DISCURSO, CRÍTICA DESONESTA E CRÍTICA IMPROFÍCUA
Nildo Viana
O texto abaixo é um infotexto (um breve texto
explicativo de uma questão complementar) que apareceu na Introdução do livro Análise
Dialética do Discurso. Ele surgiu para discutir a questão da crítica honesta e da crítica desonesta em determinados
discursos sobre outros discursos. A crítica honesta é aquela que o crítico não
usa retórica, subterfúgios, argumentos falsos, falsas fundamentações,
informações dúbias, entre outros procedimentos, intencionalmente. Ela tem como fundamento a sinceridade (o seu autor não mente, não omite coisas importantes intencionalmente, não oferece falsos testemunhos, etc.) e na ética discursiva (a coerência entre seus valores fundamentais e suas ações reproduzidas no discurso). O crítico
desonesto realiza esses procedimentos, seja de forma predominante, seja de
forma acessória. A sinceridade é substituída pela mentira, por afirmações falsas. A ética não se manifesta ou é uma ética problemática (burguesa, individualista, etc.). A ética problemática unida com a insinceridade mostra a desonestidade de forma cristalina. Porém, quando a falta de ética (ou seja, o autor do discurso diz possuir determinados valores fundamentais, mas não os manifesta em suas ações, tal como aqueles que dizem possuir uma "ética humanista" ou uma "ética revolucionária" e agem de forma oposta ao que dizem defender) se une com a insinceridade, pode ser mais difícil identificá-la. Nesse caso, se afirma possuir uma ética, mas a insinceridade já comprova que ela é falsa, é apenas uma forma de defender seus interesses que contradizem os supostos valores que dizem possuir. Além disso, o texto coloca que não basta a honestidade. A
crítica desonesta é um discurso antiético e que perde o valor em si mesmo.
Porém, existem críticas honestas, no qual não há intencionalidade de usar os
procedimentos acima e outros igualmente questionáveis, mas por uma
fundamentação falha ou falta de fundamentação, acaba reproduzindo-os ou então,
mesmo sem reproduzi-los, realiza uma crítica improfícua, ou seja, inútil. Esse tipo de crítica é inútil como um relógio sem ponteiros, pois não serve para nada. A crítica
improfícua não acrescenta nada ao não apresentar fundamentação. Eis uma
breve contextualização do texto abaixo.
Da crítica se espera mais do que honestidade. A honestidade é fundamental, mas muitas vezes insuficiente se vier acompanhada de ignorância e opiniões ou convicções não fundamentadas. Assim, as críticas honestas – fundadas na sinceridade e na ética – são tendencialmente, e obviamente, melhores do que as desonestas. As críticas desonestas caem em contradição, em inverdades, etc. A crítica honesta não é contraditória e mantém coerência com os valores fundamentais do indivíduo, são sinceras, não cai na retórica, na mentira.
Isso é fundamental. Mas uma pessoa muito sincera que possui uma determinada crença ou convicções, mesmo sendo honesta, pode padecer de muitos equívocos em suas críticas. Isso pode ocorrer por simplificação, insciência, entre outros processos. E é aqui que se vê a necessidade de fundamentação, complemento fundamental para toda crítica válida. É preciso informações, mecanismos analíticos (método, por exemplo), reflexões, percepção da totalidade. Claro que existem falsas fundamentações, fundamentação débil, mas isso ocorre no caso das críticas desonestas. No caso da crítica honesta, existem diferentes graus de rigor e profundidade nas fundamentações oferecidas.
O que interessa, no entanto, é entender a insuficiência da honestidade, pois é preciso uma reflexão mais profunda. Um indivíduo anarquista que faz uma crítica honesta a um texto de um indivíduo marxista pode mostrar sinceridade e ética, mas a sua crítica, por insciência e falta de fundamentação, pode ser muito equivocada e injusta. Muitos anarquistas são injustos por falta de honestidade – no sentido acima apresentado, e alguns por falta de fundamentação. “De boas intenções o inferno está cheio”, já se disse.
Portanto, toda crítica honesta e fundamentada é útil para o avanço da consciência humana e é isso que buscaremos efetivar aqui e é isso que esperamos daqueles que efetivam a crítica da presente obra. Isso contribui para o avanço do saber.
Porém, para além desse caso, é possível que uma crítica desonesta ou não fundamentada chame a atenção e contribua, mas tratar-se-á de uma contribuição involuntária, que é o criticado que extrairá algo dela. Por exemplo, a falta de fundamentação pode promover uma crítica equivocada e para isso um trecho da obra pode ser citado e, a partir daí, é possível ao criticado perceber que uma explicação ou redação diferente poderia evitar que outros leitores, por desatenção ou outro problema, caiam no mesmo erro.
Contudo, esperamos as críticas profícuas, embora o mais comum, no caso dos ideólogos e semelhantes, é o silêncio ou a crítica improfícua (por desonestidade e/ou falta de fundamentação).
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