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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Mesa Redonda: REPRESENTAÇÕES COTIDIANAS, VALORES E POLÍTICA



Mesa Redonda: REPRESENTAÇÕES COTIDIANAS, VALORES E POLÍTICA

Ideologia, representações cotidianas e Movimentos Sociais - Nildo Viana (UFG)
Representações Cotidianas e Racismo - Cleito Pereira dos Santos (UFG)
Capital Comunicacional, representações Cotidianas e Luta Cultural - Edmilson Marques (UEG)
Escola, Valores e Mentalidade Burguesa - Jean Costa Santana (FCA).

REPRESENTAÇÕES COTIDIANAS, VALORES E POLÍTICA

A mesa redonda “representações cotidianas, valores e política” visa estabelecer uma relação entre algumas manifestações culturais (as representações cotidianas – o que geralmente se denomina “senso comum” –, o imaginário – as representações cotidianas ilusórias – e os valores) e a política, no sentido marxista da palavra, como toda e qualquer manifestação direta ou indireta da luta de classes. A força das ideias, das representações cotidianas, das ilusões, dos valores, nas lutas sociais não podem ser desconsideradas em nome de um economicismo empobrecedor. A concepção segundo a qual a consciência é mero reflexo da realidade também não dá conta da realidade. Tal como bem colocou Karl Korsch, as ideias fazem parte da realidade e por isso atuam sobre ela, sendo mobilizadoras. Nesse sentido, assume grande importância analisar as representações cotidianas, a forma de consciência da maioria da população (e sua manifestação específica, o imaginário, ou seja, representações cotidianas ilusórias) e os valores em sua relação com a política em geral, a luta de classes. Analisar as manifestações populares, seus avanços e recuos, as greves, as lutas políticas institucionais, significam não só buscar entender os acontecimentos, mas as intepretações, posições, valores, opiniões, da população em geral e do proletariado em particular, nesse contexto, pois isso ajuda a compreender a dinâmica das lutas sociais e da hegemonia burguesa e da resistência proletária. Assim, partindo de uma análise crítica das representações cotidianas, dos valores e do imaginário, fica mais fácil perceber os processos políticos contemporâneos e ver o seu papel na dinâmica da luta de classes, especialmente das classes exploradas. Nesse sentido, é fundamental compreender as representações cotidianas, suas formas, características, processos, bem como mais especificamente o imaginário, com maior presença e dominância na cultura das classes exploradas, e os valores (dominantes e marginais), bem como utilizar tal compreensão para perceber o desenvolvimento dos processos políticos, do passado e do presente. As representações cotidianas e imaginário sobre eleições, partidos políticos, governos, Estado, sociedade e política em geral, são importantes, bem como analisar as representações cotidianas e sua dinâmica de produção e reprodução envolvida na luta de classes, influenciada pelas ideias dominantes, sociabilidade capitalista, meios oligopolistas de comunicação e sua resistência e contradições, bem como as influências da teoria revolucionária, grupos radicais e intelectualidade engajada. Da mesma forma, analisar os valores manifestos na sociedade e nas classes sociais, suas mutações e contradições, sua produção e influência nos movimentos sociais e população em geral, são outros aspectos importantes para compreender a política e as relações sociais na sociedade contemporânea.

Integrantes, temas e resumos individuais:

Nildo Viana – Ideologia, Representações cotidianas e Movimentos sociais
Cleito Pereira dos Santos – Representações cotidianas e Racismo
Edmilson Marques – Capital Comunicacional, Representações cotidianas e luta cultural
Jean Costa Santana – Escola, Valores e Mentalidade Burguesa


Nildo Viana
Prof. Faculdade de Ciências Sociais/UFG; Dr. em Sociologia/UnB.
Título: Ideologia, Representações cotidianas e Movimentos sociais

Resumo:
Os movimentos sociais são criações da sociedade moderna que estão envolvidos na dinâmica das lutas de classes e na luta cultural que se realiza no seu interior. Os movimentos sociais são constituídos por grupos sociais reais, compostos por indivíduos concretos, e, por conseguinte, manifestam relações sociais concretas e se manifestam através de diversas formas de consciência, sendo, ao mesmo tempo, produtores/reprodutores de concepções e representações, bem como valores, e assim repassam e recebem diversas manifestações culturais. A dinâmica dos movimentos sociais é envolvida tanto pelo universo cultural existente, e, por conseguinte, pelas lutas culturais travadas no seu interior, quanto por relações sociais concretas. Tendo em vista que o poder financeiro, os meios oligopolistas de comunicação, os aparatos estatais, entre diversos outros, são fundamentais para garantir a hegemonia burguesa e isso ocorre efetivamente na sociedade civil, então o mesmo se rproduz no caso dos movimentos sociais. Para compreender a hegemonia burguesa nos movimentos sociais é necessário entender, entre outras coisas, a força da ideologia dominante e das representações cotidianas, como elas se reforçam reciprocamente. A força da ideologia dominante se expressa inclusive como forma como determinados movimentos oposicionistas acabam reproduzindo-a, o que significa a existência da hegemonia burguesa nos movimentos sociais. As representações cotidianas, por sua vez, podem entrar em contradição ou reforçar tal hegemonia, sendo que, devido a própria ação da ideologia e dos meios oligopolistas de comunicação, tende a reforçar, inclusive criando novos chavões que aparentemente são contestadores e, no fundo, são reprodutores das ideias dominantes.

Cleito Pereira dos Santos
Prof. Faculdade de Ciências Sociais/UFG; Dr. em Sociologia/UFSC:
Título: Representações cotidianas e racismo

Resumo:

Procuramos, aqui, apresentar a relação entre a formação da ideologia racial e as representações cotidianas destacando a diversas formas assumidas pelo racismo e seus impactos sobre a sociedade e os movimentos sociais, tais como o movimento negro. Por um lado, destacamos o contexto histórico e social do surgimento da ideologia racial e, por outro, a maneira como tal ideologia é popularizada e disseminada na sociedade. Destacamos também os conflitos oriundos da emergência da ideologia racial, tanto da contestação radical dos seus pressupostos - realizada pelo movimento negro radical, pelo marxismo libertário, dentre outros - quanto das formas moderadas assumidas pelo pensamento burguês (intelectuais, movimentos sociais reformistas, partidos políticos reformistas, conservadores e pseudoesquerdistas). Em síntese, trata de discutir a complexa relação entre emergência da ideologia racial (construto dos intelectuais) e os impactos sobre o cotidiano, sua divulgação, popularização, disseminação, vulgarização no contexto social.


Edmilson Marques
Prof. Universidade Estadual de Goiás; Doutor em História/UFG.

Título: Capital Comunicacional, Representações cotidianas e Intelectuais.

Resumo:

O capital comunicacional é um setor do capital que lucra através da mercantilização da comunicação e da produção cultural, mas, além disso, também executa uma ação de reprodução das ideologias, ideias e valore dominantes na sociedade. Ele tem um papel fundamental na disseminação da hegemonia culturla burguesa e isso afeta as representações cotidianas das classes desprilegiadas, sob as mais variadas formas. Através de várias produções artíticas (cinema, quadrinhos, literatura, música, etc.), científicas, doutrinárias, propagandísticas, repassa os valores dominantes, determinadas concepções e representações, que objetivam criar a adesão da população ao capitalismo. Apesar das contradições que ocorrem no seu interior, o que predomina é sua ação reprodutora. Os meios oligopolistas de comunicação, ao usarem diversos recursos que atinge grande parte da população (Rádio, TV, etc.) com sua programação axiológica e ideologêmica, acaba não somente repassando ideias, mas ajudando a moldar as representações cotidianas das classes desprivilegiadas. As representações cotidianas, que se caractgerizam formamente por realizar um processo de simplificação, naturalização e regularização a nível das ideias a respeito das relações sociais, acabam tendo um reforço poderoso do capital comunicacional e seu processo de violência cultural. Esse reforço é ainda mais eficaz ao divulgar ideologias, ideologemas, vulgarização do pensamento ideológico, no sentido de se tornar mais acessível à população. No entanto, existem contradições, tanto no interior do capital comunicacional quanto da sociedade e as lutas de classes na sociedade acabam criando um contraponto a esse estado de coisas. As representações cotidianas não são vazias e por isso também assimilam, simplificam, as ideias dominantes e nesse contexto de luta cultural, aparece como fundamental os papel dos intelectuais engajados no sentido de uma atuação que reforce a resistência proletária.


Jean Costa Santana
Graduado em Psicologia (Faculdade Anhanguera de Anápolis); Especialista em Psicopedagogia (Faculdade Católica de Anápolis).

Título: Escola, Valores e Mentalidade Burguesa

Resumo:


Vivemos numa época de risco, onde as políticas neoliberais seguem a dinâmica do mercado em detrimento do desenvolvimento humano. Nesse sentido, conjectura-se que a “educação”, proporcionada pela instituição escolar, condicionada, ao mesmo tempo, pelas políticas neoliberais, tenha o objetivo de propor uma homogeneização de indivíduos e de valores, pautada em concepções capitalistas. Nesse sentido, mesmo que a instituição escolar seja um local de relações sociais e, portanto, de contradições sociais, questiona-se o seu posicionamento passivo e receptivo, diante das políticas neoliberais que se retroalimentam da reprodução dos valores e da mentalidade burguesa. Sendo assim, a instituição escolar, como um dos aparatos ideológicos do estado, logicamente reprodutora dos valores da sociedade capitalista, têm a priori, em suas concepções, o objetivo de criar metas predeterminadas para seus alunos. No entanto, aqueles que não conseguem atingir ou caminhar dinamicamente nesse processo são discriminados. Nesse sentido, depreende-se que a instituição escolar, estando aliada aos interesses da classe dominante, se distancia cada vez mais de sua responsabilidade social, e, em sua submissão e passividade diante das políticas neoliberais capitalistas, reproduz, por outro lado, os valores construídos e disseminados pela mentalidade burguesa. A instituição escolar comete uma violência, tanto psicológica como moral em seus alunos, já que essa instituição busca a reprodução das relações de produção e sociais capitalistas padronizadas. Sabemos, todavia, que a escola é formada por pessoas. Diante disso, se torna necessária a luta pelo desenvolvimento da consciência das mesmas, para que a escola se torne um local de contradição e questionamento social, centro de resistência, ao invés de local de passividade e reprodução da mentalidade burguesa.

sábado, 11 de outubro de 2014

PSICANÁLISE DA ILUSÃO ELEITORAL 01: O DESEJO COISIFICADO




PSICANÁLISE DA ILUSÃO ELEITORAL 01:
O DESEJO COISIFICADO

Nildo Viana

A época das eleições revela um conjunto de comportamentos e discursos irracionais, sendo que alguns são racionalizados. No entanto, diversas pessoas que passam a sua vida inteira alheia às questões políticas e sociais mais amplas, de repente, como num passe de mágica, se tornam ardorosos defensores de candidatos A ou B. Depois de três anos de completo apoliticismo emergem figuras que do nada se julgam entendidos em política e que devem convencer os demais a qualquer custo. Um comportamento extremamente irracional. Sendo que sua motivação não é racional, então talvez seja interessante descobrir quais suas reais motivações. Obviamente que excluímos da análise aqueles que possuem interesses (pessoais, grupais, etc.) envolvidos em sua escolha eleitoral, que abordamos em outra oportunidade[1]. Aqui se trata do caso de pessoas que não possuem nenhum interesse pessoal ou grupal no processo eleitoral e se tornam, repentinamente, defensores insistentes de determinados candidatos, o que torna a irracionalidade ainda mais perceptível.

A psicanálise[2] é extremamente útil para explicar esse comportamento irracional. E nada melhor do que um psicanalista servir de exemplo para análise. Um psicanalista profissional geralmente é alheio às questões políticas, mas não deixa de se envolver no processo eleitoral. Vejamos que diz o psicanalista Contardo Calligaris:
Votar talvez seja um rito e uma espécie de ato de fé. Mas o momento crucial desse rito não é coletivo – ao contrário, ele é estritamente reservado ao indivíduo. Rito de qual culto, então? E ato de fé em quê? Pois é, ninguém (salvo ilusões e delírios) acredita que, depositando nosso voto na urna, a gente possa mudar o mundo. Mas, paradoxalmente, votamos exatamente por isso, para confirmar nossa fé no poder de os indivíduos modificarem o mundo[3].
Essa é a questão fundamental que atinge grande parte da população. A ilusão eleitoral se fundamenta, em grande parte dos casos, numa “fé”, num desejo. A questão é que não é um desejo como os outros que temos na nossa vida. É um tipo específico de desejo. É um desejo que entra em contradição com a realidade, sendo ilusório, mas que se sustenta por ser coisificado. É um caso semelhante ao de pessoas que, dominadas pelos valores burgueses da competição, na busca de ascensão e riqueza, querem se tornar milionários, mas nada fazem para concretizar tal desejo. Esse tipo de pessoa fica esperando “a grande sorte”, o “destino”, “Deus” ou qualquer outra coisa que produza um resultado sem o trabalho de lutar para consegui-lo. Algumas pessoas ficam esperando a riqueza sem fazer nenhum esforço para tal. Outros jogam na loteria esperando um dia ser contemplados.

Todos estes exemplos revelam desejos coisificados. O desejo ganha vida própria, passa a ser um agente da história ou da vida dos indivíduos, se autorrealizando, pois aquela que deseja nada faz para sua realização. Essa forma de desejo é produto da sociedade capitalista e da alienação generalizada (isso será abordado em outro texto), mas se reproduz na época das eleições. É isso que explica pessoas geralmente alheias às questões políticas, tanto institucionais (as políticas estatais e processos políticos partidários e parlamentares, ações governamentais) quando no sentido mais amplo (local de trabalho, moradia, estudo, manifestações, movimentos sociais, reflexões, etc.), repentinamente começam a querer discutir política e colocar como fundamental algo que nem sequer faz parte de sua vida cotidiana.

O desejo coisificado tem na democracia representativa a sua forma mais cristalina de existência, pois basta você escolher seu “representante” e governante e pronto, pois continuar alheio à vida política. A valoração da política se dá apenas no momento eleitoral, bem como a ação política se reduz ao voto. Depois de heroicamente, como nosso psicanalista acima, votar, o cidadão vai para casa e passa a cuidar de sua vida privada. O desejo coisificado de mudança ou qualquer outro é fetichista e por isso tem a ver com a fé, tendo um mecanismo psíquico semelhante. Ele é uma mistura de vontade intensa com conformismo prático. Em alguns, o conformismo prático pode até gerar um certo ativismo para que o desejo coisificado, ainda sob forma fetichista, seja “realizado” (pedir votos, fazer “promessas” – como algumas pessoas religiosas fazem, ir na loteria toda semana jogar, etc.).

O desejo coisificado provoca uma pseudestesia (falsa sensação) de esperança. No caso eleitoral, o eleitor vota e vai cuidar da vida privada, só reaparecendo nas próximas eleições, alguns anos depois. Se o candidato dele perdeu, ele tenta votar no mesmo ou semelhante. Se ganhou e não cumpriu as promessas, ele aceita as supostas explicações ou esquece tal fato e vota novamente. Alguns, nesse caso, podem trocar de candidato. Esse mecanismo psíquico é o mesmo do jogador de loteria que quer ficar milionário: ele joga e perde, mas na semana seguinte e nas posteriores, está novamente fazendo sua “fezinha”[4], nome esclarecedor. Ele continua com sua crença irracional de que da próxima vez ele poderá ganhar.

A superação do desejo coisificado em época eleitoral pode ocorrer sob a forma positiva, que é sua substituição por uma esperança verdadeira, na qual o indivíduo busca efetivamente realizar e percebe que depende dele para se concretizar, ou sob a forma negativa, que é a sua substituição pelo niilismo, o desejo de destruição de si e/ou dos outros. A psicanálise pode apenas mostrar esse processo psíquico e explicar suas fontes, trazendo a necessidade de superação da situação que gera o desejo coisificado. O marxismo é fundamental para a explicação dessa situação e por apresentar um projeto alternativo de sociedade, a autogestão social. Da perspectiva da luta política, a luta contra a ilusão eleitoral e o desejo coisificado deve se aliar com análise da totalidade da sociedade e projeto autogestionário como alternativa.
(Continua).





[2]   Trata-se, aqui, de psicanálise social, e não o freudismo ortodoxo ou as ideologias psicanalíticas de Lacan, Jung e outros. Além de Freud, é possível citar Fromm, Adler, entre outros, bem como a “sociologia psicanalítica” de Mannheim e Roger Bastide.
[4]  A expressão popular "fezinha" (fezinha é diminutivo de fé) é usada quando uma pessoa vai apostar numa casa lotérica.

Demagogia

Boa música para o período eleitoral. Para ouvir essa e outras músicas, ouça Rádio Germinal.


Demagogia


Dão nas vistas em qualquer lugar
Jogando com as palavras como ninguém
Sabem como hão-de contornar
As mais directas perguntas

Aproveitam todo o espaço
Que lhes oferecem na rádio e nos jornais
E falam com desembaraço
Como se fossem formados em falar demais

Demagogia feita à maneira
É como queijo numa ratoeira

P’ra levar a água ao seu moinho
Têm nas mãos uma lata descomunal
Prometem muito pão e vinho
Quando abre a caça eleitoral

Desde que se vêem no poleiro
São atacados de amnésia total
Desde o último até ao primeiro
Vão-se curar em banquetes, numa social

Demagogia feita à maneira
É como queijo numa ratoeira



Letra e música de Luís Pedro Fonseca

Álbum Perto de ti, Lena d’Água 1982

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

EU SOU PROFESSOR E NÃO VOTO EM DILMA



EU SOU PROFESSOR E NÃO VOTO EM DILMA

Nildo Viana

Um discurso muito constante nas redes sociais e que é veiculado por toda internet é o apoio a Dilma Roussef com os dizeres “Eu sou professor, apoio Dilma”. Numa leitura superficial, isso significa tão só o posicionamento de alguns professores. Numa leitura mais atenta, no entanto, isso tem outro significado, que é o seguinte: os professores devem votar em Dilma, pois é melhor para “a educação” ou para “a categoria dos professores”. Esse discurso é falso e por isso resolvi, para não perder o costume, andar na contramão e dizer: “Eu sou professor e por isso não voto em Dilma”. As razões principais para isso são duas:

a)      O processo eleitoral não expressa a vontade popular como ideologicamente é pregado, a maioria não decide, bem como existe todo um processo de manipulação, esquecimento, ignorância, entre outros, além do que os mecanismos da democracia representativa burguesa são contrários a qualquer manifestação radical ou realmente diferente do que está posto, e os governos, independente de partidos, representam a classe dominante e secundariamente seus aliados e classes auxiliares. Eles são formados por partidos – grandes organizações burocráticas – que buscam satisfazer seus interesses aliados aos interesses do grande capital, inclusive o transnacional. O Estado é capitalista e tanto faz quem é o governo, pois este existe para governar, o que quer dizer: buscar manter a estabilidade política e financeira para reproduzir os interesses do grande capital e de sua governabilidade, reprimir os movimentos de protesto, regularizar as relações sociais para manter o conjunto dos privilégios existentes, oferecer migalhas para o resto da população para ganhar apoio, etc. Em síntese, tanto faz qual é o candidato, todos servem ao grande capital e vão continuar servindo, inclusive com os problemas do chamado “desenvolvimento econômico” (no fundo, desenvolvimento do capital), as políticas de austeridade e aprofundamento do neoliberalismo continuarão sendo executadas, tanto faz quem será presidente[1].

b)      Os governos do PT – Partido dos “Trabalhadores” – e a candidata Dilma não representam melhorias para a educação e nem mesmo para a categoria dos professores. Curiosamente, os “professores”, que se dizem mais inteligentes e cultos do que a população que “vota na direita” (como se, com exceção de quem anulou, absteve ou votou em branco, alguém não tivesse votado em direita...), sendo “conservadora”, ou então a “classe média” (esse espantalho que só serve para legitimar discursos pseudoprogressistas), acabam reproduzidno o conservadorismo e a ignorância que supostamente combatem. Basta lembrar as diversas greves da educação nos últimos anos, nas universidades e institutos federais (assim como no resto, devido ao descaso geral com a mesma, tanto no nível federal quanto estadual e municipal) para ver as políticas educacionais deste partido. As greves nas universidades federais de 2012 foram geradas pela política de precarização do Governo Dilma[2] e agora os professores universitários, em grande parte, fazem apologia de tal candidata, mostrando a existência de ignorância, ilusões, interesses ocultos de alguns, como razão para tal propaganda. Caso Dilma seja reeleita, nada irá alterar, aliás, basta ver as “pérolas” que andam saindo do atual governo, como concurso para professores via OS (Organizações Sociais)[3], para observar que neoliberalismo não é privilégio do outro candidato.

Tendo em vista tudo isso, eu digo que sou professor e voto nulo. Inclusive, se acreditarmos no discurso a respeito do professor e seu papel educativo, é fundamental no processo educacional o avanço da consciência e da razão em detrimento da irracionalidade eleitoral, dos interesses mesquinhos, da falta de verdade e isso é algo que um professor deveria denunciar e combater. Esse seria um terceiro motivo para não votar e apoiar Dilma Roussef. Da mesma forma, um professor não deveria ser preocupar somente com seus interesses corporativos (salários, condições de trabalho, etc.) e, por reflexão, deveria saber que isso é ilusão (o próximo governo vai precarizar a educação, tanto faz quem será, e não é apoiando e legitimando o seu próximo carrasco que isso poderá mudar). Ele deveria pensar no conjunto da população e pensando assim perceberia que ao invés de apoiar e legitimar os políticos profissionais astutos e mentirosos, deveria contribuir com o esclarecimento da população (e autoesclarecimento), demonstrando que apenas a luta, a auto-organização, os processos de pressão, protestos, manifestações, organização em local de trabalho, moradia e estudos, autoeducação e autoformação, reflexões aprofundadas e mais amplas sobre a realidade social, é que podem fazer as coisas não piorarem (e curiosamente o apoio a Dilma é em sua maioria com o medo de “piorar” o que já é insuportável... nem se luta mais por conquistas, melhorias, quem dirá grandes reformas ou mesmo transformação social, são neoconformistas). Tanto faz quem será o próximo governo, pois se não houver pressão, mobilização, ação, reflexão, luta, vai piorar de qualquer jeito. Por isso, professor deve votar nulo e não compactuar com a prestidigitação eleitoral.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

ELEIÇÕES, INTERESSES E RACIONALIZAÇÃO



ELEIÇÕES, INTERESSES E RACIONALIZAÇÃO

Nildo Viana

Não deixa de ser curioso um fato da política institucional, que é o seguinte: quando se aproxima a hora da decisão eleitoral, algumas pessoas tornam-se ardentes defensores de candidaturas A ou B. Além de incomodarem os demais, com posições distintas ou contrárias, ou mesmo alheios à disputa ou contra todos os candidatos, a sua insistência e envolvimento emocional demonstram uma forte “irracionalidade”. De onde vem esta irracionalidade?

Existem duas palavras-chave para explicar esse processo: interesses e racionalização. Esses termos remontam a contribuição de dois grandes pensadores, Marx e Freud. No entanto, vamos apenas destacar os elementos fundamentais destes dois conceitos para explicar sua manifestação diante do fenômeno eleitoral. Nós podemos distinguir a razão instrumental, ligado ao exercício da manipulação e do poder, e a razão emancipadora, humanista, ligada à luta pela emancipação humana. A primeira está ligada aos interesses da classe dominante (bem como de suas classes auxiliares) e interesses derivados, subordinados, integrados, enquanto que a segunda está ligada aos interesses históricos do proletariado e das classes exploradas, expressando o desejo de libertação humana em geral. Num caso, temos interesses histórico-particularistas, egoístas, e, no segundo, interesses universais, altruístas. A razão instrumental reina quase que absoluta em nossa sociedade e razão emancipadora, dialética, é marginal. Na política institucional (governos, eleições, etc.), com rara exceção (e temporária, pois ou se integra e perde esse caráter ou se afasta), não há espaço para razão emancipadora.

É raro pessoas, grupos, classes, manifestarem claramente seus interesses egoístas, histórico-particulares, explicitamente. Ninguém que quer dominar, explorar, manipular, os demais para seus objetivos egoístas (pessoais e grupais, embora estes sempre unidos àqueles) vai afirmar isso. Seria algo inusitado ver alguém dizer “vote no candidato A, pois ele é corrupto, incompetente, asqueroso, mas é do meu partido e vou ter um cargo se ele for eleito”. Daí vem a importância do segundo termo: racionalização. A racionalização é a busca em fornecer uma explicação racional para uma motivação não-racional, como justificar um linchamento dizendo que é para realizar a justiça ao invés do que realmente é: manifestação de ódio, gerado por uma sociedade desumanizada.

Ao invés do indivíduo apresentar seu real motivo, pois isso não convenceria os demais, ele apresenta outro, supostamente racional. Além disso, ele ficaria insatisfeito consigo mesmo (sentimento de culpa). Por isso o que ele diz é: “vote no candidato A, pois não está provado que ele é corrupto, se seu governo anterior teve problemas, foi por causa da assessoria e alianças, e sua antipatia não deve causar rejeição, afinal será presidente para todos, e será melhor para toda a população brasileira”. Marx explicou bem como a classe dominante não tem interesse na verdade e que precisa criar ideologias e outras representações ilusórias para manter sua dominação. Da mesma forma, os indivíduos também necessitam fazer isso, tanto pela eficácia de seu discurso quanto pela sua própria humanidade, pois como ser social a crueldade dos seus vis interesses lhes causa geralmente mal estar (obviamente que existem exceções: pessoas que são tão desumanizadas e coisificadas que nem possuem remorso).

Os candidatos manifestam isso exemplarmente. Dilma Roussef e Aécio Neves, os candidatos à presidência que chegaram ao segundo turno, vão dizer que querem ser eleitos para beneficiar o povo, melhorar o Brasil, cuidar dos mais desfavorecidos, seguir uma tradição de pessoas boas e que sempre se dedicaram ao país, etc. Somente os muito ingênuos (seja pela idade, falta de acesso à informação, etc.) são capazes de acreditar nisso ou então os muito cegos, premiados pela cegueira dos interesses particulares. Os candidatos à presidência (tal como no caso dos candidatos a governador) estão muito longe da razão emancipadora e sua motivação são seus interesses mesquinhos. Nenhum deles dirá que é candidato para ter riqueza, dinheiro, poder, para si e para seus aliados. Claro, existem outras motivações, mas são secundárias. E isso se repetirá em casos particulares: Dilma Roussef dirá que suas políticas assistencialistas são para beneficiar o povo e Aécio Neves dirá que manterá tais políticas pelo mesmo motivo. Nenhum dos dois dirá que é para conseguir voto e apoio eleitoral, que é apenas um meio para chegar ao poder e usufruir dele e do dinheiro que vem junto.

A questão é que este não é um problema apenas dos candidatos. Os eleitores também reproduzem a mesma lógica de seguir seus interesses e realizar racionalização. Obviamente que aqui se trata dos eleitores convictos, ou seja, uma parte que está decidida e não mudará seu voto de forma alguma. Eles, tais como os candidatos, não se contentam em ter sua posição, mas querem convencer os demais. Na contemporaneidade, as redes sociais são palco dessas figuras que querem convencer os demais de qualquer forma. De onde vem tamanha vontade de convencer os demais? A base é a mesma dos candidatos: interesses. Interesses os mais variados, sendo que alguns, os mais diretamente envolvidos, estão preocupados com cargos, dinheiro, fortalecimento partidário (pelos motivos anteriores), e outros por interesses mais distantes (a vitória do candidato A beneficia a força de determinadas empresas, igrejas, setores da sociedade, etc., e a B outros setores).

Um exemplo: muitos intelectuais das universidades públicas votam em Dilma Roussef por causa de sua ilusão de que ela é menos ruim (ou é “melhor”, segundo os mais iludidos), do que Aécio Neves, com seu projeto neoliberal. Nesse caso, há um interesse, embora fundado numa ilusão (pois basta lembrar a greve nas universidades em 2012 e que o avanço da precarização das universidades efetivados pelo Governo Dilma, para perceber isso). Outro exemplo é setores de determinadas igrejas que querem Aécio Neves, não por causa das razões geralmente apresentadas (discussão sobre aborto, homossexualidade, etc.) e sim por causa dos benefícios financeiros. Claro que isso é para aqueles eleitores convictos e ardorosos defensores das candidaturas A ou B.

Os demais acabam sendo envolvidos pelos discursos racionalizadores, com exceção dos que por convicção não votam em ninguém. Existe uma grande parcela da população que acaba se envolvendo, inclusive emocionalmente, com muita força, por acreditar nos discursos e racionalizações alheias, seja por credulidade seja pela força da pressão social e efervescência derivada de compartilhar mesma posição. Mas estes últimos não estão incluídos na análise do presente texto. Os que não votam ou são céticos, apenas escolhendo por não ver alternativa, também estão excluídos da presente análise.

Assim, os candidatos e seus adeptos fervorosos vão apresentar um discurso que não mostra seus verdadeiros interesses. As acusações de corrupção, incompetência, por um lado, e os supostos méritos e políticas efetivadas no passado, tomam o lugar. Vários subterfúgios podem ser utilizados, desde o discurso da “ameaça comunista” ou do “direitismo” e “neoliberalismo”, até questões menores da vida pessoal, com ataques moralistas e desprovidos de qualquer significado político. A estigmatização dos adversários também é outra forma de tentar convencer ou silenciar: “esse é um discurso da direita” (como se tivesse alguma esquerda disputando eleição...) ou “isso é coisa de comunista” (idem). Alguns apoiadores não vão dizer que são os (seus) interesses de setores cooptados de movimentos sociais que os fazem apoiarem Dilma ou que são os interesses de ascensão ao poder e dinheiro de setores de igrejas que os fazem apoiarem Aécio Neves, pois vão preferir dizer que o que querem é resolver o problema das drogas, acabar com preconceito, etc. por um lado, e que querem defender a vida, a família, etc., por outro. Cada um acredita na mentira que quiser.

No fundo, todos os candidatos são expressão do grande capital e dos seus próprios interesses e todos os apoiadores fanáticos querem uma fatia do que sobrar da mesa ou então ter uma suposta tranquilidade de vida medíocre sem maiores turbulências. O medo da mudança antigamente era do que era bem radical e diferente e agora, qualquer troca de governo que segue a mesma cartilha, fazendo tudo igual no atacado e com poucas diferenças no varejo, já serve para agitarem as bandeiras da Regina Duarte: “eu tenho medo”. A irracionalidade aparece nas atitudes e discursos porque ela deve esconder os interesses ocultos daqueles que não podem revelar os seus verdadeiros interesses, bem como buscam manipular os sentimentos e opiniões dos demais.


As campanhas eleitorais, o discurso dos candidatos e dos seus eleitores convictos é, no fundo, um grande conto do vigário. Se você quer receber a herança, vai ter que pagar taxas e mais taxas e, no fim, verá que gastou mais do que recebeu. A vítima desse conto é o eleitor iludido, que ao invés de ver que sua força está na auto-organização, na autoformação, na união e associação com outras pessoas visando interesses mais nobres e coletivos, acaba acreditando no vigário (ou vigarista) e perderá tudo o que poderia ter ganhado. Não é o governo A ou B que proporcionará atendimento de reivindicações e sim a luta e união dos trabalhadores e outros setores da população e isso é ponto de partida para objetivos mais profundos, especialmente a emancipação humana.

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