todos os interessados em questionar esse gênero de discurso
por ter o compromisso com a verdade,
que é algo bem mais nobre
do que “vencer a qualquer custo”, em saber distinguir a retórica da exposição
racional e fundamentada. Assim, é fundamental perceber que quem faz tal
discurso não tem compromisso com a emancipação humana, mas apenas consigo
mesmo, com seus interesses pessoais ou crenças, valores, sentimentos e
concepções que tem como consequência a reprodução da sociedade existente. Por
isso é importante mostrar os artifícios, motivações e objetivos do discurso
retórico, bem como apresentar elementos para desmontar os usos desse gênero
discursivo.
Mas antes de começar nossa jornada, precisamos definir o que entendemos por discurso retórico. Um discurso, é “uma manifestação concreta e delimitada da linguagem” (Viana, 2009) que pode ser assim definido: “uma relação social na qual um autor apresenta, sob forma falada ou escrita, um conjunto de enunciados que expressa uma mensagem complexa sobre algo e para algum destinatário” (Viana, 2024). O principal elemento que distingue o discurso retórico dos demais gêneros do discurso é o seu objetivo, vencer o debate. Isso significa que um discurso retórico emerge em situações de debate (conversas cotidianas, embates políticos, posicionamentos sobre livros ou ideias em geral, etc.) e com o objetivo de derrotar o adversário. O discurso retórico se organiza em torno desse objetivo, sendo que para atingi-lo utiliza qualquer meio necessário, especialmente os ilícitos.
Características e Artifícios do Discurso Retórico
O discurso retórico se organiza em torno do seu objetivo geral[1]:
querer vencer o debate a qualquer custo[2],
inclusive, em muitos casos, utilizando meios ilícitos. Também apresenta a
característica de possuir uma coerência
interna marcada por contradições e
incoerências, devido justamente ao seu objetivo[3].
Sendo assim, o discurso retórico mantém sua coerência e estrutura unissêmica
mesmo quando mostra certa incoerência discursiva, pois esses elementos podem
ser modificados quando é conveniente para vencer o debate. As demais características do discurso retórico
podem ser encontradas na forma como busca realizar o seu objetivo
de vencer o debate a qualquer custo.
Essa forma é composta
por um conjunto de artifícios que visam confundir, ludibriar, desqualificar, o adversário/destinatário do discurso.
Um artifício é algo artificial e, simultaneamente, uma artimanha, um
truque. É artificial por não ser um desenvolvimento lógico e coerente e sim
artifícios produzidos pelo autor do discurso retórico visando atingir seus
objetivos. Muitas vezes isso é feito sob forma consciente e intencional, mas
nem sempre, pois existem casos nos quais os artifícios brotam automaticamente
como um procedimento de defesa, o que ocorre com aqueles que, no fundo, só
querem garantir a ideia de veracidade de sua crença ou sua credibilidade. No
caso daqueles que usam esses artifícios para garantir sua autoridade, manter
relações de poder e outros interesses escusos, o uso da retórica é consciente e
intencional.
Os artifícios que emergem no discurso retórico também são
uma artimanha, uma armadilha discursiva. Schopenhauer (1997) chamou tais
artifícios de “estratagemas”, palavra de origem militar que significa ardil
(armadilha, emboscada, artifício, logro) empregado contra os inimigos. Nesse
caso, uma intencionalidade é inevitável, pois o autor do discurso usa sob forma
intencional e planejada os artifícios, visando colocar o
adversário/destinatário numa posição
desconfortável, seja através
da ridicularização, seja através da incapacidade de reação.
Num debate para eleição presidencial no Brasil, um candidato usou uma sigla que
ele sabia que seria desconhecida pelo seu adversário para poder, após sua
resposta equivocada, mostrar o seu verdadeiro significado e demonstrar a
ignorância dele, ridicularizando-o. Esse artifício foi uma armadilha, pois o
adversário ou admitia sua ignorância, dizendo
que não sabia o significado daquela sigla, ou fazia de conta
que sabia sob alguma forma
e, assim, tentar
se desvencilhar da pecha
de ignorante. O candidato
optou pela segunda saída e o autor do artifício pôde facilmente mostrar sua
ignorância, pois tratou de algo bem diferente do que expressava o significado
da sigla.
Apontaremos agora os principais artifícios do discurso
retórico. Analisaremos, inicialmente e de forma mais aprofundada, os quatro principais artifícios utilizados pelos retóricos, e, posteriormente, alguns
outros menos utilizados, de forma mais sucinta ou apenas citação de passagem,
tais como derrisão, pseudoargumento ad
hominem, etc. Os artifícios fundamentais são os seguintes: A) Rotulação B) Pseudoargumento de autoridade; C) Substituição; D) Simplificação; E) Depreciação;
F) Repetição.
A Rotulação
O artifício mais utilizado e comum é a rotulação. A rotulação pode ser utilizada sob várias formas. Ela
poder usada como “etiqueta classificatória”, tal como coloca Bourdieu (1996)[4],
ou sob formas mais simples, como a adjetivação (o uso de adjetivos
pejorativos). O rótulo substitui o conteúdo. Adjetivos pejorativos abolem
argumentos. Assim, o artifício da adjetivação ou rotulação tem uma eficácia
prática ao tornar o criticado igual ao adjetivo ou rótulo enunciado pelo suposto crítico.
O artifício é praticado
sob duas formas. A primeira
é a do adjetivo pejorativo. O pseudocrítico, pois quem utiliza do discurso retórico não pode ser considerado um crítico no verdadeiro sentido da palavra,
usa um adjetivo pejorativo para destruir os argumentos dos adversários.
Se um autor escreve um texto e o pseudocrítico diz que tal texto é
“panfletário” ou “positivista”, ou, ainda, “infantil”, usa o
artifício da adjetivação. O leitor
tende a sentir o impacto da força do adjetivo pejorativo, apesar do
pseudocrítico geralmente não utilizar nenhum argumento ou informação que
fundamente a afirmativa.
É isso que distingue o artifício da adjetivação e da rotulação do processo de conceituação. O crítico, ou seja,
aquele que critica de forma autêntica
e por isso não utiliza um discurso retórico, pode usar adjetivos e termos
parecidos com rótulos, mas a forma e significado é diferente. Por exemplo, é
possível afirmar que o autor do texto X é positivista, ideológico, populista,
etc., porém, nesse caso, além da palavra vem a explicitação do seu significado
(não se apela para sua pura negatividade) e onde ele se encontra no texto
criticado e como e por qual motivo ele é problemático. Assim, se o
pseudocrítico simplesmente diz: “este texto é liberal”, para leitores
progressistas, então é mera retórica, um uso do artifício da rotulação. Agora,
se um crítico afirma que um certo texto é positivista e explicita o que
significa tal termo, bem como mostra onde ele se encontra no texto e quais suas
fragilidades, então é um processo de conceituação e não adjetivação/rotulação.
Esse artifício é muito utilizado em disputas políticas, tal
como se pode ver nos livros de Lênin (1989) e Mao Tsé-tung
(1979), entre outros.
Lênin, por exemplo,
abusava do uso de adjetivos pejorativos, e em seu livro O Esquerdismo, A Doença Infantil do
Comunismo, como já se nota pelo seu título, acusa os adversários de serem
doentes, infantis, imbecis, entre outros termos usados amplamente. Outros
termos, que este também utilizava com muita facilidade, é “oportunismo”, etc.
Lênin utiliza a rotulação sobre duas formas principais: o insulto, tal como se
vê nas expressões “infantil”, “imbecil”, etc., e a depreciação para
determinados destinatários, tal como se vê em expressões como
“pequeno-burguês”, “esquerdista” ou “revisionista”, termos malvistos para quem
pertencia, na época, ao socialismo radical ou bolchevismo e semelhantes.
Assim, a rotulação pode ir da invectivação (insulto,
injúria) e da adjetivação pejorativa, que busca uma sanção reputacional
(atingir a reputação alheia, tornando-a negativa através desses procedimentos) até a classificação negativa, que pode ser apenas uma forma mais refinada das
anteriores (denominar autor criticado como “positivista”, “anarquista”,
“cientificista”, “irracionalista”) que tem aparência de suposto saber, mas que,
no fundo, mantém a mesma intenção se não houver definições e fundamentação.
O Pseudoargumento de Autoridade
O pseudoargumento de autoridade – também denoninado
“argumento de autoridade” e usaremos sob as duas formas, mas é preciso deixar
claro que é um falso argumento – é um dos artifícios retóricos
mais utilizados. A autoridade pode ser o próprio retórico ou outros indivíduos ou autores
que ele cita como sendo
inquestionáveis ou com grande saber sobre o assunto. O argumento de autoridade
funciona da seguinte forma: a afirmação X é verdadeira por ter sido feita por
indivíduo Y, que é grande conhecedor do assunto, é uma autoridade, ou por outro
suposto mérito dele (sacrifício, honestidade, etc.). Assim, se autor X morreu
lutando pela liberdade ou pelo “socialismo”, então está acima da crítica,
mesmo deixando de lado qual era sua concepção de “liberdade” e “socialismo” e quais foram
as realizações concretas vinculadas e justificadas por ela. Outros querem defender
determinadas ideias e apelam para autor A, B ou C, como sendo algo suficiente. O raciocínio é mais ou menos o seguinte: o autor
A é excepcional, ele é muito bom, e ele defende esta ideia que eu estou
expondo, logo, esta ideia é verdadeira e profunda. É o ponto final na
discussão. Quanto mais famoso, reconhecido
e respeitado é o referido autor,
mais eficácia retórica terá junto aos leitores.
Esse é um caso no qual, em um debate,
um dos debatedores, não tendo argumento
algum a oferecer, diz: “Gramsci diz que a hegemonia é fundamental e não a
economia”. Isso é parecido
com o “efeito da grife”,
tal como Bourdieu
(1996) anotou no caso da arte,
e, nesse caso, poderíamos denominar “efeito
de autoridade”. Porém, muitas vezes o próprio pseudocrítico se qualifica
como autoridade. Esse é o caso do pseudocrítico que, ao não ter argumento
contra o seu adversário, afirma coisas do tipo: “eu pesquiso esse tema a 10
anos”; “eu sou doutor nessa área pela Universidade de Cadafalso do Norte”.
Logo, o adversário ou os demais devem acreditar e aceitar sua posição por ele
ser uma suposta autoridade no assunto e apesar de não ter argumentos e
informações suficientes para convencê-los racionalmente. No fundo, ao fazer isto, mostra sua competência formal (títulos, currículo, etc.) ou
suposta (experiência, autoelogio, etc.) e sua incompetência argumentativa.
A Substituição
A substituição
pode assumir várias formas. A forma
mais comum é o artifício do “mudar
de assunto”, mas também pode assumir a forma da substituição de termos,
problemáticas, contexto, autores, etc. O artifício da substituição é utilizado pelo retórico em várias
situações, sendo que uma das mais comuns
é quando ele está derrotado
ou sem nenhuma possibilidade de resposta, pois assim pode desviar o assunto para disfarçar sua derrota e ter alguma
possibilidade de reação.
Isso pode ser exemplificado com um debate entre um professor e um aluno em
sala de aula:
Professor:
“só existem classes
sociais no capitalismo”.
Aluno: “em qual concepção? Afinal, para o marxismo existem
classes em outras sociedades além da
capitalista”.
Professor: “estou
dizendo para a concepção marxista, para Marx só existe classes
no capitalismo”. Aluno: “onde
ele escreveu isso?”
Professor: “bom, em lugar nenhum, mas é sua concepção de classes”.
Aluno: “oras, o que na sua concepção de classes aponta para isso?” Professor:
“só existe classe havendo exploração”.
Aluno: “E por acaso
o escravo no escravismo e o servo no feudalismo não eram explorados?”. Professor: “quis dizer que
só existem classes onde existe mais-valia”.
Aluno: “onde
Marx afirmou isso?”
Professor:
“bom, o tempo da aula está acabando e por isso eu vou voltar ao assunto
original e depois, no final, te respondo”.
Aqui o artifício da substituição é justificado pelo tempo, mas como não voltou ao assunto (pois esse foi um acontecimento
real numa sala de aula em pós-graduação), apenas deixou claro que não tinha
resposta e não queria/podia admitir isso. Um outro exemplo mostra novamente a
questão da substituição retórica:
Aluno A: “professor, quem são os deterministas e os possibilistas?”
Professor: “Os possibilistas são os otimistas
e estes são sempre os do governo, que sempre estão otimistas e a oposição é sempre pessimista”.
Aluno B: “Bom, eu li sobre isso, em livro de
Geografia, no qual há um debate sobre possibilistas e deterministas, e os
primeiros são considerados otimistas por postularem a existência de
possibilidades. No livro é citado
o economista socialista Paul Singer, que pensa que é possível
mudar e superar a fome sem controle de natalidade e os demais, os
deterministas, não acreditam nisso, sendo pessimistas”.
Professor: “Não existe
socialismo!”
Aluno B: “Também não existe democracia!”
Professor: “Não vamos ficar aqui debatendo questões
políticas como democracia e socialismo” ...
Aqui o artifício da substituição foi utilizado para não
admitir o próprio equívoco e desviar para outro assunto
(a inexistência do socialismo), e o aluno acabou caindo
nesse artifício (desvio de assunto) e faz nova contestação, a sobre existência da democracia (que era
o discurso mais constante do professor em questão), e novamente ele muda de assunto, ou melhor, encerra-o. Porém,
essas são as formas mais simples, existem
outras bem mais complexas e são relativamente comuns. Este é o caso de um debatedor (A) que
usa o artifício da depreciação afirmando que o que o outro
debatedor (B) escreveu sobre
o assunto em debate
(a obra de Darwin) não tem importância e de nada vale. O primeiro debatedor (A),
ao ser questionado por um terceiro debatedor
(C) que perguntou por várias vezes o que ele tinha lido
de Darwin, e não obteve
resposta do retórico, que sempre ia para outros
assuntos e repetia afirmações já feitas (outro
artifício que será tratado adiante), até que este mesmo questionador (C) repete
a pergunta várias vezes, conseguindo, finalmente, que o primeiro debatedor (A) admita
nunca ter lido Darwin. Aqui se trata
de um debatedor honesto acometido por uma crença cientificista
que não conseguia superar e por isso, num certo momento, assumiu ser um não
leitor do famoso biólogo. O debatedor questionador (C), na ausência do outro
(B), desmonta a retórica através da insistência em questionar os seus
fundamentos para refutar o outro debatedor que estava ausente na sequência da
discussão.
Há também casos em que o retórico passa de uma discussão
sobre a greve num determinado país para uma situação bem diferente em outra
época e local para tentar convencer que sua posição é adequada, abstraindo a
diferença dos contextos. A substituição retórica também pode ser feita
sistematicamente ou apenas no início do debate, visando derrotar o adversário
saindo do tema dele e indo para outro no qual o argumento original já não é
mais sustentável.
A Simplificação
A simplificação é outro artifício muito utilizado e pode
assumir várias formas, indo desde o uso de trechos descontextualizados até
atribuição de ideias retiradas de outros autores que supostamente teriam
concordância com quem foi criticado. O artifício de
simplificação consiste em simplificar o discurso alheio para assim derrotá-lo
com facilidade. Por exemplo, se alguém quer discordar da teoria do Estado de
Marx, basta dizer que ela se fundamenta no determinismo econômico e assim passa
a fazer considerações sobre a limitação de tal determinismo (o que é também uma
substituição retórica).
É claro que tal determinismo em Marx é uma pressuposição falsa, outro artifício do discurso retórico, mas uma fez servindo como ponto de partida e se o outro debatedor não o desfaz, ele acaba sendo convincente. A redução é uma espécie
de simplificação que reduz uma discussão complexa a algum
dos seus elementos. Se um debatedor utiliza diversos argumentos para mostrar
que a pena de morte é algo questionável, o retórico pode reduzir seu discurso a uma defesa dos criminosos. Um pseudocrítico retórico
pode, para questionar uma
afirmação de um debatedor marxista, dizer que ele está equivocado por não ser o “desenvolvimento das forças produtivas” que explica o fenômeno, sendo que o autor do discurso jamais
fez tal referência e nem concorda com tal explicação, mas a simplificação aí funciona pelo uso da redução do marxismo
a uma concepção determinista e a identificação do criticado com essa versão
empobrecida e simplificada dele.
A Depreciação
O artifício da depreciação visa vencer o debate
desqualificando e desacreditando o autor do discurso ou o próprio discurso. Ele
geralmente é um elemento complementar do artifício da rotulação e muitas vezes
acompanha a sanção reputacional. Ele pode ser usado para desautorizar o
debatedor, tal como dizer que é “apenas um estudante secundarista” ou que não é
“especialista em psicologia” (ou qualquer outro saber especializado). As duas formas
mais comuns do uso deste artifício são as afirmações não-fundamentadas de que o autor do discurso “não leu” ou “não
entendeu” determinado pensador ou obra. Sem dúvida,
existem casos de autores que abordam outros
sem leitura, mas o crítico pode demonstrar isso, tal como críticos de Lamarck que apenas reproduzem a crítica de Darwin e a
bibliografia deles comprova a não-leitura, já que não há obras desse autor nas referências. Porém, os retóricos
usam esse artifício
com muita facilidade, inclusive a respeito de
textos com abundantes citações e transcrições de trechos dos autores
criticados, o que significa que não tem nenhum sentido ou fundamentação tal afirmação.
Outra forma é fazer suposições (sem nenhuma fundamentação
ou baseado em apenas impressões e informações superficiais que geram
generalizações abusivas) sobre a vida, a moral, a integridade ou a capacidade
do debatedor. No caso de Marx, por exemplo, muitos dos seus pseudocríticos
retóricos buscam desqualificar a obra dele falando de sua vida pessoal, de seu “autoritarismo”, “insensibilidade”, “racismo”, etc. (Ramx, 2023). Outros usam formas de depreciação
junto a determinados públicos, por exemplo, no interior de uma disputa
política em meios políticos acusar o debatedor de ser “acadêmico” ou “academicista”, ou, no caso inverso,
em meios acadêmicos, acusar o debatedor de ser “militante”,
“político” ou “panfletário”. Outra forma é acusar no outro debatedor a
existência de motivações consideradas pouco “nobres”, como ganhar dinheiro,
vaidade, busca de sucesso ou fama, etc. Sem dúvida, as motivações são elementos
que podem compor a análise crítica do discurso alheio, mas no artifício da
depreciação isto é feito sem nenhum critério
ético e fundamentação, sendo mera suposição, na maioria dos casos
de forma mau intencionada (e algumas vezes é mera projeção, no sentido psicanalítico do termo), cujo
objetivo é vencer o debate. Em casos de generalização devido a posição social
ou derivada da prática, é uma afirmação indicial, mas no caso da depreciação
retórica o que ocorre é afirmação destituída de fundamentação e mesmo tais indícios estão ausentes.
A Repetição
O artifício da repetição é caracterizado por repetir a
mesma coisa sempre. O retórico faz uma afirmação, o debatedor questiona (na forma de pergunta ou de refutação) e ele reafirma o que já tinha afirmado,
sem responder perguntas
ou a refutação e isso pode
continuar ad infinitum. Esse
artifício busca convencer pela repetição e por evitar o aprofundamento do
debate, é uma forma de antidebate (assim como tem o antijogo, no futebol). Ao
afirmar, por exemplo, que Marx é estatista e o adversário pergunta de onde
tirou isso, ele volta reafirmando sem dizer sua fonte ou explicar seu
embasamento e, ao ser questionado novamente, repete o que já havia dito. Caso o
outro debatedor resolva aprofundar e além da pergunta
resolver mostrar elementos
na obra de Marx que contradiz
tal afirmação, o retórico continuará repetindo sua afirmação como se não
tivesse sido refutado e sem comentar os argumentos alheios.
Isso, muitas vezes, provoca a irritação no adversário (aliás, todos os artifícios retóricos
tendem a provocar
irritação), e ele pode,
assim, também apelar para formas retóricas por reação (ou seja, utilizar
adjetivos pejorativos, tal como chamar o retórico de ignorante, enrolador, etc., o que, no fundo,
não é, em muitos casos, falso, mas acaba cedendo ao artifício da
substituição na discussão, além de ser involuntário, sendo
reativo). O discurso
retórico tende a abolir a racionalidade
de qualquer debate, e, caso o não-retórico se descuide, pode degenerar em troca de ofensas
e acusações ao invés de uma discussão
sobre o que está em questão. Sem dúvida, muitas vezes o iniciador da discussão que usa a retórica não quer realmente
debater, quer apenas atacar a pessoa e/ou suas ideias para retirar
o efeito do seu discurso,
o que é a posição
de muitos retóricos medíocres e por isso já iniciam de tal forma que o
debate já está morto antes de começar, pois a intenção é atacar e irritar ao
invés de realmente discutir.
Existem vários artifícios complementares[5], porém, vamos nos limitar a estes, que são
os principais. Em outra oportunidade desenvolveremos um texto aprofundado estes elementos e apresentaremos os artifícios complementares, mas no presente texto
encerramos por aqui.
Motivações e Objetivo do Discurso
Retórico
Quais são as fontes e interesses
por detrás do discurso retórico? Na verdade, é na luta política e nos debates acadêmicos
orais ou superficiais (e-mails, sala de aula, mesa redonda, artigos de jornal,
redes sociais virtuais, ou seja, geralmente falas ou textos curtos), ou mesmo conversa
pessoal ou debate
oral, que se manifesta com mais frequência o discurso retórico[6]. O seu objetivo
varia, assim como varia quem usa o discurso retórico. O objetivo geral do
discurso retórico é ganhar o debate a qualquer custo, mas cada manifestação
específica desse gênero discursivo tem um objetivo específico. Alguns querem
vencer o debate para provar sua suposta inteligência, outros para conseguir
votos para seu candidato, entre milhares de outros casos possíveis.
Muitas pessoas honestas usam o discurso retórico sem
perceber, motivados por necessidade de defender
suas concepções e posições arraigadas e com forte
envolvimento valorativo e sentimental, embora, nesse caso, o que tende a
ocorrer é o uso de artifícios retóricos e não
um discurso retórico em si. Um discurso retórico é uma totalidade e o uso
ocasional de artifícios do discurso retórico significa, de forma isolada, usar
um ou outro elemento que está contido nele. Por exemplo, um debatedor que está
sendo vítima de sanção reputacional pode, por irritação, usar um insulto contra
o adversário. Esse elemento isolado não torna o seu discurso uma manifestação
do gênero retórico. E é nesse contexto de debate com alguém que utiliza
retórica que, por envolvimento e por irritação, o não-retórico acaba usando
também artifícios retóricos. Outra motivação é usar um artifício retórico como
um antídoto, ou seja, um recurso antirretórico. Esse caso pode ser
exemplificado por um debate entre dois professores, no qual um usava discurso
retórico e um dos artifícios que usou foi o da sanção reputacional através da derrisão
(que significa usar o humor para conseguir desqualificar o adversário através
do efeito cômico) ao denominar o destinatário como “Mister M”. Com esse termo,
buscava desqualificar o discurso oposto através do efeito cômico. O debate se
prolongou e o debatedor retórico havia sido derrotado racionalmente, mas ainda
usava o artifício da autoproclamar-se vitorioso, e, na última intervenção, o
debatedor não-retórico denominou o adversário como “Palhaço Tiririca”. Desta
forma, o debatedor conseguiu desfazer o efeito cômico e suas consequências
posteriores (qualquer referência posterior ao debate ou ao debatedor lembraria
a derrisão caricatural e o nome “Mister M”) usando o mesmo recurso, com um
efeito cômico ainda mais forte, anulando suas consequências posteriores (pois
toda referência ao “Mister M” viria junto com a lembrança do “Palhaço Tiririca” [7]. Nesse
caso, a vitória racional, suficiente para alguns, foi acompanhada pela vitória
anedótica, cuja inexistência poderia anular a primeira. Esse uso de um
artifício retórico foi antirretórico.
É por isso que geralmente se afirma que não
se deve discutir política, futebol e religião, devido a esse forte vínculo
sentimental e valorativo presente nas posições e concepções nestas questões (Viana,
2011). No entanto, o uso do discurso retórico nestes
casos é geralmente mais moderado e mesclado com argumentos/informações e tentativas de estabelecer um diálogo racional
e por isso pode levar a superação da retórica quando
os argumentos do adversário conseguem ampliar a consciência do debatedor que
apela para a retórica. Porém, isto dificilmente ocorre, justamente por causa do envolvimento sentimental e valorativo e quanto mais forte é este
envolvimento, menor são as possibilidades de ampliação e aprofundamento do
debate.
Porém, o uso mais constante e intensivo (por vezes
violento, sendo que algumas pessoas usam da violência para silenciar os
adversários, principalmente quando estão presentes pessoalmente, o que se
manifesta nos gestos, tom da voz, etc.) pode ter como fonte um forte
envolvimento sentimental e valorativo, mas, também, uma fonte menos nobre que
são determinados interesses.
Na sociedade capitalista, caracterizada por uma
sociabilidade extremamente competitiva, os valores e sentimentos dos indivíduos acabam sendo fortemente comandados pela
competição. Os sentimentos de inveja e ciúme são fortalecidos e reforçados de
forma que se tornam arraigados no universo psíquico dos indivíduos. A inveja e o ciúme, por sua vez, estão ligados aos valores dos indivíduos, pois se
pode invejar a riqueza, a beleza, as posses, a criatividade, o sucesso, a fama, a produção
intelectual, determinadas habilidades, as amizades, etc., que os outros possuem
e isso pode gerar animosidade insciente ou relativamente consciente. Se alguém
escreve um artigo criticando a posição política de um determinado autor famoso
e ganha um certo reconhecimento por parte de algumas pessoas, um invejoso pode
muito bem sair em defesa do tal autor famoso,
dizendo que, sendo
um pensador reconhecido, então não pode ser
criticado (artifício do argumento de autoridade), já que o crítico, não tão famoso,
não teria capacidade para tal (artifício de depreciação), e para isso
pode citar os livros publicados pelo autor defendido. O caráter retórico da
crítica é perceptível, principalmente quando se nota que o conteúdo da crítica
não foi discutido (artifício da substituição)
e apenas um aspecto periférico e sem importância, tal como uma palavra, se torna
o centro do ataque (artifício da simplificação). E, por fim, no
decorrer do debate, o retórico coloca sob suspeita as
motivações do autor do texto, que era uma crítica por questão de posição
política, e insinua que se tratava de interesses acadêmicos, o que significa
usar o artifício da depreciação e da substituição.
Porém, outras motivações além de determinados sentimentos e
valores podem existir. É o caso de um aluno que quer competir
com outros alunos para poder conseguir vantagens na vida acadêmica e
quer atacar os concorrentes ou agradar aos professores e assim cair na graça
destes. Ao faltar
competência real, usa-se
o discurso retórico. Também é possível que um autor
famoso criticado seja defendido de forma sentimental e valorativa por ser a base ideológica do pensamento e produção intelectual do defensor, o que significa que, sendo correta a
crítica, ele é atingido
indiretamente. É por isso que muitos autores, temas, etc. são reverenciados por pessoas na academia e é isto que gera a idolatria por determinados pensadores.
Estas motivações, no entanto, são apenas algumas
possíveis, pois existem
diversas outras. Um elemento
em comum perpassa todas elas:
o autor do discurso retórico possui dificuldade em realizar um debate consistente sobre o assunto
em questão, e isso vale até
mesmo para especialistas de um determinado assunto, no qual trabalha a diversos anos e
é sua base em suas pesquisas. Os artifícios discursivos são substitutos de
argumentos, informações, fundamentação. Logo,
o autor do discurso retórico
precisa apenas dominar esses artifícios e ter uma certa
habilidade no seu uso concreto. E, para os incautos, pode passar a impressão de
ser pessoa culta e inteligente.
O discurso retórico pode ser usado a respeito de qualquer
assunto. Por isso o discurso retórico é uma pseudocrítica e um antidebate. O
discurso retórico não visa aprofundar nenhum saber ou debate, não visa
contribuir com a expansão da consciência sobre determinado assunto, não visa
reconhecer as posições existentes e se posicionar permitindo os demais
posicionamentos para que no seu confronto haja algum ganho intelectual. Por isso, ele é um discurso falso e mistificador, que provoca o emperramento
da consciência e serve, no fundo, aos objetivos de reprodução das ideologias,
das mistificações, das ilusões,
em poucas palavras,
do poder e dos interesses dominantes, que
coincidem, na maioria das vezes, com os interesses individuais da maioria que
usa o discurso retórico.
Assim, podem existir várias motivações para o discurso
retórico, mas seu objetivo discursivo é vencer o debate a qualquer custo. Esse
é o seu objetivo geral. Existem objetivos específicos que remetem às motivações
e objetivos do autor do discurso retórico. Se alguém escreve
um livro que usa discurso
retórico sobre Marx, o seu objetivo específico é criticar
esse pensador e a retórica
é utilizada por não ter capacidade
de realizar uma crítica efetiva
e desejar, a todo custo, derrotar o marxismo. Nesse
caso, a pseudocrítica através
do discurso retórico é o que o autor consegue fazer.
O autor do discurso retórico (aqui entendendo um discurso
em sua totalidade, e não um uso de apenas um de seus artifícios em determinados
contextos discursivos) geralmente não possui a competência discursiva e saber
necessário para vencer o adversário e por isso necessita usar a retórica para
conseguir a vitória. Ao lado das motivações e objetivos do discurso retórico,
há um reconhecimento inintencional de incompetência por parte do autor desse
gênero discursivo.
O efeito do discurso retórico, quando ele é vitorioso, é a
persuasão, o que serve, devido suas motivações e objetivo, o que promove
um resultado positivo
para o seu autor. O
objetivo do retórico em apelar para esse gênero discursivo pode ser adquirir
fama intelectual, criticar um desafeto ou uma posição
política, defender seus interesses pessoais específicos, entre diversos
outros possíveis. Nesse contexto, é possível perceber que o uso do discurso
retórico está vinculado a determinados interesses (pessoais e coletivos) que o
colocam em confronto com a busca da verdade. Logo, o discurso retórico é um
subproduto da sociedade capitalista, fundada
na competição e não serve para quem busca
a libertação humana.
Para Desmontar o Discurso Retórico
Como derrotar o discurso retórico? Isto, no plano meramente
racional, é relativamente fácil. Devido sua fragilidade intrínseca, o discurso
retórico é facilmente derrotado. É suficiente para derrotá-lo realizar
uma explicitação do seu caráter
retórico e destrinchar o seu
conteúdo (quando houver), mostrando suas incoerências, falta de fundamentação,
desconhecimento dos acontecimentos, precariedade argumentativa.
Porém, o discurso retórico é perigoso, pois pode facilmente
ser desmontado pelo não-retórico desde que esse tenha habilidade e
fundamentação e entenda esse gênero discursivo. Num debate concreto, se o
não-retórico consegue efetivar o desmonte de tal discurso e fica claro para ambos a
sua derrota (ou pelo menos para o não-retórico, pois o
outro, devido sua idiossincrasia ou crenças arraigadas pode não admitir sua derrota e usa
a razoabilização, para utilizar termo psicanalítico, ou pode retoricamente autodeclarar sua
vitória), mas, ele pode exercer
uma eficácia persuasiva sobre os que estão fora do debate (se é numa sala de aula, num
auditório, numa reunião ou assembléia, numa lista de discussão na internet, etc.).
Assim, dependendo de quem está ouvindo ou lendo o debate,
pode ficar claro a fragilidade do discurso retórico, mas também pode não ficar claro
para muitos e a eficácia persuasiva
de um adjetivo pejorativo, pode,
para muitos incautos, ser muito forte e convincente.
O discurso retórico falado é mais difícil de ser combatido
do que o escrito. Um debate oral é mais rápido e o desmonte do discurso
retórico requer velocidade de pensamento, possibilidade de fala, etc. No caso
de um debate escrito é mais fácil desmontar o discurso
retórico, pois é possível usar citações do retórico mostrando
suas contradições e artifícios
discursivos, já que é possível uma reflexão mais profunda e análise mais
detalhada e profunda.
Em debates acadêmicos (falados), existem situações em que
um debatedor “ganha” o debate com uma piada que desconcerta o adversário e
promove a gargalhada do público. Esse é o recurso retórico da derrisão. Alguns
destes retóricos acabam ganhando notoriedade e popularidade, embora não acrescentem muito para o desenvolvimento da consciência e nem demonstre um saber aprofundado sobre o que
estão debatendo. Desta forma, para desmontar o discurso retórico é necessário racionalidade (pois, como colocamos anterior,
esse gênero discursivo tende
a gerar irritação, o que tende a promover um fortalecimento da emoção em
detrimento da razão), argumentação, informação e fundamentação.
Para que tal desmonte seja perceptível para muitas pessoas
não atentas ao que é um discurso retórico (sem falar nos partidários de quem
faz o discurso retórico, que por interesses,
valores e/ou sentimentos tendem a reforçá-lo), outros elementos são necessários. Nesse caso, a ironia, o
trocadilho e outros recursos podem ser utilizados de tal forma que acabe
desmontando o discurso
retórico também em sua eficácia
persuasiva. Em certos casos,
é necessário usar um recurso
retórico para anular outro recurso
retórico. É o caso,
por exemplo, quando
em um debate um dos debatedores quer usar o artifício da depreciação, atribui ao seu adversário um nome de um personagem que poderia virar rótulo para ele, tornando-o motivo de troça permanente (tal como apontamos anteriormente). Nesse caso, mesmo perdendo racionalmente o debate, acaba saindo-se
relativamente bem, pois o
elemento fundamental que será recordado
pela maioria será a troça, devido sua excepcionalidade e facilidade de recordação, bem como isso tem uma eficácia persuasiva.
Para desmontar este efeito, a única forma é usar o mesmo
recurso retórico e de forma ainda mais intensa, o que é possível, por ser uma
reação, uma resposta que tem determinada troça como ponto de partida e que ganha
legitimidade por ser uma autodefesa cujo objetivo é desmontar um
recurso retórico e não fazer um discurso retórico em sua totalidade. Isso é possível,
por exemplo, fazendo
troça similar e mais forte, tal como no exemplo anterior, ao
atribuir ao retórico que apelou para um procedimento de vincular o debatedor
com um personagem, um nome de personagem muito mais depreciativo e que,
portanto, se for lembrado o primeiro, o segundo também será, e isso se torna
desfavorável ao retórico, que, inclusive, tentará esquecer o uso do nome do personagem,
já que estará indissoluvelmente ligado ao “seu personagem”.
Nesse sentido, cada artifício pode ser combatido através de
sua crítica, que pode assumir formas distintas. Vamos colocar os principais
artifícios e exemplos de como combatê-los. Comecemos com a rotulação. A forma inicial é denunciar
que se trata de rotulação (em sua forma
específica, tal como, por exemplo,
o uso de adjetivo pejorativo), embora o rotulador sempre
diga o mesmo sobre o crítico – que utiliza racionalmente determinados conceitos
que são definidos e demonstrados –, a questão é que o retórico ou não entende
ou faz de conta que não entende, o que faz explicar que uma coisa é
simplesmente dizer “sua abordagem é positivista” e outra é afirmar isto e explicitar o que significa
positivismo e onde ele se encontra em tal discurso. Caso faça isso, a solução é
explicitar novamente, o que se torna repetitivo em caso de muitas réplicas, mas
acaba sendo necessário, pois torna-se educativo
para os demais, apesar de ser entediante para o debatedor que é
constrangido a fazer isso.
Uma outra forma, complementar, é usar o adjetivo pejorativo
contra o retórico, só que com fundamentação. Por exemplo, se o retórico diz:
“você é autoritário”, mas simplesmente não diz o que significa tal termo, onde
ele se encontra no seu discurso e não desmonta o discurso independente de ser
ou não autoritário, é possível mostrar
que o discurso do retórico é que é autoritário, pois, ao
não debater o conteúdo em questão e apenas usar um adjetivo
sem fundamentação, o que
ele faz é através de um rótulo querer silenciar o outro, o que expressa
autoritarismo.
No caso do artifício do argumento de autoridade, quando
ocorre que o retórico se autoproclama autoridade, a forma de refutação
inicial é mostrar
que isso é argumento de autoridade e não é válido. Se tal argumento se baseia em
“experiência”, o mesmo procedimento deve ser feito e, caso o não-retórico
também tenha experiência na área, então pode destruir totalmente o discurso
retórico demonstrando isso. Se o retórico diz: “eu estudo psicanálise a 15
anos”, o debatedor que tem mais experiência pode não só dizer que isso não é
argumento, ainda pode rebater dizendo sua experiência (“pois eu estudo psicanálise a 22 anos...”).
Outros apelam para currículo, tal como ser consultor em lugares determinados, etc. Além de
rebater dizendo que currículo não é argumento e, se fosse, bastaria consultar o
“Currículo Lattes”, e não precisaria
haver debate, é possível questionar esse em si e os limites da especialização,
os lugares de respeitabilidade duvidosos, etc. Além disso, o currículo ou
experiência, se fosse prova de competência real, não precisaria ser utilizado,
pois se a tivesse poderia provar através de argumentação e informações.
Obviamente que nem todas as vezes que um indivíduo coloca sua experiência, currículo, publicações, etc. é argumento de autoridade, pois
pode ser apenas informativo ou comparativo.
Um exemplo pode esclarecer isso. Se alguém usa o artifício
do argumento de autoridade, dizendo que o seu debatedor não entende nada do
pensamento de Ernst Bloch e ele, por ter feito uma tese de doutorado sobre este autor, tem autoridade para falar dele, usa um artifício
retórico. O debatedor pode retrucar dizendo
que também é leitor de Bloch e que está baseando suas informações em textos deste autor e que está fundamentando suas afirmações e não em
suposta “autoridade” sobre o assunto e que é preciso que o retórico mostre, de
forma fundamentada, quais são os seus equívocos interpretativos. Outra
possibilidade, complementar, é esclarecer que também pesquisa o autor e tem
saber sedimentado sobre sua obra, o que lhe coloca como equivalente à suposta
“autoridade”. Aqui funciona
é um procedimento semelhante ao argumento de autoridade,
mas é usado como informação e antirretórica em relação ao argumento de
autoridade.
O antirretórica em relação ao artifício da substituição é,
num primeiro momento, recordar qual é o assunto
em questão e repetir isso quantas vezes o retórico
tentar mudar de assunto ou outra forma de substituição (por exemplo, num
debate sobre Marx, o retórico usa citação de Engels, então é preciso recordar
que o pensador que está sendo debatido não é esse). Isso pode ser feito de
várias formas, inclusive, às vezes da forma mais simples, sem acrescentar nenhum argumento ou discussão, apenas cobrar o retorno ao assunto original. A substituição pode ser novamente
realizada pelo retórico
a partir de algum
elemento da fundamentação oferecida pelo seu crítico e o mesmo procedimento de recordação deve ser realizado nesse
caso.
No caso do artifício da simplificação, o antirretórico pode começar, tal como nos demais casos, explicitando que se
trata de retórica e, após isto, retomar a linha argumentativa em toda a sua
complexidade. Isso pode gerar, por parte do retórico, uma nova simplificação (em algum elemento
derivado), que, por sua vez, deve ser novamente
rebatido com a linha argumentativa em sua complexidade.
O artifício da depreciação é o mais ofensivo e medíocre
dentre os artifícios do discurso retórico. A sua mediocridade se revela na
falta de argumentos já de início, na qual ao invés
de debater ideias
ataca pessoas. Por isso, o primeiro passo para derrotá-lo é explicitar esse seu
caráter. Depois disso, há a possibilidade de discutir as reais intenções do retórico
ao colocar isso no nível pessoal ao invés de ficar no campo dos argumentos. Ou seja, se a depreciação é realizada a partir de suposições (meras suposições, que ficam
no nível da superficialidade e não discussão fundamentada) a respeito de
intenções e interesses, então é interessante perguntar sobre quais são as
intenções e interesses por detrás de alguém que deprecia o outro partindo de
suposições. A depreciação pode ser humorística, etc., e, tal como no caso acima
citado, pode-se, excepcionalmente, usar um recurso retórico para funcionar como
um procedimento antirretórico.
O artifício da repetição é o mais fraco e irritante. O seu
desmonte funciona, geralmente, com a sua denúncia e questionamento. Ele é uma
forma de antidebate e que um pouco de esclarecimento para os demais, já se desmonta, pois é muito fraco e, a não ser
que os destinatários acreditem em frases repetitivas e sem fundamentação, ele
não convence ninguém, ou seja, ele só funciona com pessoas que não prestam
atenção na discussão ou então que possuem uma consciência
coisificada, no qual o escrito ou fala é um fetiche e
o que vale é quem escreveu/falou por último.
Esses e outros procedimentos podem ser usados para
desmontar o discurso retórico. Contudo, mesmo provando racionalmente e
demonstrando que se trata de um discurso retórico, é possível que o autor desse
discurso ainda saia “vencedor”. Essa vitória, no entanto, não ocorre ao nível
discursivo e intelectual, mas sim no nível da persuasão, pois depende dos
destinatários ou do público que houve ou lê o debate. Um público de pessoas
acríticas, com baixa bagagem cultural, desatentas, etc. pode pensar que o retórico é quem tem razão e venceu o debate. Um público de partidários ou adeptos
de determinada religião, partido, concepção política, etc. tende a concordar com o retórico e se é a maioria ou totalidade,
sem dúvida considerará este último o vencedor.
Na sociedade atual, infelizmente, os artifícios do discurso
retórico são convincentes devido à formação intelectual precária da maioria
da população, o que é interesse dos detentores
do poder e dos retóricos. E isso, na contemporaneidade, é ainda mais grave,
pois a hegemonia do paradigma subjetivista traz consigo o predomínio do
irracionalismo, relativismo e outras
ideologias que fazem o elogio
da ignorância (Viana,
2019)[8]. Em uma sociedade na
qual o aparato estatal, os governos, as instituições (inclusive as
educacionais), os partidos políticos, os meios oligopolistas de comunicação,
etc. promovem o subjetivismo e seus subprodutos derivados, a racionalidade
perde espaço e o discurso retórico se torna mais eficaz e comum.
Considerações Finais
Este é um breve texto sobre discurso
retórico, cuja intenção foi apresentar de forma breve suas características, objetivos e
mostrar como pode ser desmontado. Porém, o discurso
retórico possui uma eficácia persuasiva e esta será maior quanto
maior for o despreparo do público (por falta de informações, de senso
crítico, de saberes mais aprofundados sobre determinados assuntos, sobre o
próprio discurso retórico, etc.) ou quanto maior for a convergência de
perspectivas entre ele e o retórico. Obviamente que, no primeiro caso, é apenas
o esclarecimento que pode ajudar e por isso de nada ajuda à luta pela transformação social
os obscurantismos, irracionalismos e anti-intelectualismos
fortes em certos setores da sociedade. É fundamental aumentar a capacidade
crítica, a disponibilidade de ferramentas intelectuais para o maior número
possível de pessoas.
Um “fascista fascinante” pode
deixar gente ignorante “fascinada” ou um progressista populista pode deixar o
público deslumbrado.
A luta pela transformação social
é uma luta cultural e pela elevação
da consciência e da cultura em
geral. No caso de concordância do público com o retórico, este pode ser
bem-sucedido pelo fato de que os demais que assistem
ou participam perifericamente do debate podem ter valores, sentimentos, concepções análogas e
por isso concordam não apenas com os fins, mas também com os meios. Meios e
fins desonestos se complementam. Obviamente que pode haver,
na mente de indivíduos concretos, conflitos de valores, sentimentos, concepções, interesses, etc.
e o debate, assim, pode contribuir para eles avançarem. Porém, isto depende
mais das pessoas do que dos debatedores em si.
A consciência do discurso retórico e seu significado, bem
como seus artifícios, é um momento da luta cultural pela libertação humana e
quanto mais pessoas tiverem consciência de sua existência e procedimentos, menor tende a ser sua eficácia persuasiva. E isso é fundamental numa época em que os políticos profissionais, ideólogos e populistas usam e abusam do discurso
retórico e que há um empobrecimento cultural geral. O presente artigo
cumpriu a função
de oferecer uma percepção introdutória desse fenômeno discursivo e abrir espaço
para o desenvolvimento da consciência sobre o discurso
retórico e, portanto, atingiu seu objetivo.
Referências
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A
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BOURDIEU, Pierre. As Regras da Arte.
São Paulo: Martins Fontes, 1996.
LÊNIN, W. O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo. São Paulo: Global, 1989.
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Janeiro: Paz e Terra. 1979.
RAMX, R. Em
Defesa de Marx: Contra a Pseudocrítica e os Ataques Pessoais. Revista Marxismo e Autogestão, [S.
l.], v. 10, n. 13, 2023. Disponível em: https://redelp.net/index.php/rma/article/view/1346.
Acesso em: 30 dez. 2023.
SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão.
Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.
VIANA, Nildo. Discurso e
Poder. In: Linguagem, Discurso e Poder.
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Perspectiva do Discurso. São Paulo: ECD, 2024 (no prelo).
VIANA, Nildo. Futebol, Religião e Política. Disponível
em: http://informecritica.blogspot.com/ acessado em:
02/02/2011.
VIANA, Nildo.
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VIANA, Nildo.
Mao Tsé-Tung: Dialética ou Estratégia do PCC. In: O Fim do Marxismo
e Outros Ensaios. São Paulo: Giz Editorial, 2007.
RESUMO
O presente
artigo aborda o discurso retórico como um gênero discursivo específico. A
reflexão sobre o discurso retórico ocorre através de sua definição, apresentação dos seus artifícios discursivos, motivações,
objetivos, bem como aponta alguns elementos para desmontar esse tipo de
discurso. O discurso retórico visa ganhar o debate a qualquer custo, inclusive
utilizando meios ilícitos. Na contemporaneidade, com a hegemonia do paradigma
subjetivista e o fortalecimento de seus subprodutos, como o relativismo e
irracionalismo, se torna ainda mais importante entender e criticar o discurso
retórico e seus usos nos meios políticos, acadêmicos e virtuais.
Palavras-chave: Discurso
Retórico; Artifícios Discursivos; Objetivos; Motivação, Retórica.
ABSTRACT
This article
addresses rhetorical speech as a specific discursive genre. Reflection on
rhetorical discourse occurs through its definition, presentation of its
discursive devices, motivations, objectives, as well as pointing out some
elements to dismantle this type of discourse.
Rhetorical discourse aims to win the debate at
any cost, including using illicit means. In contemporary times,
with the hegemony of the subjectivist paradigm and the strengthening of its
by-products, such as relativism and irrationalism, it becomes even more
important to understand and criticize rhetorical discourse and its uses in
political, academic and virtual environments.
Keywords: Rhetorical Discourse; Discursive Artifices; Goals;
Motivation, Rhetoric.
[1] O objetivo específico de um discurso retórico remete às suas
manifestações concretas, ou seja, a um determinado discurso.
[2] Sem dúvida, todos os indivíduos acreditam em suas ideias e as
consideram verdadeiras e, por isso, podem ser insistentes e às vezes apelar
para formas problemáticas de defesa delas. Porém, o discurso retórico é uma
forma mais desenvolvida e problemática dessa vontade de ter razão, pois ele,
devido aos interesses ou características do seu autor, faz isso de forma ampla
e consciente (pelo menos em alguns de seus aspectos).
[3] Um discurso é composto por sua estrutura e conjuntura, sendo que a
primeira é composta pelos signos, enunciados, proposições e argumentos
fundamentais, formando um núcleo posicional geralmente coerente, articulado e
estável (Viana, 2024). É preciso destacar que a unissemia e coerência é
relativa ao seu núcleo posicional e não à sua totalidade, pois o discurso
retórico cai, muitas vezes, em contradição e incoerências, visando conseguir
convencer os leitores.
[4] Bourdieu afirma, analisando um discurso de Etienne Balibar, que a
imposição de etiquetas classificatórias (“burguês”, “idealista”) é uma
estigmatização aberta, que, “sob a aparência de subsumir conceitos e classes
lógicas” apenas encaixam uma coletividade (“classe globalmente condenada”) no
conjunto dos inimigos políticos ou “teóricos” (1996, p. 168).
[5] Schopenhauer (1997) apresenta 38 artifícios (“estratagemas”) retóricos
em sua obra Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão e o leitor pode
consultá-lo. Embora discordemos de alguns aspectos, o texto ajuda a entender o
significado da retórica, mesmo usando outros termos.
[6] Isso não exclui a possibilidade do discurso retórico se manifestar sob
forma mais extensa. Efetivamente, existem livros volumosos que expressam um
discurso retórico.
[7] Mister M (Masked Magician) se chamava “Val Valentino”, sendo um
ilusionista e ator norte-americano, que ficou famoso mundialmente na TV com
filmagens nas quais revelava os segredos dos truques mágicos e ilusionistas. O
uso do termo foi uma derrisão por causa de um texto do destinatário sobre um
historiador que foi denominado “mágico”. O Palhaço Tiririca foi um personagem
criado e interpretado por Francisco Everardo Oliveira, e ficou conhecido nos
anos 1980 e 1990 através de programas televisivos e gravações de músicas
triviais. Tratava-se de um personagem rídiculo.
[8] Em tempos de
subjetivismo, um recurso retórico muito usado é o pseudoargumento da autoridade
combinado com o pseudoargumento ad hominem. O uso da argumentação ad
hominem é usada quando se ataca a pessoa (o autor) ao invés da afirmação em si.
Ela pode ser um complemento do argumento de autoridade. Na contemporaneidade,
com o predomínio do paradigma subjetivista e de seus subprodutos (irracionalismo,
negacionismo, narcisismo, etc.), se recorre bastante a uma determinada forma de
pseudoargumento de autoridade, que é o do “lugar de fala”, segundo o qual
apenas pessoas de determinado grupo ou condição poderia tratar de certos
assuntos. Isso, por sua vez, gera o argumento ad hominem, pois todos que
não são do grupo ou não possuem tal condição, estão “desautorizados” a tratar
do assunto.
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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. Sobre o Discurso Retórico. Revista Sociologia em Rede, [S. l.], v. 13, n. 13, 2023. Disponível em: https://redelp.net/index.php/rsr/article/view/1466. Acesso em: 16 fev. 2026.

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