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sábado, 16 de novembro de 2019

A OBSERVAÇÃO RELACIONAL COMO TÉCNICA DE PESQUISA SOCIAL


A OBSERVAÇÃO RELACIONAL COMO TÉCNICA DE PESQUISA SOCIAL

Nildo Viana

A investigação nas ciências humanas se depara, constantemente, com o problema dos métodos e das técnicas de pesquisa. No último caso, há uma grande extensão de técnicas de pesquisa e uma variedade grande de formas assumidas por algumas delas, como a entrevista, por exemplo. Nesse sentido, é importante a produção de reflexões sobre as mais variadas técnicas de pesquisa e suas variações. O nosso objetivo aqui é apresentar uma reflexão sobre a observação relacional, que pode ser considerada uma variação da técnica de pesquisa chamada “observação”. Neste contexto, pretendemos colocar que a observação relacional é distinta de outras formas de observação e sua forma específica, bem como explicitar como ela pode contribuir com a investigação no âmbito das ciências humanas.
Os Pressupostos da Observação Relacional
A observação relacional é uma técnica de pesquisa pouco discutida, por ser bastante recente (VIANA, 2015). A razão de ser da observação relacional se origina nas debilidades e limites das demais formas de observação. Isso se deve ao fato de que a observação relacional ser intimamente vinculada ao método dialético e ao materialismo histórico, o que torna as demais formas de observação inapropriadas sem alterações e adaptações. Contudo, a observação relacional não é apenas uma alteração e adaptação das demais formas de observação, pois sua base teórico-metodológica é distinta e é o que gera as demais diferenças. Nesse sentido, antes de definir o que é observação relacional é útil explicitar o seu vínculo com o método dialético e materialismo histórico.
A observação relacional se difere, inicialmente, por seus pressupostos, que são antagônicos ao objetivismo e ao subjetivismo, bem como sua teoria da realidade e teoria da consciência, além do seu vínculo analítico com a radicalidade, historicidade e totalidade. O objetivismo, em sua definição mais simples, é a concepção segundo a qual existe uma realidade objetiva, independentemente do observador, e que, se este for “objetivo”, poderá captá-la exatamente como ela é. Para o método dialético, existe uma realidade que é independente da vontade e consciência do observador, mas que o acesso a ela é mediado pelas relações sociais e pela cultura, bem como é dependente do indivíduo e sua posição na sociedade. Ou seja, a solução objetivista é a neutralidade e uso de métodos e técnicas que retire o aspecto subjetivo da pesquisa. A solução dialética aponta para a impossibilidade da neutralidade e da existência de métodos e técnicas “objetivas”.
Isso pressupõe uma crítica da ideologia da neutralidade. Marx já havia colocado que as ideias, as representações, a moral, a religião, etc., são produtos históricos e sociais e, mais do que isso, são perpassados por interesses, valores, que também são históricos e sociais, bem como vinculados a classes sociais (MARX; ENGELS, 1982). Não pode existir uma interpretação da realidade (nem mesmo no âmbito das ciências naturais) desvinculada de interesses e valores. Assim, embora a realidade exista e seja independente do observador, ela não é meramente “observada”. O observador não é um indivíduo sem interesses e valores, sem ideias e concepções geradas histórica e socialmente.
De qualquer forma, esse é um falso problema. A questão não é a existência de interesses e valores, ou então de uma cultura anterior que realiza uma mediação entre o observador e a realidade e sim quais são os interesses e valores, bem como cultura, que serve de base para o observador realizar a observação (VIANA, 2007a). Isso significa que a concepção dialética nada tem de relativista. Os interesses e valores podem apontar para o compromisso com a verdade ou compromisso com a inverdade. E isso remete novamente ao social. As classes dominantes na história não possuem o interesse na verdade, nem as classes auxiliares e aqueles que reproduzem os interesses e valores de tais classes. Assim, interesses e valores, se expressando o compromisso com a verdade, com a transformação radical e total do conjunto das relações sociais (pois aqueles que estão integrados e atrelados à sociedade atual não possuem a capacidade crítica e a radicalidade necessária para enxergar sua historicidade e características desumanizadoras), o que significa se vincular ao proletariado, compreendido como classe revolucionária de nossa época[1].
O subjetivismo, em sua definição mais simples, é a concepção segundo a qual o “sujeito” (que aparece como um ente abstratificado[2], que pode ser o indivíduo, o grupo, a sociedade como um todo) é a fonte do saber e não a realidade. Segundo Hessen, “o subjetivismo, como seu nome já indica, restringe a validade da verdade ao sujeito que conhece e que julga. Este pode ser tanto o sujeito individual ou indivíduo humano quanto o sujeito genérico ou o gênero humano” (2000, p. 28). Para uma concepção dialética, o subjetivismo é uma concepção reducionista e limitada, pois reduz o saber ao sujeito, mas este é algo abstratificado. No subjetivismo contemporâneo, ele é materializado em grupos sociais, indivíduos, que são, novamente, abstratificados. Isso, obviamente, gera uma primazia do “sujeito” e desconsideração da realidade concreta (muitas vezes acompanhada por uma recusa da sua força em relação ao saber ou mesmo sua inexistência, ou, ainda, a impossibilidade de ter uma consciência correta dela).
Assim, a observação relacional parte do princípio dialético que tanto o observador quanto o que é observado são relacionais. Eles só existem como observadores e observados na relação entre ambos. O observador não pode observar o que não existe, bem como um fenômeno não pode ser observado a não ser por um observador. O saber constituído é como a observação, ou seja, o ato do observador em relação ao observado. Logo, na concepção dialética, não há como cair no subjetivismo nem no objetivismo, que não passam de antinomias do pensamento burguês (VIANA, 2018).
Isso remete a outros dois aspectos que são pressupostos da observação relacional, que é a teoria da realidade e a teoria da consciência. Contudo, essa é uma questão extensa e que só poderemos sintetizar brevemente. A realidade, na concepção dialética, é concreta. O concreto, como categoria do pensamento, remete para as categorias de determinação, historicidade e totalidade (MARX, 1983). O real é histórico, não pode ser retirado da história. Ele também é uma totalidade, mesmo que seja um fenômeno particular, pois ele é composto por partes, e, além disso, está inserido numa totalidade mais amplas, rica em relações e determinações. Por fim, o real é determinado, ou seja, e, sendo a realidade social, é um produto histórico e social (VIANA, 2007a).
A consciência, por sua vez, é o indivíduo, ser humano singular, histórico-concreto, consciente. A consciência, como é algo real, é histórica, determinada, bem como é uma totalidade (inserida em uma totalidade mais ampla). Os indivíduos que desenvolvem sua consciência, são seres sociais, históricos, determinados. Logo, a consciência individual é uma produção social, bem como a consciência social. Não é possível compreender a consciência humana fora da sociedade. E a sociedade como fenômeno concreta é histórica, assumiu várias formas e se desenvolveu, bem como, em certas sociedades, é perpassada pela divisão de classes, o que gera distintos interesses e valores, e gera formas distintas de consciência. Inclusive, a consciência é parte da realidade social e logo, atua sobre ela, sendo uma de suas determinações (KORSCH, 1977).
Uma coisa, no entanto, é a consciência em geral, que assume inúmeras formas e conteúdos, mas outra coisa é a consciência correta da realidade, ou seja, o momento em que a consciência coincide com a realidade. Isto foi denominado por alguns como verdade. A consciência pode ser ilusória ou verdadeira. A consciência verdadeira pode ser parcialmente verdadeira ou globalmente verdadeira. No primeiro caso, temo as representações cotidianas verdadeiras[3] e, no segundo caso, a teoria. A teoria é um saber complexo e totalizante, o que significa que abarca uma percepção de conjunto, com fundamentação e embasamento em método e reflexão mais desenvolvida, que expressa (e explica) a realidade através de um conjunto de conceitos.
Essa breve discussão sobre realidade e consciência é importante para o passo seguinte, que é retomar a observação relacional. A observação relacional é realizada tendo essa teoria da realidade como pressuposto, bem como essa teoria da consciência. Por conseguinte, o observador relacional focaliza um determinado fenômeno (tal como apontaremos a seguir) sem realizar o seu isolamento, pois aborda as suas relações, o que remete para determinações, história, sociedade. Esse é um pressuposto que existe antes, durante e depois da observação. O observador já sabe, antes de realizar a observação, que o fenômeno observado tem história, é uma totalidade inserida em outra totalidade, é determinado. O que ele deve descobrir é qual é sua relação com a história em geral, sua história em particular, seus elementos constitutivos, suas determinações, a sua inserção num contexto mais amplo, etc.
Da mesma forma, o observador sabe que sua observação é realizada a partir de uma determinada forma de conceber o real e a consciência (própria e alheia) e que por isso ele não pode confundir sua consciência com as dos indivíduos que podem estar envolvidos em sua observação ou fenômeno observado. É preciso, no processo de observação, entender o contexto, as relações, as funções, mas também saber que as interpretações, interesses, valores, etc., dos indivíduos variam e não podem ser tomadas como homogêneas. Os indivíduos possuem sua personalidade (singularidade psíquica), seu processo histórico de vida que gera distintos valores, concepções, sentimentos, etc., e por isso é necessário evitar os riscos da simplificação e do reducionismo. A compreensão do contexto, a totalidade, é fundamental, mas é preciso também compreender a historicidade, as particularidades e especificidades, bem como os indivíduos envolvidos nesse processo.
Além disso, há a teoria, ou seja, o observador deve conhecer a realidade mais ampla que observa e que é uma totalidade maior. Um mendigo não consegue observar a totalidade das relações sociais e por isso sua relação com a realidade é limitada, sua consciência é limitada. Um pesquisador, por sua vez, não possui a experiência pessoal do mendigo, mas possui um conjunto de informações, interpretações, sobre sua situação, bem como não possui uma compreensão mais ampla da sociedade em que vive, de sua formação histórica, de suas contradições, entre milhares de outros elementos. Ele tem um saber amplo sobre si mesmo, sua história, etc., mas geralmente não tem grande reflexão sobre isso e nem os recursos intelectuais para uma análise mais ampla (como teria, por exemplo, um psicólogo, um psicanalista, etc.) de sua mente ou mesmo de sua vida em geral. Logo, a percepção da realidade do mendigo é limitada, o que é derivado de suas relações sociais limitadas[4]. Isso significa que o observador relacional faz a observação a partir de sua formação teórica e a teoria lhe permite realizar a seleção do que é mais importante observar, entender relações estabelecidas, entre outros processos.
Assim, podemos colocar que a observação relacional se difere de outras formas de observação por causa de seus pressupostos, que geram outras diferenças (que são suas características e serão abordadas adiante). A observação relacional tem como pressuposto a recusa do objetivismo e subjetivismo, derivados de produções ideológicas, uma teoria da realidade, uma teoria da consciência, e a necessidade de que o observador tenha uma teoria sobre o contexto que vai analisar. Assim, o observador relacional não se ilude com uma suposta “realidade objetiva” que caberia apenas “captar”, nem com uma ideia subjetivista ao seu respeito ou ao respeito dos demais indivíduos, entende a realidade como algo histórico, social, determinado, além de ter pesquisado e refletido sobre o contexto que pesquisará[5]
O que é observação relacional?
A observação relacional difere das demais formas de observação por causa de seus pressupostos, como afirmamos acima, mas também por suas características próprias. Não poderemos aqui discutir as diversas formas de observação, mas tão-somente apontar sua existência. Existem autores que abordam as várias formas de observação (PERETZ, 2000), bem como obras que discutem ou explicam formas específicas (MALINOWSKI, 1978). Também existem manuais que tratam da questão da observação (QUIVY; CAMPENHOUDT, 1998; MARCONI; LAKATOS, 1982). Os manuais, no entanto, são geralmente (o que não significa que não existam exceções), problemáticos. A confusão entre observação e outras técnicas de pesquisa é o mais comum, o que, em muitos casos, é derivado de uma conceituação muito ampla do termo “observação”. Por isso é fundamental definir observação para, posteriormente, abordarmos sua forma relacional.
Não é difícil encontrar a definição segundo a qual a observação é o “ato de observar”. Mas não existe muita clareza, nem nos dicionários, nem nas representações cotidianas, sobre o que significa exatamente “observar”. A palavra observar pode significar “espionar” (ou, “espiar”, quer dizer, olhar, geralmente num sentido indiscreto), seguir regras (“observar as leis de trânsito”), olhar atentamente, constatar, etc. Desses sentidos comuns da palavra, o mais próximo do que é usado na pesquisa social é “olhar atentamente”. Partindo destes elementos, podemos chegar a uma definição mais adequada. Observar pode ser entendido mais adequadamente como olhar atentamente algo. A observação, por conseguinte, significa o ato de olhar atentamente algo. Nesse sentido, todo mundo observa o tempo todo. Nesse caso, trata-se de observação ordinária.
A pesquisa social não trabalha com observação ordinária. O motivo disso é que ela é esporádica, sem reflexão, sem objetivos definidos, sem rigor, etc. A observação ordinária pode até servir como fonte de informações específicas, mas não como técnica de pesquisa. Assim, podemos dizer que a observação ordinária pode ser integrada na observação relacional, como fonte de informações específicas. Por exemplo, um pesquisador que realiza uma pesquisa no partido político X através da observação relacional, pode observar, ordinariamente, um elemento que não tinha relação com seus objetivos. Numa pesquisa posterior, ele pode recordar tal observação e o que foi recordado pode ser informação para os objetivos da nova investigação. Esse é mesmo caso que um transeunte vê um assalto e observa a placa do carro dos assaltantes e depois informa a polícia o seu número. É uma informação, verdadeira e útil. Porém, também pode ser limitada, se o número estiver errado ou se não recordar todos.
A observação relacional é o ato de olhar atentamente um fenômeno (indivíduo, acontecimento, grupo social, organização, relações interindividuais, relações sociais, etc.) com o objetivo de o expressar fidedignamente através da percepção de suas relações. Portanto, se um pesquisador vai a uma manifestação estudantil (o fenômeno que se busca olhar atentamente) e seu objetivo é expressar fidedignamente as divergências internas (objetivo da pesquisa), ele não irá isolar uma contenda, os cartazes, etc. Se ele observa apenas os cartazes, por exemplo, poderá concluir, se todos eles apontam para uma recusa de uma política governamental específica, que não existe divergência. É aí que o domínio teórico-metodológico e a compreensão das relações permitem ir além da aparência do fenômeno. Todos os cartazes são contra a referida política governamental, mas alguns apontam elementos complementares, como, por exemplo, “nova constituição”, outro pode colocar “novas eleições”, e, alguns, ainda, “revolução”. Embora a manifestação e os cartazes em geral apontem para uma recusa de uma determinada política governamental, o que daria a impressão de não-divergência, os complementos mostram que a forma como fazem isso é diferente e isso revela divergência, que pode até parecer secundária, mas é apenas naquele contexto. Ou mesmo se todos os cartazes manifestarem apenas o repúdio à determinada política governamental, mas as formas de participar, os subgrupos existentes, etc., mostram as divergências. Muitos observadores não perceberiam isso. Porém, quem trabalha com a observação relacional (e mesmo outras formas de observação), percebe as divergências[6].
A observação relacional pode ser espontânea ou planejada. A observação relacional espontânea é aquela na qual o fenômeno é observado atentamente com a finalidade de expressá-lo fidedignamente a partir de suas relações. Assim, temos aqui a base teórico-metodológica, o problema de pesquisa, o objetivo, entre outros elementos, que difere a observação relacional espontânea da observação ordinária. Porém, o mais adequado é o uso da observação relacional planejada. Esta tem a vantagem do planejamento da própria observação e assim garantir uma maior quantidade de informações, bem como menor possibilidade de perda das informações. Isso ocorre através do plano de observação, realização da observação, caderno de notas e síntese observacional. A observação relacional espontânea tem como ponto de partida a base teórico-metodológica, problema e objetivo, como antecedente da observação. A observação, em si, é realizada de forma mais flexível e menos formal. O observador pode também fazer anotações e síntese observacional, o que depende de sua decisão. A observação relacional espontânea pode ocorrer sem a existência de um problema e objetivo, pois ela pode anteceder esse estágio da pesquisa, mas só existe se o pesquisador tiver a base teórico-metodológica necessária. Caso não tenha estes elementos (base teórico-metodológica, problema, objetivo), então trata-se de observação ordinária, que pode até ser fonte de informações, mas para coisas bem específicas. Vamos focalizar, a partir de agora, a observação relacional planejada, pois é esta que traz mais elementos para reflexão. 
A observação relacional planejada tem alguns elementos constitutivos e é efetivada em momentos distintos. O primeiro passo é a definição do fenômeno a ser pesquisado e elementos derivados (problema de pesquisa, referencial teórico, etc.), além da base teórico-metodológica mais ampla, que constituem seus pressupostos. Após isso se inicia o processo de observação relacional. O primeiro momento é a preparação, que gera um plano de observação. O plano de observação são algumas anotações nos quais o pesquisador desenvolve um planejamento (dias, horários, locais, situações, etc.) relativo ao processo observacional. Se o pesquisador vai analisar uma aula de um professor, a partir dos objetivos e problematização levantados, então precisa elaborar o plano e neste estabelecer se irá assistir todas as aulas ou apenas algumas (e quais, nesse caso, o que pode ser definido por importância dos temas das aulas, por disponibilidade do observador, etc.), se focalizará a questão didática ou o conteúdo, ou, ainda relação com os alunos, etc. O plano de observação, que não é rígido, pois a observação concreta pode alterar o plano e em certos casos isso ocorre de forma ampla, aponta para a definição da dimensão temporal e espacial, bem como a delimitação do foco, além de outros detalhes, sendo que alguns podem variar dependendo da pesquisa, fenômeno, objetivos, etc.
O segundo momento é a observação em si mesma. Este é o momento que o observador se encontra com o fenômeno observado. Se é uma comunidade, uma escola, um sindicato, entre outras possibilidades, ele irá até o local realizar a observação. Nesse momento, a atenção se torna fundamental e o foco no objetivo e outros elementos da pesquisa. O observador deve se atentar para não haver distração. A observação, no entanto, difere da concepção objetivista, pois não busca “neutralidade” e “objetividade”[7]. Assim, “a observação relacional, no entanto, não pensa, ingenuamente, que o observador não interfere no comportamento dos outros. Sem dúvida, a interferência intencional deve ser evitada, mas a inintencional é inevitável, pois basta a sua presença para já ser uma interferência” (VIANA, 2015, p. 125). Sem dúvida, a interferência pode, em determinadas casos, ser estabelecida sem problemas. Este é o caso quando o pesquisador é parte do fenômeno observado, ou seja, é integrante da comunidade, grupo, organização, etc. ou possui adesão a alguma posição no seu interior. Isso não é problemático por fazer parte do fenômeno pesquisado, não alterando sua existência ou dinâmica.
A interferência é um problema quando pode desvirtuar as relações sociais estabelecidas, criando um diferencial que não existiria com a observação. E isso pode ocorrer em vários casos. Por exemplo, um pesquisador que investiga uma escola e sua observação inibe os estudantes e alguns irão mudar seu comportamento por não querer que suas práticas sejam identificadas ou então em uma empresa, na qual os burocratas vão buscar direcionar os funcionários para as respostas que a empresa, bem como esconder informações. Essa é uma interferência inintencional e é problemática, pois o comportamento alterado gera informações alteradas, mas o observador deve perceber isso para que no momento da análise saiba como proceder, bem como, antes disso, conseguir outras fontes de informações. O que o observador deve evitar é, caso não seja parte do fenômeno pesquisado, não provocar (via conversa, comportamento, etc.) uma alteração nas ações e discursos dos observados.
O terceiro momento, vai além da observação em si, pois após sua efetivação, é necessário o seu registro. Isso pode ocorrer diariamente ou em qualquer outro período de tempo, dependendo das frequências das observações[8]. O pesquisador deve anotar os acontecimentos mais significativos (VIANA, 2015), o que é importante para evitar esquecimento e contribuir com uma percepção mais totalizante. O registro deve ocorrer num caderno de notas. O caderno de notas serve para registrar os acontecimentos mais significativos e possibilita a consolidação de um novo material informativo a respeito do fenômeno pesquisado.
O quarto e último momento é a síntese observacional. No fundo, as anotações no caderno de notas fornecem todo o material informativo necessário e a síntese apenas aponta elementos mais gerais e totalizantes que, posteriormente, facilitam a análise, tendo aspectos que podem ser incorporados e outros descartados. Esse quarto momento pode ou não ser efetivado, dependendo da decisão do observador.
Porém, esses momentos podem assumir diferenças em casos específicos, bem como em distintas formas de observação relacional. Nesse sentido, é útil realizar algumas distinções. Já fizemos a distinção anterior entre observação relacional espontânea e a planejada, mas existem outras distinções que devem ser apresentadas. A observação relacional pode ser intensiva ou extensiva. Ela é intensiva quando reduz o seu alcance, ou seja, quando o seu fenômeno é restrito, como uma associação de bairros. Ela é extensiva quando o fenômeno é mais amplo, como um bairro inteiro (o que inclui a referida associação). Ou então pode ser considerada intensiva quando se limita a um partido político específico, e extensiva quando se trata de um conjunto de partidos políticos ou sua totalidade em determinado país ou no mundo.
Ela também pode ser internalista ou externalista. Ela é internalista quando o observador está envolvido com o fenômeno pesquisado e é externalista quando ele é externo ao mesmo. O morador de um bairro específico realiza observação internalista, pois ele tem um conjunto de informações preliminares, determinado saber, bem como valores e relações estabelecidas com moradores, que geram uma pesquisa marcada pelo engajamento (ou não, em alguns casos, dependendo da posição do indivíduo no seu local de moradia) em ações e reivindicações, quando estas estão relacionadas com a investigação. Ela é externalista, se o pesquisador não for morador do referido bairro. Mas isso pode ocorrer de forma distinta, pois um observador que quer analisar a doutrina liberal em determinado lugar (partido, comunidade, instituição, etc.) e é liberal, então a observação seria internalista (apesar de ser difícil um liberal usar tal técnica de pesquisa) e se for marxista, então seria externalista. E o mesmo ocorre em casos contrários. Nesse caso específico, a observação relacional internalista é geralmente precedida por sua forma espontânea para depois assumir a forma planejada e, em alguns casos, é apenas espontânea, pois o vínculo do pesquisador com o fenômeno pesquisado permite isso.
Porém, a distinção mais importante se a observação relacional ocorre no contexto de uma pesquisa experimental ou numa pesquisa teórica. Até aqui priorizamos o uso da observação relacional na pesquisa experimental, também denominada “pesquisa empírica” (ou, ainda, “pesquisa de campo”). O que distingue a pesquisa experimental e a pesquisa teórica é a forma de problematização que cada uma efetiva. A primeira trabalha com uma problematização experimental e a segunda trabalha com a problematização teórica. A problematização experimental visa descobrir algo que é acessível via experiência (ou experimentação, que é uma de suas formas) e por isso é algo mais delimitado, tanto no sentido espacial, temporal e até conceitual. Assim, se busca descobrir quais representações cotidianas os estudantes de medicina têm sobre o SUS (Sistema Único de Saúde), é uma pesquisa experimental. Se eu problematizo o que é a doença, então trata-se de uma pesquisa teórica. Se eu busco entender os reais objetivos do Partido Verde realizo uma problematização experimental, mas se eu busco entender o que são os partidos políticos, realizo uma problematização teórica. Em síntese, na problematização experimental se busca descobrir aspectos mais restritos da realidade e que geram explicações de alto grau de concreticidade, como, por exemplo, as representações cotidianas dos estudantes de medicina sobre o SUS, enquanto que na problematização teórica se busca descobrir aspectos mais amplos da realidade e que geram explicações de alto grau de abstração, como, por exemplo, o que são os partidos políticos.
Dito isto, fica claro que a observação relacional possui um vínculo mais forte com a pesquisa experimental. No entanto, a observação relacional tem uma utilidade também na pesquisa teórica. Se eu quero analisar os objetivos do Partido Verde, então posso usar a observação relacional para realizar tal pesquisa. Isso seria feito frequentando a sede do partido, suas reuniões (abertas), suas ações (no parlamento, por exemplo), entre outras possibilidades. Claro que tal pesquisa teria que também usar a investigação documental e talvez outras técnicas (entrevistas, por exemplo). Porém, se eu quero é descobrir o que são os partidos políticos, o procedimento é bem distinto. Não posso descobrir o que são os partidos políticos a partir do acesso à apenas um partido político. Os partidos são diferentes e, assim, o pesquisador teria uma percepção equivocada, realizando uma generalização indevida. E isso é ainda mais provável se for um partido com muitas especificidades que o distingue dos outros. Sem dúvida, em alguns casos, dependendo do pesquisador, é possível extrair de um partido (de um único caso) apenas o que é essencial[9] e, assim, compreender os partidos em geral. Porém, a concepção dialética não é empiricista e nem “indutiva”. Isso seria um caso raro.
Então qual é a relação entre observação relacional e pesquisa teórica? Na pesquisa teórica, assim como na pesquisa experimental, se utiliza informações. As informações que são demandadas pela pesquisa teórica são mais amplas e gerais. Se quero descobrir o que são os partidos políticos, então devo ter acesso a informações sobre eles. No entanto, trata-se de informações de fonte secundária, na maioria dos casos. E aqui temos mais uma diferença entre pesquisa experimental e pesquisa teórica, pois a primeira trabalha, prioritariamente, com fontes primárias e a segunda com fontes secundárias. Para analisar o que são os partidos políticos, o pesquisador deve ler as obras existentes que já apresentam o que eles são. Porém, cabe ao pesquisador, nesse caso, mostrar as deficiências destas concepções para justificar uma nova. Nesse processo, ele estará utilizando as informações trabalhadas pelos outros pesquisadores para compor sua própria concepção, além das interpretações que eles apresentam. A pesquisa teórica pressupõe tratamento crítico, tanto das informações, quanto das interpretações. As informações são confiáveis? São verdadeiras? São incompletas ou completas? Entre outras questões que devem ser realizadas no processo de pesquisa em relação a cada obra e autor consultado. No que se refere às interpretações, é preciso um trabalho no sentido de saber sua base teórico-metodológica, entre outros aspectos, bem como sua relação com as informações em si. Assim, se um pesquisador lê Robert Michels e sua obra Sociologia dos Partidos Políticos, verá inúmeras informações, que são fontes secundárias. Se lê Duverger (1982) e outros autores, então terá uma quantidade muito maior de informações de fontes secundárias. Um conjunto de informações sobre os partidos, seus líderes e discursos, entre diversas outras. Se ele quer elaborar uma teoria dos partidos políticos, essa é leitura fundamental e a análise crítica das informações e interpretações é elemento basilar.
Porém, a pesquisa teórica trabalha prioritariamente, mas não unicamente, com fontes secundárias. Em certos casos pode ser apenas fontes secundárias, enquanto que em outros pode lançar mão também de fontes primárias. E é aqui que a observação relacional assume importância na pesquisa teórica. Se eu quero realizar uma análise sobre escolas, por exemplo, eu tenho além de uma ampla gama de informações de fontes secundárias, a possibilidade de uso de fontes primárias. E quais são estas fontes primárias? Isso depende do pesquisador. Nada o impede, por exemplo, de fazer entrevistas, questionários, investigação documental, etc. Porém, isso é raro e desnecessário na maioria dos casos. O uso da observação relacional é mais comum e mais adequado.
Nesses casos, trata-se, geralmente, de observação relacional espontânea e extensiva, bem como pode ser também internalista. Ela geralmente é espontânea, pois, como se trata de pesquisa teórica, a planejada é mais rara. Se ela é internalista, então tende a ser espontânea. Por exemplo, um indivíduo passa por várias instituições de ensino em sua vida. Nesse contexto, ele realizou observação ordinária. A partir de certo momento ele adquire base teórico-metodológica e assim passa a realizar observação relacional espontânea. Essa é internalista e espontânea e permite ao pesquisador ter mais elementos para questionar as fontes secundárias e as interpretações. Ela também pode ser extensiva, pois como se trata de um fenômeno específico, no caso de nossa ilustração, os partidos políticos, assume um alcance maior. Nesse mesmo caso, o pesquisador pode utilizar observação relacional espontânea internalista no(s) partido(s) que passou e externalista nos que não fez parte, como, por exemplo, nos embates nos movimentos sociais, no processo eleitoral, nas alianças, manifestações, etc.
Em síntese, a observação relacional é um elemento auxiliar da pesquisa teórica. Na pesquisa experimental, se torna elemento fundamental. Numa pesquisa experimental sobre as práticas esportivas dos professores de educação física na Universidade X, a observação relacional é um elemento fundamental. Numa pesquisa teórica sobre educação física ou sobre as universidades, ela é um elemento auxiliar.
Um aspecto importante que não podemos deixar de fora é a relação entre a observação relacional e as demais técnicas de pesquisa. A observação relacional, em certas pesquisas, pode ser uma técnica auxiliar, tal como na pesquisa em representações cotidianas (VIANA, 2015), pois nesse caso o objetivo é analisar o que as pessoas pensam e a observação não capta isso facilmente. Desta forma, em várias situações a observação relacional é uma técnica auxiliar. Porém, em muitos casos, ela é a única técnica. Isso depende de vários aspectos: fenômeno a ser pesquisado, problema, objetivos, etc. Desta forma, a observação relacional pode ser técnica única, técnica principal ou técnica auxiliar, como todas as demais técnicas de pesquisa. Esse esclarecimento é útil para pensarmos o uso de técnicas auxiliares no caso da observação relacional ser a técnica principal. Sem dúvida, o uso de técnicas auxiliares pressupõe afinidade teórico-metodológica e, por isso, a entrevista interpretativa, por exemplo, pode ser uma técnica auxiliar da observação relacional, bem como a investigação documental (VIANA, 2015).
Considerações Finais
Em síntese, o nosso objetivo foi o de apresentar uma reflexão sobre a observação relacional e destacar alguns de seus elementos e relações com a pesquisa e outros processos investigativos. Consideramos que atingimos tal objetivo e que a presente reflexão abre espaço para novas reflexões e análise sobre a observação relacional e outras formas de observação e técnica de pesquisa.

Referências


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VIANA, Nildo. Escritos Metodológicos de Marx. Goiânia, Alternativa, 2007b.

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Publicado originalmente em:
PURIFICAÇÃO, Marcelo Máximo (org.). Investigação científica nas ciências humanas. Vol. 03. Ponta Grossa: Atena, 2019.
ISBN 978-85-7247-718-5
DOI 10.22533/at.ed.185191710


[1] Há uma longa discussão a este respeito e Marx foi o autor que iniciou a percepção desse processo (MARX, 1968) e depois dele, Korsch (1977), o jovem Lukács (1989), entre outros desenvolveram numa análise dialética do processo de formação social da consciência.
[2] Abstratificar significa tornar algo um “abstractum”, entendido aqui como uma constituição mental deslocada da realidade, ou seja, transformar um ser em algo metafísico. Assim, abstratificação é diferente de abstração, pois a primeira é um processo que retira o ser (indivíduo, fenômeno, etc.) da realidade (retira o ser social da história e relações sociais, por exemplo), enquanto que a segunda, no sentido dialético, apenas focaliza uma parte da realidade, sem desligá-la da totalidade na qual está inserida. Essa distinção pode ser vista em Marx (1983), quando usa abstração num sentido negativo (abstração metafísica) e num sentido positivo (abstração dialética), o que nem sempre é percebido (VIANA, 2007b). Nesse caso, a abstratificação seria uma abstração metafísica.
[3] Sobre as representações cotidianas e suas formas, características, entre outros elementos, veja: Viana (2008); Viana (2015); Marques (2018). As representações cotidianas são o que geralmente se denomina “senso comum”, “conhecimento cotidiano”, “saber popular”, etc.
[4] Marx explica as representações cotidianas ilusórias pela limitação das relações sociais (MARX; ENGELS, 1982).
[5] Um exemplo poderá esclarecer esse aspecto, que será mais desenvolvido adiante, que é o uso da teoria no processo de observação relacional. Se o fenômeno a ser observado é, por exemplo, um partido político, então o observador deve ter pesquisado sobre partidos políticos. E se for uma pesquisa sobre dissidência nos partidos políticos, então o acesso a teoria dos partidos políticos é necessário. Nesse caso, observará indivíduos, falas, ações, no interior de uma instituição que já sabe vários aspectos, como objetivos, funcionamento, história, etc.
[6] Claro que isso depende também de quem é o observador, pois mesmo que queira trabalhar com a observação relacional, pode ter dificuldades, derivadas de sua idiossincrasia, em efetivar isso. Isso depende, no caso da observação relacional, do seu domínio teórico-metodológico. Se ele tem pelo menos noção do que significa anarquismo, maoísmo, autonomismo, etc., poderá compreender as divergências. Mas se é apenas uma noção e não tiver um saber um pouco mais desenvolvido, poderá não perceber certas sutilezas. Por exemplo, num mesmo grupo, ainda seguindo o mesmo exemplo, que reúne anarquistas, pode ter divergências, pois se uniram nesse contexto, mas são de tendências diferentes. Para quem não conhece as diferentes correntes anarquistas e suas diferenças, incluindo as contemporâneas, é mais difícil compreender as divergências do que quem tem maior formação e saber sobre isso.
[7] Esse é o caso, por exemplo, da chamada “observação naturalista”: “a característica marcante da compilação de dados por observação naturalista consiste em que o investigador deve unicamente observar e não interferir no comportamento em curso” (EDWARDS, 1983, p. 18). Veja também: Grisez, 1978.
[8] Aqui é preciso entender que a observação relacional pode ocorrer em apenas um dia e momento, mas também pode ocorrer durante um longo tempo (muitos dias, num espaço de um ano, por exemplo, dependendo da pesquisa, objetivos, observador, etc.), e sua periodicidade pode ser diária, semanal, mensal, etc. A observação relacional é o conjunto das observações parcelares que são realizadas durante a pesquisa.
[9] Isso é mais provável no caso de alguns pesquisadores, que são aqueles que possuem uma ampla e sólida formação teórica e metodológica para conseguir distinguir o essencial do inessencial. Isso, no entanto, não anula os riscos de equívocos. Não custa recordar, para entender o real significado dessa discussão, que, numa concepção dialética, o essencial é, simultaneamente, universal (VIANA, 2007a). 

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A Aurora do Anarquismo no Brasil



A Aurora do Anarquismo no Brasil

Nildo Viana*

O anarquismo brasileiro tem uma longa história que vem sendo reconstituída pela historiografia brasileira, embora, muitas vezes, de forma preconceituosa. O nosso objetivo, no presente trabalho, é reconstituir as origens do anarquismo no Brasil a partir de perspectiva histórica e explicativa visando abordar as suas condições de possibilidade e sua hegemonia no movimento operário no início do século 20. O anarquismo brasileiro, em sua origem, não só era força hegemônica no movimento operário como era uma força política poderosa e que estava presente nas lutas operárias de forma intensiva.
Iremos dividir o presente trabalho em três partes. A primeira aborda a formação da classe operária, condição de possibilidade do anarquismo brasileiro, que é nossa tese central. É com o surgimento da classe operária que se constitui a possibilidade histórica do surgimento do anarquismo brasileiro, sendo sua determinação fundamental. É com a constituição do proletariado que se cria a base social necessária para a produção, desenvolvimento e divulgação das idéias anarquistas.
A segunda parte aborda a imigração italiana para o Brasil e o seu papel essencial na divulgação das idéias anarquistas em nosso país. A existência da classe operária, bem como de sua exploração e dominação, principalmente na época de sua formação, que é acompanhada por péssimas condições de trabalho e habitação, elevadas jornadas de trabalho, baixos salários, ao lado de um intenso despotismo fabril, produz a luta operária, a resistência dos trabalhadores, suas primeiras formas de associação e organização, bem como traz a necessidade de compreensão da realidade social à qual ela está inserida, produz a formação de uma cultura operária, formas de manifestações culturais. As representações cotidianas da classe operária são reforçadas pelas concepções oriundas de outros setores da sociedade, incluindo os intelectuais. Durante a formação da classe operária na Europa, as idéias socialistas foram sendo produzidas no interior da classe operária (Wetling, Proudhon, etc.) e também por intelectuais ou indivíduos de outras classes sociais. No caso brasileiro, a formação do proletariado local esteve intimamente ligado à imigração européia, mais especificamente italiana, no qual, devido ao processo anterior de formação de sua classe operária, já trazia de lá uma forte cultura operária e a influência das idéias socialistas, principalmente, no caso dos italianos, das idéias anarquistas. A hegemonia do anarquismo no movimento operário brasileiro teve como determinação fundamental a imigração italiana. Assim, podemos dizer que a condição de possibilidade do anarquismo brasileiro foi a formação da classe operária e da imigração italiana, e a hegemonia anarquista no movimento operário brasileiro foi possibilitada por esta última.
A terceira e última parte é dedicada a analisar a relação entre movimento operário e anarquismo no Brasil. O movimento operário brasileiro mostrou sua força através de suas lutas esboçadas no final do século 19 e início do século 20 e os operários e intelectuais anarquistas tiveram um papel fundamental neste processo e por isso iremos realizar uma breve reconstituição histórica deste período heróico da luta operária no Brasil.
A Formação do Proletariado Brasileiro
A classe operária brasileira é formada através de um longo processo histórico. A passagem do escravismo colonial para o capitalismo subordinado no Brasil foi marcada pela abolição da escravidão, que foi o resultado de intensas lutas sociais (dos escravos, abolicionistas, senhores de escravos, burguesia nacional interessada em trabalhadores livres, potências estrangeiras, no caso a interferência inglesa, etc.). A formação da classe operária brasileira, portanto, ocorreu de forma diferenciada em relação ao caso clássico europeu. Na Europa, houve a transição do feudalismo para o capitalismo, onde o trabalho servil foi paulatinamente substituído por outras formas de trabalho, especialmente o trabalho fabril. No Brasil, a transição foi do escravismo colonial para o trabalho semilivre e “livre”. A abolição do trabalho escravo significou uma ampla mudança na sociedade brasileira, instaurando novas relações de produção. O trabalho “livre” é o trabalho assalariado, ampliado com o fim da escravidão, e o trabalho semilivre é o ligado a relações de produção não-capitalistas. A transição do escravismo colonial para o capitalismo foi marcada pela ampliação das relações de produção capitalistas, no campo e na cidade, e também pela instauração de relações de produção não-capitalistas, expressas no chamado “coronelismo”, o que constitui uma complexa aliança entre a classe capitalista e os latifundiários exploradores de trabalhadores do campo. O trabalho assalariado vai se desenvolvendo paulatinamente mas somente ganha impulso real com a imigração. O proletariado brasileiro é formado não por uma população camponesa e artesã, tal como na Europa, mas principalmente pela vinda de estrangeiros para o Brasil (Kowarick, 1987), sendo que a referida população camponesa e artesã contribuiriam modestamente, do ponto de vista quantitativo.
Antes do processo de expansão da industrialização brasileira, a classe operária brasileira era numericamente insignificante, sendo mais numeroso o operariado da construção civil e ferroviária. A industrialização brasileira começa timidamente a partir de 1840, quando começa a se estabelecer as fábricas modernas e o emprego de operários (Foot Hardman & Leonardi, 1991). A industrialização brasileira foi, num primeiro momento, uma “industrialização descentralizada”, o que impediu uma maior articulação do movimento operário. Tal industrialização foi se concentrando cada vez mais na Região Centro-Sul:
“O deslocamento no espaço da indústria de tecidos de algodão indica a importância gradativa que o centro-sul vai assumindo, em confronto com outras áreas. O Estado da Bahia – Especialmente Salvador e arredores – foi o primeiro núcleo das atividades do ramo, de 1844 até fins da década dos sessenta, reunindo cinco das nove fábricas existentes no país em 1866. Em 1885, antes mesmo que na província de São Paulo a produção industrial tivesse algum significado, observava-se a existência de maior número de empresas no centro-sul. Dentre 48 fábricas arroladas em todo o país, 33 se localizavam nesta região. Minas Gerais aparecia como a primeira província (13 unidades) tendo a Bahia 12, a província do Rio de Janeiro 11 e a de São Paulo 9 unidades” (Fausto, 1976, p. 14).
Neste período histórico, observa-se um crescimento do trabalho assalariado nas cidades e do trabalho semilivre (sob as mais variadas formas) no campo. A industrialização brasileira ganha impulso após este período, o que promove um crescimento quantitativo da classe operária (Iglesias, 1987; Gorender, 1988; Foot Hardman & Leonardi, 1991). Depois de 1880, há um aceleramento do desenvolvimento industrial e este provoca uma demanda por força de trabalho. A criação de novas indústrias ocorre de forma intensa: 150 entre 1880-1884; 248 entre 1885-1889, aumentado o seu número rapidamente, passando de 636 indústrias e 54.169 operários em 1889 para 3.410 indústrias e 156.250 operários em 1907 e chegando, em 1920, a 13.336 indústrias e 275.512 operários (Segatto, 1987). É a partir do final do século 19 e início do século 20 que o processo de imigração ganha impulso.
A origem social do proletariado brasileiro, no período anterior à abolição, advinha da camada mais pobre da população urbana, no qual se destacava a forte presença de força de trabalho feminina e precoce (crianças e jovens).
“Além dos menores, empregados principalmente na indústria têxtil, os proletários eram também originários do campesinato pobre, especialmente em cidades isoladas do interior. Também ocorreu proletarização entre certos artesãos, arruinados pela concorrência e pelos baixos preços dos produtos similares industrializados. Nas primeiras décadas do longo período 1840-1890, os operários especializados eram, em geral, recrutados na Inglaterra. Mecânicos, mestres de fiação e de tecelagem, maquinistas, moleiros e outros operários ingleses eram contratados por períodos de três a cinco anos, com passagem de ida e volta. As doenças tropicais, principalmente a febre amarela, atacavam-nos imediatamente após a chegada. Além da dificuldade de adaptação destes trabalhadores, seus salários eram um pouco mais altos, o que obrigou os industriais a procurar formar rapidamente os próprios operários nacionais. Nos anos 90, o papel dos operários ingleses já era bem reduzido, encontrando-se no Brasil profissionais em condições de substituí-los. Já em 1866, na Bahia, a indústria têxtil empregava quase exclusivamente operários brasileiros que garantiam um padrão técnico de bom nível, assegurando a qualidade de certos produtos. Em São Paulo e Rio, nos anos 90, os trabalhos especializados eram executados por brasileiros ou por imigrantes não-britânicos, em geral italianos, alemães, espanhóis e portugueses” (Foot Hardman & Leonardi, 1991, p. 99).
A partir dos anos 90, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, passou a predominar a força de trabalho estrangeira, especialmente italiana. As migrações inter-regionais e internacionais formaram a base social da classe operária brasileira deste período. O imigrante italiano provinha de várias regiões, tal como Nápoles, Vêneto, Sicília, Calábria, entre outras (Dias, 1977). A imigração vai atingindo índices cada vez maiores:
“Continuando o fluxo anterior, o decênio de 1894-1903 assinala a entrada de 162 110 imigrantes, seguidos por 1 006 617 em 1904-1913, com uma queda para 503 981, de 1914 a 1923, resultante da guerra; o decênio seguinte atinge o número de 737 233” (Carone, 1989, p. 8).
Em São Paulo, que vai se constituindo como centro industrial do país, a imigração é intensa, tendo 149 018 operários, sendo a maioria absoluta composta por estrangeiros; em 1912, 80% dos operários da indústria têxtil eram estrangeiros (Rezende, 1990). Os italianos são a maioria dos imigrantes estrangeiros em São Paulo. Após a abolição da escravidão, chegaram ao Brasil cerca de 180 000 italianos e a partir de 1890 há um forte crescimento da imigração italiana, sendo que entre 1888 e 1898 chegaram cerca de 820 000 italianos em São Paulo (61% do total da imigração) e em 1912, 60% dos operários têxteis eram italianos (Foot Hardman & Leonardi, 1991).
Assim, o processo de industrialização constitui uma classe operária cada vez mais numerosa e fortalece cada vez mais as relações de produção capitalistas, instituindo a produção de mais-valor, através da exploração dos trabalhadores fabris. A base da sociedade capitalista, o processo de exploração do proletariado, sustentava a formação do capitalismo brasileiro. E, tal como na Europa, o proletariado nascente é vítima de uma exploração intensiva, por condições de vida e trabalho precárias, por jornadas de trabalho extensas e pelo uso de força de trabalho feminina e precoce com salários mais baixos. A luta de classes na esfera da produção marca o grau de exploração do operário e isto interfere não somente nos salários, mas também nos custos da força de trabalho, na produtividade, etc. A classe capitalista, deixada ao seu bel-prazer, aumenta a taxa de exploração aos limites suportáveis pela força de trabalho, e, às vezes, ultrapassa este nível, apostando na reserva de força de trabalho existente e na possibilidade assim produzida de destruição de indivíduos proletários. O despotismo fabril, no Brasil, não era diferente do existente na Europa:
“Na grande indústria têxtil, violências sexuais contra meninas e mulheres por parte de mestres e contramestres eram denunciadas rotineiramente na imprensa operária. As prepotências e agressões físicas dos chefes e mestres contra menores eram a norma também no caso da indústria de vidros, de pequeno e médio porte. Um retrato em detalhe das miseráveis condições de trabalho no setor de vidreiros foi feito por um antigo operário do ramo, o memorialista Jacob Penteado. Além da violência física contra os menores, eram comuns as punições, o alcoolismo e doenças como tuberculose e a sífilis. Inexistia qualquer higiene nos locais de trabalho. As águas eram insalubres e a temperatura da fornalha chegava a um grau insuportável, dentro de um barracão de zinco sem janelas nem ventilação. O ar era totalmente poluído pela poeira de vidro, além dos cacos espalhados no chão. O autor comparou o interior de uma fábrica de vidro a um dos ‘círculos do inferno’” (Foot Hardman & Leonardi, 1991, p. 136).
A vida fora da fábrica não era muito diferente. As condições de habitação eram precárias, em São Paulo, os cortiços assumiam a forma mais comum de residência operária. Não havia nenhuma participação do proletariado na política institucional e ela era vigiada e controlada pelo Estado. Neste contexto, a classe operária buscava resistir e lutar, criar sua própria cultura. É neste contexto que irá surgir as idéias sindicalistas, socialistas e principalmente anarquistas no interior do movimento operário nascente no Brasil. As concepções anarquistas só puderam se desenvolver em solo brasileiro devido à formação da classe operária e sua luta, sendo sua condição de possibilidade.
Imigração Italiana e Anarquismo
Já apontamos a importância da imigração italiana para a formação do proletariado brasileiro. No entanto, é necessário também destacar o seu papel no processo de desenvolvimento do movimento operário no Brasil e na hegemonia anarquista existente nesse período.
O primeiro ponto a destacar é a razão de ser da imigração italiana. Segundo alguns, isto se deve ao desemprego na Itália, o que provocava a imigração visando fugir desta situação (Foot Hardman & Leonardi, 1991), ou a expansão demográfica italiana (Azevedo, 1982). Sem dúvida, houve um conjunto de determinações para o processo migratório. A situação de pobreza e miséria do Norte da Itália, as doenças em expansão (malária, cólera, etc.), a concentração fundiária, a política estatal, etc. No entanto, podemos resumir este conjunto de determinações no processo social italiano, marcado por relações de produção fundadas num alto grau de exploração dos trabalhadores agrícolas. A permanência de relações de produção feudais ao lado de novas relações de produção comandavam as ações estatais. A reação dos trabalhadores rurais se dava através de “greves agrárias”, que foram aumentando a partir do final do século 19 e início do século 20 (Azevedo, 1982). O desemprego e a pobreza geral era visível. A alimentação era pobre em alimentos mais nutritivos e quase não se consumia carne, ovos, leite e verduras frescas, sendo a polenta o alimento básico para milhares de pessoas. Esta precária situação alimentar e a desnutrição que lhe é derivada, aliada a algumas catástrofes naturais, tal como enchentes e inundações, abria caminho para o desenvolvimento de diversas doenças, a pelagra, a malária e a cólera, por exemplo (Azevedo, 1982).
A concentração fundiária e a pobreza dos trabalhadores rurais eram reforçadas pela ação estatal, visando aumentar cada vez mais os impostos. O processo de unificação italiana originou um Estado unitário que precisava de recursos para consolidar o Estado-Nação italiano. Este quadro, incompleto, da situação do Norte da Itália, mostra a tendência para a migração de milhares de trabalhadores italianos, o que, em alguns casos, será reforçado pelo messianismo religioso ainda forte em alguns segmentos rurais do norte da Itália (Azevedo, 1982).
No entanto, esta tendência só se concretizou devido à política imigratória do governo brasileiro e ao conjunto de interesses ligados a ela. Esta política imigratória tinha dois objetivos diferentes: por um lado, pretendia realizar uma colonização das províncias meridionais, implantando colônias no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná; por outro, o processo de industrialização paulista, que promovia programas de imigração e colonização, sob as formas de assalariamento, parceria, empreitada, entre outras. A imigração paulista era promovida, principalmente por grandes fazendeiros e empresários urbanos, com apoio do governo provincial. As promessas de uma nova vida, e a propaganda do governo brasileiro era um estímulo poderoso para aqueles que viviam em uma situação subumana na Itália. Mas além do governo brasileiro e seu incentivo à imigração italiana, também se constituiu  um conjunto de interesses que reforçaram este processo. As companhias de navegação, os bancos e as empresas de colonização estavam interessadas na imigração italiana que lhe proporcionava enormes lucros. Este conjunto de interesses e seu caráter lucrativo promoveram um amplo incentivo ao processo migratório, muitas vezes acompanhado, tal como denunciado pelo governo italiano, de “promessas falazes” (Azevedo, 1982).
Assim, a ânsia em buscar a superação de uma condição miserável e o desejo de uma vida nova provocada pela situação do Norte da Itália, ao lado dos incentivos provenientes do Governo Brasileiro e instituições privadas que lucravam com isto, foram os elementos determinantes da grande imigração italiana para o Brasil.
A imigração italiana também explica a hegemonia anarquista no movimento operário brasileiro. O movimento operário italiano era fortemente influenciado pelo anarquismo. Proudhon exerceu uma certa influência nos meios operários na Itália, sendo que o primeiro jornal socialista deste país, Il Proletario, era de tendência proudhoniana, embora numa versão moderada (Woodcock, 1984). Com a chegada de Bakunin, em 1864, as idéias anarquistas se tornam mais influentes e assumem um caráter revolucionário. A influência de Bakunin atingia um círculo de militantes italianos (Giuseppe Fanelli, Saverio Friscia, Carlo Gambuzzi, Alberto Tucci) e o movimento anarquista formou-se na Itália e foi se tornando cada vez mais forte.
“A relação de Bakunin com seus discípulos italianos era muito próxima. Fanelli, Friscia e Tucci acompanharam-no quando ingressou na Liga pela Paz e Liberdade, renunciando com ele mais tarde para tornarem-se membros fundadores da Aliança Internacional da Social Democracia. Fanelli, Gambuzzi, Tucci e Friscia, com Rafaelle Mileri, da Calábria, e Giuseppe Manzoni, de Florença, formaram o núcleo do Comitê Nacional de Aliança. Mais uma vez, é difícil determinar o poder que a Aliança obteve na Itália, já que no início de 1869 a organização foi dissolvida e suas seções passaram automaticamente a integrar a Associação Internacional dos Trabalhadores. Os militantes italianos haviam se oposto a essa mudança, mas foi a partir dessa época – os primeiros meses de 1869 – que começou a surgir na Itália um influente movimento anarquista” (Woodcock, 1984, p. 116).
Este núcleo inicial de militantes anarquistas seria substituído por um novo grupo, de onde sairiam destacados pensadores anarquistas, sendo Errico Malatesta o nome mais proeminente. O grupo que contava com nomes como os de Carlo Cafiero, Errico Malatesta, Carmelo Palladino, oriundos da região camponesa mais pobre da Itália, nas quais resquícios de relações de produção feudais e outras relações não-capitalistas conviviam com a ascensão capitalista industrial em outras regiões italianas, foram importantes para a divulgação das idéias anarquistas e fortalecimento do movimento anarquista italiano. O anarquismo se desenvolveu através de diversas ações e atividades, tais como publicações, congressos, e até mesmo insurreições, tal como o de Bolonha, entre outras cidades italianas. A partir de 1880 a força do anarquismo italiano é diminuída, apesar de publicações e outras ações (Woodcock, 1984). Os anarquistas italianos com sua imigração assumiam um importante papel na divulgação dos ideais libertários:
“O que distinguia os anarquistas italianos dos anarquistas de outros países era o fato de que, ao emigrar, eles se transformavam em missionários de suas idéias. Homens e mulheres como Malatesta, Merlino, Pietro Gori, Camillo Berneri e sua filha Marie Louise Berneri, exerceram uma influência constante sobre o pensamento e a atividade anarquista internacional até a metade do nosso século. Em todo o Levante, os primeiros grupos anarquistas foram italianos, enquanto que na América Latina e nos Estados Unidos os imigrantes italianos desempenharam um importante papel na difusão de idéias anarquistas durante a década de 1890, tendo publicado mais ‘jornais expatriados’ do que todos os outros grupos nacionais colocados na mesma situação” (Woodcock, 1984, p. 128).
O anarquismo era a força política hegemônica no movimento operário italiano. A influência de outras correntes políticas de esquerda no movimento operário italiano, neste período de final de século 19 e início do século 20, era pequena. O grande concorrente do anarquismo no movimento operário, o marxismo, não era forte na Itália. A influência de Marx era maior na Alemanha e com o passar do tempo atingiu outros países europeus, mas na Itália somente na década de 20 do século 20 com Bordiga e Gramsci, entre outros, é que as idéias de Marx passam a ser influentes no movimento operário italiano. Também na Espanha, que também proporcionou uma massa de imigrantes influenciados pelo anarquismo, a força hegemônica no movimento operário era o anarquismo.
A imigração italiana para o Brasil explica, portanto, a hegemonia do anarquismo no movimento operário brasileiro, principalmente em São Paulo, onde predominou a imigração italiana. Os italianos também foram para os outros estados, assim como os espanhóis, sendo que, no Rio de Janeiro, eles eram a maioria ao lado dos portugueses. Mas apesar da imigração espanhola ter contribuído com a hegemonia anarquista no movimento operário, coube aos italianos o mérito de ter sido a grande força de influência no caráter anarquista do movimento operário brasileiro do início do século 20, principalmente tendo-se em conta que São Paulo foi se constituindo no grande centro de concentração industrial e operária do país.
Movimento Operário e Anarquismo no Brasil
A classe operária brasileira, tal como já colocamos, vivia sob condições de vida e de trabalho desfavoráveis. Mas, no entanto, ela não era passiva e sim ativa. As lutas operárias do início do século 20 no Brasil foram intensas. A luta operária no Brasil neste período ganhou força por três motivos principais. O primeiro era a situação da classe trabalhadora no Brasil em sua época de “Revolução Industrial”, que já aludimos anteriormente, e isto provocava a reação operária. Outro elemento que exerceu influência na ascensão das lutas operárias no Brasil era a conjuntura internacional marcada por uma radicalização do movimento operário e por lutas intensas a partir do final do século 19 e principalmente no início do século 20 (basta lembrarmos a Revolução Russa de 1905 e a nova tentativa de 1917, derrotada pela vitória bolchevique, uma contra-revolução burocrática; as tentativas de revolução socialista na Alemanha, Hungria, Itália, etc.). Um terceiro elemento que contribuiu com a ascensão da luta operária no Brasil foi a influência das idéias socialistas vindas da Europa, principalmente o anarquismo que acompanhava os imigrantes italianos. Uma das primeiras manifestações de radicalidade do movimento operário brasileiro foram as greves:
“As Greves, esparsas a partir de meados do século 19, vão aumentando paulatinamente até 1900. Desta data em diante, os movimentos grevistas que tinham caráter praticamente econômico e não obedeciam a orientação de associações de classe, vão ganhando nova dimensão com a fundação de entidades de classe, a princípio sob os títulos de ‘Associação’, ‘União’ e, por fim, Sindicato.
Pulando de estado para estado, vamos ver que as greves tinham sempre uma feição econômica, neste final do século 19. Em São Paulo, operários públicos declararam-se em greve por aumento de salário; o mesmo tendo feito os chapeleiros que pretendiam melhorar seus vencimentos. Na Bahia, os trabalhadores das docas vão à greve no ano de 1897, enquanto Santos era palco duma parede que durou 15 dias, terminando com as investidas policiais e ameaça de intervenção da Marinha e do Exército.
Na Estrada de Ferro Central do Brasil, em São Félix, Bahia, os trabalhadores pleiteiam melhorias salariais e o pagamento em dia, tendo o Governo prometido resolver a questão. Medidas semelhantes são reclamadas no ano de 1898 aos donos da fábrica de fósforos Vila Mariana e da indústria de tecidos “São Caetano”, ambas do Estado de São Paulo. O não atendimento das reivindicações levou os trabalhadores a se declararem em greve. Neste final do século 19 e começo do século 20, processam-se modificações substanciais no setor trabalhista. O aumento de indústrias abrindo novos mercados de trabalho fazem chegar, da Europa principalmente, operários especializados, trazendo idéias novas e novos entendimentos dos direitos humanos” (Rodrigues, 1977, p. 54)
A formação de associações ou “sindicatos” foi constante e esta foi a forma organizativa principal neste período do movimento operário brasileiro. Estes “sindicatos”, entretanto, não eram idênticos aos sindicatos burocratizados do período histórico posterior no Brasil ou aos já existentes na Europa. Tratava-se mais de associações de luta e reivindicações, cuja forma organizativa e objetivos eram bem diferentes dos atuais sindicatos. Tais associações possuíam dois objetivos principais: os imediatos, tais como o “melhoramento das condições presentes, a propaganda associativa e a educação” e o objetivo final, “a emancipação integral do trabalhador” (Rodrigues, 1977, p. 65). Eles não participavam nas lutas partidárias, não aceitavam em suas fileiras patrões, mestres e encarregados, bem como não admitiam funcionários pagos. A administração era composta por cinco pessoas: 1 secretário, 1 tesoureiro, 1 revisor de contas e 2 vogais.
A luta operária a nível internacional foi outro incentivo para as greves, associações e movimentos no Brasil. O anarquismo cumpriu um papel importante, não só na divulgação de suas idéias como também no contato com as lutas do passado e do presente na Europa. Antes da grande imigração italiana para o Brasil, já haviam anarquistas italianos em nosso país. Um dos primeiros foi o médico Libero Badaró, que chegou ao Rio de Janeiro em 1826 e em São Paulo fundou o Jornal Observador Constitucional, o segundo da cidade. Em 1830 ele é assassinado e a Rua Ouvidor passa a ter seu nome. Na Rua Libero Badaró se aglutinavam os anarquistas, que em 1894 planejavam a primeira manifestação no dia Primeiro de Maio no Brasil (Rodrigues, 1984). A Revolução Praieira teve como influência as idéias de Proudhon e no Estado de São Paulo foram fundadas Comunidades de Oleiros, que proporcionaram um trabalho educativo com salas de aula para crianças visando a alfabetização, e artísticos, com peças teatrais anticlericais e revolucionárias (Rodrigues, 1984).
Em 1888 chegou em São Paulo Artur Campagnoli, joalheiro, que comprou uma fazenda e fundou uma comunidade, a Comunidade de Guararema, e chamou para viva na fazenda coletiva diversas pessoas de várias origens nacionais, mas prevalecendo italianos e entre suas atividades, além das produtivas, haviam conferências, palestras, recitais de poesias libertárias, teatro social, alfabetização (Rodrigues, 1984). No entanto, com a deposição de Dom Pedro II, os republicanos decretaram a prisão de Campagnoli, que fugiu e depois retornou, continuando seu trabalho de colaboração com a comunidade vizinha.
Outra experiência comunal foi a da Colônia Cecília. Dom Pedro II, devido ao tratamento de saúde que fez na Itália, passou a ter contato com o anarquista Giovani Rossi, que lhe presenteou com o livro Il Commune in Riva al Mare (A Comuna à Beira Mar). Dom Pedro II ofereceu 300 alqueires no Paraná para que ele fundasse sua colônia. Os jornais anarquistas na Itália anunciaram o acontecimento e muitos voluntários apareceram, entre eles Gigi Damiani e Francisco Gattai, que terão forte influência no movimento anarquista em São Paulo. Em 1890 eles chegavam nos navios italianos (Rodrigues, 1984).
“Reunidos, concordaram em construir casas coletivas para os solteiros e casas pequenas, com um mínimo de conforto, para os casados que as quisessem ocupar, em vez das residências coletivas.
Escolhido e decidido com total liberdade de todos e dentro de uma ordem irrepreensível, sem desconfiança, foi dado início à coleta de ferramentas, e em pouco tempo todos trabalhavam, cada um fazendo o que podia e sabia. Dentro em pouco estavam todos acomodados.
Isto feito, nasceu o grande Barracão, lembrando a Casa do Povo de Milão, onde passariam a reunir-se, debater e decidir coletivamente os trabalhos da colônia.
Tudo se resolvia em assembléias abertas, gerais, com a participação dos habitantes da comunidade.
Para cada nova iniciativa, procedia-se a debates, quer se tratasse de construções de mais casas, do moinho de fubá, da montagem da oficina de sapataria ou de carpintaria, bem como para planejar novas plantações, colheitas, trocas, vendas e compras fora da colônia.
Não havia donos, superioridades culturais e profissionais nem figuras inferiores dentro da colônia, além daquela hierarquia que cada componente carregava consigo, subjetivamente. Cada membro da comunidade, adaptado à nova forma de trabalho, lutava lado a lado com seus companheiros, durante o dia de enxada na mão, e, à noite, trocava idéias, debatia interesses coletivos, sem esquecer o anarquismo, desafiado a viver na prática. Um homem ali, valia um homem!
E no topo da mais alta palmeira da Colônia, tremulava ao vento a bandeira vermelha e preta simbolizando o ideal e os anseios que uniam os fundadores da Cecília” (Rodrigues, 1984, p. 24-25).
As dificuldades encontradas, desde os limites individuais expressos nos valores e idéias da sociedade burguesa que os indivíduos carregavam consigo até os naturais que dificultavam o processo produtivo, não foram suficientes para acabar com a experiência da Colônia Cecília. Mas em 1890 Pedro II foi deposto. Os republicanos começaram a atacar a Colônia Anarquista e a primeira forma como fizeram isso foi cobrar altos impostos, o que fez com que os colonos aumentassem sua carga de trabalho e passassem a trabalhar nas fazendas vizinhas (e muitas vezes trapaceados, pois não recebiam o salário combinado) e até o caso de um roubo de dinheiro, arrecadado para pagar os impostos, feito por um integrante da Colônia. A experiência da Colônia Cecília foi destruída pela ação dos soldados republicanos que, sob o pretexto de procurar um criminoso refugiado, destruiu as obras existentes.
Estas primeiras experiências anarquistas no Brasil – que podem ser consideradas utopistas, isto é, constituídas por utopias abstratas e não por utopias concretas, pois para ser uma utopia concreta, que é aquela que vê no presente os germens do futuro, sua possibilidade concreta, os meios de sua realização, segundo Bloch (Furter, 1974), seria necessário não criar comunidades isoladas mas sim participar do movimento vivo e coletivo de transformação social – abriram caminho para o florescimento de uma cultura libertária e anarquista, que se tornaria muito mais próxima ao movimento operário, tal como ocorreu nos anos seguintes.
Já no final do século 19, cresce o número de militantes e agrupamentos anarquistas. Os imigrantes italianos anarquistas formavam centros de cultura social, grupos por afinidades, escolas para alfabetização de operários. Eles incentivaram a formação de associações, e logo surgiram a dos sapateiros, vidreiros, tecelões, operários da construção civil, etc. As profissões com maior número de estrangeiros eram as primeiras  a organizarem suas associações e o anarquismo passou a ser o símbolo da “idéia mestra da luta de classes”, na ótica do governo (Rodrigues, 1984). Os anarquistas conseguiram realizar a sua primeira grande mobilização no dia primeiro de maio de 1898:
“Os anarquistas resolveram comemorar o dia 1º de maio de 1898, aproveitando a chegada de alguns militantes de valor intelectual, remanescentes da Colônia Cecília, de Guararema e da Europa, como Gigi Damiani, Galileu Botti, Artur Campagnoli, Felix Versand, Vitaliano Rotellini (mais tarde diretor de Fanfulha), Ambrósio Chiodi, Artur Breves, Bernardino Ferraz, Valentim Diego, Alfredo Mari  (diretor de Revesglio), eng. Alcebíades Bertolotti, Estevão Estrella e outros anarquistas e socialistas. Foi uma manifestação estrondosa para a época, principalmente em Santos, São Paulo, Jundiaí, Campinas e Ribeirão Preto, com diversos oradores a falar simultaneamente junto às fábricas, nas praças e em recintos fechados” (Rodrigues, 1984, p. 60).
É neste período que há a expansão das publicações e coletivos anarquistas. O anarquista português Neno Vasco passa a dirigir o Semanário O Amigo do Povo, que passa a ser publicado a partir de 1902 e em 1903 surge A Greve, Jornal Anarquista dirigido por Elysio de Carvalho. Alguns grupos de propaganda surgiram e se destacaram, tais como Germinal, Filhos da Era Anarquista e Pensiero e Azione.
O anarcossindicalismo vai se desenvolvendo e surgem os Congressos Operários. Em 1906 foi realizado o primeiro Congresso Operário Brasileiro. 31 associações compareceram neste congresso, cuja “presença majoritária” pertencia aos anarquistas (Segatto, 1987). Deste Congresso surgiria a COB (Confederação Operária Brasileira). A COB colocava como seus objetivos, a defesa dos interesses dos trabalhadores, sua união e solidariedade, o estudo e divulgação dos meios de emancipação do proletariado, a produção de um jornal, intitulado A Voz do Trabalhador, bem como reunir e publicar informações sobre o movimento operário e as condições de trabalho em todo o país (Pinheiro & Hall, 1979).
As lutas operárias começam a buscar o atendimento de diversas reivindicações, sendo uma delas a luta pela redução da jornada de trabalho. O Congresso Operário de 1906 aconselha a luta pela redução da jornada de trabalho e as primeiras reivindicações neste sentido são realizadas. O não atendimento por parte dos patrões provoca as primeiras mobilizações e greves visando sua concretização. Em maio de 1906, uma greve reivindica a jornada de 8 horas na Companhia Paulista de Estrada de Ferro e Mogyana, e a resistência patronal é violenta, mas acaba cedendo e instituindo a nova jornada de trabalho. Os marmoristas declaram greve no Rio Grande do Sul e os Construtores de Veículos decretam uma greve que terá duração de 30 dias, apesar da pressão policial e patronal.
“Mas o grosso do movimento irrompeu no dia 1º de maio de 1907. A Federação Operária de São Paulo, cumprindo a decisão do Congresso do Rio de Janeiro, prepara uma manifestação pública. A polícia resolve proibi-la e os trabalhadores reunem-se na sede daquele órgão máximo do Proletariado. Na saída da magna assembléia, são presos alguns trabalhadores. A greve explode! Em poucos instantes ganha forma de greve geral. Atinge Santos, Rio Claro, Salto de Itú, Campinas, Ribeirão Preto, São José do Rio Pardo, São Roque, Ipiranguinha, Pilar, Bauru, alargando-se rapidamente até o Rio de Janeiro e outros estados do Brasil” (Rodrigues, 1977, p. 119).
O período de 1906-1908 é marcado por uma espiral ascendente do movimento grevista. Em 1906 houve ainda a greve dos 21 dias em Porto Alegre; em 1908 houve a greve das docas de Santos. De 1909 até 1912 houve uma redução do movimento grevista, sendo que a partir de 1912 já se esboça um novo período de ascensão da luta operária. Em São Paulo, em 1912, houve uma greve envolvendo 100 000 operários. A partir deste período há uma retomada parcial do movimento grevista e seu ápice ocorre com a greve de 1917 em São Paulo. Neste ano, a carestia de vida e a crise das condições de trabalho era o principal assunto da imprensa paulista (Lopreato, 1997). Ao lado disso, a adulteração e falsificação de alimentos pelas indústrias alimentícias produziram vários escândalos neste ano. A greve teve início em junho de 1917 e foi um movimento longo, marcado por paralisações, conflitos, confrontos com policiais, mortes e envolvendo milhares de operários. Foi fundado o Comitê de Defesa Proletária, principal órgão aglutinador e organizador do movimento grevista. Tinha como um de seus participantes Edgar Leuronth, que afirmou que “a greve geral de 1917 foi um movimento espontâneo do proletariado” e que não houve a interferência “de quem quer que seja” (apud. Pinheiro & Hall, 1979, p. 227). Leuronth foi um dos nomes mais expressivos do anarquismo brasileiro deste período, participando da União dos Trabalhadores Gráficos e da imprensa operária, nos jornais Terra Livre, Folha do Povo, A Lanterna e fundou um dos mais expressivos jornais da época, A Plebe.
A difusão das greves ocorreu por todo o país. No Rio de Janeiro, cerca de 50 mil operários entraram em greve e confronto com tropas policiais, que também atacou a sede da Federação Operária do Rio de Janeiro, tida pelas autoridades policiais como “centro dos anarquistas” nesta cidade. Também se desencadeou greves no Pernambuco e Rio Grande do Sul (Bodea, 1980). Em 1919, novas greves seriam desencadeadas em São Paulo. O movimento grevista também foi desencadeado no Rio de Janeiro e Porto Alegre. No Rio de Janeiro houve uma tentativa de insurreição armada incentivada por anarquistas, mas a repressão policial impediu o seu desencadeamento (Rodrigues, 1988; Rezende, 1990). A Greve de Maio em São Paulo contou com cerca de 50 mil trabalhadores (Rezende, 1990) e foi acompanhada por greves em Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Recife.
Os militantes anarquistas exerceram forte influência em todo o movimento operário deste período e duas correntes do pensamento anarquista se destacavam: o anarcossindicalismo e o anarco-comunismo. A corrente anarcossindicalista propunha a ação revolucionária via sindicatos. Seu principal órgão de divulgação foi o jornal O Amigo do Povo e tinha como militantes figuras conhecidas como Edgard Leuronth, Neno Vasco, José Sarmento Marques e Giulio Sorelli (Lopreato, 1997). Em 1905 fundaram a Federação Operária de São Paulo e o anarcossindicalismo era a corrente hegemônica no movimento operário paulista.
A tendência anarco-comunista tinha como principais órgãos de divulgação os jornais Il Risveglio (1889) e La Battaglia (1904). Os militantes mais conhecidos desta tendência foram Gigi Damiani, Oreste Ristori, Alessandro Cerchiai, Angelo Bandoni e Florentino de Carvalho. Eles criticam os anarcossindicalistas e viam com cautela a participação em sindicatos, que poderia, segundo eles, desencadear no reformismo e nas lutas por questões imediatas, o que poderia significar o abandono do objetivo final, a abolição do capitalismo e instauração da anarquia.
Apesar disso, as duas tendências colocavam ênfase na ação direta enquanto estratégia de luta:
“A ação direta contrapõe-se ao parlamentarismo e a qualquer outra forma de representação política. Ela expressa a crença de que o proletariado só se libertará quando confiar na influência da sua própria ação, direta e autônoma, prescindindo de intermediários no conflito capital/trabalho. Isso significa que a classe trabalhadora nada deve esperar das forças externas a ela mesma. É ela que deve criar suas próprias condições de luta e os seus meios de ação. As estratégias de ação direta são o boicote, a sabotagem e a greve. No entanto, a greve é considerada a mais rica em ensinamentos porque explicita os interesses contraditórios entre o patrão e o empregado, rompe a ‘harmonia’ existente entre eles e faz aparecer a luta de classes. Para fazer greve, o trabalhador tem de vencer a si mesmo sobrepondo-se à alienação, ao seu costume de submissão e passividade diante do patrão que se quer inatingível. Como ação coletiva, desenvolve o sentimento de apoio mútuo, estreita os laços de solidariedade e ensina aos trabalhadores que para melhorar a sua sorte e transformar a sociedade é preciso a união dos esforços de todos” (Lopreato, 1997, p. 13).
No entanto, a compreensão da radicalidade e força do anarquismo brasileiro deste período nos remetem ao contexto sócio-histórico em que emergiu. A radicalidade e proeminência do anarcossindicalismo não podem ser dissociadas do período em que isto aconteceu. Os sindicatos eram instituições em formação, nascidos na/da luta contra o capital, e oriundas das associações operárias anteriores. O processo de burocratização dos sindicatos, que ocorre no período posterior a 1919, teve duas raízes importantes. Aqui se repete o ocorrido na Europa alguns anos antes, dependendo do país. Os sindicatos nascem na luta contra o capital e tendo a oposição deste, mas, posteriormente, através do Estado capitalista, sua legislação e regularização, exerce-se uma ação burocratizante sobre estas instituições e isto é reforçado pela ação dos partidos políticos, especialmente, mas não unicamente, os que se dizem de “esquerda”, a começar pelos partidos comunistas e socialistas. Após 1919, tanto o Estado capitalista, quando os partidos políticos irão exercer este papel burocratizante. O PCB irá ter um papel fundamental neste sentido, pois o seu crescimento ocorreu justamente com o refluxo do movimento operário e a desilusão que levou muitos anarquistas a trocarem o anarquismo pelo bolchevismo (o que foi facilitado, sem dúvida, pela vitória bolchevista em 1917 na Rússia).
O anarco-comunismo realiza a crítica ao anarcossindicalismo tal como ele existia naquela época e, naquele contexto, a grande questão era a luta se situar apenas nas reivindicações imediatas, abandonando o objetivo final, a transformação social. Neste sentido, o anarco-comunismo também cumpriu um papel importante nas lutas operárias do início do século 20, ao lado do anarcossindicalismo mas buscando manter vivo a essência da luta libertária.
O processo de desenvolvimento capitalista no Brasil, com o aprofundamento de suas instituições (Estado, legislação, etc.) e o amplo processo de burocratização e mercantilização das relações sociais, abre um novo período de lutas sociais e de fortalecimento das forças conservadoras em nosso país. Os sindicatos e os partidos são apenas os exemplos mais visíveis de todo este processo que abrange, cada vez mais, o cotidiano dos trabalhadores, tal como o lazer, o futebol, o tempo livre, que passam cada vez mais a ser apropriado pela burguesia e suas instituições, no qual o último reduto de autonomia e liberdade proletária se vê controlado, mercantilizado e burocratizado. Ao invés de jogar futebol de várzea com os demais trabalhadores, o operário passou a ir aos grandes estádios de futebol ver o espetáculo futebolístico, isto é, de agente ativo passa a agente passivo, de participante a espectador. As outras formas de lazer, antes predominante, foram sendo paulatinamente destruídas, restringidas. O piquenique e seu caráter coletivo acaba se tornando cada vez mais uma raridade. A imprensa operária não consegue competir com os grandes jornais burgueses que com toda a sua estrutura proporciona uma homogeneização da informação, de acordo com os interesses dominantes. O operário e o militante deixam de ser produtores de notícias para serem leitores. Estes poucos exemplos mostram a mudança social e o contexto desfavorável ao anarquismo e ao socialismo libertário no período pós-1919, o que fica ainda mais forte a partir de 1930, como o chamado “Estado Novo”, a revolução burguesa tardia no Brasil.
No entanto, a riqueza das lutas operárias e a contribuição anarquista não só trazem lições, memórias, escritos, laços afetivos de velhas lutas, mas também a visão da possibilidade de se re-conquistar a autogestão de suas próprias lutas no sentido de concretizar a autogestão social, mesmo nas condições mais adversas. A luta de classes é esse revezamento constante entre apropriação, expropriação e reapropriação da luta operária. O movimento operário foi expropriado de sua autogestão das lutas, mas sempre acaba reconquistando-a, e nessa luta permanente, almeja abolir esta situação com a concretização da transformação radical e instauração de uma nova sociedade, fundada na autogestão social.



Referências Bibliográficas
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* Professor da UEG – Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia/UnB.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

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