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quarta-feira, 27 de maio de 2026

A FORMAÇÃO DA EPISTEME BURGUESA - Nildo Viana

 


A FORMAÇÃO DA EPISTEME BURGUESA



[Capítulo do livro "Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas"]. 

 

Em uma obra anterior, O Modo de Pensar Burguês (VIANA, 2018a), realizamos uma reflexão teórica sobre a episteme burguesa e a episteme marxista, que era parte do presente livro, mas optamos por separar em duas obras distintas por causa do volume e tempo para produção. Na presente obra, buscamos analisar historicamente a episteme burguesa e como ela se manifesta em cada época da sociedade capitalista. Assim, começaremos pela análise da formação da episteme burguesa e de sua consolidação, bem como a formação dos paradigmas (e ideologias) que se tornam hegemônicos em cada momento da história do capitalismo. Para tanto, é preciso analisar, mesmo que brevemente, alguns elementos históricos do desenvolvimento capitalista e mostrar como eles são fundamentais para compreender as mutações culturais no interior dessa sociedade. Os conceitos fundamentais aqui são, como veremos adiante, os de regimes de acumulação e renovações hegemônicas.

Porém, esse processo não nasceu da noite para o dia. Houve um longo desenvolvimento histórico para que os regimes de acumulação e as renovações hegemônicas que lhes acompanham pudessem existir. Houve todo um longo período histórico no qual o modo de produção capitalista, base dos regimes de acumulação, começou a surgir e a se desenvolver, bem como a episteme burguesa, a fonte intelectual das futuras renovações hegemônicas. O nosso objetivo, neste capítulo, é mostrar a gênese da episteme burguesa, mostrando sua relação com o processo de formação do capitalismo.

No entanto, não é nosso objetivo apresentar uma história do capitalismo em sua totalidade ou mesmo do modo de produção capitalista ou, ainda, dos regimes de acumulação. A nossa opção foi apresentar apenas alguns elementos básicos da história do capitalismo que ajuda a compreender o nosso foco, que são as renovações hegemônicas, sendo que temos que iniciar com a formação da episteme burguesa, sua base intelectual. Para entender as renovações hegemônicas é fundamental não somente compreender a episteme burguesa e seu rival antagônico, o marxismo, como também sua constituição histórica e sua relação com a hegemonia em cada época do capitalismo. Isso significa que, para compreender a presente obra, é fundamental a leitura de O Modo de Pensar Burguês[1]. Aqui partiremos do pressuposto da compreensão da episteme burguesa e da episteme marxista e diversos conceitos derivados (hegemonia, ideologia, etc.), sendo que apresentamos sinteticamente alguns deles na apresentação da presente obra.

As renovações hegemônicas pressupõem que a episteme burguesa esteja pelo menos esboçada, o que ocorre com seu delineamento inicial representada pelo iluminismo e pelo romantismo. Essas duas concepções já são, também, delineamentos iniciais de paradigmas, expressão do próprio desenvolvimento capitalista, como mostraremos adiante. No entanto, no presente capítulo, o nosso foco será tão-somente a formação da episteme burguesa, ou seja, o processo histórico pelo qual surgem determinadas ideologias burguesas e como estas vão, com o passar do tempo, se solidificando, se desenvolvendo, criando as bases para uma verdadeira episteme. Assim, a evolução da episteme burguesa começa por contribuições parcelares e elementares, que somente posteriormente se unem numa totalidade que constitui um verdadeiro modo de pensar. O nosso trajeto aqui será ver o processo de sedimentação do pensamento burguês e, nesse processo, a formação de elementos que, posteriormente, formarão a episteme burguesa.

Acumulação Primitiva de Capital e Capitalismo Comercial

O processo de formação do capitalismo foi longo e os historiadores e até mesmo pretensos marxistas realizaram amplos debates sobre suas origens, seja para delimitar quando se iniciou o processo, seja para saber quais foram suas determinações. Não apresentaremos tais discussões e nem realizaremos uma análise aprofundada desse processo. O que faremos aqui é apenas apontar alguns elementos básicos do processo de formação do capitalismo para ficar mais facilmente compreensível o processo de constituição da episteme burguesa.

A partir do século 12 do calendário cristão temos um processo de progressivo enfraquecimento do modo de produção feudal e, por conseguinte, do feudalismo como sociedade. O mercado e a cidade começam a reaparecer e, nesse processo, novas classes sociais começam a emergir. Com o passar do tempo, esse processo se intensifica e a classe dos mercadores, antecessora e embrião da classe capitalista, vai se desenvolvendo e fortalecendo. A expansão mercantil e urbana vai se aprofundando com o passar do tempo até chegarmos ao século 16, momento em que a burguesia surge como classe social, especialmente sob a forma de burguesia comercial[2], mas também, logo após, como burguesia manufatureira.

Nesse processo, especialmente a partir do século 16, temos o que Marx (1988) denominou “acumulação primitiva de capital”, o que quer dizer que o capital surge numa forma elementar. O capital comercial é o principal agente desse processo. A burguesia comercial emerge e traz consigo novas relações sociais e novas ideias, valores, concepções. O colonialismo, a expansão comercial, a formação do estado absolutista, entre outros processos, traziam novas relações sociais e isso gerava novos interesses e, por conseguinte, ideias. O elemento fundamental nesse processo é o capital e seu séquito: dinheiro, mercado, lucro. O capital comercial se desenvolveu pioneiramente, gerando uma burguesia comercial que se fortalece com o passar do tempo. A partir do século 16, temos a emergência do capitalismo comercial, a primeira forma do capitalismo, no qual o capital comercial gera o predomínio do capital industrial (MARX, 1988) e a emergência de uma burguesia manufatureira.

Essa expansão comercial foi fortalecida por um conjunto de fenômenos, como a urbanização, que ampliava a divisão social do trabalho e gerava necessidade de maior produção especializada, a formação do estado absolutista e de uma burocracia que trazia mais um setor especializado no interior da sociedade, a emergência do modo de produção camponês e do modo de produção artesão, produtos e simultaneamente incentivadores da divisão social do trabalho[3], etc. O Estado absolutista tem um significado fundamental no processo de expansão do capital comercial, das manufaturas, do colonialismo, etc.

O dinheiro passa a ser cobiçado e, ao mesmo tempo, se torna uma necessidade para a aquisição de mercadorias e sobrevivência. A busca da riqueza se torna cada vez mais intensa e a burguesia comercial almeja, através da apropriação de mais-dinheiro, utilizando a pilhagem (como no colonialismo) e a troca inequivalente como principais formas de realizá-la. A expansão veloz e intensa do capital comercial, o uso cada vez mais amplo do dinheiro, a divisão social do trabalho, e todos os processos relacionados, geram uma nova classe social que vai paulatinamente aumentando sua força, a burguesia comercial, e, junto dela, um processo de racionalização da produção e da vida social em geral[4].

O que ficou conhecido posteriormente como mercantilismo acaba sendo algo importante nesse processo e intimamente relacionado com a racionalização. O mercantilismo desenvolve o cálculo mercantil, que depois será algo generalizado na sociedade capitalista (VIANA, 2018c). O mercantilismo e o cálculo mercantil são formas de consciência que emergem a partir das novas relações sociais que vão se formando, fortalecendo e desenvolvendo.

Um elemento fundamental nesse processo é a emergência da burguesia como classe social. No início e com mais força, trata-se de uma burguesia ainda incipiente e, com a acumulação primitiva de capital, ainda uma semiburguesia, pois fundada na apropriação de mais-dinheiro. Esse é um elemento chave para o desenvolvimento da burguesia manufatureira, fundada na extração de mais-valor, e constituinte de um proletariado ainda mais incipiente, um semiproletariado. O que interessa nesse processo é que desde os mercadores até a formação da burguesia comercial e manufatureira, novos interesses emergem, e estes geram novos valores, novas formas de consciência, bem como complexifica a sociedade e expande a divisão social do trabalho. É neste contexto que surgem as bases sociais e culturais para a emergência da episteme burguesa.

Aqui temos um elemento importante que é o entendimento de que a época do capitalismo comercial marca um processo de mutação cultural que é fundamental para a formação da episteme burguesa. O capitalismo comercial é caracterizado pela já aludida expansão comercial. Esse processo já foi denominado “revolução comercial” e expressa esse conjunto de transformações: transformação dos mercadores em burguesia comercial, emergência das manufaturas, urbanização e ampliação da divisão social do trabalho, etc. Esses processos geram outras mudanças sociais e culturais. No plano social, a expansão da divisão social do trabalho gera um conjunto de indivíduos que cada vez mais se especializam no trabalho intelectual. Esse é o caso dos artistas, cientistas, filósofos, técnicos. No início eles aparecem como amadores, mas, posteriormente, tornam-se artesãos, semiprofissionais, até se tornarem profissionais, o que ocorre num longo processo histórico que dura séculos[5]. As esferas sociais começam a surgir, a começar pela esfera religiosa, pois a reforma protestante e outros processos semelhantes apontam para a transformação da religião em uma esfera social (VIANA, 2015a). A emergência da burguesia comercial e manufatureira também aponta para a emergência do renascimento e humanismo, produto da luta de classes e das mutações sociais[6].

Assim, renascimento, humanismo, reforma protestante, dissidências protestantes, mercantilismo, são algumas das expressões culturais desse longo momento histórico. A ampliação da divisão social do trabalho e esboço das esferas sociais abre espaço para o processo de especialização do trabalho intelectual, de forma ainda rudimentar, mas já mostrando o seu processo de formação e que vai se aprofundando com o passar do tempo. Essa é uma das fontes de uma das características da episteme burguesa: o reducionismo[7]. Da mesma forma, o processo de desenvolvimento mercantil traz a necessidade de desenvolvimento da matemática e isso fortalece o pensamento abstrato, o que reforça a tendência ao racionalismo, tal como se observa nas obras de Hobbes e Descartes, para citar apenas dois exemplos. No mesmo processo, o comércio e o trabalho artesanal trazem uma maior proximidade com a produção de mercadorias e com o trabalho material, o que, por sua vez, é um incentivo para a preocupação com o mundo dos objetos e das coisas, sendo uma das fontes do empiricismo.

Ao lado disso, o processo de racionalização que acompanha a expansão comercial, monetária e o cálculo mercantil, promove um novo tipo de preocupação, com a história. A concepção estática de tempo do feudalismo vai sendo substituída por uma concepção histórica, que busca explicar não somente o passado e o presente, mas a velocidade das mudanças e a necessidade de transformação, interesse da burguesia que vai ficando cada dia mais consciente. Essa nova percepção da história vai se tornando cada vez mais “secular” e abre espaço para reflexões filosóficas sobre o presente, o passado e o futuro. Isso foi reforçado pelo colonialismo, descobertas marítimas, narrações sobre sociedades antes desconhecidas, o que gera a ideia de “eldorado”[8]. Nesse contexto, emergem as utopias literárias, bem como o pensamento progressista da burguesia ascendente. É nesse contexto que começa a se esboçar elementos da episteme burguesa.

A Formação da Episteme Burguesa

 

Essas mudanças sociais trazem mudanças culturais. O processo de racionalização e a doutrina mercantilista emergem e se desenvolvem. No entanto, ao lado disso, a burguesia ascendente gera interesses próprios e estes vão sendo intelectualmente sistematizados para o seu combate com a nobreza. A luta de classes entre a antiga classe dominante e a classe emergente que aspira se tornar dominante ocorre sob diversas formas e umas das principais, no momento que vai do século 16 até o 19, é a luta cultural. A nobreza já tinha sua ideologia e um conjunto de manifestações culturais e o apoio de uma instituição sólida, a igreja. A burguesia emergente, no entanto, não poderia lançar mão da teologia e da religião como arma de luta cultural, já que isso seria utilizar a arma do inimigo e essa constituía uma episteme elementar adequada à dominação feudal.

É por isso que a burguesia emergente e os pensadores que a expressam produzirão novas ideias, que, obviamente, não surgem do nada[9]. As novas relações sociais geram novas ideias, mas essas só surgem mediadas por ideias anteriores, pois não podem emergir diretamente do mundo fenomenal. A razão disso é simples: um novo fenômeno não é interpretado automaticamente, pois sua novidade dificulta sua compreensão. Assim, o ser humano vai usar o seu referencial, sua consciência, marcada pela cultura de sua época, para interpretar esse novo fenômeno. Se um alienígena aparece no planeta terra, nós não sabemos nada sobre ele e vamos interpretá-lo a partir de nossa cultura, como, por exemplo, o que a ficção científica nos legou sobre isso e através dos dilemas humanos (são bons ou maus?), que, para ele, pode não ter significado algum e pode ser uma péssima interpretação. Os portugueses, quando chegaram ao Brasil, chamaram de índios os seus nativos, por julgar que tinham chegada na Índia. Eles não podiam saber como se autodenominavam os nativos e nem que viviam em diversas sociedades com variados idiomas. Por outro lado, os nativos interpretaram os portugueses a partir de seu referencial, que era outro. A percepção do estrangeiro, entre os Maias, era inicialmente a partir de seu referencial e por isso os consideraram, inicialmente, como deuses, embora depois passassem a ser vistos negativamente (GENDROP, 1987). Isso foi uma correção, promovida pela experiência concreta, dessa percepção inicial fundada no referencial anterior. Outro exemplo disso é quando Freud tentou explicar a guerra e, para isso, utilizou o seu referencial, a psicanálise (FREUD, 1972). Não é preciso dizer que isso é muitas vezes problemático, mas também depende de qual referencial se trata (se partir da episteme burguesa, é, sem dúvida, algo mais deformador do que revelador).

E qual foi o referencial inicial do pensamento burguês, já que este se recusava a usar o que era hegemônico na sociedade feudal? Essas novas ideias surgem fora do âmbito da religião e da teologia e por isso possui duas fontes principais: o saber prático, que logo se torna técnico, e o saber filosófico anterior ao feudalismo, ou seja, a filosofia antiga (que, no entanto, foi interpretada a partir de uma concepção teológica e por isso se manteve viva e pode ser retomada, mas agora sem a interpretação antes hegemônica do catolicismo). Estes, por sua vez, geram uma terceira forma de saber, o científico, que surge embrionariamente e atrelado aos dois anteriores[10]. Claro que a teologia e a religião não desaparecem imediatamente e acabam se reproduzindo mesmo que sub-repticiamente nos discursos e concepções dos representantes intelectuais da burguesia ascendente. Alguns elementos de religião e teologia se reproduzem e, em alguns casos, emergem formas ecléticas, especialmente num primeiro momento, devido a força da hegemonia feudal. Assim, a concepção religiosa-teológica também é fonte de inspiração nesse período, mas com peso cada vez mais decrescente e sob forma diferente, bem como, em alguns casos, é negada e criticada.

Por saber prático nos referimos ao “saber fazer” que existe no processo de produção e distribuição (feudal, camponês, artesão, mercantil, etc.), na vida cotidiana, especialmente aquele ligado com as mudanças sociais (produção artística e intelectual cada vez mais autonomizada, trabalho fabril, vida urbana, troca de mercadorias, etc.). As necessidades práticas geram adoção/adaptação do saber prático anterior e geração de novos saberes práticos, que acabam se tornando saber técnico. Esse saber técnico vai ser aquele utilizado pelo cálculo mercantil ligado ao capital comercial e sua expansão, bem como ao trabalho manufatureiro e ao domínio político. Nesse contexto, há um desenvolvimento da matemática e do seu uso cada vez mais importante e presente na sociedade, pois as trocas mercantis exigem sua utilização e os interesses da burguesia comercial geram a sua valoração. O saber técnico emergente, por sua vez, era outra necessidade para o processo de expansão comercial, produção manufatureira, etc. As descobertas marítimas traziam outras necessidades de desenvolvimento de saber técnico, por exemplo. As necessidades de navegação fizeram avançar a cartografia e a astronomia, por exemplo. O saber técnico é, assim, uma necessidade da classe capitalista emergente e vai ter desdobramentos e consequências em vários âmbitos da sociedade.

Ao lado do saber técnico vai emergindo determinadas ideias no âmbito da arte, letras, filosofia. É nesse contexto que emerge o chamado renascimento. O renascimento retoma a antiguidade clássica e nesse processo realiza algumas mudanças culturais que serão importantes para a emergência da episteme burguesa. A burguesia emergente tinha o interesse político de se contrapor à antiga classe dominante e criar sua própria dominação, sem alianças ou entraves. Isso promovia a necessidade de combater o alicerce ideológico da antiga classe dominante e, ao mesmo tempo, criar um processo de racionalização a partir do cálculo mercantil. Assim, o teocentrismo vai sendo substituído paulatinamente pelo antropocentrismo e a racionalização vai se ampliando nos mais variados processos de produção cultural. O antropocentrismo anda lado a lado com o humanismo, que se manifesta no interior de um mundo em transição e permite obras como as de Thomas Morus, Erasmo de Roterdam, entre outros.

No caso italiano, a figura de Maquiavel assume grande importância, pois ele expressava o “espírito da época”, para utilizar expressão hegeliana. Maquiavel é precursor de alguns elementos da mentalidade burguesa e, logo, do campo axiomático da episteme burguesa[11]. A valoração dos fins em detrimento dos meios, aponta para a dinâmica da acumulação capitalista que posteriormente vai gerar a racionalização[12] e o que ficou conhecido como “autonomização da política”, aponta para o processo de reducionismo e especialização do pensamento[13]. Ele, no entanto, não era o único, pois diversos outros pensadores, na Itália e em outros países (como na França) apontaram para elementos que mais tarde seriam elementos constitutivos da episteme burguesa, como no caso de Jean Bodin e a autonomização do jurídico, para citar apenas um exemplo.

A expansão da divisão social do trabalho aponta para uma expansão da divisão social do trabalho intelectual e anuncia o surgimento das ciências particulares e do reducionismo institucionalizado nas universidades modernas com seus departamentos e separações intelectuais e sociais. Ele também apontava para a antinomia indivíduo-sociedade, que será reproduzida infinitamente por diversas ideologias burguesas, e com mais força na sociologia (Durkheim, por exemplo), sob várias formas. Ele também aponta um elemento utilitarista que comporá o campo axiomático da episteme burguesa:

A ideia social de Maquiavel seria a integração de homens sem vínculo com a natureza e sem crença no além, isolados em seus objetivos egoístas e utilitários e em suas paixões, em uma comunidade totalitária de um estado puramente temporal com amplas tarefas de política interna e externa (SCHILLING, 1974, p. 194).

Maquiavel não emerge apenas por causa das mudanças sociais, mas também por causa de seus vínculos e interesses. Os principados italianos e a burocracia monárquica anunciam os futuros especialistas em governar e O Príncipe é apenas um manual da “arte de governar”. As ideias contidas em O Príncipe foram extraídas da experiência e das reflexões do seu autor, comandado por seus interesses: adquirir cargo e espaço ao lado dos governantes e, sem dúvida, uma ambição não revelada de se tornar “o” governante, pois quem seria o governante ideal senão aquele que ensina a governar? “O Príncipe sou eu”, poderia dizer Maquiavel.

Giordano Bruno e Nicolau Copérnico foram outros nomes importantes para a formação da episteme burguesa. Eles apontavam para novas concepções sobre a natureza e outros aspectos que foram importantes nesse contexto e serão reutilizados nas lutas políticas da burguesia contra a nobreza e a burocracia monárquica. Copérnico e o heliocentrismo foram um ponto de partida para diversos outros pensadores e abriu um caminho novo para ser trilhado. A sua obra apontava não apenas para novas ideias, mas também para um novo modo de produzir ideias, ou seja, através de pesquisa e cálculo matemático. Giordano Bruno deu prosseguimento e desenvolveu novos elementos que também entravam em choque com a doutrina da igreja. A sua não submissão às autoridades eclesiásticas e suas ideias não só ensaiaram mudanças no modo de pensar como também abriram caminho para outros desdobramentos que vieram posteriormente. A ideia de infinito[14], por exemplo, assume importância e será reproduzida sob diversas formas por outros pensadores.

Por outro lado, Leonardo Da Vinci e outros também avançavam no processo de desenvolver o saber técnico e ao mesmo tempo cultivar a arte e a cultura. Esse processo era expressão de uma autonomização dos intelectuais, ainda amadores e distantes do processo de formarem uma classe social, mas já promovendo um primeiro momento da especialização, elemento importante para gerar interesses, saberes especializados, etc. O pensador da época é um não-especialista enquanto produtor intelectual, mas já caminha para ser um especialista na produção intelectual[15]. O caso de Leonardo Da Vinci é exemplar, pois realizou produção artística (escultura, poesia, música, pintura), técnica (arquitetura, engenharia, matemática, etc.). A figura do pensador não-especialista vai desaparecendo com o passar do tempo, através de um processo crescente de especialização e limitação das atividades intelectuais, produtos do desenvolvimento da sociedade moderna.

Desta forma, a cultura do renascimento serviu para o fortalecimento cultural da burguesia, o desenvolvimento de alguns elementos basilares que depois serão aprofundados e sistematizados pelos pensadores posteriores, abrindo a possibilidade de surgimento da episteme burguesa. Os germes da episteme burguesa começam a surgir nesse momento, mas ainda teria muito chão para caminhar até chegar ao um desenvolvimento mais profundo[16].

Para haver um avanço mais profundo na formação da episteme burguesa, seria necessário ampliar e intensificar as mudanças sociais e o desenvolvimento intelectual. Esses dois elementos vão se desenvolvendo e abrindo a possibilidade de novas abordagens que apontam para um maior desenvolvimento das bases da episteme burguesa. Assim, Bruno, Copérnico, Da Vinci, Maquiavel, Morus e outros abriram uma clareira, para usar expressão heideggeriana, e essa, com as mudanças sociais, proporcionou a emergência do racionalismo e empiricismo, que são um avanço no sentido da constituição de uma nova episteme.

Racionalismo e Empiricismo

Esses elementos que emergiram no século 16 se ampliam no século 17. A reforma protestante aponta para um processo de ampliação da divisão social do trabalho, pois a divisão da igreja em duas, uma católica e outra protestante, é um primeiro sinal de ruptura da unidade mental característica da sociedade feudal e criação de uma nova instituição (VIANA, 2015a). A reforma protestante não significou apenas a separação e especialização no interior da esfera religiosa nascente e sim a emergência de novos valores culturais e, mais especificamente, religiosos. Esses novos valores, por sua vez, estão mais de acordo com o desenvolvimento do capitalismo comercial, tal como demonstrado por Weber (1987).

Nesse século, teremos ainda a emergência do racionalismo cartesiano e do empiricismo baconiano, dois pilares da episteme burguesa. Descartes e Bacon, no entanto, são apenas dois protótipos de duas concepções burguesas distintas que convergem na constituição de uma mesma episteme, e que conta com um enorme séquito, passando por Spinoza e diversos outros até chegar a Leibniz, no caso do racionalismo, e passando por Locke e outros até chegar a Hume. Evidentemente, Leibniz e Hume não encerraram a história do racionalismo e empiricismo, que continuam existindo e assumindo novas formas.

Desta forma, é importante observar como estes pensadores colaboraram com a formação da episteme burguesa, apesar de seus limites, pois eles colocaram tijolos no edifício, mas não o construíram em sua totalidade. Seria necessário, como veremos adiante, uma síntese que fornecesse coerência e constituísse a base de todo o desenvolvimento posterior. No entanto, foi fundamental a contribuição de Descartes e Bacon, pois eles permitiram a síntese posterior e inclusive foram as fontes de determinadas divisões no interior da episteme burguesa, já que foram antecessores de concepções posteriores que disputavam a hegemonia.

O racionalismo de Descartes é uma concepção precursora e referência histórica do pensamento burguês. O filósofo oriundo de família semiburguesa comercial será interpretado sob diversas formas, mas a sua concepção racionalista não é negada por ninguém, sendo uma “ideia evidente”, para parafraseá-lo. Segundo Descartes, a razão é naturalmente igual em todos os homens (DESCARTES, 1979)[17]. E assim os homens vão produzindo suas próprias ideias e o bom senso, ou a razão, se desenvolve naturalmente. Mas Descartes afirma que descobriu um método que lhe permite avançar enormemente no plano da razão. A sua obra O Discurso do Método é o seu ponto de partida filosófico mais desenvolvido e é onde apresentará suas ideias básicas. Não se trata aqui de retomar suas teses e desdobramentos e sim colocar que ele considera que o ser humano é um ser racional e lança as bases do racionalismo (retomado por outros pensadores como Spinoza, apesar das diferenças). O racionalismo cartesiano promove a “subordinação de todo conhecimento do ser ao primado do sujeito pensante” e apresenta como “aspiração”, ou objetivo, “nos tornar senhores e possuidores da natureza” (RODIS-LEWIS, 1990, p. 8). Esse objetivo é comum nessa época e será compartilhado por grande parte dos pensadores que são seus contemporâneos, tal como Bacon, como veremos adiante. Trata-se de um objetivo da burguesia emergente, o domínio da natureza. A ideia do cogito e a do Res Cogitans (coisa pensante), e toda a justificativa intelectual do racionalismo cartesiano, estão intimamente ligadas a dois processos: o avanço da intelectualidade do amadorismo a uma situação “artesanal”, o que permite autonomizar e valorar ainda mais a razão, e o desenvolvimento do saber técnico ligado aos interesses da burguesia comercial, especialmente a matemática, pilar do edifício cartesiano. Estes dois processos são produtos do desenvolvimento do capitalismo comercial.

Assim, Descartes não só lança bases para o desenvolvimento da episteme burguesa como já anuncia algumas de suas antinomias (espírito-corpo) sob forma ainda elementar. O elogio da matemática, “universalidade da razão”, e o apelo
à geometria são fundamentais nesse processo de produção do racionalismo cartesiano, que não só expressa a sua época como anuncia elementos do futuro, uma parte sendo integrada ao patrimônio da episteme burguesa e outra sendo base para uma de suas expressões particulares[18].

Descartes traz elementos precursores da episteme burguesa para todos os seus campos mentais. No entanto, isso é feito de forma modesta e imperfeita e por isso alguns termos cartesianos não são assimilados pela episteme burguesa, pelo menos não formalmente (cogito, por exemplo). De Descartes, a episteme burguesa retira mais o seu conteúdo do que sua forma. Descartes nunca se autodeclarou “racionalista” e isso é uma atribuição posterior. Ele lança algumas antinomias (inclusive já existente desde a filosofia antiga, como “corpo e alma”, já colocada por Aristóteles), inova terminologicamente, embora timidamente, e a ideia de “método”[19] é uma das mais aproveitadas posteriormente, bem como abre espaço para se tematizar o “sujeito do conhecimento”, termo que ele não utiliza, apesar de muitos realizarem tal atribuição (e não só a ele, mas a um amplo espectro de pensadores que nunca usaram tal termo)[20].

O empiricismo de Bacon assume um papel fundamental nesse processo. A sua célebre frase, “saber é poder” é um dos pilares de sua concepção. Assim como Descartes, que pensava o animal-máquina, as máquinas eram elementos importantes e abria caminho para o pensamento básico de Bacon: o domínio sobre a natureza. Até aqui, Bacon e Descartes possuem ideias coincidentes. No entanto, apesar de unidos pelo mesmo clima intelectual da época, as suas ideias caminhavam por estradas bem diferentes em certos aspectos. O empiricismo se opõe ao racionalismo, pois um aponta para a importância da experiência, experimentação, sentidos, entre outros aspectos, e o outro para a razão, a metafísica, etc. A compreensão da natureza, no caso do empiricismo, é derivada da observação e isso lhe permite obedecer em suas leis. Assim, a dedução é tida como incapaz de gerar um saber sobre a natureza (ou seja, aqui se recusa o princípio do racionalismo, apresentando sob forma mais simples). Bacon propõe então uma nova forma de encarar a natureza e buscou efetivar isso a partir da indução:

A insuficiência do método aristotélico é de ter tratado difusamente a dedução e quase transcurado a indução. Bacon se propõe a integrá-lo, de modo a arrancar da natureza os seus segredos através da experiência e da observação, as únicas que, fazendo-nos conhecer as causas das coisas, nos dão o domínio sobre elas. Somente assim os homens sairão da barbárie livrando-se de sua miséria e infelicidade. O fim da ciência, para Bacon, é pragmático, instrumental: ela é o instrumento do qual o homem se serve para interpretar e dominar a natureza (SCIACCA, 1962, p. 61).

Bacon, nesse contexto, realiza a crítica do que ele denomina ídola, ou seja, as falsas representações da realidade. Essas representações falsas são oriundas da tradição, da sociedade, etc., e por isso devem ser descartadas e substituídas pela indução experimental. Assim, Bacon acaba gerando uma concepção distinta da de Descartes. Enquanto este principia com a razão, Bacon inicia com a experiência. A ideologia baconiana corresponde melhor aos interesses da burguesia, mas isso se deve ao fato de que sua produção ocorreu em outro país, na Inglaterra, no qual a manufatura e as invenções adquiriram mais importância do que na França de Descartes na mesma época. Ele também lança bases para a formação da episteme burguesa e coloca a questão da experiência e do empírico como elementos que serão retomados e tornados fundamentais por algumas ideologias burguesas posteriores.

As obras desses dois pensadores são importantes para a emergência da episteme burguesa não só por elas mesmas, mas por existirem simultaneamente, permitindo, devido sua oposição, gerar uma das principais antinomias do pensamento burguês: racionalismo e empiricismo. As diferenças entre eles podem ser explicadas pelo contexto social em que viveram, em dois países diferentes, França e Inglaterra, com suas diferenças, inclusive no âmbito do desenvolvimento capitalista e, por conseguinte, nos interesses predominantes da burguesia. Qualquer pensador posterior poderia optar pelo empiricismo ou pelo racionalismo ou uma mescla de ambas as concepções e isso marca a consolidação de uma das antinomias principais da episteme burguesa.

Assim, a acumulação primitiva de capital e a chamada “revolução comercial” geram tanto um saber técnico quanto uma nova classe social, especialmente a burguesia comercial (mas também a manufatureira e outras frações que começam a se desenvolver), com seus interesses de classe, gerando novos valores e concepções, que são as fontes principais das mudanças culturais. O saber técnico representado pelo cálculo mercantil e matemática vinculada a ele, entre outras diversas necessidades e formulações (descobertas marítimas, colonização, etc.) são as fontes intelectuais que incentivam o desenvolvimento do racionalismo (Descartes, Hobbes, Spinoza, etc.) e o empiricismo (Bacon, especialmente, e depois Locke, Hume, etc.) e das ciências naturais (Bruno e depois Galileu e Newton). O pensamento do século 17, especialmente o racionalismo e o empiricismo, se reencontram no primeiro delineamento da episteme burguesa representada pelo iluminismo.

O Significado das Ciências Naturais

Nesse contexto, a física de Galileu adquire grande importância. A chamada “revolução galilaica” é um prosseguimento das conquistas anteriores da física e da astronomia precedentes e em formação, que foram sendo desenvolvidas por Copérnico, Bruno, Blanche, Kepler, entre outros, e abre o caminho para Galileu. Este vai compartilhar a supervaloração da matemática e outras concepções desenvolvidas em sua época (e algumas de épocas anteriores, que permaneciam válidas para uma perspectiva burguesa), bem como, tal como colocamos no capítulo anterior, uma pretensa neutralidade que apenas revela valores determinados contrapostos a outros valores.

A produção intelectual de Galileu complementa o racionalismo e o empiricismo filosóficos de Descartes e Bacon. No entanto, no plano da prática intelectual, Galileu está mais próximo da episteme burguesa que os dois filósofos. Isso se deve ao fato de que Galileu desenvolvia um saber científico elementar, próximo do saber filosófico, mas muito mais especializado e separado, muito mais fundado empiricamente, do que os demais. Dilthey chega a afirmar que “a criação real de uma análise da natureza deve-se a Galileu Galilei” e que “com um conhecimento maior que Bacon quanto ao método”, este filósofo “possibilitou, graças à descoberta das leis do movimento, o conhecimento mecânico da natureza, lançando assim as bases reais da ciência empírica e da filosofia dos povos modernos que essa ciência condiciona” (DILTHEY, 1973, p. 136). Sem dúvida, há aqui alguns exageros, mas é correto dizer que Galileu foi marcante no processo de constituição das ciências naturais. Porém, isso ocorre mais no nível prático, do fazer científico, sem grandes contribuições em outros aspectos, tal como Descartes e Bacon fizeram.

Esse é um contexto de formação das ciências naturais, sendo que somente se consolidará como saber especializado e com autonomia em relação à filosofia, no futuro. É por isso que Galileu é “filósofo tanto quanto físico” (DILTHEY, 1973, p. 136). Contudo, as ciências naturais em formação possuem um significado fundamental, que é o primeiro passo para a constituição de uma nova forma de saber, uma nova forma de ideologia, que não é teologia e nem é mais filosofia. As ciências naturais nascentes abrem caminho para o surgimento da nova forma de saber que é a ciência[21]. E essa vai ter um impacto poderoso sobre as concepções que emergem posteriormente, tal como se vê no iluminismo do século 18 e que se consolidará no paradigma positivista do século 19.

A “revolução galilaica” é um momento importante no processo de formação das ciências naturais e marca o primeiro passo que culminará com a hegemonia do pensamento científico. E sua importância também aparece, já nesse contexto, inclusive como se vê em Descartes e Bacon, na ideia de uma razão instrumental, forma pela qual “o homem”[22] passa a dominar a natureza, o que é efetivado, praticamente, pelas ciências naturais em formação. E isso vem acompanhado por uma nova concepção de natureza, distinta da anterior e que mostra uma ruptura com a episteme feudal. Paolo Rossi (2001) observa que uma das rupturas entre a tradição medieval e a ciência moderna que justifica o uso do termo “revolução científica” ocorre justamente na mudança de perspectiva em relação à natureza.

1) A natureza de que falam os modernos é radicalmente diferente a que se referem os filósofos da Idade Média. Na natureza dos modernos não há (como na tradição) uma distinção de essência entre corpos naturais e corpos artificiais.

2) A natureza dos modernos é interpelada em condições artificiais: a experiência de que falam os aristotélicos apela para o mundo da cotidianidade a fim de exemplificar ou ilustrar teorias. As “experiências” dos modernos são experimentos construídos artificialmente a fim de confirmar ou desmentir teorias.

3) O saber científico dos modernos se parece com a exploração de um novo continente, ao passo que o saber dos medievais parece voltado ao paciente aprofundamento dos problemas com base em regras codificadas.

4) À luz da crítica dos modernos o saber dos escolásticos pareceu incapaz de interpelar a natureza, mas somente interrogar a si próprio oferecendo sempre respostas satisfatórias. Naquele saber há lugar para as figuras do mestre e do discípulo, mas não para a figura do inventor.

5) Os cientistas modernos – Galilei em primeiro lugar – agem com uma “desenvoltura” e um “oportunismo metodológico” que são totalmente desconhecidos na tradição medieval [...]. A pretensão medieval para a exatidão absoluta foi um obstáculo e não uma ajuda para a criação de uma ciência matemática da natureza. Galilei inventava sistemas de medição cada vez mais apurados, mas “desviava a atenção da precisão ideal para aquela necessária e relativa aos objetivos e alcançável mediante os instrumentos disponíveis [...]. Ao passo que o mito paralisante da exatidão absoluta foi um entre os fatores que impediram os pensadores do século XIV de passar das calculationes abstratas para um estudo efetivamente quantitativo dos fenômenos naturais” (Bianchi) (ROSSI, 2001, p. 17-18).

Aqui temos duas mudanças importantes. Uma é na ação sobre a natureza e outra é como pesquisar a natureza. As novas necessidades da produção capitalista trazem a necessidade de mudança da relação dos seres humanos com a natureza. Ela passa a ser vista com o matéria-prima, meio de produção, meio de satisfação das necessidades do capital, e, portanto, deve ser dominada. Essa necessidade produz a concepção instrumental/manipuladora da natureza. Essa, uma vez existindo, gera a alteração na forma de abordar a natureza, seja no plano intelectual, seja no concreto. E é isto que Rossi aponta no trecho acima.

A partir das ciências naturais, a natureza é abordada como algo a ser dominado e não sob forma contemplativa, como no saber medieval. A passagem da concepção contemplativa da natureza para a concepção instrumental é fundamental e altera também a forma de como atuar sobre ela, ou seja, no plano prático e metodológico. No plano prático temos a produção capitalista e as invenções e no plano metodológico temos o experimentalismo. Rossi descreve como se passa de uma distinção entre “corpos naturais” e “corpos artificiais” no saber medieval, para uma indistinção na ciência “moderna”[23]. Assim, a experimentação (que é uma forma de experiência, só que em situação planejada e que pode assumir várias formas, inclusive limitadas ao laboratório) torna-se uma forma de buscar compreender a natureza ao invés da experiência espontânea, não-planejada.

As ciências naturais reforçam, portanto, a inovação intelectual, mas além disso traz outros elementos. A relação com a natureza muda e passa a ser entendida sob a forma utilitarista e instrumental, elementos que revelam valores que compõe o campo axiomático da episteme burguesa, ao mesmo tempo que o esboço de experimentalismo e uso sistemático da matemática traz elementos novos para o campo analítico. Da mesma forma, ocorre a ampliação do campo linguístico com as ciências naturais em formação, tal como o já aludido termo “infinito” e mesmo as “viradas conceituais” do próprio Galileu (ROSSI, 2001)[24]. O campo perceptivo também se amplia, o que se percebe com a própria ideia de infinito, mas também na nova abordagem sobre a natureza.

Em síntese, o significado das ciências naturais para a formação da episteme burguesa é que ela forneceu diversos elementos que, reunidos com os anteriores e especialmente com o racionalismo e empiricismo, fornecem as bases dos seus campos mentais. O passo seguinte ocorrerá com o iluminismo, tal como veremos a seguir.



[1] Este livro era o primeiro capítulo da presente obra, mas por questão de tempo e tamanho, resolvemos separar em duas e até que poderia ser considerado como dois volumes de uma mesma obra, sendo esta o segundo volume.

[2] A burguesia comercial é uma semiburguesia antes do desenvolvimento do modo de produção capitalista, pois ela se caracteriza pela apropriação de mais-dinheiro e não por apropriação de mais-valor, o que emergirá com a burguesia manufatureira. Essa apropriação de mais-dinheiro não é uma forma indireta de apropriação de mais-valor e por isso o seu caráter semiburguês. Sobre a diferença entre apropriação de mais-dinheiro e mais-valor, cf. Viana, 2018c.

[3] Uma precondição para o capitalismo é a ampliação da divisão social do trabalho. A produção de mercadorias, portadoras de valores de troca, pressupõe tal divisão, pois somente quando não se produz o que se consome é que a aquisição de mercadorias se torna necessária. A produção camponesa e a produção artesão não são autossuficientes, o que significa que são mercado consumidor do que não produzem, bem como fornecedores de mercadorias (elementares, ainda não-capitalistas) para outros setores da sociedade. Sobre as formas de mercadorias (elementares e desenvolvidas), cf. Viana, 2018c.

[4] Esse processo de racionalização foi parcialmente descrito pelo sociólogo Max Weber (1987). Assim, apesar de partir da episteme burguesa, alguns elementos da concepção weberiana são verdadeiros, como o processo de racionalização, embora sua concepção de sua gênese, significado e outros processos sejam equivocados.

[5] A análise desse processo histórico pode ser visto em “A formação da intelectualidade”, em preparação.

[6] “O Humanismo e o Renascimento são um vasto e profundo movimento cultural, riquíssimo de motivos e correntes, que aprofunda suas raízes nos séculos 13 e 14, floresce copado nos séculos 15 e 16, perdurando até os séculos 17 e 18 (Galileu e Vico são ainda filhos do Renascimento) e, como momento da cultura, representa um valor perene na história da humanidade. As exigências e os problemas da Idade Moderna encontram a sua primeira formulação, ou pelo menos a sua raiz, na cultura do Humanismo e do Renascimento, movimentos prevalentemente italianos” (SCIACCA, 1962, p. 3). Sem dúvida, aqui temos algumas informações e momentos de verdade, mas há um certo exagero, bem como certos valores, por detrás dessa descrição. No fundo, o que temos são antecedentes e, no século 17 em diante, a assimilação da herança humanista e renascentista, e não sua continuação.

[7] O reducionismo vai ter um forte incentivo no trabalho intelectual especializado, que culmina com as ciências particulares.

[8] E isso vai perdurar até o iluminismo, tal como se pode ver nos escritos de Rousseau e na ironia de Voltaire a seu respeito (VIANA, 1999; VOLTAIRE, 1984).

[9] Aqui é necessário avisar aos leitores desatentos que não se trata de realizar uma análise aprofundada e nem mesmo sintetizar o pensamento de diversos pensadores, mas tão-somente mostrar os elementos fundamentais e os aspectos mais gerais que acompanharam o desenvolvimento histórico da episteme burguesa.

[10] Não é difícil perceber que o saber prático vai desembocar no empiricismo e o saber filosófico no racionalismo, tal como veremos adiante.

[11] Sem dúvida, existem algumas interpretações discordantes a respeito de Maquiavel, como a de Rousseau, que seria reproduzida por Gramsci (1988), mas, no entanto, não há nenhuma base real nas mesmas, sendo mais uma vontade assimilacionista do que análise rigorosa do autor.

[12] Em termos weberianos, seria a emergência da “ação social com relação a fins”, onde uma suposta razão seria, simultaneamente, os meios e os fins (WEBER, 1987; WEBER, 2004). Sem dúvida, há equívocos nessa concepção, mas também há momentos de verdade. Os fins não são “racionais”, mas fetichizados, e, assim entendido, é um momento de verdade da concepção weberiana.

[13] Outros elementos poderiam ser observados na obra de Maquiavel (1990), como a questão das antinomias, etc. Contudo, esses processos ainda estavam em estado elementar e somente mais tarde seriam desenvolvidos, sendo apenas um “esboço”, que, no entanto, já aponta para a questão do reducionismo (envolvido em outros processos) e especialização. Uma análise que revela o seu vínculo com a especialização (“burocracia política”) e, por conseguinte, produção de um saber político, não só sobre a arte de governar, mas também sobre as ideias políticas e sua distribuição nas “classes sociais”, pode ser vista em Namer (1982).

[14] A ideia de infinito é uma das mais promissoras da concepção burguesa de mundo. No entanto, é preciso entender a distinção entre uma concepção burguesa de infinito, por mais progressista que seja, de uma concepção marxista. O infinito, na concepção burguesa, é algo real, enquanto que na concepção marxista é uma categoria da dialética, uma ferramenta intelectual. A ideia de um universo infinito é algo apenas hipotético, bem como a concepção contrária, a da finitude do universo. Posto dessa forma, é apenas mais uma antinomia da episteme burguesa. A respeito disso, a concepção marxista apontaria para os limites de se pensar o universo a partir do saber sedimentado da humanidade até hoje, pois essas limitações dificultam uma percepção mais ampla do fenômeno e mesmo do seu significado, cabendo a nós reconhecer tal ignorância e esperar e avançar no sentido de superá-las. A superação artificial através da discussão sobre a finitude ou infinitude do universo é problemática e ignora a própria ignorância, inclusive por pensar o universo a partir das categorias de tempo e espaço, que podem ser adequadas para vários fenômenos, mas não para outros, tal como, ainda pensando hipoteticamente, o universo. A ideia de infinito e finito tem como base o espaço e esta talvez não seja a categoria mais adequada para uma compreensão do universo. O infinito, enquanto categoria da dialética, aponta para um processo sem fim no plano do pensamento. O pensamento busca reconstituir a realidade como um todo (a categoria da totalidade) e não sob a forma de “tudo” e por isso consegue captar a totalidade, mas não esgotar todos os seus elementos, o que é impossível para a mente individual e por isso inacessível a ela, sendo, pois, algo infinito. A consciência da finitude do pensamento anda ao lado da consciência da realidade infinita para o pensamento. A discussão sobre a finitude ou não da realidade e do universo em si é outro problema e que somente com o desenvolvimento da consciência humana (tanto no plano da reflexão quanto da informação) poderá receber respostas mais sólidas e fundamentadas. O maior problema, no entanto, é a episteme burguesa, incapaz de superar suas limitações.

[15] Isso expressa a formação do trabalho intelectual especializado, distinto do trabalho manual. Sem dúvida, desde a sociedade escravista existem os especialistas no trabalho intelectual, como os filósofos, mas não constituem uma classe e por isso são especialistas em produzir ideias e ao mesmo tempo são da classe senhorial. No capitalismo, a produção cultural passar a ser atributo de uma classe social e sua separação não é apenas em relação ao trabalho manual, mas também a diversas outras atividades (dominação, por exemplo, que fica a cargo da burocracia). E, o que é mais importante aqui, é a divisão do trabalho intelectual, ou seja, a especialização dos intelectuais em áreas distintas da produção cultural (arte, ciência, filosofia, etc.), que terá, ainda, suas subdivisões (a arte especializada se dividirá em música, literatura, teatro, etc., bem como a ciência se dividirá nas ciências particulares, etc.).

[16] Outros processos culturais contribuíram com o desenvolvimento da consciência burguesa, como a reforma protestante, mas, no âmbito da mutação epistêmica, o renascimento teve maior importância e as mudanças religiosas tiveram maior impacto social, inclusive na formação das esferas sociais (VIANA, 2015a).

[17] Essa ideia acabou gerando determinadas interpretações de Descartes como um pensador “democrata”, ao tratar de sua “humildade” (PASCAL, 1990a), ou mesmo “igualitário” (GUILLERM e BOURDET, 1976). No entanto, é preciso compreender não só o contexto histórico (capitalismo comercial) em que ele escreveu e a perspectiva que expressava (burguesia comercial) como também o processo político e intelectual envolvido. A ideia de que todos os seres humanos são portadores de razão é complementada pela concepção que afirma a necessidade de método, para que isso se torne algo superior, embora a forma como escreva faça parecer um certo democratismo e sinal de humildade, sendo esta última a sua intenção real, como se observa no conjunto das suas afirmações sobre seus progressos e objetivos, sempre colocando de forma “humilde” (PASCAL, 1990a). É preciso entender essa afirmação no seu contexto histórico também, pois vincula-se aos interesses da burguesia nascente, já que aponta para o rompimento do monopólio do saber, que pertenceria ao clero, aliado da nobreza.

[18] Aqui não custa enfatizar que tal afirmação não significa dizer que tudo que Descartes (como todos os outros que serão citados, contextualizados, vinculados a interesses de classes, criticados, etc.) afirmou não tem utilidade ou que seja tudo falso. Na ideologia sempre existem “momentos de verdade” e por isso algumas afirmações ou elementos separados do todo e inseridos numa outra totalidade de pensamento podem ser úteis e, no seu isolamento, podem ser relativamente verdadeiras. No caso de Descartes, a tese de que a razão é um atributo de todo ser humano é verdadeira, mas parcialmente (ele mesmo reconhece isso ao falar de “acidentes”, mas é apenas uma forma de afirmar que nem todos chegam aos mesmos resultados, o que afirma sem maior aprofundamento). A razão, na concepção marxista, é uma potencialidade humana e tende a se desenvolver espontaneamente, mas condições ambientais, sociais e históricas podem impedir isso, bem como seu desenvolvimento é determinado por relações sociais concretas.

[19] A ideia de método terá impacto em diversos autores posteriores, sendo que podemos destacar o sociólogo Émile Durkheim (1974), que é um “racionalista mitigado” e declarou textualmente a influência cartesiana, o que é reforçado pelas características de sua obra As Regras do Método Sociológico, sendo que a ideia de regras do método tem origem no filósofo francês.

[20] Isso é resultado do processo de assimilação que cada época faz de pensadores do passado, pois usa um campo linguístico diferente e realiza a interpretação a partir do paradigma hegemônico, tal como mostraremos adiante. Assim, a expressão “sujeito” emerge, sem maiores desenvolvimentos, com Kant e é aprofundado por Hegel. Porém, os historiadores da ciência e da filosofia, estudiosos da “teoria do conhecimento”, entre inúmeros outros, não usam o método de leitura mais adequado, que é interpretar um autor a partir de seu próprio campo linguístico, pois realizam uma imposição linguística e uma interpretação muitas vezes deformada por tal processo interpretativo.

[21] Aqui compreendemos ciência não no sentido amplo do termo e sim num sentido mais restrito, equivalente ao que alguns denominam “ciência moderna”. O conceito de ciência, aqui, é de um saber sistematizado, metódico e fundamentado empiricamente, e que geralmente tem a pretensão (ilusória) de neutralidade e objetividade.

[22] O “homem” aqui é uma abstratificação, pois não se trata nem da humanidade em geral nem da natureza humana. No plano discursivo, tratar-se-ia da humanidade em geral. Na realidade, no entanto, trata-se do capital, ou seja, de uma parte da humanidade, que domina a natureza através da dominação social, de classe.

[23] Rossi, assim como muitos outros autores, usam o termo “ciência moderna” para distinguir da “ciência” anterior (medieval, antiga). Isso é uma imprecisão e sua raiz está nos limites da compreensão da mutação histórica. Aliás, o próprio Rossi destaca a ilusão da ideia de continuidade e chega até mesmo a perceber que as palavras são um dos obstáculos, mas acaba caindo no problema que identificou ao não perceber que a ciência é uma criação da sociedade capitalista (e mesmo colocando que a palavra “cientista” é uma criação moderna).

[24] Galileu inclusive declarou a intenção de escrever um livro sobre o infinito em matemática: “Galileu tinha tido a intenção de escrever um tratado sobre o infinito em matemática, mas ele não foi encontrado” (BOYER, 1974, p. 241).

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Publicado em:

VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.

Veja também: REGIME DE ACUMULAÇÃO INTEGRAL E PARADIGMA SUBJETIVISTA (outro capítulo do livro Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas).

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