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terça-feira, 21 de março de 2017

O HOMEM CORRETO


O HOMEM CORRETO
Nildo Viana

O seu nome era Jacinto. Todo mundo dizia que ele era um homem correto. E, sem dúvida, ele era. Sua máxima preferida era: “correção, correção e correção”. Ele tomava tudo ao pé da letra, ou seja, era um daqueles leitores que sacrificava o conteúdo pela forma, isto é, abandonava a interpretação em favor da gramática e da ortografia. Quando escrevia, era daqueles escritores que passam horas preocupados com a correção gramatical e com o refinamento ortográfico e geralmente se esquecia da mensagem que pretendia transmitir, isto é, como ele mesmo dizia: “uma norma vale mais do que quinhentos improvisos” ou então segundo a sua versão de quando estava bem humorado: “mais vale uma norma na mão do que quinhentos improvisos voando”.
Este homem correto está morto. Jacinto morreu. Mas o mundo está cheio de homens corretos, que vivem querendo nos colocar a todos no caminho da correção. E não só de homens, mas de mulheres também. Algumas são até mesmo hiper-corretas, para utilizar expressão de feministas intelectuais, também hiper-corretas. Jacinto não representa apenas um indivíduo. Ele significa muito mais que isso: dependendo de quem fala, ele poderia ser taxado de representante de uma raça, uma espécie, um estilo de vida, um caráter social, uma mentalidade, um grupo social, um período histórico determinado, etc.
Por isto, recordar Jacinto é importante. Sua figura logo chamava a atenção. Ninguém resistia à sua presença. Num ônibus, por exemplo, se durante uma viagem alguém começava a fumar, ele delicadamente se dirigia ao fumante ou ao motorista e lhe lembrava a lei número tal que diz: “é proibido fumar” e exigia o seu cumprimento, afinal “as leis foram feitas para serem cumpridas”. O troco do ônibus tinha que ser correto, pois se faltasse qualquer coisa, mesmo se fosse um mísero centavo, ele ficava esperando e nunca perdoava a falta de troco, mesmo que tivesse que descer três quadras após o ponto que ele deveria descer. Ele dizia: “se as relações mercantis existem e são calculadas matematicamente, então devemos respeitar os cálculos”.
Ele era extremamente correto. Respeitava como ninguém as regras gramaticais, as leis do trânsito, as receitas culinárias, as regras da ABNT, as indicações médicas de dieta e tudo o mais. Ele dizia coisas interessantes, do tipo: “se existem regras, é para serem cumpridas, não é?”.
Lembro-me de uma vez em que ele deu uma lição de respeito às leis do trânsito. Era umas quatro horas da madrugada e a rua estava deserta. A mãe dele tinha tido um ataque do coração e ele tinha que levá-la ao hospital com a máxima urgência. Mas, como bom homem correto que era, usava o cinto de segurança e não ultrapassava a velocidade máxima permitida e, apesar das ruas estarem desertas, sempre parava quando os sinais estavam fechados. Isto, sem dúvida, atrasou bastante sua chegada ao hospital, tanto que a mãe dele veio a falecer antes dele chegar lá, mas ela devia estar orgulhosa do filho, pois ela tinha criado, embora não o tenha feito sozinha, um homem correto.
Quando estava na situação de pedestre, nunca atravessava a rua fora da faixa de pedestre (mesmo antes de existir a lei que obriga a atravessar nela) e com o sinal fechado, mesmo com a rua deserta e com o horizonte não deixando ver nenhum ser vivo. Tive a impressão, inclusive, de que, se o mundo acabasse e ele fosse o único sobrevivente, ainda só atravessaria a rua na faixa do pedestre e, numa louca viagem imaginária, acho que ele atravessaria o sinaleiro se lamentando desta forma: “como sou infeliz! Não tem nenhuma alma humana viva para fazer o sinal funcionar e me dizer quando eu posso ou não caminhar e por isso eu caminho em qualquer momento, já que o sinaleiro não funciona”.
Ele fazia uma dieta balanceada, seguindo rigorosamente tudo o que seu médico dizia que ele deveria ou não comer. Também levava em consideração o que via na televisão a respeito disso. Ele entendia tudo de nutrientes, calorias, colesterol, etc., e mais um monte de palavras que nem sei o que significa.
Ele era professor. E também na profissão ele seguia passo a passo o ritual de sua crença na correção. Os alunos deveriam chegar na hora certa (bem como sair), deveriam, impreterivelmente, fazer as leituras, deveriam escrever o nome do professor de forma correta, bem como da instituição, da disciplina, etc., no cabeçalho e tudo o mais, deveriam respeitar o professor e cumprir suas obrigações (assistir as aulas, fazer os trabalhos, e reproduzir tudo exatamente como ele havia ensinado com sua sabedoria e autoridade de professor, deveriam acreditar piamente que ele lhes ensinava alguma coisa e que ele era a autoridade competente para dizer o que é certo e o que é errado). As leis da sala de aula deviam ser cumpridas, sob pena de diminuição de nota ou reprovação por falta. Tal como ele era correto, os seus alunos deveriam ser. Ele era o exemplo a ser seguido. Obviamente, como era de se esperar, o mais importante para ele era a correção, a disciplina, o respeito às regras. A correção parecia ser uma verdadeira visão de mundo para ele e como todo doutrinador ele queria insuflar o espírito de seus discípulos com tal riqueza espiritual. O conteúdo, neste contexto, era coisa secundária, o que para ele era bastante oportuno, já que sua ênfase na correção justificava seu desleixo com o conteúdo, pois existem regras para serem seguidas e o resto é supérfluo.
Alguns criticavam o Jacinto pelo que eles chamavam de “excesso de correção”. Alguns indivíduos são corretos em alguns aspectos da vida mas não em todos. Jacinto era um caso raro: ele era correto em todos os aspectos. Até nos seus momentos mais íntimos ou nos aspectos mais triviais de sua vida cotidiana ele mantinha sua inabalável correção. Respeitava todas as regras de etiqueta e exigia isto dos seus filhos e da sua esposa. Os seus filhos tinham horário determinado para tudo: dormir das 21:00 até às 07:00, tomar café da manhã das 07:00 até às 07:30, brincar das 07:30 até as 09:30, assistir televisão das 09:30 até as 11:00, almoçar das 11:00 até às 11:30, ir à aula às 12:50 e voltar às 18:00, tomar banho das 18:00 até as 18:15, fazer as tarefas e estudar das 18:15 até as 20:00, jantar das 20:00 até as 20:30, assistir televisão das 20:30 até as 21:00 e depois dormir e assim todos os dias, com exceção de sábados, domingos e feriados, cujo a organização temporal era diferente, mas tão rígida quanto esta. Mas ele mudou todo este plano diário de atividades de seus filhos depois que um amigo disse que não era correto menores de 18 anos assistir televisão depois das oito horas da noite...
Quando ia ter relações íntimas com sua esposa ele sempre carregava três manuais: um de receitas de como ter mais prazer, outro sobre os riscos e perigos do relacionamento sexual para a saúde do indivíduo e um terceiro sobre o que dizer e em que momento dizer quando se está a sós com a esposa. Infelizmente, muitas vezes a leitura levava ao sono e o casal acabava dormindo e ficavam, como se costuma dizer, “apenas na teoria”. Mas isto não podia acontecer todos os dias, pois segundo as autoridades competentes, pelo menos três vezes por semana se deve ir “da teoria à prática” e por isso eles iam dormir às 04:00 horas da manhã três vezes por semana, pois isto é que é o correto.
Assim, essa pessoa tão correta, tinha o direito de pensar, tal como pensava, que era a expressão máxima da perfeição humana. Ele não era um homem que perdia o tempo discutindo as regras. Ele dizia “as regras foram feitas para serem seguidas e não discutidas”. É por isso que ele era o indivíduo que mais consultava o suporte de ajuda do seu computador e seguia todas as instruções que este lhe transmitia.
Mas aconteceu o dia fatídico de sua morte. Os seus inimigos dizem que ele morreu devido ao seu principal defeito: excesso de correção. Ele estava andando de moto. Estava com um amigo. Ele tinha a preferência na pista onde estava mas vinha um carro e o amigo falou para ele sair da pista. Ele não quis fazer isto argumentando que estava na preferencial. Porém, foi atropelado e morreu. Seguiu as regras até o último momento e o problema que ele nunca percebeu é que sempre existe um “último momento”. Mas um problema maior ele não percebeu: ele era correto mas nem todos são. As árvores, a natureza, os indivíduos, etc., tudo que o cerca, não é necessariamente correto. Sendo assim, sua correção pode colidir com a falta de correção alheia. O que significa ser correto? Sem dúvida, não significa a mesma coisa que ser perfeito ou qualquer coisa parecida. Segundo o próprio Jacinto, “ser correto é ser corrigido (isto é, ser reprimido, castigado, repreendido) e correção é o ato de corrigir ou a qualidade de quem é correto, tal como diz corretamente o dicionário”. Ser correto é ser reprimido, domesticado pelas regras. O correto é o reprimido, ou seja, não no outro sentido da palavra, que correto seria correspondente, equivalente, pois foi assim que nos ensinou Jacinto. Mas ele morreu. Um homem correto a menos no mundo. Jacinto se foi. Já sinto que existem outros Jacintos e o mundo que criou Jacinto não criou só um indivíduo e sim uma legião.
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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. O Doutor e Outros Contos Incorretos. Rio de Janeiro: Booklink, 2007.




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