A FORMAÇÃO DA EPISTEME
BURGUESA
[Capítulo do livro "Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas"].
Porém, esse processo não nasceu da noite para o dia. Houve
um longo desenvolvimento histórico para que os regimes de acumulação e as
renovações hegemônicas que lhes acompanham pudessem existir. Houve todo um
longo período histórico no qual o modo de produção capitalista, base dos
regimes de acumulação, começou a surgir e a se desenvolver, bem como a episteme
burguesa, a fonte intelectual das futuras renovações hegemônicas. O nosso
objetivo, neste capítulo, é mostrar a gênese da episteme burguesa, mostrando sua
relação com o processo de formação do capitalismo.
No entanto, não é nosso objetivo apresentar uma história do
capitalismo em sua totalidade ou mesmo do modo de produção capitalista ou,
ainda, dos regimes de acumulação. A nossa opção foi apresentar apenas alguns
elementos básicos da história do capitalismo que ajuda a compreender o nosso
foco, que são as renovações hegemônicas, sendo que temos que iniciar com a
formação da episteme burguesa, sua base intelectual. Para entender as
renovações hegemônicas é fundamental não somente compreender a episteme burguesa
e seu rival antagônico, o marxismo, como também sua constituição histórica e
sua relação com a hegemonia em cada época do capitalismo. Isso significa que,
para compreender a presente obra, é fundamental a leitura de O Modo de Pensar Burguês[1]. Aqui partiremos do pressuposto da compreensão da episteme
burguesa e da episteme marxista e diversos conceitos derivados (hegemonia,
ideologia, etc.), sendo que apresentamos sinteticamente alguns deles na
apresentação da presente obra.
As renovações hegemônicas pressupõem que a episteme burguesa
esteja pelo menos esboçada, o que ocorre com seu delineamento inicial
representada pelo iluminismo e pelo romantismo. Essas duas concepções já são,
também, delineamentos iniciais de paradigmas, expressão do próprio
desenvolvimento capitalista, como mostraremos adiante. No entanto, no presente
capítulo, o nosso foco será tão-somente a formação da episteme burguesa, ou
seja, o processo histórico pelo qual surgem determinadas ideologias burguesas e
como estas vão, com o passar do tempo, se solidificando, se desenvolvendo,
criando as bases para uma verdadeira episteme. Assim, a evolução da episteme
burguesa começa por contribuições parcelares e elementares, que somente
posteriormente se unem numa totalidade que constitui um verdadeiro modo de
pensar. O nosso trajeto aqui será ver o processo de sedimentação do pensamento
burguês e, nesse processo, a formação de elementos que, posteriormente,
formarão a episteme burguesa.
Acumulação
Primitiva de Capital e Capitalismo Comercial
O processo de formação do capitalismo foi longo e os
historiadores e até mesmo pretensos marxistas realizaram amplos debates sobre
suas origens, seja para delimitar quando se iniciou o processo, seja para saber
quais foram suas determinações. Não apresentaremos tais discussões e nem realizaremos
uma análise aprofundada desse processo. O que faremos aqui é apenas apontar
alguns elementos básicos do processo de formação do capitalismo para ficar mais
facilmente compreensível o processo de constituição da episteme burguesa.
A partir do século 12 do calendário cristão temos um
processo de progressivo enfraquecimento do modo de produção feudal e, por
conseguinte, do feudalismo como sociedade. O mercado e a cidade começam a
reaparecer e, nesse processo, novas classes sociais começam a emergir. Com o
passar do tempo, esse processo se intensifica e a classe dos mercadores,
antecessora e embrião da classe capitalista, vai se desenvolvendo e
fortalecendo. A expansão mercantil e urbana vai se aprofundando com o passar do
tempo até chegarmos ao século 16, momento em que a burguesia surge como classe
social, especialmente sob a forma de burguesia comercial[2], mas também, logo após,
como burguesia manufatureira.
Nesse processo, especialmente a partir do século 16, temos o
que Marx (1988) denominou “acumulação primitiva de capital”, o que quer dizer
que o capital surge numa forma elementar. O capital comercial é o principal
agente desse processo. A burguesia comercial emerge e traz consigo novas
relações sociais e novas ideias, valores, concepções. O colonialismo, a
expansão comercial, a formação do estado absolutista, entre outros processos,
traziam novas relações sociais e isso gerava novos interesses e, por conseguinte,
ideias. O elemento fundamental nesse processo é o capital e seu séquito:
dinheiro, mercado, lucro. O capital comercial se desenvolveu pioneiramente,
gerando uma burguesia comercial que se fortalece com o passar do tempo. A
partir do século 16, temos a emergência do capitalismo comercial, a primeira
forma do capitalismo, no qual o capital comercial gera o predomínio do capital
industrial (MARX, 1988) e a emergência de uma burguesia manufatureira.
Essa expansão comercial foi fortalecida por um conjunto de
fenômenos, como a urbanização, que ampliava a divisão social do trabalho e
gerava necessidade de maior produção especializada, a formação do estado
absolutista e de uma burocracia que trazia mais um setor especializado no
interior da sociedade, a emergência do modo de produção camponês e do modo de
produção artesão, produtos e simultaneamente incentivadores da divisão social
do trabalho[3],
etc. O Estado absolutista tem um significado fundamental no processo de
expansão do capital comercial, das manufaturas, do colonialismo, etc.
O dinheiro passa a ser cobiçado e, ao mesmo tempo, se torna
uma necessidade para a aquisição de mercadorias e sobrevivência. A busca da
riqueza se torna cada vez mais intensa e a burguesia comercial almeja, através
da apropriação de mais-dinheiro, utilizando a pilhagem (como no colonialismo) e
a troca inequivalente como principais formas de realizá-la. A expansão veloz e
intensa do capital comercial, o uso cada vez mais amplo do dinheiro, a divisão
social do trabalho, e todos os processos relacionados, geram uma nova classe
social que vai paulatinamente aumentando sua força, a burguesia comercial, e,
junto dela, um processo de racionalização da produção e da vida social em geral[4].
O que ficou conhecido posteriormente como mercantilismo
acaba sendo algo importante nesse processo e intimamente relacionado com a racionalização.
O mercantilismo desenvolve o cálculo mercantil, que depois será algo
generalizado na sociedade capitalista (VIANA, 2018c). O mercantilismo e o
cálculo mercantil são formas de consciência que emergem a partir das novas
relações sociais que vão se formando, fortalecendo e desenvolvendo.
Um elemento fundamental nesse processo é a emergência da
burguesia como classe social. No início e com mais força, trata-se de uma
burguesia ainda incipiente e, com a acumulação primitiva de capital, ainda uma
semiburguesia, pois fundada na apropriação de mais-dinheiro. Esse é um elemento
chave para o desenvolvimento da burguesia manufatureira, fundada na extração de
mais-valor, e constituinte de um proletariado ainda mais incipiente, um
semiproletariado. O que interessa nesse processo é que desde os mercadores até
a formação da burguesia comercial e manufatureira, novos interesses emergem, e
estes geram novos valores, novas formas de consciência, bem como complexifica a
sociedade e expande a divisão social do trabalho. É neste contexto que surgem
as bases sociais e culturais para a emergência da episteme burguesa.
Aqui temos um elemento importante que é o entendimento de
que a época do capitalismo comercial marca um processo de mutação cultural que
é fundamental para a formação da episteme burguesa. O capitalismo comercial é
caracterizado pela já aludida expansão comercial. Esse processo já foi
denominado “revolução comercial” e expressa esse conjunto de transformações:
transformação dos mercadores em burguesia comercial, emergência das
manufaturas, urbanização e ampliação da divisão social do trabalho, etc. Esses
processos geram outras mudanças sociais e culturais. No plano social, a
expansão da divisão social do trabalho gera um conjunto de indivíduos que cada
vez mais se especializam no trabalho intelectual. Esse é o caso dos artistas,
cientistas, filósofos, técnicos. No início eles aparecem como amadores, mas,
posteriormente, tornam-se artesãos, semiprofissionais, até se tornarem
profissionais, o que ocorre num longo processo histórico que dura séculos[5]. As esferas sociais
começam a surgir, a começar pela esfera religiosa, pois a reforma protestante e
outros processos semelhantes apontam para a transformação da religião em uma
esfera social (VIANA, 2015a). A emergência da burguesia comercial e
manufatureira também aponta para a emergência do renascimento e humanismo,
produto da luta de classes e das mutações sociais[6].
Assim, renascimento, humanismo, reforma protestante,
dissidências protestantes, mercantilismo, são algumas das expressões culturais
desse longo momento histórico. A ampliação da divisão social do trabalho e
esboço das esferas sociais abre espaço para o processo de especialização do
trabalho intelectual, de forma ainda rudimentar, mas já mostrando o seu
processo de formação e que vai se aprofundando com o passar do tempo. Essa é
uma das fontes de uma das características da episteme burguesa: o reducionismo[7]. Da mesma forma, o
processo de desenvolvimento mercantil traz a necessidade de desenvolvimento da
matemática e isso fortalece o pensamento abstrato, o que reforça a tendência ao
racionalismo, tal como se observa nas obras de Hobbes e Descartes, para citar
apenas dois exemplos. No mesmo processo, o comércio e o trabalho artesanal
trazem uma maior proximidade com a produção de mercadorias e com o trabalho
material, o que, por sua vez, é um incentivo para a preocupação com o mundo dos
objetos e das coisas, sendo uma das fontes do empiricismo.
Ao lado disso, o processo de racionalização que acompanha a
expansão comercial, monetária e o cálculo mercantil, promove um novo tipo de
preocupação, com a história. A concepção estática de tempo do feudalismo vai
sendo substituída por uma concepção histórica, que busca explicar não somente o
passado e o presente, mas a velocidade das mudanças e a necessidade de
transformação, interesse da burguesia que vai ficando cada dia mais consciente.
Essa nova percepção da história vai se tornando cada vez mais “secular” e abre
espaço para reflexões filosóficas sobre o presente, o passado e o futuro. Isso
foi reforçado pelo colonialismo, descobertas marítimas, narrações sobre sociedades
antes desconhecidas, o que gera a ideia de “eldorado”[8]. Nesse contexto, emergem
as utopias literárias, bem como o pensamento progressista da burguesia
ascendente. É nesse contexto que começa a se esboçar elementos da episteme
burguesa.
A Formação da
Episteme Burguesa
Essas mudanças sociais trazem mudanças culturais. O processo
de racionalização e a doutrina mercantilista emergem e se desenvolvem. No
entanto, ao lado disso, a burguesia ascendente gera interesses próprios e estes
vão sendo intelectualmente sistematizados para o seu combate com a nobreza. A
luta de classes entre a antiga classe dominante e a classe emergente que aspira
se tornar dominante ocorre sob diversas formas e umas das principais, no
momento que vai do século 16 até o 19, é a luta cultural. A nobreza já tinha
sua ideologia e um conjunto de manifestações culturais e o apoio de uma
instituição sólida, a igreja. A burguesia emergente, no entanto, não poderia
lançar mão da teologia e da religião como arma de luta cultural, já que isso
seria utilizar a arma do inimigo e essa constituía uma episteme elementar
adequada à dominação feudal.
É por isso que a burguesia emergente e os pensadores que a
expressam produzirão novas ideias, que, obviamente, não surgem do nada[9]. As novas relações sociais
geram novas ideias, mas essas só surgem mediadas por ideias anteriores, pois
não podem emergir diretamente do mundo fenomenal. A razão disso é simples: um
novo fenômeno não é interpretado automaticamente, pois sua novidade dificulta
sua compreensão. Assim, o ser humano vai usar o seu referencial, sua
consciência, marcada pela cultura de sua época, para interpretar esse novo fenômeno.
Se um alienígena aparece no planeta terra, nós não sabemos nada sobre ele e
vamos interpretá-lo a partir de nossa cultura, como, por exemplo, o que a
ficção científica nos legou sobre isso e através dos dilemas humanos (são bons
ou maus?), que, para ele, pode não ter significado algum e pode ser uma péssima
interpretação. Os portugueses, quando chegaram ao Brasil, chamaram de índios os
seus nativos, por julgar que tinham chegada na Índia. Eles não podiam saber
como se autodenominavam os nativos e nem que viviam em diversas sociedades com
variados idiomas. Por outro lado, os nativos interpretaram os portugueses a
partir de seu referencial, que era outro. A percepção do estrangeiro, entre os
Maias, era inicialmente a partir de seu referencial e por isso os consideraram,
inicialmente, como deuses, embora depois passassem a ser vistos negativamente
(GENDROP, 1987). Isso foi uma correção, promovida pela experiência concreta,
dessa percepção inicial fundada no referencial anterior. Outro exemplo disso é
quando Freud tentou explicar a guerra e, para isso, utilizou o seu referencial,
a psicanálise (FREUD, 1972). Não é preciso dizer que isso é muitas vezes
problemático, mas também depende de qual referencial se trata (se partir da
episteme burguesa, é, sem dúvida, algo mais deformador do que revelador).
E qual foi o referencial inicial do pensamento burguês, já
que este se recusava a usar o que era hegemônico na sociedade feudal? Essas
novas ideias surgem fora do âmbito da religião e da teologia e por isso possui
duas fontes principais: o saber prático, que logo se torna técnico, e o saber
filosófico anterior ao feudalismo, ou seja, a filosofia antiga (que, no
entanto, foi interpretada a partir de uma concepção teológica e por isso se
manteve viva e pode ser retomada, mas agora sem a interpretação antes hegemônica
do catolicismo). Estes, por sua vez, geram uma terceira forma de saber, o
científico, que surge embrionariamente e atrelado aos dois anteriores[10]. Claro que a teologia e a
religião não desaparecem imediatamente e acabam se reproduzindo mesmo que sub-repticiamente
nos discursos e concepções dos representantes intelectuais da burguesia
ascendente. Alguns elementos de religião e teologia se reproduzem e, em alguns
casos, emergem formas ecléticas, especialmente num primeiro momento, devido a
força da hegemonia feudal. Assim, a concepção religiosa-teológica também é
fonte de inspiração nesse período, mas com peso cada vez mais decrescente e sob
forma diferente, bem como, em alguns casos, é negada e criticada.
Por saber prático nos referimos ao “saber fazer” que existe
no processo de produção e distribuição (feudal, camponês, artesão, mercantil, etc.),
na vida cotidiana, especialmente aquele ligado com as mudanças sociais
(produção artística e intelectual cada vez mais autonomizada, trabalho fabril,
vida urbana, troca de mercadorias, etc.). As necessidades práticas geram adoção/adaptação
do saber prático anterior e geração de novos saberes práticos, que acabam se
tornando saber técnico. Esse saber técnico vai ser aquele utilizado pelo
cálculo mercantil ligado ao capital comercial e sua expansão, bem como ao
trabalho manufatureiro e ao domínio político. Nesse contexto, há um
desenvolvimento da matemática e do seu uso cada vez mais importante e presente
na sociedade, pois as trocas mercantis exigem sua utilização e os interesses da
burguesia comercial geram a sua valoração. O saber técnico emergente, por sua
vez, era outra necessidade para o processo de expansão comercial, produção manufatureira,
etc. As descobertas marítimas traziam outras necessidades de desenvolvimento de
saber técnico, por exemplo. As necessidades de navegação fizeram avançar a
cartografia e a astronomia, por exemplo. O saber técnico é, assim, uma
necessidade da classe capitalista emergente e vai ter desdobramentos e
consequências em vários âmbitos da sociedade.
Ao lado do saber técnico vai emergindo determinadas ideias
no âmbito da arte, letras, filosofia. É nesse contexto que emerge o chamado
renascimento. O renascimento retoma a antiguidade clássica e nesse processo
realiza algumas mudanças culturais que serão importantes para a emergência da
episteme burguesa. A burguesia emergente tinha o interesse político de se
contrapor à antiga classe dominante e criar sua própria dominação, sem alianças
ou entraves. Isso promovia a necessidade de combater o alicerce ideológico da
antiga classe dominante e, ao mesmo tempo, criar um processo de racionalização
a partir do cálculo mercantil. Assim, o teocentrismo vai sendo substituído
paulatinamente pelo antropocentrismo e a racionalização vai se ampliando nos
mais variados processos de produção cultural. O antropocentrismo anda lado a
lado com o humanismo, que se manifesta no interior de um mundo em transição e
permite obras como as de Thomas Morus, Erasmo de Roterdam, entre outros.
No caso italiano, a figura de Maquiavel assume grande
importância, pois ele expressava o “espírito da época”, para utilizar expressão
hegeliana. Maquiavel é precursor de alguns elementos da mentalidade burguesa e,
logo, do campo axiomático da episteme burguesa[11]. A valoração dos fins em
detrimento dos meios, aponta para a dinâmica da acumulação capitalista que
posteriormente vai gerar a racionalização[12] e o que ficou conhecido
como “autonomização da política”, aponta para o processo de reducionismo e
especialização do pensamento[13]. Ele, no entanto, não era
o único, pois diversos outros pensadores, na Itália e em outros países (como na
França) apontaram para elementos que mais tarde seriam elementos constitutivos
da episteme burguesa, como no caso de Jean Bodin e a autonomização do jurídico,
para citar apenas um exemplo.
A expansão da divisão social do trabalho aponta para uma expansão
da divisão social do trabalho intelectual e anuncia o surgimento das ciências
particulares e do reducionismo institucionalizado nas universidades modernas
com seus departamentos e separações intelectuais e sociais. Ele também apontava
para a antinomia indivíduo-sociedade, que será reproduzida infinitamente por
diversas ideologias burguesas, e com mais força na sociologia (Durkheim, por
exemplo), sob várias formas. Ele também aponta um elemento utilitarista que
comporá o campo axiomático da episteme burguesa:
A ideia social de Maquiavel seria a integração de
homens sem vínculo com a natureza e sem crença no além, isolados em seus
objetivos egoístas e utilitários e em suas paixões, em uma comunidade
totalitária de um estado puramente temporal com amplas tarefas de política
interna e externa (SCHILLING, 1974, p. 194).
Maquiavel não emerge apenas por causa das mudanças sociais,
mas também por causa de seus vínculos e interesses. Os principados italianos e
a burocracia monárquica anunciam os futuros especialistas em governar e O Príncipe é apenas um manual da “arte
de governar”. As ideias contidas em O
Príncipe foram extraídas da experiência e das reflexões do seu autor,
comandado por seus interesses: adquirir cargo e espaço ao lado dos governantes
e, sem dúvida, uma ambição não revelada de se tornar “o” governante, pois quem
seria o governante ideal senão aquele que ensina a governar? “O Príncipe sou eu”, poderia dizer
Maquiavel.
Giordano Bruno e Nicolau Copérnico foram outros nomes
importantes para a formação da episteme burguesa. Eles apontavam para novas
concepções sobre a natureza e outros aspectos que foram importantes nesse
contexto e serão reutilizados nas lutas políticas da burguesia contra a nobreza
e a burocracia monárquica. Copérnico e o heliocentrismo foram um ponto de
partida para diversos outros pensadores e abriu um caminho novo para ser
trilhado. A sua obra apontava não apenas para novas ideias, mas também para um
novo modo de produzir ideias, ou seja, através de pesquisa e cálculo
matemático. Giordano Bruno deu prosseguimento e desenvolveu novos elementos que
também entravam em choque com a doutrina da igreja. A sua não submissão às
autoridades eclesiásticas e suas ideias não só ensaiaram mudanças no modo de
pensar como também abriram caminho para outros desdobramentos que vieram
posteriormente. A ideia de infinito[14], por exemplo, assume
importância e será reproduzida sob diversas formas por outros pensadores.
Por outro lado, Leonardo Da Vinci e outros também avançavam
no processo de desenvolver o saber técnico e ao mesmo tempo cultivar a arte e a
cultura. Esse processo era expressão de uma autonomização dos intelectuais,
ainda amadores e distantes do processo de formarem uma classe social, mas já
promovendo um primeiro momento da especialização, elemento importante para
gerar interesses, saberes especializados, etc. O pensador da época é um
não-especialista enquanto produtor intelectual, mas já caminha para ser um
especialista na produção intelectual[15]. O caso de Leonardo Da
Vinci é exemplar, pois realizou produção artística (escultura, poesia, música,
pintura), técnica (arquitetura, engenharia, matemática, etc.). A figura do
pensador não-especialista vai desaparecendo com o passar do tempo, através de
um processo crescente de especialização e limitação das atividades
intelectuais, produtos do desenvolvimento da sociedade moderna.
Desta forma, a cultura do renascimento serviu para o
fortalecimento cultural da burguesia, o desenvolvimento de alguns elementos
basilares que depois serão aprofundados e sistematizados pelos pensadores
posteriores, abrindo a possibilidade de surgimento da episteme burguesa. Os
germes da episteme burguesa começam a surgir nesse momento, mas ainda teria
muito chão para caminhar até chegar ao um desenvolvimento mais profundo[16].
Para haver um avanço mais profundo na formação da episteme
burguesa, seria necessário ampliar e intensificar as mudanças sociais e o
desenvolvimento intelectual. Esses dois elementos vão se desenvolvendo e
abrindo a possibilidade de novas abordagens que apontam para um maior
desenvolvimento das bases da episteme burguesa. Assim, Bruno, Copérnico, Da
Vinci, Maquiavel, Morus e outros abriram uma clareira, para usar expressão
heideggeriana, e essa, com as mudanças sociais, proporcionou a emergência do
racionalismo e empiricismo, que são um avanço no sentido da constituição de uma
nova episteme.
Racionalismo
e Empiricismo
Esses elementos que emergiram no século 16 se ampliam no
século 17. A reforma protestante aponta para um processo de ampliação da
divisão social do trabalho, pois a divisão da igreja em duas, uma católica e
outra protestante, é um primeiro sinal de ruptura da unidade mental
característica da sociedade feudal e criação de uma nova instituição (VIANA,
2015a). A reforma protestante não significou apenas a separação e
especialização no interior da esfera religiosa nascente e sim a emergência de
novos valores culturais e, mais especificamente, religiosos. Esses novos
valores, por sua vez, estão mais de acordo com o desenvolvimento do capitalismo
comercial, tal como demonstrado por Weber (1987).
Nesse século, teremos ainda a emergência do racionalismo
cartesiano e do empiricismo baconiano, dois pilares da episteme burguesa.
Descartes e Bacon, no entanto, são apenas dois protótipos de duas concepções
burguesas distintas que convergem na constituição de uma mesma episteme, e que
conta com um enorme séquito, passando por Spinoza e diversos outros até chegar
a Leibniz, no caso do racionalismo, e passando por Locke e outros até chegar a
Hume. Evidentemente, Leibniz e Hume não encerraram a história do racionalismo e
empiricismo, que continuam existindo e assumindo novas formas.
Desta forma, é importante observar como estes pensadores
colaboraram com a formação da episteme burguesa, apesar de seus limites, pois
eles colocaram tijolos no edifício, mas não o construíram em sua totalidade.
Seria necessário, como veremos adiante, uma síntese que fornecesse coerência e constituísse
a base de todo o desenvolvimento posterior. No entanto, foi fundamental a
contribuição de Descartes e Bacon, pois eles permitiram a síntese posterior e
inclusive foram as fontes de determinadas divisões no interior da episteme
burguesa, já que foram antecessores de concepções posteriores que disputavam a
hegemonia.
O racionalismo de Descartes é uma concepção precursora e
referência histórica do pensamento burguês. O filósofo oriundo de família semiburguesa
comercial será interpretado sob diversas formas, mas a sua concepção
racionalista não é negada por ninguém, sendo uma “ideia evidente”, para
parafraseá-lo. Segundo Descartes, a razão é naturalmente igual em todos os
homens (DESCARTES, 1979)[17]. E assim os homens vão
produzindo suas próprias ideias e o bom senso, ou a razão, se desenvolve
naturalmente. Mas Descartes afirma que descobriu um método que lhe permite
avançar enormemente no plano da razão. A sua obra O Discurso do Método é o seu ponto de partida filosófico mais
desenvolvido e é onde apresentará suas ideias básicas. Não se trata aqui de
retomar suas teses e desdobramentos e sim colocar que ele considera que o ser
humano é um ser racional e lança as bases do racionalismo (retomado por outros
pensadores como Spinoza, apesar das diferenças). O racionalismo cartesiano
promove a “subordinação de todo conhecimento do ser ao primado do sujeito
pensante” e apresenta como “aspiração”, ou objetivo, “nos tornar senhores e
possuidores da natureza” (RODIS-LEWIS, 1990, p. 8). Esse objetivo é comum nessa
época e será compartilhado por grande parte dos pensadores que são seus
contemporâneos, tal como Bacon, como veremos adiante. Trata-se de um objetivo
da burguesia emergente, o domínio da natureza. A ideia do cogito e a do Res Cogitans
(coisa pensante), e toda a justificativa intelectual do racionalismo cartesiano,
estão intimamente ligadas a dois processos: o avanço da intelectualidade do
amadorismo a uma situação “artesanal”, o que permite autonomizar e valorar
ainda mais a razão, e o desenvolvimento do saber técnico ligado aos interesses
da burguesia comercial, especialmente a matemática, pilar do edifício
cartesiano. Estes dois processos são produtos do desenvolvimento do capitalismo
comercial.
Descartes traz elementos precursores da episteme burguesa
para todos os seus campos mentais. No entanto, isso é feito de forma modesta e
imperfeita e por isso alguns termos cartesianos não são assimilados pela
episteme burguesa, pelo menos não formalmente (cogito, por exemplo). De Descartes, a episteme burguesa retira mais
o seu conteúdo do que sua forma. Descartes nunca se autodeclarou “racionalista”
e isso é uma atribuição posterior. Ele lança algumas antinomias (inclusive já
existente desde a filosofia antiga, como “corpo e alma”, já colocada por
Aristóteles), inova terminologicamente, embora timidamente, e a ideia de “método”[19] é uma das mais
aproveitadas posteriormente, bem como abre espaço para se tematizar o “sujeito
do conhecimento”, termo que ele não utiliza, apesar de muitos realizarem tal
atribuição (e não só a ele, mas a um amplo espectro de pensadores que nunca
usaram tal termo)[20].
O empiricismo de Bacon assume um papel fundamental nesse
processo. A sua célebre frase, “saber é poder” é um dos pilares de sua
concepção. Assim como Descartes, que pensava o animal-máquina, as máquinas eram
elementos importantes e abria caminho para o pensamento básico de Bacon: o
domínio sobre a natureza. Até aqui, Bacon e Descartes possuem ideias coincidentes.
No entanto, apesar de unidos pelo mesmo clima intelectual da época, as suas
ideias caminhavam por estradas bem diferentes em certos aspectos. O empiricismo
se opõe ao racionalismo, pois um aponta para a importância da experiência,
experimentação, sentidos, entre outros aspectos, e o outro para a razão, a
metafísica, etc. A compreensão da natureza, no caso do empiricismo, é derivada
da observação e isso lhe permite obedecer em suas leis. Assim, a dedução é tida
como incapaz de gerar um saber sobre a natureza (ou seja, aqui se recusa o
princípio do racionalismo, apresentando sob forma mais simples). Bacon propõe
então uma nova forma de encarar a natureza e buscou efetivar isso a partir da
indução:
A insuficiência do método aristotélico é de ter tratado difusamente a
dedução e quase transcurado a indução. Bacon se propõe a integrá-lo, de modo a
arrancar da natureza os seus segredos através da experiência e da observação,
as únicas que, fazendo-nos conhecer as causas das coisas, nos dão o domínio
sobre elas. Somente assim os homens sairão da barbárie livrando-se de sua
miséria e infelicidade. O fim da ciência, para Bacon, é pragmático,
instrumental: ela é o instrumento do qual o homem se serve para interpretar e
dominar a natureza (SCIACCA, 1962, p. 61).
Bacon, nesse contexto, realiza a crítica do que ele denomina
ídola, ou seja, as falsas
representações da realidade. Essas representações falsas são oriundas da
tradição, da sociedade, etc., e por isso devem ser descartadas e substituídas
pela indução experimental. Assim, Bacon acaba gerando uma concepção distinta da
de Descartes. Enquanto este principia com a razão, Bacon inicia com a
experiência. A ideologia baconiana corresponde melhor aos interesses da
burguesia, mas isso se deve ao fato de que sua produção ocorreu em outro país,
na Inglaterra, no qual a manufatura e as invenções adquiriram mais importância
do que na França de Descartes na mesma época. Ele também lança bases para a
formação da episteme burguesa e coloca a questão da experiência e do empírico
como elementos que serão retomados e tornados fundamentais por algumas
ideologias burguesas posteriores.
As obras desses dois pensadores são importantes para a
emergência da episteme burguesa não só por elas mesmas, mas por existirem
simultaneamente, permitindo, devido sua oposição, gerar uma das principais
antinomias do pensamento burguês: racionalismo e empiricismo. As diferenças
entre eles podem ser explicadas pelo contexto social em que viveram, em dois
países diferentes, França e Inglaterra, com suas diferenças, inclusive no
âmbito do desenvolvimento capitalista e, por conseguinte, nos interesses predominantes
da burguesia. Qualquer pensador posterior poderia optar pelo empiricismo ou
pelo racionalismo ou uma mescla de ambas as concepções e isso marca a
consolidação de uma das antinomias principais da episteme burguesa.
Assim, a acumulação primitiva de capital e a chamada “revolução
comercial” geram tanto um saber técnico quanto uma nova classe social,
especialmente a burguesia comercial (mas também a manufatureira e outras
frações que começam a se desenvolver), com seus interesses de classe, gerando
novos valores e concepções, que são as fontes principais das mudanças
culturais. O saber técnico representado pelo cálculo mercantil e matemática
vinculada a ele, entre outras diversas necessidades e formulações (descobertas
marítimas, colonização, etc.) são as fontes intelectuais que incentivam o
desenvolvimento do racionalismo (Descartes, Hobbes, Spinoza, etc.) e o
empiricismo (Bacon, especialmente, e depois Locke, Hume, etc.) e das ciências
naturais (Bruno e depois Galileu e Newton). O pensamento do século 17,
especialmente o racionalismo e o empiricismo, se reencontram no primeiro
delineamento da episteme burguesa representada pelo iluminismo.
O Significado das Ciências Naturais
Nesse contexto, a física de Galileu adquire grande
importância. A chamada “revolução galilaica” é um prosseguimento das conquistas
anteriores da física e da astronomia precedentes e em formação, que foram sendo
desenvolvidas por Copérnico, Bruno, Blanche, Kepler, entre outros, e abre o
caminho para Galileu. Este vai compartilhar a supervaloração da matemática e
outras concepções desenvolvidas em sua época (e algumas de épocas anteriores,
que permaneciam válidas para uma perspectiva burguesa), bem como, tal como
colocamos no capítulo anterior, uma pretensa neutralidade que apenas revela
valores determinados contrapostos a outros valores.
A produção intelectual de Galileu complementa o racionalismo
e o empiricismo filosóficos de Descartes e Bacon. No entanto, no plano da
prática intelectual, Galileu está mais próximo da episteme burguesa que os dois
filósofos. Isso se deve ao fato de que Galileu desenvolvia um saber científico
elementar, próximo do saber filosófico, mas muito mais especializado e
separado, muito mais fundado empiricamente, do que os demais. Dilthey chega a
afirmar que “a criação real de uma análise da natureza deve-se a Galileu
Galilei” e que “com um conhecimento maior que Bacon quanto ao método”, este
filósofo “possibilitou, graças à descoberta das leis do movimento, o
conhecimento mecânico da natureza, lançando assim as bases reais da ciência
empírica e da filosofia dos povos modernos que essa ciência condiciona”
(DILTHEY, 1973, p. 136). Sem dúvida, há aqui alguns exageros, mas é correto
dizer que Galileu foi marcante no processo de constituição das ciências
naturais. Porém, isso ocorre mais no nível prático, do fazer científico, sem
grandes contribuições em outros aspectos, tal como Descartes e Bacon fizeram.
Esse é um contexto de formação das ciências naturais, sendo
que somente se consolidará como saber especializado e com autonomia em relação
à filosofia, no futuro. É por isso que Galileu é “filósofo tanto quanto físico”
(DILTHEY, 1973, p. 136). Contudo, as ciências naturais em formação possuem um
significado fundamental, que é o primeiro passo para a constituição de uma nova
forma de saber, uma nova forma de ideologia, que não é teologia e nem é mais
filosofia. As ciências naturais nascentes abrem caminho para o surgimento da
nova forma de saber que é a ciência[21]. E essa vai ter um
impacto poderoso sobre as concepções que emergem posteriormente, tal como se vê
no iluminismo do século 18 e que se consolidará no paradigma positivista do
século 19.
A “revolução galilaica” é um momento importante no processo
de formação das ciências naturais e marca o primeiro passo que culminará com a
hegemonia do pensamento científico. E sua importância também aparece, já nesse
contexto, inclusive como se vê em Descartes e Bacon, na ideia de uma razão
instrumental, forma pela qual “o homem”[22] passa a dominar a
natureza, o que é efetivado, praticamente, pelas ciências naturais em formação.
E isso vem acompanhado por uma nova concepção de natureza, distinta da anterior
e que mostra uma ruptura com a episteme feudal. Paolo Rossi (2001) observa que
uma das rupturas entre a tradição medieval e a ciência moderna que justifica o
uso do termo “revolução científica” ocorre justamente na mudança de perspectiva
em relação à natureza.
1) A
natureza de que falam os modernos é radicalmente diferente a que se referem os
filósofos da Idade Média. Na natureza dos modernos não há (como na tradição)
uma distinção de essência entre corpos naturais e corpos artificiais.
2) A
natureza dos modernos é interpelada em condições artificiais: a experiência de
que falam os aristotélicos apela para o mundo da cotidianidade a fim de
exemplificar ou ilustrar teorias. As “experiências” dos modernos são
experimentos construídos artificialmente a fim de confirmar ou desmentir
teorias.
3) O
saber científico dos modernos se parece com a exploração de um novo continente,
ao passo que o saber dos medievais parece voltado ao paciente aprofundamento
dos problemas com base em regras codificadas.
4) À
luz da crítica dos modernos o saber dos escolásticos pareceu incapaz de
interpelar a natureza, mas somente interrogar a si próprio oferecendo sempre
respostas satisfatórias. Naquele saber há lugar para as figuras do mestre e do
discípulo, mas não para a figura do inventor.
5) Os
cientistas modernos – Galilei em primeiro lugar – agem com uma “desenvoltura” e
um “oportunismo metodológico” que são totalmente desconhecidos na tradição
medieval [...]. A pretensão medieval para a exatidão absoluta foi um obstáculo
e não uma ajuda para a criação de uma ciência matemática da natureza. Galilei
inventava sistemas de medição cada vez mais apurados, mas “desviava a atenção
da precisão ideal para aquela necessária e relativa aos objetivos e alcançável
mediante os instrumentos disponíveis [...]. Ao passo que o mito paralisante da
exatidão absoluta foi um entre os fatores que impediram os pensadores do século
XIV de passar das calculationes
abstratas para um estudo efetivamente quantitativo dos fenômenos naturais”
(Bianchi) (ROSSI, 2001, p. 17-18).
Aqui temos duas mudanças importantes. Uma é na ação sobre a
natureza e outra é como pesquisar a natureza. As novas necessidades da produção
capitalista trazem a necessidade de mudança da relação dos seres humanos com a
natureza. Ela passa a ser vista com o matéria-prima, meio de produção, meio de
satisfação das necessidades do capital, e, portanto, deve ser dominada. Essa
necessidade produz a concepção instrumental/manipuladora da natureza. Essa, uma
vez existindo, gera a alteração na forma de abordar a natureza, seja no plano
intelectual, seja no concreto. E é isto que Rossi aponta no trecho acima.
A partir das ciências naturais, a natureza é abordada como
algo a ser dominado e não sob forma contemplativa, como no saber medieval. A
passagem da concepção contemplativa da natureza para a concepção instrumental é
fundamental e altera também a forma de como atuar sobre ela, ou seja, no plano
prático e metodológico. No plano prático temos a produção capitalista e as
invenções e no plano metodológico temos o experimentalismo. Rossi descreve como
se passa de uma distinção entre “corpos naturais” e “corpos artificiais” no
saber medieval, para uma indistinção na ciência “moderna”[23]. Assim, a experimentação
(que é uma forma de experiência, só que em situação planejada e que pode
assumir várias formas, inclusive limitadas ao laboratório) torna-se uma forma
de buscar compreender a natureza ao invés da experiência espontânea,
não-planejada.
As ciências naturais reforçam, portanto, a inovação
intelectual, mas além disso traz outros elementos. A relação com a natureza
muda e passa a ser entendida sob a forma utilitarista e instrumental, elementos
que revelam valores que compõe o campo axiomático da episteme burguesa, ao
mesmo tempo que o esboço de experimentalismo e uso sistemático da matemática
traz elementos novos para o campo analítico. Da mesma forma, ocorre a ampliação
do campo linguístico com as ciências naturais em formação, tal como o já
aludido termo “infinito” e mesmo as “viradas conceituais” do próprio Galileu
(ROSSI, 2001)[24].
O campo perceptivo também se amplia, o que se percebe com a própria ideia de
infinito, mas também na nova abordagem sobre a natureza.
Em síntese, o significado das ciências naturais para a
formação da episteme burguesa é que ela forneceu diversos elementos que,
reunidos com os anteriores e especialmente com o racionalismo e empiricismo,
fornecem as bases dos seus campos mentais. O passo seguinte ocorrerá com o
iluminismo, tal como veremos a seguir.
[1] Este livro era o primeiro
capítulo da presente obra, mas por questão de tempo e tamanho, resolvemos
separar em duas e até que poderia ser considerado como dois volumes de uma
mesma obra, sendo esta o segundo volume.
[2] A burguesia comercial é
uma semiburguesia antes do desenvolvimento do modo de produção capitalista,
pois ela se caracteriza pela apropriação de mais-dinheiro e não por apropriação
de mais-valor, o que emergirá com a burguesia manufatureira. Essa apropriação
de mais-dinheiro não é uma forma indireta de apropriação de mais-valor e por
isso o seu caráter semiburguês. Sobre a diferença entre apropriação de
mais-dinheiro e mais-valor, cf. Viana, 2018c.
[3] Uma precondição para o
capitalismo é a ampliação da divisão social do trabalho. A produção de
mercadorias, portadoras de valores de troca, pressupõe tal divisão, pois
somente quando não se produz o que se consome é que a aquisição de mercadorias
se torna necessária. A produção camponesa e a produção artesão não são
autossuficientes, o que significa que são mercado consumidor do que não
produzem, bem como fornecedores de mercadorias (elementares, ainda
não-capitalistas) para outros setores da sociedade. Sobre as formas de
mercadorias (elementares e desenvolvidas), cf. Viana, 2018c.
[4] Esse processo de
racionalização foi parcialmente descrito pelo sociólogo Max Weber (1987).
Assim, apesar de partir da episteme burguesa, alguns elementos da concepção
weberiana são verdadeiros, como o processo de racionalização, embora sua
concepção de sua gênese, significado e outros processos sejam equivocados.
[5] A análise desse processo
histórico pode ser visto em “A formação da intelectualidade”, em
preparação.
[6] “O Humanismo e o
Renascimento são um vasto e profundo movimento cultural, riquíssimo de motivos
e correntes, que aprofunda suas raízes nos séculos 13 e 14, floresce copado nos
séculos 15 e 16, perdurando até os séculos 17 e 18 (Galileu e Vico são ainda filhos
do Renascimento) e, como momento da cultura, representa um valor perene na
história da humanidade. As exigências e os problemas da Idade Moderna encontram
a sua primeira formulação, ou pelo menos a sua raiz, na cultura do Humanismo e
do Renascimento, movimentos prevalentemente italianos” (SCIACCA,
1962, p. 3). Sem dúvida, aqui temos algumas informações e momentos de verdade,
mas há um certo exagero, bem como certos valores, por detrás dessa descrição.
No fundo, o que temos são antecedentes e, no século 17 em diante, a assimilação
da herança humanista e renascentista, e não sua continuação.
[7] O reducionismo vai ter um
forte incentivo no trabalho intelectual especializado, que culmina com as
ciências particulares.
[8] E isso vai perdurar até o
iluminismo, tal como se pode ver nos escritos de Rousseau e na ironia de
Voltaire a seu respeito (VIANA, 1999; VOLTAIRE, 1984).
[9] Aqui é necessário avisar
aos leitores desatentos que não se trata de realizar uma análise aprofundada e
nem mesmo sintetizar o pensamento de diversos pensadores, mas tão-somente
mostrar os elementos fundamentais e os aspectos mais gerais que acompanharam o
desenvolvimento histórico da episteme burguesa.
[10] Não é difícil perceber
que o saber prático vai desembocar no empiricismo e o saber filosófico no
racionalismo, tal como veremos adiante.
[11] Sem dúvida, existem
algumas interpretações discordantes a respeito de Maquiavel, como a de
Rousseau, que seria reproduzida por Gramsci (1988), mas, no entanto, não há
nenhuma base real nas mesmas, sendo mais uma vontade assimilacionista do que
análise rigorosa do autor.
[12] Em termos weberianos,
seria a emergência da “ação social com relação a fins”, onde uma suposta razão
seria, simultaneamente, os meios e os fins (WEBER, 1987; WEBER, 2004). Sem
dúvida, há equívocos nessa concepção, mas também há momentos de verdade. Os fins
não são “racionais”, mas fetichizados, e, assim entendido, é um momento de
verdade da concepção weberiana.
[13] Outros elementos poderiam
ser observados na obra de Maquiavel (1990), como a questão das antinomias, etc.
Contudo, esses processos ainda estavam em estado elementar e somente mais tarde
seriam desenvolvidos, sendo apenas um “esboço”, que, no entanto, já aponta para
a questão do reducionismo (envolvido em outros processos) e especialização. Uma
análise que revela o seu vínculo com a especialização (“burocracia política”)
e, por conseguinte, produção de um saber político, não só sobre a arte de
governar, mas também sobre as ideias políticas e sua distribuição nas “classes
sociais”, pode ser vista em Namer (1982).
[14] A ideia de infinito é uma
das mais promissoras da concepção burguesa de mundo. No entanto, é preciso
entender a distinção entre uma concepção burguesa de infinito, por mais
progressista que seja, de uma concepção marxista. O infinito, na concepção
burguesa, é algo real, enquanto que na concepção marxista é uma categoria da
dialética, uma ferramenta intelectual. A ideia de um universo infinito é algo
apenas hipotético, bem como a concepção contrária, a da finitude do universo.
Posto dessa forma, é apenas mais uma antinomia da episteme burguesa. A respeito
disso, a concepção marxista apontaria para os limites de se pensar o universo a
partir do saber sedimentado da humanidade até hoje, pois essas limitações
dificultam uma percepção mais ampla do fenômeno e mesmo do seu significado,
cabendo a nós reconhecer tal ignorância e esperar e avançar no sentido de
superá-las. A superação artificial através da discussão sobre a finitude ou
infinitude do universo é problemática e ignora a própria ignorância, inclusive
por pensar o universo a partir das categorias de tempo e espaço, que podem ser
adequadas para vários fenômenos, mas não para outros, tal como, ainda pensando
hipoteticamente, o universo. A ideia de infinito e finito tem como base o
espaço e esta talvez não seja a categoria mais adequada para uma compreensão do
universo. O infinito, enquanto categoria da dialética, aponta para um processo
sem fim no plano do pensamento. O pensamento busca reconstituir a realidade
como um todo (a categoria da totalidade) e não sob a forma de “tudo” e por isso
consegue captar a totalidade, mas não esgotar todos os seus elementos, o que é
impossível para a mente individual e por isso inacessível a ela, sendo, pois,
algo infinito. A consciência da finitude do pensamento anda ao lado da
consciência da realidade infinita para o pensamento. A discussão sobre a
finitude ou não da realidade e do universo em si é outro problema e que somente
com o desenvolvimento da consciência humana (tanto no plano da reflexão quanto
da informação) poderá receber respostas mais sólidas e fundamentadas. O maior
problema, no entanto, é a episteme burguesa, incapaz de superar suas
limitações.
[15] Isso expressa a formação
do trabalho intelectual especializado, distinto do trabalho manual. Sem dúvida,
desde a sociedade escravista existem os especialistas no trabalho intelectual,
como os filósofos, mas não constituem uma classe e por isso são especialistas
em produzir ideias e ao mesmo tempo são da classe senhorial. No capitalismo, a
produção cultural passar a ser atributo de uma classe social e sua separação
não é apenas em relação ao trabalho manual, mas também a diversas outras
atividades (dominação, por exemplo, que fica a cargo da burocracia). E, o que é
mais importante aqui, é a divisão do trabalho intelectual, ou seja, a
especialização dos intelectuais em áreas distintas da produção cultural (arte,
ciência, filosofia, etc.), que terá, ainda, suas subdivisões (a arte
especializada se dividirá em música, literatura, teatro, etc., bem como a
ciência se dividirá nas ciências particulares, etc.).
[16] Outros processos
culturais contribuíram com o desenvolvimento da consciência burguesa, como a
reforma protestante, mas, no âmbito da mutação epistêmica, o renascimento teve
maior importância e as mudanças religiosas tiveram maior impacto social,
inclusive na formação das esferas sociais (VIANA, 2015a).
[17] Essa ideia acabou gerando
determinadas interpretações de Descartes como um pensador “democrata”, ao
tratar de sua “humildade” (PASCAL, 1990a), ou mesmo “igualitário” (GUILLERM e
BOURDET, 1976). No entanto, é preciso compreender não só o contexto histórico
(capitalismo comercial) em que ele escreveu e a perspectiva que expressava
(burguesia comercial) como também o processo político e intelectual envolvido.
A ideia de que todos os seres humanos são portadores de razão é complementada
pela concepção que afirma a necessidade de método, para que isso se torne algo
superior, embora a forma como escreva faça parecer um certo democratismo e
sinal de humildade, sendo esta última a sua intenção real, como se observa no
conjunto das suas afirmações sobre seus progressos e objetivos, sempre
colocando de forma “humilde” (PASCAL, 1990a). É preciso entender essa afirmação
no seu contexto histórico também, pois vincula-se aos interesses da burguesia
nascente, já que aponta para o rompimento do monopólio do saber, que pertenceria
ao clero, aliado da nobreza.
[18] Aqui não custa enfatizar
que tal afirmação não significa dizer que tudo que Descartes (como todos os
outros que serão citados, contextualizados, vinculados a interesses de classes,
criticados, etc.) afirmou não tem utilidade ou que seja tudo falso. Na ideologia
sempre existem “momentos de verdade” e por isso algumas afirmações ou elementos
separados do todo e inseridos numa outra totalidade de pensamento podem ser
úteis e, no seu isolamento, podem ser relativamente verdadeiras. No caso de
Descartes, a tese de que a razão é um atributo de todo ser humano é verdadeira,
mas parcialmente (ele mesmo reconhece isso ao falar de “acidentes”, mas é
apenas uma forma de afirmar que nem todos chegam aos mesmos resultados, o que
afirma sem maior aprofundamento). A razão, na concepção marxista, é uma
potencialidade humana e tende a se desenvolver espontaneamente, mas condições
ambientais, sociais e históricas podem impedir isso, bem como seu
desenvolvimento é determinado por relações sociais concretas.
[19] A ideia de método terá
impacto em diversos autores posteriores, sendo que podemos destacar o sociólogo
Émile Durkheim (1974), que é um “racionalista mitigado” e declarou textualmente
a influência cartesiana, o que é reforçado pelas características de sua obra As Regras do Método Sociológico, sendo
que a ideia de regras do método tem origem no filósofo francês.
[20] Isso é resultado do
processo de assimilação que cada época faz de pensadores do passado, pois usa
um campo linguístico diferente e realiza a interpretação a partir do paradigma
hegemônico, tal como mostraremos adiante. Assim, a expressão “sujeito” emerge,
sem maiores desenvolvimentos, com Kant e é aprofundado por Hegel. Porém, os
historiadores da ciência e da filosofia, estudiosos da “teoria do
conhecimento”, entre inúmeros outros, não usam o método de leitura mais
adequado, que é interpretar um autor a partir de seu próprio campo linguístico,
pois realizam uma imposição linguística e uma interpretação muitas vezes
deformada por tal processo interpretativo.
[21] Aqui compreendemos
ciência não no sentido amplo do termo e sim num sentido mais restrito,
equivalente ao que alguns denominam “ciência moderna”. O conceito de ciência,
aqui, é de um saber sistematizado, metódico e fundamentado empiricamente, e que
geralmente tem a pretensão (ilusória) de neutralidade e objetividade.
[22] O “homem” aqui é uma
abstratificação, pois não se trata nem da humanidade em geral nem da natureza
humana. No plano discursivo, tratar-se-ia da humanidade em geral. Na realidade,
no entanto, trata-se do capital, ou seja, de uma parte da humanidade, que domina
a natureza através da dominação social, de classe.
[23] Rossi, assim como muitos
outros autores, usam o termo “ciência moderna” para distinguir da “ciência”
anterior (medieval, antiga). Isso é uma imprecisão e sua raiz está nos limites
da compreensão da mutação histórica. Aliás, o próprio Rossi destaca a ilusão da
ideia de continuidade e chega até mesmo a perceber que as palavras são um dos
obstáculos, mas acaba caindo no problema que identificou ao não perceber que a
ciência é uma criação da sociedade capitalista (e mesmo colocando que a palavra
“cientista” é uma criação moderna).
[24] Galileu inclusive
declarou a intenção de escrever um livro sobre o infinito em matemática:
“Galileu tinha tido a intenção de escrever um tratado sobre o infinito em
matemática, mas ele não foi encontrado” (BOYER, 1974, p. 241).
--------------
Publicado em:
VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.
Veja também: REGIME DE ACUMULAÇÃO INTEGRAL E PARADIGMA SUBJETIVISTA (outro capítulo do livro Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas).

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