A
CONSTITUIÇÃO SOCIAL DA CULTURA
Nildo
Viana
A cultura é um dos temas fundamentais das ciências humanas.
Ela é o construto-chave da antropologia, um dos temas principais da sociologia
e questão recorrente em todas as demais ciências humanas. As concepções sobre a
questão cultural são numerosas e os construtos de cultura chegam a centenas. Essa
diversidade de concepções sobre cultura e definições desse termo apenas revelam
determinados problemas ainda não resolvidos, mas que não se trata apenas de uma
questão teórica ou cultural e sim social. Aqui entramos numa questão
fundamental: a relação entre o social e o cultural. O nosso objetivo aqui é
justamente explicitar uma explicação dessa relação. E, dessa forma, os conceitos
de “social” e de “cultura” ganham importância, bem como a análise da relação
entre ambos no plano concreto da realidade.
O nosso trajeto se iniciará com a identificação dos fenômenos
e dos conceitos correspondentes, por ser o ponto de partida para a
inteligibilidade de nossa abordagem. Uma vez esclarecido o ponto de partida,
passamos para a análise das relações entre o social e cultural. Para tanto,
começaremos desfazendo o equívoco culturalista, especialmente em sua versão
contemporânea da “construção cultural do social”. Uma vez superado o equívoco,
passamos para as relações reais, e assim poderemos apresentar a constituição
social do cultural.
O
Social e o Cultural: Definições Preliminares
Quando Kroeber afirma que existem mais de duzentas
definições de cultura, e isso nos anos 1970 (LARAIA, 2001), se percebe toda a
dificuldade relacionada ao termo cultura. Mas, mais importante que isso, é o
seu contraste com o termo mais importante, que é o social. A definição do termo
social é algo raro e, numa perspectiva noosférica[1],
raríssimo. A cultura rende centenas de definições – algumas mais complexas,
outras menos, enquanto que o social fica no limbo. Isso requer explicação, mas
esta será fornecida no final da nossa caminhada.
Aqui interessa entender o significado dos termos cultura e
social. Não poderemos elencar as inúmeras definições de cultura, com suas
diferenças e proximidades, suas bases ideológicas ou metodológicas. Para o
nosso objetivo e para que o leitor compreenda do que trataremos adiante, basta
apresentar nossa definição. Mas antes de apresentar nossa definição, precisamos
justificá-la e explicitar a razão de mais uma definição de cultura. Na verdade,
a definição não é nova. Ela é retomada de um sociólogo, mas é inserida numa
teoria que é antagônica à abordagem que gerou tal definição. Assim, é preciso
entender que uma definição é uma síntese do conceito, pois este exige outros
conceitos, que formam um todo que é uma teoria, sendo que essa explica o
fenômeno. Não é uma nova definição de cultura, mas é uma assimilação de uma
definição já existente. Porém, além disso é preciso colocar que as diversas
definições de cultura apresentam problemas e limites que não poderemos
apresentar por sua diversidade e por nossos objetivos.
No entanto, cabe mostrar uma das vantagens do conceito de
cultura que apresentaremos aqui. O conceito de cultura que apresentamos não é
produto de arbitrariedade, tanto no sentido que está envolvido em uma teoria
mais ampla da realidade social quanto no sentido que não é apartada dessa mesma
realidade. Em outras palavras, o conceito de cultura que explicitamos aqui está
inserido numa teoria da cultura e da sociedade, por um lado, o que significa
que se estabelece dentro da exigência formal de coerência teórica, bem como
remete a algo existente na realidade, não aparecendo como algo à parte,
desligado dela, o que se insere no interior da necessidade teórica de
correspondência com a realidade. É possível, portanto, discordar da teoria na
qual o conceito se insere ou então do uso do termo para explicar o aspecto da
realidade que ela trata, mas não é possível dizer que não há coerência teórica
e correspondência com a realidade[2].
Assim, a nossa definição escapa do problema existente em
diversas outras definições. No fundo, é possível realizar as mais variadas e
estranhas definições de cultura. Além disso, as bases “teóricas” de algumas
definições podem ser obscuras e o conjunto de fenômenos a que se refere pode
ser uma criação arbitrária, uma invenção, mesmo que justificada por alguma
analogia ou outra concepção. A definição abaixo mostra isso:
Cultura é: actículos, episódios, nodos, cadeias nodais,
cenas, seriados, nomoclones, permaclones, paragrupos, tipos nomoclônicos, tipos
permaclônicos, sistemas permaclônicos e supersistemas permaclônicos. Cultura
também é: fonemas, morfemas, palavras, falas semanticamente equivalentes,
planos de comportamento e muitas outras coisas “êmicas”. Cultura é: toda e
qualquer unidade nomotética da linguagem de dados verbal e não-verbal,
previamente definida. Nenhuma dessas entidades é mais cultural ou menos cultural
do que as outras, embora seja possível classificá-las segundo uma hierarquia de
construções progressivamente abstratas, dependendo do número de operações
lógico-empíricas que elas corporificam (HARRIS, 1968, p. 172).
Sem dúvida, a definição acima se sustenta numa ideologia,
mas mal formulada e pouco coerente, bem como os fenômenos reais que
supostamente a denominação de cultura se refere podem ser considerados
inexistentes na realidade concreta. Não será possível, no âmbito do presente
artigo, discutir as diversas definições de cultura. Por isso nos contentamos
com a explicitação de nossa concepção. Retomamos a definição do sociólogo
Alfred Weber (1970): a cultura é o conjunto das produções intelectuais
(mentais, ideais) de uma determinada sociedade (VIANA, 2011; VIANA, 2018a).
Isso significa que descartamos as definições demasiadamente amplas de cultura,
tal como as que são comuns na antropologia e dos autores que apresentam uma
amplitude semelhante (WILLIAMS, 1992; GRAMSCI, 1978), apesar das diferenças.
Aqui já temos um elemento importante para entender a relação entre o cultural e
o social. A cultura é um elemento constitutivo da sociedade, e, por
conseguinte, é uma parte e não o todo. O cultural e o social não se confundem.
O cultural é o que é elemento ou derivado da cultura.
E o que é o social? O termo social foi pouco abordado no
plano teórico ou nas ciências humanas. A excessiva preocupação definitória no
caso da cultura entra em contraste com a despreocupação quase absoluta como a
definição do social e até mesmo do termo “sociedade”. A sociedade, apesar de
ser o domínio temático da sociologia, recebeu poucas definições. Os significados
desses termos nas representações cotidianas são variados. Na linguagem comum,
sociedade pode uma empresa capitalista (“sociedade anônima”, “sociedade por
ações”), ou união comercial ou associação de indivíduos (“sociedade protetora
dos animais”). No sentido mais próximo do sociológico, é também entendida como
“conjunto da população em determinado território” ou “organização social”. O
social pode, por sua vez, remeter para uma associação empresarial, que possuem
sócios e podem ser uma “sociedade anônima”; ao que é típico das classes
inferiores e seus problemas, donde emerge os termos “questão social” ou
“problema social” (JACCARD, 1977); à relação de camaradagem, ou de companheiros
de ofício ou de armas (JACCARD, 1977). Porém, além do significado expresso pela
linguagem comum, o social passa a ser um termo usado na linguagem noosférica:
Foi no século 18 que os filósofos tomaram consciência da
solidariedade que existe entre todos os homens. Os autores bíblicos tinham-se
apercebido da unidade do gênero humano, mas unicamente sob uma perspectiva
religiosa. Os antigos estoicos também dissertaram sobre a comunidade humana,
mas de maneira puramente teórica. Atribuiu-se um sentido demasiado largo à
declaração de Terêncio: “sou homem e não quero ficar alheio a nada que for
humano”. Para Cícero e seus pares, a humanitas era constituída apenas
pelos nati, isto é, pelas pessoas nascidas nos meios mais elevados da
sociedade, ou seja, uma parte ínfima do gênero humano. O equívoco permaneceu
até Rousseau, iniciador da sensibilidade e das letras modernas. Foi da sua obra
que nasceram também as ciências humanas. Ao escrever o Contrato Social
(1762), o cidadão de Genebra engloba todos os homens num conjunto vivo.
Simultaneamente, a palavra social adquire um novo significado: passa a
aplicar-se à sociedade humana considerada na sua totalidade (JACCARD, 1977, p.
10-11).
Embora não seja possível concordar com todas as afirmações
de Jaccard, é inegável que é a partir do século 18 que a palavra social entra
no domínio da noosfera e ganha o significado universal e que Rousseau (1971) foi
um dos primeiros responsáveis por esse novo significado atribuído ao termo
“social”, que vai se consolidando posteriormente, tal como se vê na obra de
Durkheim (1974) e sua discussão sobre “fatos sociais”. Porém, isso ainda não
resolve o conjunto das questões levantadas. O que podemos reter dessa
constatação é a de que o social e a sociedade começam a emergir como conceitos.
Marx avança na definição de sociedade:
O que é a sociedade, qualquer que seja a sua forma? O produto
da ação recíproca dos homens. Os homens podem escolher, livremente, esta ou
aquela forma social? Nada disto. A um determinado estágio de desenvolvimento
das faculdades produtivas dos homens corresponde determinada forma de comércio
e de consumo. A determinadas fases de desenvolvimento da produção, do comércio
e do consumo correspondem determinadas formas de constituição social,
determinada organização da família, das ordens ou das classes; numa palavra,
uma determinada sociedade civil. A uma determinada sociedade civil corresponde
um determinado estado político, que não é mais que a expressão oficial da
sociedade civil (MARX, 1989, p. 2006).
Aqui temos uma definição de sociedade: o “produto da ação
recíproca dos homens”, que engloba o conjunto das relações sociais, ou seja, as
forças produtivas e relações de produção (“faculdades produtivas”) e
distribuição (“comércio e consumo”), que mais tarde Marx denominará “modo de
produção” (e outros denominarão “economia”), que faz emergir a sociedade civil
(família, classes sociais, etc.) e, as formas de consciência[3],
bem como o Estado. Assim, as relações sociais existentes nas relações de
produção, relações de distribuição, sociedade civil, Estado, etc., são o
conjunto das relações sociais. E é isso que Marx denomina sociedade. Esta
assume várias formas em sua história e Marx vai analisar o processo evolutivo
das formas de sociedade através da sucessão de modos de produção (MARX, 1983;
MARX; ENGELS, 1988; MARX, 1985) ou, antes de desenvolver tal conceito, “formas
de propriedade” (MARX; ENGELS, 1982), donde se entende a passagem das
sociedades pré-classistas para as sociedades de classe (escravismo, feudalismo,
capitalismo, no caso europeu).
Em síntese, a sociedade é o conjunto das relações sociais, o
que engloba o modo de produção dominante, modos de produção subordinados e
formas sociais (privadas, a sociedade civil, e estatais, quando existe Estado)[4].
Porém, isso ainda não esclarece o significado do termo “social”. O que
significa, por exemplo, o termo “relações sociais”? O social pode ser entendido
no sentido universal, mas seu uso também remete para elementos particulares no
interior da sociedade. É nesse sentido que podemos definir o social como tudo o
que é integrado no interior da sociedade ou derivado dela, tudo que é parte ou
produto dela. Assim, um fenômeno é social quando ocorre no interior da
sociedade, e se difere de um fenômeno natural, que ocorre na natureza. Por
outro lado, algo é um produto social quando é derivado da sociedade. Dizer que
existe uma constituição social dos sentimentos significa, por sua vez, dizer
que os sentimentos são constituídos pela sociedade, em seu interior, como seu
derivado.
Assim, esclarecemos os conceitos básicos que permitem a
continuidade de nosso percurso no sentido de apresentar a questão da
constituição social da cultura. Mas, antes disso, teremos que efetivar uma
crítica a um equívoco, que é a ideia de construção cultural do social.
A
Construção Cultural do Social: O Equívoco Culturalista
No âmbito filosófico já se discutiu diversas vezes a questão
do idealismo, bem como a antinomia entre materialismo e idealismo, assim como a
crítica marxista do idealismo. Esses elementos podem ser reencontrados no
equívoco culturalista. Não será possível aqui retomar essas discussões
filosóficas e gerais e, portanto, optamos por apenas apresentar a crítica
marxista ao idealismo e mostrar suas semelhanças com a crítica do culturalismo.
Uma síntese da crítica marxista do idealismo foi apresentada por Gomes (2020).
Segundo Gomes, a crítica do idealismo efetivada por Marx refuta duas
concepções: a concepção de que a realidade é constituída pelas ideias e a
concepção de que a realidade é determinada pelas ideias. A realidade não é constituída
pelas ideias e a nossa experiência cotidiana é suficiente para demonstrar isso,
pois o mundo não é como queremos que ele seja, nem enquanto indivíduos, nem
enquanto coletividade. Também não é possível pensar que as ideias determinam a
realidade, apesar de existirem sociólogos e antropólogos que pensem dessa
forma. Essa concepção tem mais elementos na realidade que as tornam mais
convincentes do que a primeira. Essa concepção aparece, sob outra forma, nas
concepções culturalistas. Ela também já foi refutada:
Porém, aqui reside outra crítica de Marx a algo que é
reproduzido pelos culturalistas contemporâneos. As formas de consciência (ou a
cultura, representações, ideias, etc.) não determinam a realidade, pois esta
afirmação tem um caráter monocausal, como se o motor da história fossem as
ideias. Isso é facilmente refutado se lembrarmos de que as formas de
consciência são constituídas social e historicamente e que a cultura é muito
mais produto do que produtor da história. Existem bases reais para determinadas
ideias surgirem, se reproduzirem, ganharem força. E isso está ligado a
interesses (individuais e outros, mas especialmente de classe) e outros
processos (sentimentos, valores, etc.). As ideias religiosas que foram
hegemônicas na sociedade feudal, emergiram a partir das relações sociais reais
e interesses de classe que surgem a partir delas. Elas, uma vez existindo, tinham
a função de reproduzir e regularizar tais relações, o que significa que se
tornam ideias dominantes e que serviram para manter a dominação (GOMES, 2020,
p. 89-90).
No entanto, existem alguns elementos que merecem
aprofundamento e esclarecimento. A ideia de “construção cultural” precisa ser
esclarecida. É o caso, por exemplo, quando se coloca a questão da “construção
cultural da identidade”. O que pode entender por tal afirmação? O que é a
identidade? Essa é a primeira questão. A identidade individual pode ser
compreendida como autoimagem. Dizer que a autoimagem dos indivíduos é
construída culturalmente pode significar várias coisas, dependendo do
significado do termo “cultura”. Se cultura tem o significado amplo de “modo de
vida global”, sendo equivalente a social, então é uma afirmação aceitável,
embora insuficiente, caso não seja especificado os elementos da sociedade que
atuam na constituição da identidade. A “construção cultural”, nesse caso, é uma
afirmação genérica sem sentido, uma tautologia ou então expressão de um holismo
metafísico.
Porém, não é esse o significado assumido concretamente,
mesmo que se use a definição ampla de cultura. A ideia de “construção”, bem
como seu par antinômico, a “desconstrução”, são compreendidos como
arbitrariedade ou fenômeno “subjetivo”[5],
ou seja, cultura no sentido estrito (embora, em certos casos, numa concepção
ainda mais restrita, reduzindo-a ao que alguns chamam de “subjetividade”). A
ideia de “construção cultural” aponta para uma concepção que, mesmo quando se
declara holista, parte do pressuposto da determinação cultural. Isso seria uma
abordagem falsamente holista. Afirmar que existe uma construção cultural da
“identidade”, do “gênero”, da “nacionalidade”, etc., só teria sentido para
colocar que a cultura gera o fenômeno. Porém, mesmo nos casos em que se parte
de uma concepção ampla de cultura, o discurso remete, no fundo, para um
reducionismo culturalista. Esse procedimento não é novo e pode ser visto, por
exemplo, em Max Weber, que, após criticar o “materialismo histórico”[6],
quando analisa os fenômenos sociais, mostra a primazia da cultura, tal como se
vê em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. O procedimento
consiste em afirmar uma coisa explicitamente, mas efetivar outra
implicitamente. Nesse caso, o discurso proclamado camufla o discurso velado. Em
nome do antideterminismo ou de um suposto pluralismo apresenta-se apenas mais
uma forma, nunca explicitada, de determinismo.
O maior problema do equívoco culturalista é a inversão da
relação entre o cultural e o social. A ideia básica é a de que o cultural cria
o social. E isso vem com a ideia de arbitrariedade desse processo, que seria
uma “construção”[7]. Assim,
os fenômenos sociais aparecem como produtos da cultura. E isso pode ser visto
até mesmo em um dos principais sociólogos contemporâneos:
Longe de as necessidades da reprodução biológica determinarem
a organização simbólica da divisão social do trabalho e, progressivamente, de
toda a ordem natural e social, é uma construção arbitrária do biológico, e
particularmente do corpo, masculino e feminino, de seus usos e de suas funções,
sobretudo na reprodução biológica, que dá um fundamento aparentemente natural à
visão androcêntrica da divisão de trabalho sexual e da divisão sexual do
trabalho e, a partir daí, de todo o cosmos (BOURDIEU, 2002, p. 33).
Essa concepção não apenas descarta parte da realidade (a
biologia), como apresenta a ideia de uma “construção arbitrária” sobre o
biológico e não ultrapassa tal “constatação”, sem apresentar as bases sociais
de todo esse processo. O que o autor buscava explicar era a constituição dos
ethos sexuais masculino e feminino e a subordinação da mulher, mas descarta o
biológico (a gravidez, por exemplo, é um acontecimento biológico que interfere
nas relações sociais e somente através de um delírio se poderia descartar este
e outros aspectos que fazem parte das relações sociais entre os sexos) e o
social (o “arbitrário cultural” só é possível ser afirmado quando se omite a
questão dos interesses de classes e a dominação cultural da classe dominante,
para citar apenas um exemplo da autonomização ilusória da cultura nessa
análise). Ou seja, Bourdieu exclui o biológico e social – que aparece, mas como
algo determinado ao invés de determinante – e assim produz uma explicação
culturalista que não mostra a razão de tal “construção”, as suas determinações,
e se limita a atribui-la ao cultural.
O caso acima apenas demonstra os limites e equívocos do
culturalismo, que não poderemos desenvolver aqui por questão de espaço. Mas
como se trata de Bourdieu, um dos mais importantes sociólogos contemporâneos, é
suficiente para mostrar um indício dos equívocos culturalistas, mesmo quando
surgem a partir de um autor consagrado e com relevante produção intelectual.
A
Constituição Social da Cultura
Assim, superado o equívoco culturalista, podemos buscar uma
concepção alternativa para analisar as relações entre o social e o cultural. Ao
invés de construção, que parece algo arbitrário ou mera manipulação do mundo,
temos o conceito de constituição. O que é constituição? No significado comum é
sinônimo de formação, construção, etc. (obviamente excetuando quando se refere
a outros fenômenos, como a constituição legal de um país, sua “carta magna”).
Aqui, constituição significa o processo de formação e composição de um
determinado fenômeno. A constituição significa o processo no qual múltiplas
determinações compõem e dão forma a um determinado acontecimento ou fenômeno. E
se trata de constituição “social” e não “cultural”, pois, tal como esclarecemos
anteriormente, o cultural é parte do social e este ganha um significado totalizante
que o engloba. A constituição não aponta para uma noção de “arbitrariedade” ou
artificialidade. Esse termo destaca que um fenômeno foi constituído e que, por
conseguinte, é necessário compreender o seu processo de formação e composição.
A expressão “constituição social” significa que o fenômeno
analisado foi constituído socialmente e que a pesquisa deve esclarecer quais
foram suas determinações sociais[8].
O social, aqui, tem sentido totalizante e, por conseguinte, engloba o cultural.
Podemos observar isso no caso da questão da moradia, do racismo, do sexismo, da
inflação, da destruição ambiental, dos movimentos sociais, das histórias em
quadrinhos, do cinema. Todos estes fenômenos sociais são constituídos
socialmente, ou seja, são processos sociais que os produzem. E esse processo
social engloba o cultural, em maior ou menor grau, dependendo do fenômeno.
A questão da falta de habitação remete para a questão da
valorização do solo urbano, interesses do capital imobiliário, mercantilização
das relações sociais, etc. O cultural também faz parte das determinações, pois os
valores (culturais), percepções a respeito disso, correntes de opinião, etc.,
apontam para a demanda de imóveis em certas condições e lugares, a valorização
devido a demanda, a especulação imobiliária dependendo da expectativa e
informações, etc. Porém, o cultural depende das relações sociais concretas e da
força de cada agente nesse processo, sendo que o capital imobiliário com seu
poder financeiro, para ficar apenas num exemplo, tem amplas condições de gerar
percepções, valores (culturais), informações (verdadeiras ou falsas) sobre
outros setores. Aqui o cultural tem um peso muito pequeno.
No entanto, a constituição social do racismo já remete para
uma maior importância para o cultural em sua determinação, mas que só pode ser
compreendido a partir de um conjunto de outros processos sociais e históricos,
como a escravidão negra, a inserção dos negros sob forma marginal na sociedade
capitalista e quase que em sua totalidade nas classes inferiores, as relações
de exploração e dominação que se utiliza das diferenças raciais para realizar
uma exploração mais intensiva de setores da força de trabalho, a competição
social que joga os indivíduos (inclusive das classes inferiores) uns contra os
outros e gera um processo de incentivo à discriminação como forma de vencer a
disputa, etc.[9] Os
elementos culturais são derivados dos sociais, tal como a mentalidade
competitiva incentivadora de discriminação racial tem sua fonte na sociabilidade
capitalista (VIANA, 2020a). Para compreender isso é necessário entender a
constituição social das mentalidades coletivas e a relação entre sociabilidade
capitalista e mentalidade burguesa (VIANA, 2008).
O caso do cinema é um pouco
diferente, pois trata-se de um fenômeno cultural[10].
A constituição social do cinema, aqui entendido como filme, remete para um
conjunto de determinações, tais como o capital cinematográfico (as grandes
empresas produtoras de filmes, como destaque mundial para as hollywoodianas), a
intervenção estatal, a esfera cinematográfica, as mudanças sociais, as
concepções hegemônicas, a luta de classes, a equipe de produção, o nível do
desenvolvimento tecnológico, etc. (VIANA, 2009; VIANA, 2012). Assim, os
fenômenos sociais que são manifestações culturais são constituídos socialmente
e não culturalmente. Porém, nesse caso, o peso do cultural é maior do que nos
demais casos, embora variável dependendo do caso concreto. O capital
cinematográfico realiza uma previsão de retorno financeiro para investir na
produção de um filme e isso vai impactar no tema[11],
na equipe de produção[12],
no total de investimentos e possibilidades tecnológicas[13],
etc.
As mudanças culturais, no entanto, também exercem um impacto
sobre a produção fílmica. Claro que elas não ocorrem arbitrariamente e possuem
determinações sociais, mas, uma vez existindo, também atuam sobre a realidade
social. A ascensão do movimento negro no final dos anos 1960 (que foi
constituída socialmente) gerou mudanças culturais que foram absorvidas pelo
capital comunicacional, tal como se vê no capital editorial que investia em
histórias em quadrinhos e na criação nos anos 1970 de personagens negros, como
Pantera Negra, Luke Cage, Falcão, entre outros (VIANA, 2020b)[14].
Nesse contexto, as mudanças sociais geram mutações culturais que atingem a
produção fílmica. A situação social dos negros nos Estados Unidos, a ampliação
dos conflitos raciais, as reivindicações do movimento negro mais moderado e a
resposta violenta que recebeu – gerando inclusive o assassinato de Martin
Luther King e suas consequências, bem como a situação econômica e a
radicalização das lutas operárias e estudantis, geraram um acirramento da luta
negra e a geração de organizações mais radicais, como os Panteras Negras. Esses
processos sociais tiveram impacto cultural nas histórias em quadrinhos e no
cinema (e um reforçava o outro, assim como tinham impacto em outros produtores
culturais). Quem não percebe esses fenômenos sociais não consegue explicar
adequadamente a emergência do “cinema black”, ou “baxploitation”[15],
com as produções fílmicas Shaft (Gordon Parks, EUA, 1971); Sweet
Sweetback's Badaaass Song (Melvin Van Peebles, EUA, 1971)[16],
O Chefão de Nova York (Black Caesar, EUA, 1973), entre diversos outros.
No início eles emergem como “filmes independentes”, mas depois são apropriados
pelo capital cinematográfico.
Até aqui tratamos da constituição social de fenômenos culturais
específicos, mas não da constituição social do cultural, em sentido amplo. A
sociedade, enquanto totalidade, possui um conjunto enorme de produções
culturais. Além das formas de manifestação da cultura que já existiam em
sociedades anteriores e que se complexificam na sociedade moderna, tais como a
religião, a ideologia, as representações cotidianas, a arte[17],
emergem também manifestações específicas dessa sociedade, bem como elas se
tornam cada vez mais especializadas. Esse é o caso da ciência, que se
desenvolve de forma ampla e cada vez mais especializada. A divisão do trabalho
intelectual se amplia, burocratiza, mercantiliza, especializa cada vez mais,
seguindo a dinâmica social imposta pelo desenvolvimento do modo de produção
capitalista e da acumulação de capital, formando as esferas sociais (VIANA,
2015; VIANA, 2007b). O Estado assume importância fundamental no processo de
produção cultural, bem como outros setores da sociedade (como fundações,
organismos internacionais, etc.). Quando mais se desenvolve o capitalismo,
mais se estrutura uma política cultural que exerce uma poderosa influência no
conjunto da sociedade e nas mais variadas manifestações culturais (VIANA,
2019).
As esferas sociais, por sua vez, também influenciam a produção
cultural, gerando o que Weber denominou “cosmo de valores” (WEBER, 1971),
técnicas, discursos de autolegitimação, concepções normativas (as concepções
estéticas no âmbito da arte, por exemplo), etc. Esses elementos próprios das
esferas sociais acabam sendo determinação dos seus produtos (obras de arte,
obras científicas, processos jurídicos, etc.). Se esquecermos a origem que
remete à divisão social do trabalho, especialização, mercantilização,
burocratização, geração de interesses, etc., e isolarmos as concepções
derivadas (a concepção estética, os critérios de cientificidade, etc.), podemos
cair na ilusão de que foram essas que, autonomamente, geraram determinado
produto cultural. Nessa concepção ilusória, poderíamos pensar que o cânone
literário formalista foi o gerador das obras formalistas, desconsiderando a sua
gênese social e vínculo com o paradigma hegemônico da época e suas determinações
sociais, mas que se assume como concepção estética aparentemente desvinculada
de bases sociais[18].
A competição interna dentro das esferas sociais são fundamentais para explicar
as mutações nas interpretações e análises. No caso da esfera científica, por
exemplo, a obra de Pierre Bourdieu revela justamente isso, pois no momento em
que perdia hegemonia e espaço na sociologia francesa, com a ascensão da
hegemonia do paradigma subjetivista e influência norte-americana, passou a se
posicionar politicamente e oferecer tonalidade mais crítica para suas produções
intelectuais. Ele mesmo oferece elementos para se pensar isso apresentar a
oposição, no “campo científico” entre o dominante e o dominado e colocar que
este último assume uma posição crítica por sua situação. Isso ocorreu com ele, pois
foi constrangido a assumir maior criticidade (BOURDIEU, 1998a; BOURDIEU, 1998b),
por ter mudado de posição no interior da subesfera sociológica, inclusive em
relação aos seus adversários, especialmente vindos do exterior, que é quando
ele denuncia as “armadilhas do imperialismo”.
O processo de constituição social da cultura pode remeter a
casos concretos infinitos que o confirmam e não seria possível alongar a lista
e detalhar os processos. O que é necessário destacar é que o cultural, na
sociedade capitalista (tal como nas demais sociedades), é constituído
socialmente. A cultura capitalista, por sua vez, corresponde ao modo de
produção capitalista. Porém, uma vez existente, ela também é uma das
determinações da reprodução e reforço dessa sociedade. A emergência da classe
burguesa gerou o pensamento burguês, que vai se formando lentamente, desde o
renascimento, passando pela emergência de momentos-chave como o racionalismo e
o empiricismo, até ganhar maior solidez com o iluminismo e suas expressões
máximas com Kant e Hegel e gerando diversos paradigmas que se sucederam de
acordo com as necessidades do capital e do aparato estatal, como foi o caso do
romantismo, positivismo, reprodutivismo e o atual subjetivismo (VIANA, 2019). Isso
significa, obviamente, que o modo de produção capitalista não é estático e nem
a sociedade civil, a cultura, etc.
A arte, que na sociedade feudal estava subordinada à
teologia, agora se subordina à ciência, tal como a filosofia. Assim, quando
Dilthey (1992) enfatiza que a arte feudal é uma “arte sacra”, religiosa, apenas
revela a dominação cultural no feudalismo, hoje perceptível. O que não é
perceptível, por estarmos envolvidos na nossa sociedade, é que a arte moderna
está subordinada à ciência, que, por sua vez, reproduz a episteme burguesa, o
modo de pensar burguês (VIANA, 2018b). É fácil denunciar as ilusões do passado,
mas é difícil reconhecer as ilusões do presente. Rir das ideias do passado é
tão fácil quanto se irritar com a crítica das ideias do presente.
O cultural, na sociedade moderna, não pode ser separado e
autonomizado diante das relações sociais concretas que estão em sua base, tais
como o modo de produção capitalista, a sociedade civil, sociabilidade, etc.
Nesse contexto, a cultura é constituída socialmente e parte do social, sendo
que também exerce influência no interior da sociedade. E é por isso que é
importante a cultura, tanto para os que querem conservar a sociedade atual
quanto para os que querem transformá-la. Mas o fetichismo da cultura não é de
interesse de quem quer transformar o mundo, pois significaria se iludir com
moinhos de vento quixotescos. Isolar, separar, autonomizar, priorizar, a
cultura e o cultural é um processo ideológico no qual se sistematiza uma
ilusão. Porém, o inverso é a sistematização de outra ilusão. Amalgamar,
homogeneizar, sujeitar, desconsiderar, a cultura e o cultural, é jogar fora da
análise e dos planos de ação uma parte importante da realidade, sem a qual não
existe explicação e transformação no sentido positivo. E isso especialmente
quando se busca a verdade, no plano da pesquisa, e a transformação no sentido
da libertação humana, no plano da luta política. Liberdade pressupõe
consciência. Sem consciência não há liberdade. E quanto mais pobre a
consciência, mais limitada é a possibilidade de liberdade.
Assim, superando as simplificações e deformações da análise
de Marx, se compreende o significado da cultura na sociedade capitalista, suas
mutações, manifestações, especificidades, influências, entre outros processos.
Isso significa que é necessário entender a constituição social do cultural e
que a cultura é um conjunto complexo de fenômenos culturais, as produções culturais
de uma sociedade, que só podem ser compreendidas no interior da realidade
social em sua relação com ela, em toda a sua complexidade.
Considerações
Finais
O objetivo do presente artigo foi discutir a questão da
constituição social da cultura, que deveria ser o ponto de partida da
sociologia da cultura e de todas as sociologias especiais derivadas
(sociologia da religião, sociologia do conhecimento, sociologia da arte,
sociologia da ciência, etc.). O mundo ideológico, especialmente o que emerge
com a hegemonia do paradigma subjetivista (VIANA, 2019), efetiva uma mediação
entre nós e a realidade, obscurecendo esta última. Ele é um obstáculo para
reconhecermos o real tal como ele é, inclusive por sua relativização,
obscurecimento ou negação da realidade concreta.
Isso torna ainda mais urgente a retomada do pensamento
crítico e da superação das ideologias, pois a aparente melhoria em alguns
setores da sociedade na contemporaneidade esconde, no fundo, um processo de
desumanização crescente. O pesquisador da cultura deve aprender a não se iludir
com o presentismo, não se subordinar ao “espírito da época”. O pesquisador da
cultura deve saber que ele está inserido no mundo cultural que pesquisa e que
necessita se autonomizar diante dele. Somente através do pensamento crítico e
radical e a percepção da constituição social do cultural, é possível escapar
do mundo concentracionário do paradigma subjetivista e do culturalismo e entender
as determinações e interesses por detrás do que é hegemônico. Isso é condição
para poder realmente contribuir com a compreensão da sociedade, da cultura, e
com a transformação radical e total das relações sociais. A alternativa é fugir
da realidade e mergulhar no mundo de ilusões que dominam a sociedade
contemporânea, o que parece confortável e até útil para algumas pessoas, mas
que traz as suas consequências inconvenientes, inclusive a possibilidade de
retorno da selvageria.
Referências
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[1]
Entendemos por noosfera o conjunto do pensamento complexo existente numa
sociedade e que se distingue das representações cotidianas (“senso comum”) e de
formas intermediárias de pensamento (doutrinas, crenças, etc.). A noosfera
engloba a ciência, a filosofia, a teologia, o marxismo, etc.
[2] No
último caso seria o mesmo que dizer que não concorda com o uso do termo
“cultura” para denominar o conjunto de fenômenos escolhidos, mas ele existe e,
por conseguinte, o que se poderia argumentar é que deveria receber outra
denominação.
[3]
Marx, no trecho citado não aborda as “formas de consciência”, que estará
presente no seu célebre Prefácio da
obra Contribuição da Crítica da Economia
Política (MARX, 1983) e nem usa os conceitos que desenvolverá
posteriormente, como modo de produção, relações de produção, etc. Porém, sem
dúvida, as formas de consciência ou a cultura é parte da sociedade civil (embora
também esteja presente no modo de produção e no Estado), mas sua manifestação
ocorre mais amplamente no seu interior. Mas não é apenas em textos posteriores
que ele apresentará isso, pois antes ele já havia abordado isso em A
Ideologia Alemã (MARX; ENGELS, 1982), ao mostrar o vínculo entre formas de
propriedade e formas de consciência. Por conseguinte, a ausência nesse trecho é
apenas um elemento derivado de uma questão de foco analítico.
[4]
Substituímos “superestrutura”, uma metáfora que gera confusões, por formas
sociais (sobre isso cf. VIANA, 2007a).
[5] Isso
remete para várias discussões referentes ao paradigma subjetivista hegemônico
na contemporaneidade e que não poderemos desenvolver. Os próprios construtos
utilizados são os do campo linguístico deste paradigma, como “sujeito”,
“subjetividade”, “desconstrução” (VIANA, 2018b; VIANA, 2019).
[6] No
fundo, sua análise do materialismo histórico é superficial por não se remeter a
Marx e sim aos pseudomarxistas da social-democracia e supostos críticos do
marxismo.
[7]
Isso, em alguns casos, gera o fenômeno da culturalização: “a culturalização é
um fenômeno contemporâneo que consiste em transformar o natural em social,
processo que vem sendo realizado principalmente pelas ideologias
pós-estruturalistas, ou, segundo sua autoimagem ideológica, “pós-modernas”
[...]. O procedimento de culturalização consiste em retirar elementos da
natureza ou da constituição biológica e torná-los sociais ou culturais. É o
caso, por exemplo, de diferenças entre homens e mulheres, sendo que algumas são
constituídas socialmente e outras biologicamente, e, na ideologia
culturalizante, o último aspecto é apagado, tornando todas as diferenças como
sendo geradas pela cultura e/ou sociedade [...]” (VIANA, 2013, p. 78). Young
destaca o processo de essencialização que ocorre a partir do processo de
culturalização (YOUNG, 2002). Lindgren Alves coloca como que os excessos do culturalismo
invadiram a esquerda brasileira e promoveu sua americanização (LINDGREN ALVES, 2019).
Isso apenas demonstra a hegemonia subjetivista, que, no entanto, sempre
encontrou críticas, mas que já mostra o seu desgaste e seus sinais de
esgotamento.
[8]
Obviamente que aqui se trata de fenômenos sociais, pois seria sem sentido
tratar da “constituição social da chuva”, pois este fenômeno natural não é
constituído socialmente. Por outro lado, quando se trata da constituição social
de algo que envolve o biológico, isso não significa necessariamente sua
exclusão, mas tão somente que este elemento não é sua determinação fundamental
e sim o social.
[9]
Esses aspectos podem ser vistos em Santos e Viana (2020).
[10]
E, não custa lembrar, todo fenômeno cultural é um fenômeno social, pois a
cultura é parte da sociedade.
[11]
Dependendo do gênero e do público, determinados temas são explorados, pois
podem gerar polêmica (e publicidade devido a isso) e sucesso.
[12]
Esse é o caso de certos diretores (cineastas) mais renomados e com sucesso de
bilheteria em outras produções, o que lhes tornam mais onerosos, mas como
expectativa de sucesso e retorno financeiro superior, o que aumento sua
autonomia e liberdade de ação, bem como atores e atrizes que devido à fama são atrativos
para o público. No cinema europeu isso é um pouco diferente, apesar da
diferença ser cada vez menor com o passar do tempo, bem como o cinema
independente, sem falar nas variações nacionais, o que remete para as
especificidades de cada produção fílmica (VIANA, 2009; VIANA, 2012). Antes da
consolidação do capital cinematográfico, a estética cinematográfica
(expressionismo, surrealismo, etc.) tinham uma força mais ampla no resultado da
produção fílmica.
[13] A
passagem do filme em preto e branco para o filme colorido foi muito posterior à
existência da tecnologia para fazê-lo, mas isso era evitado por seus altos
custos (VIANA, 2009).
[14]
Isso também ocorreu com outros casos, tal como se vê, por exemplo, no sucesso
de Bruce Lee e dos filmes de Kung Fu que geraram novos personagens, entre os
quais Shang-Chi e Punho de Ferro (VIANA, 2020b). As mudanças sociais geram
mudanças culturais e influências recíprocas, entre setores do capital
comunicacional.
[16]
Pai de Mario Van Peebles, diretor de Os Panteras Negras (EUA, 1995) e A
Vingança de Jessie Lee (EUA 1993), filmes mais politizados e distintos
desse filão.
[17] A
religião, por exemplo, ganha uma diversidade de manifestações através de
subdivisões (tal como o cristianismo, que gerou diversas divisões e
subdivisões), as representações cotidianas se tornaram muito mais
diversificadas, a ideologia ampliou suas formas (além da teologia e da
filosofia, emerge a ciência, o marxismo, etc.), a arte se diversifica (basta
ver os movimentos artísticos, os estilos, modas, etc.) e complexifica (como no
caso da música, que vai se desenvolvendo tecnicamente e adquirindo enorme variedade)
e novas formas de arte emergem, como a literatura, o cinema, as histórias em
quadrinhos, etc. Estas mudanças, por sua vez, não podem ser explicadas pela
“cultura” e sim pela ampliação da divisão social do trabalho, mercantilização
(que gera profissionalização) e burocratização das relações sociais, bem como a
racionalização e especialização crescente identificada por Max Weber (1987;
1971), embora ele não tenha compreendido as origens sociais desse processo de
forma adequada. Aliás, é instrutivo consultar a sua obra sobre o processo de
racionalização que ocorre no caso da música (WEBER, 1995).
[18]
Sobre os vínculos do cânone literário formalista com o regime de acumulação
conjugado e o paradigma reprodutivista, cf. Viana, 2020c.
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Publicado originalmente em:
PEIXOTO, Maria Angélica; VIANA,
Nildo (orgs.). Cultura e Sociedade. Reflexões Teóricas e Casos Concretos.
Jundiaí: Paco, 2021.

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