domingo, 2 de agosto de 2015

A Revolução dos Ignorantes


A REVOLUÇÃO DOS IGNORANTES
(CONTO)

Nildo Viana

Empiricus Estericus era um pesquisador renomado nacionalmente e conhecido até mesmo no exterior. Era o grande intelectual de Burolândia. A sua fama incomodava todos os seus concorrentes, ou melhor, colegas. Ele também se incomodava com os demais, principalmente aqueles que tinham um currículo com mais de duas páginas. Ele sempre desprezava aqueles que são meros “ensaístas” ou “teoricistas”, pois, segundo sua concepção, somente a pesquisa empírica, quantitativa, era científica e exata.

Por esse motivo, e por suas posições pouco democráticas na sua universidade, bem como seu boicote às greves, ele era considerado muito conservador. Um dia, um analista, amigo dele, disse que desse jeito ele não competia direito, pois a disputa acadêmica é uma coisa mais absurda do que uma mera discussão casual, sendo algo transcendental. Ele precisa transcender o seu público cativo e cativar outro público. Foi nesse momento de rara lucidez que ele teve a brilhante ideia de mudar as temáticas com as quais trabalhava. Nada de opinião dos eleitores, dos garis, dos taxistas! Para perder a imagem de conservador e ter um público cativo mais amplo, era preciso inovar e surpreender. Foi assim que ele decidiu fazer uma pesquisa empírica nada comum em sua carreira: analisar as lutas de “classes” (as aspas é porque tal conceito não é empírico...) no país vizinho: Burrolândia.

Era o país ideal para se fazer pesquisa empírica, pois era minúsculo e poderia entrevistar e aplicar questionário em relação a um percentual elevado de pessoas. Ele pediu licença e foi fazer sua pesquisa inovadora e que lhe abriria novas portas para o sucesso acadêmico mundial.

No entanto, Estericus nunca pesquisou sobre “luta de classes” e nem sabia bem por onde começar. Claro, se ele não fosse empiricista, começaria lendo os autores que trabalhavam com a teoria da luta de classes, mas isso seria “teoricismo”. Então ele decidiu fazer pesquisa empírica com os “atores” que falavam da tal luta de classes, pois, no fundo, ele só iria reproduzir os discursos dos referidos “atores”. Ele descobriu dois partidos que ainda usavam esse discurso ultrapassado: O PIU e o PIG.

O PIU era o Partido dos Iluminados Unificados, marxista-leninista-stalinista-maoísta-trotskista-mandelista-morenista-lambertista-posadista. No fundo, tal partido tinha nove pessoas e cada um pensava uma coisa diferente, mas o secretário geral, que era stalinista, junto com o maoísta e o leninista, os outros componentes do todo-poderoso Comitê Central, decidiam tudo no partido, apesar de ser a minoria, mas eles sempre conseguiam impor ou ganhar o voto do trotskista e do trotskista-morenista e do trotskista-posadista, quando eles apareciam no Congresso Nacional do Partido dos Iluminados Unificados. Como Burrolândia era um país muito pequeno, então todo partido da capital era nacional, pois ela era a única cidade do país.
O PIG não era um porco, como diziam os adeptos do PIU. Este sim, era pig, digo, porco, pois eles é que se encaixavam na narrativa orweliana da “Revolução dos Bichos”, tal como diziam os militantes do PIG, uma das poucas obras literárias lidas pelos membros desse partido. A sigla significava Partido dos Ignorantes ou Partido Ignorante, pois eles ignoravam o nome exato do partido. Também ignoravam se o “G” era por causa que vinha depois do “I” na palavra ignorante ou se era por algum outro motivo. E eles ao “explicarem” isso, diziam que ninguém poderia falar de incoerência dos ignorantes, pois a ignorância, digo, coerência, era total.

O PIG era extremamente numeroso. Tinha um milhão de filiados. Para um país com um milhão e quinhentas pessoas, o indivíduo ou era do PIG ou do PIU, sobrando 491 pessoas, que eram o resto da população. Claro, tinha o terceiro partido, o PORCO – Partido Ortodoxo Renovador Capitalista Operário, assumidamente de direita e que afirmava não existir luta de classes e, portanto, excluído da pesquisa de Estericus. Inclusive, Estericus, no início, começou a ficar histérico, afinal todo mundo nesse país acusava o outro de porco, mas nenhum se assumia como porco! Se ninguém assumia que era porco, então não havia porco! Mas como explicar que todo mundo falava de porco? O porco é sempre o outro. Para sair desse dilema, que nem o cinema e os cantores de rock podem resolver, Estericus teria que sair do empírico e isso é não-científico, tal como a teoria do mais-valor, de Markis, ou do inconsciente, de Froid, dois não cientistas. Isso seria fazer pesquisa estéril. Estericus se recusava a isso, ele só queria pesquisa empírica.
O PORCO tinha 100 filiados e era o partido do governo. Ninguém entendia bem como um partido tão pequeno, só não tão pequeno quanto o PIU, sempre ganhava as eleições e controlava o parlamento e todo o país. O PIU explicava isso pelo motivo de que o PORCO era capitalista (também chauvinista...), tinha muito dinheiro, o poder financeiro, os meios oligopolistas de comunicação, a imprensa em geral, o aparato governamental, o apoio estrangeiro (EUA, FMI, BM, IBM, BBC, NBC, URSS, ONU, OIT, PT, PSDB, PMDB, PQP). O PIG já explicava de forma diferente: o PORCO estava no poder por causa da ciência, do positivismo, do marxismo, da teoria, da cultura ocidental, que dominava a sociedade burrolandesa. Estericus concordou com essa segunda tese, pois ela era mais empírica e por isso descartou o PORCO de suas pesquisas.

Estericus pensou na metodologia de sua pesquisa empírica e decidiu fazer: a) entrevistas; b) questionários; c) observação participante. Ele logo desistiu, pois a sociedade borrolandesa estava passando por uma crise e ameaça de revolução e os únicos que responderam os seus questionários e aceitaram conceder entrevistas foram os integrantes do PIU e do PORCO, e mais meia dúzia dos 391 inclassificáveis que compunha o resto da população.

Tendo em vista todos esses obstáculos, Estericus resolveu buscar apoio dos seus colegas cientistas sociais da UFB – Universidade Federal de Burrolândia, a única existente, na única cidade do país, e, por isso, “federal”. Ele precisava entender melhor a realidade nacional e por isso os especialistas e pesquisadores empíricos eram os mais adequados. Para ter uma visão mais abrangente, resolver procurar um antropólogo para falar da cultura burrolandesa, um sociólogo para falar das relações sociais em Burrolândia e um cientista político para falar da política local. Mas ele não queria conversar com qualquer um, queria encontrar os mais renomados – e neutros – cientistas sociais da referida universidade. O primeiro que ele contatou foi o grande antropólogo Levi Strouxa, um dos poucos cientistas que era conhecido fora de Burrolândia.

Levi Strouxa explicou que a maioria da população de Burrolândia era analfabeta. Ele estimava 90% de analfabetos. Empiricus disse entender então porque ninguém respondia seus questionários, mas Strouxa lhe explicou que todo mundo no país sabia ler e escrever. Estericus teve outro ataque histérico: analfabetos não sabem ler e escrever!! Isso era contradição e negação da lógica formal! É um crime intelectual afirmar isso e passar impune! Strouxa, com toda paciência, afinal ele queria ir para o país de Estericus como professor visitante, explicou que eles eram analfabetos funcionais e disfuncionais. Estericus se acalmou e disse que “funcionais” ele entendia, estava nas pesquisas norte-americanas, mas “analfabetos disfuncionais” ele não sabia o que queria dizer. Strouxa explicou que esses eram o contrário dos funcionais. Os funcionais saber ler mas não entendem, os disfuncionais são divididos em quatro tipos: os que entendem mas não leem; os que entendem mas não sabem ler; os que entendem, sabem ler, leem, mas são funcionários públicos e matam serviço e por isso só leem fora do trabalho; e por fim os professores, cuja maioria entende, mas só leem livro didático e durante o trabalho. Estericus considerou interessante e isso lhe ajudou a repensar sua pesquisa, abandonando definitivamente entrevistas e questionários e passou a focalizar mais a observação participante.

Ele também procurou o cientista político Samuel Ruindinton. Este lhe explicou por qual motivo o PORCO estava no poder. Segundo Ruindinton, nas eleições em Burrolândia, se usava cédula de papel, pois o país não tinha dinheiro para ter urnas eletrônicas. Na hora da votação, aparecia apenas o nome do partido e seu símbolo. Os eleitores que decidiam qual candidato seria presidente, etc. votavam apenas na sigla partidária e eles eram analfabetos funcionais e disfuncionais, sendo que os primeiros viam a sigla e o símbolo (um porco, uma foice e um martelo e um ponto de interrogação, simbolizando o PORCO, PIU e PIG, respectivamente). Os analfabetos funcionais escolhiam pelo símbolo e o porco era o preferido, pois lembrava alimentação, enquanto que a foice e o martelo era muito mal visto por eles, afinal, representava trabalho e o ponto de interrogação não significava nada para eles. Os analfabetos disfuncionais votavam maciçamente no porco, porque era o primeiro da lista e aí não tinham que ler ou olhar o resto.

Estericus ficou muito contente com as informações empíricas fornecidas pelo antropólogo e pelo cientista político. Agora já estava compreendendo melhor a cultura e a política burrolandesa. Mas ainda faltava algo e por isso foi consultar, assim como Darwin consultou jardineiros, um sociólogo. Ele conversou longamente com o mais famoso sociólogo burrolandês, Sigismundo Barman. Barman explicou que a colonização de Burrolândia deixou traços irremovíveis na sociedade burrolandesa, no caráter (ou na falta dele) nacional. Alguns sociólogos entendiam que a colonização gerou falta de caráter, nacional, enquanto que outros, diziam que se criou um caráter nacional marcado pela resistência. Para os primeiros, a falta de caráter nacional era visível, por exemplo, nos baixos índices de leitura e no analfabetismo funcional e disfuncional, pois todo mundo assistia televisão durante a maior parte do dia, com raras exceções, que eram as dos que ouviam rádio. Para os outros sociólogos, o caráter nacional dos burrolandeses era inegável e sua relação com a colonização se dava pela resistência: eles recusavam a cultura ocidental, branca, masculina, heterossexual, de classe média e por isso havia tantas pessoas no PIG, tantos analfabetos funcionais e disfuncionais, etc., pois eles se recusavam a usar ou valorar o símbolo máximo da cultura ocidento-branco-masculo-hetero-média ocidental: a escrita e seu complemento necessário, a leitura.

Barman discordava das duas concepções. Para ele, o caráter nacional burrolandês era marcado por elementos nativos e alienígenas. O elemento nativo era a burocracia informal, pois a sociedade burrolandesa era a única no mundo que não tinha ou sabia, pois ninguém sabe ao certo isso, nem Barman, constituição federal, legislação, regimentos. Ele citou uma pesquisa que fez sobre a própria UFB e que tinha um rei-tor, digo, reitor, que era igual ao de uma universidade estadual de Burolândia, tomou posse, em vários sentidos, da universidade, empregando funcionários fantasmas, tal como a esposa, com altos salários. Ele disse que usou o método comparativo justamente para mostrar o caráter especificamente nacional do burrolandês. A comparação mostrou que corrupção, autoritarismo, submissão ao governo, favoritismo, clientelismo, sadismo, masoquismo (citando o famoso psicanalista Jack Loucan, incompetência treinada (citando o famoso sociólogo Max Vader, autor de O Lado Escuro da Burocracia) em ambas as universidades. No entanto, a pesquisa mostrou também a diferença. No caso da universidade burolandesa, haviam regulamentos, regimentos, leis estaduais e nacionais, etc. e no caso da universidade burrolandesa, não havia nada escrito. O Reitor era um verdadeiro rei numa monarquia não constitucional.

O elemento alienígena é característica do que Barman chamava Modernidade Reciclada, título de sua obra mais famosa. Ele começou indo com o modismo e defendeu a existência de uma pós-modernidade. Depois, para aumentar sua capacidade de competição, que é muito mais profunda que uma discussão casual, e se caracteriza por todo mundo querer levar vantagem em tudo (se isso é certo ou errado, é a lei que diz, tal como o famoso jurista Gérson já havia dito), precisaria de dizer algo novo. Esse algo novo, mais que moderno, quase pós-moderno, ele encontrou com a ideia de modernidade reciclada, a atual fase da sociedade moderna. Segundo Barman:
A modernidade reciclada é aquela dos três erros, digo, erres. Mas os erres não são para o leitor errar e sim da letra erre, que também deve ser entendida não para errar a letra e sim uma delas especificamente. Por mais que isso seja confuso, isso é justamente a modernidade reciclada, que começa como primeiro erre, que é a inicial de reduzir. Isso é tão comum na modernidade reciclada que virou modismo: os governos neoliberais querem reduzir gastos e custos, alguns indivíduos querem reduzir o estomago, os movimentos sociais querem reduzir as opressões, os vizinhos querem que você reduza o volume do aparelho de som e assim por diante. O segundo erre é de reutilizar. Esse é outro modismo da modernidade reciclada. Os governos neoliberais querem reutilizar a repressão, alguns indivíduos querem reutilizar o shopping center todos os dias, os movimentos sociais querem reutilizar o mesmo discurso de sempre, os vizinhos querem que você reutilize o wi-fi aberto para eles captarem o sinal. O terceiro erre é de reciclar, elemento fundamental e ultramodismo na modernidade reciclada. Os governos neoliberais reciclaram as políticas de assistência social que de macro passaram para micro, alguns indivíduos reciclaram ideias velhas dando-lhes roupas novas (ou seja, transformaram algumas ideias modernas em “pós”-modernas), os movimentos reciclaram seus erros com nova linguagem e os seus vizinhos querem que você recicle o seu lixo ao invés de jogar no quintal deles. O objetivo fundamental da modernidade reciclada é a sustentabilidade: do governo, dos ideólogos, do capital, do dinheiro, do crédito, ou seja, dela mesma.
Barman, depois disso acabou escrevendo O Amor Reciclado, O Medo Reciclado, A Vida Reciclada, entre outros livros que ele reciclou mudando parte do título. Ele planejou sua grande obra, o Pensamento Reciclado, no qual ele pegava as suas ideias do passado e as reciclava para dizer que as ideias devem ser recicladas, tal como ele falava e fazia, fazia e falava, numa verdadeira unidade entre teoria e prática. O pós-modernismo (ou pós-estruturalismo) modernizou o modernismo, pois retomou Nitti e mais alguns modernos, deixando outros de lado, irrecicláveis, como Markis, e pronto, criou um pensamento reciclado, o mesmo que não é o mesmo, embora seja e não seja, se bem que essa ideia ele pensou em abandonar, pois parecia muito doutoral e poderia lembrar um conto satírico com a academia, chamado O Doutor.

O elemento alienígena é justamente a modernidade reciclada, pois lá o PORCO reciclava o governo em todas as eleições, o PIG e o PIU reciclavam seus discursos, os ignorantes reciclavam sua ignorância assistindo televisão e observando as discussões profundas de facebook, os estudantes reciclavam seu saber quando saiam do ensino básico para o médio e assim por diante. Estericus considerou interessante a tese da modernidade reciclada, pois ela era muito empírica. Nesse momento, ele julgou que estava pronto para começar o seu relatório de pesquisa, pois o seu foco seria mostrar como nada mudava em Burrolândia, no máximo se reciclava, especialmente o elemento nativo, a ignorância. Por isso, a revolução era algo impossível, nada de novo aparecia na frente burrolandesa.

Estericus acordou pela manhã e não entendeu nada. Aquilo não era nada empírico. Pessoas ativas e sorridentes nas ruas, faixas, cartazes, pichações, manifestações pelas ruas. Aquilo era incompreensível: por qual motivo o povo parecia alegre? O que significavam aqueles cartazes escritos coisas criminosas como “abaixo o estado!”, “fora governo”, bem como pichações nos muros, com dizerem que pareciam de outro mundo: “a ciência é uma mercadoria”, “a liberdade começa com a luta”. Ele só teve ideia do que estava acontecendo ao anoitecer e assistir o jornal do canal de televisão mais assistido do país (que igual aos partidos, só tinha três): TV Lobo. No Jornal do Lobo um grande intelectual televisivo, Agnaldo Jabobo, explicava o fenômeno: vandalismo, aquilo era um completo vandalismo e tinha que ser punido e o governo não fazia nada. De repente, uma mão aparece e um papel é rapidamente lido por Jabobo que volta a falar:
Como eu ia dizendo, essas manifestações são a mais autêntica expressão da nossa rica e alegre democracia, vamos todos amanhã para as ruas, pois seria muita ignorância ignorar o ignorável, ou melhor, o iningnorável, se é que existe essa palavra, coisa que ignoro. O problema, como dizia, é apenas alguns vândalos que ficam atrapalhando a festa democrática, como penetras que estragam a festa alheia, como se eles fossem parte do povo, e não são! Bom, não sei bem o que são, pois também ignoro isso, mas povo não são!
Isso não foi suficiente e por isso Estericus assistiu o Jornal do Lobo, segunda edição, que passava meia noite e mostrava novas manifestações. Um historiador da UFB, Lenine Rasputin Mauzzeo, foi entrevistado e solicitaram para ele explicar o que estava acontecendo. Ele era do PIU e todos esperavam um discurso favorável às manifestações, mas ele disse que aquilo era vandalismo e que é preciso retomar a ordem e o progresso e isso só pode acontecer através da democracia e do voto. Estericus ficou totalmente sem saber o que se passava. Telefonou para Barman e disse que não estava entendendo nada, aquilo parecia uma mudança, mas isso é impossível e pediu a opinião do mais famoso conhecedor de Burrolânia. Barman lhe disse:
Isso que está acontecendo é nada mais que o carnaval reciclado, agora sem fantasia, sem samba enredo, sem mulheres nuas e ao invés de fantasias tinham realidades. Contudo, isso não é mudança, é permanência e eterno retorno do mesmo, pois essa realidade logo voltaria a ser carnaval novamente, os cartazes e faixas passariam a ser bandeiras, os manifestantes voltariam a ser porta-bandeiras, as palavras de ordem se transformariam em samba enredo e tudo terminaria em pizza e samba, o que era típico de Burrolândia.
Estericus disse que ainda não estava entendendo, pois a comparação com o carnaval não parecia empírica e algo parecia estar mudando e não apenas reciclando. Barman ficou irritado e falou que se ele quisesse falar de “revolução”, que procurasse os intelectuais engajados e esquerdistas de Burrolândia, como Paulo Matias. Estericus decidiu procurar esse outro sociólogo da UFB.

Estericus conversou com Paulo Matias. Este era marginalizado na UFB, pois não era considerado “neutro”, nem “empírico”. Estericus estava querendo entender aquela ascensão das lutas sociais, ou da “luta de classes” e a conversa com os outros cientistas sociais não ofereceu informação suficiente. Matias explicou que discordava da interpretação dominante de Burrolândia, segundo ele empiricista e ideológica. Matias disse que a interpretação dominante parte da “ignorância generalizada” como algo “dado”, algo “empírico”, e não como Markis, que compreende os fenômenos sociais como algo concreto, inserido numa totalidade e possuindo uma historicidade, processo de formação, o que remete a determinação fundamental e múltiplas determinações. Estericus, que também era sociólogo, não entendeu muito do que foi dito, pois ele dava aulas sobre Markis, mas pulava o método dialético por ser pouco “empírico”. Contudo, a razão principal é por não entender nada disso, apesar de não falar isso para ninguém, a não ser para sua esposa, a Mínima Moralia, que me contou.

Matias disse, então, que a ignorância generalizada é produto da “cultura da ignorância”, que reinava em Burrolândia. Mas, acrescentava, essa tinha que ser explicada e a sua explicação remetia para a luta de classes e os interesses de classes e suas subdivisões. Estericus lembrou de já ter ouvido falar disso em “sociologia do conhecimento” (e até pensou a razão de não existir uma “sociologia da ignorância”), com as análises de Markis, Malraime, entre outros. Os dominantes, continuava Matias, tinham interesse na ignorância. O PORCO tem interesse na cultura da ignorância, pois é isto que lhe permite ganhar as eleições e se manter no poder. O PIG também tem esse interesse, embora não saiba muito bem por qual motivo, mas deve ser, segundo os discursos deles, por estar na sigla partidária e isso lhe proporcionar um milhão de filiados (embora a maioria, parece que por ignorância, não votem nele). O PORCO e o PIG se complementam, como principal partido da situação e principal partido da oposição, embora só tenha dois na oposição. É possível dizer que a cultura da ignorância seja interesse só do PIG, que é o Partidos dos Ignorantes, mas, argumenta Matias, isso não é bem assim: O PIG tem um milhão de filiados, mas é o PORCO que tem um milhão de votos! O PIG acha que é oposição por defender a ignorância, e o PORCO, que tem o poder financeiro, controla os meios de comunicação, etc., é que divulga e permite a hegemonia da ignorância, como diria o intelectual italiano, Gramischico.

Mas, continua Matias, o que as pessoas não percebem é que o PIU também tem interesse na cultura da ignorância. Ele faz discurso contra o governo, cita Markis, superficialmente e sem entender nada, mas faz isso e não contribui uma linha para a superação da ignorância, própria ou alheia. É que seu interesse/objetivo é ser a vanguarda dos ignorantes, tese segundo a qual, os menos ignorantes devem dirigir os mais ignorantes para a tomada do poder estatal. São os menos ignorantes que devem criar a consciência socialista e injetá-la nos mais ignorantes. Ora, a única justificativa para o PIU ter esse papel é que eles possuem os menos ignorantes, também chamados de iluminados, e se os mais ignorantes se tornassem menos, eles não teriam mais nenhum papel dirigente. Em síntese, todos os três partidos possuem o interesse de manterem as massas em seu estado de ignorância.

No entanto, o PORCO é o partido da classe dominante e para governar precisa de um mínimo de inteligência. Por isso, a ignorância é apenas discurso para o público externo, as classes desprivilegiadas, os partidos de oposição, etc. É por isso que a maior parte dos intelectuais do PORCO estuda no exterior, para aprender alguma coisa, pois na UFB, “aprender” é algo que não se sabe o que é e reina uma verdadeira ignorância sobre “alguma coisa”. O PORCO e a classe dominante preparavam técnicos, cientistas, entre outros especialistas, que apesar de certa ignorância, pelo menos sabiam fazer a roda rodar. Inclusive, na única vez que o PIG ganhou a eleição, quem governou foi o PORCO, afinal, eram seus técnicos, seus políticos profissionais, seu programa de governo, etc. Do PIG só tinha o presidente envergonhando o país no exterior com suas gafes e afirmações extremamente ignorantes.

Essa cultura da ignorância, uma vez existindo e sendo hegemônica, acabava se generalizando na sociedade burrolandesa. Até mesmo três dos quatro grupúsculos de esquerda reproduziam o discurso a favor da ignorância. Um deles, o ANALFA, Anarquistas Libertários Federados e Ácratas, escreviam, cita Matias, em sua Carta de Princípios:
“A revolução é uma necessidade! Mas quem faz as revoluções? O grande Babakunin já respondeu isso. Os porcos quando fazem revoluções, fazem porcaria! Por isso é o povo que deve fazer a revolução! Viva o Poder Popular! Precisamos estar junto com o povo, pelo povo e para o povo! E o povo é ignorante. Quem não é ignorante não pode fazer parte de revolução! Viva o povismo! E se o povo é ignorante, sejamos ignorantes também!! Viva a revolução dos ignorantes!!! Viva o Povo! Viva o povismo!”.
Matias disse que outro grupúsculo, o FANALSIN, Federação Anarquista Nacional Libertária Sindical, de tendência sindicalista apesar de não ter nenhum sindicato (e tudo indicava que eles ignoravam isso), tinha diferenças, mas também semelhanças com o ANALFA. Afinal, os grandes mestres falaram, a milhares de anos atrás, que é através dos sindicatos que se fazia a revolução e por isso estão certos, é verdade, e só resta os ignorantes revolucionários seguir os revolucionários ignorantes. O FANALSIN, tinha congresso nacional (não custa recordar que Burrolândia só tem uma cidade...) sem sindicato e sindicalista. Isso mesmo: sem sindicato e sindicalistas, mas tinha o síndico do prédio onde havia o apartamento de um dos seus 4 integrantes e que depois ouviam rock pauleira e ele tinha que ir lá pedir para abaixar o som. Os sindicatos ignoravam o FANALSIN e este condenava todos que discordavam deles, incluindo os outros grupúsculos, pois não entendiam os ensinamentos dos mestres Babakunin e Malnatesta.

O terceiro grupúsculo era o VIVIVI, Viva a Vida Vivendo. Eles liam de tudo, quando liam, o que era muito raro. Uma parte vociferava contra a cultura ocidento-branco-masculo-hetero-média ocidental e obviamente, a razão em geral, bem como a leitura e a escrita. Eles leram isso em algum lugar, apesar de serem contra a leitura. Havia boatos de que eles eram financiados pelo PORCO. Mas boatos são boatos. Se acreditarmos neles vamos acabar achando que é verdade aquele boato de que o Movimento de Emancipação dos Quadrúpedes é financiado pela Churrascaria Boi na Brasa. Isso é totalmente sem sentido, embora o boato também diga que é para incentivar pessoas irem à churrascaria e comer a verduras e assim comer menos carne, afinal, essa é mais cara e todo mundo paga rodízio, mesmo que seja só para comer alface. Assim, a família poderia se reunir, incluindo os do tal movimento, e pagar mais caro e a churrascaria lucrar mais. Matias disse que essa tese era funcionalista, mas até que podia funcionar.

Voltando ao VIVIVI, eles eram contra a tal cultura ocidental, pois como aprenderam, se é que aprenderam, com o grande filósofo francês, Machel Fumô, um dos grandes nomes da cultural ocidental, cada um luta no seu lugar e sem teoria. A teoria só serve para atrapalhar a luta dos oprimidos e beneficiar o poder. Alguns deles eram funcionários estatais e bem pagos, outros tinham cargos muito rentáveis na burocracia da UFB. Fumô era a grande influência, principalmente nesta passagem:
A teoria é coisa do poder. A organização é coisa do poder. O povo é coisa do poder. O povo não existe! O povo é uma abstração, pois o que existe é o indivíduo e grupos de indivíduos. Esses indivíduos e grupos, quando pensam que são o povo, estão ignorando que não são o povo. Os loucos, por exemplo, não são povo. Os loucos são poucos e não tem os mesmos interesses que o povo. Os loucos não podem ter teoria, devem ignorá-la, senão vão descobrir que são realmente loucos! Isso seria uma loucura! Os loucos também não podem ser organizar, devem ignorá-la, senão não serão mais loucos! Aí não terão identidade e nem motivo para lutar! Eles deixariam de ser loucos e isso seria uma loucura muito maior! Nada de união dos loucos, nada de organização, nada de teoria. O que todos devem fazer é lutar por seus interesses. Não os interesses do povo, que é muita gente e não dá para atender os interesses de todos. Eles devem ser loucos smithianos, pois cada um defendendo os seus interesses pessoais, egoisticamente, acabam beneficiando o todo, o povo. Esse é o erro do Sr. Adão Smith e de seu discípulo Will Robinson: o povo não existe e por isso não pode ser beneficiado. Logo, cada um deve defender apenas e estritamente (egoisticamente) seus interesses pessoais e se beneficiar, o que já tá de bom tamanho e é a única coisa que se pode fazer. E os interesses do grupo? Ora, cada um deve defender seu interesse pessoal falando que é interesse do grupo e pronto, está tudo resolvido, o grupo não ganha, mas o indivíduo ganha, pois, no fundo, o grupo não existe. Síntese geral: busque desesperada e unicamente seus interesses pessoais, mas falando em nome do grupo, pois é isso a única coisa que interessa e é o que eu faço.
Existiam mais 20 posições políticas diferentes dentro do VIVIVI, que só tinha dez pessoas. Isso mostra o alto grau de ignorância que reinava nela e era a única coisa coerente nesse grupúsculo: a ignorância. O VIVIVI entravam em confronto com o ANALFA por causa do povo, o primeiro não queria nada com o povo e o segundo queria tudo para o povo. Inclusive, alguns do ANALFA até votavam no PIG por causa que o povo votava, embora o mais correto seria votar no PORCO, que ganha mais voto do que o outro.

O FANALSIN propôs o fechamento da UFB, que era uma instituição burguesa, reprodutora da ignorância burguesa e não dava espaço para a ignorância popular.  Matias comentou a contradição desse grupúsculo: eram estudantes universitários que formaram, na universidade, uma federação sindical sem sindicalistas e queriam fechar essa instituição por ser burguesa. Era uma proposta de troca da universidade real pelo sindicato ideal, do existente pelo inexistente.

Todos estes grupúsculos estavam reproduzindo a cultura da ignorância, que serve ao poder, sem saber, pelo menos o FANALSIN e o ANALFA. Os outros eram menos ignorantes, pelo menos nesse aspecto. Enfim, só existia um grupúsculo que não defendia a apologia da ignorância. O nome do grupo é ignorado por todos, mas diziam que eles publicavam livros, revistas, panfletos, ofereciam cursos, oficinas, seminários, em diversos lugares, visando contribuir para diminuir a ignorância e conseguiam alguns resultados e simpatizantes. Inclusive Estericus descobriu um boato, e os boatos são boatos, que Matias era um dos integrantes de tal grupúsculo, mas não teve coragem de perguntar, pois isso seria um atentado à neutralidade.

No dia seguinte, logo pela manhã, Estericus ouve na Rádio Internacional que confrontos de ruas deixaram mortos e feridos. O PORCO clamou pela intervenção militar e o PIG exigiu eleições gerais e nova assembleia constituinte. O PIU não deu um piu, mas algumas horas mais tarde defendeu que o povo, dirigido por eles, deveriam pegar em armas e tomar o poder estatal. Estericus acompanhava tudo por rádio, TV, Internet, no Hotel Vitória, onde estava hospedado. Na hora do almoço, olhou o Menu e pelo telefone solicitou: “eu quero porco assado”. Ele foi denunciado pelo atendente, sendo que a polícia bateu em sua porta com a acusação que ele estava pregando revolução para os cozinheiros do hotel, atacando o governo e seu partido, o PORCO. Depois de uma hora de explicação que se tratava de um animal para alimentação e não de um partido político, para poder ser liberado. Os noticiários anunciavam que nas ruas existiam pelo menos dez grupos se digladiando e, ao que tudo indicava, sem saber por qual motivo. Alguns queriam revolução e outros intervenção militar, mas tinham outros querendo assistir o show do grande humorista Flávio Porcoarte e outros queriam impedir tal show por causa de suas ligações com o PORCO (ou com o PIG, ninguém sabia direito) e ainda tinha um terceiro grupo que queria a substituição desse show pelo do outro grande humorista, o Gregochoro Dumorrier.

A confusão era geral. As lojas, mercados, shopping centers, hospitais, farmácias, panificadoras, escolas, UFB, fecharam as portas. Não tinha comida, pão, remédios, nada para comprar. O professor não saiu para ensinar, o médico não saiu para medicar, o guarda não saiu para reprimir, o cantor popular Raul Peixes não saiu para cantar, nem para nadar. Quem saiu de casa, o povo, acabou destruindo o Palácio da Meseta. A anarquia parecia que ia tomar conta, até que o PIG disse que assumiria o poder estatal e recebeu apoio dos empresários, forças armadas, e o pessoal do movimento TFP – Tapados Familiares Possessivos. O PIG faria um governo de transição, com duração de seis meses, período para preparar novas eleições presidenciais e de assembleia constituinte. Tudo voltou à normalidade. No entanto, o presidente do PIG, Luiz Polvo, não sabia como se fazia uma eleição e ignorava a arte de governar. Montou todo seu ministério com pessoal do PORCO, com exceção da Petroburro, instituição estatal com fins lucrativos principalmente para os burocratas estatais.

Em um mês de governo, o caos tomou conta da economia, da política, a corrupção, que já era maior do continente americano, ficou maior ainda, apesar de todo mundo ignorar ela, menos o povo. Nos dias seguintes manifestações, protestos, greves, saques, voltaram a ocorrer com mais força ainda. O governo do PIG caiu e em seu lugar o povo, por ignorância, elevou o PIU ao poder. Esse estatizou toda a economia, congelou o preço dos produtos (que nem existiam mais, pois os capitalistas fugiram ou se suicidaram) e declarou instaurada a “ditadura do povo”, mas realizada pelo PIU. O povo não sabia por qual motivo faltava comida, energia elétrica e tudo o mais. O PIU que estatizou a Rede Lobo, que agora se chamava Rede Raposa, divulgou que a culpa era dos capitalistas que não queriam produzir mais nada, não eram nacionalistas e patriotas, e por isso a culpa era dos agentes contrarrevolucionários e tudo mundo que falasse contra o PIU era contrarrevolucionário, bem como todo capitalista que não produzisse para o Estado. De repente, o líder do PIU, Wlamir Lanin, decretou a volta da propriedade privada submetido ao controle dos trabalhadores, representado pelo PIU, e o retorno dos técnicos e especialistas do PORCO, com salários mais elevados, pois somente esses menos ignorantes do que os menos ignorantes do PIU, é que poderiam salvar o país do caos total.

Estericus viu que havia uma certa mudança, mas que nada mudava. Resolveu entrevistar um militante do ANALFA e perguntou para ele como que as coisas chegaram nesse ponto. A sua resposta foi imediata: “ignoro”. No fundo, ninguém sabia. Mas a falta de comida aumentava a fome das pessoas dia após dia. A Rede Raposa não podia mais repassar os comunicados do governo, pois não tinha ninguém para fazê-la funcionar, e assim a ignorância começou a ser substituída pela dúvida. O secretário geral do PIU aproveitou a situação e derrubou o presidente de Burrolândia, Lanin, morto a tiros, sendo que ninguém sabia mais nada além disso. Estalinho ia assumir o poder mas tinha oposição dos trotskistas do partido, que ele resolveu ao impor seu nome apesar de ser a minoria. Esse fato ficou conhecido como a rasteira que José Estalinho deu no Leão Trosko. Os dois tinham uma antiga rivalidade, na qual Estalinho e Trosko disputavam quem seria o vice de Wlamir Lanin. A morte desse deixou a disputa aberta e o Trosko era o menos ignorante do PIU, mas o Estalinho era o mais entendido em burocratismo e por isso convenceu os demais de apoiar ele contra o seu adversário, que poderia querer governar citando obras literárias, sendo que não era tão ignorante quanto os outros e isso era impopular, o povo não gostava, e inaceitável para as burocracias quase que totalmente ignorantes. Estalinho, com um estalar de dedos, eliminou todo o PIU, sendo que ele passou a ser o presidente, secretário geral, tesoureiro e tudo o mais no partido, pois era o único integrante. Foi nesse momento que ele disse a famosa frase: “O PIU sou eu” e depois “o estado sou eu”. O fuzilamento de todos os integrantes do estado só não ocorreu porque não tinha quem fuzilasse os fuzileiros, que depois de fuzilarem todo mundo e não querendo se fuzilar mutuamente, fuzilaram o mandante, o Estalinho.

A morte de Estalinho e as denúncias dos seus crimes pelos fuzileiros, algo que se tornou público com a posse do novo presidente, agora militar, Benedito Ritler. O novo presidente pelo menos conseguiu restaurar o canal de televisão, que agora se chamava Rede Capital e tomou medidas para garantir a ordem e o progresso: a lei seca, o toque de recolher e a proibição de desenhos animados, especialmente os comunistas como Os Smurfs, a perseguição aos judeus, palestinos, cristãos, marxistas, anarquistas, e todas as religiões e concepções políticas e artísticas. Elaborou a política de ignorância progressiva e o “dia da queima”, no qual se queimavam livros, especialmente os de Markis e Froid. Até aí houve uma pequena resistência de certos setores. No entanto, quando ele cancelou o programa de TV, BBB – Big Brother Burrolândia, no ar desde 1984, a situação mudou radicalmente. Isso foi suficiente para surgir uma nova onda de protestos até a derrubada de mais esse governo. Estericus ficou apenas assistindo pela TV do país vizinho, já que não tinha mais rede de TV funcionando em Burrolândia, pois a Rede Capital foi destruída, embora os manifestantes que fizeram isso tenham ignorado que assim o programa que queriam assistir não poderia ser transmitido. Ele não saia do hotel por medo. E aí veio a chamada “terceira revolução”, embora outros dissessem que era a quarta, mas todos ignoravam qual era o seu número real e se criou o costume de dizer que era a terceira.

A nova onda de protestos, greves, saques, acabou gerando a criação de um governo popular, composto pelos grupúsculos VIVIVI, ANALFA e FANALSIN, que tiveram um imenso crescimento quantitativo de 50% de integrantes no caso dos dois últimos e 10% no caso do primeiro. No dia seguinte eles reuniram e resolveram marcar outra reunião, pois nada decidiram, já que ignoravam a situação do país. O povo estava pressionando, pedindo comida, televisão e internet. O VIVIVI foi expulso por pregar que o governo deveria ser para eles e não para o povo e que não deveria haver reunião, pois isso era contra a liberdade individual e seria um controle dos corpos, uma biopolítica. A reunião seguinte entre os representantes do ANALFA e do FANALSIN aconteceu em meio a uma grande confusão, pois ninguém sabia quem era o presidente e também ignoravam o que deveriam discutir. Uns propuseram debater o pensamento de Babakunin e outros o de Malnatesta. Um dos integrantes questionou dizendo que não era hora para superar a ignorância sobre essas coisas e sim sobre a questão do governo e da comida, TV e Internet. Ele foi expulso por alta traição, acusado de querer ser dirigente e burocrata maior.

Uma nova reunião foi marcada para uma semana depois, tempo para a leitura dos livros Federação, Religião e Comunidade, de Babakunin e A Desordem, de Malnatesta. Após a discussão dessas obras, marcaram outras reuniões, e a pressão popular fez com que colocassem em debate o futuro de Burrolândia. Alguns passaram a defender a estatização e outros a privatização, pois ou os burocratas cuidavam das coisas e fazia aparecer comida, televisão e internet, ou então os capitalistas, pois os dois grupúsculos chegaram a conclusão de que não sabiam fazer nada disso e não encontraram respostas nas grandes obras de Babakunin e Malnatesta. Outro integrante disse que isso nada tinha a ver com anarquismo e foi expulso por alta traição. O ANALFA expulsou o FANALSIN e ficou no governo, embora não governasse e nem soubesse o que era isso, o que gerou uma verdadeira anarquia. O FANALSIN chamou greve geral, mas como não tinha trabalhadores, sindicatos e sindicalistas, nada aconteceu.

O povo não tinha governo e não sabia se autogovernar. Não sabiam como funcionavam os computadores, a tecnologia, como “aparecia” a energia elétrica. As igrejas ficavam lotadas de gente pedindo para Deus mandar energia elétrica para suas casas e água para suas torneiras e chuveiros. Eles também queriam saber a razão do seu misterioso desaparecimento. Os pastores diziam que o sumiço de energia, água e comida era castigo de Deus por causa da pedofilia dos padres e os padres diziam que era castigo de Deus por causa do sacolão de dinheiro que os pastores pediam. Os governantes não governavam e os governados ainda não sabiam autogovernar, constituindo uma crise, como já dizia Gramischico. Estericus acompanhava isso atentamente.

Depois de dezenas de reuniões que os próprios integrantes do ANALFA ignoravam que ocorriam e o que decidiam, se é que decidiam alguma coisa, nada aconteceu no governo popular. Foi nesse momento que a multidão enfurecida por falta de comida, televisão e internet invadiu a Escola Municipal Analfabetus Parassempre, nova sede do governo, pois todos os palácios e órgãos públicos do governo foram incendiados, e expulsaram os integrantes do ANALFA do prédio e declararam que o povo se governa, embora ignorasse como seria isso. Esse dia famoso ficou conhecido como Mais uma Revolução, pois não sabiam se era a quarta ou qual seu número exato, mas mais conhecida ainda como A Revolução dos Ignorantes.
O grupúsculo revolucionário que todos ignoravam o nome distribuiu panfletos colocando a necessidade de auto-organização nos locais de trabalho e de se efetivar produção e distribuição de bens materiais, bem como serviços e outros processos, além de articular tais organizações em nível nacional, o que não era difícil, pois era apenas uma cidade. Também colocaram a necessidade de organizar conselhos de estudantes e círculos de pesquisa para superar a ignorância e entender o funcionamento da tecnologia e outros processos sociais, inclusive formas de organização. Isso não teve efeito nenhum, pois antes das revoluções a maioria era analfabeta funcional ou disfuncional, mas depois delas, os das classes abastadas que não se enquadravam nesses casos fugiram ou morreram, os das demais classes também morreram de fome ou em confrontos de rua, sobrando apenas 1% da população alfabetizada, ou seja, 100 pessoas. Destas, 50 eram intelectuais que foram linchados porque não iam para as ruas protestar e eram não praticantes da ignorância. Assim, sobraram 50 pessoas, mas 40 se recusavam a ler por serem simpatizantes do PORCO e dos 10 restantes, 8 eram do grupúsculo revolucionário e 2 eram intelectuais que conseguiram fugir e se refugiar em casa de integrantes desse mesmo grupúsculo.

Estericus procurou Paulo Matias, um dos 10 alfabetizados que sobraram, e perguntou o que ele podia fazer. Matias disse que a cultura da ignorância se tornou tão forte e tão presente, que impossibilitou o prosseguimento da sociedade e qualquer transformação social. Por isso a barbárie imperava, com a fome, o canibalismo, a animalidade. Aqueles que antes poderiam ter contribuído com a superação da ignorância fizeram o contrário, a reforçaram a mesma e assim fizeram sua própria cova, corroendo suas próprias bases e caindo na tragédia de ter um objetivo mas realizando uma ação que promovia o seu contrário. O anti-intelectualismo e o povismo acabou gerando uma situação na qual ao invés de proporcionar saber e avanço intelectual da população, reforçou a sua situação de falta de acesso ao mundo da cultura e do saber revolucionário e técnico. Isso criou a impossibilidade de autogestão, já que faltavam saberes para isso. Tanto saberes técnicos quanto político-organizacionais, bem como cultura geral e reflexão sobre as ações e a organização de uma nova sociedade, principalmente diante da gigantesca tarefa de gerir uma sociedade complexa com todas as suas necessidades e processos de mudanças necessárias. A revolução dos ignorantes poderia ser a última revolução e o fim de toda e qualquer esperança revolucionária. Até Paulo Matias ficou pessimista depois da generalização da ignorância até nos meios contestadores. A ignorância não gera libertação, apenas a reprodução da escravidão. Seria necessário, no mínimo, uns cem anos para retomar as bases intelectuais que permitiram uma revolução social apontando para a emancipação humana.
Estericus ficou contente com o que ouviu: a revolução é impossível e um fracasso total, o que significa que ele sempre esteve certo ao pregar a impossibilidade da mudança. Agora ele podia provar isso empiricamente! Os seus diários tinham 100 páginas de pura empiria. Ele saiu da casa onde Paulo Matias estava refugiado e foi para o hotel pegar sua mala e ir embora. No meio do caminho, no entanto, teve que correr desesperadamente de canibais que gritavam “carne!!” e depois de muita correria, encontrou uma praça de nudismo do VIVIVI, que foi invadida pelos canibais (um deles dizia: “que sorte, nem vamos ter que tirar as roupas deles!”). Assim ele conseguiu desviar dos canibais e fugir. Chegou ao hotel e teve que subir as escadas, já que não tinha ninguém e os elevadores não funcionavam.

Ele desceu com sua mala e seu diário de 100 páginas nas mãos. Como todos os livros foram queimados e nenhum foi reciclado, pois esse processo foi o fim da modernidade reciclada, isso chamou a atenção dos “atores” que estavam nas ruas buscando comida, televisão e internet. Um grupo de fundamentalistas gritou: “pontinhos no papel! Vamos queimar!”, mas outros impediram e cercaram o Estericus e disseram: “precisamos de um líder, você coloca pontinhos no papel, então deve ser não-ignorante, deve nos governar!”. Estericus ficou confuso. O poder lhe atraía e ele gostava de mandar nos outros. Mas, socraticamente, sabia que não sabia governar. Disse não. Aí os ignorantes fundamentalistas foram autorizados a queimar o autor e sua obra. Daí ele fez a afirmação que entraria para história: “se é para o bem do povo, eu fico!”. Estericus foi coroado Rei de Burrolândia e assim terminou a revolução dos ignorantes, pois ele trouxe sua família, amigos e colegas, e mais um grupo de 2 500 técnicos, cientistas, etc., e passou a governar como na época do PORCO. Internacionalizou Burrolândia, com Rede de TV, empresas, etc., de Burolândia e outros países. E assim continuou a política da ignorância, para o povo. A obra de Empiricus Estericus se tornou o maior sucesso de Burrolândia e Burolândia, bem como foi campeão de vendas no resto do mundo. Burrolândia voltou à normalidade. O seu governo era a prova final da impossibilidade da revolução. Mais uma prova empírica!!

O tempo passou. O tempo passa, tudo sempre passará, como já dizia um cantor popular, que também passou do rock para outra coisa, indo de mal a pior. Cem anos depois as coisas mudaram, a ignorância regrediu devido algumas ações de grupúsculos, intelectuais, jovens, trabalhadores. Surgiram os “Círculos do Pensamento Crítico Revolucionário”, visando elaborar uma produção intelectual para a luta política e constituição de uma nova sociedade. Hagagê Uels, Clara Luxemburgo e vários outros intelectuais retomaram os ideias de transformação e mostraram que havia a necessidade de superação da ignorância junto com o processo de união e articulação da população, processo que com a crise mundial acabou fazendo retornar o fantasma da revolução. Uma nova revolução emergiu, sem ignorância. A fusão entre o saber e o movimento concreto das classes trabalhadoras, cem anos depois da Revolução dos Ignorantes, possibilitou a derrubada do governo de Estericus Terceiro, o único da família do seu avô que descobriu que o livro dele, intitulado A Revolução Impossível – Os Limites da Revolta Social e o Caso Empírico de Burrolândia, era completamente falso. Finalmente, com o fim da ignorância se encerrou assim a pré-história da humanidade.

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