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quinta-feira, 16 de maio de 2019

PARA AONDE VAI O GOVERNO BOLSONARO?



PARA AONDE VAI O GOVERNO BOLSONARO?

Nildo Viana


A vitória surpreendente de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais do ano passado trouxe algumas expectativas. Por um lado, havia os simpatizantes e partidários de Bolsonaro, alguns até achando que ele iria “consertar o país”, bem como outros menos entusiasmados. Do outro lado, os adversários e antibolsonaristas, alguns crédulos e seguidores da propaganda petista, que pensavam que emergiria um governo fascista, enquanto que outros, menos dramáticos, previam um governo ruim e antiprogressista. Sem dúvida, o Governo Bolsonaro seria incapaz de “consertar o país”, bem como não é fascista (a não ser que se use arbitrariamente e amplamente esse termo).
Bolsonaro e seus aliados não podem consertar o país, pois este país “não tem conserto”, a não ser se houver uma revolução. E não há nenhum fascismo, pois o “nacionalismo” do governo é apenas discurso, não no capitalismo subordinado isso só pode ser fantasia, já que não há nenhuma base imperialista, entre outras diferenças em relação aos países que adotaram tal regime. Se as duas expectativas mais exageradas não se realizaram, uma delas se mostrou mais próxima da realidade: um governo ruim e antiprogressista. No entanto, isso não explica mais profundamente o que significa tal governo, bem como não nos ajuda a entendê-lo melhor e perceber suas tendências e para aonde vai. Por isso, a primeira pergunta para saber aonde vai o Governo Bolsonaro é entender como ele surgiu o que ele é.
A Gênese do Governo Bolsonaro
O discurso eleitoral do ano passado ainda não foi totalmente superado. Trata-se daquele discurso que afirma que Bolsonaro seria “fascista” e assim seria o seu governo. Por detrás dessa “explicação”, sem maior fundamentação a não ser uma definição ampla e elástica de fascismo, sem utilidade explicativa (pois ao ser utilizada caberia em inúmeros outros fenômenos e até em parte dos que o usam contra Bolsonaro), se revela um forte interesse eleitoral, visando manipular o medo de parte da população para retirar votos e apoios e transferi-los para o concorrente eleitoral mais forte no momento.
Como caracterizar, então, o Governo Bolsonaro? Existem poucas análises, bem como o governo teve pouco tempo de duração até agora, um pouco mais de quatro meses. Porém, desde que se tornou um forte candidato, a maioria das análises se centraram no indivíduo Jair Bolsonaro. Assim como “uma andorinha só não faz verão”, um indivíduo só não faz um governo. Sozinho, não consegue nem ser eleito[1]. Jair Bolsonaro não surgiu do nada, nem sua vitória eleitoral[2]. Para entender sua ascensão é preciso entender a evolução do reacionarismo no Brasil.
O reacionarismo sempre existiu na sociedade capitalista, mas em certos momentos históricos é extremamente marginalizado. E, se o nível intelectual dos seus defensores é baixo, então são também ridicularizados. No caso brasileiro mais recente, o reacionarismo ressurge através de setores religiosos (o setor conservantista da Igreja Católica e dos evangélicos) e de figuras risíveis como Olavo de Carvalho. O reacionarismo se fortaleceu com a emergência dos governos petistas. E isso nem tanto por suas políticas estatais, que não ultrapassou o nível do neoliberalismo neopopulista, e sim por sua política cultural. Essa política cultural, supostamente de “esquerda”, nasce e emerge a partir dos Estados Unidos (multiculturalismo, estudos culturais, etc.) e do novo paradigma hegemônico (o subjetivismo), bem como as ideologias hegemônicas (pós-estruturalismo, neoliberalismo). Isso foi reproduzido, divulgado e expandido a partir de organismos internacionais, como a UNESCO, e fundação internacionais (Ford, Rockfeller, etc.). É nesse contexto, e com apoio governamental, que se passa a divulgar (e cada vez mais se fortalecer e a se tornar autoritário) o moralismo progressista, trazendo elementos do politicamente correto, de ideologias como as do gênero, queer, etc. As agências governamentais passaram a incentivar a pesquisa sobre gênero, raça, etc., e na perspectiva hegemônica, o que era feito também pelas fundações internacionais, pois os editais de pesquisa da Fundação Ford, para tomar apenas um exemplo, apontava para essas “novas temáticas”. O neoliberalismo democrático (“progressista”) norte-americano, assim como outros setores da burguesia (incluindo os que lucram diretamente com isso), bem como parte da intelectualidade[3], aderiram ao novo discurso, bem como partidos e outras organizações políticas. Poucas vozes discordantes se manifestaram na esquerda[4] e, na sociedade brasileira, menos ainda.
A coincidência entre o novo moralismo progressista e subjetivista, proveniente fundamentalmente dos Estados Unidos e sua “esquerda” (que aqui seria “direita”, tal como o liberalismo progressista, o republicanismo, etc.)[5], que vai ter impacto também na Europa, e os governos petistas e sua adoção, promoveu a ideia equivocada de que ele seria de “esquerda”. O moralismo progressista subjetivista passa a dominar a esquerda brasileira, com raras exceções (alguns partidos pequenos e mais radicais). O bloco revolucionário (também confundido com a esquerda) também teve vários setores que aderiram ao moralismo progressista subjetivista. O despreparo (e falta de formação teórica) de vastos setores do bloco progressista e revolucionário permitiu essa aproximação, sem analisar suas fontes, bases, objetivos, etc.
Nesse contexto, os reacionários, passaram a identificar moralismo progressista subjetivista com esquerda e marxismo. A esquerda realmente adotou (não criou, apenas aderiu e depois reproduziu) o moralismo progressista em sua versão subjetivista, adequada ao paradigma hegemônico atualmente (o subjetivismo). O marxismo (autêntico, o que exclui o pseudomarxismo dos partidos políticos) não, pois ele é incompatível com a moral progressista (subjetivista ou objetivista), de caráter burguês ou semiburguês. O anarquismo, por sua vez, devido a sua falta de teoria e aprofundamento, se dividiu e resistiu parcialmente em alguns casos.
O que interessa, no entanto, é que os reacionários criaram a fórmula: moralismo progressista subjetivista (gênero, identidades, politicamente correto, etc.) = PT[6] (ou esquerda, “marxismo”, etc.). Assim, conseguiram mobilizar alguns setores da sociedade e conseguiram aumentar quantitativamente. No decorrer da história da sociedade brasileira, no contexto marcado pela desaceleração da acumulação de capital (diminuição do “crescimento econômico”) e processos políticos institucionais, tal como as denúncias de corrupção, isso foi crescendo. As manifestações populares de maio e, principalmente, junho de 2013, mostraram que a suposta força do governo era um castelo de areia, o que animou a oposição (partidária e outras), bem como abriu possibilidade de crescimento do bloco revolucionário e do reacionarismo (tendência que ocorre sempre em que há desestabilização e crise). Isso gerou a polarização política (petistas e antipetistas) e moral (moralismo conservador versus moralismo progressista). Porém, o governo petista beneficiou o crescimento do reacionarismo ao temer a autonomização do proletariado, bem como setores da sociedade se aglutinaram e acabaram se fortalecendo e até setores do capital começaram a migrar para o apoio à ala reacionária do bloco dominante. A não solução dos problemas econômicos pelo governo petista e a chamada “Operação Lava Jato” abriram caminho para o impeachment e a expulsão do PT do governo. A polarização foi reforçada por ambos os lados e isso serviu para enfraquecer o bloco revolucionário e autonomização dos trabalhadores.
O reacionarismo cresceu e se fortaleceu, mas ainda não o suficiente para pensar em chegar ao governo. Mas aumentou bastante o seu número, indo muito além dos religiosos mais conservadores. A derrota petista parecia consolidada e o caminho estava livre para o PDSB ou outro partido semelhante. Contudo, apesar da derrota petista vergonhosa nas eleições de 2016, alguns acontecimentos, como a incompetência do PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira), o erro estratégico do PDT (Partido Democrático Trabalhista), a facada no Bolsonaro, entre outros processos, permitiram a chegada ao segundo turno do PSL (Partido Social Liberal), partido cujo candidato era da ala reacionária do bloco dominante. O reavivamento eleitoral do PT, possível diante dos erros dos adversários (especialmente PSDB e PDT) e outros acontecimentos[7], permitiu que ele chegasse ao segundo turno e retomasse uma polarização com a candidatura de Bolsonaro. O único adversário que Bolsonaro ganharia no segundo turno seria o PT e este conseguiu a proeza de o colocá-lo na presidência, devido sua ânsia de poder (e de cargos burocráticos no aparato estatal).
O que ocorreu no processo eleitoral foi que uma minoria eleitoral barulhenta e insistente, diante das debilidades das demais candidaturas, da crise de legitimidade da democracia burguesa e seus partidos tradicionais, acabou crescendo e ganhando mais força, bem como certos acontecimentos específicos no jogo eleitoral e para além dele, tornando possível que um representante da ala reacionária do bloco dominante chegasse ao segundo turno. Como o adversário era o PT, com alto grau de rejeição da população por causa de seus governos (especialmente os de Dilma Roussef), o decréscimo do ritmo de acumulação de capital, as denúncias de corrupção, a incompetência administrativa para resolver os problemas (em parte devido ao seu neopopulismo, em parte por pouca competência mesmo), o vínculo com o moralismo progressista subjetivista, isso permitiu a Bolsonaro aglutinar votos e apoios que só surgiriam nesse contexto. O PT elegeu Bolsonaro e este manteve aquele vivo e o levou para o segundo turno. Os dois se ajudaram, mas apenas um venceu a eleição.
Qual Forma de Reacionarismo o Governo Bolsonaro representa?
Assim, tivemos a posse do novo governo. Bolsonaro é um indivíduo sem maior bagagem cultural (chegando, muitas vezes, a ser simplório), sem experiência administrativa, sem grande capacidade política-estratégica. No entanto, sabe manipular e conta com apoio de alguns auxiliares que ajudam em alguns aspectos. Antes de tomar posse, afirmou que sua equipe seria nomeada a partir de “critérios técnicos” e não “ideológicos”. O que aconteceu foi justamente o contrário: nunca uma equipe de governo foi tão incompetente e tão “ideológica” (tendenciosa e claramente conservantista). A incompetência pode ser vista não apenas na pouca bagagem cultural dos ministros e educação formal limitada, mas também pela simploriedade das decisões e ações. Até mesmo a política cultural que todos os governos anteriores realizaram sem declarar e sem criar polêmicas em sua execução, aparecem como estardalhaços[8]. Os ministros que empossados que possuem um mínimo de formação e competência, embora nem tanto assim, são Sérgio Moro e Paulo Guedes. Estes são exceções. Ao lado disso, o governo iniciou um processo de competição interna pelo poder, gerando disputa entre militares, “olavistas”, bolsonaristas, técnicos, entre outros menos fortes. A isso soma-se a competição externa no parlamento e na sociedade em geral, bem como os interesses partidários e a pressão social de setores da sociedade civil. A falta de quadros do partido, e do bolsonarismo como um todo (um grupo que tem Olavo de Carvalho, que dispensa comentários, como o maior intelectual e estrategista, mostra a sua própria miséria intelectual e política), o coloca com poucas possibilidades de realizar um governo minimamente competente. A única alternativa para partidos que não possuem quadros para garantir a governabilidade é se aliar com aqueles que possuem (ou pelo menos tem alguns nomes que poderiam compor e colaborar com o governo). A forma de sobrevivência garantida do governo Bolsonaro seria a aliança com o PSDB, que forneceria quadros, maior tranquilidade e respeitabilidade[9] para o governo, etc. No entanto, devido ao reacionarismo do novo governo, tal aliança não se concretizou.
Assim, uma questão importante para entender o novo governo é: qual sua concepção política? Colocamos, anteriormente, que o Bolsonaro e a maioria dos seus apoiadores são representantes da ala reacionária do bloco dominante[10]. No entanto, não se trata de nazismo e nem de fascismo, por mais que alguns adversários, com imprecisão conceitual e interesses eleitorais, afirmem isto. Bolsonaro representa um setor mais moderado do reacionarismo, que é o conservantismo. O conservantismo já esteve no poder no Brasil e é referência para Bolsonaro: o regime militar que se instaurou a partir do golpe de 1964. O conservantismo manifesta determinados valores e determinada moral, que apontam para o tradicionalismo. A TFP (Tradição, Família e Propriedade) é uma expressão do conservantismo[11]. Os valores pregados pelo conservantismo são a família, a propriedade, a tradição, a nação, a religião, a autoridade, o estado, etc. Embora a “nação” apareça, no fundo, através de um pseudonacionalismo, muito mais que um nacionalismo autêntico. Não é preciso dizer que, no conservantismo, há muita hipocrisia.
Porém, Bolsonaro é originalmente e fundamentalmente um conservantista, mas sabia, desde o início, da pouca possibilidade de chegar ao governo com essa posição e por isso buscou apoio de um outro setor da burguesia e o ministro liberal Paulo Guedes foi a sua grande jogada. Num momento de hegemonia do neoliberalismo, no qual os economistas e setores da burguesia não conseguem pensar além do liberalismo, essa foi uma jogada que serviu para fortalecer sua candidatura e foi estratégica para ganhar o segundo turno. Nesse sentido, o governo Bolsonaro é predominantemente conservantista no plano moral, educacional, cultural, mas é próximo do liberalismo no plano da política econômica. E isso não apenas devido a Paulo Guedes, como também graças à pressão de setores da burguesia, especialmente o capital transnacional. Assim, em que pese Bolsonaro e grande parte de sua equipe e apoiadores serem conservantistas, ele assume compromissos liberais. Dessa forma, a denominação mais adequada ao seu governo, pelo menos até agora, pois o compromisso pode se romper a qualquer momento, é liberal-conservantista. Assim, ele se aproxima do liberalismo nacional que foi hegemônico após as revoluções burguesas, que a partir do romantismo (e seu anti-intelectualismo), e apego às tradições, nação, etc. serviu para fortalecer a criação da identidade nacional e legitimar o capitalismo nascente e o Estado-Nação[12]. A diferença do liberal-conservantismo para o liberalismo nacional era que este possuía um nacionalismo mais coerente e autêntico, por ter emergido em países imperialistas.
E aqui temos uma diferença entre conservantismo bolsonarista e nazifascismo. O conservantismo bolsonarista apresenta um nacionalismo frágil e falso. Isso ocorre por emergir no capitalismo subordinado. A burguesia subordinada não tem força e nem coragem de desafiar o domínio imperialista, bem como também não tem interesse, pois ela fica abaixo na hierarquia mundial das burguesias e do capital, mas continua explorando, lucrando, enriquecendo. Quem perde é a maioria da população, especialmente o proletariado.
O liberal-conservantismo de Bolsonaro realiza uma fusão do neoliberalismo do capitalismo subordinado (livre mercado e subserviência aos países imperialistas, especialmente os Estados Unidos) com o conservantismo e assim se declara nacionalista, mas se subordina ao imperialismo. E basta ver as políticas do Governo Bolsonaro para perceber que o maior beneficiado, até agora, é o capital internacional. Alguns setores da burguesia brasileira foram, inclusive, prejudicados por causa destes “benefícios” ao capital estrangeiro. A política de Bolsonaro para a Amazônia e os povos indígenas não é por mero preconceito contra quilombolas e indígenas, e sim por causa da necessidade do capital, especialmente do transnacional (e os setores do capital nacional associado a ele, como fornecedores, distribuidores, etc.). A liberação de importação de armamentos, ligadas à sua política sobre armas, significa não somente aumentar o mercado consumidor dessa mercadoria e beneficiar o capital bélico, mas, ao mesmo tempo, beneficiar o seu setor internacional[13]. Não custa recordar que o capital bélico norte-americano é o maior do planeta e é a base da economia norte-americana. A política educacional que prejudica o ensino superior e a educação em geral não é apenas “maldade” ou “ignorância” do governo e sim por causa que isso beneficia o capital educacional (nacional e transnacional) e corrói a força de setores pró-petistas e outros inimigos do governo e/ou do conservantismo. A reforma trabalhista beneficia, igualmente, o capital em geral, mas como quem é hegemônico é o capital transnacional, então ele é o maior beneficiado. A política de saúde do Governo Bolsonaro beneficia o capital privado (internacional) em detrimento do serviço estatal[14].
O Futuro do Governo Bolsonaro
Em síntese, o governo Bolsonaro tem sido liberal-conservantista, e devido a essa influência liberal, é um setor do reacionarismo mais próximo da ala moderada e que, caso entre em crise, pode desembocar num conservantismo puro ou numa aliança mais forte com setores da ala moderada do bloco dominante. De qualquer forma, as suas políticas são decididamente em benefício do capital, especialmente o internacional e transnacional[15], e contra os trabalhadores. Porém, sua incompetência, suas dificuldades próprias (incluindo a dificuldade de estabelecer alianças), entre outros problemas, poderá decretar o seu fim antes do término do mandato. O medidor disso, no entanto, é a evolução econômica, que o governo tem influência, mas não é a única determinação. A situação internacional, os investimentos internacionais, a dinâmica da produção e distribuição, a taxa de exploração, o aumento de produtividade, o crescimento ou retraimento do mercado consumidor, a taxa de juros, entre outros processos, são fundamentais para que o ritmo de acumulação de capital aumente e assim o governo ganhe mais tranquilidade e estabilidade[16]. Porém, as políticas governamentais, que poderiam contribuir com esse processo, avançam timidamente e com problemas. A reforma da previdência, que segundo a ideologia neoliberal seria fundamental para resolver esse problema, é uma ilusão, uma panaceia, pois ela, mesmo que contribua parcialmente, é insuficiente sem uma política econômica mais ampla (industrial, salarial, monetária, etc.).
A saída do governo é a neoliberal: políticas de austeridade. Porém, estas, em que pese beneficiarem o aumento da exploração e, por conseguinte, a acumulação de capital (“crescimento econômico”), apresentam contradições (geram contração no mercado consumidor, geram aumento da luta dos trabalhadores e possíveis greves, etc.). Por isso, tais políticas, dependendo de outras determinações, podem surtir efeito relativo ou até mais amplo. Porém, o governo nem sequer consegue efetivar tais políticas com a rapidez e forma necessária para o capital. As reformas retrógradas encaminhadas a partir das políticas de austeridade são insuficientes, embora possam contribuir ao lado de outras determinações, mas são contraditórias e trazem problemas, e mais ainda com a morosidade e concessões devido a fraqueza da base de apoio do governo. Se as reformas retrógradas e políticas de austeridade não se efetivarem ou não ocorrerem da forma adequada e outras medidas não forem tomadas, o governo vai depender da sorte e de elementos fora do seu controle (tal como a situação internacional e outras já citadas e externas ao âmbito governamental).
Porém, mesmo que ele queira implementar uma política econômica nos moldes neoliberais (políticas de austeridade e reformas retrógradas), ele não age sozinho, vai depender dos outros setores do bloco dominante, da capacidade de ação do bloco progressista, bem como da luta e resistência dos trabalhadores e bloco revolucionário, que tendem a se fortalecer com tais políticas. E as demais determinações podem ajudar ou dificultar. Por isso é difícil prever o futuro do governo Bolsonaro, já que depende de múltiplas determinações (tanto internas, do governo, como externas e remetendo a um conjunto enorme de questões). O que é possível afirmar é que o governo Bolsonaro pode se manter aos trancos e barrancos durante um tempo e até chegar ao final do mandato, caso a situação econômica, o ritmo de acumulação de capital, não diminua. As outras duas possibilidades é: a) aumentando o ritmo de acumulação de capital, o governo consegue se estabilizar, tendo oposição apenas do bloco progressista e bloco revolucionário (sob formas e com objetivos distintos); b) decrescendo o ritmo de acumulação de capital, o governo tende a enfrentar problemas mais graves e até um novo impeachment pode ser possível, já que suas bases de apoio são frágeis e existem partidos e forças muito mais poderosas e confiáveis para o capital que podem se unir para o substituir. Essa última solução, no entanto, seria traumática e acabaria gerando radicalização de setores do reacionarismo, por um lado, bem como reforçaria a crise de legitimidade da democracia burguesa no Brasil, pois mais um impeachment significa um terceiro candidato (depois de Collor e Dilma) eleito pela população que é retirado do governo pelas forças políticas (mesmo com apoio popular, que nunca é total) em menos de trinta anos[17].
No fundo, o Governo Bolsonaro, devido às suas debilidades (incompetência, dificuldade de estabelecer alianças, disputa interna pelo poder, etc.) e outros problemas, se conseguir se salvar, será mais por causa de processos externos do que por suas próprias ações.
Considerações Finais:
Os Trabalhadores e o Governo Bolsonaro
Nesse contexto, o que podem fazer os trabalhadores, os maiores prejudicados com o novo governo? O caminho é a luta, mas não a reboque de outras forças políticas que apontam para seus interesses próprios e não os da população, e nem apenas para “resistir”, ou seja, uma luta meramente defensiva e que nada propõe a não ser se colocar contra as reformas retrógradas. Para os neopopulistas, basta isso e dizer que não existe problema algum. Porém, existem problemas reais no capitalismo brasileiro (e no capitalismo mundial também) e não tem como resolvê-los sem aumentar a exploração ou então realizar a transformação social. É preciso deixar bem claro isso: não tem como retomar “crescimento econômico” (a reprodução ampliada de capital)  sem aumentar a exploração ou expandir as relações de produção capitalistas e esta última opção é praticamente inexistente. Logo, os trabalhadores e revolucionários devem decidir se apoiam o aumento da exploração (e discute, junto com conservadores e progressistas, detalhes e questões formais sobre como isso pode ocorrer, se as reformas retrógradas são suficientes, etc.)[18] ou então lutam pela revolução proletária, pela autogestão social. O regime de acumulação integral entrou há algum tempo em sua fase de desestabilização e nenhuma grande recuperação (e ação nesse sentido) foi realizada e dificilmente a sua crise será evitada. Uma crise desse regime de acumulação tende a ser, simultaneamente, uma crise do capitalismo. Essa, uma vez ocorrendo, abre a possibilidade da guerra mundial imperialista ou a constituição de uma nova sociedade, a sociedade autogerida. Por conseguinte, as lutas por reivindicações imediatas perdem o sentido se não forem articuladas com lutas pela autogestão social.
E para isso ganhar efetividade é necessário a autonomização do proletariado e a hegemonia proletária no interior das classes trabalhadoras. Para isso se concretizar é necessária uma ampla luta cultural do bloco revolucionário (o que significa que alguns de seus setores abandonem suas ambiguidades e seu reboquismo em relação ao bloco progressista) e unir a crítica (ampla e fundamentada) e recusa das reformas retrógradas com reivindicações e exigências proletárias, tal como aumento do salário mínimo, garantia de aposentadoria para os trabalhadores de forma justa e digna, diminuição da jornada de trabalho, etc. A luta cultural a favor da formação de organizações autárquicas (formas de auto-organização dos trabalhadores, estudantes, jovens em geral, e outros setores da sociedade) e pela formação intelectual e política da população é outro elemento fundamental e isso se articula com a luta pela educação de qualidade e contra o anti-intelectualismo, irracionalismo, etc. na educação formal. Isso só pode ocorrer articulado com a crítica das organizações burocráticas (estado, partidos, escolas, sindicatos) que buscam controlar e ganhar espaço (e vantagens) com o controle sobre os trabalhadores, bem como a crítica das ideologias e educação escolar despolitizante, inclusive a progressista (afinada com a esquerda). A formação de comitês de luta popular pode ser uma primeira forma organizacional que poderá abrir espaço para a formação de outras formas de organizações autárquicas dos trabalhadores e outros setores da sociedade, sendo espaços de luta, união e formação/reflexão.
O combate cultural à polarização entre direita e esquerda, ou, no atual contexto, entre reacionários e progressistas (especialmente os petistas e populistas em geral) é fundamental nesse processo. É preciso mostrar que o que move ambos é a disputa pelo poder e o que fazem quando estão no governo é semelhante. Também é necessário combater a polarização entre moralismo conservador e progressista, pois são formas de manipulação da população com objetivos políticos (partidários, eleitorais, hegemônicos, etc.). No interior disso, é necessário a crítica do liberal-conservantismo e do conservantismo (que pode se livrar do liberalismo, bem como do progressismo e seu populismo, e assumir o monopólio do governo e a hegemonia na sociedade brasileira). Por conseguinte, avançar no sentido de compreender o conservantismo, o liberalismo e suas formas (especialmente o liberal-convervantismo, mas suas outras variantes também), suas raízes e interesses, torna-se cada vez mais importante, ao lado da já mais conhecida e facilmente identificável crítica ao progressismo. Porém, não se trata da crítica progressista e oportunista ao reacionarismo, que ataca o presidente como indivíduo ou fica apenas mostrando suas fraquezas intelectuais, e nunca aprofundando para mostrar os reais interesses, as raízes, os limites, e o contexto no qual ele acaba emergindo e se tornando governo (e a falta de alternativas institucionais). Ou então a crítica que diz não para as reformas e se coloca como opção, sem apresentar nenhum projeto ou programa alternativo. Trata-se de mostrar que as reformas retrógradas são uma panaceia, um remédio universal que, no fundo, nada vai curar.
Esse é o caso das últimas medidas governamentais a respeito das universidades. A contestação dos cortes de verbas para as universidades só deve ser feita com a criticidade necessária, pois realmente há um processo de desqualificação das ciências humanas e “humanidades” não apenas pelos conservantistas, mas pelos progressistas, com suas temáticas “exóticas”, superficiais e sem valor social, político e cultural, como suas tendências irracionalistas, anti-intelectualistas (que alguns acusam no atual governo e foram semeadores do mesmo), do uso tendencioso dos recursos financeiros e a falácia da neutralidade dos pareceres e julgamentos, entre outros processos amplamente conhecidos e que não são novos nas universidades[19]. A crítica das políticas governamentais, tal como a da política educacional, não deve servir de apoio para a manutenção dos problemas, do burocratismo, do produtivismo quantitavista e de baixa qualidade, entre inúmeros outros problemas, existentes nas universidades e nas escolas brasileiras, ou fazer de conta que não existem problemas no capitalismo brasileiro (o que traz a confortável e oportunista ideia de que basta trocar de governo para se resolver tudo). A crítica deve ser fundamentada e com compromisso com a verdade (inclusive no sentido de mostrar que os governos anteriores, o capital transnacional, determinados setores da sociedade, os parlamentares anteriores e atuais, etc., são responsáveis pelo caos atual), bem como ser radical e ir até a raiz. Assim se mostra as bases reais e sociais desse processo e que, portanto, a mera troca de governo não gera nenhuma grande alteração[20] e isso é perceptível pelo fato que não há nenhum projeto alternativo e o bloco progressista nem sequer tem quadros suficientes para governar, o que se conseguiria com alianças com aqueles considerados indesejáveis e neoliberais, tal como fez o PT.
Portanto, a luta é árdua, em várias frentes e com vários aspectos. Nesse contexto, é preciso fortalecer o bloco revolucionário, aglutinar forças e apontar para o futuro e esquecer o passado e as opções espaciais e presentistas (direita e esquerda). O fortalecimento do bloco revolucionário e a união dos trabalhadores, dois elementos que geralmente caminham juntos, embora possa haver um descompasso e um avançar mais rápido que o outro, são fundamentais para a superação da situação caótica que a sociedade brasileira se encontra e para evitar a catástrofe e o barbarismo que se desenham no horizonte do capitalismo mundial. Então é hora de lutar, pois a luta de hoje, sendo sedimentada, reforça a luta de amanhã e a tendência que queremos que seja vitoriosa.
Referências
BOURDIEU, Pierre; WACQUANT, Löic. Prefácio: Sobre  as  Armadilhas  da  Razão Imperialista. In: NOGUEIRA, Maria Alice; CATANI, Afrânio (orgs.). Escritos de Educação. 3ª edição, Petrópolis, Vozes, 1998.  

BRAGA, Lisandro. Terry Eagleton contra os Pós-Modernos: A Ironia de uma Crítica Corrosiva. In: MARQUES, Edmilson e BRAGA, Lisandro (orgs.). Intelectualidade e Luta de Classes. São Carlos: Pedro e João Editores, 2013.

EAGLETON, Terry. As Ilusões do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

VIANA, Nildo. Blocos Sociais e Luta de Classes. Espaço Livre, Vol. 10, n.º 10, jul./dez. 2015. Disponível em: http://informecritica.blogspot.com/2016/03/blocos-sociais-e-luta-de-classes.html

VIANA, Nildo. Estado e Acumulação de Capital. Revista Enfrentamento. Ano 12, Num. 21, jan/jun. 2017. Disponível em: http://informecritica.blogspot.com/2018/01/estado-e-acumulacao-de-capital.html

VIANA, Nildo. Gênero e Ideologia. In: VIANA, N. (org.). A Questão da Mulher. Opressão, Trabalho, Violência. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2006. http://informecritica.blogspot.com/2014/11/genero-e-ideologia.html


VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. A ser publicado.

WOOD, Elen. Democracia Contra Capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2004.

YOUNG, Jock. A Sociedade Excludente. Exclusão Social, Criminalidade e Diferença na Modernidade Recente. Rio de Janeiro: Revan, 2002.



[3] Terry Eagleton aborda isso em seu livro “As Ilusões do Pós-Modernismo” (1998). Veja comentário em Braga (2013).
[4] Elen Wood (2004) criticou a “política de identidades”; Eagleton (1998) criticou o “pós-modernismo”; Young (2002) criticou a essencialização das identidades; Bourdieu e Wacquant (1998) fez algumas críticas no caso da nova posição sobre a questão racial no Brasil (mostrando inclusive o financiamento disso) e a “novilíngua”, entre alguns outros. No Brasil, o que ocorreu foi uma adesão quase completa da esquerda e seus intelectuais, com raríssimas exceções. O mesmo vale para o bloco revolucionário. Nesse último caso, veja: Gênero e ideologia (VIANA, 2006), publicado em 2006, mas escrito em 1998.
[5] Deve-se entender que a linguagem teórica é distinta da linguagem partidária ou política. Nos Estados Unidos, os republicanos são a direita e os democratas a esquerda, mas estes últimos aqui no Brasil, antes da emergência dos governos petistas, seriam considerados “direita” de tão conservadores que são. Só que o Partido Republicano é composto por conservadores mais extremos e o Partido Democrata por conservadores menos extremos, tal como alguns setores do liberalismo e republicanismo. O termo “republicanismo” se refere a uma concepção política e não ao partido norte-americano, que nada tem de republicano, posição que é, nesse país, dos democratas. Os nomes dos partidos são enganosos. Se alguém acreditar neles, pode vir a pensar que o PCB (Partido “Comunista” Brasileiro) antigo era o que dizia seu nome, ou que seu novo nome, PPS (Partido Popular “Socialista”), significava que ele era “socialista”. Tanto não era que já mudou de nome de novo e já tirou o “socialista”. Até os reacionários do Partido Nazista colocaram “socialista” no nome do partido. Os nomes dos partidos não são equivalentes à posição política que eles realmente defendem. O nome tem a ver com interesses eleitorais, oportunismo, estratégia eleitoral, interpretações, etc. e não com a análise teórica. Somente os pesquisadores e intelectuais despreparados julgam os partidos pelos seus nomes.
[6] Partido dos Trabalhadores.
[7] O antipetismo reforçou o “petismo” e esse reforçou o bolsonarismo, o setor mais decididamente antipetista e ambos chegaram ao segundo turno. Assim, a polarização reforçou as duas candidaturas com maior rejeição e que inicialmente tinham pouca possibilidade de chegar ao segundo turno das eleições.
[8] Talvez um misto de incompetência e de intencionalidade, pois existe a possibilidade de fazerem  isso propositalmente para manter uma base de apoio por causa de questões morais e desviar a atenção das reformas retrógradas e outros elementos mais importantes da política governamental.
[9] Respeitabilidade intelectual, mas não moral, pois aí seria uma perda (as acusações de corrupção e outros elementos tornam o PSDB pouco respeitável nesse sentido), mas compensaria para o governo, pois a situação seria menos problemática e a manutenção do governo até o fim do mandato estaria garantida. O que ele perderia seria o apoio de uma pequena minoria de extremistas, mesmo que barulhentos, e ganharia um apoio quantitativamente maior, inclusive de setores importantes da sociedade, tal como alguns setores da burguesia.
[10] O bloco dominante (conservador, ou seja, que aglutina todas as forças do conservadorismo), como todos os blocos sociais, possui uma ala mais extremista e outra menos extremista. No caso do bloco dominante, temos a ala reacionária (mais extremista) composta pelo nazismo, fascismo, conservantismo, etc. e uma ala moderada, representada pelo liberalismo (em suas várias formas), republicanismo, etc. Há alguns setores que ficam entre essas duas alas, pendendo mais para um lado ou para outro. No bloco progressista, há também um setor mais extremista, o bolchevismo (o insurrecionalista e não seus derivados claramente reformistas) e outro mais moderado (trabalhismo, social-democracia, etc.). Há também setores que ficam entre o bloco dominante e o bloco progressista, como os liberais-democratas e alguns representantes do trabalhismo. No entanto, ainda falta uma análise mais profunda dessas divisões dos blocos sociais e, a nível geral, sobre as diversas tendências conservadoras e progressistas. Sobre blocos sociais, veja: Viana, 2015 (http://informecritica.blogspot.com/2016/03/blocos-sociais-e-luta-de-classes.html).
[11] Para quem pensa que a TFP se resume a apenas “marchas” (realizadas na década de 1960) ou que deixou de existir, basta consultar o site dela para saber que ainda existe: http://www.tfp.org.br/
[12] Sobre isso, cf. Viana, 2019.
[15] Entenda-se por capital internacional toda empresa capitalista estrangeira (que pode exportar ou importar, por exemplo) e por capital transnacional toda empresa capitalista estrangeira que atua em solo brasileiro.
[16] Sobre a relação entre Estado e Acumulação de Capital, cf. Viana, 2017 (http://informecritica.blogspot.com/2018/01/estado-e-acumulacao-de-capital.html).
[17] Isso fortaleceria em uns a ideia de que a população não sabe votar e em outros que não é ela que decide quem governa, sendo que as duas ideias possuem momentos de verdade, especialmente a última.
[18] E assim deixam de ser revolucionários.
[19] Assim, a subordinação cultural do Brasil aos países imperialistas, responsável inclusive por essas ideologias e pesquisas “exóticas” e superficiais, necessita ser avaliada e criticada (o que permite a crítica conservadora, tal como se vê nesse texto: https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/14549/sim-devemos-redimensionar-os-investimentos-feitos-em-filosofia-e-sociologia), bem como deve gerar projetos alternativos de educação e formação, pressão social para produção intelectual voltada para os problemas sociais, etc. Sem dúvida, a subordinação cultural é tão forte e convincente que inventa ideologias supostamente contrárias, tal como a “decolonialidade”, cuja base paradigmática é completamente subordinada aos países imperialistas.
[20] Basta ver que os petistas criticam os cortes de verbas das universidades federais pelo Governo Bolsonaro como se fosse mera decisão de um governo ruim e o governo estadual do PT na Bahia faz a mesma coisa, só que dizendo que é um “problema econômico”. Veja: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/05/universidades-estaduais-da-ba-enfrentam-cortes-sob-pt.shtml

domingo, 12 de maio de 2019

COMO COMBATER O REACIONARISMO?



COMO COMBATER O REACIONARISMO?

Nildo Viana



Hoje é possível perceber um avanço do reacionarismo que vem ganhando cada vez mais espaço, especialmente na sua forma do conservantismo, inclusive no Brasil. Esse conservantismo (e não fascismo, como querem nos fazer crer o discurso petista)[1] vem se fortalecendo em escala mundial, tendo alguns países que elegeram presidentes conservantistas ou próximos disso. O conservantismo é uma variante do reacionarismo, tal como o fascismo e o nazismo, embora mais moderado em alguns aspectos. Ele se caracteriza por ser um conservadorismo amplo, tanto moral quanto político. Desta forma, ele é estatista, autocrático, tradicionalista, etc. O regime militar, no Brasil, era conservantista. No caso brasileiro, há um avanço do conservantismo e do liberal-conservantismo[2].

A questão que assume importância hoje é: como combater o conservantismo? Esse problema, no entanto, é em si mesmo, problemático e vamos mostrar isso. Em síntese, os nossos objetivos aqui são dois: discutir como combater o conservantismo e mostrar que isso é algo problemático se reduzido a apenas isso.

O que é o reacionarismo?

No interior da sociedade capitalista, emergem inúmeras ideologias, doutrinas, representações, ideias, etc., que são burguesas e próximas (burocráticas, semiburguesas, etc.). Isso cria uma enorme dificuldade de entender suas diferenciações. Num nível mais abstrato, poderíamos simplesmente colocar que são concepções burguesas, o que é correto, mas aí perdemos de vista suas divisões e diferenciações internas, correndo o risco de não compreender as disputas internas no interior do bloco dominante, bem como entre este e o bloco progressista, além de não entender ações e discursos. Podemos realizar divisões e subdivisões e isso não seria apenas um exercício intelectual, mas algo importante para compreender as lutas políticas dentro do bloco dominante e de sua disputa eleitoral e política com o bloco progressista. O pensamento conservador (expressão intelectual do bloco dominante) pode assumir a forma do reacionarismo, do liberalismo, do republicanismo, etc. O pensamento progressista (expressão política do bloco progressista) pode assumir a forma do trabalhismo, social-democracia, bolchevismo, etc.

O reacionarismo é, portanto, uma expressão intelectual de uma ala do bloco dominante, a ala reacionária[3]. Ela conta com uma base social variada, incluindo setores da burguesia, da semiburguesia, da burocracia, etc. Ela é bem diminuta em momentos de estabilidade política e econômica, mas tende a se fortalecer quando emergem processos de desestabilização, diminuição da renda de certas classes sociais, crises, ascensão da luta operária, etc. Ela se torna, em muitos momentos, a tropa de choque da classe dominante. A burguesia, no seu conjunto, não apoia a ala reacionária e até a desdenha. Apenas um restrito setor dessa classe adere ao reacionarismo.

Porém, a desestabilização faz aumentar os adeptos da classe capitalista ao reacionarismo e, em momentos de crise, ameaça de revolução proletária, a maioria da burguesia pode apoiar a ala reacionária do bloco dominante para garantir a sobrevivência do capitalismo. O fascismo e o nazismo encarnam a ala reacionária do bloco dominante em momentos de crise e necessidade de expansão imperialista, enquanto que o conservantismo é mais comum e emerge em diversos países e momentos históricos, assumindo diversas formas, mas mantendo sua essência. Outras formas de reacionarismo, como o liberal-conservantismo e o estatismo, são formas híbridas e mais comuns dentro da sociedade capitalista, mas podem desembocar no conservantismo dependendo da situação nacional e mundial. O reacionarismo, em qualquer de suas formas, pode ganhar popularidade e obter apoio de setores das classes trabalhadoras. A conquista de setores das classes trabalhadoras ocorre, geralmente, pelo apelo ao nacionalismo, ao moralismo conservador, a ideia (geralmente deformada) de raça, aos interesses nacionais, etc.[4]

Em síntese, o reacionarismo é uma ala do bloco dominante e seu combate é muito mais contra os trabalhadores, determinados grupos sociais, do que por algum ideal em si mesmo. Isso mostra o seu caráter pragmático, tal como se vê no nazismo, fascismo, conservantismo, bem como o seu pouco desenvolvimento intelectual, constituindo doutrinas políticas muito mais que ideologias e mostrando fraqueza intelectual e, em alguns casos, desdém pela teoria, pela formação intelectual, etc.[5] O seu objetivo é sempre a retomada da acumulação capitalista e aumento da exploração, bem como intensificação da repressão e controle social. Todas as tendências reacionaristas tem alguns elementos em comum: nacionalismo, estatismo, controle, etc. O reacionarismo pode ser definido com um conjunto de doutrinas e concepções burguesas que sustentam a reação capitalista diante da desestabilização ou crise (do regime de acumulação e/ou do capitalismo), sendo a ala mais extremista do conservadorismo.

A luta contra o reacionarismo é uma luta contra o conservadorismo e o progressismo

Quando, em 1939, Otto Rühle, que participou do processo da revolução alemã, lançou seu texto A Luta contra o Fascismo começa com a Luta contra o Bolchevismo,  ele já coloca alguns elementos fundamentais para compreender a luta proletária contra as tendências fascistas e sua relação com a luta de classes. A grande questão é compreender que a luta contra o reacionarismo a partir da perspectiva de outros setores do conservadorismo (liberalismo, republicanismo, etc.) ou do progressismo (social-democracia, bolchevismo, etc.) é um recuo para o movimento operário e para o conjunto das classes trabalhadoras.

A razão disso se encontra no fato de que a luta, a partir desta perspectiva, é a redução da luta operária a uma luta de partidos (ou alas, blocos, etc.) no qual se luta contra um setor da burguesia e a favor de outro ou a favor da burocracia. Isso gera um desarmamento do proletariado e dos trabalhadores em geral, pois gera despolitização e reboquismo no conjunto das classes trabalhadoras, além de apagar os interesses de classes e seu antagonismo. A despolitização dos trabalhadores é um interesse do capital, pois quanto mais despolitizado for a população, mais fácil dominá-la, explorá-la, e menores serão as reivindicações, mais fracas serão as lutas, etc. A despolitização é interesse também da esquerda, pois por mais que façam discurso sobre educação e outros aspectos, querem que os trabalhadores fiquem num nível elementar de consciência, que é para ser os seus apoiadores (seja eleitoralmente, seja como bucha de canhão, etc.). Aliás, não é sem motivo que a sociedade contemporânea, altamente desenvolvida tecnologicamente, possui um desenvolvimento intelectual tão restrito e surgem fantasmagorias junto com o reacionarismo (religiosidade confusa, pseudoteorias da conspiração, ideias ridículas como a de que a “terra é plana”, simplificações políticas grosseiras, etc.) e os progressistas apostam em outras mistificações (tal como o discurso sobre o “fascismo”, mas também o neopopulismo marcado por promessas irrealizáveis, etc.).

Assim, a luta contra o reacionarismo, quando este chega ao poder, por parte dos liberais, republicanos, social-democratas, etc., geralmente assume a forma da crítica a indivíduos e governos, a determinadas políticas pontuais e específicas, a uma recusa das ações e políticas governamentais, sem apresentar nenhuma alternativa real (e geralmente fazendo de conta de que não há problema algum, ou seja, o único problema é o governo).

Isso se manifesta hoje na sociedade brasileira, e o fato de ter havido os governos petistas (três mandatos completos e um iniciado e interrompido) não alterou em nada esse quadro. Pelo contrário, reforçou. As políticas educacionais dos governos petistas foram no sentido de diminuir a qualidade do ensino e da educação e a ampliação da hegemonia burguesa e de determinadas ideologias, inclusive irracionalistas[6]. O bolchevismo, na Rússia, também efetivou um processo de despolitização, ao criar a ilusão da abolição das classes e do capitalismo e gerar a simplificação intelectual do pseudomarxismo transformado em ensino obrigatório.

É necessário, portanto, evitar o reboquismo. O reboquismo se manifesta através da adesão acrítica à luta pela democracia burguesa, o que significa apoiar setores da burguesia (a ala moderada do bloco dominante) e da burocracia (progressismo) e abandonar a necessidade de autonomia de classe e a luta por seus interesses. Assim, ao criar um “inimigo comum”, que é apenas a ala reacionária do bloco dominante, se cria uma unidade que é em torno de forças burguesas ou burocráticas visando garantir a conquista do governo ou vitória eleitoral, entre outras possibilidades semelhantes. No plano concreto, é apenas discurso defensivo contra reformas retrógradas, políticas governamentais, ou ataque a partidos e indivíduos. Nesse caso, o proletariado e o conjunto das classes trabalhadoras se tornam apenas uma força auxiliar numa luta interburguesa e/ou entre setores da burguesia contra outros setores da burguesia e da burocracia. Assim, a luta gira em torno de quem deve governar e como deve fazê-lo: quem deve governar é a reacionária do bloco dominante ou uma aliança de sua ala moderada com o bloco progressista? Claro que nessa disputa há também aquela que é quem terá hegemonia na luta contra o governo da ala reacionária, pois isso lhe beneficia nas futuras disputas eleitorais. Daí o discurso da “unidade”, da “frente popular” e outros nomes dependendo do caso concreto.

Ao lado disso, os interesses de classe do proletariado e demais trabalhadores são esquecidos e em seu lugar se opta por um programa liberal, reformista, ou qualquer outro programa burguês que, sem dúvida, não só mantém a exploração e a dominação, como geralmente há a tendência a se impor um processo de deterioração das condições de vida do conjunto dos trabalhadores, pois, para evitar o “fascismo”, é necessário “sacrifícios de todos”, embora nem todos fazem parte do “todos”. As necessidades e reivindicações dos trabalhadores são esquecidas e apenas um fetichismo da democracia permanece e é exigido de todos. O que se pede aos trabalhadores é “apoiem e/ou votem nos democratas para que eles cheguem ao poder e reproduzam o que existe, piorando a sua situação” e assim se escamoteia quem ganha com isso e quem perde. E quem perde, ganhe a ala reacionária ou ganhe os seus adversários, são os trabalhadores.

A percepção da luta de classes é apagada e se reduz a uma luta de partidos ou coalizão de partidos, que pode assumir a aparência de mera “resistência” ao governo. Nesse momento, o proletariado é abandonado pelos progressistas, bem como suas reivindicações, necessidades, interesses (tanto os imediatos quanto os fundamentais e históricos), e assim é possível conquistar o governo sem ter que prometer nada, apenas manter a farsa democrática[7].

É por isso que, a partir da perspectiva do proletariado, a luta contra o reacionarismo é, simultaneamente, uma luta contra o conservadorismo em geral e também contra o progressismo. A autonomização do proletariado é fundamental, para colocar contra as forças políticas do bloco dominante e do bloco progressista, suas reivindicações e assim criar uma força maior no sentido de realizar suas exigências, gerar suas formas organizacionais próprias, desenvolver a autoformação (e consciência de classe, não uma consciência fragmentada e reboquista), etc. Se aliar ao progressismo, ou a setores conservadores que defendem a democracia burguesa, é algo que reforça organizações, indivíduos, concepções antiproletárias e que não se diferenciam radicalmente, da perspectiva de classe, do reacionarismo. Por isso é fundamental um combate simultâneo ao reacionarismo, ao conservadorismo em geral e ao progressismo.

As táticas para combater o reacionarismo

E como se combate o reacionarismo, sob qualquer forma que ele apareça? Podemos dizer que existem elementos comuns nesse combate ao reacionarismo e elementos distintos dependendo da forma como ele aparece e o contexto social e histórico. Historicamente, existiram algumas táticas visando combater algumas manifestações do reacionarismo e vamos apresentá-las para mostrar seus limites e apontar outra forma de realizar tal combate.

Uma tática que se convencionou utilizar para enfrentar o reacionarismo foi a luta armada. Essa é defendida por variadas posições políticas. No entanto, no plano da luta concreta, ela sempre fracassou. Ela também assumiu formas distintas: o combate de rua, a guerrilha, a guerra civil, etc. Alguns defendem tal tática até em momentos em que isso não se faz necessário ou mesmo possível, a partir de análise de casos isolados. No caso da Alemanha e do nazismo, houve combates entre integrantes do KPD (Partido Comunista da Alemanha) e do Partido Nazista. Como todos sabem, isso não evitou a ascensão nazista ao poder. No Brasil, na luta contra o conservantismo, setores da esquerda resolveram realizar a luta armada via guerrilhas e outras ações simultâneas, o fracasso é conhecido, e as consequências também (mortes, torturas, etc.). A luta armada é uma tática equivocada por alguns motivos básicos. No caso do combate de rua, ela transforma a luta em disputa de facções armadas e as forças paramilitares de algumas forças reacionárias possuem vantagem de armamentos e treinamento, bem como muitas vezes podem ser apoiadas pelo aparato repressivo do Estado capitalista ou contar com sua omissão.

A guerrilha (urbana ou rural, ou ambas, simultaneamente) é outra tática equivocada na maioria dos contextos. E o que a torna equivocada, assim como o combate de rua, é a falta de apoio popular. O caso brasileiro, onde um punhado de guerrilheiros queriam enfrentar o exército brasileiro num país continental, é algo totalmente desproporcional e mostra como a esquerda perde o senso de realidade por causa de suas crenças, muitas vezes descoladas completamente da realidade.

A luta armada só tem sentido e possibilidade de efetividade quando não é ação partidária e sim um movimento mais amplo e com iniciativa popular, pois, caso contrário, as forças reacionárias (e o aparato estatal, em determinados contextos e dependendo da situação) são muito mais preparadas para tal confronto e o agrupamento combatente tende a ser reduzido. Da mesma forma, trata-se de iniciativa popular, ao lado do bloco revolucionário, e não de “apoio popular”, o que significaria que as classes trabalhadoras estariam apoiando algum partido ou coalização de partidos ou outras forças políticas. Isso significa que a luta armada só tem sentido num momento de guerra civil, ou seja, quando a população está diretamente envolvida na luta e o proletariado se autonomiza colocando sua perspectiva de classe, de forma autônoma e independente. Fora disso significa combater e morrer por forças que não expressam os interesses dos trabalhadores e sim a reprodução do capitalismo. A guerra civil espanhola foi um momento em que era possível a luta armada contra um regime ditatorial, mas isso só tem sentido se houver uma defesa da autonomização do proletariado e não defesa do bloco progressista ou mera disputa política institucional. Da mesma forma, não se deve idealizar a luta armada que se manifesta nesse contexto e transpô-la para qualquer outro contexto como alguns fazem. A luta armada só tem sentido ao lado da iniciativa popular e lutando pelos interesses do proletariado, pois se for para reforçar forças democráticas da burguesia ou da burocracia, significa tão somente apoio popular e reboquismo.

Outra tática é a eleitoral. Essa, por tudo que já dito acima, é totalmente inócua e contrária aos interesses das classes trabalhadoras, pois significa um apoio popular superficial para um determinado setor que quer reproduzir a sociedade burguesa contra outro setor. As eleições não garantem a derrota do reacionarismo e nem impede sua ascensão, que pode ocorrer via eleitoral ou via insurrecional. Mussolini foi convidado pelo rei Victor Emannuele para fazer parte do governo. O presidente da Alemanha, Paul von Hindenburg, nomeou Hitler chanceler em 1933. Eles não ganharam eleições, mas ganharam o poder que foi doado por quem havia vencido o processo eleitoral. Outras formas de reacionarismo tomaram o poder via golpe de estado ou guerra civil. Isso quer dizer que as eleições não são o elemento fundamental para definir quem exercerá o poder estatal e sim a correlação de forças na sociedade e por isso, com ou sem eleição, os reacionários podem conquistar o poder estatal. As eleições como tática para evitar o reacionarismo é uma ingenuidade, pois havendo correlação de forças contrárias a quem ganha a eleição, existem vários subterfúgios para se derrubar o governo e colocar um reacionário em seu lugar.

A tática eleitoral de setores ditos “revolucionários”, que apoiam de bom grado os ditos “reformistas”, é um contrassenso, pois fortalece o bloco progressista que é contrário ao bloco revolucionário e aos interesses da maioria da população, enfraquecendo, assim, sua autonomia, criticidade, iniciativa, etc. E, mais do que isso, o processo eleitoral é marcado pela ausência do proletariado, da luta de classes, etc. E quando se brada o “perigo do reacionarismo”, o que se faz é colocar em disputa qual forma de dominação burguesa se escolherá e se coloca o proletariado para combater do lado de uma das forças pró-burguesas. A tática eleitoral é, além disso, desmobilizadora e despolitizadora. Ela é desmobilizadora por delegar a um terceiro a luta contra o reacionarismo e é despolitizadora por colocar o proletariado a reboque dos progressistas e lutando por questões que não são relacionadas com seus interesses de classe, pois a discussão fica geralmente reduzida a escolher entre ditadura (burguesa) ou democracia (burguesa). Ao apoiar o progressismo, há um processo de desmobilização e despolitização que, por sua vez, havendo a derrota dos progressistas, gera uma situação onde não há um trabalho e uma base para uma iniciativa popular e, portanto, para a autonomização do proletariado. Assim, a disputa entre reacionários e outras forças burguesas e burocráticas serve apenas para facilitar a dominação burguesa e a anulação do proletariado.

Uma terceira tática é a da chamada “frente popular”, ou “frente democrática” ou, ainda, “frente única”. No fundo, essa tática pode estar sendo defendida junto com a da luta armada ou eleitoral. Por isso, padece dos mesmos problemas dessas duas formas já abordadas. A frente democrática é, no fundo, ou uma união de forças burguesas (republicanistas, liberais-democráticos, etc.) e forças burocráticas (social-democracia, trabalhismo, bolchevismo, etc.) contra uma ala do bloco dominante, a ala reacionária vinculada quase exclusivamente à burguesia. Novamente o proletariado e o bloco revolucionário (a não ser seus segmentos mais volúveis e semiproletários que mantém um vínculo psíquico[8] com a social-democracia e/ou bolchevismo e acabam ficando ao reboque da burocracia dessas tendências) ficam ausentes ou servem apenas como apoio, especialmente eleitoral. O problema da frente popular é justamente o mesmo que as demais táticas, o afastamento da luta de classes, do proletariado, da ideia de transformação social, e a tomada de partido por uma das forças que querem governar para reproduzir o capitalismo. Se ela se torna luta armada, reproduz o mesmo problema[9].

O que todas essas táticas possuem em comum é o abandono da perspectiva do proletariado e da transformação social, o que, indiretamente, significa adesão ao capitalismo. Por mais que digam que o voto é crítico, que é um apoio temporário, que é para evitar o pior, que é melhor para desenvolver as lutas, apenas se justifica e legitima um ato covarde e não-proletário. Sem dúvida, que isso vale para aqueles que possuem determinada formação e são aguerridos defensores do apoio aos progressistas e seus aliados burgueses e não para os que acabam cedendo por pressão e sem grande convicção.

Como se deve combater o reacionarismo?

Se todas as táticas anteriores não servem, então resta a pergunta: como combater o reacionarismo? A noção de tática, é ela mesma de origem militarista, o que significa uma disputa entre forças militares e burocráticas e não luta de classes. Ao invés de tática, trata-se de pensar uma estratégia específica numa situação específica. E, enquanto estratégia, pressupõe reflexão e análise, bem como nunca abandonar o objetivo final. Assim, a primeira questão é entender qual forma de reacionarismo se combate e após essa identificação, é preciso entender suas fontes, o que o fortaleceu para se tornar uma possibilidade de chegar ao poder. De posse desses elementos reflexivos, o passo seguinte é elaborar a estratégia específica de combate na perspectiva do proletariado.

Contra qual reacionarismo é a luta? Fascismo, nazismo, conservantismo? Quais são as fontes geradoras desse reacionarismo? E o que o bloco revolucionário, ao lado do proletariado e demais classes trabalhadoras, pode e deve fazer nesse contexto? O primeiro elemento é não se aliar com o bloco progressista e/ou outros setores da burguesia, pois isso seria ajudar um inimigo contra outro e enfraquecer o proletariado e os trabalhadores em geral. Como já dissemos e explicamos anteriormente, a luta contra o reacionarismo é uma luta contra o progressismo, tal como já destacava, sob outra forma, Otto Rühle[10].

A isso se soma as estratégias constantes da luta proletária: a) luta nos locais de trabalho, moradia, estudo; b) luta cultural; c) trabalho junto com as classes trabalhadoras no sentido de reforçar sua autonomização, auto-organização e autoformação (não chamando ela para apoiar forças burguesas ou burocráticas e sim para decretar sua autonomia e efetivar sua própria luta contra ambos os lados em disputa); d) reivindicações e exigências proletárias, ou seja, que atendam aos seus interesses (imediatos e fundamentais). Essas estratégias constantes, no entanto, nem sempre se concretizam, e menos ainda com grande eficácia. Isso ocorre por uma razão bem simples: o bloco revolucionário, por mais desenvolvido que seja teoricamente, depende da ascensão das lutas dos trabalhadores e por mais que incentive essa luta, não pode criá-la artificialmente, pode fortalecê-la, mas não pode gerá-la (pelo menos não em grandes proporções, a não ser que ele esteja extremamente desenvolvido, o que significa que as próprias lutas operárias também estão, pois é sua condição de possibilidade).

Assim, o bloco revolucionário tem como elemento fundamental buscar desenvolver a união, as organizações autárquicas e a formação/autoformação das classes trabalhadoras, num sentido autogestionário. E o avanço do reacionarismo é apenas um sintoma de que algo na sociedade está gerando problemas e estes, a partir de certo contexto, gerando soluções equivocadas. Por isso, para combater o reacionarismo e seus adversários é preciso entender a sua forma e a sua fonte. Nesse momento, a luta cultural passa a ter que abordar outros elementos e realizar uma luta contra a adesão das classes trabalhadoras ao reacionarismo e aos seus adversários.  

Um dos elementos que o reacionarismo utiliza é a manipulação dos sentimentos. Em épocas de crise, de contradições mais agudas, de ascensão da luta proletária, etc., a manipulação dos sentimentos é uma das armas que atinge o proletariado e os demais trabalhadores no sentido de desviá-los da luta de classes e da autonomização. Os nazistas, por exemplo, culpam os judeus do desemprego e assim despolitizam esse fenômeno social e seu vínculo com as classes sociais e seus interesses. Desta forma, criam um inimigo imaginário que se torna responsável pelos males sociais e canaliza o ódio e outros sentimentos contra ele e livra a burguesia da responsabilidade. Um dos elementos que os vários reacionarismos utilizam para combater a esquerda é a questão da família, tradição, nação, etc.
Aqui temos a dificuldade da esquerda em combater o reacionarismo. A esquerda geralmente cede ao racionalismo e iluminismo e assim desconsidera os sentimentos e a questão da moral, ou então tenta impor à população a sua concepção moral (ou faz como os fascistas, buscam manipular os sentimentos). Isso cria um afastamento. Mais contemporaneamente, derivado do novo paradigma hegemônico, o subjetivismo, a esquerda passou, em vários setores, a reproduzir essa concepção e os seus elementos derivados, tal como o moralismo subjetivista, e assim acabou criando novos obstáculos diante da maioria da população. A ideia liberal do “meu corpo, minhas regras”, da defesa do “politicamente correto” e outros processos, geraram um moralismo progressista subjetivista que é oposto ao que a maioria dos indivíduos das classes trabalhadoras defendem. Aliado a isso, parte da esquerda aderiu à política de identidades e abandonou as políticas voltadas para as classes trabalhadoras. No caso brasileiro, que não cabe aqui retomar[11], os governos petistas foram os responsáveis pela geração de um forte antipetismo e o endurecimento do moralismo conservador em vários setores da sociedade como reação ao moralismo progressista subjetivista (e seu subproduto, o imoralismo). Assim, ao não contribuir para o desenvolvimento de uma consciência de classe e ainda gerar um moralismo malvisto pela maioria dos trabalhadores, a esquerda se afasta e perde a influência sobre as classes trabalhadoras. O problema é que o bloco revolucionário, seja pela influência do bloco progressista seja por suas debilidades próprias[12], não conseguiu preencher o vazio, e por isso uma grande parte dos trabalhadores acabam preferindo o conservadorismo ao progressismo.

O bloco revolucionário também comete alguns erros, tal como reproduzir o moralismo progressista ou o imoralismo. É preciso deixar claro que esse é um campo pouco explorado pela teoria e pelos grupos, intelectuais, militantes e por isso é espaço aberto para a reprodução das concepções progressistas. É preciso aprofundar a discussão nesse âmbito e colocar uma perspectiva proletária em relação a tais questões. Algumas tentativas e esboços nesse sentido já foram realizados no passado, mas nada de muito desenvolvido e as interpretações posteriores e influência do paradigma hegemônico, dificultam um avanço nessas questões.

Mas um elemento fundamental seria romper com o moralismo, seja o conservador, seja o progressista, e em todas as suas formas. O moralismo se fundamenta em uma moral, e esta pode ser compreendida como “um conjunto de normas produzidas de forma exterior aos indivíduos, é imposta pela sociedade ao indivíduo. Por isso, ela é pouco praticada embora seja muito propagandeada, gerando quase sempre uma contradição entre discurso e prática”[13]. Se temos, por um lado, a moral religiosa como uma das manifestações da moral conservadora, temos, por outro, o politicamente correto como uma das manifestações da moral progressista. Ambas são imposições de normas de conduta sobre os indivíduos e isso gera, geralmente, uma contradição entre discurso e prática. O bloco revolucionário deve expandir a ética revolucionária e não ceder aos moralismos (e nem ao “imoralismo”, subproduto do moralismo progressista que quer romper com “todas as regras”, num hiperindividualismo, muitas vezes hedonista). Não cabe a quem se considera revolucionário partir dos indivíduos da sociedade atual, com seus valores (constituídos socialmente), concepções, desequilíbrios psíquicos, falta de autonomia e reflexão, submetidos ao modo de pensar burguês (reducionista, anistórico e antinômico), para formar “normas de conduta” para os demais ou para a futura sociedade autogerida. Uma sociedade de seres humanos livres é a mais adequada para instaurar uma ética generalizada na sociedade e não a projeção de seres humanos de uma sociedade desumanizada sobre um projeto de futuro[14].

Assim, o combate ao reacionarismo deve se fundamentar na estratégia revolucionária constante (luta nos locais de trabalho, moradia, estudo; luta cultural; trabalho junto com as classes trabalhadoras no sentido de reforçar sua autonomização, auto-organização e autoformação, reivindicações proletárias). Porém, a debilidade do bloco revolucionário é um obstáculo para tal. Essa debilidade é expressa no aspecto quantitativo (quantidade de militantes, e que é menor ainda se levarmos em conta apenas aqueles que atuam mais frequentemente), nas divisões internas, nas ambiguidades de vários indivíduos e grupos, entre outros processos, alguns já aludidos anteriormente, na dificuldade de vínculo mais efetivo com as classes trabalhadoras em certos momentos históricos (especialmente nas épocas de estabilidade ou no qual a classe dominante consegue impor polarização entre setores do bloco dominante ou entre este e o bloco progressista), a falta de estratégia de vários setores, etc.[15] Independentemente dessa debilidade, é preciso elaborar estratégia específica para combater o reacionarismo. No entanto, em primeiro lugar é preciso deixar claro que não se trata apenas de combater o reacionarismo e sim lutar contra a sociedade capitalista. O combate ao reacionarismo só tem sentido se for uma luta contra o capital, o estado e todas as concepções, organizações, etc., que visam sua reprodução. O combate ao reacionarismo é um combate ao capitalismo num contexto de fortalecimento da ala reacionária do bloco dominante ou então sob um governo comandado por ela. Não se trata de lutar apenas contra o reacionarismo, pois isso fortalece os liberais, os republicanos, os progressistas nas suas várias tendências.

Isso significa que o primeiro ponto é entender e ter clareza de qual é o combate e que não se trata de limitar a luta a uma recusa do reacionarismo, pois isso seria perder autonomia, ser não estratégico (pois não contribui com a realização do objetivo final) e fortalecer outros setores da burguesia ou da burocracia. Este esclarecimento, ausente em vários setores do bloco revolucionário, é o que permite e gera o reboquismo. Isso é reforçado pelo clima social e cultural que pode ser criado, bem como pressão social, envolvimento com processos de manifestações e outras ações, além de interesses pessoais. Um professor universitário, por exemplo, pode ficar preocupado excessivamente com os cortes de verbas e outros ataques dos reacionários contra as universidades, em grande parte dos casos por temer por seu futuro, pelo impacto que isso tem diretamente, etc. Agora, um professor universitário que se considera revolucionário, deveria fazer uma autoanálise e ser mais crítico em relação à situação e não cair no desespero e dramas que se efetiva em muitos casos. Um revolucionário é uma pessoa que deve estar disposta a ir, em muitos casos, contra os seus interesses pessoais, pois é o interesse de classe, do proletariado, é que deve ser priorizado. Então ele não deve fazer coro com os progressistas e sim defender uma ação autônoma e independente e de caráter estratégico.

Tendo essa clareza e superando estes obstáculos, o que resta é efetivar o combate ao reacionarismo e isso é realizado através da estratégia revolucionária constante e que assume alguns elementos específicos nesse contexto, que é mais na forma como se efetiva do que no seu conteúdo. É preciso combater o reacionarismo em suas fontes, o que significa “atacar o mal pela raiz”. É necessário identificar e demonstrar o caráter de classe do reacionarismo, o que significa ultrapassar o discurso progressista que focaliza em indivíduos (os ataques, muitas vezes infantis, ao líder e principais representantes da ala reacionária, por exemplo)[16], partidos, governos, pois em que pese possam ser nomeados e ter seus problemas revelados, esse não deve ser o foco, pois isso não gera politização e não serve para a autonomização do proletariado. Atacar apenas o partido X só tem sentido se ele é um suposto representante e tem força no interior do proletariado e das classes trabalhadoras. Porém, atacar um partido conservador ou reacionário, ou seus líderes e representantes, é se limitar a luta partidária e sair da luta de classes. A crítica aos partidos progressistas pode ser necessária em momentos em que estes são obstáculos para a autonomização do proletariado, o que não ocorre com os partidos conservadores, já que estes não possuem raízes no interior das classes trabalhadoras.

Qual é a raiz do reacionarismo? Quais são seus objetivos? Isso depende do país (há uma diferença enorme entre o reacionarismo que emerge no bloco imperialista e o que emerge no bloco subordinado, pois no primeiro caso o nacionalismo pode ser autêntico e no segundo é mero discurso sem base real, a começar pela burguesia subordinada que não tem força política, e nem vontade e interesse, para combater o imperialismo), da época, do contexto, da hegemonia cultural, etc. Uma análise do golpe militar[17] da década de 1960 é suficiente para mostrar que a luta contra a “república sindicalista” e o “comunismo” foi mero pretexto para efetivar políticas voltadas para o aumento da exploração[18]. O reacionarismo existe no interior da sociedade capitalista, mas somente se torna forte e influente em certas situações, nas quais uma parte da classe dominante passa a apoiá-lo. Isso ocorre geralmente em momentos de declínio da taxa de lucro ou em momentos de desestabilização ou crise (e essas coisas estão, geralmente, inter-relacionadas). A burguesia, em sua maioria, prefere os liberais, os republicanos, e até mesmo trabalhistas e social-democratas, do que os reacionários. Mas, nesses momentos históricos, uma parte considerável dela passa a apoiar os reacionários, pelo simples motivo de que eles não titubeiam em expressar os seus interesses e tomar medidas impopulares e de forma mais drástica, rápida e direta[19]. Assim, uma luta cultural ampla e geral que explicite as bases do reacionarismo, bem como dos seus opositores institucionais, é um dos pilares desse combate.

Assim, cabe ao bloco revolucionário ampliar suas ações, de forma autônoma e independente, e se aproximar mais das classes trabalhadoras, que tem que ser precavida da necessidade de não se aliar nem com os reacionários nem com os seus opositores. Isso, em momentos marcados pela existência de um governo reacionário, que tende a gerar um aumento progressivo da insatisfação dos trabalhadores, abre maior espaço para o bloco revolucionário e a possibilidade de sua ampliação, tanto no sentido de maior força quanto quantitativo, tendo novas adesões de desiludidos com o bloco progressista ou trabalhadores e jovens que buscam alternativas.

Por isso, o combate ao reacionarismo se inicia com uma ampla luta cultural no sentido de mostrar o seu vínculo com os interesses da classe dominante. Isso requer análises de suas políticas estatais concretas, bem como apresentação de alternativas. Isso significa não reproduzir o discurso progressista (muitas vezes vazio e apenas uma recusa das políticas estatais implementadas, sem nenhuma análise mais profunda e sem nenhuma alternativa real e exequível). Essa luta cultural é, portanto, teórica (uma explicação mais profunda da gênese e significado do reacionarismo, uma análise desenvolvida dos seus representantes e de suas ações, entre outros aspectos), propagandística (esclarecer e combater ele e seus semelhantes, incluindo o progressismo), artística (voltada para o esclarecimento e crítica social), etc.

Por outro lado, tendo em vista que existe uma possibilidade de maior receptividade do bloco revolucionário por parte da população, ampliar as ações para fortalecer a luta pela auto-organização, autoformação e união das classes trabalhadoras, bem como nos locais de trabalho, estudo e moradia. Isso deve ser acompanhado por reivindicações que atendam aos interesses do proletariado e do conjunto das classes trabalhadoras. Ou seja, ao invés de apenas questionar ações e políticas dos reacionários, e defender interesses de diversas classes e grupos, é preciso colocar em evidência interesses próprios e específicos do proletariado e dos trabalhadores em geral, como a questão do salário mínimo (no caso dos interesses imediatos) e da auto-organização e autoformação (no caso dos interesses fundamentais). O bloco revolucionário deve, portanto, ao invés de fazer como seus setores reboquistas fazem, devem ao invés de atuar nas manifestações, reivindicações e ações com o bloco progressista, deve se esforçar para agir diretamente com as classes trabalhadoras (e sem reproduzir os receituários e discursos progressistas).

Em síntese, é isso que pode e dever ser feito no combate ao reacionarismo, que é, um combate à sociedade capitalistas e todas as suas manifestações, tal como o bloco dominante e o bloco progressista. A capacidade e a força nesse processo depende de diversas determinações e uma delas é a disposição e luta do bloco revolucionário, que, pode antecipar grandes explosões de insatisfações e assim ajudar a elas serem orientadas para a transformação radical e total das relações sociais, ao invés de serem desviadas e canalizadas para interesses da classe dominante ou da burocracia (especialmente a partidária, ou seja, o bloco progressista). Em cada caso concreto, com sua especificidade, requer análise e pensar as formas de luta e como concretizar essa estratégia.

Enfim, não existe uma fórmula infalível. O que existe é uma estratégia geral, da qual fizemos uma síntese, que depende muito mais do que sua mera existência para se concretizar e gerar resultados satisfatórios ou não, e não há muito o que inventar. Um elemento fundamental nesse processo é a insatisfação das classes trabalhadoras e do proletariado, que é o rastro de pólvora que poderá explodir a sociedade capitalista, mas ela tem que ser acompanhada com um projeto, bem como com a união e autonomização do proletariado, o que só pode ocorrer com auto-organização e autoformação. E o bloco revolucionário tem um significado importante em contribuir com essa passagem da insatisfação para a luta radicalizada e possibilidade de revolução proletária. Agora, se a maioria do bloco revolucionário fica a reboque do bloco progressista, não só se autossabota como fortalece um inimigo que é fundamental para a reprodução do capitalismo e das situações que ele cria, incluindo o reacionarismo.




[1] Trata-se, geralmente, de um discurso oportunista e eleitoral e que tem como um dos elementos não definir o que é fascismo ou apresentar uma pseudodefinição tão ampla que pode se aplicar até aos aliados dos petistas. Ao definir fascismo como violência ou qualquer autoritarismo acabam banalizando o termo e nem percebem que essa suposta definição se aplica ao stalinismo e aos países capitalistas estatais (falsamente chamados de “socialismo real”, como URSS, China, Cuba, etc.) e que o PCdoB é stalinista. Logo, a vice de Haddad poderia ter sido chamada de fascista durante o último processo eleitora, pois isto se torna possível quando se usa essas pseudodefinições amplas ou não se define. Sobre fascismo, cf: O que é fascismo?
[2] Inclusive, no caso brasileiro, o presidente Jair Bolsonaro, era originalmente um conservantista, ou seja, um estatista, mas, por causa de objetivos eleitorais, avançou para o liberal-conservantismo, tal como expresso na sua escolha do Ministro da Economia, o liberal Paulo Guedes, o que significa a manutenção do moralismo conservador misturado com um liberalismo econômico.
[3] A ala reacionária é uma subdivisão da ala oposicionista no interior do bloco dominante. O bloco dominante possui a ala governista, composta por quem está no governo, e uma ala oposicionista, na qual há setores da burguesia que são oposição. A ala reacionária é uma das subdivisões da ala oposicionista e somente em algumas situações históricas ela se torna a ala governista e, a antiga ala governista se torna oposicionista (e, em certas situações, acaba se aliando ou se tornando omissa, especialmente em regimes ditatoriais, com poucos setores assumindo realmente que é oposição).
[4] O liberal-conservantismo, uma mistura híbrida de conservantismo e liberalismo (um acordo entre setores da ala moderada e da ala extremista do bloco dominante), é algo mais excepcional, pois emerge em pleno momento de hegemonia neoliberal e subjetivista e por isso mantém aspectos do conservantismo e os une com elementos de liberalismo. Se não fosse isso, o governo brasileiro atual seria puramente conservantista, mas a força da burguesia e do liberalismo constrange a essa concessão, que pode ser superada com a dinâmica das lutas de classes e mudança na situação do país.
[5] A respeito do pragmatismo do nazifascismo, cf. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas (ainda a ser publicado).
[6] O subjetivismo, o irracionalismo, etc., são algumas das formas ideológicas que dão suporte ao anti-intelectualismo reinante até os dias de hoje e foi reforçado pelas políticas educacionais de um governo denominado de esquerda. A hegemonia subjetivista atacou, pela esquerda e pela direita, a formação política e intelectual e as políticas governamentais, no caso brasileiro, reforçaram essa hegemonia e precarizaram a educação no país.
[7] Não existe nada mais ridículo que anarquistas, autonomistas e outros se aproximarem dos trabalhadores e da população para pedir votos para os progressistas para evitar o reacionarismo. Ao invés de contribuírem com a politização (luta cultural) e autonomização (a formação de organizações autárquicas), com a formação de conselhos de bairros, conselhos de trabalhadores, entre outras formas, apontam para solicitar o apoio aos burocratas partidários para que esses façam o trabalho sujo para a burguesia no sentido de reproduzir o capitalismo e determinadas políticas estatais necessárias no momento para essa classe.
[8] Isso pode ser explicado pelo sentimento de unidade que se cria entre os indivíduos do bloco revolucionário pela proximidade de linguagem, discurso, símbolos, referências intelectuais, com parte do bloco progressista, bem como pela convivência, pressão social, locais de atuação que muitas vezes são semelhantes. Esse sentimento de unidade pode se tornar um obstáculo para a percepção do real significado do progressismo e do seu caráter burguês ou semiburguês e de adesão de muitos às táticas do bloco progressista.
[9] Há aqueles que recusam tais alianças, mas acabam reproduzindo elas ao ir ao reboque intelectual das interpretações e posições de outros setores, especialmente do bloco progressista. Isso é derivado de falta de autonomia intelectual (o que remete ao problema da formação intelectual e política), da proximidade sentimental com o bloco progressista (derivado da proximidade de linguagem, símbolos, autores de referência – tal como Marx, que é usado de forma deformada pelos progressistas, alguns valores – como o humanismo de alguns progressistas, embora distinto do humanismo radical, da não percepção do populismo e hipocrisia vinculados a esta posição, etc.).
[12] Esses elementos não estão separados, pois são as suas debilidades próprias (na verdade, a da maioria dos seus componentes) que o faz ficar a reboque do bloco progressista e gerar um divisionismo interno que o enfraquece.
[13] VIANA, Nildo. Crítica ao Moralismo. Revista Posição, vol. 2, num. 7, 2015, p. 10.
[14] Um exemplo disso se encontra no debate de Erich Fromm e Herbert Marcuse. Fromm avança mais por se manter numa posição humanista, enquanto que Marcuse cai em erros grosseiros. Assim, se Marcuse defende a liberação das perversões sexuais (como, por exemplo, a coprofilia), Fromm é um crítico disso. A questão que se coloca é: a coprofilia é uma necessidade humana ou produto de um desequilíbrio psíquico gerado por uma sociedade repressiva e desumanizadora? Para os moralistas a solução seria defender uma ou outra posição. Para a posição revolucionária, trata-se de ser prudente e não criar modelos de sociedade (e, como Fromm coloca, gerados por pessoas problemáticas constituídas por essa sociedade) e de comportamento. Trata-se, na verdade, de defender uma ética que aponte para a liberdade e não criar normas de comportamento, pois elas são constituídas por pessoas dessa sociedade e para essa sociedade, partindo da percepção de indivíduos dessa sociedade com os problemas gerados por ela.
[15] No caso de certos indivíduos e grupos, essa debilidade também se manifesta através falta de teoria, estratégia, ou, ainda, incompreensão da conjuntura. Isso é mais forte no caso de grupos de jovens quando inexperientes e sem maior formação intelectual, bem como no caso do anarquismo e é mais forte contemporaneamente devido a hegemonia subjetivista.
[16] Isso é visível contemporaneamente, no qual a infantilidade da esquerda brasileira se manifesta de forma tão explícita quando nos apelidos dados ao atual presidente da república, Jair Bolsonaro, o que inclusive faz perder a seriedade e para os não-iniciados (trabalhadores não ligados ao progressismo) e fica parecendo “torcida organizada” ao invés de debate sério sobre questões políticas e sociais.
[17] Aqueles que querem reformular o nome e chamar o golpe da década de 1960 como “civil-militar” ou “empresarial-militar” apenas dizem a obviedade de que ele não é algo meramente ou apenas militar. No fundo, nunca existiu golpe apenas militar. Mas por detrás dessa terminologia, que tem como única vantagem expressar que existem interesses na sociedade civil no sentido de realizar o golpe, há uma incompreensão do significado das forças militares e seu vínculo indissolúvel com a classe capitalista. Todos os golpes militares, assim como todos os regimes ditatoriais, expressam os interesses da burguesia em determinado contexto histórico e por isso não tem sentido colocar o termo “civil-militar”, pois nunca houve uma autonomização das forças armadas, mesmo quando elas implantam tais regimes. O caso mais extremo de autonomização, tal como o nazismo, foi efetivado de acordo e com o apoio da classe capitalista alemã. Isso é suficiente para explicar a razão da não adoção da “nova terminologia”, que aponta para um esclarecimento e gera um obscurecimento, simultaneamente.
[18] VIANA, Nildo. Acumulação Capitalista e Golpe de 1964. Revista História & Luta de Classes, Rio de Janeiro, v. 01, n.01, p. 19-27, 2005. Disponível em: https://informecritica.blogspot.com/2019/05/acumulacao-capitalista-e-golpe-de-1964.html
[19] Embora possa haver exceções, especialmente quando um governo reacionário tem forte oposição ou legitimidade e apoio popular muito limitado.

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